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Relato de uma estudante de pedagogia: caminhos que me trouxeram até aqui

História de: Daniela Santil
Autor: Daniela Santil
Publicado em: 09/09/2018

Sinopse

Estudante de pedagogia conta sua trajetória de vida desde sua adolescência e os caminhos inesperados pelos quais percorreu. Até o dia em que decidiu estudar para ser professora.

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História completa

Em minha vida, tudo o que eu achava que não serviria para mim, depois descobri se encaixar perfeitamente ao meu perfil, contrariando todas as minhas certezas que eu achava ter.

 

Acontece que na minha adolescência, quando eu caminhava em direção à fase adulta, eu era uma jovem que sabia muito pouco, quase nada, sobre mim. Certamente eu achava que sabia, ou talvez nem soubesse que precisava saber.

 

No auge da minha adolescência, minha vida escolar “empacou”, eu não estava preocupada com os conteúdos que deveria aprender na escola. Meus pensamentos, anseios e preocupações estavam voltados para questões emocionais, psicológicas e sociais. Creio que não era tão diferente da maioria.

 

Quando somos jovens vivenciamos aquela necessidade de aceitação, de criar vínculos, amizades, relacionamentos, e somos imersos em diversos conflitos existenciais. E vejo que a escola é um tanto quanto desconexa e alheia a essa realidade e necessidade dos jovens (ou pelo menos era assim na minha época). A escola serve apenas de pretexto, um espaço de encontro, onde começamos a nos desenvolver como pessoa no meio social onde estamos.

 

Enfim... Casei-me muito cedo, com 16 anos. Aos 20 tive minha filha. Fui parar no ensino supletivo e terminei o ensino médio próximo de completar meus 22 anos de idade. Porém com o objetivo apenas de “conseguir um emprego”. Pensamento que reflete uma visão de ensino reduzida ao ingresso no mercado de trabalho, mera obrigação para quem quer sobreviver, mas sem significado.

 

Trabalhei no comércio e me saí bem (e essa era uma das coisas que eu pensei jamais servir pra mim). E, um dia, atendendo um pedido da minha mãe, prestei um concurso para Agente Comunitário de Saúde da Prefeitura Municipal de Guarulhos, minha cidade (outra coisa que eu tinha certeza que não iria dar certo). Eu achava que boa parte desses concursos eram farsas, que serviam apenas para arrecadar dinheiro, e também achava que passar nessas provas era coisa para estudiosos, talvez formados em escolas particulares ou pelo menos no ensino regular, e não para mim: ex- aluna do ensino supletivo.

 

Passei em quinto lugar. Isso me fez acreditar tanto na veracidade dos concursos quanto na minha capacidade. “Nossa, eu não sou tão burra assim!”- pensei. Bendito conselho da minha mãe!

 

Minha mãe, Diolina Alves Santil, hoje com 68 anos, nasceu no estado do Ceará e não concluiu o antigo segundo grau. Mas, sua determinação superou qualquer diploma que ela pudesse ter, aliada a uma sede infindável de obter conhecimentos e a uma prática intensa de leitura durante toda a sua vida. Foi proprietária e diretora de uma escolinha infantil até o ano de 1999. E eu estava sempre lá, ajudava com as crianças, nos eventos, era uma “tia” mirim, mas longe de mim ser professora, aquilo não era para mim... será? (outro engano rs)

 

Passei em outros concursos, fui parar na educação. Um ano e cinco meses depois de assumir meu primeiro emprego público como Agente Comunitária de Saúde fui convocada, e na primeira chamada, para ser Agente Escolar também da Prefeitura Municipal de Guarulhos.

 

Quando cheguei na primeira escola que trabalhei tudo era muito novo, e lembro de ficar intrigada com o fato de crianças a partir de quatro anos se servirem e comerem em pratos de vidro. Passado o espanto, o trabalho na escola foi ganhando a cada dia um maior significado para mim. Fui descobrindo e redescobrindo, pensando e repensando sobre tudo que está envolvido no processo educativo. Não! Eu não me via professora logo de início. Achei, mais uma vez, que aquilo não era para mim. E quem somos nós para que não possamos voltar atrás? Quais são as certezas que temos? Tão certas que podem ser a qualquer momento desconstruídas.

 

E foi assim que a “tia Daniela” decidiu ser professora. Em breve terei que me despedir dela, mas muito grata por tudo que através dela aprendi.

 

Quando iniciei a graduação de pedagogia, ainda em curso atualmente, optei em fazer EAD (Educação à Distância), e novamente pensei: será que um curso online vai servir pra mim? Decidi tentar. E, mais uma vez descobri que esta forma de estudar se encaixava perfeitamente ao meu perfil. Eu não tinha a condição perfeita para iniciar meus estudos, vivia um casamento conturbado onde fazer um curso presencial me causaria problemas, mas segui em frente de acordo com as possibilidades que tinha naquele momento. No primeiro semestre do curso eu não tinha computador ou internet em minha casa, lia tudo impresso em papel, nas apostilas que ganhei da minha querida amiga Beatriz Aparecida de Andrade Manoel, a quem sou grata, hoje formada pela mesma universidade e professora de educação infantil da rede municipal há um ano. Ela sempre me incentivou em tudo que eu fazia, desde a época em que trabalhamos juntas como Agente Comunitárias de Saúde.

 

Em minhas primeiras leituras eu não compreendia aquelas palavras difíceis, jamais vistas antes, e meu dicionário Michaellis era o meu aliado. Me apaixonei pelo curso de pedagogia. Pensei: “ Era isso que eu queria! Por que não fiz antes?” Sim, porque tudo tem o seu tempo certo e eu precisei percorrer cada caminho para chegar até aqui.

 

Iniciar o curso de pedagogia me proporcionou muito mais que uma formação para futuramente exercer uma profissão, mas um crescimento e desenvolvimento pessoal. Me fez ter um encontro com meus próprios pensamentos expressos nos textos que eu lia a cada dia, como se fosse algo que estava dentro de mim, mas que nuca consegui expressar. Passei a refletir, também, sobre coisas que jamais havia pensado, e lançar um novo olhar sobre a vida e a nossa existência humana.

 

E foram esses os caminhos, tão imprevisíveis e incertos que me trouxeram até aqui. A incerteza é algo que nos faz evoluir, pois se alguém está muito cheio de si não se permite ser preenchido por novos saberes e prazeres que podem ser descobertos nos caminhos da vida!

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