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História de: Luiz Carlos Vaini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Descendentes de italianos. Infância em São Paulo. Trabalho na empresa Arthur Andersen. Estudos de Contabilidade. Eleito presidente Seção Regional de São Paulo e da Diretoria Nacional do Ibracon. Faz parte da Comissão Consultiva da Comissão de Valores Mobiliários do Ibracon. Carreira profissional no Conselho Regional de Contabilidade, também no grupo das Normas Brasileiras de Contabilidade. Relação profissional com Hilário Franco.

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História completa

P/1 - Bom, eu gostaria que o senhor iniciasse falando o seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Pois não. O meu nome é Luiz Carlos Vaini, eu nasci em Duartina, Estado de São Paulo, é uma cidade muito próspera, perto de Bauru. O próspera é por minha conta, mas ela é muito próspera, sim. E isso aconteceu no dia 28 de dezembro de 1944.

 

P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe?

 

R - Meu pai, Cândido Luiz Vaini, e minha mãe, Amabile Crivellari Vaini.

 

P/1 - E eles são de Duartina?

 

R - Não, o meu pai foi nascido em Sertãozinho, na região de Ribeirão Preto, e a minha mãe em São Carlos.

 

P/1 - Certo. E eles foram para Duartina depois de casados? Como foi essa história?

 

R - Sim, depois de casados. O meu pai conheceu a minha mãe em São Carlos, é uma história até interessante, porque eles se conheceram criança. O meu avô por parte do meu pai era administrador de fazenda, e administrava uma fazenda próxima da fazenda do meu avô, pai da minha mãe. E eles se conheceram de criança. Depois, como o meu avô era administrador de fazenda, ele costumava se deslocar para as fazendas onde havia melhor oportunidade para desenvolver esse tipo de trabalho, mas acho que o amor permaneceu. E quando o meu avô morava em Duartina, portanto o meu pai morava lá também, o meu pai decidiu aprender um ofício, como chamava naquela época, e ele não seguiu, então, a carreira do meu avô de administrar fazenda, que vinha já desde o tempo da Itália, e ele foi aprender o ofício de barbeiro. Então ele abriu uma barbearia em Duartina, ainda solteiro e, como ele continuou o namoro com a minha mãe, acabou casando com a minha mãe em São Carlos, na Catedral de São Carlos. Mas a minha mãe veio morar em Duartina e lá, então, é que foi constituída a nossa família, onde os meus irmãos... Tenho mais três irmãos, também nasceram em Duartina. E eu também, sou o caçula e nasci em Duartina.

 

P/2 - E o senhor falou um pouco sobre seu avô por parte de pai. E qual a origem? O senhor conhece a origem dos seus avós?

 

R - Ah, conheço. Eu até fiz uma pesquisa muito profunda a respeito de onde eles nasceram e tudo mais. O meu avô é de Mântua, da região da Lombardia, o meu avô paterno. O meu avô materno é de Cavargere, que é a região de Vêneto. A minha avó, por parte de pai, é de Pádua e a minha avó, por parte de mãe, é de Rovigo que é também uma região de Vêneto. Eles vieram em épocas próximas, porém não assim tão próximas, na época da imigração dos italianos aqui, para poder suprir mão de obra na lavoura, muito embora o meu avô materno já tivesse vindo com capital para adquirir terras. E o meu avô paterno veio para administrar fazendas, muito embora ele tenha vindo garoto aqui, mas ele já conhecia, porque o meu bisavô já fazia essa atividade na Itália. De modo que são italianos, e aí os meus pais são brasileiros.

 

P/1 - O senhor tem ideia de que época que eles vieram para cá?

 

R - Tenho sim, o meu avô materno veio primeiro. Ele veio mais ou menos em 1875, alguma coisa assim, e o meu avô paterno veio em 1887. Então já há dois séculos atrás (risos).

 

P/1 - Bastante tempo. Bom, o senhor nasceu em Diamantina...

 

R - Não, eu nasci em Duartina.

 

P/1 - Duartina (risos). Estou confundindo Diamantina com Duartina. 

 

R - Quem nasceu em Diamantina foi o presidente Juscelino Kubitschek (risos).

 

P/1 - Isso. Bom, em Duartina, e ficou lá até que idade?

 

R - Eu fiquei com até... Muito pouco, eu fiquei com uns dois anos de idade. Então, os meus pais decidiram mudar para São Paulo, mais especificamente meu pai, decidiu mudar para São Paulo. Então, por incrível que pareça, eu me lembro do dia em que eu cheguei a São Paulo. Às vezes as pessoas duvidam um pouco disso, mas eu me lembro do dia em que eu cheguei, isso ficou gravado para mim. Não sei se porque foi uma coisa tão diferente, da mudança de ambiente.

 

P/1 - Que imagem que o senhor tem de São Paulo?

 

R - De chegando na casa em que nós fomos morar, tudo mais. A minha mãe dizendo: "Aqui que nós vamos morar, aqui vai ser a sua casa", essa coisa toda.

 

P/1 - E onde era essa casa em São Paulo?

 

R - Era no bairro do Pari. Era um bairro com uma concentração de italianos muito grande, um bairro essencialmente industrial, e com muitos operários, operários qualificados, e tudo mais. São Paulo tinha uma característica muito diferente do que é hoje.

 

P/1 - Em que ano era isso, mais ou menos?

 

R - 1947. E aí foi, vivi no Pari até...

 

P/1 - O senhor lembra da infância?

 

R - Ah, lembro, eu lembro. Muito agradável, muito interessante, com muitos amigos. A infância que a gente podia ter naquela época em São Paulo, de jogar bola na rua, essas coisas todas, ir para a beira de lagoa para fazer pescaria, essas coisas todas, tal. Sem droga, sem vício, sem qualquer outro tipo de risco, que hoje, infelizmente, fica mais difícil criar uma pessoa, a gente ficava mais à vontade.

 

P/2 - Tinha uma lagoa ali em Pari?

 

R - Tinha uma lagoa no Canindé, que é próximo de Pari, onde é, por sinal, onde é hoje o campo da Portuguesa. Aquilo ali é aterro, o campo da Portuguesa é um aterro, e ali antigamente era o campo do São Paulo Futebol Clube. Acho que vocês devem saber disso, se fizeram essa pesquisa. Ali foi o famoso Tricolor do Canindé, que era o campo do São Paulo. Depois o São Paulo vendeu para a Portuguesa e a Portuguesa fez, então, uma transformação completa lá, onde tinha uma lagoa, eles aterraram. E onde tem o campo da Portuguesa, hoje, essencialmente era uma lagoa. E o São Paulo, então, construiu no Morumbi.

 

P/1 - E qual foi a sua primeira escola? Como foi?

 

R - Ah, eu estudei no Externato Santo Antônio do Pari, que hoje, com uma série de transformações, é uma universidade, a Universidade São Francisco, que é dos padres franciscanos. Porque ali tem a igreja Santo Antônio do Pari, muito famosa por sinal, onde as moças casadoiras vão fazer as suas promessas e tudo mais. E, pelo que a gente sabe, normalmente Santo Antônio atende. E o famoso pãozinho de Santo Antônio, e tal. Então eu tive toda a minha educação primária ali no Externato Santo Antônio, e também toda a minha formação católica, já que por estar ali até próximo da igreja, e já com orientação de pai, de mãe, eu fui da Cruzada Eucarística. Depois eu fiz um trabalho em um grupo que se chamava Juventude Franciscana, trabalho por sinal muito interessante, onde nós visitávamos favelas e pessoas carentes, arrumando emprego para essas pessoas, dando um apoio, procurando arrumar médico, remédio, essas coisas todas. Então eu fiz um trabalho muito intenso. As minhas horinhas de folga, no sábado...

 

P/1 - Que idade o senhor tinha quando fez isso?

 

R - Ah, tipo quinze, dezesseis anos. Me ensinou muito isso, me ensinou muito os contrastes da vida, o que é a questão de tentar oportunidade e não conseguir, a busca de alguma coisa que não sabe por onde começar, uma desorientação total, uma desmotivação completa da vida. E a gente tentando dar um conforto. Seria muita pretensão dizer um conforto espiritual, que a gente nem tinha preparo para isso. Mas o que a gente percebia era o seguinte: as pessoas queriam alguém para conversar, queriam que alguém escutasse, queriam muito mais um coração através de dois ouvidos do que propriamente uma solução para as agruras ali da vida. Mas, sob o ponto de vista material, a gente conseguia fazer muita coisa, porque no bairro do Pari sempre... Sempre se caracterizou o bairro do Pari por ser um bairro doce. O pessoal chamava de bairro doce, porque tinha indústrias de doces, muitas indústrias. Não as grandes, como a Confiança, que hoje está com a Nestlé, que fabrica Tostines e balas Kids, mas outras pequenas indústrias de portugueses, que tinham muitos portugueses ali, e eles precisavam de mão de obra, por exemplo, para embrulhar bala, para empacotar bala, essas coisas. E esse era o tipo de atividade que poderia ser feito na casa das pessoas. Então nós levávamos esses pacotes para que eles providenciassem, então, a embalagem dessas balas. Era uma mão de obra barata e interessante para o fabricante e, ao mesmo tempo, trazia ali um recurso, uma renda para família que não tinha ali muita chance. Então foi uma fase muito interessante da vida e eu acho que me ensinou muita coisa, principalmente naquilo que diz respeito a entender quando uma pessoa diz que precisa de alguma coisa. Foi muito bom, muito bom. Orientado, obviamente, pelos padres. Eu me lembro até que tinha um frei, ele criou um carro-capela. A ideia dele foi a seguinte: ele montou uma caminhonete e a carroceria era um altar. Então ele ia na favela, nesses lugares. A favela daquela época não tinha bem a conotação da favela que tem hoje, então ele chegava lá, abria as portas e rezava a missa etc. e a gente ajudava ali no que era possível, para poder fazer as coisas. Então a ideia dele era que a Igreja tinha que ir ao encontro das pessoas, e não se colocar na posição de que você é que deve procurar a Igreja. Quer dizer, e isso estamos falando aí do quê? 1960 e alguma coisa. Quer dizer, hoje esse frei é um bispo, o bispo Dom Quirino. Se eu não me engano, ele está em Teófilo Otoni. Eu sempre aprendi a admirar muito, ele me ensinou muito também, no sentido de que você tem sempre que inovar, você tem sempre que procurar algo diferente e promover mudanças. Essa mensagem para mim ficou muito forte através do Dom Quirino, porque ele não tinha necessidade de fazer essas coisas, ele podia ficar na paróquia lá esperando os fiéis, né? Mas ele pensava diferente.

 

P/1 - Certo. Interessante. Bom, depois como é que continuou a sua vida escolar?

