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História

Reciclagem é um negócio que eu não saio mais

História de: Ygor Montenegro Jacinto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/02/2016

Sinopse

Ygor Montenegro Jacinto teve uma infância cheia de aventuras pela zona oeste da cidade de São Paulo, onde fez muitas amizades e brincava pelas ruas. Em seu depoimento, ele relembra seus momentos na escola, como enfrentou a dislexia, e os professores que o ajudaram em vários momentos. Sua mãe é presidente da Cooperativa Viva Bem, pioneira na reciclagem de isopor, onde Ygor também trabalha. Ele comenta sobre a importância desta atividade no mundo atual e pretende levar a questão da reciclagem consigo pra sempre.

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História completa

Nasci com cinco meses e meio. Foi um milagre. Eu tinha só um pulmão formado, o outro estava quase e foi aí, meu, estou aqui hoje e estamos aí. A minha mãe entrou totalmente em choque, o moleque vai nascer logo agora, nem esperava, cinco meses e meio. Fiquei um tempo na incubadora, em torno de seis meses pra mais. Mas minha mãe sempre ali dando a maior atenção, meu pai também sempre na correria. O nome da minha mãe é Maria Tereza Montenegro. Ela nasceu em São Paulo. Ela tem duas mães na verdade, a mãe dela não tinha condições e adotou ela pra outra mãe que cuidou dela e oito mulheres que viraram irmã delas, e mais um irmão, então foi aquela bagunça. Ela foi criada no Capão Redondo. Ela já viveu de tudo, foi bem dureza pra ela. E hoje minha mãe ajuda as duas, cuida das duas também como pode, tem um carinho pelas duas como mãe. Meu pai chama César Augusto Jacinto. Ele nasceu na Vila Madalena. A gente mora na Vila Ida. Quem entende da parte da Vila Madalena sabe que ali já foi época de brejo, foi fazenda. Depois veio a parte de lotes, cada um foi comprando um e montando as casinhas. Nessa parte que mudou isso era coisa já do bisavô dele que deixou pro meu pai. Na época que ele era meio moleque já estava facção lá, então era droga pra cima, droga pra baixo, era tiroteio direto porque tinha a boca de cima e tinha a boca de baixo. Ele seguiu o Exército e é ex-pugilista profissional, boxe pra ele era tudo. Ele participou dos campeonatos, participou de um campeonato pra pegar as Olimpíadas também, que é o brasileiro e foi indo. Ele acabou conhecendo a minha mãe, resolveu sair e viu que rolou. Hoje ele é separado da minha mãe. Meus pais se conheceram de uma forma muito louca porque meu pai gostou da minha mãe pela postura das roupas que ela usava, por ter mó corpão, mó morenona, sorrisão, cabelão cacheado. E nesse namoro ela acompanhava ele nas lutas, um estava acompanhando o outro sempre. Minha mãe sempre trabalhou com parte de Vendas, eu só lembro até hoje da parte de todas as empresas que ela trabalhou, que era a Gradiente, porque eu ia lá jogar Nintendo 64 direto, eu e meu irmão mais velho, a gente ia lá jogar Nintendo, tomar chocolate e comer lanche. Saía do colégio, era a primeira coisa que a gente fazia.

Estudei no Victor Oliva, que era colado de casa, então nem tinha como cabular, não tinha ideia de sair mais cedo e inventar papinho furado que era um dois pra mãe chegar lá e perguntar: “E aí? O que está acontecendo?”. Eu estudei com uns moleques que moravam num abrigo, que não tinham pai nem mãe, muitos chegaram a ir pra Febem porque não tinham casa. Quando eu entrei nessa escola eu achei: “Putz, o cara vai me quebrar, os caras vão me zoar”. Totalmente o contrário, os caras queriam andar comigo toda hora. Eu falei: “Meu, por que vocês querem andar comigo?”, e o fato é que eles queriam andar comigo porque eu sempre estava com lanche. Eu falei: “Porra, caralho, eu estou sem lanche os caras saem fora, eu estou com lanche os caras vêm. Então demorou, vamos começar a pedir um dinheirinho a mais pra minha mãe e eu vou dividindo o lanche”. Ao invés de comprar duas Coca-Cola, ou então uma Coca-Cola e um salgado eu começava a comprar dois salgados, aí ficava um pra eles e outro pra mim. Aí os moleques já começaram a ter uma afinidade tipo: “Pô, um pelo menos aqui pensa diferente, sabe dividir”. Foi a hora que eu comecei a ganhar os caras. Daí a gente começou a dançar capoeira, foi a época também que a gente começou a aprender a dançar BBoy, esse negócio de hip hop, tal. Aí com os moleques do abrigo foi que eu criei mais vínculo ainda que eu acabei entrando no abrigo. A dona do abrigo que cuida deles falava: “Manda o Ygor vir pra cá”, então já dormi lá. Eu jantava lá, tomava café e dançava lá com os meninos que eles tinham tipo um salãozinho com um monte de espelho, a gente fazia umas coreografias juntos.

