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História

Quero dar aos meus filhos o que não tive

História de: Rosângela Batista Gangá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2019

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Rosângela conta sobre as suas brincadeiras, histórias e aventuras no querido bairro da Vila Albertina, onde foi criada desde criança. Fala também de como era a sua vivência na escola E.E.P.G. Maestro Souza Lima, uma escola mal falada por ter alunos considerados bagunceiros, mas que quem conhecia sabia o verdadeiro potencial dos alunos. Rosângela teve que lidar com uma gravidez na adolescência e sempre busca uma relação saudável com os filhos, coisa que não teve em sua juventude, contando com alegria que ela e seu filho Matheus participam de atividades da Fundação Gol de Letra e nos fala sobre como conheceu o projeto e do quanto admira esse trabalho transformador.

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História completa

P/1 – Bom, boa tarde, Rosângela.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Pra começar, você podia falar o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R – Tá. O meu nome é Rosângela Batista Gangá, tenho 29 anos, minha data de nascimento, 25/11/79, São Paulo, capital.

 

P/1 – Tá. E qual que é o nome dos seus pais?

 

R – Roque Batista Gangá e Maura Rezende da Silva.

 

P/1 – E o quê que eles fazem?

 

R – A minha mãe é camelô e o meu pai do lar.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram, de onde que eles vêm?

 

R – Meus pais vêm do interior de Minas, norte de Minas, né? Meu pai e minha mãe se conheceram na fazenda dos tios do meu pai, que a minha mãe era colona da fazenda do tio do meu pai. Aí se conheceram lá, tudo, mas só foram se envolver aqui em São Paulo.

 

P/1 – Como é que foi isso? Por quê que eles vieram pra São Paulo?

 

R – Atrás de emprego, né? Condições melhores de vida, né? Meu pai veio primeiro, tudo, minha mãe veio uns anos depois.

 

P/1 – Tá e aí como é que... Você sabe aonde eles se conheceram?

 

R – Eles já se conheciam, né? Então...

 

P/1 – É verdade...

 

R – Eles já se conheciam, né? Aí o resto... Aconteceu, né? Foi acontecendo que eles não entraram muito nos detalhes não.

 

P/1 – Tá. E você tem irmão?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos e o que eles fazem e quais os nomes deles, assim?

 

R – Tá. Eu tenho três irmãos, o mais velho se chama Ricardo, o Ronaldo e Renata que é a caçula. Eu sou a do meio.

 

P/1 – Ah, tá. Tudo com “r”?

 

R – Tudo com “r”. É a família do “r”.

 

P/1 – E bom, você nasceu em São Paulo mesmo, né, e lá na Vila Albertina?

 

R – Na Vila Albertina.

 

P/1 – Como é que era o bairro, assim, quando você era pequena?

 

R – Rua de terra, poucas casas tudo, que você conseguia ver uma boa parte da Vila Albertina tudo. Muita, vamos dizer assim, tinha muito marginal na época, tanto que ali na rua, na Pedro Tomas Rêgo, ali antigamente era chamado “crime da mala”. Histórias das mais antigas contam que mataram o cara, cortaram os pedacinhos e botaram dentro de uma mala e por isso o lugar, né? Colocaram crime da mala, né? Tanto que os meus pais antes de ir pra lá, na invasão do outro lado da Vila Albertina ali, eles moravam onde que é a Vila Nova. Que antigamente tinha um outro nome que eu não me lembro. Lá eles viviam só os dois e com os meus dois irmãos, tanto que quando eles mudaram pra lá, a minha mãe estava grávida de mim, então eu e minha irmã nascemos ali mesmo, na Pedro Tomas Rêgo e os meus irmãos do outro lado da Vila Albertina.

 

P/1 – E quando você era pequena o quê que você costumava fazer, com quem você brincava?

 

R – Nossa, era tanta criança... Tanta criança. Ah, brincava com os meus vizinhos, primos, que cresci junto, tudo, brincava de pega-pega, esconde-esconde, a vontade de você brincar de esconde-esconde conforme as casas era tudo embaixo, você entrava pelas vielas, você conseguia ver, né, aonde o cidadão estava, você conseguia dar a volta pelo beco, subia a ladeira e ainda quem ficava de bobo, nós sempre tinha que ficar batendo na brincadeira, né? De corda, teve uma época no início da minha adolescência, a gente jogou muito vôlei ali na rua, tudo. Taco, brincamos muito também.

 

P/1 – E você morava, você, seus irmãos e seus pais só, ou tinha mais alguém?

 

R – Era eu, meus pais, meus irmãos e dois tios meus: um faleceu, um ainda continua lá e os meus pais se separaram. Tanto que hoje minha mãe mora do lado da fundação e o meu pai continua lá com os meus irmãos.

 

P/1 – Mas voltando à infância, assim, como que era o cotidiano da sua casa?

 

R – Ah, minha mãe trabalhava de empregada doméstica e meu pai, à noite, de vigia noturno, né? Eu e os meus irmãos levantava cedo pra ir pra escola e à tarde quando não tinha nada muito interessante pra assistir na televisão, ia brincar; chamava os amigos e ficava brincando na rua o dia todo e às vezes até esquecia de arrumar a casa e acabava apanhando, né? Que a vontade de brincar era mais do que a obrigação, né?

 

P/1 – Era só você que ficava pra arrumar a casa?

 

R – É. Meus irmãos ficavam tudo pra escanteio, era muito raro arrumar tudo.

 

P/1 – E quando é que você começou a ir pra escola?

