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História de: Victor Domingos Garollo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Descendente de italianos. Nasceu em São Paulo. Fez Curso técnico de Contabilidade. Formado em Ciências Contábeis. Trabalho em seu escritório, Garollo & Associados. Fez parte da diretoria do Instituto Brasileiro dos Contadores, Ibracon. Foi diretor do Conselho Regional dos Contadores. Sobre a influência na economia de São Paulo pelos contabilistas. Sobre a cultura brasileira não utilizar a Contabilidade nos negócios. Sobre Contabilidade como Ciência.

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História completa

P/1 – Para início de conversa, eu gostaria que o senhor falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Eu me chamo Victor Domingos Garollo, nascido em São Paulo, bairro de Casa Verde, em vinte de abril de 1942.

 

P/1– O nome de seu pai, de sua mãe?

 

R – O meu pai se chamava Vicente Garollo e a minha mãe Maria Filomena Petraroli Garollo. 

 

P/1– E o senhor sabe a origem da sua família?

 

R – Sei, como não! Ambos são italianos, meu pai veio na década de trinta aqui para o Brasil, conheceu minha mãe aqui, e se casou, casaram-se. Meu pai foi comerciante a vida toda e, no final da vida dele, se formou em Direito na PUC, abandonou o comércio e passou a ser um advogado. Conseguiu sucesso.

 

P/1 – E o senhor sabe porque ele veio para o Brasil?

 

R – Pelas dificuldades que na época tinha lá onde ele nasceu. Ele era do sul da Itália e na época tinha muito pouco trabalho, principalmente depois da Primeira Guerra Mundial, e ele veio antes da Segunda Guerra Mundial. Então era a dificuldade de arrumar emprego, de ter uma profissão decente na terra dele.

 

P/1 – E ele veio para São Paulo, cidade de São Paulo? Como foi?

 

R – Ele veio para São Paulo, e o irmão dele já era estabelecido aqui com uma indústria de calçados, ele veio trabalhar junto com o irmão. Depois o irmão dele voltou, meu tio Domingos, voltou para Itália, e ele continuou, assumiu a fábrica e continuou como industrial de calçados. Industrial, na época, era um calçado quase artesanal. Era uma coisa bem artesanal, um sapato fortíssimo, de excelente qualidade, que hoje em dia é muito difícil uma fabricação desse tipo.

 

P/1 – E onde era? 

 

R – No Bom Retiro. Primeiramente foi na Rua Júlio Conceição e depois ele se estabeleceu na Rua José Paulino, 757. 

 

P/1 – E aí ele tinha uma loja também, de calçados, ou ele vendia para outras lojas?

 

R – Ele tinha uma indústria de calçados artesanal e vendia para outras indústrias, para serem revendidos os sapatos, e também vendia na loja que ele tinha, na Rua José Paulino. 

 

P/1 - E o senhor nasceu em São Paulo...

 

R – Eu nasci em São Paulo. O comércio do meu pai, a indústria do meu pai, era no Bom Retiro, na Rua José Paulino, e eu nasci na Casa Verde. Meu pai foi um dos pioneiros a construir uma casa no bairro da Casa Verde, que era depois da ponte (risos), depois do rio, que eles falavam.

 

P/1 - O senhor lembra da casa em que o senhor morava?

 

R – Lembro, eu morei nessa casa durante trinta anos, a casa existe ainda, a casa onde eu nasci. É na Rua Zanzibar, e até o meu primeiro escritório eu abri nos fundos dessa minha casa, onde eu morava. Então eu comecei a minha vida profissional naquele local também. 

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe era uma senhora, ela tinha vários cursos, eu lembro... Até há poucos dias atrás eu encontrei o diploma dela de contadora, de guarda-livros. Foi emitido em 1932, na formatura dela.

 

P/1 – Qual foi a escola?

 

R – A Escola de Comércio São Paulo, coisa parecida, eu não me lembro bem o nome. Mas foi uma curiosidade, porque minha mãe também foi contadora, foi guarda-livros, que foi o nome primitivo de contador, da profissão. E, posteriormente, o meu sogro foi guarda-livros, eu sou contador, e a minha mulher também é contadora, meus filhos também estudam Contabilidade.

 

P/1 - Qual foi a primeira escola que o senhor estudou?

 

R – Eu estudei no Liceu Coração de Jesus, depois saí de lá para fazer o curso técnico no Liceu Marechal Deodoro, no Bom Retiro. 

 

P/1 – Era o curso técnico de Contabilidade?

 

R – O curso técnico de Contabilidade. 

 

P/1 – E o senhor se formou contador?

 

R – Não, se formava... Eu peguei o técnico em Contabilidade, se formava em técnico em Contabilidade. Exatamente. Mas era um curso muito bom, que dava toda uma base para você exercer a profissão. Foi muito interessante fazer esse curso.

 

P/1 – E depois, o senhor fez curso de Ciências Contábeis?

 

R - Depois de algum tempo eu fiz o curso de Ciências Contábeis, na Faculdade São Judas, na Móoca, e me formei contador em 1974.

 

P/1 – E por que o senhor foi fazer o curso de contador? Como o senhor escolheu essa profissão?

 

R - Meu pai tinha uma loja no Bom Retiro, e o meu sogro, meu futuro sogro na época, era o contador do meu pai. E meu pai, como tinha muitos filhos, nós éramos cinco irmãos, meu pai pediu para que eu trabalhasse no escritório dele, aprendesse uma profissão. E eu fui para o escritório. 

 

P/1 - Antes mesmo de estudar? Ou já estava fazendo o curso?

 

R – Não, antes de fazer o técnico em Contabilidade. 

 

P/1 - O senhor começou e trabalhou na área.

 

R - Já comecei trabalhando na área. Depois é que eu vim a me formar. Naquela época era muito importante ter uma profissão. Então eu tive essa oportunidade de ter uma profissão, e estou com ela até hoje e gosto dela.

 

P/2 - De seus irmãos, o senhor é o mais velho?

 

R – Não, eu sou o do meio.

 

P/1 – Os mais velhos, os outros fizeram o quê?

 

R – O meu irmão, o mais velho, ele trabalhava com vendas, com marketing, a minha irmã se formou professora, é uma professora, a minha irmã mais nova também é uma professora, e o mais novo, meu irmão mais novo, o Ítalo, ele é contador também.

 

P/1 – Contador também?

 

R - Ele foi influenciado também pela família. 

 

P/1 - Como] era, no tempo do senhor, o curso técnico em Contabilidade? O senhor acha que mudou muito em relação à hoje, quais são as grandes mudanças? Porque ainda existe o técnico em Contabilidade, e nos registros ainda é 2/3 o técnico, se eu não estou errada.

 

R – Não, hoje já nós estamos... No Conselho de Contabilidade nós temos... Mais de quarenta por cento são contadores registrados hoje, sessenta por cento são técnicos.

