Busca avançada



Criar

História

Realmente eu sou um livro aberto

História de: Herbe de Souza Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, Herbe relembra sua infância, os conflitos familiares e a separação dos pais. Embora se sentisse diferente só contou para mãe que era gay quando foi morar sozinha. Herbe conta como sempre lutou contra o preconceito nas escolas em que estudou e como tem trabalhado esse preconceito nas escolas em que leciona. Ela relata como acabou se interessando pela profissão de educadora e como essa escolha influenciou a sua vida. Ela termina o depoimento apelando para que as travestis possam estudar e escolher outras profissões evitando o caminho da prostituição.

Tags

História completa

Meu nome é Herbe de Souza Silva. Nasci em 11 de julho de 1980, São Paulo, na Freguesia do Ó. Meus pais são João dos Reis da Silva e Rita Aparecida de Souza Silva.  Meu pai começou como torneiro mecânico na antiga Yadoya, aí parou, minha mãe era auxiliar de enfermagem e parou também. O meu pai, eu não sei, se ele continua, mas eu não sei a que caminhos ele anda. E minha mãe aposentou porque ela teve uma depressão profunda. Minha mãe depois da depressão virou outra pessoa, não é mais a mesma que eu conheci quando cresci. Meu pai já é uma pessoa completamente transtornada pelo ciúme. Sempre foi. Grande parte da minha vida foi o transtorno do ciúme dele contra a minha mãe. Como ele não podia fazer nada com ela, ele fazia contra a minha pessoa. Não é uma pessoa fácil familiarmente. A família toda, socialmente nós somos tranquilos, agora, no núcleo familiar não é muito bom. Ela era muito ativa, trabalhava muito. Depois da depressão, ela caiu e ficou na cama. Até hoje. Ela é viciada em remédio controlado pra dormir. Então não é mais a pessoa que ela sempre foi. Porque era sempre um salto alto, toda linda pra trabalhar. Depois da depressão, virou outra pessoa. Isso eu tinha o quê? Treze anos. Eu estou com 34. Há muito tempo. Já meu pai, eu não tenho muito contato. Eles separaram quando eu tinha 17 anos, por conta do ciúme dele, não deu certo. Eu fui morar com a minha mãe, e aos 22 eu fui morar só. Tenho uma irmã e tenho um irmão mais novo, que é adotado desde que nasceu, desde o berço.

Eu moro ainda no mesmo lugar onde eu nasci. Quando comecei a crescer, no bairro não tinha nada, era a minha casa, a casa de um vizinho e pouquíssimas casas. Foi crescendo aos poucos. Franco da Rocha era uma cidade-dormitório, eles compraram a casa lá em 1980, alguma coisa, e foram construindo. Com a separação, cada um foi pra um lado e eu fiquei no momento com a casa aos trancos e barrancos, cada hora eles querem me tirar de lá. Eu falei: “Não, eu sou filho, então a casa é minha”. E foi crescendo. Porque tem aquela história de Franco da Rocha, Santos, Jundiaí, que a estrada de ferro passava no meio de Franco. E está bem grande agora. É na Vila Josefina, em Franco da Rocha. Eu brincava de tudo: pega-pega, esconde-esconde, passa anel, corda, brincava na terra, brincava de fazer bolinho de lama. Eu brincava mais com as meninas, mas eu tinha outro lado com os meninos, que já ia pra outros lados, mais sexualmente falando. Porque a gente vai descobrindo a sexualidade. E meu primeiro namorado, eu tinha cinco anos. Comecei cedo. Meu primeiro namoradinho, mas sem a malícia que a gente tem hoje.  Foi a descoberta do corpo. Descobrindo que ele tinha a mesma coisa que eu e que dava prazer, de certa forma, que a gente gostava de tocar o corpo um do outro. Depois quando foi crescendo, os outros meninos descobriram que alguma coisa em mim era diferente, eles foram querendo ter os prazeres que eles não conseguiam, porque só tinha moleque na rua.