 

R – Eu comecei desde os dois meses de idade quando eu fui pra creche. Tanto que tem uma creche ali próxima, que agora parece que mudou o nome da creche, que eu não sei o nome; quando morreu uma tia, recentemente, eles trocaram o nome da creche, mas o nome da creche antiga era Virgínia Bianca. Que assim que inaugurou, tudo, minha mãe conseguiu vaga pra mim e pros meus outros dois irmãos. Aí depois veio a minha outra irmã e também entrou. Aí de lá me transferiram, automaticamente, pro João Ramos, meu irmão que era um anjinho, tudo, que se aprontava, recebeu um convite pra sair da escola, do João Ramos. Aí foi quando inauguraram ali em cima o Maestro, aí minha mãe mudou todo mundo; não aceitava um só mudando de escola, aí colocou os quatro todos na mesma escola.

 

P/1 – No Maestro?

 

R – No Maestro, que hoje é a fundação.

 

P/1 – Ah, tá. E você podia contar um pouquinho como é que eram as aulas, como que... O que você fazia na escola, como que era?

 

R – Eu fazia de tudo um pouco, né? Eu bagunçava, prestava atenção na aula, brincava muito, tanto que no começo eu estudava de manhã, à tarde tinha o Profic [Programa de Formação Integral da Criança], né? Que era aula de reforço, de reforço não tinha nada, era mais recreação... E minha mãe deu graças a Deus que existiu isso pra poder tirar um pouco a gente da rua, né? Aí ficava nós quatro à tarde, até às quatro da tarde. Então a gente passava praticamente o dia todo na escola, né? Levantava cedo, tomava café da manhã na escola, tinha almoço na escola, a gente almoçava, tudo, e ficava por lá mesmo.

 

P/1 – E você foi pra essa escola, você tinha quantos anos?

 

R – Como eu repeti o primeiro ano, eu fui com oito anos de idade. Minha irmã que já entrou já no pré; minha irmã já pegou o pré lá.

 

P/1 – E bom, aí depois das quatro horas vocês voltavam pra casa?

 

R – Voltava pra casa, tudo, jantava ou comia alguma coisa e voltava pra rua.

 

P/1 – Era mais seguro ficar na rua?

 

R – Não era, né? Não era na época, que, não era que na época tinha bandido, né? Hoje não. Hoje o que tem mais é malandro e a gente não tinha medo, né? E fora também que como os bandidos eram dali mesmo, então eles já conheciam a gente e eles também não faziam as coisas na nossa frente. Era mais escondido na casa de um deles, então a gente não via. Muitas vezes a gente conversava com a pessoa e a gente nem sabia que a pessoa era. Igual a um fato que aconteceu uma vez na minha infância, não sei se um dos meus amigos de infância lembra, só sei que a gente brincando, tinha um cara meio alterado, naquela época pra gente era bêbado, nem sabia outro tipo de droga, e o que mais tinha ali era boteco, então tá bêbado. Tava enchendo o nosso saco, qual é a nossa reação? Eu sei que eu comecei a discutir com o cara, a gente discutiu tudo, o cara foi embora, foi embora xingando tudo, aí passou um tempo veio um dos malandro: “Vocês sabem com quem vocês discutiram?” A gente disse: “Não.” “O cara era bandido, ele tava armado.” Disse: “A gente não sabia.” Aí foi nessa que caiu um ponto na nossa ficha. Aí o cara falou: “Não se preocupe que ele não vai mais amolar vocês. Vocês podem continuar brincando.” Depois disso nunca mais vi o cara; não sei se morreu, se ressuscitou, não sei. Foi um fato bem marcante, né?

 

P/1 – Tá, e da escola teve, você falou que você era da fanfarra da escola, né?

 

R – Isso.

 

P/1 – Isso desde essa época?

 

R – A fanfarra, ela entrou na minha vida, assim, né, que quando eu fui pra quinta série que eu fui descobrir que a escola tinha uma fanfarra. Mas aí eu não conseguia entrar. Minha primeira tentativa foi na quinta série. Que eu olhei assim, falei: “Olha, que legal fanfarra, né? Ah, vou tocar um instrumento.” Aí aonde que é o laboratório, lá em cima na fundação, era a sala de química, mas nunca teve aula de química lá, só tinha nome mesmo a sala. Aí o professor: “Olha, vamos estudar música. Oh, vocês vão ter que estudar isso, isso, isso.” Quando eu vi que eu tinha que estudar música, não era simplesmente chegar lá e tocar, falei: “Ah, não. Não quero. Não é isso que eu quero.” Fui um dia lá, depois não voltei. No ano seguinte, já na sexta série e tudo, falei: “Ah...” As meninas: “Olha, tem a linha de frente, as meninas que ficam carregando bandeira, só marchando.” Falei: “Opa! Aí já é leve, né, não preciso estudar, né?” Que eu era meio preguiçosa. “Ah, deixa eu ir, né?” Aí fui eu e a minha irmã, né? Aí tá. O engraçado é que eu era a mais alta da turma; eu ficava lá atrás, aí a diretora: “Ah, não dá certo. Ela é muito alta, ela tinha que ser bandeira.” “Tá. Então vamos colocar ela de bandeira do município.” “Ah, mas não deu certo.” “Então vamos pra do estado.” “Não deu certo.” “Então fica na do Brasil.” E tinha uma menina que era quase da minha mesma altura, mas ela era louca pra carregar a bandeira do Brasil e me colocaram como porta bandeira do Brasil, tudo. