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História

Questão de cidadania

História de: Roberto da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/10/2007

Sinopse

Separação dos pais. Mãe internada em Hospital Psiquiátrico. Infância na Febem. A primeira vez nas ruas, aos 17 anos. Trabalho no Juizado de Menores e como office boy. A vida errante, na “Boca do Lixo”. Dispensado da Febem. A vida nas ruas. Casa de Detenção. Organização na prisão barrada pela Justiça. Vivência em comunidades negras e indígenas no interior. Formação acadêmica. O resgate da história de vida. Mestrado e doutorado na USP. Criação da “História do Presente". Título de Cidadão do mundo.

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História completa

Meu nome é Roberto da Silva. Todos os outros dados da minha biografia são o que chamo de “dados oficiais” porque foram extraídos de processos judiciais, do Juizado de Menores, principalmente. Tenho três datas e três cidades de nascimento, todas registradas oficialmente pelo estado. Sou Roberto da Silva, nascido supostamente em Garça, interior de São Paulo, no dia 31 de agosto de 1957. 

 

Meus pais moravam em São José dos Campos e, com a separação do casal, minha mãe veio com os quatro filhos para São Paulo, em busca do auxílio de um programa do Juizado de Menores, mas só conseguiu ser atendida depois de quatro ou cinco meses. Enquanto isso, vivia com as crianças na rua. Quando foi atendida, o juiz recomendou a internação dela em um hospital psiquiátrico. Os filhos foram encaminhados para a Febem. Éramos todos pequenos: um bebê de seis meses; uma menina de um ano; eu, com idade aproximada de dois anos, e outro de quatro anos. 

 

Eu estava em um orfanato já havia mais de quatro anos, em São Paulo. Quando as crianças foram tiradas de minha mãe, ela passou a procurá-los em diversas unidades da Febem em todo o Estado. Lembro-me muito bem dessa idade, sete anos, porque fui localizado e visitado pela minha mãe. Eu vivia no meio de meninos e éramos cuidados por policiais militares e funcionários públicos. Quando alguém apresentou essa senhora, tomei um susto e saí correndo para o meio do mato. 

 

Fiquei na Febem até os 17 anos. Foi a primeira vez que saí para a rua. Trabalhava de manhã no Juizado de Menores e, à tarde, era office boy num escritório de Engenharia, nos Jardins. Encontrei outros meninos da Febem que trabalhavam em repartições públicas no centro da cidade. Em alguns momentos nos reuníamos para explorar a cidade, o centro de São Paulo, a “Boca do Lixo”.

 

De repente, conheci meninos mais familiarizados com a cultura do asfalto, da cidade, e via o que eles aprontavam, sempre em grupo e armados. 

 

Os assistentes sociais da Febem concluíram que, com dois salários, eu teria condições de me sustentar e simplesmente me mandaram embora. Tive que arranjar uma pensão, onde fiquei só três meses. Eu não sabia administrar o dinheiro (risos), e nem sabia cuidar das próprias coisas: o material de escola, a roupa, a alimentação, a administração dos horários, a agenda, tudo. Havia passado a vida preso. A dona da pensão confiscou minhas roupas e tudo o que eu tinha. Precisei morar na rua nos quatro anos seguintes. 

 

Então, perdi os empregos. Eu tinha que conseguir lugares para dormir e sabia onde ficavam as casas abandonadas na cidade. Fiquei muito tempo assim. Quando as casas começaram a ser vendidas, fiquei manjado e o recurso foi ir para dentro do Parque do Ibirapuera, onde também existiam os grupinhos. 

 

O período em que vivi nas ruas foi intercalado com muitas prisões. Fui mais de 50 vezes para distritos policiais. Ou por vadiagem, como a polícia chamava, ou por estar junto de outros meninos, ou por estar cometendo pequenos delitos. Quando ficou evidente minha maioridade, com quase 19 anos, não teve jeito, me mandaram para a Casa de Detenção. Até que, na terceira vez, fiquei lá sete anos. 

 

Dentro da prisão, testemunhei o estado das pessoas, o sentimento de entrega; pessoas que já não queriam lutar por nada, só queriam viver no crime. Encontrei os meninos que haviam sido criados comigo nessa situação. Eu dizia para eles: “Não pode ser assim. Nós éramos crianças. Você sabe que eu não sou criminoso e eu sei também que vocês não são. Por que a gente tem que se sujeitar a esse tipo de vida?” 

 

Esses encontros me deram a certeza de que tínhamos uma história comum e de que se alguma coisa havia dado errado em nossas vidas, não era só por responsabilidade nossa. Meu trabalho consistiu em investigar justamente isso: o que é que deu errado em nossas vidas? Por obra de quem? 

 

Comecei um trabalho na tentativa de localizar meus irmãos, reconstituir a história deles, passar a limpo meus dados pessoais sobre o local e a data de meu nascimento. Fiz a mesma coisa para outros 60 meninos. Ao final do trabalho, localizei 60 grupos de irmãos, que foram separados ainda bebês ao ingressarem na Febem. Foi o ponto de partida do trabalho que comecei a fazer.

 

Por conta dessas preocupações dentro da prisão, começamos a criar as chamadas “Comissões de Presos”. As primeiras formas de organizações na prisão.

 

Era o final do Regime Militar. Qualquer espécie de organização de presos sempre era muito mal vista pelas autoridades, pelos órgãos de repressão. A criação dessas comissões em São Paulo teve uma grande repercussão, e quando quisemos legitimar essas organizações, em forma de uma associação registrada, com um estatuto, para dialogar com o Estado e com outros órgãos da sociedade, o poder judiciário, particularmente, caiu de pau em cima de nós. 

 

Quando sai, fiz o Curso Supletivo e entrei na Universidade Federal do Mato Grosso, onde cursei Pedagogia. Logo que terminei a faculdade, montei um projeto de pesquisa que me permitiu voltar a São Paulo. O projeto foi aprovado na USP e me abriu um novo campo de trabalho. Eu poderia trabalhar em outra relação com as autoridades e os órgãos públicos. Não era mais o ex-interno da Febem, o ex-menino de rua, o ex-presidiário, passei a ser um professor universitário, um pesquisador, que tinha acesso a esses órgãos de uma maneira legítima e legal. 

 

Dez anos depois consegui fundar a “História do Presente”, em 1999. Uma ONG em que trabalhamos no ciclo de formação da criminalidade, que vai do abandono à saída da prisão, que é a trajetória de minha vida. 

 

Fiz todo o mestrado e o doutorado morando no CRUSP. Depois que consegui algum trabalho fixo, fui morar na Bela Vista, pagando aluguel. No final do ano passado, conseguimos comprar um apartamento na Liberdade. 

 

Mais tarde, resolveram o problema de consciência me dando o título de Cidadão Paulistano (risos). Agora não importa mais se nasci em Garça, Santos ou São José dos Campos, meus três endereços oficiais (risos). Sou Cidadão Paulistano. E a Unicef me deu o título de Cidadão do Mundo. Minha questão de cidadania está resolvida!

 

 

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