Começou com a descoberta de me chamarem de bichinha. Porque até então nunca soube o que eu era, se era menino ou menina, porque eu brincava com todo mundo. Eu tinha nove anos, então eu fui à biblioteca da escola e procurei. Falei: “Meu Deus, se eu ficar grávido, eu vou contar pra quem? O que eu faço com essa criança? Por onde essa criança vai nascer?”. Eu falei: “Ah, eu não vou ficar grávido, não vai dar certo. Posso continuar brincando”. Mas foi bem assim. Eles descobriram esse meu lado mais meigo, mais afeminado, virou festa. Eu nunca contei para a família. Porque eu nunca precisei contar. Porque querendo ou não, a minha mãe tinha pouco estudo, tinha estudo suficiente pra trabalhar, meu pai tinha parado de estudar, e eu que continuava estudando. Então não era uma coisa muito fácil em 1987, pra saber o que era. Eu fui depois com muito tempo estudando pra saber o que realmente era isso, e convivendo, porque tudo foi acontecendo. Eu nunca cheguei pra minha mãe e falei: “Mãe, eu sou gay”. Não precisou contar. Mas quando ela suspeitou que eu talvez pudesse ser, ela fez chantagem, ela falou que se eu fosse gay, ela se mataria. Eu falei: “Então tá, se você vai se matar, eu não sou”. Depois que eu fui morar sozinho, eu falei: “Ahã, te enganei. Enganei-te”.  Eu tinha 15. Foi quando começou o boom, é gay.

Eu pegava as roupas da minha mãe e da minha irmã. Como ela ia trabalhar sempre bonita, aqueles saltos lindos, toda aquela roupa linda. E os vestidos da minha irmã serviam, então usava os vestidos da irmã. Eu achava lindo salto alto. Eu corria pela casa de salto alto. Ela tinha um salto agulha lindo, e até então servia no meu pé. Nossa, eu ficava me acabando com aquele sapato em pé. Depois cresceu o pé, não serviu mais. 

A escola que eu estudei é Elvira Parada Manga. Está sempre lá, há anos, décadas.  A Educação Física era diferente, era de manhã, e tinha o time de camisa e o time sem camisa, e eu com seios. O que você faz? Eu não fiz Educação Física durante três anos. Conseguia atestado médico, eu sempre dava uma desculpa pra não ir. Porque era feito chamada e se você não fosse, você reprovava. Fiz vários trabalhos de compensação de ausência. Porque pra mim, eu via os meninos sem camisa, eu falei: “Meu corpo é diferente deles, eu não posso ficar sem camisa”. Porque eu já tinha seios, que já foi crescendo. Eu parei de fazer Educação Física. Foi crescendo naturalmente. Eu tenho hormônios desregulados no meu corpo. Então o meu hormônio masculino foi começar a aparecer com 27, 28 anos, porque até então meu corpo era bem feminino. Se eu não falasse com a pessoa, eu passava como mulher em qualquer canto. As pessoas ficavam olhando: “É homem ou mulher? É homem ou mulher?”. E quando eu fiquei loira então, nossa, chamava mais atenção. Isso com 15 anos. Eu mudei o cabelo. Essa fase da adolescência, mudei o cabelo, de loiro, verde, roxo, azul, tudo pintado com papel crepom. Foi o hors concour da escola quando eu cheguei de cabelo loiro. Com 17 eu fui para o Cefam, montamos outros grupos de amigos. Que cada um foi pra uma escola, foi perdendo aquele vínculo, mas mantivemos certo contato. Mas sempre foi a escola.  Sempre estudei. Só estudei. Eu comecei a arrumar emprego num bar de um tio meu pra poder fugir da Educação Física. Então ele me deu atestado de que eu estava trabalhando, pra poder fugir, então eu precisava fazer alguma coisa. Mas eu sempre só estudei. Minha meta foi só estudar. Porque sempre meu pai deixou isso bem muito forte: “Eu não vou te dar dinheiro, mas pelo menos eu vou te deixar o estudo. O estudo ninguém vai tirar de você”. Pelo menos essa marca eu ainda tenho deles, tanto meu pai, quanto minha mãe. Então eu sempre estudei. Até os 22 anos, eu só estudei.

