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História

Relatos de uma carreira consistente

História de: Entrevista de Aércio Cavalcanti de Melo
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 10/06/2021

Sinopse

Aércio Cavalcanti nasceu na Zona da Mata pernambucana, Macaparana, e para continuar os estudos teve que mudar-se para cidade maior. Aos 16 anos empregou-se numa indústria, mais tarde adquirida pela Alcoa e, nesta, ele cumpriu uma trajetória de 32 anos, sempre na área de Engenharia. Hoje, aposentado, presta consultoria, inclusive e principalmente à empresa que, literalmente, o viu crescer.

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História completa

Projeto Trajetória Alcoa

Realização Instituto Museu da Pessoa 

Entrevista de Aércio Cavalcanti de Melo

Entrevistado por Lenir Justo e Maria Raccioppi

Itapissuma, 25 de junho de 2008

Código ALCOA_018

Transcrito por Regina Paula de Souza

Revisado/editado por Paulo Rodrigues Ferreira

 

P/1 – Boa tarde, senhor Aércio, vamos começar com o senhor nos falando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.


R – Aércio Cavalcanti de Melo, 22 de março de 1952, Macaparana, Pernambuco, município da Zona da Mata, norte.


P/1 – Qual é a sua atividade atual?


R – Atualmente eu sou engenheiro consultor numa empresa de engenharia e consultoria na área de elétrica. Eu faço projetos, inclusive para a Alcoa.


P/1 – Mas o senhor trabalhou na Alcoa e se aposentou, é isso?


R – Trabalhei na Alcoa até me aposentar. Aí, depois da saída da Alcoa, eu me aposentei, fundei a minha empresa e passei a prestar serviços para a Alcoa na consultoria de elétrica e projetos.


P/1 – Quais os nomes dos seus pais?


R – Luís Alves Cavalcanti e Marialita Cavalcanti.


P/1 – Quais são - ou eram - as atividades profissionais deles?


R – Agricultor.


P/1 – Qual é a origem da sua família?


R – A origem da família Cavalcanti, dizem, é a Itália, a Calábria, eu não tenho bem certeza. Eu nunca pesquisei a fundo.


P/1 – Mas eles vieram para cá. O senhor sabe alguma coisa sobre isso?


R – Se vieram para cá, não deve ter sido na época em que houve a imigração de italianos, não é? Deve ter sido muito antes, junto com os portugueses mesmo, porque essa família Cavalcanti é muito antiga, é de muito antes da imigração italiana.


P/1 – O senhor tem irmãos?


R – Sim, 12 irmãos. Comigo são 13. São 12 vivos. Eram oito homens e cinco mulheres no total.


P/1 – Onde o senhor morava na sua infância?


R – Em Macaparana.


P/1 – Como era lá? O senhor se lembra da casa, como aconteciam as coisas do cotidiano?


R – Nós tínhamos um sítio onde moravam meu pai e minha mãe e tinha uma casa na cidade, que era para a gente estudar. Meu pai comprou e a gente passou a morar na cidade para estudar, porque no sítio não tinha escola.


P/1 – E vocês ficavam na cidade, como era, sozinhos?


R – Ficava na cidade com uma irmã mais velha e no final de semana a gente ia para o sítio e, também, os meus pais vinham para a cidade.


P/1 – Na época em que o senhor era mais novo, quais eram as brincadeiras de que o senhor gostava?


R – Ah, nós fabricávamos tudo, fabricávamos carros - desses carrinhos com quatro rodas para empurrar - fabricávamos patinetes... Inclusive, quando eu vi aqueles patinetes no Natal dos últimos dez anos bater recorde de venda, eu disse: “Por que não tive essa ideia?” Porque era daquele jeito que nós fazíamos quando eu era criança. E tudo de madeira. Aí, o cara teve a luz de... Lembrou o que fazia e deve ter ficado bombado, não é? Aquilo era uma das coisas que a gente fazia, não tinha brinquedo comprado, tudo nós mesmos é que confeccionávamos no sítio. Tinha serrote, furadeiras e daí, com as ferramentas, a gente fazia tudo, usava a imaginação e fazia.


P/1 – E a cidade, como era a cidade em que o senhor morava?


R – As cidades do interior, daqui de Pernambuco, na Zona da Mata, são todas pequenas, não é? Pobres, basicamente. Era uma espinha de peixe: uma rua principal e as laterais. Em baixo tem um rio, como toda cidade está sempre junto de um rio, tinha uma barragem também, era aonde a gente tomava banho de barragem - a praia do interior era a barragem. E tinha as escolas, não é? Somente até o ginásio, não tinha segundo grau. Escola pública, só que tinha muita disciplina, eu acho que isso contribuiu muito, uma escola pequena daquela e que tinha um aproveitamento bom em relação às escolas de hoje.


P/1 – O senhor tem algumas lembranças mais marcantes dessa época da infância?


R – Tinha as festas que nós fazíamos na escola, não é? As confraternizações que  havia. Basicamente não tinha outro tipo de diversão. Então, tudo que a gente fizesse era em volta da escola. Teatro que faziam, as festas, tudo era promovido na escola.


P/1 – E o senhor estudou então...?


R – Até o ginásio.


P/1 – O senhor lembra como era a escola?


R – Era... Inclusive a minha turma, quando começou o ginásio, é que comprou os móveis para funcionar. Tinha só a nossa sala de aula e depois foi formando as outras. Então, nós compramos... Nós fazíamos quermesses, aquelas coisas todas para juntar o dinheiro e comprar os móveis. Eu fui o presidente do grêmio e era isso. Tinha um campo para jogar futebol... Como os outros, um campo improvisado. Era, basicamente, a nossa diversão na escola.


P/1 – E depois, que outros cursos o senhor fez?


R – Aí eu vim para cá. Quando eu saí do interior, eu pensava fazer Medicina, era trabalhar num banco. Aí, arranjei emprego na Asa e mudei o rumo, passei a ter outro foco, não é? Em vez de trabalhar em banco, eu vim trabalhar na Asa. Aí, conheci outras coisas, vi outro universo, não deu para ser médico. [risos]


P/1 – Quando o senhor entrou na Asa, o senhor estava estudando ainda?


R – Estava no primeiro ano do científico, eu tinha 16 anos.


P/1 – Como foi que o senhor arrumou esse emprego na Asa?


R – Foi um conhecido do interior que alugou a casa para o diretor da Asa e perguntou se ele não tinha um emprego. Aí, ele mandou eu vir e tinha.


P/1 – E foi o seu primeiro emprego?


R – Foi o meu primeiro.


P/1 – E o senhor entrou em que função?


R – Eu era o auxiliar da secretária, era office-boy, seis meses.


P/1 – O senhor lembra como foi o começo? O seu primeiro dia de trabalho?


