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História

Relato de um embarcado: experiências e crescimento

História de: Joel de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Início na Petrobras. Mudança para a Bacia de Campos. A importância da terceirização. Crescimento da Bacia de Campos. Experiências, relatos e brincadeiras de embarcado. Monitoramento. Estabilidade de navio. História marcada de São Mateus. Falecimento de colega de trabalho. Horas de lazer. Relação com o sindicato.

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História completa

Projeto Memória Petrobras 

Realização Instituto Museu da Pessoa

Depoimento de Joel de Freitas 

Entrevistado por Márcia de Paiva

Marlim Sul, 27 de janeiro de 2005

Entrevista nº Petro_CAB010_UnRio - 10 

Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva

Revisado por Rhaíssa Hannecker Barbosa

 

 

 

P/1 – Boa tarde. 

R – Boa tarde. 

P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, o local e data de nascimento.

R – Meu nome é Joel de Freitas. Meu local de trabalho é a P38. Minha data é 30 de dezembro de 1953.

P/1 – Mas seu local de nascimento?

R – É, Vitória, Espírito Santo.

P/1 – Joel, conta que ano você entrou  na Petrobras?

R – Entrei em 1978. 

P/1 – Você começou a trabalhar em que área, onde você ______

R – Eu trabalhei na Fazenda Cedro, em São Mateus. Eu entrei como praticante de produção. 

P/1 – E conta um pouquinho como é que você chegou até a Bacia de Campos?

R – Bom, através de um concurso que surgiu que era para operador de sonda. Nós fizemos lá época em São Mateus. Passamos uma temporada lá em Aracaju. Ficamos lá um ano e meio. E voltamos aqui para a Bacia de Campos. Que estava precisando de operador de sonda para dar início em uma planta, um projeto novo que é, é, Pólo Nordeste. Então estava precisando de sondadores e operadores de sonda. Então foi que eu vim para cá, para a Bacia de Campos. Vim do Espírito Santo. 

P/1 – E isso você veio quando?

R – Eu vim para cá em 1983.

P/1 – Joel, o que é que mudou desde que você chegou aqui. Você chegou e veio para que plataforma? Veio direto trabalhar embarcado ou não? 

R – É, eu fiquei em algumas plataformas. Não ficava definitivo. A gente fazia tipo voluntário. Ficava rodando as unidades onde estava precisando da gente. 

P/1 – O que é que mudou desde que você chegou aqui até hoje?

R – Olha, o que mudou foi a terceirização que ajudou bastante. Que nós quando viemos trabalhar aqui era muito difícil. Era complicado. Devido, tinha muito serviço, muita coisa para a gente trabalhar, muita coisa, muita coisa e não tinha gente suficiente. Então nós tinha que fazer o serviço de homem de área, arrastar balde. Que hoje é o homem de área. Todos os serviços era, pintura. Era todos os funcionários da Petrobras. Hoje com a terceirização houve essa mudança excelente. Ficou muito ótimo. 

P/1 – E você acha assim, por exemplo, todo, você acompanhou. Você está aqui desde 1983 você acompanhou o crescimento todo da Bacia de Campos. 

R – Ah, vários campos...

P/1 – Como é que foi isso?

R – Ah, foi um grande, foi um ganho excelente. Tanto no avanço da tecnologia. Essa profundidade. Perfuração em alta profundidade. A produção aumentando cada dia mais da Petrobras. Foi excelente.

P/1 – Como é que foi a sua primeira experiência embarcado? O que é que você sentiu? Você se lembra?

R – Na primeira? Fiquei surpreso. Como todos. Todo mundo fica surpreso. Fica pensando: “Poxa vida, ficar...” – naquela época era, você chegava a ficar 14 dias longe da família. A primeira coisa que fica é assim. Mas foi tranquilo não teve, eu entrei, foi bom, tranquilo. 

P/1 – Teve trote quando você entrou assim na primeira vez embarcado?

R – Ah, teve. Vários trotes. Brincadeira de você chamar você: “Ó, estão te chamando para tal lugar assim.” Quando você chegava lá a porta estava fechada vinha um balde de água, jogavam água por cima de você. “Olha, o telefone está aí tocando.” Quando você pegava tinha maionese no fone. Ei, olha...

P/1 – Maionese?

R – É, você pegava o telefone estava com maionese. Outras vezes você pisava na bota e tinha graxa. No capacete os caras botavam, você botava o capacete assim de lado eles botavam água, e [riso] tomava um banho, dava um banho. E assim foi, muitas coisas engraçadas.

P/1 – Joel, fala um pouquinho do seu trabalho. O que é que você faz hoje? Como é o seu cotidiano de trabalho? 

R – No momento, hoje eu trabalho aqui monitorando na sala de controle. Fico monitorando os equipamentos, durante o dia ou à noite. Uma semana durante a noite, uma semana durante o dia. E dando estabilidade no navio, mantendo tudo normal, em operação normal. 

P/1 – Como é que a gente consegue manter a estabilidade de um navio como esse? Assim, para a gente que não entende nada.

R – Bom, tudo tem os procedimentos para ser seguido. Tem, por exemplo, os procedimentos, os planos de carga do navio que o oficial de náutica passa para você. Para você ir acompanhando o recebimento de óleo. Que aqui nós só recebemos o óleo da 40. então tem aquele plano de carga, então para a gente manter a estabilidade tem que fazer aquele, o manuseio correto. 