 

R - Aí eu fui estudar, fui fazer o ginásio, também ali no Pari, e foi ali no ginásio Paulista. Era uma escola muito boa por sinal, e eu me lembro muito do diretor da escola, o professor Lino, uma pessoa de uma autoridade. Acho que foi a primeira vez na vida que eu encontrei, assim, alguém fora do ambiente familiar com uma autoridade e disciplina. Ele realmente conduzia aquele colégio com mão de ferro, porque a fama de colégio rigoroso era colégio de padre. Ali não era colégio de padre. Mas o Lino, o professor Lino, ele não admitia qualquer tipo de deslize relativamente à indisciplina. E eu aprendi com ele que, sem disciplina, você não vai a lugar nenhum na vida, mesmo que possa parecer um pouco exagerada em um determinado momento. Mas, se você quer organizar alguma coisa, qualquer coisa que você queira organizar, comece pela disciplina. O que é disciplina? Disciplina é você normatizar as coisas, colocar ordem nas coisas. E muitas vezes a disciplina, vem muito mais por uma mensagem, pela essência, do que pela forma. Quer dizer, você pode não entender a forma. Por exemplo, todos têm que entrar em sala de aula perfilados. Que bobagem. Desde que você esteja dentro da sala, o importante é a aula, não é você entrar perfilado. Mas acontece que se você não entrar perfilado, todos podem querer entrar ao mesmo tempo e você vai criar um tumulto, então se entrar perfilado não tem tumulto. E ele ficava com o microfone chamando sala por sala: "Primeiro B, Primeiro C." E aí a fila se dirigia para a sala de aula e sempre subindo a escada do lado direito, porque do lado esquerdo era livre para que os professores e outras autoridades pudessem transitar. Então o ginásio Paulista tinha bons professores. Obviamente, a disciplina que o professor Lino impunha não era só para os alunos, era também para os professores. Os professores não faltavam, cumpriam o programa, ensinavam, levavam a coisa a sério. Então foi uma passagem na minha vida que eu acho que colocou uns tijolinhos na minha formação.

 

P/1 - E a partir disso...?

 

R - Bom, aí a minha sequência escolar foi o Colégio Estadual Presidente Roosevelt. O Colégio Roosevelt... Naquela época, o colégio estadual era muito disputado. Para entrar no Colégio Roosevelt a gente tinha que fazer um exame de suficiência, uma espécie de vestibulinho. E o Colégio Roosevelt era um colégio lá na Rua São Joaquim. Eu acredito que exista até hoje, ali na Liberdade. E nessa fase da minha vida, eu comecei a perceber o sentido de que você precisa estudar muito para chegar em algum lugar. Então eu convivi com muitos japoneses nesse colégio, e a cultura japonesa é de muita dedicação, muita seriedade, objetivos traçados. E qual é o processo para você poder chegar naquele objetivo? Então se eu pudesse ressaltar a grande lição do Roosevelt, além de, obviamente, a parte técnica das matérias e tudo mais, onde nós tivemos excelentes professores, foi de que você tem que estudar, não adianta ser promovido de um ano para outro. Isso você pode conseguir, mas você tem que estudar. E o Roosevelt tinha um ambiente muito sadio, muito interessante, porque ele quase que tinha um ambiente de universidade. E era uma escola com o maior índice de aprovação nas universidades aqui no Estado de São Paulo, tanto em exatas como em biológicas. Então os professores do Roosevelt eram muitíssimos bem preparados, e foi a grande coisa que aconteceu na minha vida, poder ter tido a oportunidade de estudar.

 

P/1 - O senhor fez o curso técnico de Comércio?

 

R - Não. 

          

P/1 - O que o senhor estudou nesse curso?     

 

R - Não.

 

P/1 - Era o colegial?

 

R - Era o curso científico, que hoje é equivalente ao colegial. Naquela época tinha Clássico, Científico, etc.

 

P/1 - E o senhor já tinha uma direção profissional, o senhor já tinha uma vontade?

 

R - Não, não. Eu acho que, talvez, a partir de agora possa acontecer. Mas naquela época ninguém batia na cabeça do filho e dizia: "Você vai ser contador", coisa assim. Eu acho que isso nunca aconteceu. Dizia que você ia ser médico, engenheiro, talvez advogado, advogado bastante. E naquela época, então, quem iria se direcionar para Exatas e Biológicas fazia o curso Científico, quem ia se direcionar para Humanas, mormente Advocacia, fazia o curso Clássico. Então eu entrei no curso Científico, mas aí eu percebi uma coisa: eu percebi que... Eu não trabalhava, eu era o caçula, e você começa a perceber que precisa de recursos para você poder seguir com as coisas, sem os recursos fica um pouco mais difícil. Então eu tinha todo o apoio dos meus irmãos, que trabalhavam, colaboravam no orçamento familiar, mas eu percebi que provavelmente não seria suficiente, por exemplo, para me sustentar em um curso de Medicina, ou em um curso de Engenharia. Então o meu pai nunca me cobrou nada, ele nunca me exigiu que eu tomasse qualquer atitude, porque se o objetivo dele de vir para São Paulo foi de dar oportunidade aos filhos para poder fazer alguma coisa, ele realmente queria construir algo. E até interessante, porque eu não sei pegar uma navalha. O meu pai nunca deixou que eu tocasse em ferramentas, porque ele não queria que eu fosse dono de barbearia, essas coisas. Ele achava que tinha que ser alguma coisa diferente. Então eu não sei, não sei nem abrir uma navalha e é muito perigosa até, então não sei. E, portanto, ele nunca me cobrou nada, ele sempre me perguntava se eu estava me sentido bem naquilo que eu estava fazendo, se eu, enfim, muito mais... Não propriamente uma cobrança, mas muito mais uma preocupação dele se eu estava me orientando para alguma coisa. E para bom entendedor, meia palavra basta, eu comecei a perceber que daí minhas irmãs estavam casando, e que provavelmente os recursos familiares não seriam, assim, tão suficientes como até então. E eu achei que deveria, então, procurar uma atividade, enfim, buscar um emprego e conseguir algum recurso. Então eu fiz o seguinte. Isso foi em 1964, eu entrei na faculdade de Economia, eu prestei vestibular na faculdade de Economia, entrei na faculdade de Economia. Como o Roosevelt preparava muito bem as pessoas, eu não fiz cursinho, não fiz nada. E fui, prestei exame e entrei.

 

P/1 - Que faculdade?

 

R - Na faculdade de Economia, Finanças e Administração de São Paulo, que hoje acho que ela fez alguma fusão com alguma outra faculdade, não saberia nem precisar com qual faculdade que ela fez essa fusão.

 

P/1 - Onde que ela fica?

 

R - Ela, acredito que... Naquela época ela ficava no Brás. Hoje eu não sei onde está. Talvez a Faculdade Santana tenha feita a fusão com ela. E qual era o meu plano? O meu plano era o seguinte: "Eu vou fazer o curso de Economia e, quem sabe, eu presto um vestibular para Engenharia, alguma coisa assim." Então aí as coisas vão acontecendo, a gente... Eu até acho que o planejamento, ele vem dentro de algum campo de inspiração, sabe? Não pode vir do nada. Então como que eu vou planejar a minha vida? Precisou acontecer algo que me levasse a tomar uma atitude. Por necessidade, quem sabe? E nesse curso de Economia, o que aconteceu? Eu era o mais novo da turma. Porque, naquela época, as pessoas que iam fazer Economia, ou já tinha tentado vários cursos, não tinha conseguido etc., por alguma razão tinha uma média de idade superior. E eu saí do curso Científico e fui para a Economia, então eu era o mais novo da turma. E eu percebi que as pessoas já tinham experiência profissional. Aliás, existiam muitos técnicos em Contabilidade já com escritórios e tudo mais. E eu ficava, assim, maravilhado de ver as pessoas desenvolvendo as explicações, a lógica do raciocínio, tudo baseado na própria experiência de vida e profissional das pessoas, que tinham mais idade, essa coisa toda. E aquilo começou a me cativar, quer dizer, então eu saí de um ambiente que era de curso Científico e passei a conhecer pessoas profissionais, não eram estudantes. Porque eu vivia em um ambiente estudantil. Nem acadêmico a gente podia chamar, ambiente estudantil. Eu falei: "Puxa, tem algumas coisas aqui, eu preciso saber melhor do que se trata esse tipo de coisa." E eu conversava com as pessoas: "Puxa, como é que você sabe isso?" "Não, porque eu tenho escritório de Contabilidade, eu sou gerente de uma empresa tal, eu sou gerente financeiro, eu sou assistente disso, daquilo, etc." Interessante. Porque o que acontece, inclusive hoje, em qualquer escola? Você fica condicionado ao mundo acadêmico e há, assim, uma distância entre o mundo profissional e o mundo acadêmico enorme. Quer dizer, você... "Estou aqui para que? Eu vou ser médico." O sujeito nem sabe que sai sangue quando ele corta um sujeito. E naquele tempo nem isso. O advogado era aquele togado, tal, condenando ou defendendo alguém, o médico era aquele que receitava alguma coisa, o engenheiro era o que construía prédio. Quer dizer, esse era o conceito das profissões. E o resto era o resto, o resto era figuração. E hoje a gente vê, é diferente, a Engenharia tem campos enormes, aliás o sujeito se forma engenheiro e vai para a área financeira, porque na verdade o que ele recebeu na faculdade? Recebeu um treino intelectual extraordinário de estratégias, essas coisas todas, e ele vai aplicar não necessariamente construindo prédios, mas fazendo engenharias financeiras. E assim sucessivamente. Então hoje, está muito diferente. Eu comecei a ver uma faceta profissional que eu não conhecia e comecei a elucubrar: "Como chega nisso? Como faz para chegar nisso?" E não sei se por obra do destino, ou coincidência, porque eu pego um anúncio em um jornal, na Folha de São Paulo, dizendo que Arthur Andersen estava recrutando assistentes de Auditoria, com as seguintes pré-qualificações: para cursar ou cursando o curso de Economia, Contábeis, Administração, de preferência quem tenha feito curso Científico. Eu falei: "Isso foi escrito... Falaram escrevendo para mim."

 

P/1 - "Sou eu."

 

P/2 - "Procurando, por favor, o senhor Luiz Carlos."