R – Ah, [risos] foi como o primeiro salário, a gente pensa que não vai acabar nunca, [risos] não é? Realmente era emocionante. Eu cheguei e olhava assim: “Puxa, eu estou empregado? Estou. Vou ganhar dinheiro.” Então, muito significativo o meu primeiro dia de trabalho.


P/1 – Qual foi a sua impressão da empresa quando o senhor entrou?


R – Eu achava tudo muito grande, tudo diferente do que eu já conhecia. Eu tinha recém-chegado do interior e não tinha nem ideia de como era uma indústria. Foi uma experiência muito positiva por isso, porque eu não conhecia, não tinha nem noção de nada, de como era isso. Só que quando fui conhecendo, aí fui desbravando. 


P/1 – Como era a empresa quando o senhor começou, fisicamente falando?


R – Fisicamente falando, nesse local... Aqui, por exemplo, era num sítio. Tinha três prédios prontos, prédios onde hoje funciona a extrusão e só era uma nave. Hoje são duas naves, uma pela metade. O prédio onde funciona hoje o laboratório, oficinas, é onde funcionava a carpintaria. E a oficina também funcionava lá. E o prédio onde funcionou a anodização, que foi demolido, existiam só as estruturas no lugar, não tinha fechamento, não tinha piso, não tinha nada. Então, prontos mesmo, funcionando, eram dois prédios, onde era a ferramentaria, a carpintaria e a oficina.


P/1 – Então o senhor começou como office-boy e ficou quanto tempo nessa função?


R – Seis meses.


P/1 – E depois o senhor foi...?


R – Aí eu fiz um... Em paralelo eu estudava e fiz um curso de desenho mecânico.  Deram-me a oportunidade de trabalhar no setor de desenho de ferramentas e eu iniciei no desenho de ferramentas. Depois surgiu uma oportunidade - um ano depois- na instrumentação, estavam começando a automatizar algumas coisas. No processo. E não tinha pessoal treinado, especificamente, na área de instrumentação. Aí resolveram contratar, fui para a seleção, passei e fiquei um tempo, acho que uns cinco, seis anos, na área, em instrumentação. Aí, de instrumentação eu fiz o... Comecei a entender mais de processos, de controle de processos, a entender mais elétrica também, porque na instrumentação você, diferente de ser só um eletricista ou um técnico em eletrônica, você começa a ter mais oportunidade de pensar no controle como um todo, mais abrangente. Aí, com isso, eu acho que foi uma escola muito boa para mim, me deu uma oportunidade muito grande de... Acho que muita coisa que eu aprendi, eu devo a isso. Porque  eu trabalhava na fábrica toda, em todos os sistemas. Na época da montagem, da implantação, em 1971, eu trabalhei fazendo isso, instalando controle de forno, dos fornos de fusão, dos fornos de tratamento de chapas, de tratamento de folhas, dos fornos de tratamento de tarugos e, também, na anodização. Aí é outro tipo de instrumentação, já não era controle de temperatura, era já com controle de vasão e outros tipos de controle, de PH, enfim, era uma área muito abrangente a área de instrumentação.


P/1 – O senhor, então, estava desde o comecinho da Asa, não é? 


R – Desde o começo da Asa. Todas as implantações da terraplanagem, derrubada dos terrenos, o corte do terreno, eu acompanhei tudo.


P/1 – O senhor acompanhou o começo mesmo, a implantação?


R – É. 


P/1 – E o senhor, paralelo a isso, continuou estudando?


R – Sim.


P/1 – E nessa altura o senhor já tinha resolvido fazer que curso?


R – Engenharia. Porque aí eu já ... A partir do momento em que eu conheci a fábrica, eu já me interessei logo, não é? Eu comecei a pensar diferente do que pensava antes, aí eu me interessei pelas coisas de Engenharia, achava interessante o que aprendia em Física e aplicava justamente em instrumentação, sobre os controles de temperatura, de pressão, enfim, as unidades de Engenharia. Tudo que a gente via, na prática, aplicava na fábrica. Eu achava isso realmente fascinante, e gostava.


P/2 –Você estudou Engenharia à noite e trabalhava durante o dia?


R – Era.


P/2 – Como é que foi isso?


R – Em 1973 eu passei no vestibular, tinha de sete horas a meio-dia a Faculdade. Aí, eu fazia estágio à tarde, falei com o meu diretor e ele me colocou como estagiário e eu fiquei. Isso já no segundo semestre. No primeiro semestre, eu fiquei trabalhando de 14 às 22. Aí era meio puxado, porque o curso de Engenharia não é fácil não, é muito duro, estudei em 1973 e 1974. Aí, surgiu uma oportunidade em projeto e eu estava numa fase muito, assim, entusiasmado com o dinheiro, doido para ganhar dinheiro, [risos] e a proposta de salário era muito boa, perguntaram se eu topava e eu topei. Acabei, com isso, abandonando a escola. Aí, quando vi meus colegas se formando, já em 1977, corri atrás do prejuízo [risos]. Voltei, tentei na Católica mas não tinha a Engenharia que eu queria, e deixei. Aí, quando foi em 2000, eu fui para a Politécnica, que o curso era à noite - à tarde e à noite – e eu consegui fazer. 


P/1 – Começou tudo de novo?


R – Não, tudo que eu fiz no primeiro e segundo anos da Federal, as 20 cadeiras que eu tinha feito, todas valeram na outra Faculdade. Só que para pagar o segundo ano só faltava uma cadeira, de Cálculo. Aí paguei e fechou o ciclo. Com três anos eu consegui terminar o curso, os três anos seguintes.


P/1 – E como foi acontecendo a sua trajetória?


R – Eu terminei o curso e a Alcoa me contratou para...


P/1 – Mas já era a Alcoa?


[interrupção, toca o celular do entrevistado]


P/1 – Então... O senhor estava falando que estudou Engenharia, mas eu queria voltar um pouco quando a Alcoa comprou, como é que foi?


R – Ah, quando a Alcoa...


P/1 – É, o que aconteceu?


R – A transição da Asa para a Alcoa foi uma expectativa grande, porque a gente sabia que a Asa tinha os problemas que a maioria das empresas que se implantaram aqui com o dinheiro da SUDENE, ela corria o risco de perder o crédito total, não é? Para os bancos oficiais que, de certa forma, salvavam a pele, ia chegar ao ponto que iria ter um basta nisso aí. Então, a gente ficava torcendo, virando os dedos, como dizem, e vibrando quando via passar um caminhão de matéria-prima: “Ah, liberou! Eh, eh!” Quando via entrar um caminhão de matéria-prima na fábrica, era torcida mesmo. Aí, quando veio, tinha os grupos interessados. A gente não conhecia nada a fundo da Alcoa, ouvia falar da Alcoa, ouvia falar da Alcan, mas não tinha certeza de como era. Do que seria. Havia o medo de que um outro grupo nacional comprasse e fechasse, porque eles podiam ter o interesse só em comprar e deslocar as máquinas para lá. Disso a gente ficava com medo. A expectativa que a gente teve com a Alcoa, como era a única... Aí a gente tinha, pelo menos, uma expectativa grande de que isso não iria acontecer, porque ela não ia desmanchar uma fábrica aqui para construir outra e levar para lá, não é? Aí, já era uma outra preocupação: como o outro concorrente também tinha fábricas em outras regiões, também corria o risco de comprar e transportar para lá. E a Alcoa, a gente conversava e sentia que ia ter mais perspectiva para a gente, não é? Para continuidade dos trabalhos. Porque era a primeira aquisição de uma fábrica pronta da Alcoa. Ela só tinha a fábrica de Poços, então era a nossa expectativa, e que aconteceu.


