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História

Quero falar de sociedade, não de filantropia!

História de: Roberta de Carvalho Cardoso
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/06/2021

Sinopse

Roberta conta como sai da área de marketing e ingressa no estudo e implementação da responsabilidade social em pequenas empresas. A partir de um convite para pesquisa nessa área a administradora envereda cada vez mais profundamente no tema, indo parar na Fundação Getúlio Vargas e no Instituto Ethos.

História completa

Projeto Instituto Ethos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Roberta Cardoso Entrevistada por Márcia Ruiz São Paulo, 29 de maio de 2008 ETH_ CB13 Transcrito por Ana Lúcia V. Queiroz Revisado por Valdir Canoso Portásio P/1 – Pra começar queria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento. R – Roberta de Carvalho Cardoso; nasci em São Paulo, Capital. P/1 – Data de nascimento? R – Quatro de março de 1968. P/1 – Qual a sua atividade atualmente? R – Atualmente eu trabalho na Fundação Getúlio Vargas, com um programa de sustentabilidade social voltado para o varejo. A gente desenvolve algumas atividades para fomentar esse assunto no setor varejista. P/1 – E você se formou em quê? R - Minha formação é de administração. Comecei fazendo administração na área de auditoria, depois acabei indo pra marketing e fiquei por alguns anos. Especializei-me na área de marketing; tinha uma carreira nessa área, até que um dia me chamaram pra: “Vamos fazer uma pesquisa”. Eu falei: “Vamos, qual é o assunto?” “Responsabilidade social.” Eu falei: “Opa, o que é isso?! Bom, vamos, né?” Eu achei o tema interessante, me deram um livro pra eu ler, um dos poucos que tinha; que falava muito de investimento social privado e tal. Achei interessante e começamos a fazer uma pesquisa. Isso foi na Dom Cabral, em 1998. Aí que eu comecei na área de responsabilidade social. P/1 – Como você acabou indo pra FGV [Fundação Getúlio Vargas]? R - Então, eu estava na Dom Cabral, a gente fez essa pesquisa e eu era professora lá na área de marketing. Surgiu aí a necessidade, devido à carreira, de fazer uma pós-graduação. Fui fazer doutorado e entrei na GV, aqui em São Paulo. Na época eu morava em Minas, comecei a ir e voltar, enfim. E aí entrei na GV e falei: “Tudo bem, vou fazer, mas quero estudar aquilo que era objeto da pesquisa”, que era essa questão da gestão da responsabilidade social dentro das empresas. Foi assim que fui pra GV. Conheci os professores, falando do meu tema e na GV eles já estavam desde 2000 interessados na área de varejo; interessados nessa questão da responsabilidade social. Tinha um prêmio e me chamaram pra participar da comissão julgadora desse prêmio; pra julgar trabalhos no varejo. Aí foi quando fui como julgadora e assumi a coordenação técnica do programa todo. P/1 – Como você acabou conhecendo o Instituto Ethos? R – Nessa época na Dom Cabral, eu trabalhava com ___ Santos, que foi quem me propôs a pesquisa. A gente era motivo de chacota. Todo mundo perguntava se a gente acreditava também no coelhinho da Páscoa, no papai Noel. Porque acadêmico: “Oh, o que você está pesquisando?”. “Responsabilidade social nas empresas.” “Ah é? E vocês acreditam em papai Noel também?” Era mais ou menos assim. Eu estava com Homero e a primeira vez que eu ouvi falar do Instituto Ethos foi quando ele nos deu os indicadores de responsabilidade social e falou: “Olha, esse é um questionário que o Ethos está fazendo.” Ele explicou um pouco o que era o Ethos, pra gente dar algumas contribuições. Então, foi assim a primeira vez que ouvi falar no Ethos. A partir disso nós tivemos um contato maior porque começamos a desenvolver um curso para as empresas falando de responsabilidade social. Foi o primeiro curso nessa área, lançado no Brasil. Foi realizado pela Dom Cabral e pelo Ethos. P/1 – E hoje, na atividade que você exerce você é associada, é parceira do Ethos? R – Hoje