 

R - Falei: "Que gozado, né? Que coisa interessante." Eu peguei aquele anúncio e fui lá na Rua Direita, na Arthur Andersen. "Auditoria. O que é isso? Eu não tenho a menor ideia. Auditoria?" Não sabia nada, eu não sabia nada. Bom, aí eu fui submetido lá a uma bateria de testes, daquelas coisas lá, bem no estilo de empresa americana, e eu nem sabia exatamente o que eu estava fazendo, ao que eu estava sendo submetido, mas evidentemente sabia que estava competindo com alguma coisa. Isso eu sabia, porque tinha um monte de gente fazendo teste também. Isso, obviamente, a gente sabia, mas os propósitos, as finalidades e onde, o que vai dar nisso, não tinha a menor ideia. Então eu fiz lá todos os testes, assim, confesso até que um pouco desconfortável, porque eu detesto fazer as coisas sem saber exatamente a finalidade, mas tudo bem, o anúncio dizia algo que me dava um norte, e é por aí que eu vou. E, de repente, me chamaram para mais um teste, me chamaram para mais um teste, aí eu comecei a perceber que eu estava entrando em um funil ali. Eu acho que estou caminhando, enquanto não falarem "não", eu estou caminhando. E, finalmente, eu fui chamado para uma entrevista com o senhor Paulo Santi, que era um gerente qualificado na Arthur Andersen, naquela época. E foi uma entrevista muito dura, muito característico do Seu Santi, que ele sempre foi uma pessoa muito exigente, e com quem eu aprendi muito também. E ele me fez perguntas, assim, que eu não poderia imaginar que alguém me perguntasse. Como assim: "O seu pai tem muito dinheiro? Por que você quer trabalhar? Por que você...?" Coisa que eu não poderia... Por mais que eu tivesse me preparado, porque eu nem sabia de fato como me preparar para uma entrevista como essa, mas foi uma coisa que eu jamais poderia imaginar. Então o que a gente faz em um momento desse, né? Você abre o coração, eu falei o que eu senti. Só isso, mais nada. Quer dizer, não tem muito segredo, né? Não tem muito segredo. "Não, porque... Como que eu vou responder isso?" Não, não. E eu tenho a impressão que era isso que ele queria. Então eu abri o coração, falei para ele e... Não propriamente no mesmo nível, eu não teria essa condição nem intelectual para isso, naquela época, pelo menos. Aí ele me mandou esperar uns minutos e eu não entendi nada. Ele me chamou para conversar com o sócio da Auditoria, que era o Seu Rodgers. E o Rodgers conversou comigo uns quinze minutos, etc. E eu fui na mesma linha. Aí o Seu Santi voltou, me chamou para a sala dele e disse: "Muito bem, você está admitido."

 

P/2 - Que alegria, né?

 

R - Depois que eu fiquei sabendo que eu fui um dos únicos admitidos na hora ali. Porque todos: "Vamos ver, vamos solucionar, depois a gente avisa." Mas eu fui admitido. "E agora? E agora?" Porque eu tinha dito: "Eu não sei." Porque ele me perguntou: "Você sabe o que faz um auditor?" "Eu não tenho a menor ideia" (risos). Não tinha a menor ideia. "Você sabe, Seu Santi, eu fiz o curso Científico e comecei a estudar Economia. Isso é tudo na minha vida. Qualquer coisa que o senhor perguntar, eu nunca vivi esse ambiente, não sei do se trata, não sei o que faz, não sei o que é um escritório, nunca trabalhei." Por isso que ele me perguntou se o meu pai era milionário. Então eu disse: "Não, não é não. Mas eu acho que reflete muito mais um esforço do que um poder econômico. Era muito mais isso." E aí eu comecei, então, a minha carreira como auditor na Arthur Andersen.

 

P/1 - E aí o senhor descobriu o que era Auditoria?                

 

R - Eu não sei se eu descobri ou me descobriram. Fizeram com que eu descobrisse.

 

P/1 - Se o senhor fosse falar o que é Auditoria para uma pessoa que não sabe o que é Auditoria...

 

R - Não, aliás, você está colocando uma coisa muito interessante, porque eu cheguei em casa, e falei assim: "Eu vou trabalhar em uma firma de Auditoria." Evidentemente todos viraram e disseram: "O que é isso?" Eu falei: "O dia que eu souber, eu conto." (risos). Mas aí eu fui pela estrutura, eu fui pelo conceito. Eu comecei a aprender também na minha vida que conceito é algo muito importante. Qual é o conceito que eu percebi ali? Foi o conceito de organização, coisas que eu comecei a ligar com o passado, de onde... O que é a disciplina, que era uma firma disciplinada, que era uma firma que tinha uma estrutura, que queria te oferecer alguma coisa e que, se você oferecesse também, desse a correspondência naquela oferenda, você poderia, junto, construir algo. Porque ninguém faz nada sozinho, que um depende do outro, e que eu faço a minha parte, você faz a sua. E a gente começa a lembrar quando a gente ia na favela fazer um trabalho, de ver o que era uma oportunidade, uma falta de oportunidade, o que é o processo de mudança, o que é o processo de inovação, o que é o processo de organização, de disciplina, essas coisas todas. Isso começou a coincidir com a minha formação. Quer dizer, eu estava exatamente dentro de um ambiente que coincidia e que tinha tudo a ver com tudo aquilo que eu tinha recebido na escola, em casa. Lá em casa nós sempre tivemos uma orientação familiar muito firme, no próprio estilo italiano. A minha mãe era tesoureira. O meu pai não tinha a menor ideia quais eram os recursos financeiros em casa, onde aplicava, onde fazia, tudo isso era controlado pela minha mãe. E nunca ninguém exigiu nada de ninguém: "Você tem que me dar isso, tem que me dar aquilo." Nós sempre fomos chamados a perceber as necessidade e cada um ter o seu nível de responsabilidade, sempre foi essa a minha educação. Eu nunca me lembro do meus pais terem me dito: "Você tem que fazer isso." Então isso começou a ter uma relação muito forte com a minha estrutura pessoal, familiar, escolar e tudo mais. Eu acabei encaixando isso em uma estrutura profissional.

 

P/1 - Sei. 

 

R - Então, foi uma simbiose.

 

P/1 - E em que momento o senhor se encaminhou para a Contabilidade propriamente dita?       

 

R - Bom, então, aí a Auditoria, a essência da Auditoria é a Contabilidade. Eu comecei a estudar Contabilidade na Arthur Andersen. Na Arthur Andersen tinha o treinamento aos moldes daquilo que era o treinamento da Arthur Andersen internacional. Na época o internacional era mais a Arthur Andersen americana. Então eu comecei a estudar Contabilidade na metodologia americana, e apanhei muito, porque está dirigido para derivadas, essas coisas assim. Um negócio um pouquinho diferente.

 

P/1 - Matemático, né?

 

R - É. Mas quando eu comecei a fazer a ligação que Contabilidade também é matemática e que, portanto, tudo tem uma lógica e você precisa descobrir a lógica. Quando eu comecei a perceber essa lógica, eu acho que isso demorou mais ou menos um mês, eu comecei a entender o que era ciência, o que era aquilo, e que tinha todo um trabalho interessante e, mais do que isso, uma carreira. Então, a gente começou a perceber que a Arthur Andersen tinha os seus grau. Tinha o assistente de Auditoria em vários níveis, depois tinha um senior de Auditoria, que tinha a sua função, tinha o gerente de Auditoria, tinha o sócio. E a gente começava também a perceber a própria visibilidade de quem eram essas pessoas, como que viviam, como era o padrão de vida, e essas coisas todas, está certo? Então a gente tem que associar uma coisa à outra. E tive que estudar muito, estudar muito Contabilidade.

 

P/1 - Como era a Contabilidade naquela época? Era manual, era maquinizada?

 

R - Não, especificamente os sistemas contábeis, eu ainda alcancei coisas, assim, que a gente poderia dizer que estava atrasada. Quer dizer, não é que era bem daquela época. As empresas não tinham muita preocupação em investir em sistemas contábeis. A Contabilidade sempre teve a sua característica de interpretar aí os eventos econômicos, mas o sistema contábil, ele era muito retrógrado, porque ninguém ia investir em sistemas, em controle, essa coisa toda. O sujeito investia em uma máquina. Entre comprar um torno e dizer que precisava melhorar o sistema contábil, ele ia comprar o torno. Hoje, o sujeito percebe que, se ele for comprar um torno, primeiro ele precisa ter o sistema contábil, senão ele não sabe se pode comprar o torno. Mais ainda, não sabe se vai poder manter o torno e não sabe o que vai fazer com esse torno. Então ele precisa do sistema contábil. O sistema contábil era muito atrasado, um negócio de gelatina, umas coisas assim, máquina não sei o que. Eu cheguei a fazer Auditoria em muitas empresas onde a escrituração ainda era manual, a pessoa fazia os Diários auxiliares, todos à mão, depois fechava aquilo, passava para um diário eral, tudo à mão. Eu cheguei a alcançar essa época, mas eu nunca pratiquei esse tipo de Contabilidade.

 

P/1 - Mas acompanhou...

 

R - Porque em Auditoria você exatamente aprende a Contabilidade e aprende a revisar aquilo que está feito, os lançamentos, etc. A interpretação daquilo que foi feito, se foi bem interpretado, à luz dos princípios contábeis e tal. Então eu nunca cheguei a fazer Contabilidade, nunca fiz isso. Mas acompanhei, e eram os livros contábeis que eu tinha que utilizar para fazer os exames de Auditoria. E aí eu segui em um processo de treinamento muito sério na Arthur Andersen, e a minha estrutura profissional foi toda feita aos moldes da Arthur Andersen, da sua linha de treinamento, das pessoas que lá trabalhavam, e que eu fico até com receio de citar algum nome, porque eu poderia até cometer uma injustiça de esquecer alguém etc. Mas eu trabalhei com profissionais de primeira linha, do mais alto gabarito, e sempre tive a preocupação de perceber não só a pessoa, mas através da pessoa. Se ele tem uma atitude dessa, qual é a razão dessa atitude? Quer dizer, isso eu reputo que é ver através da pessoa. Onde ele quer chegar com isso? Tem que ter uma lógica, tem que ter um sentido. O que significa isso? Então eu sempre procurei fazer dessa forma, de modo que eu aproveitei muito. Eu realmente aproveitei demais. Acho que isso tem a ver também com aquela minha base familiar, com aquela minha base religiosa, de orientação, etc. Porque uma coisa é muito evidente: quando a gente tem a chance, por exemplo, como eu tive, de trabalhar com esse bispo Dom Quirino, os padres sempre foram muito cultos, muito preparados e tudo mais. Então nós somos produto do meio ambiente. Se você viver em um meio ambiente sadio, cultural, desenvolvido e tudo mais, você vai assimilar aquilo. Mesmo que você não queira, aquilo é quase que epidérmico, aquilo entra em você por ali e contrai, digamos, esse tipo de vírus, que é o vírus do interesse, de querer aprender, de querer se desenvolver, de querer ser alguma coisa. Tem que ser alguma coisa, tem uma razão para ser assim, como chegou a isso, etc. Quer dizer, o intelecto está aqui, se ele estiver sadio ele está preparado para você poder desenvolvê-lo, não é? 

 

P/1 - Professor Vaini, eu vou agora entrar em um lado mais específico da Contabilidade, tá? Então primeiro eu gostaria de saber, o senhor acabou a faculdade de Economia e fez alguma coisa na área de Contabilidade, Ciências Contábeis ou não? Como foi a parte de formação?

 

R - Isso é muito interessante. Isso é muito interessante, essa sua colocação, pelo seguinte, porque na Arthur Andersen tinha um Manager Partner... Manager Partner é uma espécie de presidente, é o chefão, chamado Thomas Sumner, uma pessoa de uma visão incrível. E naquela época quem é que fazia Auditoria? Quem se submetia à Auditoria? Eram filiais ou subsidiárias de empresas estrangeiras, inglesas, americanas, uma ou outra...

 

P/1 - Brasileira não?

 

R - Da França... Não, brasileira quase nenhuma empresa...

 

P/1 - Não tinha clientes?