 

P/1 - Sessenta por cento?

 

R - Sessenta por cento são técnicos. Você me fez uma pergunta com relação ao técnico. Eu acho que, na época em que eu me formei, existia uma preocupação muito grande das escolas em ensinar, em formar muito bem o aluno para que ele tivesse uma profissão. Naquela época, era muito importante as pessoas terem uma profissão. E as escolas tinham uma responsabilidade muito grande com relação a essas pessoas saírem e terem uma profissão. Tinha toda uma estrutura de escritório modelo, você realmente aprendia a fazer os serviços contábeis. E conseguia sair de lá e arrumar um emprego dentro da área. Eu acho que hoje em dia a relação que existe é que muitas coisas mudaram, o ensino não é tão forte como no passado, não existe uma preocupação muito grande em formar as pessoas para elas terem uma profissão. Isso causa um problemas para o recém formado, que não consegue emprego dentro da área, que não tem o conhecimento suficiente para estar entrando na profissão. Esse é um problema sério que nós temos, mas também não é só na área de Contabilidade, e sim em todas as áreas profissionais, em que realmente o ensino fica a desejar. 

 

P/1 – Bom, eu acho também que talvez seja uma característica meio única da profissão de contador ter um curso profissionalizante, porque não existe em outras profissões muito esse tipo de ensino específico. Então ele já tem desde muito tempo, ele tem essa característica. Então ele acaba sendo uma opção de profissão, cedo, a pessoa fazer isso, e permanecer dessa maneira. E as outras áreas, Medicina, Engenharia, ou até... Não são tão, assim, específicas. Vamos supor que fosse Enfermagem, que também existe um pouco da coisa profissional.

 

R – Eu acho que o curso técnico em Contabilidade é um curso bastante importante para a pessoa fazer, trabalhar e depois continuar os seus estudos. 

 

P/1 – E crescer até, profissionalmente, até estudar a complementação universitária. 

 

R – Exatamente, até alcançar o nível superior, o nível de Ciências Contábeis. Mas é uma vantagem que nós temos, porque o jovem vem desde cedo se aprimorando naquilo, o curso técnico é um ensinamento em que ele aprende a como executar as coisas na prática, o básico para se qualificar para exercer uma profissão, e depois ele vai ter um estudo complementar, em que realmente ele vai entender porque ele faz determinadas coisas. Então daí a ciência. 

 

P/1 – E também não entra na Faculdade sem saber nada, né? 

 

R – Exatamente. Então, é uma vantagem realmente que nós temos na nossa profissão. O jovem estar se preparando, podendo trabalhar na área, e posteriormente ele vir a se formar. 

 

P/1 – E até poder financiar o curso universitário. 

 

R – Também, também. Exatamente. Por isso é que muitos jovens de classe de pouco poder aquisitivo faz opção por Contabilidade, porque tem essa chance de trabalhar e pagar o curso superior. 

 

P/1 – Bom, então o senhor começou a trabalhar no escritório do contador do seu pai.

 

R – Exatamente, Frederico José Sacco. 

 

P/1 - E ele acabou vindo a ser o seu sogro, o senhor conheceu a sua mulher já quando o senhor trabalhava para ele, ou foi estudando Contabilidade, que ela também é contadora, né? Como foi essa história?

 

R - A história foi a seguinte. Bom, eu trabalhei com ele, eu era jovem, tinha doze anos quando eu comecei a trabalhar. E ela era muito pequenininha. 

 

P/1 - Menino o senhor era!

 

R - É, era menino. Na época nós começávamos a trabalhar cedo. Daí eu saí, eu fiquei quatro ou cinco anos com ele, depois somente vim a sair, mas sempre tive um excelente relacionamento com ele, participei de vários trabalhos, mesmo não estando como  funcionário do escritório, sempre participei de vários trabalhos do escritório dele. O Frederico José Sacco foi um contador muito conhecido em São Paulo, foi um grande perito, e sempre tinha trabalhos especiais. Então a nossa especialidade no escritório, naquela época, eram trabalhos especiais. E nós participamos de muitos trabalhos, mesmo não estando diariamente no local. E depois que eu vim conhecer, depois de muitos anos, isso na década de sessenta, no final de sessenta, 68, eu vim a me encontrar novamente com o Frederico num trabalho grande, e tive a oportunidade de conhecer a filha. 

 

P/1 – Ela trabalhava com o pai?

 

R – Não, não trabalhava com o pai. Mas nós fomos numa recepção juntos e acabei conhecendo a Lidia Rosa.

 

P/1 – E aí o senhor fez a escola de Contabilidade, se formou técnico em Contabilidade. 

 

R - Tive o meu escritório, como técnico, de 68 até...

 

P/1 – Foi depois que o senhor se formou técnico. Então os outros lugares em que o senhor trabalhou foi antes de...

 

R – Não, eu trabalhei na ______ Contábil, como auxiliar de escritório, trabalhei no Laticínios Catupiry, como assistente contábil, depois saí do Laticínios Catupiry e fui trabalhar na Metal Rádio S.A., era uma indústria metalúrgica com 180 empregados, aproximadamente. Na época era até grande. Ali eu fui subcontador, em seguida eu fui contador geral da Metal Rádio S.A.

 

P/1 – E como era feita a Contabilidade nessa época? O que o senhor fazia? (risos)

 

R – Bom, na época já era um sistema… Já existia o sistema ficha tríplice, maquinizado, nós falávamos, mas eu cheguei a escriturar manualmente alguns livros, sim. Até é uma curiosidade, nós estávamos atualizando os livros contábeis de uma empresa que pediu concordata. E eu lembro muito bem, que foi o início da minha carreira como técnico em Contabilidade e nós, quando percebemos, a firma tinha uma escrituração manual, manuscrita. E nós passamos a noite inteira atualizando os livros manualmente, e tinha um outro rapaz que tinha a caligrafia parecida com a minha. Então nós nos revezávamos, passando os livros, para a caligrafia ficar semelhante. Isso me marcou muito. Mas se usava muito o sistema ficha tríplice. Logicamente que eu passei pelo sistema manual, o ficha tríplice, o sistema Ruf, o Front Feed, passei por vários sistemas. 

 

P/1 – Dependendo da empresa ou do momento?

 

R – Dependendo da empresa em que nós estávamos trabalhando. Na verdade, eu tive três empregos, e depois eu montei o meu escritório. E eu tive três empregos justamente planejado, porque eu queria pegar experiência em determinadas áreas. Então quando eu tinha uma experiência boa numa determinada área, eu planejava para sair, e procurava uma outra empresa para eu complementar os meus conhecimentos. E depois saí para montar meu escritório. Mas depende da empresa, do serviço, nós usávamos o sistema que a empresa adotava. Foi interessante.