Saí do Victor Oliva na segunda série. Aí fui pro Sesi e fiz da terceira até a oitava série. Tinham uns professores ali, a Nilvia, a Sheila, elas me ajudaram muito. A parte da dislexia, muitos professores levavam no preconceito, de falar: “O cara é burro, esse aí não vai ser nada, esse aí vai ser um lixeiro, esse aí vai ter o destino dele no lixo ou então vai ser morador de rua”. Ouvi muito já falar que não tinha nem chance de eu terminar o colégio. E mesmo assim tinha outros que falavam: “Não, ele consegue, a gente vai desenvolver isso nele, a gente vai ajudar ele”. E na sexta série eu comecei a ler, foi bem difícil. Até hoje para eu ler em voz alta eu já começo a gaguejar, travar, embaralho as linhas, então começo a ler pulando linhas. Agora quando estou lendo sozinho, comigo, com a minha calma, é totalmente normal. Minha mãe sempre deu uma olhada nisso, nessa parte minha de déficit de atenção, eu ficava panguando na aula, a professora passava a matéria, pra mim eu achava que já sabia. E olhava pra janela, esperando dar o intervalo, ou terminar a aula chata, que eu queria que chegasse a próxima aula de uma professora que eu era apaixonado, a Patrícia. Era uma puta loira, bonita demais, eu ficava doido por ela. E ela que abriu o olho da minha mãe e falou: “Meu, ele tem algum problema com atenção”. Daí começaram a pesquisar no colégio também e minha mãe começou a pesquisar fora, me levando nas clínicas e falaram pra ela que tinha a ABCD, que cuida da parte dos disléxicos. É um projeto que pesquisa do disléxico e vê o nível de dislexia que ele tem. Então tem primeiro, segundo, terceiro nível, eu era o terceiro. Minha mãe me ajudou muito com o ABCD. Eles encaminharam para uma psicóloga e essa psicóloga que eu acompanhei, e depois eu fui pra psicopedagoga que me deu a maior mão de todas, foi uma segunda mãe pra mim, nossa, Maria Roberta é o nome dela. Ela ia no colégio brigar por mim. Ela falava: “Você tem obrigação de ensinar ele. Você tem que se esforçar, não é ele que vai se esforçar pra te entender, você vai ter que se esforçar pra ele te entender”. Eles começaram a mudar a forma de prova comigo, a forma de analisar.

Eu e meu irmão juntava latinha no fundo de casa e a minha mãe levava num lugar lá, vendia e trazia dinheiro pra mim e pro meu irmão. A gente já tinha uma noção que isso girava um dinheiro. Pra gente tudo era lixão, menos a latinha, porque a latinha que trazia dinheirinho do sorvete ou de alguma coisa que a gente precisasse ali no momento. Minha mãe começou o trabalho com reciclagem em 2002. Ela começou em Pinheiros, lá do lado do parque da Editora Abril, que era um lixão desativado. A Viva Bem fundou ali primeiro junto com o Vira-Lata. E tiraram ela de lá, a Editora Abril tirou, fez um abaixo-assinado e conseguiu tirar ela de lá porque eles montaram a praça e daí ela falou: “Meu, me arruma um lugar que eu saio”. Daí mandaram ela lá pra Sabesp, do lado dos Remédios. No que enviaram ela pra lá, foi bem na parte da separação entre ela e meu pai, então a gente acabou morando nos Remédios. Depois de lá montaram aqui e agora a gente está aqui na Vila Ida permanente. Esse giro que de fundar uma cooperativa foi muito difícil, porque ela saiu da Gradiente sendo que ela tinha um cargo muito bom lá dentro. Ela deu o suor, deu o sangue, investiu todo dinheiro que ela tinha e foi um bom investimento. Uma amiga dela, a Cida, que apresentou esse projeto pra ela e falou: “Tereza, vai dar certo, vamos lá, vamos lá, que eu conheço Fulano, Sicrano, Sicrana”. E ela conseguiu dar aval pra cooperativa funcionar. E daí, meu, minha mãe, minha mãe de toda forma ela lutou. Lutou por caminhões, não tinha maquinário, tinha que ir com os bags lá mesmo e separar. Várias ideias foram rolando, ela arrumou uma esteira e uma prensa. Aí nisso que girava já o torno do pessoal da esteira e já o pessoal da prensa já trabalhando. E ela tinha uma equipe de cooperados que até hoje tem a Mailsa e a Elisângela que são já dessa época antiga. E era aquela equipe que: “Vou hoje trabalhar, amanhã não sei se tenho o dinheiro da passagem”, ela dava o dinheiro dela. Chegava junto. Ela fez muito pra que as pessoas ficassem do lado dela. O negócio deu uma crescida e começou a vender material de uma qualidade melhor, começou a pegar um material bom, a ter pontos de coleta, começou a ter outras ideias pra pegar o material. Eu amava ir pra reciclagem. E fora de amar, tinha uma mulher lá que fazia trancinha no nosso cabelo e a gente gostava pra caramba. É um trabalho que eu tenho o maior orgulho, de falar pra todo mundo, até mesmo pra quem me perguntar: “O que sua mãe faz?” “Ela é presidente de uma cooperativa de reciclagem”. E quando neguinho ouve assim, fala: “Puta mano, que dá hora”, tipo, tem uns que nem entendem muito, mas quando eu mostro eles olham e falam: “Meu, que ajuda que dá, né?”, e é uma ajuda muito grande pro nosso planeta. A gente trabalha com a reciclagem de isopor, sendo uma das primeiras cooperativas a começar esse trabalho. A gente trabalha com todo tipo de material, mas o isopor é uma pauta muito grande porque o isopor não tem como você colocar ele num lugar que seja lixo preparado. Se colocar debaixo da terra e tirar ele daqui cinco anos ele vai estar intacto. E essa máquina faz com que o isopor seja tirado o ar dele no calor e no calor ele sai em forma de tarugo derretido. No que ele saiu derretido ele é triturado e após ser triturado ele vira umas pedrinhas que eles derretem e fazem molde, cantoneira, acabamento de casa.