 

R - Tinha, mas era quase que algo mais restrito às próprias empresas chamadas Auditorias brasileiras, porque a Arthur Andersen tinha fama, na época, de ser uma Auditoria estrangeira. Então o campo do auditor era relativamente restrito, que são os clientes, porque são os investimentos no exterior, as firmas brasileiras que têm que fazer Auditoria já têm suas auditoras, e o mercado vai seguir inelástico, não vai acontecer nada. Mas, em 1964, surgiu uma legislação chamada Legislação de Mercado de Capitais, e o Sumner... Eu chamei o Sumner a vida inteira de Seu Sumner, mas estou chamando só de Sumner. Mas é com todo respeito. Ele disse: "Essa lei de Mercado de Capitais vai mudar a vida econômica desse país e mudando a vida econômica desse país, vai mudar completamente a oportunidade da atividade da Auditoria." E ele começou a recrutar, porque antes, numa firma de Auditoria como essa da Arthur Andersen, por ano entravam duas, três pessoas. E ele já fez um recrutamento de quarenta.

 

P/1 - Isso em 1964?

 

R - 1965. Fim de 1964, começo de 1965. Entre São Paulo e Rio ele recrutou quarenta. Aí você dizia: "Poxa, mas o que você está enxergando?". Os outros diziam: "O que você está enxergando que nós não estamos enxergando?" "Estou enxergando que vai acontecer e, na hora que acontecer, a Arthur Andersen estará preparada." Então ele investiu e começou a dar treinamento, depois a Price fez a mesma coisa, as outras, as chamadas big eight na época, começaram a fazer a mesma coisa e foram, então, propriamente na mesma direção.

 

P/2 - Mas ele captou contadores para treinar auditores?

 

R - Não, então, mas aí acontece o seguinte: aí, tinha uma legislação, que não era muito clara sobre quem poderia fazer Auditoria, se era o economista, se era, enfim, não era muito claro isso. O Decreto-lei 9295, do Conselho Federal de Contabilidade, era de 1946. E não tinha, assim, muito embora... Isso é um pouquinho polêmico e discutível, as pessoas acham que estava assim, estava claro e acabou. Eu tenho um pouquinho de dúvidas com relação a isso. Mas enfim, em 1972 surgiu uma legislação mais clara para as Companhias Abertas, as companhias que tinham negociações em bolsas de valores, dizendo fundamentalmente o seguinte: Auditoria é prerrogativa do contador. Então o Sumner colocou uma política, uma norma, não sei como a gente poderia chamar isso, dentro da Arthur Andersen, que só seria promovido a gerente quem tivesse o diploma e o registro, diploma de Ciências Contábeis, e o registro no CRC. Até então, não só eu, como muitos, nós estávamos lá muito tranquilos. Eu, economista, já tinha terminado a faculdade de Economia, outros lá também, tal, fazendo Auditoria. E o Sumner, que era um contador, chamado contador provisionado, porque ele tinha feito curso técnico em Contabilidade, mas depois, com a mudança na legislação, ele teve um direito adquirido. Então o chamado contador provisionado. Ele disse: "Não, aqui eu não quero confusão. Se quiser ser promovido a gerente, tem que fazer o curso de Ciências Contábeis. Sem o curso de Ciências Contábeis, negativo." E não só eu, como outros, voltamos à faculdade.

 

P/2 - Isso era em que ano?

 

R - Eu fiz o curso, eu terminei em 1971 o curso de Contábeis.

 

P/1 - Ah, então foi antes. Antes da lei?

 

R - É, porque como a própria Arthur Andersen estava trabalhando na elaboração de alguns manuais, alguma coisa assim, e a legislação não era tão clara, o Sumner sempre teve o dom de se antecipar às coisas. Ele disse: "Não, vai sair!" E saiu. Ele sempre esteve quinze minutos antes das coisas. Incrível! Uma pessoa incrível! Então ele já começou a cuidar disso, porque também tem o seguinte: é aquela questão que a gente aprende... Bom, se não acontecer, o que vai acontecer? Nada, só isso. "Ah, não aconteceu." "Tudo bem, mas você tem o curso de Contábeis." 

 

P/1 - E aí onde o senhor fez esse curso de Contábeis?

 

R - Aí eu fui fazer o curso de Ciências Contábeis na Faculdade Municipal de Ciências Econômicas e Administrativas de Santo André.

 

P/1 - Sei.

 

R - Então eu fiz o curso lá. E em 1972, quando eu recebi o certificado, aquela coisa toda, eu obviamente já me inscrevi no Conselho. Aliás, eu queria até fazer um interregno aqui. Essa questão dessa legislação de 1972, quando o Banco Central soltou as resoluções, publicou as resoluções sobre a prerrogativa para o contador, de fazer Auditoria e tudo mais, duas pessoas trabalharam muito fortemente nisso, sabe? E que eu tenho o maior respeito, porque isso não fica muito registrado, não. Eu não sei se houve chance de alguém dizer isso, mas, na época, o presidente do Conselho Federal de Contabilidade trabalhou muito para que isso pudesse acontecer. E o presidente do Instituto Brasileiro de Contadores, o Ibracon, e que na época se chamava IAIB, Instituto dos Auditores Internos do Brasil, também trabalhou muito para que isso acontecesse.

 

P/1 - Quem são essas pessoas?

 

R - Muito bem. O presidente do Conselho Federal de Contabilidade era o professor Ynel Alves de Camargo. Eu não sei se ele teve chance de mencionar isso.

 

P/2 - Ele não comentou isso.

 

R - Mas ele trabalhou... Foi muita modéstia dele. Ele trabalhou muito forte nisso, e o presidente do Ibracon, antes IAIB, era o Roberto Dreyfuss.

 

P/1 - Nós entrevistamos ele.

 

R - E também não sei se ele disse isso. Talvez com alguma modéstia também. Mas eu poderia dizer, daquilo que a gente vê na história da Contabilidade hoje, que não fora essas duas pessoas, acho que nós estaríamos com dificuldades hoje com relação à Auditoria ser uma prerrogativa do contador. Porque os economistas estavam prontos para serem, digamos assim, outorgados ali como responsáveis pela Auditoria no Brasil. Então,é óbvio que o professor Ynel e o Roberto Dreyfuss não fizeram as coisas sozinhos. Tinha uma equipe toda para isso, pessoas que elaboraram documentos técnicos, o Paulo Santi, e também o Jorge Fischer, o Geraldo Ferreira da Ponte, quer dizer, uma série de pessoas aí que, entre Ibracon e Conselho Federal, fizeram um trabalho valiosíssimo, seja de suporte, seja de ponta. O de ponta seria propriamente até pela posição. O professor Ynel, presidente do Conselho Federal de Contabilidade e o Roberto Dreyfuss presidente do IAIB, hoje Ibracon, eles que politicamente trataram o assunto. Acho que a nossa história não está registrando, pelo menos até o momento, condignamente o trabalho desses dois baluartes da Contabilidade. E creio que, só no depoimento deles, eles poderiam citar as equipes que colaboraram, digamos assim, para que isso pudesse acontecer. Então acho que é um... Eu diria que é um momento todo especial aqui da nossa conversa poder citar isso.

 

P/1 - Claro. E esse foi um momento muito importante de estruturação das regras, não foi, das normas?

 

R - Esse momento foi muito importante. Eu diria que a Auditoria no Brasil, se a gente pudesse separar, foi antes de 1972 e depois de 1972. Por que? Porque a Lei da S.A., que veio em dezembro de 1976, la já veio com uma inspiração forte daquilo que tinha sido feito em 1972, porque a lei, o Decreto-lei das Sociedades Anônimas era de 1940, que era o 2627. E essa legislação de 1972, promoveu uma modificação estrutural no que era o Decreto-Lei 2627, porém só funcionava para as Companhias Abertas. Mas, quando houve a modificação em 1976, na Lei 6404, acabou por abranger a todas as Sociedades por Ações, independente se é uma companhia com negociação em bolsa ou não. Ou seja, aberta ou fechada. Portanto, 1972 eu acho que foi um marco na história da Contabilidade brasileira, e que deu a chance, abriu caminho para que, em 1976, pudesse ser feita a Lei das Sociedades por Ações, a 6404.

 

P/1 - Professor, me fala uma coisa, a Contabilidade está sempre ligada com o que está acontecendo na sociedade ou na economia do país? Como é que o senhor faz essa ligação com relação ao que estava acontecendo e essas mudanças na legislação? A legislação se antecedeu à modificação, ela gerou a modificação, ou o que estava acontecendo gerou a mudança na lei? Como é essa história?

 