P/1 – Nessa ocasião, o senhor estava ocupando que função?


R – Projetista. Eu trabalhava na engenharia do setor de projetos.


P/1 – Quando a Alcoa comprou, como foi a transição em si, assim, para vocês funcionários e, de um modo geral, para a fábrica?


R – Ah, para a fábrica toda foi uma... Como é que diz? Um negócio tão vibrante e tão bom que todo mundo trocou de carro, [risos] pegou o que tinha de FGTS, as coisas da outra empresa, não é? Da Asa. E aí, passou a uma nova vida e ninguém teve medo. Eu mesmo fui um desses que não tiveram medo, aí troquei o meu carro e fiz o que eu queria fazer. E esperar o que viesse pela frente.


P/1 – Por que? Vocês foram...?


R – Fomos indenizados. Da empresa anterior. A Alcoa...


P/1 - ...Foram demitidos da Asa e admitidos na Alcoa?


R – Admitidos na Alcoa. A Alcoa quando... Eu não tinha acesso aos contratos, não conheci isso, mas acredito que em alguma cláusula dela estava prevendo que as pessoas seriam... Iam entrar do zero, iam começar com a Alcoa. E assim foi que aconteceu, nós começamos do zero, como funcionários novatos.


P/1 – E como foram acontecendo essas mudanças na fábrica a partir da aquisição da Alcoa?


R – Bom, aí veio a fase de adaptação, de conhecimento e depois as adequações. De vez em quando, saíam algumas pessoas e entravam outras, como sempre, não é? Uma fase da empresa, eu acho que não tinha também como chegar e: “Eu vou tirar todo mundo. Eu vou botar todo mundo novo. Eu vou fazer tudo de uma vez.” Tudo foi acontecendo aos poucos, não é? Quem foi mostrando motivação, trabalhando, que tinha perspectiva no emprego e fazia a coisa certa, como dizem, foi ficando. E outros saíram, não porque fossem incompetentes ou porque fizessem errado, mas porque apareceram outras oportunidades e as pessoas vão, também, atrás das oportunidades quando elas surgem, não é? Não pode ficar vinculada a uma. Nenhum emprego é eterno para a pessoa e nem a pessoa é eterna para o emprego.  O que tem que haver é uma relação, é como o casamento, não é? Tem que se dar bem para poder viver bem.


P/1 – Nessa fase em que o senhor estava na função de projetos, quais eram as suas funções?


R – Eu era o líder de projetos elétricos. Eu era como um supervisor de projetos, eu fazia também. Tinha mais duas pessoas, a equipe era pequena, eram dois projetistas e dois copistas, eu era o líder. Aí, nós fazíamos os trabalhos para pequenas alterações. Pequenas implantações lá. E chegava uma máquina pequena que ia complementar o processo daquela outra máquina principal, então a gente ia fazer o projeto de instalação, as plantas, diagramas, lista de materiais, especificação de serviço, o que se faz num projeto para implantação.


P/1 – E depois, o senhor foi para que área?


R – Aí, depois dos projetos, fui direto para extrudados. Antes dos projetos ainda teve o primeiro projeto da Alcoa, que eu ainda estava na engenharia de projetos, foi o do terceiro Caster, que hoje é o Caster 1. Ele foi o terceiro Caster e foi implantado em 1983. Aí, foi um trabalho grande, foi feita uma transferência da máquina LOMA, a máquina de tarugos, ela foi deslocada para o outro lado do prédio e no local dela foi aproveitado para fazer a implantação do Caster, que hoje é Caster 1, mas nós chamávamos de Caster 3. Aí foi construído forno de fusão, forno de espera, foi implantado tudo nessa época, foi o primeiro grande projeto com a entrada da Alcoa.


P/1 – De ampliação, não é?


R – De ampliação.


P/2 – O que quer dizer Caster?


R – Caster é esse laminar a quente que pega o alumínio líquido. Que vem do forno de espera, porque tem o forno de fusão e tem um segundo forno, que ele tem uma vazão controlada que alimenta o laminador, que é chamado de forno de espera, porque como a vazão é muito pequena ele tem, também, uma propriedade de manter estáveis as propriedades do processo. Assim... Temperatura, vazão. Depois de pronto, de tudo feito no forno de fusão, coloca no forno de espera. Aí ele vai ficar lá, mantido da maneira que o processo precise. A temperatura vai abaixar um pouco, aí vai fazer tudo por eles, vai subir, vai por ele.


P/2 – Isso é no processo para fabricação de quê?


R – Para fabricação de chapas, aquelas bobinas de chapas, é o laminador contínuo que eles chamam de 3 C também, é Caster Continuous, eu me enrolei, agora não vou dizer. [risos] É o CCC, Continuous Caster... Bom, não lembro.


P/1 – E depois o senhor falou que foi para os extrudados, não é?


R – Fui para extrudados.


P/1 – E o que o senhor foi fazer nessa área?


R – Na área de extrudados eu fui tomar conta da manutenção elétrica.


P/1 – O senhor sempre foi ligado à parte elétrica?


R – Eu sempre fui ligado à parte elétrica.


P/1 – E o senhor já estava estudando Engenharia nessa época? 


R – Estava, estava concluindo...


P/1 – O senhor fez Engenharia Elétrica, é isso?


R – Eu fiz Engenharia Elétrica, eu estava concluindo, foi no último semestre, no mês de outubro, faltavam só dois meses para eu concluir a escola.


P/1 – E o senhor assumiu. E o que o senhor fazia nessa função?


R – Eu comandava os eletricistas que havia na área, de plantão. Tinha a equipe que fazia plantão e a equipe que fazia a manutenção corretiva diária. Era de plantão e de manutenção corretiva diária. A equipe tinha só 12 pessoas, dividia dois por turno e são quatro turnos de revezamento, dava oito. E os outros quatro trabalhavam no horário administrativo, na manutenção preventiva.


P/1 – Então assim... A parte elétrica precisa sempre ter uma manutenção preventiva...


R – Sim.


P/1 - ...E alguns de plantão caso aconteça alguma coisa, é isso?


R – É, porque o...


P/1 – Como é o processo? O senhor pode falar para a gente como é o processo de extrusão?