 

P/1 – E aí o senhor saiu e montou o seu escritório?

 

R – Saí em 68 da Metal Rádio S.A e montei o meu escritório, que era uma firma individual até 1974, aproximadamente quando eu montei a Garollo & Associados, na época se chamava Garollo Auditoria Contábil Sociedade Civil Limitada.

 

P/1 – E essa empresa fazia basicamente Contabilidade?

 

R – Ela fazia Contabilidade, nós atuávamos também em Perícias, e também um pouco de Auditoria, nessa época. E nós viemos a alterar o nome dessa empresa em 1984, aproximadamente, quando passou à denominação para Garollo & Associados.

 

P/1 - Dentro da sua atuação profissional, como foram as alterações da legislação nesse processo? O senhor acha que teve alguns marcos de alteração da legislação contábil que foram importante, alguns momentos em que o senhor teve que se adequar mais para alguma coisa ou para outra? A legislação se antecedeu a uma mudança, ou ela foi reflexo de alguma coisa que já vinha acontecendo? Como foi essa história?

 

R – É interessante essa pergunta. Eu lembro muito bem que em 1970 nós tivemos a edição do nosso primeiro Código de Ética. Até essa data, toda a ética, todos os costumes eram  passados de profissional para profissional. Nós não tínhamos nada escrito, pelo menos aqui no Brasil. Em 1970, o Conselho de Contabilidade editou o primeiro Código de Ética. E quando eu li, eu falei: "Puxa, isso aqui vem facilitar bastante a direção que nós temos que tomar, porque é realmente o procedimento que nós temos que ter."  Eu era jovem na época.

 

P/1 – Não existia um Código de Ética antes?

 

R - Não existia, o Código de Ética saiu, o primeiro, em 1970. Tinha a legislação, a lei de 1946, 9295, mas não tinha o Código de Ética, que veio a sair em 1970. Isso me marcou, porque quando eu li, eu falei: "Poxa, pelo menos nós temos alguma coisa para seguir." E era mais ou menos aquilo que nós vínhamos praticando. E, na época, na oportunidade, existia uma ética, um costume de determinadas coisas, que tinham que ser obedecidos. Mas com essa Ética escrita ficava mais fácil.

 

P/1 – Consagrou. 

 

R - Consagrou. Mas a legislação mudou muito da década de cinquenta até... Do século XX até o século XXI houve mudanças enormes. Eu sou do tempo em que existia as estampilhas, os selos para os livros serem selados, depois passou pelo regime de pagamento por verba, do Imposto Estadual. Depois tivemos o Imposto de Circulação de Mercadorias, e o último agora, o Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços. Mas mudou bastante, o Imposto de Renda...

 

P/1 - Como é que essa história da estampilha? Conta para a gente, eu não sei muito bem. 

 

R - Nós tínhamos que escriturar os livros e, no final de um período, o mês, nós tínhamos que fazer um cálculo para saber se aquelas vendas, o valor da venda, tinha um cálculo, se multiplicava, e aquilo pagava um "x" de imposto. Então você tinha que ir na Recebedoria Federal comprar as estampilhas para selar os livros. 

 

P/2- Então aquilo ali era referente ao valor do imposto?

 

R – Do imposto, exatamente, Imposto Federal.

 

P/1 – Federal? E como eram os outros impostos, Estadual e Municipal?

 

R – O Municipal sempre teve o Imposto sobre Serviço, taxa de funcionamento, essas coisas todas.

 

P/1 – Mas aí não tinha estampilha? 

 

R – Não, não tinha, era o recolhimento normal. E, então, era bastante curioso. Pouco tempo depois saiu, mudou o sistema para Vendas e Consignações, o Imposto Estadual, aí nós  tínhamos que pagar o imposto antes de vender, ou no dia da venda, desculpe. Você vendia, então você tinha que pagar... Você fazia uma previsão de venda e tinha que recolher o imposto antes. Então você tinha que ter um fundo para pagar o imposto que você ia pagar amanhã. Era uma loucura. Então você saía: "Ah, eu preciso recolher a verba!", que chamava. E você saia correndo, preenchia uma guia e o cliente ia, recolhia a verba.  Simplesmente era uma loucura. 

 

P/2 – Mas essas estampilhas foram usadas até quando?

 

R – Essas estampilhas eram o Imposto Federal, elas foram usadas durante muito tempo, acho que na década de cinquenta, na década de sessenta acho que já tinha desaparecido.

 

P/1 – E ela sempre teve...

 

R – Mas... Desculpe! Mas, por exemplo, em bebidas ainda tem selos de consumo, parece que ainda existem alguns produtos que...

 

P/1 - Que tem na garrafa? 

 

R – Exatamente. 

 

P/1 - Aquilo ali que vem na garrafa é...? 

 

R - Não são todas, algumas são selada, são esses selos que nós comprávamos. Mas eram todos os produtos industrializados que usavam esse selo. Interessante isso aí, interessante. 

 

P/2 – Interessante.

 

R – Então mudou bastante. Hoje em dia os recolhimentos são feitos eletronicamente, você paga o INSS hoje por computação, é debitado direto na conta. Então evoluiu bastante. Os custos do escritório hoje são muito mais caros do que antigamente também, mas você ganha muito mais em rapidez e informação.

 

P/1 – E consegue fazer um volume maior de trabalho.

 

R – Consegue fazer um volume maior, você tem mais informação, mas você investe mais no escritório. 

 

P/1 – Na parte de computação, né? 

 

R – E é caro! (risos)

 

P/1 – Bom, eu vou entrar um pouco em umas questões um pouco mais específicas. Na sua opinião, quais questões, temas, conceitos devem ser abordados para construirmos a memória da Contabilidade em São Paulo?

 

R - (risos) Primeiramente contratar o Museu da Pessoa (risos).

 

P/1 – Aí, pronto! Já está tudo resolvido! Não, mas tem alguma coisa que o senhor acha importante?

 

R - Eu acho que nós tivemos grandes contabilistas em São Paulo. São Paulo foi o berço da economia do Brasil. Então nós tivemos grandes nomes. Um nome lá atrás, que nós poderíamos citar, seria o Francisco D'Auria. Aliás eu estudei em um livro dele, Contabilidade Industrial, Comercial e Industrial. Mas foi um grande nome, fortíssimo. Nós tivemos grandes nomes também na década de trinta, os contabilistas que participaram bastante da atividade pública. Nós tivemos naturalmente nomes extraordinários que merecem ser levantados e pesquisada a vida dessas pessoas. Então, como um marco importante da criação do museu em São Paulo, eu acho, eu tenho certeza que a vida desses profissionais ilustres deve ser pesquisada e ter um registro, porque são pessoas que realmente fizeram a Contabilidade crescer. Isso é importantíssimo. Temos outros nomes mais recentes, o professor Hilário Franco, que foi uma pessoa de uma grande simplicidade e ao mesmo tempo grande sabedoria. O professor Hilário, ele frequentou durante cinquenta anos todos os eventos da nossa categoria. Fez grandes livros e deixou registrado grandes memórias. O professor Hilário foi um grande nome, falecido recentemente, da nossa Contabilidade.