R - Eu poderia dizer o seguinte, até fazendo um paralelo com a minha atividade acadêmica de professor. Eu comecei a dar aula em 1972, exatamente quando houve essa virada na legislação. E eu fui para a Universidade no sentido de colocar os alunos a par desses acontecimentos e, exatamente na direção disso que vem a sua pergunta. Ou seja, o que vem primeiro, certo? Quem que promove? Quem é o grande agente de mudança desse processo todo? Nós devemos ficar, nós contadores, profissionais, de braço cruzado, esperando que as coisas aconteçam, ou nós devemos trabalhar na direção de analisar e verificar se realmente as coisas funcionam bem ou não funcionam? Por que não funcionam? E como poderia ser feito? Então eu fui muito com essa linha para dentro da Universidade, por um motivo muito simples: porque o estudante de hoje é o profissional de amanhã. E eu acho que, pelo menos, é uma pretensão, humilde pretensão, mas... Acho que é um pouquinho mais do que uma pretensão, eu acho que é uma intenção: eu tenho na cabeça que eu tenho que dar uma aula para o aluno poder usar daqui a dez anos, e não hoje. "Sim, mas puxa, isso é um exercício de futurologia?" Eu não sei do que a gente pode chamar isso. Mas toda ciência, até uma era um pouquinho mais recente, ela sempre foi desenvolvida na base de você explicar o que tinha acontecido. Não há mais possibilidade de fazer um negócio desse. Toda ciência hoje, você tem que pegar o que aconteceu e procurar ver o que deve acontecer. Se você não encarar a ciência dessa maneira, não tem mais chance, porque as velocidades, elas são desconformes. Ninguém mais segue o mesmo jeito. Você está pensando de um jeito, a Medicina está pensando de outro, a Engenharia de outro, a Tecnologia de outro, e assim sucessivamente. Então as ciências, hoje, têm que caminhar imaginando o que possa acontecer, usando o que ocorreu efetivamente. E não simplesmente se reportar a contar o que aconteceu. Então alguém vai para uma Faculdade de Medicina e diz assim: "Eu vou explicar para vocês como se faz uma cirurgia." Quer dizer, ele está te reportando ao passado. Eu acho que ele deve explicar assim: "Olha, eu vou explicar para vocês como que uma cirurgia vem sendo feita e porque. Mas o que a gente precisa é chegar em um ponto futuro." Onde está essa resposta? Não sei. Se justamente eu estou dizendo isso para vocês, para que vocês possam dar essa resposta. Eu não sei se é hoje ou se é daqui a dez anos. Eu acho que na Contabilidade é a mesma coisa. Então a sua pergunta é muito interessante pelo seguinte: porque nós tínhamos grupos heterogêneos de profissionais. Nós tínhamos um grupo que pensava dessa maneira, no processo de mudança, que não poderia ser assim, que já tinham experiências em outros lugares no mundo, que a coisa deveria acontecer diferentemente e tal. E outros que estavam, assim, mais posicionados. "Não, nós estamos aqui para cumprir uma lei. A lei está aí. Mandaram fazer isso e eu vou fazer." Até uma certa subserviência. Acho que isso... E não é uma crítica, é apenas uma constatação. Por razões que não vem ao caso aqui analisar, porque isso é história, então a gente não precisa chegar profundamente em uma análise histórica como essa. Mas isso atrasou um pouco o desenvolvimento da ciência. Isso amarrou um pouquinho. Por isso que eu acho que 1972 chacoalhou um pouco a todo mundo. Dissemos: "Poxa, espera um pouquinho." Certas coisas que o sujeito dizia lá, em 1955, eu não dei atenção. Deveria ter dado, etc. Mas sempre é tempo. Então de 1972 para cá a Contabilidade passou a ter um processo de iniciativa, acho que assim a gente pode chamar, muito diferente do que era antes. Quer dizer, muito mais agir do que reagir. Muito mais provocar do que ser provocado. Muito mais estimulado do que ser estimulado. E se a gente puder resumir em uma palavra, isso aqui é um processo de mudança. Quer dizer, vamos criar um ambiente de mudança. E isso se refletiu em todas as áreas, atividades, faixas e funções da Contabilidade, dos contadores e dos profissionais. É claro que, para chegar em um determinado ponto, você precisa do passado. Quer dizer, se o Conselho Federal hoje faz o que faz, se o Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo, e outros regionais, fazem o que fazem, só estão fazendo porque teve um grupo que trouxe o bastão até aqui, com todas as dificuldades, essas coisas todas. Quer dizer, eles é que permitiram você poder fazer o trabalho que faz hoje. Então hoje o Conselho, os Conselhos, o Conselho Federal, ele está... Eles... O sistema, a gente fala ele porque é o sistema, o sistema está presente em tudo. Quer dizer, indo com quem decide, indo com quem é formador de opinião e tudo mais. Quer dizer, então de fato a gente está em um processo como agente de mudança, vivendo o ambiente de mudança e colaborando com esse ambiente de mudança. Do que simplesmente, passivamente, dizer que tem uma legislação e nós vamos cumprir com essa legislação e tudo mais. Então acho que isso tem que ser incutido no aluno no ambiente universitário. Ele tem que entender que ele não está recebendo uma instrução para simplesmente executar aquela instrução. Mas ele está recebendo uma instrução onde ele tem que aplicar o discernimento daquela instrução e perceber se, à luz daquilo que vai acontecer daqui a dez anos, faz ou não sentido. Pode fazer sentido hoje, mas não necessariamente daqui a dez anos. E ele terá que ser esse agente de mudanças.

 

P/1 - E com relação ao empresário, como o empresário vê ou entende a Contabilidade? Como foi esse processo? Mudou muito ou não mudou?

 

R - O empresário, digamos, o dono da empresa?

 

P/1 - É, o usuário da Contabilidade, não o profissional.

 

R - O usuário da Contabilidade. Olha, eu posso dizer que isso melhorou muito, mas ainda deve melhorar muito mais. E aqui nós vamos discutir duas correntes filosóficas, porque existe uma corrente filosófica na Contabilidade que diz assim: "O empresário não precisa entender isso. Ele não, ele cuida do negócio, ele não precisa entender nada de Contabilidade. Para tanto ele terá um profissional ao lado dele, que vai decodificar as coisas." Essa é uma corrente. A outra corrente é a seguinte: "É bom que o empresário tenha uma noção daquilo que faz a Contabilidade." Quer dizer, ele não vai ser um profissional da Contabilidade, mas ele precisa saber do que se trata. E, portanto, se você... Vou usar um termo muito utilizado hoje, não sei daqui a dez anos, já que nós estamos falando um pouco do futuro... Se você usar de transparência na informação que você está dando, ele vai poder te entender. E se ele entender aquilo que você está dizendo, ele tem chance de te valorizar, porque normalmente as pessoas que não compreendem dificilmente vão... Então: "Vamos assistir uma ópera." O sujeito dorme. "Como? Você dormiu durante a ópera?" "Para mim não serviu para nada." Provavelmente ele não entende o que é ópera. Eu, por exemplo, jogo de beisebol me dá um sono tremendo, sabe? Por uma razão muito simples, eu não entendo nada de beisebol. Você entende alguma coisa? Eu não entendo absolutamente nada. Fiquei sabendo ontem que o jogo de beisebol é por contagem. Então é capaz do sujeito jogar dois dias lá até que eles se entendam. Mas se um dia eu entender as funções de cada atleta e qual é o significado coletivo que tem aquele giro, que todos têm que girar ao mesmo tempo e tudo mais, e qual é a fundamentação do valor do atleta em si, como o ponto é feito... Por que o ponto é feito? Ele acontece ou é o atleta que faz? Então, de repente, eu vou começar a gostar de beisebol. 

 

P/2 - Vai ver com outros olhos.

 

R – Não vou jogar beisebol nunca, evidentemente. Não vou, não vou, mas eu vou poder entender. Então dá para perceber que eu sou adepto da alternativa B. Eu acho que as pessoas têm que ter uma mínima noção, e depois o aprofundamento é por conta dele, daquilo que você está fazendo. Até porque, no mundo de hoje, não adianta, você pode ir a um médico, se você perceber que o médico não lhe é claro, você não volta mais lá. Então dizer: "Não, eu estou tranquilo. Ele é o médico." Ele diz assim: "Daqui a três meses você vai sarar." Não é razoável isso. Você quer saber porque, o que você vai fazer, que cuidados você toma, se faz sentido, se é esse remédio mesmo, se é de oito em oito horas, você precisa... Quer dizer, então, hoje, o médico lhe dá uma orientação. Evidentemente, ele não vai chegar para você: "Olha, se você tomar Fenolftaleína, vai acontecer um negócio." Ele não vai dizer esse negócio. Ele vai dizer que você vai tomar um negócio, e o processo de regeneração orgânica e tudo mais, vai se fazer dessa forma, e você, até por uma razão muito simples: sabe quem administra a sua saúde? Você. Então se o sujeito está administrando um negócio e ele não tem uma ideia do que está acontecendo no negócio, como é que ele pode administrar um negócio? Então com todo o respeito à alternativa A, eu sou da alternativa B. Dentro dessa linha, isso traz um up-grade, traz, digamos assim, um salto de qualidade naquilo que o profissional está fazendo extraordinário. Porque você passa a atribuir ao empresário o ônus de te procurar: "Preciso de um contador. Isso aqui, puxa, isso aqui, tal...." Assim como você diz assim: "Esse tipo de construção aqui, eu tenho que chamar um arquiteto, que ele tem que colaborar com o engenheiro." Você passa a discernir. Há uma diferença entre conhecer a ciência e você saber da ciência. Eu acho que isso, hoje, está mais acontecendo com os contadores, tendo uma visão um pouco diferente do mundo, tendo um relacionamento mais importante com o empresariado e, portanto, na extensão que as pessoas entendem melhor, ou entendem o que você está fazendo, pode te valorizar. Pode saber quem é você, pode saber da importância do teu trabalho, e que não é uma simples assinatura em uma demonstração contábil que pode ser o suficiente para ele. Ele quer um pouco mais do que isso, porque ele sabe que você pode fazer um pouco mais do que isso. Então eu acho que o empresário, hoje, está muito nessa. E eu até estenderia aí a sua colocação para outros níveis extremamente importantes e que têm uma afinidade com a Contabilidade muito grande, por exemplo, o advogado. Eu mesmo tenho tido a chance de dar vários cursos de Contabilidade para advogados, procurando focar e interpretar qual é a visão que o advogado tem de um patrimônio, por exemplo. Que é uma visão jurídica, diferente da visão contábil, econômica. E como você liga isso? Como você pode encontrar um ponto de convergência para que ele tenha a chance de poder compreender o que você está falando? Agora, concordar ou discordar, ele até pode concordar ou discordar com fundamentos. Então não é só o empresário, mas eu acho que é o analista de crédito, é o advogado, é o próprio engenheiro em si, porque tem a ver com áreas importantes da Contabilidade, como custos, por exemplo. A pessoa, o administrador que cuida de pessoal, que cuida de marketing, ele tem que ter uma noção que, se ele vai desenvolver um produto, aquele produto tem um custo e que precisa ser recuperado no futuro. E o que pode acontecer se ele detonar um processo de desenvolver um produto em um determinado momento, relativamente à rentabilidade daquela empresa nos próximos quatro ou cinco anos.

 

P/1 - O senhor está dizendo, então, que precisa a ver um pouco de um conhecimento comum dos vários setores. Por exemplo, o engenheiro, o usuário empresário e o contador tem que ter um mínimo de uma linguagem básica que as pessoas possam se entender e se comunicar?

 

R – É. Tem que ter um padrão, tem que ter um padrão de comunicação. Padrão de comunicação não necessariamente representa conhecimento. Eu acho que saber das coisas... Há uma construçãozinha, que na filosofia se faz: "Saber algo, saber a respeito de algo e saber de algum modo." Então saber algo, é isso que nós estamos falando. Tem que saber algo. Saber a respeito de algo. Quer dizer, alguém que precisa se aprofundar um pouco mais. E saber de algum modo, esse é o profissional. Ele tem que, de algum modo, conhecer aquele tipo de coisa. Isso é uma construção filosófica, mas que eu achei muito interessante quando eu encontrei isso em um escrito. E a gente está exatamente falando desse tipo de coisa, ou seja, em qualquer ambiente as pessoas têm que ter um mínimo de "saber algo". Se você pratica uma religião, provavelmente você tenha que saber a respeito de algo, quer dizer, você está em um estágio, por que? Porque é um, digamos, é uma profissão de fé, algo assim, tal etc. Agora, não necessariamente você vai ser um pregador e tudo mais. Porque, se você quiser chegar nesse ponto, você vai ter que conhecer profundamente todas essas implicações. Então, quando a gente fala que é necessário que as pessoas tenham conhecimento, a gente usa uma expressão: "Preciso dar ciência." Eu dou ciência de alguma coisa, quer dizer, você está informado disso. Então é muito mais no campo da informação que é, digamos, um atributo que a Contabilidade tem que trabalhar muito fortemente, e que vem trabalhando. E que, provavelmente, seja a pedra angular de tudo isso que nós estamos falando. Porque a Contabilidade antes vivia muito passivamente do registro. A gente diz passivamente, mas isso não era importante? É óbvio que é importante, mas não é só isso, certo? Então vivia do registro. "Porque você fez isso?" "Mandaram que eu fizesse assim, estou fazendo isso." Aí depois começou a migrar para controle. Poxa, então não é só registro, é controle. Quer dizer, eu tenho que saber como é que eu protejo os meus ativos, o que eu tenho, onde fica o banco, quanto que eu tenho no banco, quanto que eu devo, quanto que eu tenho que pagar, quando que eu tenho que pagar, quando que eu tenho que buscar mais dinheiro para pagar, quando que eu vou receber. Quer dizer, controle. E a informação. Então, registro, controle e informação, se você atingir a esses três atributos que a Contabilidade lhe coloca, você consegue fazer com que as pessoas se utilizem na plenitude da Contabilidade. E quando você coloca alguém que possa juntar todos esses atributos, provavelmente esse já está conhecendo todos os princípios, todas as normas, quase que se tornou aí um profissional da Contabilidade. Eu acho que é muito nesse sentido que a gente tem que trabalhar com os alunos.

