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Rancharia e eu

História de: Valdemar Vieira dos Santos
Autor: Valdemar Vieira dos Santos
Publicado em: 10/11/2012

Sinopse

Esta história conta com vim parar em Rancharia -sp , com 5 anos de idade , conta um pouco de minha infância e um pouco do dia a dia da cidade que eu aprendi a gostar , Rancharia e eu estamos ligados por um laço de amor.

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História completa

O ano era 1958, o mês era agosto,1958 foi considerado um ano de grandes acontecimentos. Neste ano nasceram pessoas que tiveram destaques em várias áreas, Cazuza, Edson celulári, Pedro bial, ,neste ano o mundo viu nascer também aqueles que viriam ser os maiores astros da musica pop Americana, Michael Jackson e Madona. Acontecimentos de grande relevância na história também tiveram inicio em 1958, como a produção do fusca e a fundação da agencia Americana NASA. Tivemos também a 1ª copa do mundo conquistada pelo Brasil, com o Rei Pelé no auge dos seus dezoito anos. Foi em meio á esta euforia que eu nasci, na Vila Sagres , que na época era distrito de Oswaldo cruz, região da alta paulista. Eu nasci em casa como era costume da época. Quem ajudou a minha mãe no parto foi uma senhora de nome Otilia da silva, muito conhecida no pequeno lugarejo. Eu não vim ao mundo sozinho trouxe comigo uma irmã gêmea, embora nunca a tenha conhecido. Acontece que a parteira era comadre da minha mãe , ela tinha duas filhas ,Anizia e Laurita, e não tinha filho homem, assim sendo minha mãe permitiu que eu fosse criado por ela, no mesmo dia em que nasci fui morar com a parteira ,que acabou sendo a minha mãe. Quando eu tinha dois anos de idade meus pais adotivos , "seo" Tiago e dona Otilia separaram -se, época difícil separação ,brigas, eu fiquei com a minha mãe e minha irmãs, Edite e Maria, na verdade estas eram netas que ela também adotou, por isso ,minhas irmãs. Minha mãe tinha um pequeno sitio em Sagres e trabalhava muito, cuidava de algumas vacas e da plantação de amendoim, eu era criança, mas acompanhava tudo que acontecia. No ano de 1963, minha mãe vendeu o sitio de Sagres, o único bem que restava , e mudamos para Rancharia. Eu ainda lembro da mudança, em cima de um caminhão amarelo, um ford que não lembro o ano, só lembro que pertencia a um senhor de nome Joaquim balbino, que era dono do armazém da Vila. A estrada velha de Sagres á Rancharia passava pela ponte de madeira que atravessava o rio do peixe, abaixo da usina Quatiára, Barro preto, placa 20,bairro confusão, a estrada de terra parece que não tinha fim. Depois de muita poeira chegamos em Rancharia, uma cidade em crescimento ,que tinha o comércio aquecido pelo ouro branco, Rancharia ostentava o titulo de "Capital do algodão" conhecida pela mão de obra oferecida pela lavoura algodoeira. Pessoas chegavam de trem na estação da cidade , viajavam pela estrada de ferro sorocabana oriundos de vários lugares ,principalmente do nordeste ,para trabalharem na colheita do algodão, muitas já tinham um destino certo, procuravam a pensão do Nato( um italiano de nome Fortunato tomaelo) ele era uma espécie de agenciador que encaminhava os trabalhadores para os donos da roça. Enfim , voltando a minha história, cheguei a Rancharia ,onde iniciaria uma nova etapa da minha vida, fui morar na rua quatá, setor leste da cidade, a rua era de terra ,com a maioria desta época, tinha mato por todo lado, mas tinha que ser ali, pois minha mãe vendeu o sitio mas ainda restaram algumas vacas, devido a isso tínhamos que morar afastado do centro da cidade. Depois da mudança, minha mãe , e minha irmã Maria, voltaram a sagres para buscar as vacas. Saíram de madrugada, tocando as vacas á pé, caminhavam a passos lentos para não se cansarem, pois era muito longe. Chegaram em Rancharia no começo da noite, as vacas beberam água no bebedouro dos cavalos dos charreteiros que faziam ponto em frente da estação sorocabana. Eu tinha cinco anos para mim tudo era novidade. Fomos morar em uma casa de madeira , sem água e sem luz, eu lembro que tinha um poço no quintal, de onde se tirava água para familia e para as vacas. A vida na cidade não era fácil, vivíamos da venda do leite das vacas que a minha mãe ordenhava, mas o nosso quintal era pequeno e não tinha pasto para as vacas, a solução era leva-las para pastarem na beira da linha férrea, e como na época ainda passava trem ,tínhamos que tomar cuidado para as vacas não serem atropeladas. Em Rancharia passei a minha infância, que posso chamar de 'meus anos dourados', nesta época conheci vários amigos, com eles eu brincava de bolinha de gude, pião, soltava pipa, e brincava de esconde esconde, réla réla. Quando eu tinha oito anos eu entrei na escola, Grupo escolar José giórgi, no bairro da estação, meu primeiro dia de aula foi interessante, fizeram a chamada-Valdemar vieira dos santos, era eu ,mas eu não sabia ,fui registrado com o sobrenome da família biológica mas usava o sobrenome adotado, Silva. Minha mãe adotiva escondia que eu era adotado com medo da minha reação, depois eu fiquei sabendo e não disse nada pra ela, só fiquei curioso pra saber como seria a família biológica, mas nunca tive contato com eles. Assim eu fui crescendo, gostava muito do grupinho, como era conhecido o José giórgi. Eu ainda lembro dos professores,1º ano "seo" Manéco, 2º ano dona Inês,3º ano dona Conceição e 4º ano dona Olinda pérez brás. O diretor da escola era o Sr,Reginaldo denis bovolato, a merendeira dona Benedita esposa do Zé sambinha, lembro também dos serventes "seo "Joaquim e"seo"Jurandir, que naquela épóca também tinham a função que hoje chamamos de inspetor de alunos. No grupinho fiz muitos amigos, sempre fui o primeiro e o mais comportado da classe, em todas as salas que passava eu tinha uma namoradinha, no 1º ano a lourdinha (Lourdes maria machado), no 2º ano a Edna ( Edna pincerati), no 3º ano a Mara (Mara gilda tomaello) e no 4º ano a Célia ( Célia regina de oliveira), creio que posso mencionar os nomes pois todos tem a sua vida resolvida, e também tem um detalhe, eram amores platônicos, elas nunca souberam, eu amava com os olhos ,em silêncio, um amor só meu, assim eu não sofria. Eram tempos felizes, depois das aulas eu ia com os amigos tomar banho no riosinho do Ciambelli, mas ele ,o Sr. Ciambelli não gostava, e quando ele descia a estradinha no seo DKV, nós corríamos para o mato e ficávamos escondido até ele passar para o seu sitio, era uma correria total, tinha moleque que até esquecia as roupas, com medo do Chambelão, era assim que o chamávamos . Quando não íamos no riosinho descíamos para a reprêsa do saltinho, tomar banho e pescar, á tarde voltávamos com fieiras de peixe cachorro ,que era o que mais se pescava no saltinho. Outra coisa que eu gostava de fazer era ir ao cinema, cine Santa Maria era o nome do cinema da cidade, tinha como gerente o Sr.Ruy charles, que também era o chefe dos escoteiros. O lanterninha do cine Santa Maria era o "seo " Augusto, lembro também da dona Lidionete, e da Cida que trabalhava na bilheteria. Aos domingos eu ia na matinee assistir os filmes do mazzarópi, também gostava de trocar gibis, que era uma tradição entre a molecada. As vezes eu não tinha dinheiro para o ingresso, mas no domingo tinha a promoção dois por quinhentos funcionava assim, o ingresso custava quinhentos cruzeiros e dava direito a entrar duas pessoas, a molecada ficava olhando e quando alguém comprava ingresso e estava desacompanhado a gente pedia para entrar junto. Assim eu fui crescendo em Rancharia, minha mãe era uma senhora brava e não dava trégua pra mim e pras minhas irmãs. As vezes minha mãe mandava eu comprar mercadorias no armazém do Samogim ou do Antonio marçom, que ficavam em frente a estação, se ela não gostasse do produto ela fazia agente voltar no armazém ,devolver a mercadoria e pegar o dinheiro de volta, só que eu comprava doces e aí o dinheiro não voltava completo e ficava difícil explicar. Quando eu tinha doze anos acabaram as mordomias da minha infância, terminei o quarto ano no José giórgi, minhas irmãs casaram e eu tive que parar de estudar para trabalhar e cuidar das despesas da casa. E o trabalho era difícil na roça de