R – O processo de extrusão é feito com... Uma prensa de extrusão precisa de um tarugo de alumínio, que é aquela peça cilíndrica. No caso das peças aqui de Itapissuma, trabalha com sete polegadas para prensar 2.000 e a 1.650 e com dez polegadas para prensar 13. 500.


P/1 – E o tarugo já vem pronto de outro lugar?


R – Não, o...


P/1 – É fabricado aqui?


R – O tarugo é fabricado aqui. Aí, tem a refusão. Na refusão de tarugos tem uma máquina de fundir, semi-contínua, ela faz por batelada. Então, se for produzir tarugo de dez polegadas, ela só produz de dez, ela não pode ter os moldes de dez e de sete porque não tem um sistema para controlar a vazão de cada um daqueles bicos, iria desequilibrar e iria endoidar o processo deles. Aí, quando ela vai produzir sete polegadas, produz de sete, quando vai produzir dez, aí só produz de dez. Uma batelada daquelas dá em torno de dez toneladas, seis toneladas, que é a metade da capacidade do forno. Um forno pode dar dois vazamentos para fazer uma batelada de tarugos. E ela produz aproximadamente... Para atender a produção hoje, atual, teria que produzir umas três mil toneladas de tarugos, porque depois que faz o tarugo ainda tem umas perdas, corta pé e cabeça, tem os descartes na hora da extrusão, enfim, o cara para produzir 1.000 toneladas vai ter que ter umas 1.300, 1.400 toneladas de tarugos, aproximadamente.


P/1 – O senhor estava falando que para ter a extrusão precisa ter o tarugo. Como acontece o processo?


R – Faz o tarugo na LOMA. Quando ele é feito nessa máquina pelo processo de resfriamento, ele muda as características físicas, aí fica com uma dureza ruim, não é boa para extrusão. Ela vai extrudar, mas com produtividade baixa. Ele passa da refusão para um forno de homogeneização. Nessa homogeneização ele vai reagrupar os cristais do alumínio todinho, de forma que na hora de extrudar flua com mais facilidade e garanta as propriedades mecânicas que exigem no material. Assim... As propriedades são: dureza, módulo de elasticidade, flexibilidade, tudo que precisa ter numa estrutura dessas, até mesmo para fazer esquadrias de janela ou para fazer carroceria de ônibus, ou condutores elétricos, cada um tem uma característica e vai precisar de uma dureza diferente, um módulo de elasticidade diferente. E o atendimento dessa qualidade de processo é feito desde o acerto da liga, que é feita na refusão, não é? Porque ele vai dosar mais material ou menos um, menos outro e, depois, o processo de tratamento na homogeneização, quando ele sai da homogeneização, ele vai para uma câmara de resfriamento que, também, vai ter uma influência no processo da extrudabilidade e, também, nas propriedades mecânicas. Aí, depois que ele passa da câmara de resfriamento é que ele vai para prensa. Cortado, no caso. Aqui não tem sistema que pegue o tarugo inteiro, as prensas daqui de Itapussuma funcionam com os tarugos já cortados, a operação da prensa passa a informação para uma serra quando faz o corte. Aí, ele corta aquilo com precisão, digamos que é 940 milímetros, ele vai e corta exatamente 940 para minimizar as perdas de processo.


P/1 – Que tamanho normalmente tem um tarugo?


R – Para prensa 1.650 o maior é de 560 e para prensa de 2.000 é 760. E na 3. 500 é 1.000.


P/1 – Isso é milímetro?


R – Milímetro. Na prensa de 3.500 é que pega um tarugo maior, ela produz os perfis maiores com massa maior.


P/1 – E os produtos que saem é perfil para janela, é isso?


R – É, os produtos de extrudados são perfis que servem para fazer janelas, servem para fazer esses sistemas de ar condicionado, estrutura metálica com vigas para, por exemplo, supermercado - aquelas cobertas de supermercado, aqueles tubos. Quase 100% daquilo é alumínio, é tubo de alumínio feito para esse fim, são estruturas espaciais. Esse tipo de estrutura daqui, que tem neste prédio, só que essa não é muito usada porque ela é muito trabalhosa na montagem. Esse processo novo, depois que foi feita essa... O próprio pessoal que fez essa... Que foi trabalhar na concorrência da Alcoa na época, que agora é da Alcoa também - a fábrica de Tubarão - eles desenvolveram essa outra maneira de fazer: em vez de juntar os perfis todos naquele perfilzão, eles só amassam e aparafusam. Aí, ficou mais simples, por isso que tudo quanto é coberta de supermercado, aeroporto, aonde você passar, é feita de alumínio. Porque a matéria-prima ainda gasta muito, mas a mão-de-obra reduziu em relação a essa que é usada aqui.


P/1 – Esse processo que o senhor acabou de contar para a gente, ele mudou ao longo do tempo ou ele permanece, mais ou menos, a mesma coisa? Como é isso?


R – Mudou muito, porque na época em que eu comecei na extrusão, na prensa de 3.500, por exemplo, trabalhavam 12 pessoas por turno, era um trabalho muito ruim, muito cansativo e precisava de caras, realmente, de braço forte, [risos] por isso começava... Tinha um disco de pressão, por exemplo, eu não lembro do peso dele, se era de 40 quilos, mas era muito pesado. Era um disco de dez polegadas por uns 250 de altura e aquele operador pegava aquilo com tenaz para levantar. Aí, depois, foi projetado um elevador para ele subir, ele só fazia puxar e empurrava para ele voltar para o processo. Hoje, atualmente, essa operação não existe mais, é usado agora um disco fixo, não é? O próprio empurrador, que eles chamam de (stein?), já tem acoplado na ponta dele um disco que não cai mais na hora em que termina a extrusão. Então, esse foi um dos trabalhos. O outro, que foi a principal mudança na prensa, para melhorar também as condições do trabalho do pessoal, foi o Puller. É uma máquina que puxa o perfil quando ela sai da boca da prensa, ela tem uma garra que fecha, puxa e vai na mesma velocidade de extrusão até o final. E os perfis que eram feitos tinham um nível de dificuldade muito grande. Perfil para fazer esquadrias pequenas, baguetes que tinham, por exemplo, com oito furos, com dez furos, era o tormento do pessoal de operação, porque eles usavam os guias, que chamava canister, e tinha que passar cada um daqueles por um furinho daquele. Ele vinha circular da ferramenta, aí tinha que fazer a transição para entrar na esteira, que era plana, e quando fosse para a esteira, já ia assim. Aí, aquilo era o tormento, não é? Porque tinha, ainda, a diferença de puxada que eles chamavam, não é? Um saía primeiro do que o outro, e aí para ele guiar aquilo ali tudinho e fazer passar por aqueles oito, dez furos, era um tormento. Com esse Puller, ele pega tudo, puxa e esse canister foi aposentado também.


P/1 – O senhor falou que no começo, naquela máquina, trabalhavam 12 pessoas. Hoje, quantas trabalham?


