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História

Raízes que não devem ser perdidas

História de: Marcos José dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/01/2021

Sinopse

Conta ser de uma família rústica, mas com princípios de honestidade. Brincava sempre com seus irmãos. Católico praticante. Tinha uma paixão por sua professora do fundamental. Conheceu o Salão do Encontro aos dez anos. Conheceu sua esposa perto dos 18 anos, também no Salão. Gosta de acampar e pescar com seu pai. Após trabalhar na área financeira do projeto, passou a ser parte da coordenação. Sua família se estruturou no Salão.

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História completa

P/1: Boa tarde Marcos. 

R: Boa tarde. 

P/1: Gostaria de começar perguntando seu nome completo, local e data de nascimento. 

R: Marcos José dos Santos. Nascido em Betim, Minas Gerais, em 24 de dezembro de 1964. 

P/1: Agora me diz o nome dos seus pais e dos seus avós. 

R: Vicente José dos Santos, meu pai. Minha mãe, Geralda Francisca dos Santos. Arlindo José dos Santos do...parte de pai, tá? 

P/1: Do seu avô. 

R: Tá, é, José Francisco Dias, parte de mãe. Me pegou que, é... 

P/1: Ah, calma. Vai... Me diz aqui agora, o quê que seus avós faziam. Qual era atividade deles? 

R: Era, trabalhavam na área rural. Todos eles. 

P/1: Todos eles? 

R: Isso. 

P/1: Lá em Betim? 

R: Em Betim, sim. 

P/1: Hum, e seus pais faziam o que? 

R: O meu pai trabalhava em pedreira, tá. Uma profissão que chama canteiro, quebrando pedra. E a minha mãe era doméstica, na época. 

P/1: É, e você sabe qual é a origem da sua família? Vocês vieram de onde? São de lá mesmo... 

R: Não, nós somos de Betim. 

P/1: Sempre? 

R: Sempre. Somos filhos de Betim. 

P/1; E, você tem irmãos? 

R: Tenho. 

P/1: Quantos? 

R: Seis irmãos. 

P: Ah, família grande, né? 

R: Sim. 

P/1: Além de seus irmãos, você foi, foi criado junto com algum outro parente? 

R: Somente com meu avô, de parte de mãe. 

P/1: É, agora me conta um pouco, como foi a sua infância? 

R: Bom, eu sou de uma família pobre. É, muito rústica, sem muita informação. Porém, uma família muito digna, onde o meu pai, sempre nos frisou que assim mesmo além da pobreza, os valores e princípios em primeiro plano. Então assim, eu tive muita base dentro disso. Então a coisa... 

P/2: Que valores eram esses? 

R: Honestidade, amor ao próximo, entendeu. Sempre visado mais por isso. E sempre que a família seria estrutura e a base, é, nossa pro futuro. Então, assim, a família pra gente é de grande valor, de muito valor. São os nossos princípios, são esses. 

P/2: Em que bairro que você morava lá em Betim, na sua infância? 

R: Eu moro, é no mesmo bairro que eu moro hoje, bairro Santa Lúcia. 

P/2: Como é que era o bairro na época? 

R: Era um bairro carente, não tinha infra-estrutura nenhuma. Não tinha condições de higiene, essas coisas, entendeu. Não tinha asfalto. Não tinha nada. Então era um bairro muito carente. 

P/1: E hoje, como é que ele tá? Continua assim? 

R: Não. Hoje é um bairro estruturado. 

P/1: É, e me diz um pouco, quais as suas brincadeiras favoritas? Você brincava na rua? Brincava com quem? Como é que era? 

R: Eu brincava com meus irmãos. Porque, na realidade, assim, quase que não tinha vizinho próximo, essas coisas. E meu pai por ser muito rústico, muito severo, entendeu...a nossa educação. Então não tinha muito esse direito de estar na rua, né, brincando, essas coisas. Mas eu jogava as coisas que as crianças jogavam. Era bolinha de gude, né, com minhas irmãs. Porque até então meu irmão... eu só tenho um irmão e ele é bem mais novo do que eu, né. Então eu jogava era bolinha de gude, fazia papagaio, brincava de algumas brincadeiras, rouba bandeira que era umas coisas nossas, que nós tínhamos lá. 

P/1: Me conta quem que mandava na sua casa, era... 

R: Meu pai. 

P/1: Seu pai? 

R: Meu pai, sim. 

P/1: E você teve educação religiosa? 

R: Sim, católica. 

P/1: Católica? E você é católico atualmente? 

R: Sou católico. 

P/1: Católico praticante? 

R: Católico praticante. 

P/1: Mas você ia à Igreja? 

R: Sim. 

P/1: Sempre? 

R: Sempre. Todos os domingos, normalmente. Fiz toda a minha formação religiosa, que é primeira comunhão, né, todas essas coisas. Todas eu pratiquei. 

P/1: Agora me diz quando você iniciou os seus estudos, quando e como. 

R: Estudei numa rede pública nos meus sete de idade. 

P/1: Iniciou aos sete anos? 

R: Aos sete anos. 

P/1: E qual era o nome da escola, você lembra? 

R: Era Escola Estadual Sarah Kubitschek. 

P/1: Lá em Betim... 

R: É, em Betim, no bairro. 

P/1: E você ficou lá, cursou o seu, seu primário todo... 

R: O meu primário eu cursei ele todo lá. Depois eu fui pra outra escola fazer a outra base, né, que era a Escola Municipal Raul Saraiva Ribeiro. 

P/1: Hum, e me diz quais as lembranças marcantes que você tem do seu período escolar. Dessa sua primeira fase, na escola. Você tem alguma lembrança? 

R: Minha professora, que eu era apaixonado por ela. [risos] 

P/1: Sua professora, você tava em que série? 

R: Da primeira à quarta série. 

P/1: É, e qual era o nome dessa professora? 

R: Marlene Trindade. 

P/2: Como que era essa paixão? 

R: Assim, porque na realidade, por eu não ter tido tanta saída pela minha infância, muito contato, eu era uma pessoa muito tímida, muito carente, né, de contato com outras pessoas. E assim, no primeiro dia de escola, por exemplo, eu chorei a vontade, aquela coisa de sala de aula. Acho que é normal. E ela foi a pessoa que me deu carinho, me deu amparo. Então era aquela paixão, quer dizer, que eu deixava minha mãe em casa, eu sentia o conforto com ela lá. Então, se minha mãe me dava conforto meio horário, ela me dava conforto no resto do período. Aí, então, no terceiro ano de escolaridade eles queriam me mudar de sala. Foi onde que eu percebi o amor que eu tinha por ela, né. Aí, eu não quis, não aceitava. Não aceitei, aí voltei a chorar de novo e tal, aquelas coisas, aí eles não me trocaram de sala de aula. [risos] 

P/1: Aí você continuou... 

R: Aí eu continuei com ela porque eu queria ela. 

P/1: Nossa… [risos] 

P/1: É, agora me fala como foi o seu encontro, como foi o seu o seu ingresso no Salão do Encontro. Quantos anos você tinha, como, como se deu isso? 

R: Eu tinha dez anos de idade, na época. Foi em outubro de 1974. Por necessidade, meu pai e minha mãe tinham que trabalhar. Eu estudava meio período e meio período estava vago. Com dez anos de idade. Aí... 

P/2: Mas, como é que você ficou sabendo da existência desse Salão do Encontro? 

R: Ah tá. Porque o Salão do Encontro é uma ONG, que foi instituída dentro deste bairro de Betim. 

P/2: Quando? 

R: Em 1970. 

P/1: Foi instituída por quem? 

R: Por Noemi Macedo Gontijo e um frei franciscano, frei Stanislau. Dona Noemi que é diretora e coordenadora do projeto até hoje. Aí, meu pai ficou sabendo desse projeto, que eram quatro quarteirões de casa, e como ocupação por esse meu meio período, ele me acompanhou junto com minha mãe até a dona Noemi e pediu a ela se seria possível estar me dando essa capacitação, essa ocupação dentro dessa entidade. Que seria um aprendiz em artesanato. É, a dona Noemi olhou no meu olho, porque ela é uma pessoa que diz e enxerga dessa forma, que olho fala toda a verdade, entendeu. Ela olhou dentro do meu olho e perguntou se esse era o meu desejo, eu falei que era, aí ela me ingressou dentro desse projeto. 

P/1: Os seus irmãos também foram ou foi só você? 

R: Não. Depois de um bom tempo, aí sim, outros irmãos meus vieram. 

P/2: E você é o mais velho? 

R: Dos homens eu sou o mais velho, e tenho duas irmãs acima. 

P/2: Mas, por que que você foi o primeiro a ir? 

R: Porque na realidade, minhas outras, pela visão do meu pai, mulher não trabalharia, naquela época, num é. Então assim, e também mediante o projeto, tinha quatro anos de projeto, né. Então eu acho que eles nem tinham essa visão que mulher iria ou não, entende. Mas era mais pela visão dele, rústica dele mesmo. 

P/2: Certo, aí você falou que estudava num turno e ia pro Salão... 

R: Ia pro Salão em outro período. 

P/2: E o quê que você foi fazer lá então? 

R: Eu fui trabalhar na atividade, na oficina de trabalhar com sandálias e bola de futebol. Trabalhava com couro. 

P/2: Você fez um curso? 

R: É. Eu fiz, um aprendizado, né, dentro desta área. Agora porquê e enfocado em quê, entendeu, não era um objetivo profissional nem nada, que eu não tinha nem capacidade de estar tendo essa visão naquela época. 

P/2: Certo, aí você ainda tava com dez anos de idade. 

R: Dez anos. 

P/2: Você permaneceu quanto tempo nessas oficinas? 

R: Eu permaneci dois anos nessa oficina, mas essa oficina foi fechada pelo custo de matéria prima, um custo muito elevado. Então eu já passei pra outra oficina, que na época foi implantada, que era uma oficina de macramê, que trabalhava com essa corda de sisal. 

P/2: E você sabe me dizer, nessa época, quais eram os critérios para uma criança ser aceita como aprendiz no Salão do Encontro? R: Sim. Que o pai ganhava meio salário mínimo, entende, e que a família fosse realmente uma família carente, que tivesse necessidade. 

P/2: Tinha que tá estudando? 

R: Tinha que tá estudando. 

P/2: Certo. Aí, me diz um pouco mais da sua rotina nessas oficinas. Você produzia sandálias, e vocês vendiam? 

R: Sempre o Salão teve um showroom onde, é, são vendidas essas peças, entendeu, uma recepção, né, onde os clientes, as pessoas iam buscar essas peças. 

P/2: E aí você ficava todas as tardes da semana lá ou como é que era? 

R: De segunda à sexta feira eu ia pro aprendizado normal, né. 

P: Eles faziam algum acompanhamento? Assim, porque você tinha que tá estudando... 

R: Sim. 

P/2: As suas notas tinham que ser boas para você permanecer no projeto? 

R: Tinham, tinham que ser boas. 

P/2: Eles olhavam isso? 

R: Olhavam. Tanto é que assim, a filosofia da entidade é “Educar pelo trabalho”, entendeu. Então as funções do Salão o quê que é? É educação, saúde, moradia e trabalho. Então assim, dentro dessa filosofia se a educação tá embutida, entendeu, essa visão total de cobrança, também de acompanhamento e de crescimento já está embutida dentro dessa visão do projeto. 

P/1: E você falou que a princípio você foi, porque seus pais resolveram que você teria que fazer alguma atividade, pra não ficar, não ficar digamos assim, à toa. 

R: Sim. 

P/1: É, mas você gostava? No começo você, você realmente gostou? 

R: Foi o mesmo caso da escola. O primeiro dia eu senti, depois eu percebi essa necessidade. Hoje com a minha idade e a minha visão, se você perguntasse pra mim se eu faria, eu faria tudo novamente. E acho, acho não, eu tenho certeza que o jovem é uma idade excelente pra tá começando a já ter sua atividade. Eu acho que isso não é uma exploração de menor. 

P/1: Não, de jeito nenhum. 

R: Não é, né?! 

P/2: Nesse período que você entrou, você sabe precisar quantas crianças eram beneficiadas pelo programa? 

R: Olha, número certo, não. Mas eu imagino que na faixa de 150 crianças eram beneficiadas. 

P/2: Explica pra gente um pouco mais Marcos, dessa estrutura do Salão do Encontro. Eram oficinas? Como é que era o ambiente, fisicamente falando? 

R: Era um galpão, muito arejado, com bastante verde. Porque o Salão estava dentro de uma área verde. A dona Noemi preserva muito o verde. Era bem estruturado, tá, pela ajuda de pessoas do bairro também, que começou a construir essa entidade. Porque na realidade, aí a comunidade começou a enxergar a necessidade dessa entidade dentro do bairro. Então, existia essa participação direta, então é, pedreiros que eram do bairro já iam ajudar a construir, a levantar, entendeu. Então assim, aquela coisa de motivação de uma comunidade. E, dentro da estrutura era uma coisa muito, muito legal. Era um ambiente muito bom. Aí, eu já comecei a abrir minha amizade com outras crianças do bairro, entendeu. Aí, que a coisa começou a fluir e aparecer pra mim. A vida começou pra mim. 

P/2: Certo. E aí você permaneceu dois anos nesse primeiro momento? 

R: Sim. 

P: E o quê que aconteceu em seguida? Você saiu do Salão do Encontro? 

R: Não. Aí eu passei por vários processos de outras oficinas, tá. Eu passei por essa oficina que eu falei de macramé, passei pela tapeçaria de sisal, tear chileno, é, flores, bonecas. O que, na realidade, qual a visão da dona Noemi? É, você chega, você olha e você fala o quê é que você gosta, o quê é que eu quero. Você tem essa opção de escolha, entendeu. Então, eu passei por várias oficinas por opção de escolha minha. Eu queria, quanto mais informação e mais conhecimento que eu tivesse, pra mim era melhor. Então assim, o porquê que eu busquei isso? Então assim, é por causa dessa visão minha, eu queria abraçar uma coisa além do que estavam me dando. 

P/2: E são basicamente oficinas de artesanato? 

R: Todas oficinas de artesanato. 

P/2: E você fez quantas oficinas? 

R: Eu fiz nove oficinas. 

P/2: Cada oficina tinha duração de quanto tempo? 

R: Era período indeterminado. Conforme a necessidade, que eu me sentia que eu tava desenvolvido em uma, eu já procurava outra, já buscava outras informações, outro crescimento. Então assim, hoje eu tenho experiência e sei fazer todas essas nove técnicas, eu sei fazer. 

P/2: E aí a sua família, depois os seus irmãos ingressaram também? 

R: Sim. Isso eu já estava com 16 anos, quando uma irmã minha ingressou para dentro do projeto. Ela trabalhava como professora, e hoje ela trabalha na área financeira, no projeto. 

P/2: Mas eles fizeram cursos também? Foi uma trajetória parecida com a sua ou não? 

R: Não, não. Não foi uma trajetória. Foi assim, mais por uma influência minha, por um desejo meu de estar levando alguém da minha família a participar do projeto. Porque eu via que o projeto era tão bom, uma coisa tão boa, entende. E a visão que a dona Noemi colocava pra gente que o suporte era pra família, é reestruturar uma família, entendeu. Então eu via essa necessidade deles estarem dentro desse projeto, entendeu. Porque eu vi que era uma coisa assim, que a gente não vem ao mundo em vão. E eu vi que aquilo ali ia dar uma coisa pra gente de futuro, entendeu. Que eu estava tratando não só com a minha família, eu estava tratando com uma família Salão do Encontro, entendeu. Não era... [Pausa]. Emocionado que eu -------------. Então assim, eu considero as pessoas do Salão do Encontro como a minha família. 

P/2: Que bom. E aí, aos 16 anos aconteceu uma mudança grande na sua vida? 

R: É. É aconteceu porque pela confiança, pelo meu desenvolvimento, sabe, pela minha busca. Aí, um dia a dona Noemi me viu, me pegou no braço, porque ela é uma pessoa assim, olhou no meu olho e perguntou se eu queria ter uma visão diferente, um conhecimento melhor, e aprofundar mais sobre o Salão do Encontro. Foi onde que eu comecei a participar já mais das coisas diretas e administrativas do Salão. Eu tinha 16 anos de idade. 

P/2: E como é que foi tomar essa decisão? Porque aí você passou a estar lá em tempo integral? 

R: Isso. A primeira coisa minha, eu nunca tomei uma atitude sem antes se comunicar com minha família, com meu pai. Assim, porque pra mim era novo, né. Aí eu procurei primeiro informação com o meu pai. Chamei ele, fui em casa, conversei com ele qual que era a proposta e tal, ele perguntou se era um desejo meu, falei que era e tal, que eu não teria medo de estar assumindo isso, entendeu, que eu sabia o quê que era isso. Aí ele, assim, me deu a maior força, conversou comigo, me orientou, me falou então se era o meu desejo que eu tinha que correr atrás disso mesmo. 

P/2: E a sua mãe? 

R: Apoiou também. Porém, minha mãe já era uma pessoa...naquela época ainda era uma pessoa afastada, né. Porque não sei se a mulher era já, era, assim, não por meu pai ser um machista, nem eu era. Não era dessa forma, mas ela era uma pessoa que cuidava da casa, que mantinha os filhos muito bem. Uma pessoa de coração enorme. Ela fazia essa parte. Até então ela não tinha essa comunicação ainda. 

P/2: Mas ela apoiou? 

R: Sem dúvida. 

P/2: E aí, o quê que aconteceu? 

R: Aí eu abracei a causa. 

P: O quê que foi abraçar a causa? O Quê é que você passou a fazer? 

R: Abraçar a causa foi abraçar o Salão do Encontro, comecei a participar mais diretamente com a dona Noemi dentro das áreas de acompanhamento administrativo, e, apoio. Seria uma base pra ela. Eu estava sendo uns dos primeiros suportes de visão dela, que seria um dos esteios para o futuro do Salão do Encontro. Que na realidade, hoje nós, todos nós que coordenamos e fazemos parte da administração do Salão, somos filhos do Salão. Fomos pessoas eleitas pelos próprios meninos lá dentro, sabe? Quando nós passamos desse setor nós tivemos uma aceitação disso. Eles achavam que nós éramos as pessoas corretas para isso. Então assim, hoje, quem administra a marcenaria é um jovem que começou lá. Quem administra um tear mineiro é uma jovem que começou. Então assim, a aposta, o resultado, da dona Noemi, a dona Noemi confiava na gente isso. Nós entendemos essa proposta de trabalho dela. Então assim, nós somos um esteio hoje. Ela é, ela coordena, mas nós somos o esteio disso, nós somos o futuro disso e nós temos mil pessoas envolvidas dentro desse projeto, que estão na nossa responsabilidade. Na falta dela amanhã, nós temos essa responsabilidade sobre essas mil pessoas, igual ela teve conosco. 

P/2: Claro. Mas aí, você... Como que era o seu ambiente de trabalho, quais eram as coisas específicas que você fazia nesse serviço administrativo? 

R: Eu coordenava qualquer necessidade do Salão, entendeu. Porque assim, a visão da dona Noemi é que eu não devo, assim, a pessoa não deve estar focada somente em X coisa, sabe, ela tem que ser participativa, tem que ser ativa. Então assim, qualquer situação do salão do encontro que acontecesse, de solução, de estar em discussão, entendeu. Então nós éramos participativos nisso. Que seja num cano que estourou lá em baixo, que seja num acontecimento mais grave. Nós éramos os jovens participativos dentro disso. Porque? Ela queria mostrar pra gente qual era a responsabilidade disso. Que nós não tínhamos técnica administrativa, ela não tem técnica administrativa. Ela tem visão de um projeto que ela implantou e que ela administraria da forma dela. Então a gente não tem técnica para administrar, não temos técnico nenhum. Ela é uma professora de rede estadual, entendeu. Trabalhou, começou a trabalhar numa favela que chamava Vila dos Marmiteiros, então assim, entregou a vida por aquilo. Então nós não temos filosofias nem planejamento, não. Nós temos a nossa filosofia de trabalhar, que era sempre buscando o próximo. 

P/2: E além de você outros jovens trabalhavam também, fazendo tudo nesses setores de administração? 

R: Sim, os jovens que ela apostou que seriam os esteios da entidade. 

P/2: E como que você se relacionava com eles? 

R: Excelente. Eu sempre tive muito, um relacionamento muito bom. Porque, na realidade, o Salão em si. Nós somos líderes. Mas se eu for contar todas as pessoas que envolvem o Salão, todos nós somos líderes. Cada um tem sua parcela, tem a sua cumplicidade com a entidade, entendeu. Cada um tem a sua responsabilidade. Então ninguém é melhor do que ninguém. Então assim, nós estamos todos num patamar, num nível, que todo mundo é responsável por aquilo, entendeu. 

P/2: E vocês eram mais ou menos em quantos, Marcos? 

R: Olha quando nós começamos era 150, isso nessa época já de 16 anos a gente já deveria estar em torno de umas 200 pessoas. P/2: Mas e os jovens escolhidos pra, pra dar esse apoio? 

R: Para liderança? 15. 

P/2: Eram 15? 

R: 15 jovens 

P/2: Nesse meio tempo você continuou estudando? 

R: Sem dúvida. Eu trabalhava, eu já comecei a participar do projeto o dia inteiro, estudava pela noite. 

P/2: Você já tava no segundo grau? 

R: Já. 

P/2: E era fácil conciliar as duas coisas? 

R: Fácil [Pausa].  Era um desejo, né?! A educação e o trabalho. As duas coisas estavam conciliadas. P

/2: Você podia nomear pra gente alguma coisa que você achasse muito bacana nessa nova etapa da sua vida, trabalhando no Salão do Encontro? 

R: A descoberta. Até então eu não tinha me descoberto ainda, entendeu. Eu era pessoa que vivia junto com a minha família, no meu berço e me descobri. 

P/2: E uma coisa que não era. Que foi um desafio, um problema, que você achou difícil de fazer? 

R: É, encontrar com amigos que não reconheceram o projeto. 

P/1: Como assim? 

R: Que tiveram pessoas que não tiveram a mesma visão da gente a respeito do projeto. Então assim, eu tinha amigos no bairro que saíram do projeto, largaram o projeto e de repente não foram pessoas do bem, entendeu. Então assim, aconteceu alguns fatos. Então isso pra mim é uma fase, assim, porque como eu considero o Salão uma família, eu queria que todo mundo estivesse incluso, dentro do que é o projeto pra gente. 

P/2: Mas como que você lidava com esse tipo de coisa, de situação? 

R: Normal. Eram meus amigos. Então eu não tinha o direito de recriminar ninguém. 

P/2: Claro. Nesse momento a Petrobrás já dava algum apoio pro Salão? 

R: Ainda não. Até naquele meio tempo, não. Tanto é que nosso caminho foi meio longo, assim, pelas dificuldades que a gente tinha, né. Assim, nós temos 34 anos de existência hoje, mas assim, até os 20 anos de entidade, ali o caminho foi muito longo. Porque nós, assim, a gente não enxergava os direitos que nós tínhamos, entendeu. Não tínhamos conhecimento sobre isso, entende. Então assim, aí que nós começamos a ter um, de um certo tempo, a montar uma capacitação de recursos, alguém que estaria apoiando esse projeto, confiasse nesse projeto. Que eu... 

P/1: E antes como é que vocês faziam para captar recursos, pra manter isso tudo? 

R: A dona Noemi pedia isso no boca a boca. 

P/1: Pedia? 

P/2: Pedia pra quem? 

R: Pras pessoas. Ela ia na mercearia e pedia ajuda para alimentação, pedia não sei quem pra isso. Era mais dessa forma, entendeu. P/1: Vocês viviam de doações? 

R: De doações e já das vendas dos nossos produtos, que nós produzíamos lá, né. 

P/2: Você falou que ela pedia ajuda para alimentação. Então, além das oficinas de artesanato, existia algum trabalho de merenda pra quem tava lá? 

R: Existia. Sempre existiu. É, nós temos um refeitório, tá, que atendia tanto ao público interno quanto ao público externo da comunidade. Que era uma alimentação de quem chegasse, e tinha fome, comia. Não tinha nada que você fazer um registro, nada de você preencher ficha. Era quem tava com fome, quem tava barriga doendo, não tem o que comer. Então, famílias e famílias iam almoçar lá. Na época chamava cantina, não era Salão do Encontro. Tanto é que o nome pegou cantina, pra depois subentender que o nome era Salão do Encontro. 

P/1: Mesmo quem não fazia nenhuma atividade lá... 

R: Atividade 

P/1: podia chegar... 

R: Podia chegar, se alimentar normalmente. 

P/1: Fazer a refeição e ir embora. 

R: Normalmente, normalmente. 

P/2: E, além disso, que outros serviços vocês ofereciam pras crianças e adolescentes? 

R: Nós começamos depois de um certo período, nós implantamos um pré-escolar de quatro a seis anos, tá. É, que atendia às pessoas do bairro, no período de oito às quatorze horas. Aí, subentendia que seria da mesma forma, dentro do mesmo processo. Quem não tinha condições nenhuma de colocar uma criança num jardim particular ou alguma coisa assim, a gente fazia uma avaliação e essa pessoa, essa criança ingressava dentro desse projeto. Aí seria mais somente dentro área educacional, nada profissional, né, principalmente pela idade. 

P/2: Marcos, e nesse momento você tava vivendo sua juventude? 

R: Humhum. 

P/2: Dava tempo pra passear, pra ir em festa? 

R: Sim. 

P/2: Como é que era isso? 

R: Não... 

P/2: Como você se divertia? 

R: Olha, eu sempre gostei muito de futebol, é, gostei muito de pescar, sabe? Umas coisas mais tranquilas, mais light, sabe? Então assim, pra mim conciliar essas coisas era muito fácil. Porque eu estava tão bem com aquilo que eu estava fazendo, que qualquer momento que sobrava pra mim, era o maior tempo do mundo. Então tudo o que eu fazia, entendeu, pra mim, era com prazer, era com orgulho. Porque eu tinha base, eu tinha um piso, sabe. Eu tinha um caminho a seguir, entendeu. Então assim, pra mim as coisas eram tranquilas. Então eu fazia as coisas básicas mesmo, era muito tranquilo. Nunca fiz uso de drogas, entendeu. Nunca tive nenhum acesso, nem conheço, vou ser sincero, entendeu. Então assim, as coisas pra mim foram muito tranquilas, com muita base. P/1: Mas nas suas horas vagas o quê que você gostava de fazer? Me diz uma coisa que você sempre fazia. 

R: Saía pra dançar, uma coisa assim... 

P: Ah, você gostava... 

R: É, eu jogava futebol, sempre gostei de uma pescaria, entendeu, acampar, essas coisas. 

P/1: E como é que era a moda, na sua época, como é que você se vestia? 

R: Playboy. [Risos]. 

P/1: Como é que é isso? 

R: Cabelinho enroscado, quando eu tinha, né? [Risos] Era cabelinho enroscado, blusas maiores do que o necessário... 

P/1: Nossa. 