 

P/1 – Como a Contabilidade se inseriu no processo econômico de São Paulo? O senhor acha que tem algumas coisas que foram marcantes no desenvolvimento da economia, que a Contabilidade acompanhou?

 

R - Bom, a Contabilidade acompanha a economia de São Paulo desde quando São Paulo existe. Mas no século XX, no início do século XX, foi bastante marcante, com a atuação desses profissionais que eu mencionei. Hermann Júnior... Não me vem todos à memória, mas Hermann Júnior foi um grande líder, o professor Hilário também foi um grande líder, o Mussolini. E tivemos outros grandes nomes que marcaram a nossa vida dentro da Prefeitura de São Paulo, acompanhando todos os orçamentos, enfim, o desenvolvimento da vida econômica de São Paulo. Mas eu não sei se a sua pergunta foi somente da Prefeitura, ou a vida econômica de São Paulo?

 

P/1 - Não, a vida econômica de São Paulo. Porque, assim, pode ser mais específica.

 

R – Bom, a atividade do contabilista… Ele atua em todas as empresas como uma pessoa de confiança da diretoria da empresa, ele faz registros e, mais ainda, ele faz a análise do que acontece dentro da firma. Então ele consegue discutir com a diretoria das empresas e dar uma direção para determinados assuntos. E os nossos grandes contabilistas geralmente fizeram isso. Eles deram direção nas empresas nas quais eles lideravam. Então a influência na economia de São Paulo pelos contabilistas foi muito grande. E ainda é, as grandes decisões são tomadas através desses números levantados e analisados por contabilistas.

 

P/1 – Agora eu queria saber um pouquinho da sua... Como foi, quando começou a sua participação nas entidades, entidades profissionais? O senhor começou, partiu do Sindicato, como começou essa história? 

 

R – (Risos). Bom, do Sindicato eu sempre participei, desde quando eu me formei técnico em Contabilidade, eu achei e acho muito importante a participação no Sindicato. Na década de sessenta isso era muito claro na cabeça de todos os profissionais, a importância de participar de um Sindicato. Mas depois, com o meu escritório, eu era sócio, recebia o material, de vez em quando participava do Sindicato, mas não era atuante. Tocava a minha vida familiar, a minha vida profissional, precisei desenvolver minha carreira e fiquei afastado das atividades com as entidades contábeis. Em 1986, eu fui indicado para participar do Instituto Brasileiro dos Contadores, o Ibracon, já era associado há muito tempo do Ibracon também, e participei primeiramente de uma Comissão, e posteriormente vim participar da diretoria do Instituto Brasileiro dos Contadores. Ali eu fiquei por quatro diretorias consecutivas. 

 

P/1 – E quais eram as...?

 

P/2 – Foram oito anos as quatro diretorias?

 

R – Foram oito anos de diretoria no Ibracon.  

 

P/1 - Quais eram as grandes questões que eram tratadas no Ibracon, em que o senhor participou?

 

R – No Ibracon, as grandes questões sempre são assuntos técnicos, são assuntos difíceis, que os profissionais tem dúvida. Então são nomeadas as Comissões, e essas Comissões estudam e vão a fundo naquelas discussões, e normalmente sai uma norma técnica que dirime as dúvidas sobre determinado assunto. Essa é a função específica do Ibracon. Então, é um instituto muito importante dentro da profissão em São Paulo, e também muito respeitado no Brasil e no exterior, pela alta qualidade técnica dos seus pronunciamentos. Depois eu fui eleito conselheiro no Conselho Regional de Contabilidade, quando ainda era na Rua 24 de Maio. Fiquei ali por um mandato de quatro anos, precisei me afastar novamente, para tocar meu escritório, para desenvolver as minhas atividades profissionais, e voltei agora, em 1996. Em 96 eu voltei como diretor, fazendo parte do Conselho Diretor, na diretoria de Fiscalização, fui vice-presidente de Fiscalização, e depois...

 

P/1 - Isso é um cargo eleito também?

 

R – É uma eleição. Primeiro é feita uma chapa, por voto direto os contabilistas elegem essa chapa com trinta componentes, e depois, internamente, é votada a diretoria, entre os trinta é votada a diretoria. Depois eu passei para a diretoria de Administração e Finanças.

 

P/2 – Isso em que ano mais ou menos?

 

R – Agora, em 96, 97 eu fui diretor de Fiscalização, depois Finanças, em 98, 99, depois assumi a presidência, no ano dois mil. E logicamente que eu pude observar, e tive também a felicidade de entrar na presidência num momento de grandes mudanças na profissão, na economia e no mundo, porque com essa globalização houve várias grandes mudanças.  

 

P/1 – Quais foram as grandes mudanças na profissão?

 

R – As grandes mudanças foram as exigências que as empresas começaram a fazer dos contadores. As empresas exigem informações e os contadores, daquela postura passiva que tinham, foram obrigados a se tornar elementos ativos, e realmente passaram a participar ativamente das lideranças das empresas. 

 

P/1 - Passaram até como consultor?

 

R – Sim, e através das informações que eles tinham, através dos registros, passaram a ser consultores, consultor da empresa em que ele presta serviço ou ele trabalha. Então essa foi uma grande mudança. E, ao mesmo tempo, nós tivemos a oportunidade de fazer um plano de trabalho dentro do Conselho de Contabilidade, e temos dois anos aí executando esse plano de trabalho. Uma coisa importante, que eu acho, dentro da minha gestão, foi a criação do CETA, Centro de Treinamento Avançado, em Contabilidade, Negócio e Finanças. É uma oportunidade que nós estamos dando aos jovens profissionais de ali serem treinados para que eles entrem no mercado de trabalho com maior conhecimento. Então a ideia é que o Conselho complemente a formação desses jovens técnicos em Contabilidade, mesmo bacharéis, e que eles sejam aceitos com mais respeito pelo mercado de trabalho.  

 

P/1 – Por ter feito esse treinamento? 

 

R – Por ter feito esse treinamento e pelos conhecimentos adquiridos nesse treinamento.

 

P/1 – Esse treinamento dura quanto tempo?

 

R – São vários módulos, e nós fizemos convênio com várias instituições. E nesses treinamentos o jovem pode se matricular, vai fazendo à medida que eles se sentem capazes, e terem tempo de ir fazendo o treinamento necessário. 

 

P/2 – Mas na instituição a que vocês são ligados? Não é na própria sede do CRC?

 

R – Não, o centro, ele foi criado na Rua 24 de Maio. A Rua 24 de Maio era a nossa antiga sede, que estava paralisada, estava sem função. 

 

P/2 – Então é lá que está tendo as aulas? 

 

R – É lá que nós fizemos esses cursos, e ao mesmo tempo é lá que nós vamos ampliar para dar um treinamento a todos os contabilistas que se interessarem, e que é muito importante. 

 

P/1 - E já está crescendo?

 

R – Está crescendo, nós estamos com quatro andares ocupados, e até o final do ano o planejamento é nós estarmos com seis andares. Nós temos dez andares, então nós temos bastante espaço aí para crescer. 

 

P/2 – Tem muita procura?

 

R - Tem havido bastante procura, por ser principalmente perto do metrô.

 

P/1 – Quantas pessoas registradas no CRC tem hoje?

 

R – Nós estamos com o cadastro atualizado hoje. Nós temos 94 mil contabilistas. 

 

P/1 – Em São Paulo?

 

R – No Estado de São Paulo. 

 

P/1 – E esses 94 mil o senhor falou que sessenta por cento são técnicos.

 

R – Aproximadamente. E tem crescido o número de contadores em relação aos técnicos. Essa é uma tendência, vai demorar mais alguns anos, mas a tendência pelo menos é ter um equilíbrio. 

 

P/1 – Algumas pessoas nos falaram de algumas mudanças no ensino atualmente, dos cursos sequenciais, que é uma alteração super recente. Que, primeiro, o curso de técnico em Contabilidade não tem mais em nível de colegial, a pessoa tem que ter feito o colegial, e depois fazer o técnico em Contabilidade. E depois que a pessoa faz alguns cursos que você ganha os créditos, e quando entrar na faculdade você encurta o seu curso na faculdade, que é o sequencial. Você pode fazer especificamente na área de Contabilidade. Então, com isso acaba quase que dirigindo a pessoa para só acabar em nível formado em faculdade.

 

R – Em faculdade, exatamente. É uma tendência, o mercado exige pessoas bem formadas, e realmente o técnico que se forma hoje, ele fica muito limitado na execução de seu trabalho.

 

P/1- Se ele não fizer mais nada...

 

R – Se ele não fizer mais nada, porque, com o advento dos computadores, aquele trabalho de execução contábil passou a ser feito pelos computadores. E o técnico em Contabilidade, que executava aquele trabalho, que registrava, enfim, fazia uma série de trabalhos, ficou prejudicado, porque os computadores, através de uma rede em toda a empresa, são passados os dados, são registrados e contabilizados, e no final sai um trabalho contábil pronto. Então aí exige que o profissional seja uma pessoa que saiba analisar muito bem a contabilidade. E isso o técnico não aprende na sua plenitude no curso técnico. Daí a necessidade dessas pessoas terem um curso com mais horas de estudo, com mais perfeição, e fazerem o curso de Ciências Contábeis, para realmente se atualizar e se verem em condições de exercer a profissão.

 

P/1 - E esse exame que vocês estão fazendo agora?

 

R – Ah, o exame de suficiência? Está sendo muito bom.

 

P/1 - Como é? É recente isso, não é?

 

R - É recente. Nós começamos a fazer agora, no ano dois mil, o primeiro exame. 

 

P/1 – Isso é uma coisa geral, Brasil?

 

R – É o Brasil inteiro.

 

P/1 – Vocês estão fazendo isso em conjunto com o CFC, não é isso?

 

R – Existe uma resolução do Conselho Federal. O Conselho Federal organiza as provas e encaminha essas provas para serem feitas em cada Estado. O grande benefício que isso trás para a profissão é que seleciona o profissional que está bem preparado para entrar na profissão. Ele tem que ter os conhecimentos mínimos exigidos para entrar na profissão, tanto técnico quanto contador. Mas isso aí foi uma coisa boa, principalmente porque força as escolas a tomarem cuidado com o que elas ensinam, porque não é o jovem que está mal preparado, muitas vezes não foi dado o ensinamento correspondente, por falha da escola. 

 

P/2 - Eu vi o resultado fixado lá na parede no CRC, os números. Tem um número bem alto de reprovados, né? 

 

R – É mais ou menos cinquenta por cento de reprovados. É alto. Mas hoje se exige que os jovens tenham um conhecimento mínimo, antigamente não existia isso. Então eu acredito que cada vez mais o Conselho está forçando uma situação para que o profissional preste um bom serviço para a sociedade. Isso é importante. O Conselho está bem atento para cobrar dos profissionais um bom serviço que ele presta à sociedade. 

 

P/1 - O Exame da Ordem, que é uma coisa que já existe há muito tempo, dos advogados, o senhor sabe qual é o nível de reprovação?

 

R – Eu acho que é...

 

P/1 - Deve ser alto.

 

R - É quase sessenta ou setenta por cento. É mais alto que o nosso. É sessenta ou setenta por cento.

 

P/1 - Não é uma coisa significativa esse número, se você comparar com outros?

 

R – É. E se você for ver, em Medicina, eles têm a residência. Mas se não tivesse a residência a reprovação seria muito alta também. Então é uma outra forma de estar avaliando o profissional recém formado. 

 

P/1- O senhor estava contando, então, da sua atuação no Conselho. O senhor começou como...

 

R – Como vice-presidente de Fiscalização, vice-presidente de Administração.

 

P/1 – E quais são as grandes causas hoje do Conselho? O senhor estava falando essa coisa de treinamento, que é importante. Alguma outra coisa que vocês estão lutando? Tem bastante coisa, as discussões da própria Contabilidade?  

 

R - Um projeto que eu acho importante também é o registro da nossa história, o desenvolvimento da nossa história, e deixar isso registrado, criar o nosso Centro de Memória. Eu acho muito importante, porque nós somos bastante ricos em materiais, em história. Isso não estava registrado. Então eu acho um projeto muito importante para que o jovem se espelhe nesses grandes nomes da Contabilidade e possa ter uma referência do passado dessa profissão aqui no Brasil. Isso é uma coisa muito importante. Hoje, até com satisfação, nós estamos recebendo várias escolas, conhecendo o nosso museu, então nós temos a oportunidade de mostrarmos todo o Conselho, o funcionamento, temos oportunidade de fazermos palestras para esses jovens e, finalmente, mostrar o nosso Centro de Memória da Contabilidade paulista. Realmente eu acho que é uma coisa, um marco bastante importante para a nossa profissão. Nós assinamos um protocolo de intenções com a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, o qual nos permite acompanhar todos os projetos de lei que são encaminhados aos senhores deputados, para nós opinarmos sobre os assuntos que nos dizem respeito. Então Contabilidade, Finanças e Orçamento são coisas que nós vamos passar a opinar e orientar os senhores deputados. 