R – Hoje, para fazer, assim, pelo menos quase o dobro da produção que ela fazia, para fazer o dobro da produção, ela trabalha com seis pessoas.


P/1 – Diminuiu pela metade e duplicou a produção?


R – É, e melhorou a condição do pessoal, porque era muita gente. Mas era um trabalho ruim, não é? Fora esse de colocar esse canister pesado, esse disco de pressão que era também... A cada ciclo tinha que fazer aquele... Um ciclo desse significa a cada três minutos, não é? Um tempo médio é de três minutos para cada extrusão e ainda tinha o corte do material, que o cara fazia com o maçarico. E era uma tocha grande, que queimava a gente. O cara usava luva, proteção, aquela coisa toda, mas havia sempre o risco de incidente e acabava queimando e, ainda, tinha um problema também, que era o ponto. Porque no tempo da Asa tinha os caras que usavam um negócio daqueles para batizar o colega, que eles chamavam. Então, deixava o cara se queimar, o cara pouco avisado, não é? Aí, na Alcoa, se ele fizesse isso ele estava perdido, porque ele não ia ter essa chance. Porque a política de segurança... A partir da entrada, a pessoa já ia sabendo tudo que podia fazer e o que não podia fazer. Mas, na época da Asa, não havia essa preocupação. Não, a segurança era zero, realmente não tinha.


P/1 – Então isso foi uma mudança grande, não é? 


R – É, essa foi uma mudança grande. A outra mudança, também, foi na área de processo: em todas as máquinas foi instalado o Puller, foi instalado o disco fixo para não ter mais o disco móvel, que mesmo a 1.650 e a 2.000 trabalham com sete polegadas, o volume do disco é menor, mas não era também tão leve que fosse desprezível. O peso dele, para o cara pegar aquilo o dia todo, fazer num turno umas 120 extrusões, 130, 150, isso significava 150 vezes que ele ia pegar aquilo e levantar um meio metro e colocar para lá. Aí, o cansaço era grande, realmente. A outra que foi... Outras modernizações na parte de serra. Na parte de serra de acabamento passou a ser um sistema semi-automático. E facilita mais a vida do pessoal, programa o corte, o nível de ruído reduziu por conta do sistema de abafadores que ela utiliza. Aí, a condição de ambiente de trabalho foi melhorando também, por essas modernizações e mudanças que houve. O principal foi mesmo  ter reduzido o número de postos de trabalho para aquela operação, mas foi criada uma outra condição do ambiente. Foi extremamente melhor do que o que eles tinham antes.


P/1 – O senhor trabalhou em outra localidade da Alcoa, ou o senhor sempre trabalhou aqui?


R – Sempre trabalhei aqui, as outras localidades só de visita, para trocar ideias.   Trocar figurinhas, não é? Em Sorocaba, Tubarão, Pindamonhangaba, Utinga, São Caetano, só trocar figurinhas mesmo, nunca trabalhei lá não. 

P/1 – Continuando a sua trajetória, o senhor estava como encarregado da parte elétrica, não é? Da extrusão. E depois?


R – Depois eu fiquei também com as utilidades da fábrica geral.


P/1 – O que é utilidades? O que se faz?


R – Aí eu dava assistência aos compressores que eram comuns. Os compressores fornecem ar comprimido para extrudados, para anodização, para laminação de folhas, laminação de chapas, enfim, para toda a fábrica, não é? É a parte da infra-estrutura: as sub-estações, o sistema de distribuição de 13.800 volts e tem as sub-estações de área. O pessoal de manutenção da área não faz manutenção nas sub-estações, quem faz a manutenção nas sub-estações é o pessoal de utilidades e a sub-estação principal. A de 69, que reduz a tensão de 69 para 13.800 volts, que é a tensão de distribuição de dentro da fábrica. Então, essa parte também era comigo. Fora os escritórios, restaurante, as áreas de apoio. O que fosse de área de apoio à manutenção, também eu é que comandava.


P/1 – E depois?


R – Depois, extrudados foi precisando de mudanças. Precisando correr contra o tempo nas automações, nas coisas. Aí veio a cobrança para deixar de lado utilidades, entregar para o pessoal e me dedicar, com exclusividade, a extrudados. E foi feito isso. Por isso, houve muitas mudanças. Anodização, por exemplo. A anodização foi o local que mais evoluiu. Na área de extrudados. Partiu de um processo que não tinha confiabilidade operacional, não era confiável a qualidade, dava muitos problemas em qualidade. Inclusive quando eu estava chegando lá, o anodizado colorido o diretor suspendeu: “Não faz mais.” Ele bateu na mesa e disse: “Não faz mais.” [risos] Porque não estava com confiança, dava um lote bom hoje e  amanhã não tinha repetibilidade. Foi quando nós começamos a fazer as mudanças e hoje é o que está funcionando.


P/1 – Foram modernizações que vieram ao longo do tempo com o objetivo de atender novos clientes ou por causa da tecnologia que ia mudando? Como é isso?


R – Para poder melhorar a produtividade. Reduzir as perdas e ter confiabilidade de qualidade, porque se não tivesse a qualidade que a Alcoa se compromete a fornecer, o cliente que comprasse aquilo lá e descobrisse que tinha alguma falha, ia trazer problemas. Então, a necessidade de investir em tecnologia, em fazer tudo, era também para isso. No caso de anodização, o processo era todo na mão do operador, então, se você estivesse junto supervisionando, ele poderia estar fazendo tudo 100% correto. Mas, à noite, com o cansaço, final de turno, ele não fazia mais. E tudo dependia dele: o tempo, temperatura, nível de corrente que ia passar, nível de tensão que ia aplicar, enfim, o material, se não fizesse uma auditoria em cima, aparentemente ele podia estar bom, mas se fosse fazer as medições conforme mandam as normas, aí iria encontrar problemas. Então, essas modernizações que foram implantadas com a chegada da Alcoa, e o que a gente foi fazendo, foi tirando da mão do operador isso aí.


P/2 – Por que?


R – Ele controlava tudo e tudo que ele fizesse era na mão dele mesmo, literalmente, apertando botão, segurando.


P/2 – Isso foi, mais ou menos, em que ano?


R – Isso foi em 1988, 1987, aliás, 1984. Quando eu fui para lá eu já comecei a dar as minhas mexidas.


P/1 – E passou a ser tudo automatizado, é isso?


R – Aí comecei a automatizar.


P/1 – Anodização, o que é? É a parte final, assim, o acabamento?


R – É a parte que dá o acabamento no alumínio extrudado. Para fazer esquadrias bonitas, para o colorido nunca ficar com... Aqui a gente diz que ele estava com aquele mal, aquele que fica... Aquele que fica todo descascado. O alumínio Alcoa não faz aquilo, porque a camada anódica que ele recebe, e depois aquela camada colorida, ela não vai estragar com o suor. Quando você vê por aí um daqueles que está preto e branco, aquele todo ruim, com certeza é problema de qualidade. Era para isso que nós trabalhávamos, para garantir que isso aí não ia acontecer.