 

P/1 – Sei.

 

R – Muito nesse sentido. Porque isso vai permanecer, isso não se altera. Isso só evolui, isso só evolui.

 

P/1 – E o senhor falou que trabalhou bastante no desenvolvimento dentro das Comissões Técnicas das entidades contábeis.

 

R – É verdade.

 

P/2 – Como foi esse trabalho? O senhor ainda trabalha? O senhor consegue resumir um pouco como foi essa evolução?

 

R – Consigo, consigo. Eu comecei nas Comissões técnicas do Ibracon no começo dos anos oitenta, logo que o Ibracon formou suas Comissões Técnicas. E para mim foi muito bom, porque logo a seguir eu deixei a cadeira de Auditoria e comecei a dar a cadeira de Teoria da Contabilidade na PUC de São Paulo. Então foi ótimo poder participar dessas Comissões, porque durante um período, eu tenho que admitir aqui e declarar que eu só explorei as pessoas. Quer dizer, eu dei muito pouco, eu recebi na Contabilidade aí, e eu fiquei devendo muito, sabe? Então eu convivi com luminárias de fato da Contabilidade, nesses grupos técnicos, e eu ficava até muito admirado, porque muitas daquelas pessoas eu conhecia por livros, conhecia por artigos. Eu comecei a ter a chance de estar junto com Hilário Franco, com Ernesto Marra, com o próprio Sumner, com o Santi, com Rui de Dell'Avanzi, com Irineu de Mula. Enfim, com Sérgio Approbato Machado, com Vinicio Presti, quer dizer, pessoas já muito experientes e tudo mais, e de uma humildade fora do comum. Quer dizer, eles sabiam que eu não tinha dez por cento da experiência deles e me tratavam como se eu tivesse mais experiência, com todo o respeito. Então isso me deixava, assim, em uma sublimação. Eu falava: "Puxa vida, mas que respeito, que lição!", esse tipo de coisa. Quer dizer, zero de vaidade, zero de vaidade. Então eu comecei, nessa época, comecinho dos anos 1980, e essa foi a porta de entrada para as entidades junto com as Comissões Técnicas. Depois eu fui ser vice-presidente de assuntos culturais e ensinos do Ibracon, da seção regional. Logo a seguir eu fui o presidente do Ibracon, da Seção Regional de São Paulo. Logo a seguir eu fui ser presidente da Diretoria Nacional do Ibracon, foi uma coisa, assim, quase que inusitada, nem sei, eu não tenho registro que alguém tenha feito isso, como aconteceu comigo. Mas eu sempre tive uma preocupação de que, muito embora isso tivesse uma conotação política, não há como dizer que não, mesmo sendo o Ibracon, que é uma entidade que prima pelo desenvolvimento técnico da profissão, no ambiente cultural e tudo mais, mas tem o seu jargão político. E eu sempre tive o cuidado de não abandonar as Comissões Técnicas, porque o que eu gosto de fazer mesmo é parte técnica. É de conhecer a essência das coisas e discutir, de poder ver como que aquilo você interpreta. Então eu sempre continuei nas Comissões técnicas em todo esse período. E, depois do Ibracon, eu fiquei um tempo no Conselho Regional de Contabilidade, e fui eleito para o Conselho Federal de Contabilidade, onde eu fui ser vice-presidente de assuntos técnicos. Eu fui o primeiro vice-presidente de assuntos técnicos do Conselho Federal de Contabilidade. Era um cargo que não existia. Por que? Porque o Conselho Federal cuidava muito mais de registro e fiscalização. Eu disse ao Ivan Gatti que... Eu era presidente do Ibracon, ele estava sendo eleito presidente do Conselho Federal de Contabilidade, eu disse ao Ivan Gatti que... Ele veio pedir apoio do Ibracon, eu não sei bem a razão até hoje, porque o Gatti veio pedir apoio do Ibracon, porque o Ibracon é um grupo muito pequeno, mas o Gatti disse que ali estava, de fato, a essência do conhecimento contábil do Brasil. Palavras do Gatti. Nem sei se ele repetiria isso hoje, mas ele estava em campanha, a gente tem que admitir, né? (risos). E eu disse ao Gatti que o Ibracon estava disposto, desde que o Conselho Federal de Contabilidade cuidasse da parte técnica. E ele disse para mim: "Eu vou cuidar da parte técnica. Eu prometo a você que eu vou cuidar da parte técnica." Eu também tomei aquilo como uma promessa de campanha. Mas o Gatti, no dia em que ele foi tomar posse, ele me chamou no Rio de Janeiro, eu era presidente do Ibracon, ele disse: "Vamos constituir o grupo das Normas Brasileiras de Contabilidade." Na verdade, reconstituir, porque ele existia e tinha ficado parado oito anos, alguma coisa assim. "Não é que é verdade, tchê!" O gaúcho está de fato... "Eu não lhe prometi isso? Vamos fazer." E ele disse: "Bom, como nós vamos fazer?" "Nós vamos fazer um grupo de nove pessoas: o Ibracon indica quatro, o Conselho Federal indica quatro. E nós precisamos de um coordenador. E o coordenador, se você não se importar, o Conselho Federal de Contabilidade gostaria de indicar, desde que o Ibracon concorde." "Pois muito bem. E quem é a pessoa?" "É o professor Ynel Alves de Camargo." Nem haveria como discordar, né? Imagina. Porque o professor já era o coordenador do grupo anterior. Então nós formamos um grupo das Normas Brasileiras de Contabilidade, capitaneado aí pelo professor Ynel, e começamos a produzir muito, a produzir muito mesmo. E logo a seguir, então, eu fui eleito vice-presidente de assuntos técnicos, que o Gatti também criou, porque disse: "Não, o Conselho Federal precisa se ocupar da parte técnica da profissão e, para tanto, precisa ter um cargo aqui. É só assim que vai funcionar." Então eu continuei a participar das Comissões Técnicas do Ibracon, da Comissão Técnica do grupo das Normas Brasileiras de Contabilidade no Conselho Federal de Contabilidade, vice-presidente de assuntos técnicos do Conselho Federal de Contabilidade, e foi uma época que eu tenho muito orgulho em dizer que foi de enorme produção. Eu digo que eu tenho muito orgulho em dizer não que... "Ah, quer dizer que foi você que fez?" Não, ninguém faz nada sozinho. De ter tido a chance de participar nesse momento importante da Contabilidade brasileira, onde foi uma virada. Foi realmente uma virada, no que diz respeito a assuntos técnicos e que de repente passou a constar de editais de concorrências. Como é? De concursos públicos, essas coisas assim, que aquele assunto seria feito baseado nas normas escritas pelo Conselho Federal. Poxa, então o reconhecimento está aí. Não precisamos de mais nada. Daqui para frente é só seguir com o trabalho. Então eu tenho muito orgulho mesmo de ter participado com esse pessoal, nessa época. E aí eu deixei, terminou meu mandato no Conselho Federal de Contabilidade, mas eu segui sempre nas Comissões Técnicas, hoje eu estou na Comissão Nacional de Normas Técnicas do Ibracon, faço parte da Comissão Consultiva da Comissão de Valores Mobiliários. E todos os assuntos técnicos que possam aparecer e tudo mais, e que eu sou chamado a colaborar, eu vou com a maior satisfação, com o maior prazer.

 

P/1 - Bom, então vamos retomar, nós demos uma paradinha, eu vou aproveitar essa pausa e vou fazer uma pergunta específica, que eu queria que o senhor falasse um pouquinho sobre o professor Hilário Franco. Já que nós demos essa parada, o senhor conheceu ele? Qual era a atuação dele, enfim, por que ele foi uma pessoa tão importante?

 

R – Pois é. Interessante essa pergunta, porque essa pergunta acaba entrando no campo formal e no campo emocional. Formal, onde a gente pode ficar à vontade para dizer das qualidades do professor Hilário Franco e tudo mais. Mas eu tenho a impressão que eu vou ficar meio traído aí pelo lado emocional, sabe? Então eu não sei se conseguiria expressar o que eu sinto, o que poderia traduzir o professor Hilário Franco. Mas eu vou tentar, eu vou tentar. Nessas comissões, como eu mencionei, umas das pessoas que ali participavam era o professor Hilário Franco. E ele olhava para mim e pedia a minha opinião. Mas ele não pedia a minha opinião para ver se eu sabia das coisas. Ele pedia a minha opinião com o respeito de que nós estávamos ali em uma equipe, que foi o que eu mencionei anteriormente, de como as pessoas trabalhavam nesse tipo de coisa. E ele fazia isso com todos. E o interessante é que, quanto mais ele fazia isso, mais as pessoas o respeitavam. Ou seja, ele tinha uma característica de humildade tão interessante que quanto mais ele se manifestava dessa maneira, mais ele crescia diante dos olhos das pessoas, sob todos os pontos de vista. Respeito pessoal, respeito profissional, respeito acadêmico. E isso não vem sozinho, evidentemente isso não vem sozinho. Então o professor Hilário... Eu não me lembro de ter visto o professor Hilário alterar a voz uma só vez. Ele sempre falava no mesmo tom, com a mesma entonação, o mesmo equilíbrio, com a mesma sobriedade e sem agredir ninguém. Muito pelo contrário. E tinha uma precisão extraordinária nas observações, na colocação das ideias. Então ele inspirava paz, na maneira que ele falava às vezes, nas discussões acaloradas, tal. Quando o professor Hilário falava, ele restabelecia o controle do ambiente. Ele sempre teve essa característica, a forma dele agir, a cautela até, em dizer as coisas. E era o tipo da pessoa que toda vez que você ia conversar com ele, você aprendia algo. Ele sempre te ensinava alguma coisa. Você terminava de conversar com o professor Hilário, falava assim: "Aprendi mais uma." E ele fazia isso não porque ele estava ali para te ensinar. Estava ali porque ele estava se doando, estava conversando com você, mas o preparo dele, o equilíbrio, a lógica, o raciocínio, a abordagem era de uma precisão tamanha, que ele acabava passando isso para você, você sempre aprendia alguma coisa. E quantas vezes a gente viu o professor Hilário Franco nos Congressos e Convenções na primeira fila, sentadinho ali, escutando as palestras, atentamente. Quantas palestras fiz eu com o professor Hilário ali, e com uma reação interessante. Porque, às vezes, você tem uma pessoa dessa na platéia, você pode se sentir nervoso, se sentir inseguro. Ao contrário, ele lhe transmitia segurança, ele lhe transmitia conforto. Você parece que sentia, assim, que irradiava dele ali: "Vai que é isso mesmo. Vai que eu estou aqui torcendo por você." Quer dizer, eu sentia, assim, desprender do Hilário, na alma dele, algo dessa natureza. E é claro que uma pessoa dessa jamais vai poder ser esquecida e tem que ser muito respeitada. Muito embora não tenha tido a chance de ter um convívio, assim, mais de ambiente familiar com o professor Hilário, mas a gente percebia o carinho enorme que ele tinha pelos filhos, especialmente pela Dona Maria, esposa dele. E aí você chega à seguinte conclusão: "Acima de tudo, ele é de carne e osso. Ele é humano. Ele não é uma figura tipo Cyborgue, que foi construído, por isso que vale seis milhões de dólares não. Ele é gente." E isso traz mais valor e tudo mais. E na história da vida dele a gente sabe que ele construiu as coisas com muito sacrifício, com muita dedicação. Não veio nada sozinho, ele foi buscar tudo que ele conseguiu, tudo que ele fez. E eu poderia até ressaltar, talvez, uma faceta que não sei se todos conhecem, de um bom humor incrível, um bom humor. Eu cheguei até à conclusão que as figuras proeminentes da vida são bem humoradas. Eu acho que esse é um dos segredos. Então o professor Hilário Franco era muito bem humorado, ele sempre tinha uma história interessante para contar, ou participava das histórias. E de uma simplicidade incrível. Ele não faltava a nenhum compromisso. Porque pessoas dessa natureza: "Não, imagina, é lógico que não veio, está ocupada." Ao contrário, ele sempre levou as coisas com muita seriedade e muita disciplina.