eu sou instrutora do Uniethos. A gente faz muita coisa em conjunto também. No programa eles são apoiadores, são parceiros do programa. Fazemos algumas atividades conjuntas no programa de responsabilidade social. Também participamos de várias ações do Ethos. P/1 – Como esse núcleo dentro da GV desenvolve as ações socioambientais dentro do varejo? Como vocês trabalham isso? R - A gente começou coletando, porque em algumas palestras sobre o assunto a gente via que alguns varejistas levantavam e falavam: “Eu faço isso aqui, eu tive tal iniciativa,” - por exemplo-, “de incentivar que as crianças da minha região estudassem mais.” Então, fazendo uma coisa muito simples, que era um prêmio, por exemplo: um passeio pro zoológico para os melhores alunos. Então, o que tinham de fazer era o boletim da escola e os melhores ganhavam aquele prêmio. Ele contando que isso tinha sido muito bom, que os pais vinham agradecer. Que as crianças agora tinham mais interesse por estudar. E enfim, a gente começou a ver que o varejo já fazia muita coisa. Porque a proximidade do varejo com a comunidade, com clientes é muito grande. Então a gente viu que já faziam alguma coisa e iniciamos com um prêmio que era justamente uma ideia de: “Vamos ver o que eles estão fazendo... conta pra gente o que vocês estão fazendo pra gente poder disseminar essas práticas e pra que elas possam ser copiadas ou, enfim, servir de inspiração para outros varejistas.” Então a gente começou com um prêmio com esse propósito. Logo no ano seguinte a gente montou um banco de práticas, pra facilitar o acesso. Porque ____a gente publicava alguma coisa, outra tinha eventos, mas isso não garantia o acesso a todos. Então a gente tem um site na internet que permite que todos, quem quiser, jornalista, varejista, enfim, possam buscar essas práticas e servir de inspiração. Então, nosso trabalho tem sido esse. Depois, no segundo ano, a gente falou assim: “Olha, só prêmio não dá. Porque estamos sabendo o que eles estão fazendo; estamos fazendo um mapeamento, entendendo quais são as carências. Mas nós temos que capacitar,” porque o conceito de responsabilidade social ainda é muito ligado à filantropia. Principalmente no varejo, pelas características que eu mencionei, de proximidade com a comunidade; e pela comunidade ser uma coisa tão importante pro varejo. Porque é lá que sai o público dela, de lá que saem os clientes, de lá que sai a vizinhança. Então pra eles tem um apelo ainda maior do que para os outros setores. Então a gente começou a desenvolver esse trabalho de capacitação e de mostrar pro varejo que, muitas vezes, responsabilidade social não era só doar um recurso, ou fazer alguma coisa pra uma comunidade carente, mas principalmente trabalhar o público interno, cuidar de questões de meio ambiente, o relacionamento com fornecedores e clientes. P/1 – Vocês devem ter estabelecido alguns indicadores pra essas práticas. Como eles se alinham com o Instituto Ethos? R - Nós estamos bem alinhados. Eu lembro que quando começamos com o programa fomos ao Ethos conversar, e nos sentamos com a Carmem, que na época estava lá e ela falava assim: “Olha, o conceito de vocês é um pouco diferente do nosso. Eu queria entender qual o conceito que vocês têm de responsabilidade social pra ver se está alinhado com o nosso.” Eu falei assim: “Bom, Carmem, a gente usa o de vocês.” Então, é assim: o Instituto sempre foi uma referência pra nós, e a gente entende que não vale a pena cada um ficar reinventando a roda. Eles têm uma competência excelente em estabelecimento de indicadores, em estabelecimento de conceitos. E nós buscamos utilizar tudo o que eles já fizeram, só que adaptando; talvez, linguagem e alguns aspectos, à realidade do varejo. Então, tem uma sintonia muito grande. Nós até desenvolvemos os indicadores de responsabilidade social, pro setor varejista, em parceria com o Ethos que foi um dos indicadores setoriais. P/1 – E qual seria um indicador do varejo? R – Desculpa? P/1 – Quais os indicadores que vocês usam no varejo? R – Você diz assim, um número, uma forma? Não existe um indicador, mesmo porque eu acho que é muito difícil hoje em qualquer setor, mas principalmente no varejo, você dizer assim: “Essa é uma empresa socialmente responsável,” porque esse é um assunto muito amplo, há várias nuances e tal. Então é difícil você ter uma empresa que está realmente levando esse assunto na sua plenitude, de uma maneira consistente. Mas você tem excelentes iniciativas em determinados focos: você tem empresas que são excelentes no trato com recursos humanos. Há outras que têm atividades maravilhosas na área ambiental. A gente tem algumas referências. O que a gente viu de evolução nesses anos todos foi o seguinte: antes era muito mais voltado pra filantropia, hoje as empresas varejistas, apesar de não estarem atuando com todos os públicos, eles já entendem que esses outros públicos existem e já trabalham com um número maior de público. Outra questão, quando eu começava a dar uma aula, as pessoas: “Ah porque o governo não deu conta e agora nós vamos ter que fazer”. E hoje a posição é muito menos quixotesca. Aquele negócio de “eu resolvo, porque nós somos bons” hoje é muito mais “nós temos um problema, nós vamos contribuir, nós vamos fazer, mas quais são os outros atores e parceiros?” Então a gente vê que o movimento já está alguma coisa muito mais unida e mais um sentimento de pertencimento maior. Não é aquela coisa “eu faço sozinho”, mas “nós vamos fazer”. Essas são as duas coisas interessantes. Enfim, as práticas estão mais consistentes, estão permeando a gestão. Antes era algo muito apartado do negócio, era: “Aqui é o meu negócio, ali é a benfeitoria, ali eu faço a doação.” Então eram coisas muito separadas; hoje a gente já vê uma integração muito grande. A gente já vê o varejo abrindo lojas sustentáveis; você tem notícia da área de vendas começando a incentivar o consumo consciente, através de sacolas de pano; enfim, outras formas de carregar as compras; informação nos pontos de venda, promoção de pequenos fornecedores. Então, nós estamos num momento muito feliz, porque os varejistas começaram a entender que sustentabilidade e responsabilidade social têm a ver com o negócio deles. E cada vez mais estão procurando alinhar essas duas frentes. P/1 – Você já acabou respondendo muito essa questão dentro do setor varejista. Eu queria que você falasse um pouco como é sua avaliação da sensibilização e do engajamento das empresas, aí mais geral, brasileiros, no movimento de responsabilidade social? R - Eu acho que o interesse tem crescido muito. Hoje, diferente do que era em 1988 quando a gente começou nessa área, é moda, é um assunto que está em voga na imprensa, em todos os locais, seja mídia impressa, televisão; todo mundo fala dessa questão. Com o aquecimento global, com a questão da desigualdade, isso tem acentuado muito alguns questionamentos da nossa sociedade. Eles estão mais abertos, mas eu ainda acho que uma boa parte, principalmente os pequenos e médios, não sabem como fazer, acham que é alguma coisa pra empresas maiores, então tem dificuldade. Apesar de que muitas vezes na hora em que você está falando, eles falam: “Mas isso eu já faço”. Aí eles começam a entender que é exequível e que é para eles também. Mas estão muito mais abertos. Há mais essa questão da dificuldade do começar...Não é só começar a fazer: no varejo principalmente eles vão “fazejando”, a gente diz, eles não planejam, eles fazem. Não é uma questão só de fazer, porque mexe com todos os processos empresariais, então exige uma certa reflexão e uma vontade muito grande de fazer. Eu acho que há algumas barreiras, não intransponíveis, de jeito nenhum, porque a gente tem vários exemplos de empresas que fizeram essa transição. Mas eles têm muito interesse, mas ainda têm um pouco de receio, um pouco de desconhecimento. Também porque o termo responsabilidade social e