P/1 – Você tem uma história assim desses anos todos que você pudesse contar para a gente? Uma história engraçada, ou interessante? Uma história que tenha te...

R – Engraçada?

P/1 - ...marcado.

R – A que me marcou foi logo no início. Que quando eu entrei por São Mateus, e lá em São Mateus existia muita cobra. Cobra, a gente de vez em quando via as pegadas de onça que eu nunca vi. Os colegas que falavam: “Aqui é pegada de onça.” Muito mosquito, cobra, aquele negócio todo. E aconteceu que houve uma, choveu bastante. Muita coisa no ano de 1979 lá em São Mateus. E tivemos, rompeu as estradas e as carretas que ia fazer o transporte de óleo para cima trazendo para Vitória não podia chegar até a estação coletora. Nós tivemos que preparar um oleoduto. Um oleodutozinho, uma tubulação de 2 7/8 naquela época. Só que eram dois quilômetros. Então tinha água para caramba. Então nós íamos fazer aquilo e a água batia na cintura. Aí durante a noite, ficava durante o dia e a noite que os tanques estavam lotando, estavam ficando cheio, lotados. Então nós tínhamos que ir para lá preparar essa linha. Você via as cobras passando por cima da água. Você tirava, nós ficávamos de calção. Nós ficávamos com aquele monte de sanguessuga agarrado nas pernas. Você tinha que passar graxa, aquele negócio incomodando. E de vez em quando, quando a gente olhava dentro do mato que vinha uns olhos brilhando a gente pensava logo na onça. Era o medo. Era a onça que assustava um pouquinho. Mas foi gozado. 

P/1 – [riso]

R – Essa aí foi uma coisa que eu nunca consegui esquecer. Que eu era o novo na empresa, tinha pouco tempo. Aí me deixou assustado.

P/1 – [riso] E aqui da vida de embarcado?

R – Da vida de embarcado assim, tem uma tristeza que ficou, marcou. Que era o meu décimo terceiro dia. Quando eu cheguei, eu estava na unidade, o nosso gerente falou assim: “Olha, eu estou precisando que você vá para outra unidade. Nós temos que fazer intervenção no poço. Então temos que despressurizar o poço para adiantar.” Poxa, dá uma vontade, décimo terceiro dia. Faltava um dia para eu ir embora. Tá. Quando eu cheguei lá tinha um colega que falou bem assim: “Pô, Joel. Última semana que eu estou trabalhando na perfuração.” Que é o sonho de qualquer plataformista, sair da perfuração e ir para a produção. Que a perfuração trabalha na sonda, aquele negocio todinho. Então o cara falou isso: “Opa, eu estou indo, ó, é a última semana que eu estou indo para a produção. Graças a Deus, graças a Deus.” Tá bom. E nisso aconteceu um imprevisto não deu para mim continuar o serviço ali e liberar o poço. Eu desembarquei e ficou mais um pessoal lá. Aí dois dias depois eu fiquei sabendo que eles foram fazer um serviço, tiveram que usar o maçarico para romper a check valvulazinha lá que estava bloqueando o lugar e, houve uma certa explosão lá e esse menino morreu. Que eu fiquei assim pensando: “Poxa, poderia estar nesse meio junto com ele.” Porque eu estaria no caso. Isso foi uma das coisas que me deixou assim chateado, triste, porque o menino veio a falecer, esse colega de trabalho. É, mas fora isso é muitas coisinhas a mais.

P/1 – E o que é que você gosta de fazer aqui nas suas horas de lazer?

R – Aqui, eu gosto de fazer umas caminhadas na quadra. Gostava muito de jogar baralho. Mas o pessoal aqui, tem poucas pessoas, não tem tempo. Não tem jogadores. Eu faço mais caminhada. E fico perturbando a torcida organizada ali. Os perna de pau jogando futebol, fazendo brincadeira com eles.

P/1 – Você é a torcida?

R – Sou da torcida. [riso]

P/1 – E karaokê, você gosta?

R – Não, sou muito desafinado. Sou desafinado demais. Não canto nada.

P/1 – [riso] Joel, você é sindicalizado?

R – Sou.

P/1 – Você já participou assim de alguma reivindicação trabalhista, ou alguma...

R – Não, não. 

P/1 - ...junto com o sindicato?

R – Não. Faço parte assim: eu voto quando tem assembleia, aquelas coisas. Mas assim, a fundo não.

P/1 – E as informações do sindicato chegam também aqui, têm chegado direitinho? Como é que é?

R – Tem, tem chegado.

P/1 – Como é que é para vocês aqui embarcado?

R – Chega sim. Todas as informações. E qualquer coisa que tenha a acontecer lá, alguma novidade eles mandam para cá informando.

P/1 – Joel, e enfim, eu gostaria de perguntar o que é que você achou da iniciativa da Petrobras de ter feito esse projeto? Se você gostou de ter participado?

R – Excelente. Vale a pena. Tudo que é novo, novidade vale a pena.

P/1 – Então tá Joel, eu queria agradecer a tua participação.

R – Tá legal. 

P/1 – Por ter vindo colaborar com a gente. Obrigada.

R – Nada.

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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