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História

Rei da Abóbora

História de: José Ferreira de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2012

Sinopse

O sítio de seu pai, em Fortaleza e o trabalho nas plantações após a morte da mãe. A ida para São Paulo e os percalços da viagem de pau de arara. O emprego na fábrica de violões e o trabalho na feira como vendedor de produtos de alumínio. A mudança de toda a família para São Paulo e as dificuldades financeiras. O início do trabalho com abóboras e a atuação no Ceagesp. Como se tornou o maior vendedor de abóboras do Brasil e da América do Sul em suas próprias palavras. A distribuição de alimentos na cidade, no país e para o exterior. O Centro Estadual de Abastecimento (Ceasa).

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História completa

“Eu não sei como é que me deu na cabeça quando tinha mais ou menos 14 anos. Eu queria mudar de vida, eu queria ganhar dinheiro. No começo de 1953, mais ou menos, foi que eu decidi: ‘Vou sair fora.’ O profeta não faz milagre na terra que nasceu. Comecei a juntar o dinheiro e nisso apareceu um casal em Fortaleza. Eles perguntaram se eu queria vir trabalhar com eles em São Paulo – eles conheciam meu serviço e sabiam que eu era pessoa de responsabilidade. Eu decidi: ‘Vou.’ Pau de arara era 400 naquela época. Aí acontece que, passou o Estado da Bahia, o pau de arara tombou.

Rodamos três dias para chegar na beira do São Francisco, duas noites, e o caminhão tombou. Lá morreram duas pessoas. Só pelas quatro da manhã é que veio alguém socorrer. Mandaram a gente de volta para Pernambuco, que é onde tinha hospital. Naquela hora muita gente desistiu de seguir viagem, mas eu falei: ‘Nem que vá a pé, eu vou embora.’ Meu braço inchou, meu rosto parecia que passou um rolo de ralar coco, mas eu continuei. Quando eu vi São Paulo, achei bem bonita. Vir de Fortaleza para cá seria como você chegar nos Estados Unidos hoje. Você falava uma coisa e a pessoa dava risada; não entendiam. Mas tudo bem, arrumei emprego na fábrica Giannini. Violão, não é? Instrumentos. Naquela época eu tomava um copo de leite por dia e um pãozinho, mais nada. Para bater palma batia assim, de mão fechada. E eu sempre tinha dinheiro guardado; mesmo ganhando mixaria. Saindo dali, fui tirar licença na prefeitura. Tinha 18 anos; queria começar na feira. Por conta. Eu sei que isso foi, voltou, enriquei, perdi dinheiro. Aí uma hora comprei uma carga de melancia por 200 cruzeiros. Naquele caminhão de 200, fizemos mil. Falei: ‘Vou vender melancia.’. Eu vendia na feira, ponto de ônibus. Um dia fui comprar melancia e não tinha, só o que tinha era um caminhão de abóbora. Os caras disseram: ‘Tem uma abóbora ali, não sei o quê.’ Aí fui lá e comprei o caminhão de abóbora. O caminhão estava há dez dias para vender lá. Paguei 130 cruzeiros o caminhão com mais ou menos 7 mil quilos. E levei e fui vender aquela abóbora. Abóbora graúda de Atibaia. Tinha abóbora até de 40 quilos. Eu não tinha esperança nenhuma, mas vendi e gostei. Tudo bem, comprei outro caminhão. Fui lá, vendi; gostei de novo.

Voltei lá e aí já não era mais melancia, comprei mais um caminhão de moranga da que tinha lá. Eu fazia tudo, desde a limpeza da abóbora até pôr lá; vendia, guiava e limpava o caminhão. Trabalhava 18 horas por dia. Em 1969 e 70 eu emendava 20 horas direto. Tinha dias que só descansava duas horas e, muitas vezes, era guiando o caminhão. Teve vez de eu chegar às três horas da manhã e sair às cinco. Aprendi a vender abóboras andando por essa cidade. Fui fornecedor de quase todas as fábricas de doces aqui em São Paulo. Antes São Paulo só fazia doces, hoje São Paulo come abóbora. Lancei a abóbora caipira. A abóbora japonesa em 75, que entrou por Cotia, eu levei no Ceasa e soltei lá. Quando foi em 75, deu neve em São Paulo. Nessa época acabaram as lavouras. Só no sul da Bahia eu fui encontrar roça de abóbora. Estava fechada: ‘Tudo bem, eu compro.’ Em 1976 eu mandei tudo para Recife. Em 77 fui buscar em Recife para mandar para a Argentina. Consegui ser o melhor do Brasil, da América do Sul e talvez do mundo. A minha vida foi abóbora. A abóbora pode falar: é antes de mim e depois de mim."

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