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História

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Sinopse

No projeto "Pessoas- Contar para Viver" Tatiana Toffoli uma das realizadoras do filme conta as origens da sua família, detalha e expande a percepção do que é ser uma atriz e estar nesse mundo, abre a intimidade da sua vida amorosa e materna e através da sua preciosa trajetória como documentarista mostra um pouco do que é a vida de uma mulher no audiovisual brasileiro

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História completa

Eu lembro do dia que eu entrei nesse cinema da família, tinha um telão que me fez ficar super emocionada, eu devia ter uns seis anos, sete anos e tal, a família tinha vindo pra cá e se fixou em Viamão e aí, tinha a história do cinema, que eles gostavam muito de cinema, minha mãe e os meus tios foram criados nesse cinema, moravam numa casa com árvores, então eu tenho muita essa memória da minha mãe contando as histórias deles, a minha vó matava galinha, sabe, essa vida bem rural, numa cidadezinha pequena que é Viamão, que é do lado de Porto Alegre, já foi capital do estado anos atrás. Eu sempre tive essa visão deles naqueles córregos de água, tomando banho e subindo na árvore, essa infância da minha mãe ali, naquele lugar. Aí meu avô morreu muito cedo com 45 anos, ele era dentista, e o consultório dele era no cinema. Minha vó ficou com seis filhos e pirou, pirou totalmente, foi para um hospital psiquiátrico, porque arrancou os dentes com os instrumentos do meu avô.

A gente não tinha dinheiro para velejar, mas sabe aquelas coisas que acontecem? A gente rapou a poupança, comprou duas pranchas, duas velas, era material usado, afinal era tudo muito caro na época. E passamos a velejar todos os dias, corríamos campeonato, nunca fui muito atleta, era mais o gostar mesmo. Começamos a andar nessa turma da vela, ia muito no Jangadeiros também, que era um clube perto do lugar onde a gente velejava. Depois passamos a velejar de 470 que é um barco maior que a gente ganhou de um patrocinador. Na época, a gente entrou na PUC, fui fazer minha vida também de faculdade foi bem confusa, mas a gente entrou na PUC e aí, era muito diferente, nessa turma do clube, muito direitista, todos tinham votado no Collor e a gente cheio de opinião, fazendo Jornalismo, não combinava, era um choque. Porque geralmente, essa turma de vela é muito fechada assim, pessoal que nasceu no clube, vive naquele clube e vai morrer naquele clube.

Eu estudei a vida inteira em escola pública, no primeiro dia que eu fui pra PUC, eu fui de abrigo, né? Lá no sul fala abrigo, moletom. Nossa, você chegava lá, pessoal todo vestido, montado. de batom, de lápis. Eu não conhecia a burguesia assim, não conhecia as pessoas com grana, fui conhecer no clube e na PUC. Então, eu me lembro que foi. um choque pra mim, eu tive um choque quando eu entrei na PUC por essa questão de diferença de classe e pela questão de diferença de oportunidade, eu nunca tinha tido Sociologia, eu nunca tinha tido Filosofia, eu tinha tido História mal e porcamente porque eu acho, sinceramente, que na época, a gente só estudava Idade Média, por uma questão de politica, não se estudava a história da Europa, história indígena, só se estudava Idade Média, eu sei tudo de Idade Média, porque era só Idade Média, depois que eu me dei conta disso, como que na escola pública vai estudar outra coisa na época da Ditadura?

E eu trabalhava como produtora, já, assistente de direção nos comerciais, tipo júnior, mas trabalhava, fazia faculdade, teatro, fotografava, tudo ao mesmo tempo... Eu me lembro de ficar aflita para dormir, eu dizia: “gente, eu vou dormir quantas horas hoje?”, porque eu acabava saindo tarde, aí eu tinha que ir para a faculdade de manhã, faltava na aula, tinha trabalho… aquela época em que a gente tem muita energia. E pensava em como ia fazer esses testes, mas acabou que eu passei num teste pro Rio de Janeiro, mas quando cheguei lá foi uma adaptação difícil principalmente pelo meu sotaque e acabei não recebendo umas aulas pra ver se diminuía meu sotaque que era: "Bah Tchê", bem gaúcho e acabei não integrando o corpo do projeto e na hora que o contrato acabou e não vieram ouras propostas ali o meu chão caiu.