 

P/1 – Interessante isso! Eu acho interessante como nunca foi feito isso antes (risos), porque é uma coisa importante isso. Que sai a lei, depois vai ver a lei, falar: "Bom, mas isso aqui..." Não é isso? Ou seja, até imagino que, para fazer a lei, algum contabilista está contribuindo, mas se mais pessoas discutem essa proposta, ela pode ficar melhor.

 

R – Pode ficar melhor. E a ideia, realmente, é melhorar a nossa lei porque, se nós melhorarmos as nossas leis, com certeza nós vamos melhorar a nossa sociedade, vai ser menos sofrida a nossa sociedade. E é isso o que nós queremos. Nós queremos participar ativamente, é um projeto novo, que nós estamos agora nomeando uma Comissão de Trabalho. Não é um projeto também do Conselho Regional de Contabilidade, é um projeto da profissão contábil. Então nós vamos envolver todas as entidades contábeis de São Paulo para nós estarmos trabalhando nesse projeto. Mas é uma coisa importante que nós fomos contemplados com isso, pela seriedade da instituição, do Conselho de Contabilidade, pela seriedade que a nossa classe goza perante os parlamentares, e vamos fazer isso com muito carinho e com muita competência, com certeza. 

 

P/1 – Isso é uma coisa que acontece em outros Estados ou só aqui em São Paulo?

 

R – Só em São Paulo, por enquanto é só em São Paulo. 

 

P/1 – Mas é um passo, não? (risos).

 

R – É um passo. Eu acho que deveria acontecer em todo Brasil, porque é uma coisa importante um técnico, um profissional estar orientando os deputados em alguma coisa que eles não conhecem profundamente. Isso realmente vai facilitar bastante a vida da nossa sociedade, com certeza. 

 

P/1 – E o senhor acha que a legislação está caminhando para uma simplificação, ou não? Porque dizem que a simplificação é a Contabilidade americana, que é uma coisa mais prática. E que a nossa legislação ainda é mais detalhada e rigorosa, exige que a Contabilidade seja feita pela legislação, enfim, tem algumas, até, leis que admitem já essa simplificação, e tem alguns contabilistas que são a favor, outros são contra. Mas o senhor acha que a gente está caminhando mais para o lado da simplificação ou manter a nossa tradição de ser mais legalista? (risos).

 

R – Exatamente. Eu acho que, para haver uma simplificação, tem que haver uma reforma tributária. E nesse governo, do Fernando Henrique Cardoso, eu acredito que não vai haver nenhuma reforma tributária. 

 

P/1 – Houve muita discussão, mas...

 

R – Não vai haver, porque eles conseguiram ter uma arrecadação grande, cobre todos os orçamentos, eles não precisam fazer nenhuma redução de custos, porque eles conseguiram algumas contribuições com o Pis, Cofins, CPMF, toda essa verba que entra é só da União, eles não conseguem, eles não dividem nada com os municípios, com os Estados. Então eles estão com o orçamento... Está bem, por que mudar? Eu acredito que, realmente, nesse governo não vai fazer nenhuma modificação. Realmente precisaria haver uma simplificação, os nossos custos com esse tributos, com essas contribuições, são muito altos, os nossos produtos não conseguem ser competitivos. O custo das nossas mercadorias está embutido, muitas dessas contribuições, que são em cascata, e os nossos produtos para exportação são muito caros. Então, realmente, tem que haver uma simplificação nisso. E eu acredito que somente no próximo governo é que vai haver uma reforma tributária, mesmo porque a CPMF tem um prazo determinado e, se não houver uma reforma tributária, o próximo governo vai perder a arrecadação da CPMF. E, como não existe interesse nenhum em perder a arrecadação, eles vão ter que fazer uma reforma tributária para adequar isso. 

 

P/1 – A gente não tem muita saída.

 

R - É um caso sério.

 

P/1 - Então, a reforma tributária...

 

R – A reforma tributária seria, vamos dizer, a solução para haver uma simplificação dos nossos tributos, da nossa burocracia, mas nesse governo não acredito que vá existir essa reforma.

 

P/1 - E a simplificação na Contabilidade? Só se tiver uma simplificação na tributação?

 

R – Sim, sim. A nossa Contabilidade não é complicada, mas ela tem uma grande influência dos tributos, e isso realmente acaba complicando, acaba não sendo tão simples quanto a Contabilidade de outros países. Porque a parte tributária tem uma influência muito grande na nossa Contabilidade. Essa é a questão. Por isso que eu falo: essa reforma tributária teria que haver, seria necessária para haver uma simplificação e ganhos de trabalhos desnecessários. 

 

P/1 – Mas com relação... Eu estava falando isso com relação àquela questão de lucro presumido, que aí, então, a pessoa não precisa detalhar as coisas. Quer dizer, na verdade você não está extinguindo a obrigatoriedade da Contabilidade com isso?

 

R – No Brasil é interessante. Logicamente, pelas normas contábeis, toda a empresa deve fazer a sua Contabilidade. E eu digo também que é importante uma empresa fazer Contabilidade, porque ela passa a ter controle do que aconteceu dentro dessa empresa durante o mês, da sua atuação. E ela pode tomar medidas corretivas. Logicamente, quando é uma empresa muito pequena, não tem muito sentido também ter todo um controle, se é um autônomo, se é um negócio de muito pequeno porte. Mas o que ocorre também é que não existe uma cultura do nosso empresário em utilizar a Contabilidade. Esse é o grande mal do nosso empresário. Na medida que ele passa a utilizar a Contabilidade, então ele vai ter um ganho maior de energia na sua empresa. Contabilidade não é só balanço não, Contabilidade é um todo. Você fazer um orçamento, você fazer um fluxo de caixa, você fazer um controle de estoque, tudo faz parte da Contabilidade. Então não existe realmente uma cultura da utilização da Contabilidade pelos nossos empresários, coisa que em outros países não acontece. A Contabilidade é uma matéria, uma ciência muito respeitada e muito utilizada por todo porte de empresa. 

 

P/1 - Por que o senhor acha que nós não temos essa cultura aqui no Brasil? É difícil dizer?

 

R – Não, é muito fácil dizer. Até 1990, até 1994, nós vivíamos com uma inflação de oitenta por cento ao mês muitas vezes, trinta por cento, cinquenta por cento ao mês. Então a Contabilidade realmente ficou relegada ao segundo plano, porque ninguém utilizava a Contabilidade, por que? Todos os custos eram repassados para os consumidores. Então os grandes, vamos dizer, os absorventes dessa inflação eram os consumidores finais, era o povo. Então para que fazer controle de tudo o que a empresa gastava, se colocava no plano e se repassava. Então não houve necessidade. Mas com a abertura do mercado...

 

P/2 - Com a competitividade...