Eu entrei no Cefam em 96 como ensino normal. Eu queria estudar no Gandra, em Jundiaí, que era uma escola de nutricionismo. E fui e a minha vaga estava em outra escola. Fui, minha mãe fez minha matrícula faltando uma semana pra começar as aulas. Eu entrei no ensino normal, que era o ensino normal, e a escola era só de magistério e tinha algumas salas extras de ensino normal de ensino médio. Todo mundo fazendo, estudando, um monte de candidato a professor, passavam dez horas por dia. Eu comecei a me interessar. Tinha bolsa, tinha um salário, um salário mínimo na época. Eu fiz a prova no mesmo ano pra entrar em 97. Eu passei na prova, fiquei na lista de espera, desisti da vaga, passei minha vaga pra outra pessoa. No mês de abril, a menina que eu tinha dado a vaga desistiu, eu perguntei para o diretor se eu podia voltar, ele me deu a vaga. Porque como eu sempre estava muito ali, então eu tinha contato com toda a parte de administrativo, eu comecei a trabalhar na secretaria da escola. Então eu tinha acesso a tudo na escola. Então aonde eu chego, eu procuro ter acesso a tudo. Então gosto de saber o que eu estou fazendo. E eu cheguei diferente, de cabelo verde, então virou uns bochichinhos. Quando esse diretor chegou, que ele entrou, conversou com todos os alunos em cima do púlpito, que naquela escola não seria permitido preconceito de forma alguma, e quem tivesse preconceito racial, sexual, seria expulso da escola, eu falei: “Pronto, é aqui que eu quero ficar”. Depois que ele entrou, minha vida ficou tranquila. Tanto é que até hoje a gente tem contato, que agora ele é supervisor de ensino. Fiquei com a vaga de magistério das sete da manhã até as 18 horas, e de noite eu continuava o ensino médio, porque eu não desisti da minha vaga do ensino médio. Então eu ficava na escola das sete às 22 horas da noite. Eu só chegava a casa pra dormir. Nos primeiros anos, eu não gostava do magistério, eu ia mesmo por ir. Quando eu comecei a fazer estágio, que eu tive contato direto com as crianças, com os professores em outras escolas, eu me encantei e falei: “É aqui que eu quero ficar”.

As crianças perguntam sempre: “Você é menina ou menino?”. Eu falei: “Depende do dia. Tem dia que eu estou menina, tem dia que eu estou menino”. Foi mais recente esse ano, que é o aluno que chegou novo na escola, numa festa que teve, ele olhou pra mim, e a mãe dele do lado: “Você é menina ou menino”. Eu respondi: “Depende do dia”. Ele: “Mas eu ainda não entendi”. Eu falei: “Então, hoje eu estou de menina, mas amanhã eu posso estar de menino” “Ah!”. A mãe dele roxa de vergonha, ela foi explicar: “Então...” – não lembro o nome do menino – “Lembra que a mãe falou que anjo não tem sexo, é igual”. Eu falei: “Ai que lindo, eu sou um anjo então”. E ele ainda está na escola. Então querendo ou não, todos os alunos me conhecem, que eu estou na mesma escola. Eu procuro ficar muito tempo no mesmo lugar, porque se ficar trocando de escola todo ano, até começar de novo, explicar pra nova comunidade quem é você, dá trabalho. Então eu já estou há cinco anos no mesmo lugar, então todo mundo sabe quem sou eu e qual o meu lado profissional. É municipal. Porque eu saí do Estado em 2011... Eu fiquei no Estado de 2002 a 2011.  Eu pedi a desistência em 2011 e assumi outro cargo na prefeitura de Caieiras, onde eu estou até agora.

Na faculdade eu também fui no susto. Eu fiz o Enem, fiz a inscrição do ProUni e esqueci. Porque na verdade eu precisava ter... Porque só o ensino técnico e o magistério não me garantia muita coisa. Pela lei, dependendo de algum tempo, você tinha que ter o nível superior pra poder continuar dando aula. Ligaram-me da faculdade que eu tinha feito inscrição, que eu tinha conseguido a bolsa do ProUni e se eu estava afim da vaga. Eu falei: “Opa! Agora”. E corri pra faculdade e fiz a inscrição. Aquelas: “Nossa, na faculdade a gente arruma namorado”. Passei três anos, nunca beijei nem na boca. Fiquei com tanta raiva porque mentiram pra mim. As minhas amigas conseguiram casar, eu falei: “Ah, na faculdade eu vou casar. Gente diferente, com conhecimento”. Eu falei: “Meu Deus”. Quando eu cheguei à sala, falei: “Quanta gente burra!”. Tinha aluno que não sabia escrever, que veio de uma rede pública com muita dificuldade, que não sabia escrever. Chego eu que já tava dando aula há anos. Tinha quatro alunos na sala que já davam aula, que éramos eu, as gêmeas, que até hoje nós mantemos contato, que é a Ângela e a Alana. Então tinha poucos que sabiam escrever. Tinha o Waldsnei Tadeu, que na hora que me viu, me odiou. Terminamos a faculdade, o jantar foi na casa dele, porque ele viu que o foco não era esse, que eu fui, querendo ou não, com o passar do tempo demonstrando pra ele. Ele conseguiu ver que o preconceito era dele, que era um preconceito bobo. Tanto é que no dia da apresentação do meu TCC, ele levou o filho dele e falou para o filho dele o quanto ele tinha sido preconceituoso comigo. O filho dele pequenininho. E explicou para o filho dele o quanto ele tinha sido ignorante comigo. O filho dele ouviu tudo.