 

P/1 - E disponível pelo jeito, né? 

 

R - Sempre estava disponível, sempre. Qualquer coisa que se pedia. No grupo das Normas Brasileiras de Contabilidade, ele não fazia parte do grupo das Normas Brasileiras de Contabilidade, mas dificilmente saia um pronunciamento técnico que o professor Ynel não tivesse entregue ao professor Hilário Franco, para que ele desse o aval dele. Em nenhum pronunciamento, em nada. Então eu acho que o meu lado relativamente de manifestação com o professor Hilário é um pouquinho mais emocional, porque nós tivemos uma convivência profissional muito forte, e mais onde eu aprendi a conhecer o valor do profissional através do ser humano Hilário Franco. Isso para mim conta muito.

 

P/1 - Muito bem. Bom, talvez eu vá querer saber um pouquinho mais sobre o lado do ensino da Contabilidade. Para que caminho ele vai hoje, já que o senhor sempre fala que tem que ter essa ligação com o futuro, e como ele era, vamos dizer assim, dentro da história da Contabilidade, que percurso que ele... Se der para fazer uma coisa sintética, enfim.

 

R - Dá sim, dá sim. Eu acho que a Contabilidade, exatamente por causa da própria estrutura da legislação de ensino, que não era um curso superior, era um curso de nível médio, e com algumas utilizações restritas. Não por causa da Ciência Contábil, porque já os grandes pensadores sempre disseram a finalidade, o objetivo da Contabilidade, cada um da sua maneira, mas sempre isso foi dito ao longo da história. Mas a aplicação, a prática estava mostrando algo um pouquinho diferente daquilo. Talvez esse problema seja uma faceta da Contabilidade, que era muito fortemente a questão do registro. Isso é um mal necessário, precisa ter o registro, precisa ter a apresentação de dados ao Fisco, para efeito de recolhimento de tributo, essas coisas todas. Então isso ganhou uma força muito grande, que era propriamente a orientação que vinha das escolas no nível médio. Quando isso passou para o curso superior, ainda durante um tempo isso seguiu, e aí existe uma série de coisas que a gente teria que aliar para explicar, dentre as quais essa questão de que praticamente não existiam escolas superiores de Contabilidade no interior de São Paulo e em outros lugares do Brasil, tudo mais. Então isso vai restringindo e limitando um pouco o desenvolvimento da ciência. Mas eu acho que o intercâmbio com empresas de Auditoria chamada estrangeiras, que eu acho que estrangeiras não tem nada. Hoje, com a globalização, o mundo é uma ervilha, não é nem mais uma azeitona. Mas esse intercâmbio, através principalmente do Ibracon, o Ibracon eu acho que foi o órgão que conseguiu trazer as correntes, porque o IAIB, na verdade, é produto de uma fusão de dois institutos: um chamado o Instituto de Contadores Públicos do Brasil, onde estavam mais os sócios das empresas chamadas multinacionais, estrangeiras, e tinha o Instituto, acho que de Auditores, alguma coisa assim, que chamava, Instituto Brasileiro de Auditoria, o nome acho que era mais ou menos esse. Então da fusão surgiu o IAIB, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil. O IAIB conseguiu trazer essas correntes, conseguiu promover esse intercâmbio, e isso começou a colaborar muito no desenvolvimento da profissão. Porém, de uma maneira um pouquinho desorganizada no que tange a parte do ensino, a parte acadêmica, porque isso se refletia exclusivamente no ambiente profissional. Então tinha assim, digamos, um lapso entre o desenvolvimento profissional e o desenvolvimento acadêmico, a ponto de que a pessoa saía da escola, saía da Universidade e entrava em uma firma de Auditoria, ia para um ambiente profissional, e não tinha nada a ver uma coisa com a outra. De certa maneira foi o que aconteceu comigo. Agora, com todo esse desenrolar histórico que nós comentamos aqui, das legislações e tudo mais, de pessoas dessas empresas de Auditoria que foram para a academia, para poder ministrar aula, etc., isso começou a se difundir, começou a se divulgar, começou a promover um pouco mais intercâmbio. As empresas de Auditoria passaram a fazer um recrutamento muito forte diretamente nas universidades. Então começou... Vem colaborando para o desenvolvimento do próprio mundo acadêmico. A academia é um capítulo à parte, sempre vai ser em qualquer ciência. A Universidade sempre se colocou no ponto de ser a grande emanadora da cultura de um povo e, portanto, tudo depende de mim, eu não dependo de ninguém. Eu acho que isso está modificando, sem que a academia perca a soberania dela, mas que se coloque no seu devido lugar no que diz respeito principalmente ao âmbito da pesquisa. A academia tem que reconhecer que você prepara pessoas para um mercado, para uma comunidade e, consequentemente, ela tem que estar ciente de responder à altura a essa comunidade, às necessidades dessa própria comunidade. Se isso de fato for uma verdade, e partindo do pressuposto de que nós vamos superar isso, a evolução, principalmente da Contabilidade, vai ser enorme. Por que? Porque quando a gente fala, dentro de uma Universidade, que você tem que preparar alguém para daqui a dez anos, preparar alguém para daqui a dez anos onde? Para viver na comunidade, para viver num mundo econômico, para viver num mundo globalizado. Então esse intercâmbio de profissionais e academia tem que ser muito bem balanceado e seguido. E eu sou testemunha de que isso vem acontecendo, principalmente na PUC de São Paulo. Houve uma mudança no currículo do curso de Ciências Contábeis. Ele era cumprido em dez semestres, cinco anos, hoje é cumprido em oito semestres, quatro anos. E na PUC em São Paulo, nós fizemos uma modificação curricular muito forte, e criamos áreas de pesquisas, onde desde o primeiro instante que o aluno entra no curso, ele tem que entender que ele tem que ser bem bibliografado. O segredo do profissional é estar bem bibliografado. O que é estar bem bibliografado? É você ter acesso à pesquisa, é saber onde você vai buscar as coisas. Porque isso vai funcionar para o resto dos dias. E não simplesmente aquilo que lhe foi dito, aquilo que eu aprendi, eu produzo. Se eu não aprendi, não produzo. Não, o que você tem que aprender é que você tem que se bibliografar bem, porque é isso que vai seguir. Então lá na PUC, nós criamos algumas cadeiras, uma delas eu também estou conduzindo nesse semestre, chama-se Seminários de Tópicos Especiais de Contabilidade. Então isso vai rodar em todos os primeiros semestres: Seminário I, Seminário II, III e IV. No segundo semestre, roda uma outra cadeira, que se chama: Práticas na Área Contábil. E que roda no segundo semestre do primeiro para o segundo período: I, II, III e IV. Então nós vamos ter no primeiro período Seminários de Tópicos, no segundo Práticas na Área. E vamos seguir até o final do curso. E aí culmina com aluno fazendo uma... Como que chama? Um trabalho, que é uma monografia. Já no segundo semestre o aluno tem uma cadeira chamada Introdução à Pesquisa, que é exatamente para seguir nessa linha. E aí tem as cadeiras técnicas de Contabilidade, cursos de Contabilidade avançada, intermediária, Técnicas de Medição de Desempenho, enfim, e a parte de legislação. Então tem a estrutura, digamos, técnica do curso, e tem aquilo que é o alimentador, que vai seguir para o resto da vida. Então o aluno já começa a aprender o que é pesquisar, ele começa a ter informações através da cadeira de Seminários de Tópicos Especiais e de Práticas na Área de Contabilidade aquilo que está acontecendo. Porque o aluno pode entrar na Universidade hoje, sai daqui a cinco anos, ele pode sair com uma informação de dez anos para trás. Porque aquilo que você está ensinando, se é baseado no histórico, você já está ensinando cinco anos para trás. Ele tem mais cinco anos ou quatro ali, quer dizer, quando ele termina, ele está dez anos desatualizado. Hoje isso não é mais possível. Tem que criar mecanismos para que ele vá acompanhando esse desenvolvimento e, mais do que isso, ele vá projetando esse desenvolvimento. Quer dizer, para ir puxando o seu conhecimento, a sua área de conhecimento e o seu desenvolvimento. Então, digamos, nós estamos para ter uma modificação da Lei das Sociedades por Ações. Até que isso pudesse fluir para dentro da Universidade, com a mudança do programa para o professor poder ensinar isso para o aluno, acabou o curso. Ele sai do curso e não sabe o que é essa mudança da lei. Agora, com cadeiras dessa natureza, é imediato, é instantâneo. Aconteceu uma mudança. É já. Tem que saber agora. Em que nível? No nível que ele estiver. Você não pode dar uma dose maior do que o paciente pode, de fato, admitir ou comportar. Aí vocês poderiam dizer: "Mas e as outras universidades?" Olha, a PUC sempre tem encabeçado o ranking dos cursos de Ciências Contábeis, está certo? E tem servido aí de referência para muitas escolas. A gente está à disposição para apresentar esse trabalho, se alguém acha que é interessante ou não. A gente até espera que as pessoas sigam, porque não adianta, você não consegue criar uma profissão com uma escola forte, com dez escolas fortes, e com cinco escolas no Estado de São Paulo. Você só vai criar uma profissão forte se o país inteiro puder se conscientizar que precisa fazer esse tipo de mudança e ter uma integração. Nisso o Conselho Federal de Contabilidade têm um papel fundamental. Porque provavelmente, mais do que o Conselho Nacional de Educação, ele tem o poder de catalisar e distribuir, e irradiar isso que está acontecendo. Se o Conselho Federal de Contabilidade sabe do trabalho da PUC e acha que isso vale a pena ser divulgado, ele tem mecanismos para fazer isso. Ele faz chegar do Oiapoque ao Chuí, em qualquer lugar. E isso representa que você tem chance de fazer uma mudança muito forte no processo de ensino, de tal sorte que, sem perder o élan daquilo que a pessoa precisa conhecer, da técnica contábil, das normas, dos princípios e tudo mais, ele se prepare para um mundo de mudanças. Quer dizer, nós não vamos entrar em um mundo de mudanças, nós já estamos nesse mundo de mudanças. Então você tem que preparar a pessoa.