Eu vejo muito impacto na natureza. Hoje você não vê mais latinha na rua. Papelão também, você vê um ali, numa caixa, daqui a pouco o que está dentro da caixa você vê virado no chão e o papel já era. É muita precisão. E por parte da precisão você vai correr onde? Você não tem um diploma, você não tem outra saída, querendo ou não você vai ter que tocar. O Brasil não está conseguindo mais sustentar o brasileiro como antes, quando ele podia desfrutar e gozar. Ele não pode mais, tem que cuidar agora, tem que saber se cuidar, se controlar. E trabalho tem pra isso? Não tem. Qual é a precisão? É o reciclável ou então é catar papelão na rua, latinha, essas coisas. E é um trabalho que você não está tirando de ninguém, aliás, você está aliviando a outra pessoa porque a outra pessoa já não pode nem ter saída praquele material. Os carroceiros pensam no ganha pão de hoje. O que eu pegar hoje eu vendo hoje e uso pro meu consumo de hoje. É loucura porque eles trabalham muito, eles pegam muito peso, desgastam o corpo, a postura, a coluna, tudo, meu, vai pro pau e vai muito rápido porque você não tem o alimentar direito, não tem o beber direito, você não tem o descansar direito, você tem tudo um ponto marcado por causa de um material que daqui a pouco outro carroceiro passa e leva seu ponto. Mas e aí? Os carroceiros deviam ter essa noção que a cooperativa está ali pra tirar eles desse mundo. Ia ser bem melhor, que eles podem pensar que eles giram bem mais dinheiro na rua? Giram. Mas esse dinheiro que você gira traz saúde, traz benefícios que nem a cooperativa traz? Você tomar o café da manhã tranquilo, você poder tomar um banho na hora que você for embora, você poder dormir e acordar num horário que você está numa cooperativa.

Meu maior sonho é morar na praia e montar tudo dentro da minha casa com a forma que eu já tenho em pensamentos com madeira e produtos reciclados, que eu não vá ter muito gasto com energia, que eu não vá utilizar de muitos recursos eletrônicos, não. E estudar, aperfeiçoar mais ainda na parte da reciclagem, trazer de uma forma que isso vire uma faculdade ainda, que neguinho faça uma faculdade, que tenha na carteira ali ó: “Eu trabalho com isso, meto a mão na massa mesmo e dou aula sobre isso, explico, sei como que gira, o quanto gira, quanto posso girar pra você e pra uma cidade que esteja ali caindo, sabe, sem muito giro pra crescer”. Acho que quando eu tiver um pouquinho mais, uns 40 anos, aí eu quero ir pra lá pelo menos passar um tempo e vir pra cá pra trabalhar, passo um tempo. E mesmo assim continuar nessa parte de reciclagem, que agora é um negócio que eu não saio mais, não, é um negócio que agora vai ser pra família mesmo, vai passar de mãe pra filho.

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