Já tive vários relacionamentos. Já fui amante de vários. Eu já fui de titular a reserva. Nunca tomei hormônio. Eu até pensei em tomar hormônio, mas hormônio feminino engorda.  Mas penso e não quero. Não sou uma pessoa vidrada em mexer no corpo, não. Vai desse jeito. Eu fico o dia inteiro fora. Eu saio cedo e eu desvio o caminho... Eu saio às 18h, você desvia o caminho aqui, chega ali, encontra um amigo aqui. Isso era mês passado, eu estava acompanhando minha amiga que dá aula na faculdade, estava acompanhando as turmas de Pedagogia, eles estavam fazendo seminário sobre Mário Cortella, e eu estava acompanhando, dando ideias, dando dicas de como é na sala de aula, que eles vão ser futuros professores, futuros pedagogos. Eu estava dando uns pitacos na vida deles. Fiz a palestra de novo, pela segunda vez, na mesma faculdade, a convite do grupo da faculdade. Eu falo da minha vida. Isso que eu estou fazendo com você. Falo da minha vida. Falo desde a época que eu era estudante, até agora na sala de aula como é, trabalhar a homossexualidade com crianças pequenas e com uma sociedade que diz que não tem preconceito, mas tem, e como eu lido com as crianças. Que eu não explico para o meu aluno que eu sou gay. Ele sabe e ele me respeito como pessoa

Como os pais já me conhecem há muito tempo, então eles não veem tanto problema. Quem não me conhece, chega de fora, tem um impacto. Porque adora conversar no portão da escola. Eles vão perguntando muito, então acaba rápido com esse estigma. O que eu tento fazer com eles é quebrar realmente o estigma do que é apresentado na mídia. Porque o meu grande problema é o que a mídia mostra. Nós temos professores homossexuais que não são afetados tanto quanto a mídia mostra. E que todo homossexual não fica 24 horas por dia atrás de homem, como a mídia mostra. A gente trabalha, a gente estuda, a gente não vive de sexo 24 horas por dia. E eu também tento quebrar o paradigma de que toda travesti faz programa. Não faz. Toda travesti estuda se quiser, faz programa se quiser. Também eu tento o contraponto. Às vezes nem todas tiveram a oportunidade que eu tive de estudar, porque aí você tem que enfrentar de peito aberto, saber que você vai entrar num lugar que as pessoas não vão te querer e vão tentar te tirar de qualquer jeito. Você vai falar: “Não. Estou pagando, vou estudar e vou ficar aqui”. Porque eu falei: “Eu não vou pra rua, porque se eu for pra rua, eu não vou ganhar dinheiro, eu vou passar fome”. Eu tento fazer com eles. Eu tenho um aluno que se transformou em travesti, que aí ele saiu de casa, a mãe dele o mandou pra fora de casa. Mas quando viu que estava ganhando dinheiro, chamou de volta, porque ele foi fazer programa. Um eu consegui fazer sair da rua. Eu parei outro dia o carro na rua e conversei, falei: “Filha, vá estudar. Vá fazer um técnico de enfermagem, vá virar cabeleireiro, saia da rua porque é perigoso”. Eu tento com quem eu tenho contato. Porque querendo ou não, as travestis com isso elas são... Elas têm aquele receio de chegar próximo, de contar a história delas, porque é só paulada que elas levam. Não que eu não leve, mas eu tenho uma blindagem diferente. Falar da minha vida eu gosto. Pergunta, eu falo, filha. Não tem muito segredo, eu não tenho muita coisa pra esconder. Eu não escondo nada. Realmente eu sou um livro aberto.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+