R: Calças mais baixas, sei lá. Era uma coisa assim. Usava kichute na época, era um tênis que era da moda [Risos]. 

P/1: É eu lembro de kichute. [Risos] É, como é que ficavam as namoradas, nesse meio tempo? Dava tempo pra você paquerar? 

R: Até então eu não tinha esse interesse ainda não, a respeito de namorar, compromisso, essas coisas, não. Tanto é que a minha mulher, eu conheci eu tinha 17 pra 18 anos e casei com ela. Então assim, eu não fui muito de relacionamento, essas coisas não. 

P/2: Mas por quê, você se achava se tímido? 

R: Eu me achava tímido, e também assim, eu achava que eu, na hora que tivesse que acontecer a coisa ia acontecer. 

P/2: Você preferia pescar. 

R: É, eu gostava mais de uma coisa mais assim, pra esse lado. 

P/2: E você pescava aonde lá? 

R: E é até na realidade, naquela época, assim, pra você namorar, uma coisa assim, era até uma coisa mais difícil, né gente. Que assim, é, você conhecia a família e ia e conversava pra namorar. Porque você não saía na rua e ia encontrar alguém pra poder namorar, essas coisas, entendeu. Então era uma coisa de personalidade das famílias de lá, entendeu. Então assim, as meninas, não eram meninas que saíam. Igualzinho eu. O meu pai não deixava que eu saía, e as meninas principalmente não, entendeu. Então era uma coisa mais difícil pra você tá namorando, essas coisas. 

P/1: E como você conheceu a sua, a sua esposa então, já que ninguém saía, ninguém... 

R: Ah, eu estava no Salão, na época eu ia fazer uma festa junina, e tinha aquelas danças, aquela coisa, entendeu. Então eu conheci ela foi dentro disso. 

P/1: Dentro do Salão? 

R: Dentro do salão. 

P/1: Tinha que ser. 

R: Tinha que ser. [Risos] 

P/2: Aí você conheceu ela com 17, 18 anos, que você falou. 

R: É, 17 para 18 anos. 

P/2: Aí,vocês casaram logo? 

R: Casei com 21 anos. 

P/2: Ah, então. Mas ainda sobre a sua juventude, você falou que gostava de pescar, de acampar. Conta pra gente como é que era isso, com quem que você ia. Você tinha muitos amigos que gostavam? 

R: Na realidade, eu, assim, quem me abriu isso é que eu acho que é uma coisa excelente, entendeu, pra cabeça, pro dia a dia, sabe, foi minha família. Meu pai e minha mãe são pessoas que gostam de fazer isso. Fazem até hoje. São pessoas aposentadas e eles vivem acampados, entendeu, na barraca, nessas coisas. Então eles me induziram... 

P/2: Há, eles vão sozinhos... 

R: Vão, vão sozinhos até hoje, graças a Deus. São pessoas de saúde, entendeu, e... 

P/2: Nossa, bacana. 

R: E eu acho muito legal isso neles, entendeu. Porque você na beira do rio, pescando, olhando pra água, olhando pra natureza, entendeu, isso te reflete coisas excelentes, muitas coisas boas. São energias, negativas, que você joga e energia positiva que você busca, entendeu. Então assim, quando eu quero me reabastecer de energias positivas, eu vou acampar e vou pescar. 

P/2: E aonde que você acampava e pescava? 

R: No rio. Nós temos um rio lá que é... 

P/2: Em Betim mesmo? 

R: É, rio Paraopeba. 

P/1: Como? 

R: Pa-ra-o-pe-ba. Lá em Betim. 

P/2: Ô Marcos, aí pra gente voltar um pouco, então, pro Salão do Encontro. Aí aos 16 anos você entrou lá em tempo integral. 

R: Sim. 

P/2: E depois como foi a sua evolução lá dentro. Você assumiu outra função, quando? 

R: Depois dessa credibilidade que a dona Noemi me pegou no meu braço e falou, me sacudiu e falou: “Vamos?”. Eu falei vamos, aí aos 18 anos eu já comecei a trabalhar na área financeira, aí trabalhei durante três anos. Aos 21, aí eu já comecei a trabalhar na coordenação, entende. Aí, foi um processo mais de confiança. Ela viu o meu desejo pela entidade, sabe? O meu gostar pela entidade, que eu não vim no mundo em vão, eu vim pra poder fazer alguma coisa, e aquela era a minha coisa. Aquela era o meu tesouro que eu tava desenterrando desde dez anos de idade. 

P/2: Aí você foi com 18 anos, então, pro departamento financeiro... 

R: Sim. 

P/2: ... foi ela que te indicou? 

R: Foi ela que indicou. 

P/2: E o quê é que mudou nas suas atividades com essa indicação e essa ida pra esse setor? 

R: Bom, eu tive mais responsabilidades, entendeu, e vi a seriedade e o compromisso, e qual que era a dificuldade do Salão. Porque o Salão até hoje não é auto-suficiente. Porque você trabalhando dentro dessa área financeira você vê as dificuldades reais, entendeu. Porque você manter uma entidade com tantas pessoas na sua responsabilidade e sem grana, é difícil, entendeu. Então assim, eu vejo ela uma mulher, uma mulher de peito, entendeu, de garra, que tem Deus em primeiro lugar, que ele nunca deixou faltar, entendeu, assim, nas horas mais difíceis ele estava presente, entendeu. Então assim, me serviu de espelho, pra minha vida, sabe, essa parte financeira. 

P/2: E você atuando nesse departamento, você conseguiu alguma contribuição para essa área de investimentos que tava sempre tão carente? 

R: Sim, a bolsa sempre foi dentro disso. A nossa visão sempre foi dentro disso. Porque nós sempre julgamos assim, dentro da captação, nós temos que captar. Porque tem meses, tem meses que a gente, assim, a gente não tem o dinheiro pra poder fazer a folha de pagamento. Dessas pessoas que necessitam, pessoas lá carentes do bairro, que necessitam, que têm seus compromissos, entendeu. Mas a gente tem assim, tem a parte que a gente capta dos nossos parceiros, que a gente tem muito que agradecer, entendeu, mas mesmo assim nós ainda temos algo pra correr atrás durante meses e nunca faltou, entendeu. Então, essas doações indiretas, entendeu, isso nunca faltou pra gente. 

P/2: As pessoas que trabalham no Salão do Encontro então, são empregadas? Não é um trabalho voluntário? 

R: Não, não é um trabalho voluntário. São pessoas que trabalham dentro das oficinas. Hoje são 247 funcionários na entidade, tá? Eu tenho mais 650 crianças na área de pré-escolar, que subdivide em creche que seria de quatro meses de idade a quatro anos. Que eu brinco com meus filhos que eles tiveram mais privilégio do que eu, porque eles entraram com quatro meses e eu entrei com dez anos, entendeu. Gosto muito de frisar isso pra eles verem o valor da coisa. Se eu dou valor, eles teriam que dar muito mais. E tem uma creche de quatro meses a quatro anos. Nós temos um pré-escolar, que atende em torno de 450 crianças de quatro a seis anos, tá. É, nós temos uma escola complementar que é de sete anos até os 14, que já entra a criança depois que saí do pré-escolar vai pra escola pública, ela estuda meio horário na escola pública e meio horário dentro do Salão, dando suporte de dever, entendeu, é cumprir regras, normas, é, e alguma coisa profissionalizante. Ela já começa a desenvolver algum trabalho profissionalizante. Porque nós temos mini oficinas dessas que eu citei, nós temos mini oficinas lá embaixo onde eles começam a pegar. Vamos trabalhar com curva? Vamos, trabalho do tear com a curva. Ah vamos trabalhar nisso? Vamos. 

P/2: Mas nesse momento que você tava trabalhando no departamento financeiro a estrutura do Salão do Encontro já era essa? 

R: Já estava estruturado. Por que? Por quê é que já estava dentro dessa estrutura? Porque a comunidade em si foi se envolvendo tanto dentro do trabalho. Eu acho que nem a dona Noemi tinha em si tinha essa visão, que a coisa seria o que é. As pessoas foram exigindo tanto, foram buscando, aí nós vimos que a necessidade da família, aí, busca um, busca outro, a coisa foi desenvolvendo, foi crescendo, que tomou um rumo que eu acho que ela nunca imaginou que chegaria a isso. Apesar de ser esse o ideal dela. Então, mais assim, então nós chegamos numa estrutura hoje, que o Salão, assim, é, pra quem conhece o Salão do Encontro, entendeu, é, vê a seriedade de um trabalho social, que às vezes, muitas vezes foi deturpado aí, entendeu. Então assim, a gente vê que o Brasil tem solução, entendeu. Que basta querer trabalhar com sinceridade, com honestidade, entendeu, sempre olhando o próximo, entendeu. Eu colho frutos disso. A minha vida tá lá dentro. Do próximo também, entendeu. Então assim, a gente nunca trabalhou com ambição de si próprio, entendeu, sempre eu tava buscando pra mim e pro próximo, pro meu filho, é, pro meu vizinho, entendeu. Então assim, eu nunca trabalhei dentro de uma visão, pensando numa visão pessoal. 

P/2: Certo. Conta pra gente então, um pouco mais do seu cotidiano de trabalho ainda no departamento financeiro. Quê que você fazia, suas atividades? 

R: Eu trabalhava junto, linkado à recepção que fazia venda dos produtos, entendeu. Eu recebia esse dinheiro, cheques das vendas, entende, e disso a gente fazia aplicações. Porque teria que trabalhar dessa forma, né, e começamos a visualizar a busca da captação, que até então a gente não tinha captação de recursos. Então a gente começou a viabilizar por esse lado. Porque o Salão não se manteria, não conseguiria suportar daquela forma. Então, nós tivemos que abrir a visão para a captação de recursos. 

P/1: E como vocês conseguiram isso? Como, como foi a primeira grande captação, vamos dizer assim, que vocês fizeram? Como, como fez... 

R: A primeira grande captação foi a doação de terreno que a gente conseguiu. Onde é a área hoje, são quatorze hectares. 

P/1: E quem é que doou o terreno? 

R: Foi Tancredo Neves, junto com a esposa dele. 

P/1: Em que ano? 

R: Isso foi em, setenta, oitenta ... e sete. 

P/1: Aí, vocês construíram... 

R: Aí nós construímos... 

P/1: Nesse terreno. 

R: Aí nós construímos nesse terreno. Aí nós já conseguimos outros apoios, outros suportes, onde nós construímos outros galpões, onde a coisa foi expandindo para mais oficinas. 

P/2: Mas era próximo de onde já era o Salão? 

R: No mesmo local, tá. Até em então a gente tinha somente um galpão. 

P/2: É. 

P/1: Aí a coisa foi expandindo, montamos outras oficinas, né, ampliamos outras oficinas. E nessa área, numa área de baixo, que a gente tem também, que divide, entre uma rua, uma área de cima que são as oficinas e na parte de baixo que é a área escolar, educacional e agropecuária. 

P/2: Marcos, e quando você aí nesses dezoito anos ainda no departamento financeiro, dava pra participar de alguma oficina, ou você só se dedicou ao... 

R: Não, só me dediquei ao financeiro. 

P/2: Hum Hum. Como que você acha que isso beneficiou sua vida, sua carreira? Aos 18 anos já tá no departamento financeiro do Salão do Encontro. 

R: Oh beneficiou pelo assim, porque eu tinha, eu vi que era o trabalho que eu queria e pela confiança e a transferência de uma responsabilidade que a dona Noemi me jogou com 18 anos, entendeu. Então assim, eu tinha, ela, é, ela sempre estimulou os valores, entendeu. Então, eu entendi que ali, ela tava estimulando o meu valor de honestidade, entendeu, de ser um jovem de 18 anos que tá pegando uma parte financeira de uma entidade, pra poder tá, tá tocando ela, entendeu. Então assim, é, eu vi que ela tava me cutucando o meu, aquele valor meu, entendeu. E eu tinha mais era que tá agarrando e demonstrando que eu tinha essa fibra e que eu tinha essa garra e que eu ia dar retorno disso. 

P/2: Certo. E aí você ficou três anos no departamento financeiro? 

R: Financeiro, aí eu já passei pra coordenação. 

P/2: Por que que houve essa necessidade da sua transferência, que aí você para a coordenação administrativa? 

R: Porque esses jovens que me, que me acompanhou, a dona Noemi viu que pela idade que ela já estava avançando, que a gente teria que dar um suporte administrativo de coordenação. Porque nós seríamos as pessoas de futuro dela, que estaríamos alavancando esse projeto, entende. Então ela nos trouxe...poderia ser até funções mesmas que nós teríamos executados, mas como o nome coordenação pra gente sentir o peso, o quê que é uma coordenação. 

P/2: E o quê que era a coordenação? 

R: Coordenação era ter responsabilidade sobre mil pessoas. O fruto dessa coordenação é somente isso. São mil pessoas envolvidas no projeto que nós temos essa responsabilidade, entendeu, de estar alavancando isso pro futuro. E nós temos essa obrigação de manter essa entidade. Obrigação pessoal, íntima de desejo nosso, que senão eu não estaria lá. Então assim, ela quis nos mostrar que uma coordenação é isso. Nada das coisas técnicas, nem burocráticas, nem nada não. Ela quis nos mostrar que nós tínhamos uma responsabilidade sobre pessoas. 

P/2: Marcos, além de você então, isso aconteceu, essa caminhada, dentro do Salão do Encontro aconteceu com outros jovens? 

R: Sim. Aconteceu com outros jovens, pessoas que começaram junto comigo, é, desde o início que foi contado, né, que eu falei. E que tiveram o mesmo propósito, que enxergaram a filosofia desse trabalho, sabe. Porque você depara assim com situações de carência no dia a dia, sabe, isso te flui muitas coisas boas, sabe, mas te flui muitas coisas também assim negativas, pela necessidade, assim, de estar querendo ajudar outras pessoas e não ter, às vezes as condições de tá ajudando, sabe. Porque a gente tem algumas histórias lá, por exemplo, assim, que a gente teve um jovem que faleceu. Era, tinha o quê? Na faixa de uns 16 anos. Ele faleceu, e no dia do enterro, a gente tava no túmulo, tava enterrando e um outro jovem chegou, perto da dona Noemi, balançou a saia dela e perguntou “Dona Noemi, teria condições de’ eu entrar no lugar dele?”. Quer dizer, aí você vê a necessidade. São histórias, né, que toca a gente, que a gente sente no dia a dia. Nós temos duas mil pessoas hoje que procuram, nos procuram, e nós não temos condições de estarmos e alavancando e dando essas condições de trabalho pra eles, sabe. Então assim, são histórias que a gente conta que, que ela conta pra gente assim, que você vê que toca a alma, entendeu. É uma coisa que toca a alma da gente. Muitas vezes, as pessoas passam desapercebidas por isso, por esse sentimento, o quê que é isso, entendeu. Então assim, ela veio nos ensinado com a vida, veio nos mostrando isso, sabe. Que a gente tem que tá dando esse valor à pessoa. Ouvir, mesmo que a gente não tenha condições de atender essas pessoas, nós temos obrigação de tá ouvindo, entendeu. Pelo menos acalenta alguma coisa, dentro dessa pessoa. Então assim, nós temos várias histórias assim, pra contar sobre isso. Tem uma de sapatos, que eu achei muito legal dela. Que um jovem chegou perto e falou: “Ô Dona Noemi, minha família não tem condições, eu tenho que trabalhar pra tá ajudando o meu pai e minha família que não tem condições. Meu pai tá desempregado, não sei o que e tal”, contou a história dele. E aí a dona Noemi olhou no pé dele e falou assim: “Ó filho, o trabalho eu não tenho condições de te dar, porque nós já estamos dentro de um limite e tal, mas eu tenho um sapato e vou te dar porque o seu tá rasgado.” Ele falou: “Não dona Noemi, eu pedi um emprego, não pedi um sapato”, entendeu. Então assim, são as histórias assim de que olha a necessidade de um jovem, tá indo, pedindo pra tá ajudando a família. Então assim, esses são todos os valores que nós captamos lá dentro. Então assim, É a necessidade, é o que o povo tá precisando hoje, entendeu. É educação e trabalho. 

P/2: Você tem alguma outra história assim, que você queira contar pra gente, deixar registrado? 

R: Ãããã, tem um que eu achei muito legal também, entendeu. Porque a dona Noemi vê que dentro da educação, entendeu, ela me pregou essa história de um jovem, que é a visão dela. Ela fala que a gente constrói o caminho ao andar. Então a gente tem que estar sempre caminhando para construir o nosso caminho. E ela chegou perto de uma criança da escola, e, a criança estava fora do setor dela, estava perdida. Aí ela perguntou pra criança: “Quê que você tá fazendo aqui?”. “Ah, estou perdido”. Ela falou assim: “Você quer que eu te ajude, que eu te leve até lá?”. Ela falou: “Não, deixa que eu encontro o meu caminho”. Quer dizer, uma criança de quatro ou seis anos tá com essa visão de que ela precisa da ajuda, mas que ela quer encontrar o caminho dela, entendeu. Quer dizer você vê que uma criança dessa já tem a filosofia da nossa visão implantada dentro do coração dela. 

P/2: Hum Hum, é bastante simbólico, né, essa história... 

R: É 

P/2: Mas aí me conta, o quê que mudou na sua rotina de trabalho saindo do departamento financeiro indo pra coordenação? Quais as funções que você assumiu? 

R: De... Eu assumi uma função de tá dando o suporte para todas essas pessoas que coordenavam, tá. De não deixar faltar, não chegar a faltar, a faltar nada pra dentro da entidade, entendeu. Então assim, é matéria prima, é, todos os suportes para que a coisa não pare. Porque a dona Noemi fala que não adianta nada você criar se você não tem condições de depois de tá dando pra coisa acontecer, entendeu. Então assim, eu fazia todo esse suporte de entrada de matéria prima, de acompanhamento de produção, é, acompanhamento de segurança, acompanhamento educacional. Então assim, na realidade, essa coordenação minha era dar o suporte para essas pessoas, que estavam agindo dentro dessa área. 

P/2: De certa forma um trabalho de mais responsabilidade também. 

R: Nossa, sem dúvida, né? 

P/2: E foi no ano que você casou? 

R: Sim, no ano que eu casei, com vinte e um anos de idade. 

P/2: E aí você ficou na coordenação administrativa por quanto tempo? 

R: Na realidade, eu faço parte da coordenação até hoje, né, com quarenta anos de idade. 

P/2: Você tá até hoje? 

R: Sim. 

P/2: Mas você teve uma passagem por uma coordenação de, relacionada à área de comércio. 

R: Sim. Porque, na realidade, nós dividimos assim coordenações por área, e hoje, atualmente, eu estou, é, direcionado à área comercial. Então eu coordeno vendas, e administro mais uma loja que nós temos em Belo Horizonte. 

P/2: Uma loja? 

R: É, nós temos uma loja, uma pequena loja que é, demonstra os nossos produtos, né, que seria tanto o nosso, o produto em si, em venda, e o nosso produto que é o social também, né. Então, a gente assim, é somente uma apresentação para conduzir as pessoas à nossa entidade. Porque nós gostamos de receber na nossa entidade, mostrando o nosso trabalho, vendo que é uma coisa real, que é uma realidade, o nosso projeto. 

P/2: E, fala pra gente então desses produtos que vocês vendem, que tão na loja que podem ser encontrados lá. 

R: Eu trabalho com... na linha de móveis rústicos, tá. Uma linha criada pela dona Noemi mesmo, lá dentro do projeto. Ela suporta tanto, é, fazendas, sítios e uma linha para apartamentos e casas, tá. É, eu tenho, é, produtos de acabamento e decoração de uma casa. Porque as minhas oficinas são o quê? Nós não perdemos raízes. Por exemplo, o tear mineiro, nós, nós mantemos essas raízes que são das pessoas mineiras que trabalharam, que sofreram muito com isso, né, antigamente. Então assim, nós queremos demonstrar que essas raízes não devem ser perdidas. Então nós temos o tear mineiro, que faz colcha, faz almofadas, cortinas. Eu tenho a tapeçaria de sisal, é o acabamento para tapete, é, cerâmica, que é uma coisa muito linda, os meninos são muito bons na cerâmica, entendeu. Então, o acabamento de uma casa eu tenho tudo para montagem de uma casa. 

P/2: Você e coordenador de vendas? 

R: Sim. 

P/2: Vocês vendem esses produtos pra que tipo de pessoa? Quem é o público que vai na loja ou no Salão comprar? 

R: Pelo, o público pela facilidade, é, de, de parcelamento, de pagamento, essas coisas, nós vendemos pra qualquer público, tá? Vende, então assim, mas quem nos busca muito é a região de Belo Horizonte, né, que têm nos buscado bastante, pessoas de apartamento e sítios. 

P/2: Mas vocês aceitam assim, pedidos de encomendas, pedidos de outros estados? Já tem uma demanda pra isso? 

R: Temos, e nós trabalhamos mais sob encomenda realmente, tá. O cliente faz o pedido, ele vai lá vê o produto na loja e nós entregamos com trinta dias esses produtos. 

P/2: Além da loja, a loja é em Belo Horizonte? 

R: Nós temos esse showroom em Betim, que é na nossa entidade, e temos essa demonstração em Belo Horizonte. 

P/2: Além desses dois meios, vocês expõem os produtos de uma outra maneira? Divulgam como? 

R: Divulgamos em exposições, tá. Que é outra linha que nós temos. 

P/2: Certo. 

P/1: E vocês já fizeram exposições onde? 

R: Curitiba, São Paulo, Rio. 

P/1: E como é que são essas exposições? As crianças vão, elas acompanham? 

R: Nós montamos as oficinas dentro dessas exposições, entendeu. Nós levamos uma peça de cada, uma oficina de cada e os meninos trabalham, os jovens, os meninos jovens trabalham, que trabalham lá, vão trabalhar e exercer essa função lá e alocados já vendemos os produtos que nós levamos para expor. 

P/1: E, é, esses professores. Porque cada, cada oficina tem um professor, né? Tem um... 

R: Na realidade, as oficinas são assim... 

P/1: Como é que funciona isso? 

R: Eles têm um chefe, responsável, que foi escolhido pelos próprios jovens, tá. E são... 

P/1: São ex alunos, sempre? 

R: Sempre, ex alunos, tá. E, na realidade, assim, as oficinas nossas de produção são pessoas que foram criadas lá dentro e produzem, tá. E tem o chefe, uma pessoa que coordena esse setor, tá ok? E nós temos alunos aprendizes na escola que eu falei, que é a escola complementar para se profissionalizar pro futuro, pra ser no futuro artesão dentro do Salão. Ou se quiser abrir a sua própria coisa ele também pode abrir no bairro, ou em casa, alguma coisa assim. 

P/1: E vocês, é, depois que a criança acaba o curso, é, como é que é esse mercado de trabalho? Vocês encaminham pra ela trabalhar em algum lugar ou cada vai por si tentar alguma coisa? Como é que é? 

R: Nós temos alguns, é, algumas parcerias com algumas empresas, onde nós alocamos essas crianças, mesmo que não seja nessa linha, nessa linha de artesanato, entendeu. Nós temos alguma parceria, alguns convênios com algumas empresas, que vai tá dando esse suporte pra essas crianças que tão saindo. 

P/2: Eu queria resgatar um pouquinho da história lá da criação do Salão do Encontro. 

R: Sim. 

P/2: Você falou que foi uma iniciativa da dona Noemi. 

R2: Dona Noemi. 

P/2: E de um frei. 

R: Frei Estanislau. 

P/2: Conta isso pra gente. Você sabe como é que foi? Quais foram as propostas dela, inquietações que levaram ela a fundar o Salão? 

R: Ó inicial foi como eu falei. Ela trabalhava na Vila dos Marmiteiros, que era uma favela de Belo Horizonte. Como ela mudou, a família dela mudou para Betim, para deslocar Betim-Belo Horizonte, naquela época ficava incômodo. Então, ela escolheu um bairro de Betim, um bairro carente, e com a visão de implantar alguma coisa social dentro deste bairro. Então, ela iniciou, conversou com o frei, e iniciou dentro desse nosso bairro, com uma pequena sala, com um artesão e uma tecelã. 

P/2: E isso foi quando? 

R: Isso foi em 1970. 

P/2: E desde então, a dona Noemi tá na frente do Salão do Encontro? 

R: Tá na frente do projeto. Sempre foi, ela idealizou e entregou a vida para o Salão. Então assim, o Salão do Encontro é a família dela, é o filho, nós somos os filhos, pai, marido. Ela complementou a família dela com o Salão do Encontro. Então assim, ela nunca nos deixou faltar nada, entendeu, e sempre entregou por aquilo lá. Então assim, é uma pessoa de um coração enorme, sabe, de uma visão enorme, e que, assim, veio ao mundo pra isso. 

P/1: Ela ainda participa ativamente da... 

R: Ativamente. Presidente do Salão do Encontro. Hoje com 80 anos de idade. 

P/1: E me diz agora, é, se é, os critérios pro ingresso das crianças continuam os mesmos de quando começou. Ainda é a mesma coisa, tem que ter uma renda, uma renda baixa, é a mesma coisa? 

R: A mesma coisa. Os critérios são os mesmos, tá. E a gente faz questão, assim, que a, que a coisa expandiu. Inicialmente seria para o bairro, mas a procura é tão grande e o crescimento foi, foi assim, tão volumoso, que hoje nós estendemos isso pra outros bairros, entendeu. Então assim, a gente teve que abrir, sentiu a necessidade de abrir. Tanto é que hoje com outro patrocínio, de uma outra empresa, a gente tá montando um anexo do Salão do Encontro, entendeu. Então a gente já abriu em outro bairro que era muito carente de Betim. 

P/1: Vocês tão fazendo... 

R: É... 

P/1: uma filial, né? 

R: Uma filial, mas junto com a parceria de uma empresa. Aí, já vai ser numa visão assim, a empresa sentiu a sua necessidade social, entendeu. 

P/2: E que empresa é essa? 

R: É a Teksid do Brasil. 

P/1: Como? 

R: Teksid. Então assim, a gente tá muito feliz porque, é, despertou, entendeu. E nosso grande interesse é que o Salão fosse um pólo para as pessoas descobrirem que o social é legal, entendeu. Que o social vai dar solução pro país. Então, pra gente isso foi de um grande valor. Esse novo pólo que nós vamos montar, essa nova filial. P/1: Vai ter as mesmas, as mesmas atividades, que tem na, exatamente as mesmas coisas. 

R: As mesmas atividades, a mesma filosofia do Salão. 

P/1: Vai ter a creche? 

R: Tudo. 

P/1: Vai ter escola? 

R: Vai. A mesma filosofia do Salão. Isso era, é, é um desejo da dona Noemi. Que a coisa crie, que a coisa flua, mas dentro da mesma filosofia, entendeu. Dentro das mesmas raízes, dentro da mesma visão que nós temos hoje. 

P/2: Ô Marcos, qual que é o limite de idade para as crianças entrarem no projeto? Vocês atendem crianças de qual faixa? 