algodão, ralear, capinar, colher, eu trabalhava com o Sr. Jonias sobral de Souza ("seo"jonas), trabalhei também com os irmãos kishibe, Gerson e Oscar kishibe, que moravam do lado da igrejinha. Trabalhei também na lavoura de cana, Santa lina (hoje Zillor ), Maracaí com o Sr Antonio Lozano, eu era menor de idade mas isso não era proibido. Plantar cana, cortar cana, era um trabalho duro, mas também era divertido no canavial eu conheci aquela que posso chamar de minha primeira namorada, a Edna, o sobrenome não é necessário, nosso namoro foi curto, mas foi bom enquanto durou. Quando eu fiz dezoito anos fui trabalhar em uma usina algodoeira, a mc fadden, meu primeiro emprego, nesta época o algodão estava no auge, as fábricas trabalhavam á todo vapor, matarazzo , mc fadden , algopér, era caminhão carregado de algodão pra todo lado. O apito da fábrica de óleos matarazzo era o indicador de horas da cidade. Mas o trabalho para quem estava começando, era temporário, chamado safrista, durava apenas o tempo da colheita do algodão, depois tinha que voltar pra roça, recomeçava o ciclo, plantar, ralear, capinar e colher, depois voltar para a usina, para trabalhar no beneficiamento. Época de fartura na cidade, muitas pessoas moravam nas fazendas da região, eram os dono de terras e os arrendatários, que plantavam algodão e no fim de semana vinham para a cidade ,fazer compras e se divertirem . O comércio era bastante movimentado, cada família tinha um lugar preferido para fazer sua compras, casa Boim do Sr Olivio BOIM, armazém do Kanamura, Casa aliança do Sr Alziro Marçom, Casa americana, do Sr Orlando pascoto, casa Ferreirinha, Sawada, Okazuka, armazém oriental, do Sr.Napoleão, mercearia diamante azul do Sr. Milton shideo hamano. Tinha também as lojas riachuelo, casas pernambucanas, lojas alvorada , dragão dos tecidos, brasimac, Loja “a favorita” do Sr. Oswaldo rebelo. No final dos anos 80 , a cotonicultura, que alavancava o progresso da cidade, entrou em decadência, o algodão perdeu o incentivo, as usinas de beneficiamento fecharam as portas, muitas pessoas ficaram sem emprego e tiveram que procurar outras atividades, as lojas que tinham seu clientes baseados na lavoura de algodão, que agora não mais usufruíam deste poder aquisitivo, tiveram suas vendas reduzidas e procuraram outras praças. Neste intervalo eu ,que também dependia da cotonicultura, fiquei desempregado, depois de algum tempo consegui trabalho no depósito de doces Santa Clara ,da dona Clara dias zorzeto, e José Arthur zorzeto, que era ao lado da farmácia São Paulo do Sr. Abel zorzeto. Eu trabalhava com uma perua Kombi entregando doces nos bares de Rancharia e região. Em 1993,especificamente no dia 31 de dezembro, eu conheci a Neuza que trabalha no hospital e maternidade de Rancharia, como auxiliar de enfermagem, que viria a ser minha esposa, pois no dia 08 de janeiro de 1994 nos casamos, e em 03 de dezembro do mesmo ano ,nasceu o Gabriel Henrique , nosso primeiro filho, foi uma emoção indescritível. Em 1996 fiquei novamente sem trabalho, pois a Santa Clara encerrou suas atividades, eu resolvi então trabalhar vendendo roupas, comprava no Brás em São Paulo e revendia em Rancharia. No ano 2000 eu fui trabalhar na algodoeira palmeirense (apsa) novamente relacionado com algodão, só que agora com o beneficiamento da semente, que chegavam em caminhões do Mato Grosso, onde ainda se produz algodão. Eu ainda trabalhava na apsa, quando em 2001 no mês de agosto ,nasceu o Rafael Henrique ,meu segundo filho. Eu sou Ranchariense por adoção, mas tenho dois filhos Rancharienses natos, enfim Rancharia e eu estamos interligados, eu gosto de morar aqui. Também gosto de pesquisar tudo que está relacionado ao passado desta cidade, para isto recebo ajuda de amigos nas redes sociais que são de grande importância para o resgate e preservação da memória do povo Ranchariense. Eu procuro fazer e arquivar fotos para que no futuro, as gerações vindouras e também atuais possam conhecer através de imagem ,como era, e como é nossa querida Rancharia.
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