 

R – Com a competitividade, com empresas estrangeiras chegando a centenas de pequenas e médias multinacionais no Brasil, enfim, o nosso empresário se sentiu pressionado de diminuir os seus custos, de controlar os seus preços. Acabou a inflação, não tem mais aquela grande farra da Correção Monetária, da Variação Monetária. E as pessoas passaram a se regular com o que realmente elas ganham. Então daí a necessidade da Contabilidade, para realmente uma empresa, uma pessoa física ter um controle da sua situação. 

 

P/1 - Então essa é a grande mudança atual, esse período que nós estamos passando de dez anos para cá? 

 

R – É do Real para cá. 

 

P/2 - Noventa e quatro.

 

R - Porque na época do Collor foi um grande fracasso, toda essa situação. Foi toda uma situação de incompetência, naquela época. E nós pagamos sempre a conta. 

 

P/1 – Então, agora, esse momento está possibilitando até uma mudança cultural em relação a como o empresário vê a Contabilidade?   

 

R – Exatamente. E isso é que nós, contadores, temos certeza que o empresário, uma empresa que utiliza a Contabilidade, com certeza ela tem uma grande chance de sobreviver, muito maior do que aquela que não utiliza a Contabilidade. Isso, já foi feito pesquisa pelo Sebrae e tal, e constatou que, realmente, aquela empresa que não é atendida por um contabilista, ela tem menos chance de sobrevivência. Então, realmente é isso que está acontecendo. Existe um redescobrimento da Contabilidade, do uso da Contabilidade.  Isso está sendo importante para a nossa profissão. Está sendo muito requisitada no momento atual. E nós estamos crescendo como Conselho, como profissão.

 

P/1- E outra coisa que apareceu aí em algumas conversas que a gente teve, como tendência, é a questão do Balanço Social, e como que, na verdade, eu acho que é até uma apropriação de termos de Contabilidade. Porque o Balanço Social não é necessariamente uma questão de contas, de Contabilidade propriamente dita, mas é o papel social da empresa, está começando a ser demonstrado de uma maneira organizada. E não é exigido ainda legalmente, mas já tem várias empresas que estão fazendo isso.

 

R – Eu acho... Acho não, eu tenho certeza disso, que esse Balanço Social não deve ser exigido legalmente. As empresas é que devem demonstrar consciência e o que elas fazem  pela sociedade e pelos seus funcionários. Uma empresa que tenha essa consciência, ela deve ser prestigiada pelos consumidores, em detrimento daquela que não tem nenhum compromisso com a sociedade. Então aí é a realidade do Balanço Social.

 

P/2 - É papel do consumidor também, pressionando que as empresas... como aquela empresa, Amiga da Criança, que tem um selinho. Então entre dois açúcares, você opta pelo que tem uma... 

 

R – Sim, você está numa cidade que tem uma empresa que oferece empregos, que oferece uma série de condições para aquela população. Você tem que prestigiar aquela empresa. Você não vai comprar produto de uma outra empresa concorrente que você não conhece. Você tem que prestigiar. Então a questão de sobrevivência das empresas depende muito do compromisso que elas têm com a sociedade também. Se uma empresa não tem nenhum compromisso com a sociedade, a sociedade não pode ter compromisso com aquela empresa. Então, daí a importância do Balanço Social e a importância da divulgação desse Balanço Social. O Conselho de Contabilidade de São Paulo, pela primeira vez, está publicando o seu Balanço Social. 

 

P/1 e P/2 - Ah!

 

P/1 – Quando vai ser essa publicação?

 

R – Ela deve sair dentro de um mês, aproximadamente. Já está no prelo, hoje eu estou fazendo a revisão final, nós vamos divulgar.

 

P/1 – Ah, eu queria colocar na exposição!    

 

P/2 - Seria muito legal.

 

R - Ah, legal. 

 

P/1 - Porque eu estou precisando de um Balanço Social, de uma imagem do Balanço Social.

 

R - Ah, ótimo! Esse Balanço Social, temos os vários tópicos, todo o trabalho que foi desenvolvido pela minha gestão. Quando eu falo minha é do nosso Conselho Diretor, de todos os conselheiros, dos funcionários. Então todas as atividades do Conselho e tudo o que o Conselho proporcionou para os seus funcionários e para a sociedade vai está descrito nesse Balanço Social. 

 

P/1 - Ela cobre o que? É uma coisa anual?

 

R – Anual. Esse Balanço Social é do ano dois mil. Eu achei muito importante, porque a própria atividade de um Conselho Regional de Contabilidade é uma atividade social, predominantemente social. Então nós fizemos esse Balanço Social essa ano. 

 

P/2 - Interessante!

 

R - É interessante. E está às ordens para vocês colocarem lá no Centro (risos).

 

P/1 - Era tudo que eu queria.

 

P/2 – Sobre a Contabilidade, isso é uma coisa que outro entrevistado até comentou, sobre se vê como Ciência ou não, a Contabilidade. O senhor teria alguma opinião?

 

R – Isso é uma questão antiga. Muitas décadas, no passado, década de trinta, quarenta, a Contabilidade não era reconhecida como uma Ciência. Posteriormente, ela veio a ter esse reconhecimento. Mas Contabilidade é uma Ciência sim, com certeza, porque ela envolve pesquisa, envolve aplicações, envolve desenvolvimento. E, enfim, à medida que você tem que pesquisar, você tem que desenvolver alguma coisa e criar coisas novas para atender às exigências da sociedade, passa a ser uma Ciência. Antigamente, era só uma coisa técnica, vamos dizer, do antigo guarda-livros. Era mais uma escrituração. Mas à medida que ela foi se desenvolvendo, já atinge um estágio de Ciência, aqui no Brasil e em todo o mundo, com certeza. 

 

P/1 - O senhor participou de alguma Comissão, vamos pensar, de desenvolvimento de normas técnicas?

 

R – Eu participei de várias Comissões, sobre determinados assuntos, mas não tive oportunidade de participar de nenhuma Comissão do Conselho Federal, do Ibracon, de emissão de normas técnicas. 

 

P/1 – É o Federal que faz isso. 

 

R – Exatamente. É o Ibracon...

 

P/1 - Específico de Auditoria?

 

R - De Auditoria. E o Conselho Federal emite as normas de Contabilidade. Eu ainda não tive a oportunidade de participar, mas com certeza ainda terei.

 

P/1 – Ainda vai ter.

 

R – Vou ter tempo (risos). 

 

P/1 – Tem alguma coisa que o senhor acha que nós não perguntamos, que o senhor gostaria de estar falando?

 

R – Bom, o Conselho está muito ciente do caminho que ele deve percorrer. Com certeza, o Conselho quer uma maior participação na sociedade. Nessa gestão, nós abrimos, nós fizemos convênios com várias entidades, fizemos convênios com a Secretaria de Recuperação de Bens Culturais, que nos está ajudando, vamos dizer, na criação do nosso espaço cultural, nosso Centro de Memória. Fizemos convênio com a Ordem dos Advogados, para darmos ministrarmos cursos para os advogados e eles, reciprocamente, para os contadores. 