P/2 – O senhor foi o responsável por essas anodizações?


R – Eu me senti responsável pelas mudanças na anodização, sim, porque, na época, tinha o gerente de extrudados, que confiava muito e me deu carta branca mesmo para eu fazer. Aí eu usei as prerrogativas [risos] e fiz o que podia fazer.


P/2 – Você usou o espaço todo?


R – Foi, eu usei o espaço todo e foi um dos locais onde eu achei que valeu a pena ter feito. Para a Alcoa, para mim como aprendizado e para me deixar satisfeito, depois, quando tinha feito.


P/1 – Depois o senhor continuou na mesma função, foi para outra função, como foi?


R – As minhas funções. Fui contratado como Engenheiro Júnior. Passaram-se dois meses, disseram: “Não, ele não é Júnior. Não é possível [risos]. Trabalha há 15 anos!”


P/1 – Porque o senhor se formou mas já estava aqui trabalhando, não é?


R – É, aí eles mudaram de ideia e tiraram. Passaram-se só uns dois meses de Júnior e me colocaram como Engenheiro Pleno, depois Engenheiro Supervisor e depois Engenheiro Consultor. Aí, foi quando veio a carreira ípsilon, passei uns seis anos. Eu não tinha subalternos. Tinha o pessoal, eu era consultor, era a carreira ípsilon, eu estava lá, então eu dava assistência, fazia e tocava os projetos de gasto de capital. Mas não tinha subordinados. Só dava consultoria na manutenção, mas não fazia mais... Não tinha aquela obrigação de estar chamando o pessoal, fazendo isso, fazendo aquilo. Fazia a avaliação, mas não era chefe deles mais.


P/1 – Mas depois dessa modernização da anodização, o senhor foi fazer que outras coisas?


R – Ah, aí teve a modernização das prensas. Porque também isso tudo foi...


P/1 – As prensas são da parte de laminados, é isso?


R – Não, não, também é de extrudados. Aí, tudo foi feito em várias etapas. Nenhuma dessas foi, assim, num projeto só. Mudar a anodização, mudar a extrusão, não... Cada pedaço. E foi tudo bem passo a passo, nada foi feito de uma vez não. A modernização da prensa foi primeiro: colocar um Puller, depois colocar uma esteira, depois colocar uma serra, depois veio o disco fixo, foram várias etapas.


P/1 – Depois que o senhor modernizou tudo o senhor ficou só como consultor, é isso?


R – Fiquei só como consultor [risos]. Só sendo chamado de noite, e de madrugada também. [risos] 


P/1 – Para atender os problemas?


 R – Para atender os problemas: “O que eu faço?” “Não faz, compra feito.” [risos]


P/1 – E o senhor ficou nessa função até se aposentar?


R – Até sair, foi.


P/1 – E agora mais ou menos continua na mesma função?


R – Na mesma função. Porque quando estão precisando eu venho e faço um treinamento de alguma coisa e, no mais, 95% é projeto. Projeto para iluminação de ambiente, projeto para instalação de máquina, projeto para modernização, enfim, falou projeto... E se for para ligar fio elétrico, seja de comunicação ou de força, é o que eu gosto de fazer e estou fazendo.


P/1 – Mudando um pouquinho, como o senhor vê o relacionamento da Alcoa com as comunidades do entorno de Itapissuma?


R – Olha, a Alcoa...


P/1 – O senhor que acompanhou desde o comecinho, como foi esse processo?


R – A Alcoa... Um dos pontos mais fortes da Alcoa, que eu falo em qualquer lugar, é a seriedade com que ela trata tudo, toda a política dela com os vizinhos. [interrupção da entrevista]


P/1 – Então... O senhor estava falando sobre a relação da Alcoa com a comunidade.


R – É, eu acho um dos pontos mais fortes da Alcoa. É como ela trata essa relação com as comunidades, começando logo pelo meio ambiente, não é? Com o respeito que ela tem para com o meio ambiente, que deixa isso bem claro para todos os funcionários, todos os servidores da Alcoa, que não pode fazer nada bom para a Alcoa que seja ruim para o vizinho dela, tá? Essa política foi que eu aprendi. E aprendi a valorizar cada vez mais o “faça o que eu digo e faça o que eu faço”, nunca “faça o que eu digo e não faça o que eu faço.” Então, a gente sempre recebeu essa orientação de tratar tudo que fosse de meio ambiente, de relacionamento com as comunidades, da melhor maneira, da mais eficiente possível.


P/1 – E a respeito das ações sociais realizadas pela Alcoa? Quando o senhor estava aqui o senhor pegou os programas de ação social? O senhor participou?


R - Peguei. Participei, participei de alguns. Nós fomos em creche para fazer pintura, limpeza. Aquelas empresas que, tipo, creche que não podia se enquadrar, talvez pelo estatuto dela, que não estava dentro daquela contemplação da Fundação Alcoa, não é? Mas aí, tinha também o trabalho dos funcionários que se juntavam e aí a gente ia lá e realizava uma coisa que eu acho que quem não fez, tem que fazer para aprender como é bom. Então, isso é um negócio que eu aprendi aqui também.


P/1 – Quais foram os principais desafios que o senhor acha que enfrentou na Alcoa?


R – Os desafios eram, primeiro, lidar com gente [risos], fazer uma equipe que trabalhasse. Não existe nada mais difícil do que fazer pessoas trabalharem e trabalhar bem, não é? Porque fazer e dizer: “Ah, está tudo bem.”, todo mundo, às vezes, pensa que está fazendo, não é? Mas manter uma equipe motivada, trabalhando e fazendo o que gosta, não é bom não. Não é fácil não [risos]. Eu acho que esse era o maior desafio, era manter a equipe motivada e fazendo o trabalho bem feito, bom, e com resultado. Porque, também, não adianta dizer: “Ah, está maravilha. Está todo mundo muito feliz.” E o resultado não mostra isso. Tem que ter o conjunto funcionando. 


P/1 – E as alegrias que o senhor teve, as grandes alegrias aqui?


R – As alegrias foram muitas, com 32 anos aqui dentro, não é? Não dava nem para dizer que não tem. Lembrar muitas assim, eu nem lembro mais. Tem alegria até de, por exemplo, terminar um serviço muito grande, como o da mudança da anodização,  fazer funcionar. Aí, para mim, isso já era uma alegria grande. E havia aqueles jantares, aquela confraternização com o pessoal que trabalhou. Depois, tinha nas coisas que a Alcoa criava, às vezes, para a gente. Que davam alegrias grandes também, de realização pessoal, promoções, essas coisas. Eu não conheço ninguém que fique triste porque foi promovido. Só se for em novela de televisão [risos]. Você receber uma carta, o gerente estar lhe chamando para lhe mostrar a sua avaliação e dizer a você que está sendo premiado por isso agora. Então quem disser que não, só em novela mesmo: “Porque eu não quero não. Não é isso que eu estou procurando.” [risos] Não é? Na verdade, é.  Eu acho que todo mundo quer.