sustentabilidade tem sido mal empregado, o que gera uma certa confusão. Mas, de maneira gera,l o ambiente é favorável. P/1 – Você colocou que o termo tem uma compreensão errada. Eu queria que você esclarecesse um pouco isso. R - A responsabilidade social ainda está muito ligada, até pelo próprio nome, pelo social. Só que ninguém liga à sociedade, e sim ao social como uma caridade, uma coisa pra comunidade, pra pessoas menos favorecidas. Quando se fala de responsabilidade social as pessoas acham que é social, estamos falando de pessoas. Quando se fala em sustentabilidade as pessoas pensam em meio ambiente, em salvar o mico leão, o urso polar. Na verdade, os dois conceitos falam de pessoas e de meio ambiente e os dois tem um alinhamento que deve ser feito. A sustentabilidade como um objetivo maior, de “queremos um planeta sustentável, com mais qualidade de vida, com recursos ambientais garantidos, com menos desigualdade.” E a responsabilidade social empresarial é o caminho que as empresas devem percorrer pra atingir esse objetivo maior. Não sozinho, porque também a sociedade civil e o governo têm o seu papel. As pessoas têm dificuldade, a hora que a gente coloca, as pessoas: “Ah, agora eu entendi,” porque ficam umas palavras meio mágicas e sem significado. P/1 – Você até citou algumas barreiras. Queria que você falasse quais são os desafios do setor varejista em relação a essa questão do desenvolvimento sustentável. R – No sentido do que eles podem contribuir? P/1 – Eu quero saber quais são os desafios, por que eles acham que não é exequível. Você ainda vê algumas barreiras? R - Eles veem algumas barreiras no sentido de achar que é uma coisa pra grandes empresas. O varejo, de maneira geral, tem um nível de sofisticação menor; isso está mudando, principalmente nos pequenos, nos micros, porque varejo - nós estamos falando desde uma padaria, de uma lojinha que vende botão, sei lá, até o Walmart ...então tem uma coisa muito grande. Mas o varejo vê a dificuldade de ser para empresas maiores; ele associa com aplicação de recursos, então: “Olha, só posso fazer se eu tiver dinheiro”, enquanto na verdade isso é um mito. A dificuldade com a gestão que acaba refletindo nesse momento é a incorporação na responsabilidade social, porque nós estamos falando de gestão de negócios e não de outra coisa. Então pra eles é uma dificuldade porque eles já têm dificuldade com a gestão tradicional, vamos dizer assim. O varejo também tem estruturas muito enxutas, o que dificulta você ter tempo, porque muitas vezes eu digo: “ Precisa de recursos,” é verdade, pra fazer ações, não necessariamente monetários, pode ser até tempo. Mas eles têm escassez dos dois, de tempo e de recursos financeiros. Mas vamos ver a parte do copo cheio, na qual o varejo é um setor estratégico na responsabilidade social pela distribuição dele no país. É uma coisa indizível. Eles estão presentes em todos os locais, em todos os municípios brasileiros você tem um, dois. Depende do tamanho da cidade ou do povoado, às vezes é um vilarejo e você tem um varejo ali. Eu acho que tem essa oportunidade excelente de utilizar essa rede pra levar essas ideias, pra falar em educação, pra educar o consumidor. O varejo é baseado em relacionamento, ele tem possibilidades muito favoráveis pra levar esse assunto. Não só praticar e dar o exemplo, mas também pra levar esse assunto pra população em geral. Cidadania, vamos colocar. Tem padarias que põem, na época da eleição, esses são os vereadores aqui do bairro, o que cada um fez. Todo mundo vai à padaria; você para, olha. Não uma coisa partidária, mas ali está a informação, você escolhe. Você está passando pro seu consumidor: você é cidadão, tá na sua mão, você escolhe quem você quer. Faça uma escolha informada. O varejo tem essa questão do relacionamento do próprio varejista com os consumidores, também entre eles, os clientes, cria-se uma rede, um relacionamento. Enfim, ele está muito próximo da comunidade, nós