R: De quatro meses, que na realidade fica na creche, e nós não temos idade limite. Porque hoje nós temos, é, alguns portadores dentro da entidade, que hoje são em torno de 110, tá, incluindo com senhoras de oitenta, noventa anos de idade que são avós de alguns meninos que estão lá. Porque na realidade nós estruturamos a família. Então pra gente não tem data, idade limite, não tem nada. Todo cidadão tem sua contribuição. Uma senhora um dia disse, ela virou pra mim e falou, é, que ela era importante porque ela enrolava uma linha, que fazia parte de um processo de produção que ia sair o tecido pronto na frente. Quer dizer, uma senhora de 70, 80 anos falar isso, gente, é de grande valor. E realmente é, às vezes ela tá em casa lá, é, sentada esperando a vida passar, esperar pra morrer? Não, ela tem o valor dela. 

P/2: Mas o público alvo das oficinas continua sendo as crianças? 

R: Sim, os adolescentes. 

P/2: Hum Hum, e aí pra vocês agregarem o resto da comunidade, as famílias, essas pessoas atuam como? 

R: Nós temos essa, essa escola suplementar, que nós estamos dando esse suporte, tá? E a visão de tá buscando novos profissionais em Betim teria que ser através dessa entidade que a gente tá abrindo, que é uma coisa que tinha que tá abrindo em filiais, entendeu? Porque hoje o Salão não suporta mais esse número de pessoas. Então essas pessoas vão estar sendo guiadas, entendeu, para essas instituições. 

P/2: Só pra gente frisar, quantas pessoas o Salão atende hoje? 

R: 937 pessoas. 

P/2: Você saberia dizer quantas pessoas já foram atendidas? Mais ou menos. 

P/1: Ao longo de todos esses anos. 

R: É, em números, não. Mas... 

P/1: Uma média. 

R: Eu acredito que mais de cinco mil pessoas já tenham sido atendidas. Nós damos 1220 refeições/dias. 

P/1: E ainda continua aberto à... 

R: Aberto, é. 

P/1: À comunidade? Quem quiser fazer refeição... 

R: É, quem quiser. Damos também um... Eu acho uma coisa interessante, é, que indiretamente nós, mesmo com essa dificuldade financeira que nós temos, que nós não conseguíamos, entendeu, nós não deixamos de oferecer isso. Que nós sabemos que alguém, algo mais forte do que a gente vai tá cobrindo isso lá trás, sabe. Vem, vem um suporte pra gente. Porque toda vez que nós precisamos, essa força maior nos deu. Então assim, nós temos em torno de uma de média de 25 - 30 pessoas que nos procuram por dia, que querem ajuda ou com gás ou com conta de luz, ou quer, veio pra cidade à procura de um emprego e não achou e quer voltar pra cidade, entendeu. Além disso nós temos essa ajuda indireta que atende em torno de quinze a vinte pessoas/dias. 

P/1: E vocês ajudam? 

R: Ajudamos, sem dúvida. Porque mesmo com a nossa dificuldade, nós estamos lá pra poder ajudar. 

P/2: Então, fala um pouco pra gente disso. Como que a comunidade de Betim recebe o Salão do Encontro? 

R: Ó, eu... O Salão do Encontro na realidade é a comunidade, né?! Riso. Porque as pessoas do projeto são da comunidade, estão envolvidas naquilo ali. Então eu imagino, eu vejo no Salão do Encontro, é, a comunidade. Então, o Salão é a comunidade. Não tem... P/2: E você poderia então, definir pra gente assim, os resultados. Como vocês perceberam, ah, os resultados do Salão do Encontro na comunidade? 

R: São os melhores possíveis, né? Um bairro totalmente estruturado, é, com o mínimo de violência. Nesse, é, quase sem, os nossos meninos, nenhum fazem uso de drogas, entendeu? Então você se envolve num trabalho desses que de mil pessoas, que indiretamente deve atingir quatro, cinco mil pessoas, né. Então assim, eu acho que a coisa é da melhor forma possível. O fruto, a semente foi plantada, entendeu, tá dando frutos excelente hoje, entendeu. Eu faço parte, eu sou um desses frutos. Então eu posso dizer de cadeira, a coisa é o que há mesmo, tá dando o de melhor. 

P/2: Então você acha que isso é influência direta do Salão na comunidade, que a comunidade melhorou pelo trabalho que o Salão fez ao longo desses trinta anos? 

R: Sem dúvida que foi. O Salão do Encontro é um ponto de referência, entendeu. Então, é um bairro que virou ponto de referência. Então hoje nós temos universidade no bairro, entende. Nós temos, é, um parque de exposições, entendeu. Então, tudo foi assim, os, se viu que a cidade cresceu pro bairro, entendeu. E quem era esse ponto de referência pro bairro? Salão do Encontro. Então Salão do Encontro é o ponto de referência de Betim. 

P/2: E são quase trinta e anos de Salão do Encontro? 

R: 34 anos de Salão do Encontro. 

P/2: O quê que mudou de lá pra cá, você sabe perceber isso?

 R: Na filosofia, nada. A filosofia é a mesma. A vontade é a mesma. A garra é a mesma e o pulso é o mesmo, entendeu. Então assim, a nossa meta é a mesma. Então assim, com o tempo, é, só nos fez criar mais garra. Então a diferença que eu vejo do Salão do Encontro inicial, desde quando eu entrei, pro Salão do Encontro esse, até hoje é a garra do dia a dia. Quanto mais o tempo passa, nós não cansamos. Nós temos mais garra pra coisa fluir melhor e crescer mais. 

P/1: Agora me diz, em que momento a Petrobrás entrou no Salão, entrou na vida de vocês. Como foi? Me diz isso. 

R: Mediante essa necessidade, essa captação de recurso, há nove anos atrás, através do superintendente da Petrobras, Dr. Caio, é, a gente consegue fazer um primeiro contato pela credibilidade do Salão, entendeu. 

P/2: Foram vocês que foram procurar a Petrobras? 

R: Isso. O contato foi, foi de captação do Salão, entendeu. Então, a dona Noemi, é, o convidou, ele foi conheceu o Salão e de lá pra cá a gente tá tendo essa parceria. Graças a Deus. De muito bom tom, que nos ajuda bastante, tá. Que hoje é em torno de 20% do valor da entidade, sabe, dos nossos gastos mensais, o patrocínio. E nós temos assim, de lá pra cá, esses outros superintendentes todos, além dele, é, não o superintendente da Petrobras, nós temos eles como nossos amigos, entendeu. Porque eles reconhecem realmente o trabalho, do Salão. Então assim, o valor dessa entidade. 

P/1: E como, como é esse, esse patrocínio? Eles ajudam financeiramente ou eles dão matéria prima ou eles dão comida? Como é que é? 

R: Existe mais de uma forma de ajuda. Eles ajudam financeiramente, tá, e tem agora, é, comercialmente eles viraram nossos clientes. 

P/1: Ah eles tão comprando também? 

R: È, hoje existe os kit sociais, que a Petrobras lançou um projeto, então assim, eles compram os nossos produtos. Então assim, eles são nossos parceiros financeiramente, financiam nosso projeto, e hoje é o nosso cliente. Então ele ajuda de duas formas a instituição. 

P/2: E aí esse projeto é renovado anualmente, como é essa questão contratual? 

R: É um projeto renovado anualmente, tá. A gente, conforme a nossa necessidade, o nosso crescimento, esse valor, esse volume de valor, aí a gente negocia junto lá na Petrobras, mas eles sempre, nós somos muito bem servidos. 

P/2: E como você encara uma empresa como a Petrobras apoiando um projeto social que é o do Salão do Encontro? Qual que é a importância disso na sua opinião? 

R: A importância é total. Eu acho que todas as empresas deveriam ter essa visão social. Porque, é, se montasse essa parceria dentro do social, entende, poderia tá montando outras instituições, que não seria só a nossa, mas tantas outras. Tem tantas pessoas de bom tom aí, que busca o ideal que querem o ideal. São pessoas boas. O brasileiro é um cidadão criativo. Um cidadão que quer a todo o momento, entendeu. Então assim, por que não estar ajudando eles dentro desse social? Tem muitas pessoas que querem isso, mas não tem suporte, não tem condições. Então assim, eu vejo o patrocínio uma coisa essencial pra vida, pra vida do Salão do Encontro hoje. E isso tem muito legal, porque a entidade Salão do Encontro, a família Salão do Encontro, é, entende o valor disso, entendeu. Além do valor financeiro, o valor de uma empresa como a Petrobras tá patrocinando esse projeto, entendeu. Porque isso dá confiança e a gente vê que abre portas, entendeu. A gente vê um futuro pro país. Então, eu acho a nossa entidade e os nossos colaboradores todo enxergam dessa forma, tanto Petrobrás, como outros parceiros que nós temos. 

P/2: E quais são os principais projetos do Salão do Encontro hoje? 

R: Bom, nós estamos com essa filial, né. Mas o nosso projeto, o maior projeto hoje, atualmente é estar dentro dessa área de educação, que a gente firmou. Que é esse pré-escolar, essa escola complementar, e essa escola suplementar. Que a gente viu, nós vimos que deu, que nós estruturamos a base do jovem. Que há momento nenhum nós deixamos vago um espaço, para que ele fique fora do projeto, entendeu. Mesmo que a gente, às vezes, infrinja alguma lei, alguma coisa aí [Risos]. Que normalmente não tem como, né. Principalmente quanto à questão, ao jovem, né gente, que é uma coisa tão difícil tudo, que você vai fazer falam que é exploração de menor, que é isso, é aquilo. Mesmo você querendo ajudar. Então assim, a gente tem essa noção, então a gente não deixa o vago, nós não queremos. Então, eu acho que o grande projeto do Salão do Encontro é essa educação. 

P/2: Ô Marcos, você tem filhos? 

R: Tenho quatro filhos. 

P/2: E eles estão no Salão do Encontro? 

R: Privilegiados. Eles estão no Salão do Encontro e começaram mais novos do que eu. Eu tenho o Pedro, que é, que está na creche, ele tem dois anos de idade. Eu tenho a Rafaela e a Lais, que uma tem sete e a outra tem dez, que estão na escola complementar, já passaram pelo pré, estão na escola complementar, e tem o Igor, que tem 17 anos. Ele hoje é, é, fazia parte de um processo do Salão, e hoje ele tem focado mais na área de educação. Então hoje ele tá fazendo um curso técnico de eletricista e estuda na escola padrão. Mas não deixou de perder o vínculo com o Salão. 

P/1: Os seus filhos, é, essas crianças mais velhas, eles já participam de alguma, alguma oficina ou eles só estudam? 

R: O Igor, assim, a Rafaela e a Lais já participam de um projeto de oficina porque está dentro do planejamento da escola complementar. Elas já participam de oficinas, de aprendizados. O Igor, ele já passou por essas oficinas e hoje ele foi direcionado para esse curso profissionalizante que ele tá fazendo. Através do Salão, tá. 

P/1: Humhum. Agora deixa eu só voltar um pouquinho, eu queria te fazer uma pergunta. Além da Petrobras, quais os outros patrocinadores que vocês têm? 

R: Olha eu tenho a FIEMG. 

P/1: FIEMG? 

R: É, a Federação de Indústrias dos Estados de Minas Gerais, tá. Eu tenho a prefeitura de Betim, que participa com os professores, né? 

P/1: Ah ela paga? 

R: Paga. 

P/1: Aos professores pra eles darem aula para esses alunos? 

R: Pra eles darem aula para esse pré-escolar, tá. 

P/1: Então é praticamente uma escola municipal? 

R: É... 

P/1: Dentro do... 

R: Ela não tem essa visão, esse enfoque porque a prefeitura entra com a mão de obra, e a estrutura toda e manutenção é nossa. P/1: Vocês que continuam vamos dizer assim, ditando as regras da escola? 

R: Isso. Ditando regras, ambientes, manutenção, tudo é pela entidade, ta. Porque, a educação é dentro da filosofia da dona Noemi. P/1: De vocês. 

R: Isso, do Salão do Encontro. 

P/1: E tem mais algum outro patrocinador? 

R: Eu tenho outros patrocinadores indiretos também, entendeu, que são esses que ajudam mesmo e tal. 

P/1: Pessoas, né? 

R: Não, até assim, algum, como a Caixa Econômica Federal que dá algum patrocínio de final de ano, de Natal, que nós fazemos alguma exposição. E assim vão outras pessoas, outras entidade. 

P/1: Patrocínio esporádico? 

R: Isso, esporádicos isso.

 P/1: Tá. 

P/2: Eu queria voltar nessa questão dos seus filhos, porque você tem uma trajetória quase que do início da sua vida até agora no Salão do Encontro. 

R: Sim. 

P/2: Mas e você como pai de filhos que frequentam o Salão do Encontro, como é que você vê isso, pra, pra vida deles? 

R: Dentro da filosofia do Salão, excelente. Porque o que mais se apura lá, lá no Salão, dentro da filosofia de vida, né, é, são os nossos princípios, entendeu. Então assim, pra essa forma, para educação dele, deles, excelente. Agora eu, a gente vai ter que, eu vou ter que verificar essa linha deles, profissionalmente qual vai ser a linha profissional, entendeu. Aí sim, o Salão tem condições de dar isso pra ele hoje, profissionalmente? Ele estaria de repente, é, tirando o direito de um outro que poderia estar no lugar dele, ali dentro do Salão, entendeu. Então assim, eu vejo assim, que o Salão estrutura a família. Agora se ele profissionalmente quiser ter uma outra profissão de vida fora, é um direito dele de escolha dele. Então assim, até os 17 anos de idade ele esteve dentro do Salão do Encontro, guiando uma linha dentro Salão do Encontro, uma linha pessoal, uma estrutura do homem, seus valores e seus princípios. Agora profissionalmente, é uma escolha dele. 

P/1: E como você recebeu isso, dele querer sair pra procurar outros horizontes? Como você recebeu isso? 

R: Natural. 

P/1: Não ficou magoado? Não tinha nenhuma expectativa de que ele seguisse o seu caminho? 

R: Não, porque como o meu pai perguntou na época é o seu desejo, era, e foi o meu direito de dar resposta pra ele, o meu filho tinha que ter direito de dar essa resposta, entendeu. É o desejo dele, é o futuro dele, é a felicidade dele. Então ele, eles, ele próprio pode dizer a respeito disso. 

P/2: Mas no geral eles gostam de tá ali dentro? Como que é a convivência deles com os outros jovens? 

R: Excelente, porque ele não perde o vínculo. O interessante é isso. Quando você estrutura uma criança desde nova dentro de um convívio, dentro de uma comunidade, dentro de uma entidade que nem o Salão do Encontro, você não perde o vínculo nunca. É o cordão umbilical, né. Ele tá agarrado, né, então ele não vai soltar. 

P/1: Você tem expectativa de algum dos seus outros filhos seguirem o seu caminho, continuar o seu trabalho lá dentro? 

R: Sim. P: Ou você acha que vai todo mundo procurar outro caminho? 

R: Não, tenho expectativa. Eles têm visão, entende. Eu só, é, eles vão apurar isso com o tempo, entendeu. O desejo deles. E até então assim, eu converso, eu mostro a minha satisfação e a minha felicidade. Porque o que eu posso demonstrar para eles é a minha felicidade e o meu desejo de estar lá. Agora se for desejo de algum deles estarem seguindo, sem dúvida, vai ser de grande valor pra mim. 

P/1: A sua esposa também trabalha lá? 

R: Trabalha. 

P/1: E o quê que ela faz lá? 

R: Ela é tecelã. 

P/1: Tecelã. Ela é instrutora, não sei, professora, como é que eles falam? 

R: Não, ela é uma profissional na área, né, de tecelagem. 

P/2: Então automaticamente ela também vê com bons olhos, o ingresso dos seus filhos no Salão do Encontro? 

R: Ah sem dúvida, entendeu. Porque nossa família foi estruturada lá dentro... 

P/1: Nasceu lá dentro. 

R: Nasceu lá dentro, então não tem um porquê, não tem, e o Salão é tudo de bom, é tudo que há, entendeu. Então não tem que, não tenho dúvida quanto a isso, nosso relacionamento é aberto. 

P/1: E agora me diz, Marcos, quais os seus sonhos, os seus projetos, a sua expectativa pro futuro? O que é que você deseja? 

R: Os meus desejos já estão sendo realizados, né. Que é estar no Salão, foi o meu projeto de vida, entendeu. O meu desejo é poder cumprir a minha meta, que foi determinada pra mim dentro desse período, que é tá dando suporte para essas mil pessoas que estão envolvidas dentro do projeto. Que eu não falhe, com isso. Jamais. 

P/1: Mas vocês têm alguma, algum sonho, de realizar alguma coisa maior? Tem alguma… 

R: O sonho de realização está implantado ali dentro do Salão, entendeu. Agora, o sonho de realização que nós vamos transmitir para outros jovens que estão vindo, que estão dentro da área, são esses e outras filiais. Porque o sonho de transformar essas pessoas, no que nós somos hoje. Então o meu sonho de realização é esse, de poder contar com outro Marquinho, outro Nilson, com outra Cida e assim, outras pessoas. 

P/1: Pessoas que trabalham lá? 

R: É, que coordenam o Salão hoje. Poder tá levantando essas pessoas pra poder tá dando suporte em outros trabalhos. 

P/2: A gente tá finalizando a nossa entrevista. Eu queria perguntar pra você o quê que você achou de ter participado do Projeto Memória Petrobras, ter dado esse depoimento? 

R: Pra mim, só vem valorizar o meu caminho, que eu escolhi. Porque, poder falar de um Salão do Encontro, poderia ter falado muito mais. Mas o Salão do Encontro, pra mim, tá além das palavras, entendeu. Então assim, pra mim é, pra mim vai ficar uma coisa gravada pro resto, mais uma coisa gravada pro resto da vida. Poder falar um pouco do Salão do Encontro. Porque o Salão do Encontro, a dona Noemi já me falou muitas vezes, e realmente é real. O Salão do Encontro você não fala sobre o Salão do Encontro. O salão do Encontro é visto, ele é prato, ele é sentimento, entendeu. Quando você entra em qualquer setor, você sente o sentimento das pessoas, é, fluir pela pele, entendeu. Então assim, é aquela energia que te carrega sua bateria no dia a dia. Então, o Salão, eu vim agradecer e é mais uma coisa que, é, eu vou levar pra minha vida, mais uma bagagem que eu tô levando. Eu só tenho que agradecer. 

P/2: A gente é que agradece.

P/1: Tem mais alguma coisa que você quer deixar registrada? Que você queira falar, que a gente não tenha perguntado? Que você não teve oportunidade de dizer? 

R: Eu queria agradecer primeiro à dona Noemi de ter me dado essa oportunidade de vida, né. E de ter acreditado, ter confiado. E aos meus pais também, né, porque afinal de conta é raiz, o berço, dentro das faltas de condições que tinha na época, me deu educação. Mais, e, meus irmãos, é, porque a família pra mim é o importante, é tudo. Então a minha família generaliza dentro do meu, é, meus filhos, minha esposa, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e o Salão do Encontro. Então só tenho a agradecer, somente isso. 

P/2: Obrigada Marcos. 

R: Eu é que agradeço. 

P/1: Obrigada pela sua participação. 

R: Eu é que agradeço.