P/1 – O que o senhor considera a sua principal realização na Alcoa?


R – Minha realização para a Alcoa?


P/1 – Não, na Alcoa. Sua com a Alcoa. O que o senhor fez, assim, que lhe deixou mais feliz enquanto o senhor trabalhou aqui?


R – Foram muitas, viu? Uma das coisas que eu acho que mais me realizou foi na anodização mesmo, foi o que me tirou mais peso, assim, porque era um negócio que dava muita dor de cabeça mesmo, era muito frequente. Estava em casa, a turma ouvia o telefone tocar e não ficava nem alegre. Não era nem celular não, tocava logo um bip para poder ir depois no telefone e olhar o que era, naquela época. Aí, acho que a modernização da anodização foi o que me deixou mais tranquilo e foram avanços bem consistentes, não precisava ficar torcendo os dedos: “Vamos ver se dá certo. Vamos ver se dá certo.” [risos] Eram coisas bem fincadas mesmo na engenharia. 


P/1 – E o relacionamento com os colegas de trabalho, como é?


R – Eu sempre tive um relacionamento muito bom, eu acho, pelo menos com os meus colegas, dentro e fora do trabalho. Não tinha assim grandes amigos, talvez até pela minha forma de ser, viver bebendo e tal, sair para farra, essas coisas nunca foram o meu forte, sempre a turma que gostava de mim já sabia: chamar Aércio às sextas-feiras, tinha a faculdade: “Não posso.” “Mas, na quinta?” “Tenho faculdade, não posso.” No sábado de manhã: “Estou fazendo prova.” Aí, sempre foi assim. Mas no tempo, quando foi dando, aí passei a jogar bola junto. Então, havia muitos colegas com os quais a gente se relacionava muito bem e, que não se relacionava bem, nenhum. Ninguém, daqui, eu preciso mudar de calçada se encontrar no shopping, na rua, não. Sempre fui, assim, uma pessoa aberta com todo mundo que trabalhou comigo. Meus pares, tanto da mecânica como da elétrica, no meu tempo que estava já como engenheiro, como também antes, em projetos, a gente tinha um bom relacionamento. Trabalhava em equipe. Nós, quando fizemos o projeto do Caster, por exemplo, era bem sincronizado mesmo. Quem estava fazendo a Civil, quem estava fazendo a Mecânica, quem estava fazendo a Elétrica, a gente trocava as figurinhas o tempo todo e se dava bem, inclusive esse... Eu não tenho uma foto, não tinha a facilidade naquela época que tem hoje, de digital, você tira 500 fotos, [risos] não é? E imprime o que quiser ou manda fazer o que quiser. Aí, a gente não tem muitas fotos daquele tempo. Na época de construção aqui da Asa, por exemplo, se fosse hoje, e também se eu tivesse pensado como outras pessoas, teria fotografado tanta coisa que não tem... Eu não fiz. Só tem um amigo meu que fez uma foto da gente lá, junto de uma fundação daquelas. Aí, está lá com ele, tirou numa maquininha Kodak, pequena. [risos]


P/1 – E o senhor tem algum caso pitoresco para contar para a gente, algo que aconteceu ao longo desses anos? 


R – Os casos engraçados eram os que a gente escutava das histórias do pessoal, não é? Assim, quando começou essa história de caixa eletrônico, esses caixas 24 horas, os caras que ensinavam errado aos outros. Os menos favorecidos de leitura  chegavam, botavam o cartão e ficavam dizendo: “Eu quero 50. Eu quero 60.” [risos] E ficavam [risos] pedindo dinheiro no caixa.


P/1 – Falavam que era só falar que o dinheiro saía?


R – É, diziam: “É só falar aí, que sai.” E o cara está lá, pedindo. Mas tinha muitas histórias, muitas. O folclore era mais no tempo da Asa. Porque era muito... Realmente, as pessoas que vinham trabalhar aqui não estavam... A formação técnica delas e a formação intelectual também eram muito baixas. Pegou a década de... Final da década de 60 e a década de 70 todinha, que tinha emprego sobrando pelo ladrão, não é? E gente faltando. Então o que desse para vir... Aqueles caras que hoje sobram no mercado. Que o povo diz: “O que você sabe fazer?” Ele diz: “Bom, qualquer coisa.” Não é? Naquele tempo, realmente, qualquer coisa o cara arrumava um emprego aonde ele ia, mas hoje está diferente. Então, essas pessoas é que, às vezes, apareciam com algumas histórias engraçadas. As bagunças no ônibus, que o pessoal fazia, o cara que ficava bravo com um apelido... Coisas desse tipo.


P/1 – O apelido é uma coisa que o pessoal costuma ter?


R – É, costumava muito ter mesmo. Tinha um senhor, o 'seu' Galvão, ele era o encarregado dos pintores. Colocaram o nome dele de Vaca Pintada, [risos] porque dizem que ele tinha pintado uma vaca para o patrão dele. A vaca fugiu de um vizinho e foi para o cercado do patrão, aí ele passou o pincel branco e fez umas malhas,  virou uma vaca meio assim [risos]. Aí, quando descobriram, a vaca tinha sido pintada pelo 'seu' Galvão. Ele ficava bravo no ônibus quando o pessoal gritava: “Vaca Pintada.” E cantavam aquela música Vaca Pintada, não é? [entrevistado canta]: “Vaca pintada, quem foi que te pintou?” Aí ele ficava... [risos], ele se danava com isso.


P/2 – Você não tinha apelido?


R – Não. Era Gata Magra, porque eu era tão magro que [risos] eu tinha dez quilos a menos. Aí, teve um dia em que eu estava num jogo de futebol de salão, a gente jogando, quando eu vi me pegaram assim, me levaram, aí tinha sido o cara, o gerente lá: “Tira Aércio dali que ele vai morrer.” [risos] Que eu era, realmente, um palito, ainda mais magro mesmo. Aí, por isso, eles me chamavam de Gata Magra.


P/1 – Qual é o seu estado civil?


R – Casado.


P/1 – Qual é o nome da sua esposa?


R – Ana Nércia.


P/1 – O senhor a conheceu como?


R – Ah, foi... Ela era pequena quando eu a conheci. Quando a gente era criança também. Só que ela veio morar em Recife com o pai dela e a gente ficou lá no interior. Aí, eu conheci em casa, a minha irmã descobriu, ela foi fazer uma visita e pronto. Daí para a frente não teve mais jeito, não teve como se soltar mais.


P/1 – O senhor tem filhos?


R – Três. Duas filhas e um filho.


P/1 – O que o senhor gosta de fazer nas suas horas de lazer?