 

P/1 - Isso foi tudo nessa gestão?

 

R - Nessa gestão. Criamos convênio com o Sebrae, para nós estarmos interagindo também nessa área de cursos, principalmente visando o pequeno empresário, a formação desse pequeno empresário. Então os contadores vão atuar como consultores para esses pequenos empresários, através do Sebrae. 

 

P/1 - Ah, isso é interessante.

 

R - É, interessante, muito interessante e importante também, para que o empresário também aprenda a utilização da Contabilidade. Fizemos convênio com o Senac. O Senac vai ministrar cursos para os técnicos em Contabilidade, no nosso centro de treinamento, no CETA, na Rua 24 de Maio. Fizemos convênio com o IMA, que é um Instituto de Mediação e Arbitragem, que está proporcionando cursos para os contadores lá no nosso centro de treinamento, com o Sindicato dos Contabilistas, e que visa também o profissional iniciante. Fizemos também um convênio com o Instituto Brasileiro dos Contadores, o Ibracon, que também visa um treinamento de profissionais. Enfim, nós abrimos bastante o Conselho, e conseguimos ganhar uma sinergia maior de forças. Porque só o Conselho, ele fica limitado. Então com essa sinergia de forças, nós criamos uma força maior, que realmente está proporcionando maiores benefícios para o contabilista diretamente e, indiretamente, para a sociedade. Porque, na medida que nós temos um contabilista mais informado, mais bem treinado, com certeza ele irá prestar um serviço melhor à sociedade. E eu acho que essas coisas têm que acontecer, não só na categoria, mas em outras categorias. Mas também eu mencionei aqui agora há pouco esse protocolo de intenções que nós assinamos com a Assembléia Legislativa, são coisas que nós vamos ganhar bastante espaço perante a nossa sociedade. 

 

P/1 - Espaço de atuação mesmo.

 

R – Espaço de atuação mesmo, de...

 

P/1 - De participação.

 

R - De participação, exatamente. Então essas coisas são importantes para os nossos profissionais e para o Conselho de Contabilidade principalmente, que a sua imagem é que está crescendo e liderando toda essa mudança dentro da nossa profissão. 

 

P/1 - Uma coisa que a gente não comentou muito aqui também é essa questão de que São Paulo tem essa, vamos dizer, as entidades congraçadas, elas trabalham muito bem interligadas e se somam, não ficam disputando espaço, e que isso é uma coisa positiva, que não acontece muito em outros Estados.

 

R - Nos outros Estados não acontece isso. Em São Paulo, desde a década de setenta, 72, mais ou menos, é que houve uma confraternização, e foi criada a figura de entidades congraçadas. Então nós temos todas as entidades de São Paulo, o Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis, Sindicato dos Contabilistas, Instituto Brasileiro dos Contadores, Instituto dos Auditores Internos, Associação dos Peritos Judiciais, Associação das Empresas Contábeis, Conselho Regional de Contabilidade. Eu já falei do Sindicont. Então essas entidades formam as entidades congraçadas. E existe aí um respeito, uma ajuda mútua entre essas entidades, no sentido de que seja a profissão fortalecida. Mas, com certeza, dentro do contexto Brasil, a profissão contábil é a mais bem organizada, e o Conselho de Contabilidade é uma das instituições mais bem organizadas e mais bem dirigidas de todas outras, dentro do nosso Brasil. Não o Estado de São Paulo, mas de uma forma geral. É o sistema CFC, CRCs, que proporciona essa integração e esse comando muito bem integrado. 

 

P/1 – E quais são os seus planos para o futuro? 

 

R – Terminar minha gestão agora no dia 31 de dezembro do ano de 2001, temos mais seis meses. É um tempo grande, se passaram um ano e meio. Um ano e meio é um tempo curto, mas nós trabalhamos bastante e conseguimos fazer bastante coisa pelo Conselho e pela profissão. Temos mais seis meses, temos agora a nossa Convenção em setembro. Enfim, temos bastante atividade até o final do ano, já programadas. Temos a inauguração da segunda fase do Centro de Memória da Contabilidade paulista, e temos outras coisas já programadas dentro do Conselho de Contabilidade.

 

P/1 – E fora do Conselho, então, depois?

 

R – Bom, o meu mandato ainda tem mais dois anos, eu pretendo inicialmente me licenciar, e vou continuar as minhas atividades. Mas dentro de alguma entidade eu só tenho essa programação, eu só tenho mais dois anos como conselheiro. E vou tocar o meu escritório, a vida.

 

P/1 – Claro, claro.

 

P/2 - Esses cursos que estão na 24 de Maio, eles são pagos?

 

R – Não, não são pagos, são gratuitos. É importante isso. Dá oportunidade às pessoas de realmente se prepararem. Uma coisa curiosa que nós fizemos nessa gestão foi proporcionar aos nossos delegados... Nós temos uma estrutura de trinta conselheiros, 150 delegados e oitenta representantes. Fizemos, proporcionamos a esses delegados um curso de Oratória, Comunicação Verbal, em todo o Estado de São Paulo.

 

P/1- Esses delegados são pagos? 

 

R – Esses delegados prestam serviços gratuitamente ao Conselho Regional. Todo o trabalho dos conselheiros, delegados e representantes são gratuitos.

 

P/1 – É mesmo? Ou seja, os contadores trabalham muito.

 

R – É, trabalham bastante, e gratuitamente. E todo esse trabalho é gratuito. Realmente há uma força de energia aí bastante grande, em prol da profissão, da sociedade.  

 

P/1 – Então são delegados e...?

 

R – São conselheiros, delegados e representantes. E este ano nós criamos a figura do representante das faculdades. Nós temos 102 faculdades, nós já temos oitenta representantes dessas faculdades no Conselho de Contabilidade.

 

P/1 – É um de cada uma?

 

R – Uma de cada um. E esses representantes de faculdade representam a faculdade perante o Conselho. Então a nossa comunicação com as faculdades está bastante facilitada. Nós temos muitas atividades no Conselho, e esta parte de faculdades e escolas técnicas nós estamos sempre nos comunicando com essas entidades, e falando dos nossos objetivos, das nossas necessidades. E também atendendo às necessidades deles também. 

 

P/1 - Muito bom.

 

P/2 - Interessante, a gente nem sabe tudo isso.

 

R – E olha que eu não comentei muita coisa, não. Eu sou sintético também. 

 

P/1 - Então, acho que é isso.

 

R - Se precisar de mais alguma coisa, eu estou às ordens.

 

P/1 – Está bom. E o senhor gostou de dar a entrevista? 

 

R - Gostei! (risos).

 

P/1 - Muito obrigada.

 

R – Está bom.

 

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