P/1: Boa tarde Marcos.  R: Boa tarde.  P/1: Gostaria de começar perguntando seu nome completo, local e data de nascimento.  R: Marcos José dos Santos. Nascido em Betim, Minas Gerais, em 24 de dezembro de 1964.  P/1: Agora me diz o nome dos seus pais e dos seus avós.  R: Vicente José dos Santos, meu pai. Minha mãe, Geralda Francisca dos Santos. Arlindo José dos Santos do...parte de pai, tá?  P/1: Do seu avô.  R: Tá, é, José Francisco Dias, parte de mãe. Me pegou que, é...  P/1: Ah, calma. Vai... Me diz aqui agora, o quê que seus avós faziam. Qual era atividade deles?  R: Era, trabalhavam na área rural. Todos eles.  P/1: Todos eles?  R: Isso.  P/1: Lá em Betim?  R: Em Betim, sim.  P/1: Hum, e seus pais faziam o que?  R: O meu pai trabalhava em pedreira, tá. Uma profissão que chama canteiro, quebrando pedra. E a minha mãe era doméstica, na época.  P/1: É, e você sabe qual é a origem da sua família? Vocês vieram de onde? São de lá mesmo...  R: Não, nós somos de Betim.  P/1: Sempre?  R: Sempre. Somos filhos de Betim.  P/1; E, você tem irmãos?  R: Tenho.  P/1: Quantos?  R: Seis irmãos.  P: Ah, família grande, né?  R: Sim.  P/1: Além de seus irmãos, você foi, foi criado junto com algum outro parente?  R: Somente com meu avô, de parte de mãe.  P/1: É, agora me conta um pouco, como foi a sua infância?  R: Bom, eu sou de uma família pobre. É, muito rústica, sem muita informação. Porém, uma família muito digna, onde o meu pai, sempre nos frisou que assim mesmo além da pobreza, os valores e princípios em primeiro plano. Então assim, eu tive muita base dentro disso. Então a coisa...  P/2: Que valores eram esses?  R: Honestidade, amor ao próximo, entendeu. Sempre visado mais por isso. E sempre que a família seria estrutura e a base, é, nossa pro futuro. Então, assim, a família pra gente é de grande valor, de muito valor. São os nossos princípios, são esses.  P/2: Em que bairro que você morava lá em Betim, na sua infância?  R: Eu moro, é no mesmo bairro que eu moro hoje, bairro Santa Lúcia.  P/2: Como é que era o bairro na época?  R: Era um bairro carente, não tinha infra-estrutura nenhuma. Não tinha condições de higiene, essas coisas, entendeu. Não tinha asfalto. Não tinha nada. Então era um bairro muito carente.  P/1: E hoje, como é que ele tá? Continua assim?  R: Não. Hoje é um bairro estruturado.  P/1: É, e me diz um pouco, quais as suas brincadeiras favoritas? Você brincava na rua? Brincava com quem? Como é que era?  R: Eu brincava com meus irmãos. Porque, na realidade, assim, quase que não tinha vizinho próximo, essas coisas. E meu pai por ser muito rústico, muito severo, entendeu...a nossa educação. Então não tinha muito esse direito de estar na rua, né, brincando, essas coisas. Mas eu jogava as coisas que as crianças jogavam. Era bolinha de gude, né, com minhas irmãs. Porque até então meu irmão... eu só tenho um irmão e ele é bem mais novo do que eu, né. Então eu jogava era bolinha de gude, fazia papagaio, brincava de algumas brincadeiras, rouba bandeira que era umas coisas nossas, que nós tínhamos lá.  P/1: Me conta quem que mandava na sua casa, era...  R: Meu pai.  P/1: Seu pai?  R: Meu pai, sim.  P/1: E você teve educação religiosa?  R: Sim, católica.  P/1: Católica? E você é católico atualmente?  R: Sou católico.  P/1: Católico praticante?  R: Católico praticante.  P/1: Mas você ia à Igreja?  R: Sim.  P/1: Sempre?  R: Sempre. Todos os domingos, normalmente. Fiz toda a minha formação religiosa, que é primeira comunhão, né, todas essas coisas. Todas eu pratiquei.  P/1: Agora me diz quando você iniciou os seus estudos, quando e como.  R: Estudei numa rede pública nos meus sete de idade.  P/1: Iniciou aos sete anos?  R: Aos sete anos.  P/1: E qual era o nome da escola, você lembra?  R: Era Escola Estadual Sarah Kubitschek.  P/1: Lá em Betim...  R: É, em Betim, no bairro.  P/1: E você ficou lá, cursou o seu, seu primário todo...  R: O meu primário eu cursei ele todo lá. Depois eu fui pra outra escola fazer a outra base, né, que era a Escola Municipal Raul Saraiva Ribeiro.  P/1: Hum, e me diz quais as lembranças marcantes que você tem do seu período escolar. Dessa sua primeira fase, na escola. Você tem alguma lembrança?  R: Minha professora, que eu era apaixonado por ela. [risos]  P/1: Sua professora, você tava em que série?  R: Da primeira à quarta série.  P/1: É, e qual era o nome dessa professora?  R: Marlene Trindade.  P/2: Como que era essa paixão?  R: Assim, porque na realidade, por eu não ter tido tanta saída pela minha infância, muito contato, eu era uma pessoa muito tímida, muito carente, né, de contato com outras pessoas. E assim, no primeiro dia de escola, por exemplo, eu chorei a vontade, aquela coisa de sala de aula. Acho que é normal. E ela foi a pessoa que me deu carinho, me deu amparo. Então era aquela paixão, quer dizer, que eu deixava minha mãe em casa, eu sentia o conforto com ela lá. Então, se minha mãe me dava conforto meio horário, ela me dava conforto no resto do período. Aí, então, no terceiro ano de escolaridade eles queriam me mudar de sala. Foi onde que eu percebi o amor que eu tinha por ela, né. Aí, eu não quis, não aceitava. Não aceitei, aí voltei a chorar de novo e tal, aquelas coisas, aí eles não me trocaram de sala de aula. [risos]  P/1: Aí você continuou...  R: Aí eu continuei com ela porque eu queria ela.  P/1: Nossa… [risos]  P/1: É, agora me fala como foi o seu encontro, como foi o seu o seu ingresso no Salão do Encontro. Quantos anos você tinha, como, como se deu isso?  R: Eu tinha dez anos de idade, na época. Foi em outubro de 1974. Por necessidade, meu pai e minha mãe tinham que trabalhar. Eu estudava meio período e meio período estava vago. Com dez anos de idade. Aí...  P/2: Mas, como é que você ficou sabendo da existência desse Salão do Encontro?  R: Ah tá. Porque o Salão do Encontro é uma ONG, que foi instituída dentro deste bairro de Betim.  P/2: Quando?  R: Em 1970.  P/1: Foi instituída por quem?  R: Por Noemi Macedo Gontijo e um frei franciscano, frei Stanislau. Dona Noemi que é diretora e coordenadora do projeto até hoje. Aí, meu pai ficou sabendo desse projeto, que eram quatro quarteirões de casa, e como ocupação por esse meu meio período, ele me acompanhou junto com minha mãe até a dona Noemi e pediu a ela se seria possível estar me dando essa capacitação, essa ocupação dentro dessa entidade. Que seria um aprendiz em artesanato. É, a dona Noemi olhou no meu olho, porque ela é uma pessoa que diz e enxerga dessa forma, que olho fala toda a verdade, entendeu. Ela olhou dentro do meu olho e perguntou se esse era o meu desejo, eu falei que era, aí ela me ingressou dentro desse projeto.  P/1: Os seus irmãos também foram ou foi só você?  R: Não. Depois de um bom tempo, aí sim, outros irmãos meus vieram.  P/2: E você é o mais velho?  R: Dos homens eu sou o mais velho, e tenho duas irmãs acima.  P/2: Mas, por que que você foi o primeiro a ir?  R: Porque na realidade, minhas outras, pela visão do meu pai, mulher não trabalharia, naquela época, num é. Então assim, e também mediante o projeto, tinha quatro anos de projeto, né. Então eu acho que eles nem tinham essa visão que mulher iria ou não, entende. Mas era mais pela visão dele, rústica dele mesmo.  P/2: Certo, aí você falou que estudava num turno e ia pro Salão...  R: Ia pro Salão em outro período.  P/2: E o quê que você foi fazer lá então?  R: Eu fui trabalhar na atividade, na oficina de trabalhar com sandálias e bola de futebol. Trabalhava com couro.  P/2: Você fez um curso?  R: É. Eu fiz, um aprendizado, né, dentro desta área. Agora porquê e enfocado em quê, entendeu, não era um objetivo profissional nem nada, que eu não tinha nem capacidade de estar tendo essa visão naquela época.  P/2: Certo, aí você ainda tava com dez anos de idade.  R: Dez anos.  P/2: Você permaneceu quanto tempo nessas oficinas?  R: Eu permaneci dois anos nessa oficina, mas essa oficina foi fechada pelo custo de matéria prima, um custo muito elevado. Então eu já passei pra outra oficina, que na época foi implantada, que era uma oficina de macramê, que trabalhava com essa corda de sisal.  P/2: E você sabe me dizer, nessa época, quais eram os critérios para uma criança ser aceita como aprendiz no Salão do Encontro? R: Sim. Que o pai ganhava meio salário mínimo, entende, e que a família fosse realmente uma família carente, que tivesse necessidade.  P/2: Tinha que tá estudando?  R: Tinha que tá estudando.  P/2: Certo. Aí, me diz um pouco mais da sua rotina nessas oficinas. Você produzia sandálias, e vocês vendiam?  R: Sempre o Salão teve um showroom onde, é, são vendidas essas peças, entendeu, uma recepção, né, onde os clientes, as pessoas iam buscar essas peças.  P/2: E aí você ficava todas as tardes da semana lá ou como é que era?  R: De segunda à sexta feira eu ia pro aprendizado normal, né.  P: Eles faziam algum acompanhamento? Assim, porque você tinha que tá estudando...  R: Sim.  P/2: As suas notas tinham que ser boas para você permanecer no projeto?  R: Tinham, tinham que ser boas.  P/2: Eles olhavam isso?  R: Olhavam. Tanto é que assim, a filosofia da entidade é “Educar pelo trabalho”, entendeu. Então as funções do Salão o quê que é? É educação, saúde, moradia e trabalho. Então assim, dentro dessa filosofia se a educação tá embutida, entendeu, essa visão total de cobrança, também de acompanhamento e de crescimento já está embutida dentro dessa visão do projeto.  P/1: E você falou que a princípio você foi, porque seus pais resolveram que você teria que fazer alguma atividade, pra não ficar, não ficar digamos assim, à toa.  R: Sim.  P/1: É, mas você gostava? No começo você, você realmente gostou?  R: Foi o mesmo caso da escola. O primeiro dia eu senti, depois eu percebi essa necessidade. Hoje com a minha idade e a minha visão, se você perguntasse pra mim se eu faria, eu faria tudo novamente. E acho, acho não, eu tenho certeza que o jovem é uma idade excelente pra tá começando a já ter sua atividade. Eu acho que isso não é uma exploração de menor.  P/1: Não, de jeito nenhum.  R: Não é, né?!  P/2: Nesse período que você entrou, você sabe precisar quantas crianças eram beneficiadas pelo programa?  R: Olha, número certo, não. Mas eu imagino que na faixa de 150 crianças eram beneficiadas.  P/2: Explica pra gente um pouco mais Marcos, dessa estrutura do Salão do Encontro. Eram oficinas? Como é que era o ambiente, fisicamente falando?  R: Era um galpão, muito arejado, com bastante verde. Porque o Salão estava dentro de uma área verde. A dona Noemi preserva muito o verde. Era bem estruturado, tá, pela ajuda de pessoas do bairro também, que começou a construir essa entidade. Porque na realidade, aí a comunidade começou a enxergar a necessidade dessa entidade dentro do bairro. Então, existia essa participação direta, então é, pedreiros que eram do bairro já iam ajudar a construir, a levantar, entendeu. Então assim, aquela coisa de motivação de uma comunidade. E, dentro da estrutura era uma coisa muito, muito legal. Era um ambiente muito bom. Aí, eu já comecei a abrir minha amizade com outras crianças do bairro, entendeu. Aí, que a coisa começou a fluir e aparecer pra mim. A vida começou pra mim.  P/2: Certo. E aí você permaneceu dois anos nesse primeiro momento?  R: Sim.  P: E o quê que aconteceu em seguida? Você saiu do Salão do Encontro?  R: Não. Aí eu passei por vários processos de outras oficinas, tá. Eu passei por essa oficina que eu falei de macramé, passei pela tapeçaria de sisal, tear chileno, é, flores, bonecas. O que, na realidade, qual a visão da dona Noemi? É, você chega, você olha e você fala o quê é que você gosta, o quê é que eu quero. Você tem essa opção de escolha, entendeu. Então, eu passei por várias oficinas por opção de escolha minha. Eu queria, quanto mais informação e mais conhecimento que eu tivesse, pra mim era melhor. Então assim, o porquê que eu busquei isso? Então assim, é por causa dessa visão minha, eu queria abraçar uma coisa além do que estavam me dando.  P/2: E são basicamente oficinas de artesanato?  R: Todas oficinas de artesanato.  P/2: E você fez quantas oficinas?  R: Eu fiz nove oficinas.  P/2: Cada oficina tinha duração de quanto tempo?  R: Era período indeterminado. Conforme a necessidade, que eu me sentia que eu tava desenvolvido em uma, eu já procurava outra, já buscava outras informações, outro crescimento. Então assim, hoje eu tenho experiência e sei fazer todas essas nove técnicas, eu sei fazer.  P/2: E aí a sua família, depois os seus irmãos ingressaram também?  R: Sim. Isso eu já estava com 16 anos, quando uma irmã minha ingressou para dentro do projeto. Ela trabalhava como professora, e hoje ela trabalha na área financeira, no projeto.  P/2: Mas eles fizeram cursos também? Foi uma trajetória parecida com a sua ou não?  R: Não, não. Não foi uma trajetória. Foi assim, mais por uma influência minha, por um desejo meu de estar levando alguém da minha família a participar do projeto. Porque eu via que o projeto era tão bom, uma coisa tão boa, entende. E a visão que a dona Noemi colocava pra gente que o suporte era pra família, é reestruturar uma família, entendeu. Então eu via essa necessidade deles estarem dentro desse projeto, entendeu. Porque eu vi que era uma coisa assim, que a gente não vem ao mundo em vão. E eu vi que aquilo ali ia dar uma coisa pra gente de futuro, entendeu. Que eu estava tratando não só com a minha família, eu estava tratando com uma família Salão do Encontro, entendeu. Não era... [Pausa]. Emocionado que eu -------------. Então assim, eu considero as pessoas do Salão do Encontro como a minha família.  P/2: Que bom. E aí, aos 16 anos aconteceu uma mudança grande na sua vida?  R: É. É aconteceu porque pela confiança, pelo meu desenvolvimento, sabe, pela minha busca. Aí, um dia a dona Noemi me viu, me pegou no braço, porque ela é uma pessoa assim, olhou no meu olho e perguntou se eu queria ter uma visão diferente, um conhecimento melhor, e aprofundar mais sobre o Salão do Encontro. Foi onde que eu comecei a participar já mais das coisas diretas e administrativas do Salão. Eu tinha 16 anos de idade.  P/2: E como é que foi tomar essa decisão? Porque aí você passou a estar lá em tempo integral?  R: Isso. A primeira coisa minha, eu nunca tomei uma atitude sem antes se comunicar com minha família, com meu pai. Assim, porque pra mim era novo, né. Aí eu procurei primeiro informação com o meu pai. Chamei ele, fui em casa, conversei com ele qual que era a proposta e tal, ele perguntou se era um desejo meu, falei que era e tal, que eu não teria medo de estar assumindo isso, entendeu, que eu sabia o quê que era isso. Aí ele, assim, me deu a maior força, conversou comigo, me orientou, me falou então se era o meu desejo que eu tinha que correr atrás disso mesmo.  P/2: E a sua mãe?  R: Apoiou também. Porém, minha mãe já era uma pessoa...naquela época ainda era uma pessoa afastada, né. Porque não sei se a mulher era já, era, assim, não por meu pai ser um machista, nem eu era. Não era dessa forma, mas ela era uma pessoa que cuidava da casa, que mantinha os filhos muito bem. Uma pessoa de coração enorme. Ela fazia essa parte. Até então ela não tinha essa comunicação ainda.  P/2: Mas ela apoiou?  R: Sem dúvida.  P/2: E aí, o quê que aconteceu?  R: Aí eu abracei a causa.  P: O quê que foi abraçar a causa? O Quê é que você passou a fazer?  R: Abraçar a causa foi abraçar o Salão do Encontro, comecei a participar mais diretamente com a dona Noemi dentro das áreas de acompanhamento administrativo, e, apoio. Seria uma base pra ela. Eu estava sendo uns dos primeiros suportes de visão dela, que seria um dos esteios para o futuro do Salão do Encontro. Que na realidade, hoje nós, todos nós que coordenamos e fazemos parte da administração do Salão, somos filhos do Salão. Fomos pessoas eleitas pelos próprios meninos lá dentro, sabe? Quando nós passamos desse setor nós tivemos uma aceitação disso. Eles achavam que nós éramos as pessoas corretas para isso. Então assim, hoje, quem administra a marcenaria é um jovem que começou lá. Quem administra um tear mineiro é uma jovem que começou. Então assim, a aposta, o resultado, da dona Noemi, a dona Noemi confiava na gente isso. Nós entendemos essa proposta de trabalho dela. Então assim, nós somos um esteio hoje. Ela é, ela coordena, mas nós somos o esteio disso, nós somos o futuro disso e nós temos mil pessoas envolvidas dentro desse projeto, que estão na nossa responsabilidade. Na falta dela amanhã, nós temos essa responsabilidade sobre essas mil pessoas, igual ela teve conosco.  P/2: Claro. Mas aí, você... Como que era o seu ambiente de trabalho, quais eram as coisas específicas que você fazia nesse serviço administrativo?  R: Eu coordenava qualquer necessidade do Salão, entendeu. Porque assim, a visão da dona Noemi é que eu não devo, assim, a pessoa não deve estar focada somente em X coisa, sabe, ela tem que ser participativa, tem que ser ativa. Então assim, qualquer situação do salão do encontro que acontecesse, de solução, de estar em discussão, entendeu. Então nós éramos participativos nisso. Que seja num cano que estourou lá em baixo, que seja num acontecimento mais grave. Nós éramos os jovens participativos dentro disso. Porque? Ela queria mostrar pra gente qual era a responsabilidade disso. Que nós não tínhamos técnica administrativa, ela não tem técnica administrativa. Ela tem visão de um projeto que ela implantou e que ela administraria da forma dela. Então a gente não tem técnica para administrar, não temos técnico nenhum. Ela é uma professora de rede estadual, entendeu. Trabalhou, começou a trabalhar numa favela que chamava Vila dos Marmiteiros, então assim, entregou a vida por aquilo. Então nós não temos filosofias nem planejamento, não. Nós temos a nossa filosofia de trabalhar, que era sempre buscando o próximo.  P/2: E além de você outros jovens trabalhavam também, fazendo tudo nesses setores de administração?  R: Sim, os jovens que ela apostou que seriam os esteios da entidade.  P/2: E como que você se relacionava com eles?  R: Excelente. Eu sempre tive muito, um relacionamento muito bom. Porque, na realidade, o Salão em si. Nós somos líderes. Mas se eu for contar todas as pessoas que envolvem o Salão, todos nós somos líderes. Cada um tem sua parcela, tem a sua cumplicidade com a entidade, entendeu. Cada um tem a sua responsabilidade. Então ninguém é melhor do que ninguém. Então assim, nós estamos todos num patamar, num nível, que todo mundo é responsável por aquilo, entendeu.  P/2: E vocês eram mais ou menos em quantos, Marcos?  R: Olha quando nós começamos era 150, isso nessa época já de 16 anos a gente já deveria estar em torno de umas 200 pessoas. P/2: Mas e os jovens escolhidos pra, pra dar esse apoio?  R: Para liderança? 15.  P/2: Eram 15?  R: 15 jovens  P/2: Nesse meio tempo você continuou estudando?  R: Sem dúvida. Eu trabalhava, eu já comecei a participar do projeto o dia inteiro, estudava pela noite.  P/2: Você já tava no segundo grau?  R: Já.  P/2: E era fácil conciliar as duas coisas?  R: Fácil [Pausa].  Era um desejo, né?! A educação e o trabalho. As duas coisas estavam conciliadas. P /2: Você podia nomear pra gente alguma coisa que você achasse muito bacana nessa nova etapa da sua vida, trabalhando no Salão do Encontro?  R: A descoberta. Até então eu não tinha me descoberto ainda, entendeu. Eu era pessoa que vivia junto com a minha família, no meu berço e me descobri.  P/2: E uma coisa que não era. Que foi um desafio, um problema, que você achou difícil de fazer?  R: É, encontrar com amigos que não reconheceram o projeto.  P/1: Como assim?  R: Que tiveram pessoas que não tiveram a mesma visão da gente a respeito do projeto. Então assim, eu tinha amigos no bairro que saíram do projeto, largaram o projeto e de repente não foram pessoas do bem, entendeu. Então assim, aconteceu alguns fatos. Então isso pra mim é uma fase, assim, porque como eu considero o Salão uma família, eu queria que todo mundo estivesse incluso, dentro do que é o projeto pra gente.  P/2: Mas como que você lidava com esse tipo de coisa, de situação?  R: Normal. Eram meus amigos. Então eu não tinha o direito de recriminar ninguém.  P/2: Claro. Nesse momento a Petrobrás já dava algum apoio pro Salão?  R: Ainda não. Até naquele meio tempo, não. Tanto é que nosso caminho foi meio longo, assim, pelas dificuldades que a gente tinha, né. Assim, nós temos 34 anos de existência hoje, mas assim, até os 20 anos de entidade, ali o caminho foi muito longo. Porque nós, assim, a gente não enxergava os direitos que nós tínhamos, entendeu. Não tínhamos conhecimento sobre isso, entende. Então assim, aí que nós começamos a ter um, de um certo tempo, a montar uma capacitação de recursos, alguém que estaria apoiando esse projeto, confiasse nesse projeto. Que eu...  P/1: E antes como é que vocês faziam para captar recursos, pra manter isso tudo?  R: A dona Noemi pedia isso no boca a boca.  P/1: Pedia?  P/2: Pedia pra quem?  R: Pras pessoas. Ela ia na mercearia e pedia ajuda para alimentação, pedia não sei quem pra isso. Era mais dessa forma, entendeu. P/1: Vocês viviam de doações?  R: De doações e já das vendas dos nossos produtos, que nós produzíamos lá, né.  P/2: Você falou que ela pedia ajuda para alimentação. Então, além das oficinas de artesanato, existia algum trabalho de merenda pra quem tava lá?  R: Existia. Sempre existiu. É, nós temos um refeitório, tá, que atendia tanto ao público interno quanto ao público externo da comunidade. Que era uma alimentação de quem chegasse, e tinha fome, comia. Não tinha nada que você fazer um registro, nada de você preencher ficha. Era quem tava com fome, quem tava barriga doendo, não tem o que comer. Então, famílias e famílias iam almoçar lá. Na época chamava cantina, não era Salão do Encontro. Tanto é que o nome pegou cantina, pra depois subentender que o nome era Salão do Encontro.  P/1: Mesmo quem não fazia nenhuma atividade lá...  R: Atividade  P/1: podia chegar...  R: Podia chegar, se alimentar normalmente.  P/1: Fazer a refeição e ir embora.  R: Normalmente, normalmente.  P/2: E, além disso, que outros serviços vocês ofereciam pras crianças e adolescentes?  R: Nós começamos depois de um certo período, nós implantamos um pré-escolar de quatro a seis anos, tá. É, que atendia às pessoas do bairro, no período de oito às quatorze horas. Aí, subentendia que seria da mesma forma, dentro do mesmo processo. Quem não tinha condições nenhuma de colocar uma criança num jardim particular ou alguma coisa assim, a gente fazia uma avaliação e essa pessoa, essa criança ingressava dentro desse projeto. Aí seria mais somente dentro área educacional, nada profissional, né, principalmente pela idade.  P/2: Marcos, e nesse momento você tava vivendo sua juventude?  R: Humhum.  P/2: Dava tempo pra passear, pra ir em festa?  R: Sim.  P/2: Como é que era isso?  R: Não...  P/2: Como você se divertia?  R: Olha, eu sempre gostei muito de futebol, é, gostei muito de pescar, sabe? Umas coisas mais tranquilas, mais light, sabe? Então assim, pra mim conciliar essas coisas era muito fácil. Porque eu estava tão bem com aquilo que eu estava fazendo, que qualquer momento que sobrava pra mim, era o maior tempo do mundo. Então tudo o que eu fazia, entendeu, pra mim, era com prazer, era com orgulho. Porque eu tinha base, eu tinha um piso, sabe. Eu tinha um caminho a seguir, entendeu. Então assim, pra mim as coisas eram tranquilas. Então eu fazia as coisas básicas mesmo, era muito tranquilo. Nunca fiz uso de drogas, entendeu. Nunca tive nenhum acesso, nem conheço, vou ser sincero, entendeu. Então assim, as coisas pra mim foram muito tranquilas, com muita base. P/1: Mas nas suas horas vagas o quê que você gostava de fazer? Me diz uma coisa que você sempre fazia.  R: Saía pra dançar, uma coisa assim...  P: Ah, você gostava...  R: É, eu jogava futebol, sempre gostei de uma pescaria, entendeu, acampar, essas coisas.  P/1: E como é que era a moda, na sua época, como é que você se vestia?  R: Playboy. [Risos].  P/1: Como é que é isso?  R: Cabelinho enroscado, quando eu tinha, né? [Risos] Era cabelinho enroscado, blusas maiores do que o necessário...  P/1: Nossa.  R: Calças mais baixas, sei lá. Era uma coisa assim. Usava kichute na época, era um tênis que era da moda [Risos].  P/1: É eu lembro de kichute. [Risos] É, como é que ficavam as namoradas, nesse meio tempo? Dava tempo pra você paquerar?  R: Até então eu não tinha esse interesse ainda não, a respeito de namorar, compromisso, essas coisas, não. Tanto é que a minha mulher, eu conheci eu tinha 17 pra 18 anos e casei com ela. Então assim, eu não fui muito de relacionamento, essas coisas não.  P/2: Mas por quê, você se achava se tímido?  R: Eu me achava tímido, e também assim, eu achava que eu, na hora que tivesse que acontecer a coisa ia acontecer.  P/2: Você preferia pescar.  R: É, eu gostava mais de uma coisa mais assim, pra esse lado.  P/2: E você pescava aonde lá?  R: E é até na realidade, naquela época, assim, pra você namorar, uma coisa assim, era até uma coisa mais difícil, né gente. Que assim, é, você conhecia a família e ia e conversava pra namorar. Porque você não saía na rua e ia encontrar alguém pra poder namorar, essas coisas, entendeu. Então era uma coisa de personalidade das famílias de lá, entendeu. Então assim, as meninas, não eram meninas que saíam. Igualzinho eu. O meu pai não deixava que eu saía, e as meninas principalmente não, entendeu. Então era uma coisa mais difícil pra você tá namorando, essas coisas.  P/1: E como você conheceu a sua, a sua esposa então, já que ninguém saía, ninguém...  R: Ah, eu estava no Salão, na época eu ia fazer uma festa junina, e tinha aquelas danças, aquela coisa, entendeu. Então eu conheci ela foi dentro disso.  P/1: Dentro do Salão?  R: Dentro do salão.  P/1: Tinha que ser.  R: Tinha que ser. [Risos]  P/2: Aí você conheceu ela com 17, 18 anos, que você falou.  R: É, 17 para 18 anos.  P/2: Aí,vocês casaram logo?  R: Casei com 21 anos.  P/2: Ah, então. Mas ainda sobre a sua juventude, você falou que gostava de pescar, de acampar. Conta pra gente como é que era isso, com quem que você ia. Você tinha muitos amigos que gostavam?  R: Na realidade, eu, assim, quem me abriu isso é que eu acho que é uma coisa excelente, entendeu, pra cabeça, pro dia a dia, sabe, foi minha família. Meu pai e minha mãe são pessoas que gostam de fazer isso. Fazem até hoje. São pessoas aposentadas e eles vivem acampados, entendeu, na barraca, nessas coisas. Então eles me induziram...  P/2: Há, eles vão sozinhos...  R: Vão, vão sozinhos até hoje, graças a Deus. São pessoas de saúde, entendeu, e...  P/2: Nossa, bacana.  R: E eu acho muito legal isso neles, entendeu. Porque você na beira do rio, pescando, olhando pra água, olhando pra natureza, entendeu, isso te reflete coisas excelentes, muitas coisas boas. São energias, negativas, que você joga e energia positiva que você busca, entendeu. Então assim, quando eu quero me reabastecer de energias positivas, eu vou acampar e vou pescar.  