R – Eu gostava muito de jogar bola, de fazer essas coisas, não é? Agora, com a família, eu gosto de passear, de ir para... Cinema é que eu não fui mais, abusei de cinema desde... Não aprendi a ir em cinema de shopping, na verdade, porque ia muito em cinema na época de cidade, aí me aborrecia com a história de estacionamento e deixei. Depois, começou essa história de comprar, alugar filme, aí deixei de ir ao cinema. Mas eu gosto de passear mesmo, de ir em restaurante, ir para bares dançar.


P/1 – Como o senhor vê a atuação da Alcoa no Brasil?


R – Eu vejo a Alcoa no Brasil como uma empresa ainda muito sólida. Muito bem plantada no foco dela, no objetivo. As coisas que ela... Às vezes, pode parecer estranho para quem não entende, como eu também não entendo nada disso. A gente ficava questionando: “Poxa, por que essa mudança em extrudados?” Mas tão rápido assim, quando vê fecha uma fábrica aqui, quando vê abre ali de novo, mas quando a gente vai ver como é que o mundo dos negócios funciona, a impressão é de que a Alcoa está sempre bem dirigida, bem focada mesmo naquilo que ela quer. Acho que é uma empresa das mais sólidas que tem, realmente.


P/1 – Qual a importância que o senhor acha que a Alcoa tem para a história do alumínio?


R – Ah, eu acho que tem toda, não é? Tem tudo a ver com o alumínio. A própria história do alumínio se confunde com a história da Alcoa. Não dá nem para diferenciar o que é o alumínio e o que é a história da Alcoa.


P/1 – Qual foi o fato mais marcante que o senhor presenciou ao longo dos anos que o senhor passou na Alcoa?


R – [pausa] Eu não... Esse assim, de...


P/1 – Não está lembrando?


R – Não.


P/1 – Quais foram os maiores aprendizados de vida que o senhor obteve trabalhando na Alcoa?


R – Aí sim, foi muita coisa. Aprendi muito, porque a minha história praticamente foi aqui dentro. Tudo, não é? Porque eu era para ter começado a trabalhar com 16 anos, não comecei porque eu não consegui pegar logo a dispensa militar. No dia em que eu consegui a dispensa militar, entreguei. Aí, eu já estava pronto para começar a trabalhar. Então, eu cresci aqui dentro, mas cresci mesmo. Porque eu tinha... A minha altura era menor, eu ainda tinha um metro e 69 ou um metro e 68. Eu cresci nove centímetros trabalhando. Então, tudo que eu aprendi foi aqui dentro: o convívio com as pessoas, todos os treinamentos de que eu participei, que não foram poucos, para fazer a inter-relação com as pessoas. Porque, como eu disse, administrar pessoas é muito difícil, é complicado você tentar entender o que passa na cabeça das pessoas quando você dá uma missão para ela cumprir. Então, a quantidade de treinamento que nós passamos aqui não foi brincadeira. Foram muitos e tudo para preparar a gente para conviver com isso, para saber lidar com as pessoas. Então, hoje, o pouco que eu sei de me relacionar com as pessoas lá fora, de pessoas que trabalham diretamente para mim e remunerados por mim, é o que eu aprendi aqui. Eu podia ter aprendido em outro lugar, de outra forma, mas foi embasado nas lições da Alcoa que eu fiz isso. Foi embasado nas lições da Alcoa que eu fiz a minha empresa, que tem que ser séria, correta, pagar as minhas obrigações sociais 100%. Aprendi aqui e faço e também sou cobrado por isso. Se eu não fizesse isso, eu não trabalhava para ela, porque [risos] ela vai auditando sempre, sempre, não dá descanso, mas é assim que é.


P/1 – O senhor trabalhou aqui e agora continua trabalhando, não é? Então, eu nem sei se eu pergunto o que foi ser um alcoano ou o que é ser um alcoano, porque o senhor, de certa forma, continua sendo, não é?


R – É, de certa forma eu ainda me considero, eu continuo sendo um alcoano. No ano passado, por exemplo, metade do meu faturamento foi daqui, porque eu fiz... De 2006 para cá eu peguei o projeto da expansão de laminados. Então, toquei todo o projeto de elétrica da expansão de laminados. Metade do meu faturamento foi proveniente dos trabalhos com a Alcoa.


P/1 – Então, o que é para o senhor ser um alcoano?


R – Para mim é um motivo de orgulho. Também, como a Alcoa é uma empresa que a fama dela sai além da cerca dela, dos muros dela, me dá prestígio aonde eu apresento o currículo da minha empresa, que vê que eu trabalhei 32 anos na Alcoa e presto serviço na Alcoa. Já tenho a minha empresa há sete anos, isso me dá mais credibilidade. E essa credibilidade eu posso dizer que é uma boa contribuição por conta da Alcoa. Da referência Alcoa.


P/1 – Como o senhor avalia esse projeto da Alcoa que está contando a história por meio do depoimento das pessoas?


R – É, eu achei uma iniciativa interessante. Interessante até nisso. Porque é uma coisa também que eu não esperava, não é? Depois de sair da Alcoa, além de transitar livremente aí, prestando serviço com a minha empresa, ser chamado para um _______ que já fui e agora mais uma vez para tentar contar a minha história, isso, realmente, é gratificante e mostra que a empresa tem preocupação com o funcionário, com quem foi funcionário e continua.


P/1 – E como o senhor se sentiu dando esse depoimento?


R – Oh, eu pensei que ia ficar mais nervoso do que eu fiquei. Porque eu sou... [risos] Até beijo de novela me faz chorar, como Lobão diz. Lobão, não! É Zeca Baleiro, não é? [risos] Mas até que não foi muito não. Se tivesse muita gente, com certeza eu não ia não, porque sou tímido demais. [risos]


P/2 – Tem alguma coisa que o senhor gostaria de falar que a gente, talvez, não tenha perguntado?


R – Agora eu não lembro se tem ainda mais. [risos] O que eu tenho é só agradecer a oportunidade. Espero que o que eu tenha falado vá contribuir com alguma coisa. E, para mim, é só mais um motivo de orgulho mesmo isso aí.


P/1 – Então, obrigada.


R – Falar bem da Alcoa, ou falar bem de mim e da minha família, para mim se confunde. Porque um negócio que eu digo: se eu falar mal da minha mulher, eu estarei falando mal de mim. Já estou casado há 32 anos, aí, do mesmo jeito a Alcoa. Eu digo: “Eu vou falar de uma empresa em que eu trabalhei 32 anos e estou casado com ela, estou trabalhando mais sete, eu vou falar mal de mim mesmo. Eu vou falar mal da minha família? Que eu vivo com ela a minha vida inteira”. Então, para mim, a Alcoa é parte da minha família.


P/1 – Então, em nome da Alcoa e em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua entrevista. Obrigada.


R – Então está bom.

 

[Fim da entrevista]  

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