 

P/1 - Para ela participar dessa mudança. 

 

R - Para ela poder acompanhar essa mudança e até, quem sabe...

 

P/2 - De ser um agente ativo também.

 

R - Exatamente. Até, quem sabe, passar a exercer um poder maior no processo de mudança. Então eu não vou dizer que eu acredito muito nisso. Eu acredito só nisso porque, se não for dessa forma, e as outras áreas de conhecimento estão mostrando isso muito claramente. Essa questão que o Brasil hoje tem tecnologia de ponta para fazer Biotecnologia, como está se processando e tudo mais, não há possibilidade das universidades desse ramo de ciência agir diferentemente. Senão você vai ficar com um vazio aqui que você não consegue, não tem ponte que ligue uma coisa à outra. Então o grande segredo da universidade é estar plugado nas coisas que estão acontecendo, e fazer com que essa transferência do mundo acadêmico para o mundo profissional se processe de uma maneira sem dor. Quer dizer, não pode ser dolorido. Então a pessoa chega: "Como eu estou sofrendo agora no mercado." Não pode ser assim. Tem que ter uma sequência, de muito sacrifício, de muito esforço, de muita dedicação e tudo mais, mas não pode ser algo que a pessoa diz assim: "Não estou preparado." Não pode. Isso não pode ser, isso não vai funcionar.

 

P/1 - Então agora eu vou voltar um pouquinho para a sua vida familiar. O senhor falou que tem uma filha.

 

R - Exato.

 

P/1 - E ela está estudando Ciências Contábeis?

 

R - Ciências Contábeis.

 

P/1 - E isso daí foi o quê? Ela aprendeu a gostar com o senhor?

 

R - Não sei, só ela poderia responder isso, eu acho que é uma pergunta mais para ela. Mas foi uma opção dela. A minha mulher é advogada, e nós nunca exercemos nenhum tipo de pressão para que a escolha fosse uma ou outra. Ela achou que deveria ser isso, está gostando, tem liberdade de mudar, se quiser. A gente até pode ter, digamos assim, esse espaço na vida para poder oferecer esse tipo de coisa. Tem liberdade se quiser mudar. Não quer mudar, quer completar, quer trabalhar comigo.

 

P/1 - Ela já trabalha, faz algum trabalho ou não?

 

R - Ela ajuda. Dentro dos seus limites, me ajuda. Mas ela quer fazer mais. Eu acho que a gente tem que ir com um pouco de calma, ver se o emocional não está suplantando o racional. Mas me dá muita satisfação, ela já foi minha aluna. Acho que é bom isso, poder dizer que ela foi minha aluna, e ela se sente muito bem, não só no que tange ao curso, mas também no ambiente universitário, que a PUC tem, assim, uma magia um pouco difícil de explicar. Eu não saberia explicar (risos). Mas tem uma magia que as pessoas, de fato, gostam muito da convivência ali. Então eu fico muito satisfeito, evidentemente, mas eu diria que a minha satisfação maior é vê-la bem, vê-la feliz, em qualquer coisa que ela quiser fazer. Eu não vou dizer assim: "O meu sonho é que ela também seja contadora e que..." Não propriamente. É claro que isso pode ter, assim, um plus de satisfação, meramente por uma questão de analogia, uma coisa com a outra. Mas não que seja propriamente uma intenção. O desejo que a gente tem é que ela se sinta bem. Só isso.       

 

P/1 - E com relação ao registro, vamos pensar na memória da Contabilidade, ou... A pergunta talvez fosse se o senhor acha que tem alguma coisa que nós não falamos que seria importante, algum tema, algum conceito que seria importante para, na hora que a gente estiver pensando na memória da Contabilidade... Coisas que já aconteceram, que nós não falamos?

 

R - Olha, eu não mencionei uma passagem aqui, e que para mim tem um certo grau de importância. Não poderia dizer que seja uma coisa, assim, sine qua non, mas o meu irmão mais velho, o Arthur, com "th", ele é uma pessoa muito especial. E ele não gosta que eu fale isso, mas ele é autodidata. Ele se alfabetizou sozinho, ele aprendeu a ler e escrever sozinho. Enfim, entrou no terceiro ano de grupo, essas coisas aí. Uns negócios, assim, que você vai achar um em mil, dois mil na população, se tanto, né? E sabe que ele fez um curso de Contabilidade por correspondência quando ele tinha treze anos de idade. No interior, ele viu no jornal um negócio assim: "Curso de Contabilidade por Correspondência." Então ele se inscreveu. E eu acho que alguém deve ter dito: "Imagina se doze anos, treze anos, vai fazer curso de...?" Mas tudo bem, se inscreveu. Então mandava lá os manuais, o sujeito fazia o exercício, aí devolvia, aí mandava o outro manual. E ele fez o curso inteiro. Até hoje ele tem essas apostilas guardadas com ele, e tem um certificado, que ele poderia até ter...

 

P/1 - Exercido.

 

R - Sei lá. Não, poderia ter registrado isso. Não sei bem, porque isso deve ter sido lá por 1942, 43, alguma coisa assim. Nem existia a 9295, a 9295 é de 1946. Então eu tive em casa uma pessoa que entendia de Contabilidade, muito embora ele nunca tenha exercido Contabilidade. Ele foi para outros campos de planejamento, em área de Engenharia, essas coisas todas. Mas ele conhece, ele conhece. Mas a grande pedida da época era estudar o registro contábil, como é que você mexia com as contas. Era um regime, se a gente pudesse dizer assim, se fosse rebuscar aí na história, seria corrente contista, onde a conta é o mais importante e tudo mais. Então ele tem perfeito domínio do que é a conta, desde de _______. Quer dizer, é um negócio lá para trás. E que eu comecei a perceber isso depois que estava na Auditoria, que eu peguei aquilo e pensei: "Mas que coisa incrível!" "E o que é isso aqui?" "Ah, isso aí um dia eu escrevi para um jornal, para uma revista, peguei, inscrevi e fiz, tal." E a gente começa a ver como que era a Contabilidade que o pessoal praticava propriamente e o que é a Contabilidade hoje. Eu acho que hoje a Contabilidade está extremamente sofisticada, e está totalmente conectada com um negócio muito importante, e eu digo isso felizmente, que é um negócio chamado tecnologia. Quer dizer, a Contabilidade hoje está realmente na linha da tecnologia. Se não fosse isso, eu diria que a gente estaria com um risco enorme. Mas os profissionais brasileiros abraçaram de tal forma essa linha de aceitar e, mais do que isso, aderir à tecnologia no processo contábil, que nós estamos bem. Nós não temos mais limites. Então o aspecto do registro, que o meu irmão fazia naquelas apostilas lá, no lápis, o arroz e feijão ali, como a gente podia dizer, e de hoje, que você tem sistemas todos integrados, que com o código de barra, passa um produto, já faz todo o sistema contábil, já registra tudo, já calcula margens, essas coisas todas. A Contabilidade está perfeitamente respondendo a toda essa linha tecnológica. E quando você se engaja em um processo desse, você vai junto. Não tem como mais você se desconectar, até porque você não consegue viver de outra maneira. Qualquer um de nós aí que disponha aí de um equipamento de informática, não dá mais para ser diferente. Você fica até imaginando como é que poderia: "Puxa, mas como era?" Não tem como ser de outra maneira. Então eu acho que vale a pena o registro e como nós estamos falando aqui de memórias, eu não sei o que vai acontecer quando alguém estiver assistindo um depoimento desse daqui a dez ou quinze anos, está certo? Assim: "Puxa vida, eles falavam de tecnologia!" Hoje nós temos um negócio aqui, que nós fazemos, digamos assim, online, o que acontece na Lua. Quer dizer, alguém vende um... Deve ser um lunático, obviamente... Vende um produto lá na Lua, está registrado aqui, e as demonstrações financeiras são das Galáxias. Quer dizer, um negócio assim: "Imagina aquele depoimento tal aí, no dia 28 de junho de 2001!" Está certo? Mas o que eu acho que é importante ficar para registro é o seguinte: é que a Contabilidade está perfeitamente conectada com o ambiente tecnológico. Onde ele for, a Contabilidade irá junto. E quando a gente fala Contabilidade, quer dizer, todo o ambiente contábil, os profissionais da Contabilidade, as entidades que cuidam, defendem o âmbito dos profissionais da Contabilidade, enfim, a informação contábil.

 

P/1 - Com certeza. Então eu acho que nós estamos finalizando. Gostaria de saber se o senhor gostou de ter dado essa entrevista?

 

R - Não, eu gostei muito. Eu gostei muito, muito embora você diga que todos fazem esse tipo de manifestação, mas a gente sempre fica na dúvida se eu seria a pessoa para deixar esse tipo de depoimento. Mas uma coisa eu tenho muita consciência: eu não fui me envolver com a Contabilidade simplesmente porque alguém me mandou. Eu me envolvi com a Contabilidade porque eu percebi que existia uma oportunidade valiosa, e que era um campo extremamente fértil para você desenvolver a criatividade, desenvolver todas as suas atividades, colocar todas as suas ideias. Enfim, fazer explodir, através da estrutura que eu recebi durante toda a minha vida, em prol de uma profissão, e que eu só tenho tido muitas satisfações. Poderia até não ser assim. Se não fosse, eu diria. Não quer dizer que eu estaria arrependido. Absolutamente. Além de não estar arrependido, ela sempre me trouxe muita satisfação. Eu não tenho queixa nenhuma e sempre procurei dar, já que estamos falando de Contabilidade, dar a contrapartida a essa satisfação, podendo oferecer algumas coisas, seja através das entidades, seja através do ensino, porque eu acho que se a gente não tiver essa característica para ensinar, vai ser muito difícil. E, principalmente, se eu pudesse usar um termo contábil aqui, se chama Goodwill, eu acho que o grande Goodwill que a Contabilidade acaba trazendo, pelo menos para mim, foi o forte relacionamento e a amizade que eu pude desenvolver durante todo esse tempo com as pessoas que eu tenho o mais amplo respeito e muita satisfação de poder ter conhecido, de estar conhecendo e, com certeza, que eu ainda vou conhecer. Se nada tivesse sido feito, só isso já valeu muitíssimo, e isso não tem preço.

 

P/1 - Isso é muito bom. Muito obrigada.

 

R - Eu que agradeço.

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