P/2: E aonde que você acampava e pescava?  R: No rio. Nós temos um rio lá que é...  P/2: Em Betim mesmo?  R: É, rio Paraopeba.  P/1: Como?  R: Pa-ra-o-pe-ba. Lá em Betim.  P/2: Ô Marcos, aí pra gente voltar um pouco, então, pro Salão do Encontro. Aí aos 16 anos você entrou lá em tempo integral.  R: Sim.  P/2: E depois como foi a sua evolução lá dentro. Você assumiu outra função, quando?  R: Depois dessa credibilidade que a dona Noemi me pegou no meu braço e falou, me sacudiu e falou: “Vamos?”. Eu falei vamos, aí aos 18 anos eu já comecei a trabalhar na área financeira, aí trabalhei durante três anos. Aos 21, aí eu já comecei a trabalhar na coordenação, entende. Aí, foi um processo mais de confiança. Ela viu o meu desejo pela entidade, sabe? O meu gostar pela entidade, que eu não vim no mundo em vão, eu vim pra poder fazer alguma coisa, e aquela era a minha coisa. Aquela era o meu tesouro que eu tava desenterrando desde dez anos de idade.  P/2: Aí você foi com 18 anos, então, pro departamento financeiro...  R: Sim.  P/2: ... foi ela que te indicou?  R: Foi ela que indicou.  P/2: E o quê é que mudou nas suas atividades com essa indicação e essa ida pra esse setor?  R: Bom, eu tive mais responsabilidades, entendeu, e vi a seriedade e o compromisso, e qual que era a dificuldade do Salão. Porque o Salão até hoje não é auto-suficiente. Porque você trabalhando dentro dessa área financeira você vê as dificuldades reais, entendeu. Porque você manter uma entidade com tantas pessoas na sua responsabilidade e sem grana, é difícil, entendeu. Então assim, eu vejo ela uma mulher, uma mulher de peito, entendeu, de garra, que tem Deus em primeiro lugar, que ele nunca deixou faltar, entendeu, assim, nas horas mais difíceis ele estava presente, entendeu. Então assim, me serviu de espelho, pra minha vida, sabe, essa parte financeira.  P/2: E você atuando nesse departamento, você conseguiu alguma contribuição para essa área de investimentos que tava sempre tão carente?  R: Sim, a bolsa sempre foi dentro disso. A nossa visão sempre foi dentro disso. Porque nós sempre julgamos assim, dentro da captação, nós temos que captar. Porque tem meses, tem meses que a gente, assim, a gente não tem o dinheiro pra poder fazer a folha de pagamento. Dessas pessoas que necessitam, pessoas lá carentes do bairro, que necessitam, que têm seus compromissos, entendeu. Mas a gente tem assim, tem a parte que a gente capta dos nossos parceiros, que a gente tem muito que agradecer, entendeu, mas mesmo assim nós ainda temos algo pra correr atrás durante meses e nunca faltou, entendeu. Então, essas doações indiretas, entendeu, isso nunca faltou pra gente.  P/2: As pessoas que trabalham no Salão do Encontro então, são empregadas? Não é um trabalho voluntário?  R: Não, não é um trabalho voluntário. São pessoas que trabalham dentro das oficinas. Hoje são 247 funcionários na entidade, tá? Eu tenho mais 650 crianças na área de pré-escolar, que subdivide em creche que seria de quatro meses de idade a quatro anos. Que eu brinco com meus filhos que eles tiveram mais privilégio do que eu, porque eles entraram com quatro meses e eu entrei com dez anos, entendeu. Gosto muito de frisar isso pra eles verem o valor da coisa. Se eu dou valor, eles teriam que dar muito mais. E tem uma creche de quatro meses a quatro anos. Nós temos um pré-escolar, que atende em torno de 450 crianças de quatro a seis anos, tá. É, nós temos uma escola complementar que é de sete anos até os 14, que já entra a criança depois que saí do pré-escolar vai pra escola pública, ela estuda meio horário na escola pública e meio horário dentro do Salão, dando suporte de dever, entendeu, é cumprir regras, normas, é, e alguma coisa profissionalizante. Ela já começa a desenvolver algum trabalho profissionalizante. Porque nós temos mini oficinas dessas que eu citei, nós temos mini oficinas lá embaixo onde eles começam a pegar. Vamos trabalhar com curva? Vamos, trabalho do tear com a curva. Ah vamos trabalhar nisso? Vamos.  P/2: Mas nesse momento que você tava trabalhando no departamento financeiro a estrutura do Salão do Encontro já era essa?  R: Já estava estruturado. Por que? Por quê é que já estava dentro dessa estrutura? Porque a comunidade em si foi se envolvendo tanto dentro do trabalho. Eu acho que nem a dona Noemi tinha em si tinha essa visão, que a coisa seria o que é. As pessoas foram exigindo tanto, foram buscando, aí nós vimos que a necessidade da família, aí, busca um, busca outro, a coisa foi desenvolvendo, foi crescendo, que tomou um rumo que eu acho que ela nunca imaginou que chegaria a isso. Apesar de ser esse o ideal dela. Então, mais assim, então nós chegamos numa estrutura hoje, que o Salão, assim, é, pra quem conhece o Salão do Encontro, entendeu, é, vê a seriedade de um trabalho social, que às vezes, muitas vezes foi deturpado aí, entendeu. Então assim, a gente vê que o Brasil tem solução, entendeu. Que basta querer trabalhar com sinceridade, com honestidade, entendeu, sempre olhando o próximo, entendeu. Eu colho frutos disso. A minha vida tá lá dentro. Do próximo também, entendeu. Então assim, a gente nunca trabalhou com ambição de si próprio, entendeu, sempre eu tava buscando pra mim e pro próximo, pro meu filho, é, pro meu vizinho, entendeu. Então assim, eu nunca trabalhei dentro de uma visão, pensando numa visão pessoal.  P/2: Certo. Conta pra gente então, um pouco mais do seu cotidiano de trabalho ainda no departamento financeiro. Quê que você fazia, suas atividades?  R: Eu trabalhava junto, linkado à recepção que fazia venda dos produtos, entendeu. Eu recebia esse dinheiro, cheques das vendas, entende, e disso a gente fazia aplicações. Porque teria que trabalhar dessa forma, né, e começamos a visualizar a busca da captação, que até então a gente não tinha captação de recursos. Então a gente começou a viabilizar por esse lado. Porque o Salão não se manteria, não conseguiria suportar daquela forma. Então, nós tivemos que abrir a visão para a captação de recursos.  P/1: E como vocês conseguiram isso? Como, como foi a primeira grande captação, vamos dizer assim, que vocês fizeram? Como, como fez...  R: A primeira grande captação foi a doação de terreno que a gente conseguiu. Onde é a área hoje, são quatorze hectares.  P/1: E quem é que doou o terreno?  R: Foi Tancredo Neves, junto com a esposa dele.  P/1: Em que ano?  R: Isso foi em, setenta, oitenta ... e sete.  P/1: Aí, vocês construíram...  R: Aí nós construímos...  P/1: Nesse terreno.  R: Aí nós construímos nesse terreno. Aí nós já conseguimos outros apoios, outros suportes, onde nós construímos outros galpões, onde a coisa foi expandindo para mais oficinas.  P/2: Mas era próximo de onde já era o Salão?  R: No mesmo local, tá. Até em então a gente tinha somente um galpão.  P/2: É.  P/1: Aí a coisa foi expandindo, montamos outras oficinas, né, ampliamos outras oficinas. E nessa área, numa área de baixo, que a gente tem também, que divide, entre uma rua, uma área de cima que são as oficinas e na parte de baixo que é a área escolar, educacional e agropecuária.  P/2: Marcos, e quando você aí nesses dezoito anos ainda no departamento financeiro, dava pra participar de alguma oficina, ou você só se dedicou ao...  R: Não, só me dediquei ao financeiro.  P/2: Hum Hum. Como que você acha que isso beneficiou sua vida, sua carreira? Aos 18 anos já tá no departamento financeiro do Salão do Encontro.  R: Oh beneficiou pelo assim, porque eu tinha, eu vi que era o trabalho que eu queria e pela confiança e a transferência de uma responsabilidade que a dona Noemi me jogou com 18 anos, entendeu. Então assim, eu tinha, ela, é, ela sempre estimulou os valores, entendeu. Então, eu entendi que ali, ela tava estimulando o meu valor de honestidade, entendeu, de ser um jovem de 18 anos que tá pegando uma parte financeira de uma entidade, pra poder tá, tá tocando ela, entendeu. Então assim, é, eu vi que ela tava me cutucando o meu, aquele valor meu, entendeu. E eu tinha mais era que tá agarrando e demonstrando que eu tinha essa fibra e que eu tinha essa garra e que eu ia dar retorno disso.  P/2: Certo. E aí você ficou três anos no departamento financeiro?  R: Financeiro, aí eu já passei pra coordenação.  P/2: Por que que houve essa necessidade da sua transferência, que aí você para a coordenação administrativa?  R: Porque esses jovens que me, que me acompanhou, a dona Noemi viu que pela idade que ela já estava avançando, que a gente teria que dar um suporte administrativo de coordenação. Porque nós seríamos as pessoas de futuro dela, que estaríamos alavancando esse projeto, entende. Então ela nos trouxe...poderia ser até funções mesmas que nós teríamos executados, mas como o nome coordenação pra gente sentir o peso, o quê que é uma coordenação.  P/2: E o quê que era a coordenação?  R: Coordenação era ter responsabilidade sobre mil pessoas. O fruto dessa coordenação é somente isso. São mil pessoas envolvidas no projeto que nós temos essa responsabilidade, entendeu, de estar alavancando isso pro futuro. E nós temos essa obrigação de manter essa entidade. Obrigação pessoal, íntima de desejo nosso, que senão eu não estaria lá. Então assim, ela quis nos mostrar que uma coordenação é isso. Nada das coisas técnicas, nem burocráticas, nem nada não. Ela quis nos mostrar que nós tínhamos uma responsabilidade sobre pessoas.  P/2: Marcos, além de você então, isso aconteceu, essa caminhada, dentro do Salão do Encontro aconteceu com outros jovens?  R: Sim. Aconteceu com outros jovens, pessoas que começaram junto comigo, é, desde o início que foi contado, né, que eu falei. E que tiveram o mesmo propósito, que enxergaram a filosofia desse trabalho, sabe. Porque você depara assim com situações de carência no dia a dia, sabe, isso te flui muitas coisas boas, sabe, mas te flui muitas coisas também assim negativas, pela necessidade, assim, de estar querendo ajudar outras pessoas e não ter, às vezes as condições de tá ajudando, sabe. Porque a gente tem algumas histórias lá, por exemplo, assim, que a gente teve um jovem que faleceu. Era, tinha o quê? Na faixa de uns 16 anos. Ele faleceu, e no dia do enterro, a gente tava no túmulo, tava enterrando e um outro jovem chegou, perto da dona Noemi, balançou a saia dela e perguntou “Dona Noemi, teria condições de’ eu entrar no lugar dele?”. Quer dizer, aí você vê a necessidade. São histórias, né, que toca a gente, que a gente sente no dia a dia. Nós temos duas mil pessoas hoje que procuram, nos procuram, e nós não temos condições de estarmos e alavancando e dando essas condições de trabalho pra eles, sabe. Então assim, são histórias que a gente conta que, que ela conta pra gente assim, que você vê que toca a alma, entendeu. É uma coisa que toca a alma da gente. Muitas vezes, as pessoas passam desapercebidas por isso, por esse sentimento, o quê que é isso, entendeu. Então assim, ela veio nos ensinado com a vida, veio nos mostrando isso, sabe. Que a gente tem que tá dando esse valor à pessoa. Ouvir, mesmo que a gente não tenha condições de atender essas pessoas, nós temos obrigação de tá ouvindo, entendeu. Pelo menos acalenta alguma coisa, dentro dessa pessoa. Então assim, nós temos várias histórias assim, pra contar sobre isso. Tem uma de sapatos, que eu achei muito legal dela. Que um jovem chegou perto e falou: “Ô Dona Noemi, minha família não tem condições, eu tenho que trabalhar pra tá ajudando o meu pai e minha família que não tem condições. Meu pai tá desempregado, não sei o que e tal”, contou a história dele. E aí a dona Noemi olhou no pé dele e falou assim: “Ó filho, o trabalho eu não tenho condições de te dar, porque nós já estamos dentro de um limite e tal, mas eu tenho um sapato e vou te dar porque o seu tá rasgado.” Ele falou: “Não dona Noemi, eu pedi um emprego, não pedi um sapato”, entendeu. Então assim, são as histórias assim de que olha a necessidade de um jovem, tá indo, pedindo pra tá ajudando a família. Então assim, esses são todos os valores que nós captamos lá dentro. Então assim, É a necessidade, é o que o povo tá precisando hoje, entendeu. É educação e trabalho.  P/2: Você tem alguma outra história assim, que você queira contar pra gente, deixar registrado?  R: Ãããã, tem um que eu achei muito legal também, entendeu. Porque a dona Noemi vê que dentro da educação, entendeu, ela me pregou essa história de um jovem, que é a visão dela. Ela fala que a gente constrói o caminho ao andar. Então a gente tem que estar sempre caminhando para construir o nosso caminho. E ela chegou perto de uma criança da escola, e, a criança estava fora do setor dela, estava perdida. Aí ela perguntou pra criança: “Quê que você tá fazendo aqui?”. “Ah, estou perdido”. Ela falou assim: “Você quer que eu te ajude, que eu te leve até lá?”. Ela falou: “Não, deixa que eu encontro o meu caminho”. Quer dizer, uma criança de quatro ou seis anos tá com essa visão de que ela precisa da ajuda, mas que ela quer encontrar o caminho dela, entendeu. Quer dizer você vê que uma criança dessa já tem a filosofia da nossa visão implantada dentro do coração dela.  P/2: Hum Hum, é bastante simbólico, né, essa história...  R: É  P/2: Mas aí me conta, o quê que mudou na sua rotina de trabalho saindo do departamento financeiro indo pra coordenação? Quais as funções que você assumiu?  R: De... Eu assumi uma função de tá dando o suporte para todas essas pessoas que coordenavam, tá. De não deixar faltar, não chegar a faltar, a faltar nada pra dentro da entidade, entendeu. Então assim, é matéria prima, é, todos os suportes para que a coisa não pare. Porque a dona Noemi fala que não adianta nada você criar se você não tem condições de depois de tá dando pra coisa acontecer, entendeu. Então assim, eu fazia todo esse suporte de entrada de matéria prima, de acompanhamento de produção, é, acompanhamento de segurança, acompanhamento educacional. Então assim, na realidade, essa coordenação minha era dar o suporte para essas pessoas, que estavam agindo dentro dessa área.  P/2: De certa forma um trabalho de mais responsabilidade também.  R: Nossa, sem dúvida, né?  P/2: E foi no ano que você casou?  R: Sim, no ano que eu casei, com vinte e um anos de idade.  P/2: E aí você ficou na coordenação administrativa por quanto tempo?  R: Na realidade, eu faço parte da coordenação até hoje, né, com quarenta anos de idade.  P/2: Você tá até hoje?  R: Sim.  P/2: Mas você teve uma passagem por uma coordenação de, relacionada à área de comércio.  R: Sim. Porque, na realidade, nós dividimos assim coordenações por área, e hoje, atualmente, eu estou, é, direcionado à área comercial. Então eu coordeno vendas, e administro mais uma loja que nós temos em Belo Horizonte.  P/2: Uma loja?  R: É, nós temos uma loja, uma pequena loja que é, demonstra os nossos produtos, né, que seria tanto o nosso, o produto em si, em venda, e o nosso produto que é o social também, né. Então, a gente assim, é somente uma apresentação para conduzir as pessoas à nossa entidade. Porque nós gostamos de receber na nossa entidade, mostrando o nosso trabalho, vendo que é uma coisa real, que é uma realidade, o nosso projeto.  P/2: E, fala pra gente então desses produtos que vocês vendem, que tão na loja que podem ser encontrados lá.  R: Eu trabalho com... na linha de móveis rústicos, tá. Uma linha criada pela dona Noemi mesmo, lá dentro do projeto. Ela suporta tanto, é, fazendas, sítios e uma linha para apartamentos e casas, tá. É, eu tenho, é, produtos de acabamento e decoração de uma casa. Porque as minhas oficinas são o quê? Nós não perdemos raízes. Por exemplo, o tear mineiro, nós, nós mantemos essas raízes que são das pessoas mineiras que trabalharam, que sofreram muito com isso, né, antigamente. Então assim, nós queremos demonstrar que essas raízes não devem ser perdidas. Então nós temos o tear mineiro, que faz colcha, faz almofadas, cortinas. Eu tenho a tapeçaria de sisal, é o acabamento para tapete, é, cerâmica, que é uma coisa muito linda, os meninos são muito bons na cerâmica, entendeu. Então, o acabamento de uma casa eu tenho tudo para montagem de uma casa.  P/2: Você e coordenador de vendas?  R: Sim.  P/2: Vocês vendem esses produtos pra que tipo de pessoa? Quem é o público que vai na loja ou no Salão comprar?  R: Pelo, o público pela facilidade, é, de, de parcelamento, de pagamento, essas coisas, nós vendemos pra qualquer público, tá? Vende, então assim, mas quem nos busca muito é a região de Belo Horizonte, né, que têm nos buscado bastante, pessoas de apartamento e sítios.  P/2: Mas vocês aceitam assim, pedidos de encomendas, pedidos de outros estados? Já tem uma demanda pra isso?  R: Temos, e nós trabalhamos mais sob encomenda realmente, tá. O cliente faz o pedido, ele vai lá vê o produto na loja e nós entregamos com trinta dias esses produtos.  P/2: Além da loja, a loja é em Belo Horizonte?  R: Nós temos esse showroom em Betim, que é na nossa entidade, e temos essa demonstração em Belo Horizonte.  P/2: Além desses dois meios, vocês expõem os produtos de uma outra maneira? Divulgam como?  R: Divulgamos em exposições, tá. Que é outra linha que nós temos.  P/2: Certo.  P/1: E vocês já fizeram exposições onde?  R: Curitiba, São Paulo, Rio.  P/1: E como é que são essas exposições? As crianças vão, elas acompanham?  R: Nós montamos as oficinas dentro dessas exposições, entendeu. Nós levamos uma peça de cada, uma oficina de cada e os meninos trabalham, os jovens, os meninos jovens trabalham, que trabalham lá, vão trabalhar e exercer essa função lá e alocados já vendemos os produtos que nós levamos para expor.  P/1: E, é, esses professores. Porque cada, cada oficina tem um professor, né? Tem um...  R: Na realidade, as oficinas são assim...  P/1: Como é que funciona isso?  R: Eles têm um chefe, responsável, que foi escolhido pelos próprios jovens, tá. E são...  P/1: São ex alunos, sempre?  R: Sempre, ex alunos, tá. E, na realidade, assim, as oficinas nossas de produção são pessoas que foram criadas lá dentro e produzem, tá. E tem o chefe, uma pessoa que coordena esse setor, tá ok? E nós temos alunos aprendizes na escola que eu falei, que é a escola complementar para se profissionalizar pro futuro, pra ser no futuro artesão dentro do Salão. Ou se quiser abrir a sua própria coisa ele também pode abrir no bairro, ou em casa, alguma coisa assim.  P/1: E vocês, é, depois que a criança acaba o curso, é, como é que é esse mercado de trabalho? Vocês encaminham pra ela trabalhar em algum lugar ou cada vai por si tentar alguma coisa? Como é que é?  R: Nós temos alguns, é, algumas parcerias com algumas empresas, onde nós alocamos essas crianças, mesmo que não seja nessa linha, nessa linha de artesanato, entendeu. Nós temos alguma parceria, alguns convênios com algumas empresas, que vai tá dando esse suporte pra essas crianças que tão saindo.  P/2: Eu queria resgatar um pouquinho da história lá da criação do Salão do Encontro.  R: Sim.  P/2: Você falou que foi uma iniciativa da dona Noemi.  R2: Dona Noemi.  P/2: E de um frei.  R: Frei Estanislau.  P/2: Conta isso pra gente. Você sabe como é que foi? Quais foram as propostas dela, inquietações que levaram ela a fundar o Salão?  R: Ó inicial foi como eu falei. Ela trabalhava na Vila dos Marmiteiros, que era uma favela de Belo Horizonte. Como ela mudou, a família dela mudou para Betim, para deslocar Betim-Belo Horizonte, naquela época ficava incômodo. Então, ela escolheu um bairro de Betim, um bairro carente, e com a visão de implantar alguma coisa social dentro deste bairro. Então, ela iniciou, conversou com o frei, e iniciou dentro desse nosso bairro, com uma pequena sala, com um artesão e uma tecelã.  P/2: E isso foi quando?  R: Isso foi em 1970.  P/2: E desde então, a dona Noemi tá na frente do Salão do Encontro?  R: Tá na frente do projeto. Sempre foi, ela idealizou e entregou a vida para o Salão. Então assim, o Salão do Encontro é a família dela, é o filho, nós somos os filhos, pai, marido. Ela complementou a família dela com o Salão do Encontro. Então assim, ela nunca nos deixou faltar nada, entendeu, e sempre entregou por aquilo lá. Então assim, é uma pessoa de um coração enorme, sabe, de uma visão enorme, e que, assim, veio ao mundo pra isso.  P/1: Ela ainda participa ativamente da...  R: Ativamente. Presidente do Salão do Encontro. Hoje com 80 anos de idade.  P/1: E me diz agora, é, se é, os critérios pro ingresso das crianças continuam os mesmos de quando começou. Ainda é a mesma coisa, tem que ter uma renda, uma renda baixa, é a mesma coisa?  R: A mesma coisa. Os critérios são os mesmos, tá. E a gente faz questão, assim, que a, que a coisa expandiu. Inicialmente seria para o bairro, mas a procura é tão grande e o crescimento foi, foi assim, tão volumoso, que hoje nós estendemos isso pra outros bairros, entendeu. Então assim, a gente teve que abrir, sentiu a necessidade de abrir. Tanto é que hoje com outro patrocínio, de uma outra empresa, a gente tá montando um anexo do Salão do Encontro, entendeu. Então a gente já abriu em outro bairro que era muito carente de Betim.  P/1: Vocês tão fazendo...  R: É...  P/1: uma filial, né?  R: Uma filial, mas junto com a parceria de uma empresa. Aí, já vai ser numa visão assim, a empresa sentiu a sua necessidade social, entendeu.  P/2: E que empresa é essa?  R: É a Teksid do Brasil.  P/1: Como?  R: Teksid. Então assim, a gente tá muito feliz porque, é, despertou, entendeu. E nosso grande interesse é que o Salão fosse um pólo para as pessoas descobrirem que o social é legal, entendeu. Que o social vai dar solução pro país. Então, pra gente isso foi de um grande valor. Esse novo pólo que nós vamos montar, essa nova filial. P/1: Vai ter as mesmas, as mesmas atividades, que tem na, exatamente as mesmas coisas.  R: As mesmas atividades, a mesma filosofia do Salão.  P/1: Vai ter a creche?  R: Tudo.  P/1: Vai ter escola?  R: Vai. A mesma filosofia do Salão. Isso era, é, é um desejo da dona Noemi. Que a coisa crie, que a coisa flua, mas dentro da mesma filosofia, entendeu. Dentro das mesmas raízes, dentro da mesma visão que nós temos hoje.  P/2: Ô Marcos, qual que é o limite de idade para as crianças entrarem no projeto? Vocês atendem crianças de qual faixa?  R: De quatro meses, que na realidade fica na creche, e nós não temos idade limite. Porque hoje nós temos, é, alguns portadores dentro da entidade, que hoje são em torno de 110, tá, incluindo com senhoras de oitenta, noventa anos de idade que são avós de alguns meninos que estão lá. Porque na realidade nós estruturamos a família. Então pra gente não tem data, idade limite, não tem nada. Todo cidadão tem sua contribuição. Uma senhora um dia disse, ela virou pra mim e falou, é, que ela era importante porque ela enrolava uma linha, que fazia parte de um processo de produção que ia sair o tecido pronto na frente. Quer dizer, uma senhora de 70, 80 anos falar isso, gente, é de grande valor. E realmente é, às vezes ela tá em casa lá, é, sentada esperando a vida passar, esperar pra morrer? Não, ela tem o valor dela.  P/2: Mas o público alvo das oficinas continua sendo as crianças?  R: Sim, os adolescentes.  P/2: Hum Hum, e aí pra vocês agregarem o resto da comunidade, as famílias, essas pessoas atuam como?  R: Nós temos essa, essa escola suplementar, que nós estamos dando esse suporte, tá? E a visão de tá buscando novos profissionais em Betim teria que ser através dessa entidade que a gente tá abrindo, que é uma coisa que tinha que tá abrindo em filiais, entendeu? Porque hoje o Salão não suporta mais esse número de pessoas. Então essas pessoas vão estar sendo guiadas, entendeu, para essas instituições.  P/2: Só pra gente frisar, quantas pessoas o Salão atende hoje?  R: 937 pessoas.  P/2: Você saberia dizer quantas pessoas já foram atendidas? Mais ou menos.  P/1: Ao longo de todos esses anos.  R: É, em números, não. Mas...  P/1: Uma média.  R: Eu acredito que mais de cinco mil pessoas já tenham sido atendidas. Nós damos 1220 refeições/dias.  P/1: E ainda continua aberto à...  R: Aberto, é.  P/1: À comunidade? Quem quiser fazer refeição...  R: É, quem quiser. Damos também um... Eu acho uma coisa interessante, é, que indiretamente nós, mesmo com essa dificuldade financeira que nós temos, que nós não conseguíamos, entendeu, nós não deixamos de oferecer isso. Que nós sabemos que alguém, algo mais forte do que a gente vai tá cobrindo isso lá trás, sabe. Vem, vem um suporte pra gente. Porque toda vez que nós precisamos, essa força maior nos deu. Então assim, nós temos em torno de uma de média de 25 - 30 pessoas que nos procuram por dia, que querem ajuda ou com gás ou com conta de luz, ou quer, veio pra cidade à procura de um emprego e não achou e quer voltar pra cidade, entendeu. Além disso nós temos essa ajuda indireta que atende em torno de quinze a vinte pessoas/dias.  P/1: E vocês ajudam?  R: Ajudamos, sem dúvida. Porque mesmo com a nossa dificuldade, nós estamos lá pra poder ajudar.  P/2: Então, fala um pouco pra gente disso. Como que a comunidade de Betim recebe o Salão do Encontro?  R: Ó, eu... O Salão do Encontro na realidade é a comunidade, né?! Riso. Porque as pessoas do projeto são da comunidade, estão envolvidas naquilo ali. Então eu imagino, eu vejo no Salão do Encontro, é, a comunidade. Então, o Salão é a comunidade. Não tem... P/2: E você poderia então, definir pra gente assim, os resultados. Como vocês perceberam, ah, os resultados do Salão do Encontro na comunidade?  R: São os melhores possíveis, né? Um bairro totalmente estruturado, é, com o mínimo de violência. Nesse, é, quase sem, os nossos meninos, nenhum fazem uso de drogas, entendeu? Então você se envolve num trabalho desses que de mil pessoas, que indiretamente deve atingir quatro, cinco mil pessoas, né. Então assim, eu acho que a coisa é da melhor forma possível. O fruto, a semente foi plantada, entendeu, tá dando frutos excelente hoje, entendeu. Eu faço parte, eu sou um desses frutos. Então eu posso dizer de cadeira, a coisa é o que há mesmo, tá dando o de melhor.  P/2: Então você acha que isso é influência direta do Salão na comunidade, que a comunidade melhorou pelo trabalho que o Salão fez ao longo desses trinta anos?  R: Sem dúvida que foi. O Salão do Encontro é um ponto de referência, entendeu. Então, é um bairro que virou ponto de referência. Então hoje nós temos universidade no bairro, entende. Nós temos, é, um parque de exposições, entendeu. Então, tudo foi assim, os, se viu que a cidade cresceu pro bairro, entendeu. E quem era esse ponto de referência pro bairro? Salão do Encontro. Então Salão do Encontro é o ponto de referência de Betim.  P/2: E são quase trinta e anos de Salão do Encontro?  R: 34 anos de Salão do Encontro.  P/2: O quê que mudou de lá pra cá, você sabe perceber isso?  