Eu continuei lá, porque tinha recebido ainda um dinheiro, gastava pouco, então eu continuei no Rio e pensei: agora eu vou ficar aqui. Aluguei um apartamento mobiliado pra ficar por três meses e nisso eu tinha levado o meu material, minha fita e tal na Manchete, na época, tinha Manchete e fui fazer o teste para fazer “Ana Raio e Zé Trovão”, que eles queriam justamente uma gaúcha, a minha personagem justamente entrava no sul, eu entrei, fui fazer novela, que era uma novela itinerante, justamente com a ideia de levar o sinal da manchete para vários lugares do país. A ideia por trás era essa, então onde a gente chegava, tava chegando o sinal da Manchete ali também, e aí me dediquei com afinco verdadeiro, tomando chimarrão e passando o texto. O que era curioso e que como era uma novela itinerante, os atores que faziam as cenas coadjuvantes do sul, da novela no sul eram todos muito mais experientes do que eu, muito mais. Eu ficava até constrangida que eu tinha um papel na novela e aqueles atores maravilhosos não tinham, porque é evidente que é uma coisa de onde você está, o teste foi feito no Rio, eu tinha sotaque, e me escolheram. Outra coisa que eu percebia  era de como as atrizes mais velhas tinham perdido espaço, elas eram maravilhosas, e sempre roubavam a cena quando apareciam, mas o papel melhor era da atriz mais jovem, coisas cruéis da profissão.

 Eu vim pra São Paulo e fui cobrir umas férias na MTV e acabei ficando, cheguei até a dirigir o mochilão que foi uma experiência ótima. As pessoas tinham muito preconceito com a MTV, todo mundo assistia , mas a turma de televisão tinha muito preconceito: “Não sabem fazer”, a gente não sabia fazer, éramos um bando de loucos, aquelas câmeras tortas… Eram assim que falavam da gente. Tinha muita liberdade, era uma universidade aquilo, a gente aprendia fazendo. Então, foi muito rico, assim, para quem passou por lá, aprendeu muito e na prática. Era muito rico, muito rico, não tinha aquele formato. Imagina se eu tivesse caído em outro lugar. Uma coisa que eu sempre gostei muito foi documentário, eu quis ter feito Antropologia, bem visual, então eu sempre fui tudo muito verdade, eu sou rata de festival, tem esse porém aí que eu posso comentar, que a minha tia, minha madrinha tem casa em Gramado, mora em Gramado. Então imagina? E passei meu filme "Chapa" no "É Tudo Verdade" e olha que eu tava morando em Paray, e editando, pensando "Nossa levei São Paulo para Paraty" mas fiz.   É difícil ser mulher ainda no set. Volta e meia, você arranja um macho-alfa ali que não quer ser mandado, entendeu? Olha que eu não mando, a gente tá sempre batendo de frente. Então, escolher a tua equipe de áudio e vídeo, quando você vai fazer uma viagem, você sendo uma mulher que tá produzindo e dirigindo é complicado, você tem que escolher a dedo, a dedo. Senão quando você vir, tem alguém te atropelando ali, te oprimindo,

É muito importante a cultura indígena ter destaque, é muita sabedoria, um Brasil tão profundo a ser revelado. Teve o filme que fiz sobre os Kariri Xocó pro SESC o "Louceiras" e teve o “Baré- o Povo do Rio”,Quando eu estava no “Baré”, eu percebi aquela menina que foi fazer fotografia e que na fotografia, no Jornalismo, dizia: “Eu vou fazer Antropologia Visual”, que eu nem sabia direito o que era, mas que tem a ver com isso, você estar num lugar olhando, prestando atenção nos detalhes e construindo uma narrativa com isso que você vê, Eu recebo muita mensagem de antropólogos falando dos meus filmes, falando que gostam do “Baré”, que gostam do “Louceiras”, porque eles se identificam ali, eles identificam o que eles fazem nos meus filmes, apesar de eu não ser antropóloga, eu encontrei minha gramática que é o cinema. E quero fazer documentários até morrer, fazer cinema e cozinha até que a morte chegue.

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