acreditamos que o varejo realmente tem um potencial muito grande. A gente está trabalhando bastante, mas ainda tem uma imensidão por ser feita. P/1 – Como você avalia o estado brasileiro nas questões de responsabilidade social frente aos demais países do mundo? R - De maneira geral eu acho que o Brasil é um protagonista nessa área. Eu acho que nós podemos estar muito mais avançados por tudo que foi feito até hoje. Acredito que as pessoas têm um pouco de receio de estabelecer compromissos e de cumprir com esses compromissos. Então, vou dar um exemplo pontual: nós estamos desde o ano passado conversando sobre a questão – eu vou falar sobre a GV, mas sei que tem uma série de outras – falando sobre alternativas de embalagens. A embalagem que o consumidor recebe, aquela sacola plástica pra carregar as compras. Começou o ano passado, esse ano me chamaram pra outro grupo, na ___, pra discutir a mesma questão. O que me incomoda muito é que nós sabemos qual é o problema, todo mundo já falou sobre os impactos e tudo, mas ninguém estabelece compromissos e fala: “Isso não é bom? Perfeito, vamos então decidir que é todo mundo se direcionar e cumprir o combinado. Quer dizer, eu lembro, eu fiz uma apresentação na ___ há umas duas semanas, e a gente estava falando das alternativas de embalagem, que tem a embalagem retornável, que tem outros tipos de carrinho de supermercado, que os atuais poderiam ser adaptados, ou outros tipos que não teriam resíduos e tal. E eu terminei a fala com uma coisa muito simples: Por que as pessoas discutem, discutem, discutem, depois se levantam e vão embora? Parece que: “Ah, tava bom o almoço” e pronto. Quer dizer, parece que...Foi me dando um pouco de aflição. Aí eu cheguei e falei: “Gente, deixa eu contar uma coisa pra vocês: a forma que tem sido usada até hoje não é boa. É por isso que nós estamos aqui.” Acho que às vezes falta um pouco resgatar o porquê de nós estarmos falando sobre isso. Então as pessoas partem do “olha, vamos falar de responsabilidade social, vamos falar de sacola plástica”, mas por que nós estamos aqui? Porque as coisas não estão boas e vão ficar piores. Às vezes é um pouco desgastante você ficar tendo esse papel de guardião: “Olha, espera aí, isso tudo tem um contexto, tem um motivo.” Mas isso é necessário porque as pessoas esquecem, nós estamos num mundo que é tão frenético que as pessoas vão se agarrando ao novo, largando o velho e muitas vezes esquecem que as coisas estão encadeadas e que têm um contexto geral. Falei: “Gente, está na hora de estabelecer compromissos. O problema existe quer vocês decidam ou não e ele vai ser resolvido, esse é o ponto.” O que as pessoas, as empresas principalmente, entidades – porque nesse caso tem uma infinidade, não é só varejo, é varejo, é indústria, são associações ligadas ao plástico, enfim, uma infinidade de ___ -, o que eles têm que entender é que isso vai ser resolvido de uma maneira melhor ou pior. Ou vai ter uma legislação e eles vão ter que se adequar, ou enfim, eu prefiro nem mencionar o caos, mas isso vai se resolver. O que está se apresentando ali é uma oportunidade das pessoas se posicionarem e escolherem a alternativa que faz mais sentido. Muitas vezes as pessoas veem como uma ameaça, mas na verdade é uma grande oportunidade de posicionamento e de atitude. Mas nós estamos precisando de muita atitude, eu acho que isso falta. P/1 – Como você avalia o impacto das ações desenvolvidas pelo Instituto Ethos? R – Olha, o Ethos é indizível. Claro, como toda entidade, organização, com prós e contras, eu acho que eles fazem um trabalho maravilhoso de, principalmente, aglutinar pessoas que acreditam; que tenham um entendimento do momento que a gente vive, da importância desse momento; e de pessoas compromissadas com fazer e acontecer. Eu acho que ele tem esse papel. Sem falar na infinidade de instrumentos, de publicações, de tudo, de conexão com outras iniciativas que acontecem ao redor do mundo. Isso