R: Na filosofia, nada. A filosofia é a mesma. A vontade é a mesma. A garra é a mesma e o pulso é o mesmo, entendeu. Então assim, a nossa meta é a mesma. Então assim, com o tempo, é, só nos fez criar mais garra. Então a diferença que eu vejo do Salão do Encontro inicial, desde quando eu entrei, pro Salão do Encontro esse, até hoje é a garra do dia a dia. Quanto mais o tempo passa, nós não cansamos. Nós temos mais garra pra coisa fluir melhor e crescer mais.  P/1: Agora me diz, em que momento a Petrobrás entrou no Salão, entrou na vida de vocês. Como foi? Me diz isso.  R: Mediante essa necessidade, essa captação de recurso, há nove anos atrás, através do superintendente da Petrobras, Dr. Caio, é, a gente consegue fazer um primeiro contato pela credibilidade do Salão, entendeu.  P/2: Foram vocês que foram procurar a Petrobras?  R: Isso. O contato foi, foi de captação do Salão, entendeu. Então, a dona Noemi, é, o convidou, ele foi conheceu o Salão e de lá pra cá a gente tá tendo essa parceria. Graças a Deus. De muito bom tom, que nos ajuda bastante, tá. Que hoje é em torno de 20% do valor da entidade, sabe, dos nossos gastos mensais, o patrocínio. E nós temos assim, de lá pra cá, esses outros superintendentes todos, além dele, é, não o superintendente da Petrobras, nós temos eles como nossos amigos, entendeu. Porque eles reconhecem realmente o trabalho, do Salão. Então assim, o valor dessa entidade.  P/1: E como, como é esse, esse patrocínio? Eles ajudam financeiramente ou eles dão matéria prima ou eles dão comida? Como é que é?  R: Existe mais de uma forma de ajuda. Eles ajudam financeiramente, tá, e tem agora, é, comercialmente eles viraram nossos clientes.  P/1: Ah eles tão comprando também?  R: È, hoje existe os kit sociais, que a Petrobras lançou um projeto, então assim, eles compram os nossos produtos. Então assim, eles são nossos parceiros financeiramente, financiam nosso projeto, e hoje é o nosso cliente. Então ele ajuda de duas formas a instituição.  P/2: E aí esse projeto é renovado anualmente, como é essa questão contratual?  R: É um projeto renovado anualmente, tá. A gente, conforme a nossa necessidade, o nosso crescimento, esse valor, esse volume de valor, aí a gente negocia junto lá na Petrobras, mas eles sempre, nós somos muito bem servidos.  P/2: E como você encara uma empresa como a Petrobras apoiando um projeto social que é o do Salão do Encontro? Qual que é a importância disso na sua opinião?  R: A importância é total. Eu acho que todas as empresas deveriam ter essa visão social. Porque, é, se montasse essa parceria dentro do social, entende, poderia tá montando outras instituições, que não seria só a nossa, mas tantas outras. Tem tantas pessoas de bom tom aí, que busca o ideal que querem o ideal. São pessoas boas. O brasileiro é um cidadão criativo. Um cidadão que quer a todo o momento, entendeu. Então assim, por que não estar ajudando eles dentro desse social? Tem muitas pessoas que querem isso, mas não tem suporte, não tem condições. Então assim, eu vejo o patrocínio uma coisa essencial pra vida, pra vida do Salão do Encontro hoje. E isso tem muito legal, porque a entidade Salão do Encontro, a família Salão do Encontro, é, entende o valor disso, entendeu. Além do valor financeiro, o valor de uma empresa como a Petrobras tá patrocinando esse projeto, entendeu. Porque isso dá confiança e a gente vê que abre portas, entendeu. A gente vê um futuro pro país. Então, eu acho a nossa entidade e os nossos colaboradores todo enxergam dessa forma, tanto Petrobrás, como outros parceiros que nós temos.  P/2: E quais são os principais projetos do Salão do Encontro hoje?  R: Bom, nós estamos com essa filial, né. Mas o nosso projeto, o maior projeto hoje, atualmente é estar dentro dessa área de educação, que a gente firmou. Que é esse pré-escolar, essa escola complementar, e essa escola suplementar. Que a gente viu, nós vimos que deu, que nós estruturamos a base do jovem. Que há momento nenhum nós deixamos vago um espaço, para que ele fique fora do projeto, entendeu. Mesmo que a gente, às vezes, infrinja alguma lei, alguma coisa aí [Risos]. Que normalmente não tem como, né. Principalmente quanto à questão, ao jovem, né gente, que é uma coisa tão difícil tudo, que você vai fazer falam que é exploração de menor, que é isso, é aquilo. Mesmo você querendo ajudar. Então assim, a gente tem essa noção, então a gente não deixa o vago, nós não queremos. Então, eu acho que o grande projeto do Salão do Encontro é essa educação.  P/2: Ô Marcos, você tem filhos?  R: Tenho quatro filhos.  P/2: E eles estão no Salão do Encontro?  R: Privilegiados. Eles estão no Salão do Encontro e começaram mais novos do que eu. Eu tenho o Pedro, que é, que está na creche, ele tem dois anos de idade. Eu tenho a Rafaela e a Lais, que uma tem sete e a outra tem dez, que estão na escola complementar, já passaram pelo pré, estão na escola complementar, e tem o Igor, que tem 17 anos. Ele hoje é, é, fazia parte de um processo do Salão, e hoje ele tem focado mais na área de educação. Então hoje ele tá fazendo um curso técnico de eletricista e estuda na escola padrão. Mas não deixou de perder o vínculo com o Salão.  P/1: Os seus filhos, é, essas crianças mais velhas, eles já participam de alguma, alguma oficina ou eles só estudam?  R: O Igor, assim, a Rafaela e a Lais já participam de um projeto de oficina porque está dentro do planejamento da escola complementar. Elas já participam de oficinas, de aprendizados. O Igor, ele já passou por essas oficinas e hoje ele foi direcionado para esse curso profissionalizante que ele tá fazendo. Através do Salão, tá.  P/1: Humhum. Agora deixa eu só voltar um pouquinho, eu queria te fazer uma pergunta. Além da Petrobras, quais os outros patrocinadores que vocês têm?  R: Olha eu tenho a FIEMG.  P/1: FIEMG?  R: É, a Federação de Indústrias dos Estados de Minas Gerais, tá. Eu tenho a prefeitura de Betim, que participa com os professores, né?  P/1: Ah ela paga?  R: Paga.  P/1: Aos professores pra eles darem aula para esses alunos?  R: Pra eles darem aula para esse pré-escolar, tá.  P/1: Então é praticamente uma escola municipal?  R: É...  P/1: Dentro do...  R: Ela não tem essa visão, esse enfoque porque a prefeitura entra com a mão de obra, e a estrutura toda e manutenção é nossa. P/1: Vocês que continuam vamos dizer assim, ditando as regras da escola?  R: Isso. Ditando regras, ambientes, manutenção, tudo é pela entidade, ta. Porque, a educação é dentro da filosofia da dona Noemi. P/1: De vocês.  R: Isso, do Salão do Encontro.  P/1: E tem mais algum outro patrocinador?  R: Eu tenho outros patrocinadores indiretos também, entendeu, que são esses que ajudam mesmo e tal.  P/1: Pessoas, né?  R: Não, até assim, algum, como a Caixa Econômica Federal que dá algum patrocínio de final de ano, de Natal, que nós fazemos alguma exposição. E assim vão outras pessoas, outras entidade.  P/1: Patrocínio esporádico?  R: Isso, esporádicos isso.  P/1: Tá.  P/2: Eu queria voltar nessa questão dos seus filhos, porque você tem uma trajetória quase que do início da sua vida até agora no Salão do Encontro.  R: Sim.  P/2: Mas e você como pai de filhos que frequentam o Salão do Encontro, como é que você vê isso, pra, pra vida deles?  R: Dentro da filosofia do Salão, excelente. Porque o que mais se apura lá, lá no Salão, dentro da filosofia de vida, né, é, são os nossos princípios, entendeu. Então assim, pra essa forma, para educação dele, deles, excelente. Agora eu, a gente vai ter que, eu vou ter que verificar essa linha deles, profissionalmente qual vai ser a linha profissional, entendeu. Aí sim, o Salão tem condições de dar isso pra ele hoje, profissionalmente? Ele estaria de repente, é, tirando o direito de um outro que poderia estar no lugar dele, ali dentro do Salão, entendeu. Então assim, eu vejo assim, que o Salão estrutura a família. Agora se ele profissionalmente quiser ter uma outra profissão de vida fora, é um direito dele de escolha dele. Então assim, até os 17 anos de idade ele esteve dentro do Salão do Encontro, guiando uma linha dentro Salão do Encontro, uma linha pessoal, uma estrutura do homem, seus valores e seus princípios. Agora profissionalmente, é uma escolha dele.  P/1: E como você recebeu isso, dele querer sair pra procurar outros horizontes? Como você recebeu isso?  R: Natural.  P/1: Não ficou magoado? Não tinha nenhuma expectativa de que ele seguisse o seu caminho?  R: Não, porque como o meu pai perguntou na época é o seu desejo, era, e foi o meu direito de dar resposta pra ele, o meu filho tinha que ter direito de dar essa resposta, entendeu. É o desejo dele, é o futuro dele, é a felicidade dele. Então ele, eles, ele próprio pode dizer a respeito disso.  P/2: Mas no geral eles gostam de tá ali dentro? Como que é a convivência deles com os outros jovens?  R: Excelente, porque ele não perde o vínculo. O interessante é isso. Quando você estrutura uma criança desde nova dentro de um convívio, dentro de uma comunidade, dentro de uma entidade que nem o Salão do Encontro, você não perde o vínculo nunca. É o cordão umbilical, né. Ele tá agarrado, né, então ele não vai soltar.  P/1: Você tem expectativa de algum dos seus outros filhos seguirem o seu caminho, continuar o seu trabalho lá dentro?  R: Sim. P: Ou você acha que vai todo mundo procurar outro caminho?  R: Não, tenho expectativa. Eles têm visão, entende. Eu só, é, eles vão apurar isso com o tempo, entendeu. O desejo deles. E até então assim, eu converso, eu mostro a minha satisfação e a minha felicidade. Porque o que eu posso demonstrar para eles é a minha felicidade e o meu desejo de estar lá. Agora se for desejo de algum deles estarem seguindo, sem dúvida, vai ser de grande valor pra mim.  P/1: A sua esposa também trabalha lá?  R: Trabalha.  P/1: E o quê que ela faz lá?  R: Ela é tecelã.  P/1: Tecelã. Ela é instrutora, não sei, professora, como é que eles falam?  R: Não, ela é uma profissional na área, né, de tecelagem.  P/2: Então automaticamente ela também vê com bons olhos, o ingresso dos seus filhos no Salão do Encontro?  R: Ah sem dúvida, entendeu. Porque nossa família foi estruturada lá dentro...  P/1: Nasceu lá dentro.  R: Nasceu lá dentro, então não tem um porquê, não tem, e o Salão é tudo de bom, é tudo que há, entendeu. Então não tem que, não tenho dúvida quanto a isso, nosso relacionamento é aberto.  P/1: E agora me diz, Marcos, quais os seus sonhos, os seus projetos, a sua expectativa pro futuro? O que é que você deseja?  R: Os meus desejos já estão sendo realizados, né. Que é estar no Salão, foi o meu projeto de vida, entendeu. O meu desejo é poder cumprir a minha meta, que foi determinada pra mim dentro desse período, que é tá dando suporte para essas mil pessoas que estão envolvidas dentro do projeto. Que eu não falhe, com isso. Jamais.  P/1: Mas vocês têm alguma, algum sonho, de realizar alguma coisa maior? Tem alguma…  R: O sonho de realização está implantado ali dentro do Salão, entendeu. Agora, o sonho de realização que nós vamos transmitir para outros jovens que estão vindo, que estão dentro da área, são esses e outras filiais. Porque o sonho de transformar essas pessoas, no que nós somos hoje. Então o meu sonho de realização é esse, de poder contar com outro Marquinho, outro Nilson, com outra Cida e assim, outras pessoas.  P/1: Pessoas que trabalham lá?  R: É, que coordenam o Salão hoje. Poder tá levantando essas pessoas pra poder tá dando suporte em outros trabalhos.  P/2: A gente tá finalizando a nossa entrevista. Eu queria perguntar pra você o quê que você achou de ter participado do Projeto Memória Petrobras, ter dado esse depoimento?  R: Pra mim, só vem valorizar o meu caminho, que eu escolhi. Porque, poder falar de um Salão do Encontro, poderia ter falado muito mais. Mas o Salão do Encontro, pra mim, tá além das palavras, entendeu. Então assim, pra mim é, pra mim vai ficar uma coisa gravada pro resto, mais uma coisa gravada pro resto da vida. Poder falar um pouco do Salão do Encontro. Porque o Salão do Encontro, a dona Noemi já me falou muitas vezes, e realmente é real. O Salão do Encontro você não fala sobre o Salão do Encontro. O salão do Encontro é visto, ele é prato, ele é sentimento, entendeu. Quando você entra em qualquer setor, você sente o sentimento das pessoas, é, fluir pela pele, entendeu. Então assim, é aquela energia que te carrega sua bateria no dia a dia. Então, o Salão, eu vim agradecer e é mais uma coisa que, é, eu vou levar pra minha vida, mais uma bagagem que eu tô levando. Eu só tenho que agradecer.  P/2: A gente é que agradece. P/1: Tem mais alguma coisa que você quer deixar registrada? Que você queira falar, que a gente não tenha perguntado? Que você não teve oportunidade de dizer?  R: Eu queria agradecer primeiro à dona Noemi de ter me dado essa oportunidade de vida, né. E de ter acreditado, ter confiado. E aos meus pais também, né, porque afinal de conta é raiz, o berço, dentro das faltas de condições que tinha na época, me deu educação. Mais, e, meus irmãos, é, porque a família pra mim é o importante, é tudo. Então a minha família generaliza dentro do meu, é, meus filhos, minha esposa, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e o Salão do Encontro. Então só tenho a agradecer, somente isso.  P/2: Obrigada Marcos.  R: Eu é que agradeço.  P/1: Obrigada pela sua participação.  R: Eu é que agradeço.P/1: Boa tarde Marcos.  R: Boa tarde.  P/1: Gostaria de começar perguntando seu nome completo, local e data de nascimento.  R: Marcos José dos Santos. Nascido em Betim, Minas Gerais, em 24 de dezembro de 1964.  P/1: Agora me diz o nome dos seus pais e dos seus avós.  R: Vicente José dos Santos, meu pai. Minha mãe, Geralda Francisca dos Santos. Arlindo José dos Santos do...parte de pai, tá?  P/1: Do seu avô.  R: Tá, é, José Francisco Dias, parte de mãe. Me pegou que, é...  P/1: Ah, calma. Vai... Me diz aqui agora, o quê que seus avós faziam. Qual era atividade deles?  R: Era, trabalhavam na área rural. Todos eles.  P/1: Todos eles?  R: Isso.  P/1: Lá em Betim?  R: Em Betim, sim.  P/1: Hum, e seus pais faziam o que?  R: O meu pai trabalhava em pedreira, tá. Uma profissão que chama canteiro, quebrando pedra. E a minha mãe era doméstica, na época.  P/1: É, e você sabe qual é a origem da sua família? Vocês vieram de onde? São de lá mesmo...  R: Não, nós somos de Betim.  P/1: Sempre?  R: Sempre. Somos filhos de Betim.  P/1; E, você tem irmãos?  R: Tenho.  P/1: Quantos?  R: Seis irmãos.  P: Ah, família grande, né?  R: Sim.  P/1: Além de seus irmãos, você foi, foi criado junto com algum outro parente?  R: Somente com meu avô, de parte de mãe.  P/1: É, agora me conta um pouco, como foi a sua infância?  R: Bom, eu sou de uma família pobre. É, muito rústica, sem muita informação. Porém, uma família muito digna, onde o meu pai, sempre nos frisou que assim mesmo além da pobreza, os valores e princípios em primeiro plano. Então assim, eu tive muita base dentro disso. Então a coisa...  P/2: Que valores eram esses?  R: Honestidade, amor ao próximo, entendeu. Sempre visado mais por isso. E sempre que a família seria estrutura e a base, é, nossa pro futuro. Então, assim, a família pra gente é de grande valor, de muito valor. São os nossos princípios, são esses.  P/2: Em que bairro que você morava lá em Betim, na sua infância?  R: Eu moro, é no mesmo bairro que eu moro hoje, bairro Santa Lúcia.  P/2: Como é que era o bairro na época?  R: Era um bairro carente, não tinha infra-estrutura nenhuma. Não tinha condições de higiene, essas coisas, entendeu. Não tinha asfalto. Não tinha nada. Então era um bairro muito carente.  P/1: E hoje, como é que ele tá? Continua assim?  R: Não. Hoje é um bairro estruturado.  P/1: É, e me diz um pouco, quais as suas brincadeiras favoritas? Você brincava na rua? Brincava com quem? Como é que era?  R: Eu brincava com meus irmãos. Porque, na realidade, assim, quase que não tinha vizinho próximo, essas coisas. E meu pai por ser muito rústico, muito severo, entendeu...a nossa educação. Então não tinha muito esse direito de estar na rua, né, brincando, essas coisas. Mas eu jogava as coisas que as crianças jogavam. Era bolinha de gude, né, com minhas irmãs. Porque até então meu irmão... eu só tenho um irmão e ele é bem mais novo do que eu, né. Então eu jogava era bolinha de gude, fazia papagaio, brincava de algumas brincadeiras, rouba bandeira que era umas coisas nossas, que nós tínhamos lá.  P/1: Me conta quem que mandava na sua casa, era...  R: Meu pai.  P/1: Seu pai?  R: Meu pai, sim.  P/1: E você teve educação religiosa?  R: Sim, católica.  P/1: Católica? E você é católico atualmente?  R: Sou católico.  P/1: Católico praticante?  R: Católico praticante.  P/1: Mas você ia à Igreja?  R: Sim.  P/1: Sempre?  R: Sempre. Todos os domingos, normalmente. Fiz toda a minha formação religiosa, que é primeira comunhão, né, todas essas coisas. Todas eu pratiquei.  P/1: Agora me diz quando você iniciou os seus estudos, quando e como.  R: Estudei numa rede pública nos meus sete de idade.  P/1: Iniciou aos sete anos?  R: Aos sete anos.  P/1: E qual era o nome da escola, você lembra?  R: Era Escola Estadual Sarah Kubitschek.  P/1: Lá em Betim...  R: É, em Betim, no bairro.  P/1: E você ficou lá, cursou o seu, seu primário todo...  R: O meu primário eu cursei ele todo lá. Depois eu fui pra outra escola fazer a outra base, né, que era a Escola Municipal Raul Saraiva Ribeiro.  P/1: Hum, e me diz quais as lembranças marcantes que você tem do seu período escolar. Dessa sua primeira fase, na escola. Você tem alguma lembrança?  R: Minha professora, que eu era apaixonado por ela. [risos]  P/1: Sua professora, você tava em que série?  R: Da primeira à quarta série.  P/1: É, e qual era o nome dessa professora?  R: Marlene Trindade.  P/2: Como que era essa paixão?  R: Assim, porque na realidade, por eu não ter tido tanta saída pela minha infância, muito contato, eu era uma pessoa muito tímida, muito carente, né, de contato com outras pessoas. E assim, no primeiro dia de escola, por exemplo, eu chorei a vontade, aquela coisa de sala de aula. Acho que é normal. E ela foi a pessoa que me deu carinho, me deu amparo. Então era aquela paixão, quer dizer, que eu deixava minha mãe em casa, eu sentia o conforto com ela lá. Então, se minha mãe me dava conforto meio horário, ela me dava conforto no resto do período. Aí, então, no terceiro ano de escolaridade eles queriam me mudar de sala. Foi onde que eu percebi o amor que eu tinha por ela, né. Aí, eu não quis, não aceitava. Não aceitei, aí voltei a chorar de novo e tal, aquelas coisas, aí eles não me trocaram de sala de aula. [risos]  P/1: Aí você continuou...  R: Aí eu continuei com ela porque eu queria ela.  P/1: Nossa… [risos]  P/1: É, agora me fala como foi o seu encontro, como foi o seu o seu ingresso no Salão do Encontro. Quantos anos você tinha, como, como se deu isso?  R: Eu tinha dez anos de idade, na época. Foi em outubro de 1974. Por necessidade, meu pai e minha mãe tinham que trabalhar. Eu estudava meio período e meio período estava vago. Com dez anos de idade. Aí...  P/2: Mas, como é que você ficou sabendo da existência desse Salão do Encontro?  R: Ah tá. Porque o Salão do Encontro é uma ONG, que foi instituída dentro deste bairro de Betim.  P/2: Quando?  R: Em 1970.  P/1: Foi instituída por quem?  R: Por Noemi Macedo Gontijo e um frei franciscano, frei Stanislau. Dona Noemi que é diretora e coordenadora do projeto até hoje. Aí, meu pai ficou sabendo desse projeto, que eram quatro quarteirões de casa, e como ocupação por esse meu meio período, ele me acompanhou junto com minha mãe até a dona Noemi e pediu a ela se seria possível estar me dando essa capacitação, essa ocupação dentro dessa entidade. Que seria um aprendiz em artesanato. É, a dona Noemi olhou no meu olho, porque ela é uma pessoa que diz e enxerga dessa forma, que olho fala toda a verdade, entendeu. Ela olhou dentro do meu olho e perguntou se esse era o meu desejo, eu falei que era, aí ela me ingressou dentro desse projeto.  P/1: Os seus irmãos também foram ou foi só você?  R: Não. Depois de um bom tempo, aí sim, outros irmãos meus vieram.  P/2: E você é o mais velho?  R: Dos homens eu sou o mais velho, e tenho duas irmãs acima.  P/2: Mas, por que que você foi o primeiro a ir?  R: Porque na realidade, minhas outras, pela visão do meu pai, mulher não trabalharia, naquela época, num é. Então assim, e também mediante o projeto, tinha quatro anos de projeto, né. Então eu acho que eles nem tinham essa visão que mulher iria ou não, entende. Mas era mais pela visão dele, rústica dele mesmo.  P/2: Certo, aí você falou que estudava num turno e ia pro Salão...  R: Ia pro Salão em outro período.  P/2: E o quê que você foi fazer lá então?  R: Eu fui trabalhar na atividade, na oficina de trabalhar com sandálias e bola de futebol. Trabalhava com couro.  P/2: Você fez um curso?  R: É. Eu fiz, um aprendizado, né, dentro desta área. Agora porquê e enfocado em quê, entendeu, não era um objetivo profissional nem nada, que eu não tinha nem capacidade de estar tendo essa visão naquela época.  P/2: Certo, aí você ainda tava com dez anos de idade.  R: Dez anos.  P/2: Você permaneceu quanto tempo nessas oficinas?  R: Eu permaneci dois anos nessa oficina, mas essa oficina foi fechada pelo custo de matéria prima, um custo muito elevado. Então eu já passei pra outra oficina, que na época foi implantada, que era uma oficina de macramê, que trabalhava com essa corda de sisal.  P/2: E você sabe me dizer, nessa época, quais eram os critérios para uma criança ser aceita como aprendiz no Salão do Encontro? R: Sim. Que o pai ganhava meio salário mínimo, entende, e que a família fosse realmente uma família carente, que tivesse necessidade.  P/2: Tinha que tá estudando?  R: Tinha que tá estudando.  P/2: Certo. Aí, me diz um pouco mais da sua rotina nessas oficinas. Você produzia sandálias, e vocês vendiam?  R: Sempre o Salão teve um showroom onde, é, são vendidas essas peças, entendeu, uma recepção, né, onde os clientes, as pessoas iam buscar essas peças.  P/2: E aí você ficava todas as tardes da semana lá ou como é que era?  R: De segunda à sexta feira eu ia pro aprendizado normal, né.  P: Eles faziam algum acompanhamento? Assim, porque você tinha que tá estudando...  R: Sim.  P/2: As suas notas tinham que ser boas para você permanecer no projeto?  R: Tinham, tinham que ser boas.  P/2: Eles olhavam isso?  R: Olhavam. Tanto é que assim, a filosofia da entidade é “Educar pelo trabalho”, entendeu. Então as funções do Salão o quê que é? É educação, saúde, moradia e trabalho. Então assim, dentro dessa filosofia se a educação tá embutida, entendeu, essa visão total de cobrança, também de acompanhamento e de crescimento já está embutida dentro dessa visão do projeto.  P/1: E você falou que a princípio você foi, porque seus pais resolveram que você teria que fazer alguma atividade, pra não ficar, não ficar digamos assim, à toa.  R: Sim.  P/1: É, mas você gostava? No começo você, você realmente gostou?  R: Foi o mesmo caso da escola. O primeiro dia eu senti, depois eu percebi essa necessidade. Hoje com a minha idade e a minha visão, se você perguntasse pra mim se eu faria, eu faria tudo novamente. E acho, acho não, eu tenho certeza que o jovem é uma idade excelente pra tá começando a já ter sua atividade. Eu acho que isso não é uma exploração de menor.  P/1: Não, de jeito nenhum.  R: Não é, né?!  P/2: Nesse período que você entrou, você sabe precisar quantas crianças eram beneficiadas pelo programa?  R: Olha, número certo, não. Mas eu imagino que na faixa de 150 crianças eram beneficiadas.  P/2: Explica pra gente um pouco mais Marcos, dessa estrutura do Salão do Encontro. Eram oficinas? Como é que era o ambiente, fisicamente falando?  R: Era um galpão, muito arejado, com bastante verde. Porque o Salão estava dentro de uma área verde. A dona Noemi preserva muito o verde. Era bem estruturado, tá, pela ajuda de pessoas do bairro também, que começou a construir essa entidade. Porque na realidade, aí a comunidade começou a enxergar a necessidade dessa entidade dentro do bairro. Então, existia essa participação direta, então é, pedreiros que eram do bairro já iam ajudar a construir, a levantar, entendeu. Então assim, aquela coisa de motivação de uma comunidade. E, dentro da estrutura era uma coisa muito, muito legal. Era um ambiente muito bom. Aí, eu já comecei a abrir minha amizade com outras crianças do bairro, entendeu. Aí, que a coisa começou a fluir e aparecer pra mim. A vida começou pra mim.  P/2: Certo. E aí você permaneceu dois anos nesse primeiro momento?  R: Sim.  P: E o quê que aconteceu em seguida? Você saiu do Salão do Encontro?  R: Não. Aí eu passei por vários processos de outras oficinas, tá. Eu passei por essa oficina que eu falei de macramé, passei pela tapeçaria de sisal, tear chileno, é, flores, bonecas. O que, na realidade, qual a visão da dona Noemi? É, você chega, você olha e você fala o quê é que você gosta, o quê é que eu quero. Você tem essa opção de escolha, entendeu. Então, eu passei por várias oficinas por opção de escolha minha. Eu queria, quanto mais informação e mais conhecimento que eu tivesse, pra mim era melhor. Então assim, o porquê que eu busquei isso? Então assim, é por causa dessa visão minha, eu queria abraçar uma coisa além do que estavam me dando.  P/2: E são basicamente oficinas de artesanato?  R: Todas oficinas de artesanato.  P/2: E você fez quantas oficinas?  R: Eu fiz nove oficinas.  P/2: Cada oficina tinha duração de quanto tempo?  R: Era período indeterminado. Conforme a necessidade, que eu me sentia que eu tava desenvolvido em uma, eu já procurava outra, já buscava outras informações, outro crescimento. Então assim, hoje eu tenho experiência e sei fazer todas essas nove técnicas, eu sei fazer.  P/2: E aí a sua família, depois os seus irmãos ingressaram também?  R: Sim. Isso eu já estava com 16 anos, quando uma irmã minha ingressou para dentro do projeto. Ela trabalhava como professora, e hoje ela trabalha na área financeira, no projeto.  P/2: Mas eles fizeram cursos também? Foi uma trajetória parecida com a sua ou não?  R: Não, não. Não foi uma trajetória. Foi assim, mais por uma influência minha, por um desejo meu de estar levando alguém da minha família a participar do projeto. Porque eu via que o projeto era tão bom, uma coisa tão boa, entende. E a visão que a dona Noemi colocava pra gente que o suporte era pra família, é reestruturar uma família, entendeu. Então eu via essa necessidade deles estarem dentro desse projeto, entendeu. Porque eu vi que era uma coisa assim, que a gente não vem ao mundo em vão. E eu vi que aquilo ali ia dar uma coisa pra gente de futuro, entendeu. Que eu estava tratando não só com a minha família, eu estava tratando com uma família Salão do Encontro, entendeu. Não era... [Pausa]. Emocionado que eu -------------. Então assim, eu considero as pessoas do Salão do Encontro como a minha família.  P/2: Que bom. E aí, aos 16 anos aconteceu uma mudança grande na sua vida?  R: É. É aconteceu porque pela confiança, pelo meu desenvolvimento, sabe, pela minha busca. Aí, um dia a dona Noemi me viu, me pegou no braço, porque ela é uma pessoa assim, olhou no meu olho e perguntou se eu queria ter uma visão diferente, um conhecimento melhor, e aprofundar mais sobre o Salão do Encontro. Foi onde que eu comecei a participar já mais das coisas diretas e administrativas do Salão. Eu tinha 16 anos de idade.  P/2: E como é que foi tomar essa decisão? Porque aí você passou a estar lá em tempo integral?  R: Isso. A primeira coisa minha, eu nunca tomei uma atitude sem antes se comunicar com minha família, com meu pai. Assim, porque pra mim era novo, né. Aí eu procurei primeiro informação com o meu pai. Chamei ele, fui em casa, conversei com ele qual que era a proposta e tal, ele perguntou se era um desejo meu, falei que era e tal, que eu não teria medo de estar assumindo isso, entendeu, que eu sabia o quê que era isso. Aí ele, assim, me deu a maior força, conversou comigo, me orientou, me falou então se era o meu desejo que eu tinha que correr atrás disso mesmo.  P/2: E a sua mãe?  R: Apoiou também. Porém, minha mãe já era uma pessoa...naquela época ainda era uma pessoa afastada, né. Porque não sei se a mulher era já, era, assim, não por meu pai ser um machista, nem eu era. Não era dessa forma, mas ela era uma pessoa que cuidava da casa, que mantinha os filhos muito bem. Uma pessoa de coração enorme. Ela fazia essa parte. Até então ela não tinha essa comunicação ainda.  P/2: Mas ela apoiou?  R: Sem dúvida.  P/2: E aí, o quê que aconteceu?  R: Aí eu abracei a causa.  P: O quê que foi abraçar a causa? O Quê é que você passou a fazer?  R: Abraçar a causa foi abraçar o Salão do Encontro, comecei a participar mais diretamente com a dona Noemi dentro das áreas de acompanhamento administrativo, e, apoio. Seria uma base pra ela. Eu estava sendo uns dos primeiros suportes de visão dela, que seria um dos esteios para o futuro do Salão do Encontro. Que na realidade, hoje nós, todos nós que coordenamos e fazemos parte da administração do Salão, somos filhos do Salão. Fomos pessoas eleitas pelos próprios meninos lá dentro, sabe? Quando nós passamos desse setor nós tivemos uma aceitação disso. Eles achavam que nós éramos as pessoas corretas para isso. Então assim, hoje, quem administra a marcenaria é um jovem que começou lá. Quem administra um tear mineiro é uma jovem que começou. Então assim, a aposta, o resultado, da dona Noemi, a dona Noemi confiava na gente isso. Nós entendemos essa proposta de trabalho dela. Então assim, nós somos um esteio hoje. Ela é, ela coordena, mas nós somos o esteio disso, nós somos o futuro disso e nós temos mil pessoas envolvidas dentro desse projeto, que estão na nossa responsabilidade. Na falta dela amanhã, nós temos essa responsabilidade sobre essas mil pessoas, igual ela teve conosco.  P/2: Claro. Mas aí, você... Como que era o seu ambiente de trabalho, quais eram as coisas específicas que você fazia nesse serviço administrativo?  R: Eu coordenava qualquer necessidade do Salão, entendeu. Porque assim, a visão da dona Noemi é que eu não devo, assim, a pessoa não deve estar focada somente em X coisa, sabe, ela tem que ser participativa, tem que ser ativa. Então assim, qualquer situação do salão do encontro que acontecesse, de solução, de estar em discussão, entendeu. Então nós éramos participativos nisso. Que seja num cano que estourou lá em baixo, que seja num acontecimento mais grave. Nós éramos os jovens participativos dentro disso. Porque? Ela queria mostrar pra gente qual era a responsabilidade disso. Que nós não tínhamos técnica administrativa, ela não tem técnica administrativa. Ela tem visão de um projeto que ela implantou e que ela administraria da forma dela. Então a gente não tem técnica para administrar, não temos técnico nenhum. Ela é uma professora de rede estadual, entendeu. Trabalhou, começou a trabalhar numa favela que chamava Vila dos Marmiteiros, então assim, entregou a vida por aquilo. Então nós não temos filosofias nem planejamento, não. Nós temos a nossa filosofia de trabalhar, que era sempre buscando o próximo.  P/2: E além de você outros jovens trabalhavam também, fazendo tudo nesses setores de administração?  R: Sim, os jovens que ela apostou que seriam os esteios da entidade.  P/2: E como que você se relacionava com eles?  R: Excelente. Eu sempre tive muito, um relacionamento muito bom. Porque, na realidade, o Salão em si. Nós somos líderes. Mas se eu for contar todas as pessoas que envolvem o Salão, todos nós somos líderes. Cada um tem sua parcela, tem a sua cumplicidade com a entidade, entendeu. Cada um tem a sua responsabilidade. Então ninguém é melhor do que ninguém. Então assim, nós estamos todos num patamar, num nível, que todo mundo é responsável por aquilo, entendeu.  P/2: E vocês eram mais ou menos em quantos, Marcos?  R: Olha quando nós começamos era 150, isso nessa época já de 16 anos a gente já deveria estar em torno de umas 200 pessoas. P/2: Mas e os jovens escolhidos pra, pra dar esse apoio?  R: Para liderança? 15.  P/2: Eram 15?  R: 15 jovens  P/2: Nesse meio tempo você continuou estudando?  R: Sem dúvida. Eu trabalhava, eu já comecei a participar do projeto o dia inteiro, estudava pela noite.  P/2: Você já tava no segundo grau?  R: Já.  P/2: E era fácil conciliar as duas coisas?  R: Fácil [Pausa].  Era um desejo, né?! A educação e o trabalho. As duas coisas estavam conciliadas. P /2: Você podia nomear pra gente alguma coisa que você achasse muito bacana nessa nova etapa da sua vida, trabalhando no Salão do Encontro?  R: A descoberta. Até então eu não tinha me descoberto ainda, entendeu. Eu era pessoa que vivia junto com a minha família, no meu berço e me descobri.  P/2: E uma coisa que não era. Que foi um desafio, um problema, que você achou difícil de fazer?  R: É, encontrar com amigos que não reconheceram o projeto.  P/1: Como assim?  R: Que tiveram pessoas que não tiveram a mesma visão da gente a respeito do projeto. Então assim, eu tinha amigos no bairro que saíram do projeto, largaram o projeto e de repente não foram pessoas do bem, entendeu. Então assim, aconteceu alguns fatos. Então isso pra mim é uma fase, assim, porque como eu considero o Salão uma família, eu queria que todo mundo estivesse incluso, dentro do que é o projeto pra gente.  P/2: Mas como que você lidava com esse tipo de coisa, de situação?  R: Normal. Eram meus amigos. Então eu não tinha o direito de recriminar ninguém.  P/2: Claro. Nesse momento a Petrobrás já dava algum apoio pro Salão?  R: Ainda não. Até naquele meio tempo, não. Tanto é que nosso caminho foi meio longo, assim, pelas dificuldades que a gente tinha, né. Assim, nós temos 34 anos de existência hoje, mas assim, até os 20 anos de entidade, ali o caminho foi muito longo. Porque nós, assim, a gente não enxergava os direitos que nós tínhamos, entendeu. Não tínhamos conhecimento sobre isso, entende. Então assim, aí que nós começamos a ter um, de um certo tempo, a montar uma capacitação de recursos, alguém que estaria apoiando esse projeto, confiasse nesse projeto. Que eu...  P/1: E antes como é que vocês faziam para captar recursos, pra manter isso tudo?  R: A dona Noemi pedia isso no boca a boca.  P/1: Pedia?  P/2: Pedia pra quem?  R: Pras pessoas. Ela ia na mercearia e pedia ajuda para alimentação, pedia não sei quem pra isso. Era mais dessa forma, entendeu. P/1: Vocês viviam de doações?  R: De doações e já das vendas dos nossos produtos, que nós produzíamos lá, né.  P/2: Você falou que ela pedia ajuda para alimentação. Então, além das oficinas de artesanato, existia algum trabalho de merenda pra quem tava lá?  R: Existia. Sempre existiu. É, nós temos um refeitório, tá, que atendia tanto ao público interno quanto ao público externo da comunidade. Que era uma alimentação de quem chegasse, e tinha fome, comia. Não tinha nada que você fazer um registro, nada de você preencher ficha. Era quem tava com fome, quem tava barriga doendo, não tem o que comer. Então, famílias e famílias iam almoçar lá. Na época chamava cantina, não era Salão do Encontro. Tanto é que o nome pegou cantina, pra depois subentender que o nome era Salão do Encontro.  P/1: Mesmo quem não fazia nenhuma atividade lá...  R: Atividade  P/1: podia chegar...  R: Podia chegar, se alimentar normalmente.  P/1: Fazer a refeição e ir embora.  R: Normalmente, normalmente.  P/2: E, além disso, que outros serviços vocês ofereciam pras crianças e adolescentes?  R: Nós começamos depois de um certo período, nós implantamos um pré-escolar de quatro a seis anos, tá. É, que atendia às pessoas do bairro, no período de oito às quatorze horas. Aí, subentendia que seria da mesma forma, dentro do mesmo processo. Quem não tinha condições nenhuma de colocar uma criança num jardim particular ou alguma coisa assim, a gente fazia uma avaliação e essa pessoa, essa criança ingressava dentro desse projeto. Aí seria mais somente dentro área educacional, nada profissional, né, principalmente pela idade.  P/2: Marcos, e nesse momento você tava vivendo sua juventude?  R: Humhum.  P/2: Dava tempo pra passear, pra ir em festa?  R: Sim.  P/2: Como é que era isso?  R: Não...  P/2: Como você se divertia?  R: Olha, eu sempre gostei muito de futebol, é, gostei muito de pescar, sabe? Umas coisas mais tranquilas, mais light, sabe? Então assim, pra mim conciliar essas coisas era muito fácil. Porque eu estava tão bem com aquilo que eu estava fazendo, que qualquer momento que sobrava pra mim, era o maior tempo do mundo. Então tudo o que eu fazia, entendeu, pra mim, era com prazer, era com orgulho. Porque eu tinha base, eu tinha um piso, sabe. Eu tinha um caminho a seguir, entendeu. Então assim, pra mim as coisas eram tranquilas. Então eu fazia as coisas básicas mesmo, era muito tranquilo. Nunca fiz uso de drogas, entendeu. Nunca tive nenhum acesso, nem conheço, vou ser sincero, entendeu. Então assim, as coisas pra mim foram muito tranquilas, com muita base. P/1: Mas nas suas horas vagas o quê que você gostava de fazer? Me diz uma coisa que você sempre fazia.  R: Saía pra dançar, uma coisa assim...  P: Ah, você gostava...  R: É, eu jogava futebol, sempre gostei de uma pescaria, entendeu, acampar, essas coisas.  P/1: E como é que era a moda, na sua época, como é que você se vestia?  R: Playboy. [Risos].  P/1: Como é que é isso?  R: Cabelinho enroscado, quando eu tinha, né? [Risos] Era cabelinho enroscado, blusas maiores do que o necessário...  P/1: Nossa.  R: Calças mais baixas, sei lá. Era uma coisa assim. Usava kichute na época, era um tênis que era da moda [Risos].  P/1: É eu lembro de kichute. [Risos] É, como é que ficavam as namoradas, nesse meio tempo? Dava tempo pra você paquerar?  R: Até então eu não tinha esse interesse ainda não, a respeito de namorar, compromisso, essas coisas, não. Tanto é que a minha mulher, eu conheci eu tinha 17 pra 18 anos e casei com ela. Então assim, eu não fui muito de relacionamento, essas coisas não.  P/2: Mas por quê, você se achava se tímido?  R: Eu me achava tímido, e também assim, eu achava que eu, na hora que tivesse que acontecer a coisa ia acontecer.  P/2: Você preferia pescar.  R: É, eu gostava mais de uma coisa mais assim, pra esse lado.  P/2: E você pescava aonde lá?  R: E é até na realidade, naquela época, assim, pra você namorar, uma coisa assim, era até uma coisa mais difícil, né gente. Que assim, é, você conhecia a família e ia e conversava pra namorar. Porque você não saía na rua e ia encontrar alguém pra poder namorar, essas coisas, entendeu. Então era uma coisa de personalidade das famílias de lá, entendeu. Então assim, as meninas, não eram meninas que saíam. Igualzinho eu. O meu pai não deixava que eu saía, e as meninas principalmente não, entendeu. Então era uma coisa mais difícil pra você tá namorando, essas coisas.  P/1: E como você conheceu a sua, a sua esposa então, já que ninguém saía, ninguém...  R: Ah, eu estava no Salão, na época eu ia fazer uma festa junina, e tinha aquelas danças, aquela coisa, entendeu. Então eu conheci ela foi dentro disso.  P/1: Dentro do Salão?  R: Dentro do salão.  P/1: Tinha que ser.  R: Tinha que ser. [Risos]  P/2: Aí você conheceu ela com 17, 18 anos, que você falou.  R: É, 17 para 18 anos.  P/2: Aí,vocês casaram logo?  R: Casei com 21 anos.  P/2: Ah, então. Mas ainda sobre a sua juventude, você falou que gostava de pescar, de acampar. Conta pra gente como é que era isso, com quem que você ia. Você tinha muitos amigos que gostavam?  R: Na realidade, eu, assim, quem me abriu isso é que eu acho que é uma coisa excelente, entendeu, pra cabeça, pro dia a dia, sabe, foi minha família. Meu pai e minha mãe são pessoas que gostam de fazer isso. Fazem até hoje. São pessoas aposentadas e eles vivem acampados, entendeu, na barraca, nessas coisas. Então eles me induziram...  P/2: Há, eles vão sozinhos...  R: Vão, vão sozinhos até hoje, graças a Deus. São pessoas de saúde, entendeu, e...  P/2: Nossa, bacana.  R: E eu acho muito legal isso neles, entendeu. Porque você na beira do rio, pescando, olhando pra água, olhando pra natureza, entendeu, isso te reflete coisas excelentes, muitas coisas boas. São energias, negativas, que você joga e energia positiva que você busca, entendeu. Então assim, quando eu quero me reabastecer de energias positivas, eu vou acampar e vou pescar.  P/2: E aonde que você acampava e pescava?  R: No rio. Nós temos um rio lá que é...  P/2: Em Betim mesmo?  R: É, rio Paraopeba.  P/1: Como?  R: Pa-ra-o-pe-ba. Lá em Betim.  P/2: Ô Marcos, aí pra gente voltar um pouco, então, pro Salão do Encontro. Aí aos 16 anos você entrou lá em tempo integral.  R: Sim.  P/2: E depois como foi a sua evolução lá dentro. Você assumiu outra função, quando?  R: Depois dessa credibilidade que a dona Noemi me pegou no meu braço e falou, me sacudiu e falou: “Vamos?”. Eu falei vamos, aí aos 18 anos eu já comecei a trabalhar na área financeira, aí trabalhei durante três anos. Aos 21, aí eu já comecei a trabalhar na coordenação, entende. Aí, foi um processo mais de confiança. Ela viu o meu desejo pela entidade, sabe? O meu gostar pela entidade, que eu não vim no mundo em vão, eu vim pra poder fazer alguma coisa, e aquela era a minha coisa. Aquela era o meu tesouro que eu tava desenterrando desde dez anos de idade.  P/2: Aí você foi com 18 anos, então, pro departamento financeiro...  R: Sim.  P/2: ... foi ela que te indicou?  R: Foi ela que indicou.  P/2: E o quê é que mudou nas suas atividades com essa indicação e essa ida pra esse setor?  R: Bom, eu tive mais responsabilidades, entendeu, e vi a seriedade e o compromisso, e qual que era a dificuldade do Salão. Porque o Salão até hoje não é auto-suficiente. Porque você trabalhando dentro dessa área financeira você vê as dificuldades reais, entendeu. Porque você manter uma entidade com tantas pessoas na sua responsabilidade e sem grana, é difícil, entendeu. Então assim, eu vejo ela uma mulher, uma mulher de peito, entendeu, de garra, que tem Deus em primeiro lugar, que ele nunca deixou faltar, entendeu, assim, nas horas mais difíceis ele estava presente, entendeu. Então assim, me serviu de espelho, pra minha vida, sabe, essa parte financeira.  P/2: E você atuando nesse departamento, você conseguiu alguma contribuição para essa área de investimentos que tava sempre tão carente?  R: Sim, a bolsa sempre foi dentro disso. A nossa visão sempre foi dentro disso. Porque nós sempre julgamos assim, dentro da captação, nós temos que captar. Porque tem meses, tem meses que a gente, assim, a gente não tem o dinheiro pra poder fazer a folha de pagamento. Dessas pessoas que necessitam, pessoas lá carentes do bairro, que necessitam, que têm seus compromissos, entendeu. Mas a gente tem assim, tem a parte que a gente capta dos nossos parceiros, que a gente tem muito que agradecer, entendeu, mas mesmo assim nós ainda temos algo pra correr atrás durante meses e nunca faltou, entendeu. Então, essas doações indiretas, entendeu, isso nunca faltou pra gente.  P/2: As pessoas que trabalham no Salão do Encontro então, são empregadas? Não é um trabalho voluntário?  R: Não, não é um trabalho voluntário. São pessoas que trabalham dentro das oficinas. Hoje são 247 funcionários na entidade, tá? Eu tenho mais 650 crianças na área de pré-escolar, que subdivide em creche que seria de quatro meses de idade a quatro anos. Que eu brinco com meus filhos que eles tiveram mais privilégio do que eu, porque eles entraram com quatro meses e eu entrei com dez anos, entendeu. Gosto muito de frisar isso pra eles verem o valor da coisa. Se eu dou valor, eles teriam que dar muito mais. E tem uma creche de quatro meses a quatro anos. Nós temos um pré-escolar, que atende em torno de 450 crianças de quatro a seis anos, tá. É, nós temos uma escola complementar que é de sete anos até os 14, que já entra a criança depois que saí do pré-escolar vai pra escola pública, ela estuda meio horário na escola pública e meio horário dentro do Salão, dando suporte de dever, entendeu, é cumprir regras, normas, é, e alguma coisa profissionalizante. Ela já começa a desenvolver algum trabalho profissionalizante. Porque nós temos mini oficinas dessas que eu citei, nós temos mini oficinas lá embaixo onde eles começam a pegar. Vamos trabalhar com curva? Vamos, trabalho do tear com a curva. Ah vamos trabalhar nisso? Vamos.  P/2: Mas nesse momento que você tava trabalhando no departamento financeiro a estrutura do Salão do Encontro já era essa?  R: Já estava estruturado. Por que? Por quê é que já estava dentro dessa estrutura? Porque a comunidade em si foi se envolvendo tanto dentro do trabalho. Eu acho que nem a dona Noemi tinha em si tinha essa visão, que a coisa seria o que é. As pessoas foram exigindo tanto, foram buscando, aí nós vimos que a necessidade da família, aí, busca um, busca outro, a coisa foi desenvolvendo, foi crescendo, que tomou um rumo que eu acho que ela nunca imaginou que chegaria a isso. Apesar de ser esse o ideal dela. Então, mais assim, então nós chegamos numa estrutura hoje, que o Salão, assim, é, pra quem conhece o Salão do Encontro, entendeu, é, vê a seriedade de um trabalho social, que às vezes, muitas vezes foi deturpado aí, entendeu. Então assim, a gente vê que o Brasil tem solução, entendeu. Que basta querer trabalhar com sinceridade, com honestidade, entendeu, sempre olhando o próximo, entendeu. Eu colho frutos disso. A minha vida tá lá dentro. Do próximo também, entendeu. Então assim, a gente nunca trabalhou com ambição de si próprio, entendeu, sempre eu tava buscando pra mim e pro próximo, pro meu filho, é, pro meu vizinho, entendeu. Então assim, eu nunca trabalhei dentro de uma visão, pensando numa visão pessoal.  P/2: Certo. Conta pra gente então, um pouco mais do seu cotidiano de trabalho ainda no departamento financeiro. Quê que você fazia, suas atividades?  R: Eu trabalhava junto, linkado à recepção que fazia venda dos produtos, entendeu. Eu recebia esse dinheiro, cheques das vendas, entende, e disso a gente fazia aplicações. Porque teria que trabalhar dessa forma, né, e começamos a visualizar a busca da captação, que até então a gente não tinha captação de recursos. Então a gente começou a viabilizar por esse lado. Porque o Salão não se manteria, não conseguiria suportar daquela forma. Então, nós tivemos que abrir a visão para a captação de recursos.  P/1: E como vocês conseguiram isso? Como, como foi a primeira grande captação, vamos dizer assim, que vocês fizeram? Como, como fez...  R: A primeira grande captação foi a doação de terreno que a gente conseguiu. Onde é a área hoje, são quatorze hectares.  P/1: E quem é que doou o terreno?  R: Foi Tancredo Neves, junto com a esposa dele.  P/1: Em que ano?  R: Isso foi em, setenta, oitenta ... e sete.  P/1: Aí, vocês construíram...  R: Aí nós construímos...  P/1: Nesse terreno.  R: Aí nós construímos nesse terreno. Aí nós já conseguimos outros apoios, outros suportes, onde nós construímos outros galpões, onde a coisa foi expandindo para mais oficinas.  P/2: Mas era próximo de onde já era o Salão?  R: No mesmo local, tá. Até em então a gente tinha somente um galpão.  P/2: É.  P/1: Aí a coisa foi expandindo, montamos outras oficinas, né, ampliamos outras oficinas. E nessa área, numa área de baixo, que a gente tem também, que divide, entre uma rua, uma área de cima que são as oficinas e na parte de baixo que é a área escolar, educacional e agropecuária.  P/2: Marcos, e quando você aí nesses dezoito anos ainda no departamento financeiro, dava pra participar de alguma oficina, ou você só se dedicou ao...  R: Não, só me dediquei ao financeiro.  P/2: Hum Hum. Como que você acha que isso beneficiou sua vida, sua carreira? Aos 18 anos já tá no departamento financeiro do Salão do Encontro.  R: Oh beneficiou pelo assim, porque eu tinha, eu vi que era o trabalho que eu queria e pela confiança e a transferência de uma responsabilidade que a dona Noemi me jogou com 18 anos, entendeu. Então assim, eu tinha, ela, é, ela sempre estimulou os valores, entendeu. Então, eu entendi que ali, ela tava estimulando o meu valor de honestidade, entendeu, de ser um jovem de 18 anos que tá pegando uma parte financeira de uma entidade, pra poder tá, tá tocando ela, entendeu. Então assim, é, eu vi que ela tava me cutucando o meu, aquele valor meu, entendeu. E eu tinha mais era que tá agarrando e demonstrando que eu tinha essa fibra e que eu tinha essa garra e que eu ia dar retorno disso.  P/2: Certo. E aí você ficou três anos no departamento financeiro?  R: Financeiro, aí eu já passei pra coordenação.  P/2: Por que que houve essa necessidade da sua transferência, que aí você para a coordenação administrativa?  R: Porque esses jovens que me, que me acompanhou, a dona Noemi viu que pela idade que ela já estava avançando, que a gente teria que dar um suporte administrativo de coordenação. Porque nós seríamos as pessoas de futuro dela, que estaríamos alavancando esse projeto, entende. Então ela nos trouxe...poderia ser até funções mesmas que nós teríamos executados, mas como o nome coordenação pra gente sentir o peso, o quê que é uma coordenação.  P/2: E o quê que era a coordenação?  R: Coordenação era ter responsabilidade sobre mil pessoas. O fruto dessa coordenação é somente isso. São mil pessoas envolvidas no projeto que nós temos essa responsabilidade, entendeu, de estar alavancando isso pro futuro. E nós temos essa obrigação de manter essa entidade. Obrigação pessoal, íntima de desejo nosso, que senão eu não estaria lá. Então assim, ela quis nos mostrar que uma coordenação é isso. Nada das coisas técnicas, nem burocráticas, nem nada não. Ela quis nos mostrar que nós tínhamos uma responsabilidade sobre pessoas.  P/2: Marcos, além de você então, isso aconteceu, essa caminhada, dentro do Salão do Encontro aconteceu com outros jovens?  R: Sim. Aconteceu com outros jovens, pessoas que começaram junto comigo, é, desde o início que foi contado, né, que eu falei. E que tiveram o mesmo propósito, que enxergaram a filosofia desse trabalho, sabe. Porque você depara assim com situações de carência no dia a dia, sabe, isso te flui muitas coisas boas, sabe, mas te flui muitas coisas também assim negativas, pela necessidade, assim, de estar querendo ajudar outras pessoas e não ter, às vezes as condições de tá ajudando, sabe. Porque a gente tem algumas histórias lá, por exemplo, assim, que a gente teve um jovem que faleceu. Era, tinha o quê? Na faixa de uns 16 anos. Ele faleceu, e no dia do enterro, a gente tava no túmulo, tava enterrando e um outro jovem chegou, perto da dona Noemi, balançou a saia dela e perguntou “Dona Noemi, teria condições de’ eu entrar no lugar dele?”. Quer dizer, aí você vê a necessidade. São histórias, né, que toca a gente, que a gente sente no dia a dia. Nós temos duas mil pessoas hoje que procuram, nos procuram, e nós não temos condições de estarmos e alavancando e dando essas condições de trabalho pra eles, sabe. Então assim, são histórias que a gente conta que, que ela conta pra gente assim, que você vê que toca a alma, entendeu. É uma coisa que toca a alma da gente. Muitas vezes, as pessoas passam desapercebidas por isso, por esse sentimento, o quê que é isso, entendeu. Então assim, ela veio nos ensinado com a vida, veio nos mostrando isso, sabe. Que a gente tem que tá dando esse valor à pessoa. Ouvir, mesmo que a gente não tenha condições de atender essas pessoas, nós temos obrigação de tá ouvindo, entendeu. Pelo menos acalenta alguma coisa, dentro dessa pessoa. Então assim, nós temos várias histórias assim, pra contar sobre isso. Tem uma de sapatos, que eu achei muito legal dela. Que um jovem chegou perto e falou: “Ô Dona Noemi, minha família não tem condições, eu tenho que trabalhar pra tá ajudando o meu pai e minha família que não tem condições. Meu pai tá desempregado, não sei o que e tal”, contou a história dele. E aí a dona Noemi olhou no pé dele e falou assim: “Ó filho, o trabalho eu não tenho condições de te dar, porque nós já estamos dentro de um limite e tal, mas eu tenho um sapato e vou te dar porque o seu tá rasgado.” Ele falou: “Não dona Noemi, eu pedi um emprego, não pedi um sapato”, entendeu. Então assim, são as histórias assim de que olha a necessidade de um jovem, tá indo, pedindo pra tá ajudando a família. Então assim, esses são todos os valores que nós captamos lá dentro. Então assim, É a necessidade, é o que o povo tá precisando hoje, entendeu. É educação e trabalho.  P/2: Você tem alguma outra história assim, que você queira contar pra gente, deixar registrado?  R: Ãããã, tem um que eu achei muito legal também, entendeu. Porque a dona Noemi vê que dentro da educação, entendeu, ela me pregou essa história de um jovem, que é a visão dela. Ela fala que a gente constrói o caminho ao andar. Então a gente tem que estar sempre caminhando para construir o nosso caminho. E ela chegou perto de uma criança da escola, e, a criança estava fora do setor dela, estava perdida. Aí ela perguntou pra criança: “Quê que você tá fazendo aqui?”. “Ah, estou perdido”. Ela falou assim: “Você quer que eu te ajude, que eu te leve até lá?”. Ela falou: “Não, deixa que eu encontro o meu caminho”. Quer dizer, uma criança de quatro ou seis anos tá com essa visão de que ela precisa da ajuda, mas que ela quer encontrar o caminho dela, entendeu. Quer dizer você vê que uma criança dessa já tem a filosofia da nossa visão implantada dentro do coração dela.  P/2: Hum Hum, é bastante simbólico, né, essa história...  R: É  P/2: Mas aí me conta, o quê que mudou na sua rotina de trabalho saindo do departamento financeiro indo pra coordenação? Quais as funções que você assumiu?  