tudo é muito importante, mas principalmente as pessoas...deles aglutinarem pessoas e promoverem um ambiente em que possam falar livremente, que as pessoas se colocam e estão dispostas a buscar novos caminhos desde que seja pra esse objetivo de um mundo melhor. Só contando, na época que a gente fez, teve uma seleção pros instrutores, e a gente passou; uma das etapas da seleção foi uma semana fazendo um curso na Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo]. Era um curso, assim, claro que tinha um conteúdo, mas era muito debate, muito legal. Foi uma semana de curso, eu me lembro na sexta-feira acabou o curso e eu fui viajar com uma pessoa e fiquei duas horas falando como tinha sido. Saindo de casa até o interior falando sobre como tinha sido maravilhoso. E o que mais me despertou naquele curso foi a possibilidade de ver que eu não estava sozinha; que tinha gente pensando a mesma coisa que eu. Tinha pessoas que olhavam e falavam: “Você é louca”, porque na GV muitas vezes o pessoal...Ah, hoje menos [risos], eu estou há cinco anos. No programa o pessoal olhava: “Ah, pirou!” Na época eu cheguei com a minha proposta de tese e não tinha professor pra orientar, ninguém entendia nada; hoje a gente já tem alguns. Então, é esse ambiente que ele cria pras pessoas conseguirem. O curso foi pra mencionar como é importante você ter pessoas e como isso te enche de energia pra continuar, o que eu chamo uma luta evangelística no dia a dia [risos]. P/1 – Dentro dessa parceria, também como você é instrutora dentro do Ethos, você tendo essa visão: qual o maior desafio do Instituto Ethos? R- O maior desafio do Ethos, acho que é um desafio comum à nossa sociedade hoje: é que esse assunto seja cada vez mais negócio, seja dia a dia, e não algo separado. Que eles tenham cada vez mais exemplos de pessoas que se posicionaram em relação à sustentabilidade; a fazer negócios de uma maneira diferente; e que tiveram sucesso num mundo em que ainda a última linha, o lucro, o aspecto financeiro, ainda tem uma força muito grande. Acho que esse é o maior desafio: mostrar que as outras linhas também importam. É um desafio de todos e pro bem de todos. P/1 – Dentro dessa sua parceria e desses anos de convivência com o Instituto Ethos, o que você considera como a maior realização deles nesse setor socioambiental? R - Acho que a maior realização é o que eles conseguiram de mobilização do empresariado e das pessoas pra esse tema. A visibilidade que eles conseguiram trazer pra esse tema. A respeitabilidade pro tema e também pra instituição. Acho que essas foram grandes contribuições. P/1 – Agora vou fazer uma pergunta muito relacionada à sua atividade: qual o desafio de vocês dentro da GV, com relação à questão da responsabilidade social. R – É um pouco parecido com o do Ethos. Que isso seja disseminado; que eu tenha mais pessoas sabendo qual é essa nova proposta; qual é essa nova maneira de fazer negócios. E que eles adotem. É esse o desafio, é muito próximo; não tem muita novidade em relação ao do Ethos. P/1 – O que você acha da iniciativa do Instituto Ethos de estar fazendo uma parceria com o Museu da Pessoa pra coletar depoimentos? R – Amei. Acho que, como a gente tava falando de pessoas, fica muito claro que é muito... nós estamos falando de uma coisa que transcende à matéria, o dia a dia, o sistema. Nós estamos falando de gente e de aspirações muito fortes que estão latentes nas pessoas, seja no seu funcionário, seja na empresa. Enfim, no final do dia todo mundo vai pra casa, deita e dorme. É claro que varia o cenário. Nós somos pessoas e a gente quer um mundo melhor e quer coisas diferentes das que estão sendo feitas. Eu acho que vocês estão conseguindo capturar um pouco da alma e do espírito de todos que estão aqui, que estão dando esse depoimento, pra materializar esse sonho que a gente sonha junto. P/1 – Muito obrigada, Roberta. -- FIM DA ENTREVISTA --
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