R: De... Eu assumi uma função de tá dando o suporte para todas essas pessoas que coordenavam, tá. De não deixar faltar, não chegar a faltar, a faltar nada pra dentro da entidade, entendeu. Então assim, é matéria prima, é, todos os suportes para que a coisa não pare. Porque a dona Noemi fala que não adianta nada você criar se você não tem condições de depois de tá dando pra coisa acontecer, entendeu. Então assim, eu fazia todo esse suporte de entrada de matéria prima, de acompanhamento de produção, é, acompanhamento de segurança, acompanhamento educacional. Então assim, na realidade, essa coordenação minha era dar o suporte para essas pessoas, que estavam agindo dentro dessa área.  P/2: De certa forma um trabalho de mais responsabilidade também.  R: Nossa, sem dúvida, né?  P/2: E foi no ano que você casou?  R: Sim, no ano que eu casei, com vinte e um anos de idade.  P/2: E aí você ficou na coordenação administrativa por quanto tempo?  R: Na realidade, eu faço parte da coordenação até hoje, né, com quarenta anos de idade.  P/2: Você tá até hoje?  R: Sim.  P/2: Mas você teve uma passagem por uma coordenação de, relacionada à área de comércio.  R: Sim. Porque, na realidade, nós dividimos assim coordenações por área, e hoje, atualmente, eu estou, é, direcionado à área comercial. Então eu coordeno vendas, e administro mais uma loja que nós temos em Belo Horizonte.  P/2: Uma loja?  R: É, nós temos uma loja, uma pequena loja que é, demonstra os nossos produtos, né, que seria tanto o nosso, o produto em si, em venda, e o nosso produto que é o social também, né. Então, a gente assim, é somente uma apresentação para conduzir as pessoas à nossa entidade. Porque nós gostamos de receber na nossa entidade, mostrando o nosso trabalho, vendo que é uma coisa real, que é uma realidade, o nosso projeto.  P/2: E, fala pra gente então desses produtos que vocês vendem, que tão na loja que podem ser encontrados lá.  R: Eu trabalho com... na linha de móveis rústicos, tá. Uma linha criada pela dona Noemi mesmo, lá dentro do projeto. Ela suporta tanto, é, fazendas, sítios e uma linha para apartamentos e casas, tá. É, eu tenho, é, produtos de acabamento e decoração de uma casa. Porque as minhas oficinas são o quê? Nós não perdemos raízes. Por exemplo, o tear mineiro, nós, nós mantemos essas raízes que são das pessoas mineiras que trabalharam, que sofreram muito com isso, né, antigamente. Então assim, nós queremos demonstrar que essas raízes não devem ser perdidas. Então nós temos o tear mineiro, que faz colcha, faz almofadas, cortinas. Eu tenho a tapeçaria de sisal, é o acabamento para tapete, é, cerâmica, que é uma coisa muito linda, os meninos são muito bons na cerâmica, entendeu. Então, o acabamento de uma casa eu tenho tudo para montagem de uma casa.  P/2: Você e coordenador de vendas?  R: Sim.  P/2: Vocês vendem esses produtos pra que tipo de pessoa? Quem é o público que vai na loja ou no Salão comprar?  R: Pelo, o público pela facilidade, é, de, de parcelamento, de pagamento, essas coisas, nós vendemos pra qualquer público, tá? Vende, então assim, mas quem nos busca muito é a região de Belo Horizonte, né, que têm nos buscado bastante, pessoas de apartamento e sítios.  P/2: Mas vocês aceitam assim, pedidos de encomendas, pedidos de outros estados? Já tem uma demanda pra isso?  R: Temos, e nós trabalhamos mais sob encomenda realmente, tá. O cliente faz o pedido, ele vai lá vê o produto na loja e nós entregamos com trinta dias esses produtos.  P/2: Além da loja, a loja é em Belo Horizonte?  R: Nós temos esse showroom em Betim, que é na nossa entidade, e temos essa demonstração em Belo Horizonte.  P/2: Além desses dois meios, vocês expõem os produtos de uma outra maneira? Divulgam como?  R: Divulgamos em exposições, tá. Que é outra linha que nós temos.  P/2: Certo.  P/1: E vocês já fizeram exposições onde?  R: Curitiba, São Paulo, Rio.  P/1: E como é que são essas exposições? As crianças vão, elas acompanham?  R: Nós montamos as oficinas dentro dessas exposições, entendeu. Nós levamos uma peça de cada, uma oficina de cada e os meninos trabalham, os jovens, os meninos jovens trabalham, que trabalham lá, vão trabalhar e exercer essa função lá e alocados já vendemos os produtos que nós levamos para expor.  P/1: E, é, esses professores. Porque cada, cada oficina tem um professor, né? Tem um...  R: Na realidade, as oficinas são assim...  P/1: Como é que funciona isso?  R: Eles têm um chefe, responsável, que foi escolhido pelos próprios jovens, tá. E são...  P/1: São ex alunos, sempre?  R: Sempre, ex alunos, tá. E, na realidade, assim, as oficinas nossas de produção são pessoas que foram criadas lá dentro e produzem, tá. E tem o chefe, uma pessoa que coordena esse setor, tá ok? E nós temos alunos aprendizes na escola que eu falei, que é a escola complementar para se profissionalizar pro futuro, pra ser no futuro artesão dentro do Salão. Ou se quiser abrir a sua própria coisa ele também pode abrir no bairro, ou em casa, alguma coisa assim.  P/1: E vocês, é, depois que a criança acaba o curso, é, como é que é esse mercado de trabalho? Vocês encaminham pra ela trabalhar em algum lugar ou cada vai por si tentar alguma coisa? Como é que é?  R: Nós temos alguns, é, algumas parcerias com algumas empresas, onde nós alocamos essas crianças, mesmo que não seja nessa linha, nessa linha de artesanato, entendeu. Nós temos alguma parceria, alguns convênios com algumas empresas, que vai tá dando esse suporte pra essas crianças que tão saindo.  P/2: Eu queria resgatar um pouquinho da história lá da criação do Salão do Encontro.  R: Sim.  P/2: Você falou que foi uma iniciativa da dona Noemi.  R2: Dona Noemi.  P/2: E de um frei.  R: Frei Estanislau.  P/2: Conta isso pra gente. Você sabe como é que foi? Quais foram as propostas dela, inquietações que levaram ela a fundar o Salão?  R: Ó inicial foi como eu falei. Ela trabalhava na Vila dos Marmiteiros, que era uma favela de Belo Horizonte. Como ela mudou, a família dela mudou para Betim, para deslocar Betim-Belo Horizonte, naquela época ficava incômodo. Então, ela escolheu um bairro de Betim, um bairro carente, e com a visão de implantar alguma coisa social dentro deste bairro. Então, ela iniciou, conversou com o frei, e iniciou dentro desse nosso bairro, com uma pequena sala, com um artesão e uma tecelã.  P/2: E isso foi quando?  R: Isso foi em 1970.  P/2: E desde então, a dona Noemi tá na frente do Salão do Encontro?  R: Tá na frente do projeto. Sempre foi, ela idealizou e entregou a vida para o Salão. Então assim, o Salão do Encontro é a família dela, é o filho, nós somos os filhos, pai, marido. Ela complementou a família dela com o Salão do Encontro. Então assim, ela nunca nos deixou faltar nada, entendeu, e sempre entregou por aquilo lá. Então assim, é uma pessoa de um coração enorme, sabe, de uma visão enorme, e que, assim, veio ao mundo pra isso.  P/1: Ela ainda participa ativamente da...  R: Ativamente. Presidente do Salão do Encontro. Hoje com 80 anos de idade.  P/1: E me diz agora, é, se é, os critérios pro ingresso das crianças continuam os mesmos de quando começou. Ainda é a mesma coisa, tem que ter uma renda, uma renda baixa, é a mesma coisa?  R: A mesma coisa. Os critérios são os mesmos, tá. E a gente faz questão, assim, que a, que a coisa expandiu. Inicialmente seria para o bairro, mas a procura é tão grande e o crescimento foi, foi assim, tão volumoso, que hoje nós estendemos isso pra outros bairros, entendeu. Então assim, a gente teve que abrir, sentiu a necessidade de abrir. Tanto é que hoje com outro patrocínio, de uma outra empresa, a gente tá montando um anexo do Salão do Encontro, entendeu. Então a gente já abriu em outro bairro que era muito carente de Betim.  P/1: Vocês tão fazendo...  R: É...  P/1: uma filial, né?  R: Uma filial, mas junto com a parceria de uma empresa. Aí, já vai ser numa visão assim, a empresa sentiu a sua necessidade social, entendeu.  P/2: E que empresa é essa?  R: É a Teksid do Brasil.  P/1: Como?  R: Teksid. Então assim, a gente tá muito feliz porque, é, despertou, entendeu. E nosso grande interesse é que o Salão fosse um pólo para as pessoas descobrirem que o social é legal, entendeu. Que o social vai dar solução pro país. Então, pra gente isso foi de um grande valor. Esse novo pólo que nós vamos montar, essa nova filial. P/1: Vai ter as mesmas, as mesmas atividades, que tem na, exatamente as mesmas coisas.  R: As mesmas atividades, a mesma filosofia do Salão.  P/1: Vai ter a creche?  R: Tudo.  P/1: Vai ter escola?  R: Vai. A mesma filosofia do Salão. Isso era, é, é um desejo da dona Noemi. Que a coisa crie, que a coisa flua, mas dentro da mesma filosofia, entendeu. Dentro das mesmas raízes, dentro da mesma visão que nós temos hoje.  P/2: Ô Marcos, qual que é o limite de idade para as crianças entrarem no projeto? Vocês atendem crianças de qual faixa?  R: De quatro meses, que na realidade fica na creche, e nós não temos idade limite. Porque hoje nós temos, é, alguns portadores dentro da entidade, que hoje são em torno de 110, tá, incluindo com senhoras de oitenta, noventa anos de idade que são avós de alguns meninos que estão lá. Porque na realidade nós estruturamos a família. Então pra gente não tem data, idade limite, não tem nada. Todo cidadão tem sua contribuição. Uma senhora um dia disse, ela virou pra mim e falou, é, que ela era importante porque ela enrolava uma linha, que fazia parte de um processo de produção que ia sair o tecido pronto na frente. Quer dizer, uma senhora de 70, 80 anos falar isso, gente, é de grande valor. E realmente é, às vezes ela tá em casa lá, é, sentada esperando a vida passar, esperar pra morrer? Não, ela tem o valor dela.  P/2: Mas o público alvo das oficinas continua sendo as crianças?  R: Sim, os adolescentes.  P/2: Hum Hum, e aí pra vocês agregarem o resto da comunidade, as famílias, essas pessoas atuam como?  R: Nós temos essa, essa escola suplementar, que nós estamos dando esse suporte, tá? E a visão de tá buscando novos profissionais em Betim teria que ser através dessa entidade que a gente tá abrindo, que é uma coisa que tinha que tá abrindo em filiais, entendeu? Porque hoje o Salão não suporta mais esse número de pessoas. Então essas pessoas vão estar sendo guiadas, entendeu, para essas instituições.  P/2: Só pra gente frisar, quantas pessoas o Salão atende hoje?  R: 937 pessoas.  P/2: Você saberia dizer quantas pessoas já foram atendidas? Mais ou menos.  P/1: Ao longo de todos esses anos.  R: É, em números, não. Mas...  P/1: Uma média.  R: Eu acredito que mais de cinco mil pessoas já tenham sido atendidas. Nós damos 1220 refeições/dias.  P/1: E ainda continua aberto à...  R: Aberto, é.  P/1: À comunidade? Quem quiser fazer refeição...  R: É, quem quiser. Damos também um... Eu acho uma coisa interessante, é, que indiretamente nós, mesmo com essa dificuldade financeira que nós temos, que nós não conseguíamos, entendeu, nós não deixamos de oferecer isso. Que nós sabemos que alguém, algo mais forte do que a gente vai tá cobrindo isso lá trás, sabe. Vem, vem um suporte pra gente. Porque toda vez que nós precisamos, essa força maior nos deu. Então assim, nós temos em torno de uma de média de 25 - 30 pessoas que nos procuram por dia, que querem ajuda ou com gás ou com conta de luz, ou quer, veio pra cidade à procura de um emprego e não achou e quer voltar pra cidade, entendeu. Além disso nós temos essa ajuda indireta que atende em torno de quinze a vinte pessoas/dias.  P/1: E vocês ajudam?  R: Ajudamos, sem dúvida. Porque mesmo com a nossa dificuldade, nós estamos lá pra poder ajudar.  P/2: Então, fala um pouco pra gente disso. Como que a comunidade de Betim recebe o Salão do Encontro?  R: Ó, eu... O Salão do Encontro na realidade é a comunidade, né?! Riso. Porque as pessoas do projeto são da comunidade, estão envolvidas naquilo ali. Então eu imagino, eu vejo no Salão do Encontro, é, a comunidade. Então, o Salão é a comunidade. Não tem... P/2: E você poderia então, definir pra gente assim, os resultados. Como vocês perceberam, ah, os resultados do Salão do Encontro na comunidade?  R: São os melhores possíveis, né? Um bairro totalmente estruturado, é, com o mínimo de violência. Nesse, é, quase sem, os nossos meninos, nenhum fazem uso de drogas, entendeu? Então você se envolve num trabalho desses que de mil pessoas, que indiretamente deve atingir quatro, cinco mil pessoas, né. Então assim, eu acho que a coisa é da melhor forma possível. O fruto, a semente foi plantada, entendeu, tá dando frutos excelente hoje, entendeu. Eu faço parte, eu sou um desses frutos. Então eu posso dizer de cadeira, a coisa é o que há mesmo, tá dando o de melhor.  P/2: Então você acha que isso é influência direta do Salão na comunidade, que a comunidade melhorou pelo trabalho que o Salão fez ao longo desses trinta anos?  R: Sem dúvida que foi. O Salão do Encontro é um ponto de referência, entendeu. Então, é um bairro que virou ponto de referência. Então hoje nós temos universidade no bairro, entende. Nós temos, é, um parque de exposições, entendeu. Então, tudo foi assim, os, se viu que a cidade cresceu pro bairro, entendeu. E quem era esse ponto de referência pro bairro? Salão do Encontro. Então Salão do Encontro é o ponto de referência de Betim.  P/2: E são quase trinta e anos de Salão do Encontro?  R: 34 anos de Salão do Encontro.  P/2: O quê que mudou de lá pra cá, você sabe perceber isso?  R: Na filosofia, nada. A filosofia é a mesma. A vontade é a mesma. A garra é a mesma e o pulso é o mesmo, entendeu. Então assim, a nossa meta é a mesma. Então assim, com o tempo, é, só nos fez criar mais garra. Então a diferença que eu vejo do Salão do Encontro inicial, desde quando eu entrei, pro Salão do Encontro esse, até hoje é a garra do dia a dia. Quanto mais o tempo passa, nós não cansamos. Nós temos mais garra pra coisa fluir melhor e crescer mais.  P/1: Agora me diz, em que momento a Petrobrás entrou no Salão, entrou na vida de vocês. Como foi? Me diz isso.  R: Mediante essa necessidade, essa captação de recurso, há nove anos atrás, através do superintendente da Petrobras, Dr. Caio, é, a gente consegue fazer um primeiro contato pela credibilidade do Salão, entendeu.  P/2: Foram vocês que foram procurar a Petrobras?  R: Isso. O contato foi, foi de captação do Salão, entendeu. Então, a dona Noemi, é, o convidou, ele foi conheceu o Salão e de lá pra cá a gente tá tendo essa parceria. Graças a Deus. De muito bom tom, que nos ajuda bastante, tá. Que hoje é em torno de 20% do valor da entidade, sabe, dos nossos gastos mensais, o patrocínio. E nós temos assim, de lá pra cá, esses outros superintendentes todos, além dele, é, não o superintendente da Petrobras, nós temos eles como nossos amigos, entendeu. Porque eles reconhecem realmente o trabalho, do Salão. Então assim, o valor dessa entidade.  P/1: E como, como é esse, esse patrocínio? Eles ajudam financeiramente ou eles dão matéria prima ou eles dão comida? Como é que é?  R: Existe mais de uma forma de ajuda. Eles ajudam financeiramente, tá, e tem agora, é, comercialmente eles viraram nossos clientes.  P/1: Ah eles tão comprando também?  R: È, hoje existe os kit sociais, que a Petrobras lançou um projeto, então assim, eles compram os nossos produtos. Então assim, eles são nossos parceiros financeiramente, financiam nosso projeto, e hoje é o nosso cliente. Então ele ajuda de duas formas a instituição.  P/2: E aí esse projeto é renovado anualmente, como é essa questão contratual?  R: É um projeto renovado anualmente, tá. A gente, conforme a nossa necessidade, o nosso crescimento, esse valor, esse volume de valor, aí a gente negocia junto lá na Petrobras, mas eles sempre, nós somos muito bem servidos.  P/2: E como você encara uma empresa como a Petrobras apoiando um projeto social que é o do Salão do Encontro? Qual que é a importância disso na sua opinião?  R: A importância é total. Eu acho que todas as empresas deveriam ter essa visão social. Porque, é, se montasse essa parceria dentro do social, entende, poderia tá montando outras instituições, que não seria só a nossa, mas tantas outras. Tem tantas pessoas de bom tom aí, que busca o ideal que querem o ideal. São pessoas boas. O brasileiro é um cidadão criativo. Um cidadão que quer a todo o momento, entendeu. Então assim, por que não estar ajudando eles dentro desse social? Tem muitas pessoas que querem isso, mas não tem suporte, não tem condições. Então assim, eu vejo o patrocínio uma coisa essencial pra vida, pra vida do Salão do Encontro hoje. E isso tem muito legal, porque a entidade Salão do Encontro, a família Salão do Encontro, é, entende o valor disso, entendeu. Além do valor financeiro, o valor de uma empresa como a Petrobras tá patrocinando esse projeto, entendeu. Porque isso dá confiança e a gente vê que abre portas, entendeu. A gente vê um futuro pro país. Então, eu acho a nossa entidade e os nossos colaboradores todo enxergam dessa forma, tanto Petrobrás, como outros parceiros que nós temos.  P/2: E quais são os principais projetos do Salão do Encontro hoje?  R: Bom, nós estamos com essa filial, né. Mas o nosso projeto, o maior projeto hoje, atualmente é estar dentro dessa área de educação, que a gente firmou. Que é esse pré-escolar, essa escola complementar, e essa escola suplementar. Que a gente viu, nós vimos que deu, que nós estruturamos a base do jovem. Que há momento nenhum nós deixamos vago um espaço, para que ele fique fora do projeto, entendeu. Mesmo que a gente, às vezes, infrinja alguma lei, alguma coisa aí [Risos]. Que normalmente não tem como, né. Principalmente quanto à questão, ao jovem, né gente, que é uma coisa tão difícil tudo, que você vai fazer falam que é exploração de menor, que é isso, é aquilo. Mesmo você querendo ajudar. Então assim, a gente tem essa noção, então a gente não deixa o vago, nós não queremos. Então, eu acho que o grande projeto do Salão do Encontro é essa educação.  P/2: Ô Marcos, você tem filhos?  R: Tenho quatro filhos.  P/2: E eles estão no Salão do Encontro?  R: Privilegiados. Eles estão no Salão do Encontro e começaram mais novos do que eu. Eu tenho o Pedro, que é, que está na creche, ele tem dois anos de idade. Eu tenho a Rafaela e a Lais, que uma tem sete e a outra tem dez, que estão na escola complementar, já passaram pelo pré, estão na escola complementar, e tem o Igor, que tem 17 anos. Ele hoje é, é, fazia parte de um processo do Salão, e hoje ele tem focado mais na área de educação. Então hoje ele tá fazendo um curso técnico de eletricista e estuda na escola padrão. Mas não deixou de perder o vínculo com o Salão.  P/1: Os seus filhos, é, essas crianças mais velhas, eles já participam de alguma, alguma oficina ou eles só estudam?  R: O Igor, assim, a Rafaela e a Lais já participam de um projeto de oficina porque está dentro do planejamento da escola complementar. Elas já participam de oficinas, de aprendizados. O Igor, ele já passou por essas oficinas e hoje ele foi direcionado para esse curso profissionalizante que ele tá fazendo. Através do Salão, tá.  P/1: Humhum. Agora deixa eu só voltar um pouquinho, eu queria te fazer uma pergunta. Além da Petrobras, quais os outros patrocinadores que vocês têm?  R: Olha eu tenho a FIEMG.  P/1: FIEMG?  R: É, a Federação de Indústrias dos Estados de Minas Gerais, tá. Eu tenho a prefeitura de Betim, que participa com os professores, né?  P/1: Ah ela paga?  R: Paga.  P/1: Aos professores pra eles darem aula para esses alunos?  R: Pra eles darem aula para esse pré-escolar, tá.  P/1: Então é praticamente uma escola municipal?  R: É...  P/1: Dentro do...  R: Ela não tem essa visão, esse enfoque porque a prefeitura entra com a mão de obra, e a estrutura toda e manutenção é nossa. P/1: Vocês que continuam vamos dizer assim, ditando as regras da escola?  R: Isso. Ditando regras, ambientes, manutenção, tudo é pela entidade, ta. Porque, a educação é dentro da filosofia da dona Noemi. P/1: De vocês.  R: Isso, do Salão do Encontro.  P/1: E tem mais algum outro patrocinador?  R: Eu tenho outros patrocinadores indiretos também, entendeu, que são esses que ajudam mesmo e tal.  P/1: Pessoas, né?  R: Não, até assim, algum, como a Caixa Econômica Federal que dá algum patrocínio de final de ano, de Natal, que nós fazemos alguma exposição. E assim vão outras pessoas, outras entidade.  P/1: Patrocínio esporádico?  R: Isso, esporádicos isso.  P/1: Tá.  P/2: Eu queria voltar nessa questão dos seus filhos, porque você tem uma trajetória quase que do início da sua vida até agora no Salão do Encontro.  R: Sim.  P/2: Mas e você como pai de filhos que frequentam o Salão do Encontro, como é que você vê isso, pra, pra vida deles?  R: Dentro da filosofia do Salão, excelente. Porque o que mais se apura lá, lá no Salão, dentro da filosofia de vida, né, é, são os nossos princípios, entendeu. Então assim, pra essa forma, para educação dele, deles, excelente. Agora eu, a gente vai ter que, eu vou ter que verificar essa linha deles, profissionalmente qual vai ser a linha profissional, entendeu. Aí sim, o Salão tem condições de dar isso pra ele hoje, profissionalmente? Ele estaria de repente, é, tirando o direito de um outro que poderia estar no lugar dele, ali dentro do Salão, entendeu. Então assim, eu vejo assim, que o Salão estrutura a família. Agora se ele profissionalmente quiser ter uma outra profissão de vida fora, é um direito dele de escolha dele. Então assim, até os 17 anos de idade ele esteve dentro do Salão do Encontro, guiando uma linha dentro Salão do Encontro, uma linha pessoal, uma estrutura do homem, seus valores e seus princípios. Agora profissionalmente, é uma escolha dele.  P/1: E como você recebeu isso, dele querer sair pra procurar outros horizontes? Como você recebeu isso?  R: Natural.  P/1: Não ficou magoado? Não tinha nenhuma expectativa de que ele seguisse o seu caminho?  R: Não, porque como o meu pai perguntou na época é o seu desejo, era, e foi o meu direito de dar resposta pra ele, o meu filho tinha que ter direito de dar essa resposta, entendeu. É o desejo dele, é o futuro dele, é a felicidade dele. Então ele, eles, ele próprio pode dizer a respeito disso.  P/2: Mas no geral eles gostam de tá ali dentro? Como que é a convivência deles com os outros jovens?  R: Excelente, porque ele não perde o vínculo. O interessante é isso. Quando você estrutura uma criança desde nova dentro de um convívio, dentro de uma comunidade, dentro de uma entidade que nem o Salão do Encontro, você não perde o vínculo nunca. É o cordão umbilical, né. Ele tá agarrado, né, então ele não vai soltar.  P/1: Você tem expectativa de algum dos seus outros filhos seguirem o seu caminho, continuar o seu trabalho lá dentro?  R: Sim. P: Ou você acha que vai todo mundo procurar outro caminho?  R: Não, tenho expectativa. Eles têm visão, entende. Eu só, é, eles vão apurar isso com o tempo, entendeu. O desejo deles. E até então assim, eu converso, eu mostro a minha satisfação e a minha felicidade. Porque o que eu posso demonstrar para eles é a minha felicidade e o meu desejo de estar lá. Agora se for desejo de algum deles estarem seguindo, sem dúvida, vai ser de grande valor pra mim.  P/1: A sua esposa também trabalha lá?  R: Trabalha.  P/1: E o quê que ela faz lá?  R: Ela é tecelã.  P/1: Tecelã. Ela é instrutora, não sei, professora, como é que eles falam?  R: Não, ela é uma profissional na área, né, de tecelagem.  P/2: Então automaticamente ela também vê com bons olhos, o ingresso dos seus filhos no Salão do Encontro?  R: Ah sem dúvida, entendeu. Porque nossa família foi estruturada lá dentro...  P/1: Nasceu lá dentro.  R: Nasceu lá dentro, então não tem um porquê, não tem, e o Salão é tudo de bom, é tudo que há, entendeu. Então não tem que, não tenho dúvida quanto a isso, nosso relacionamento é aberto.  P/1: E agora me diz, Marcos, quais os seus sonhos, os seus projetos, a sua expectativa pro futuro? O que é que você deseja?  R: Os meus desejos já estão sendo realizados, né. Que é estar no Salão, foi o meu projeto de vida, entendeu. O meu desejo é poder cumprir a minha meta, que foi determinada pra mim dentro desse período, que é tá dando suporte para essas mil pessoas que estão envolvidas dentro do projeto. Que eu não falhe, com isso. Jamais.  P/1: Mas vocês têm alguma, algum sonho, de realizar alguma coisa maior? Tem alguma…  R: O sonho de realização está implantado ali dentro do Salão, entendeu. Agora, o sonho de realização que nós vamos transmitir para outros jovens que estão vindo, que estão dentro da área, são esses e outras filiais. Porque o sonho de transformar essas pessoas, no que nós somos hoje. Então o meu sonho de realização é esse, de poder contar com outro Marquinho, outro Nilson, com outra Cida e assim, outras pessoas.  P/1: Pessoas que trabalham lá?  R: É, que coordenam o Salão hoje. Poder tá levantando essas pessoas pra poder tá dando suporte em outros trabalhos.  P/2: A gente tá finalizando a nossa entrevista. Eu queria perguntar pra você o quê que você achou de ter participado do Projeto Memória Petrobras, ter dado esse depoimento?  R: Pra mim, só vem valorizar o meu caminho, que eu escolhi. Porque, poder falar de um Salão do Encontro, poderia ter falado muito mais. Mas o Salão do Encontro, pra mim, tá além das palavras, entendeu. Então assim, pra mim é, pra mim vai ficar uma coisa gravada pro resto, mais uma coisa gravada pro resto da vida. Poder falar um pouco do Salão do Encontro. Porque o Salão do Encontro, a dona Noemi já me falou muitas vezes, e realmente é real. O Salão do Encontro você não fala sobre o Salão do Encontro. O salão do Encontro é visto, ele é prato, ele é sentimento, entendeu. Quando você entra em qualquer setor, você sente o sentimento das pessoas, é, fluir pela pele, entendeu. Então assim, é aquela energia que te carrega sua bateria no dia a dia. Então, o Salão, eu vim agradecer e é mais uma coisa que, é, eu vou levar pra minha vida, mais uma bagagem que eu tô levando. Eu só tenho que agradecer.  P/2: A gente é que agradece. P/1: Tem mais alguma coisa que você quer deixar registrada? Que você queira falar, que a gente não tenha perguntado? Que você não teve oportunidade de dizer?  R: Eu queria agradecer primeiro à dona Noemi de ter me dado essa oportunidade de vida, né. E de ter acreditado, ter confiado. E aos meus pais também, né, porque afinal de conta é raiz, o berço, dentro das faltas de condições que tinha na época, me deu educação. Mais, e, meus irmãos, é, porque a família pra mim é o importante, é tudo. Então a minha família generaliza dentro do meu, é, meus filhos, minha esposa, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e o Salão do Encontro. Então só tenho a agradecer, somente isso.  P/2: Obrigada Marcos.  R: Eu é que agradeço.  P/1: Obrigada pela sua participação.  R: Eu é que agradeço.
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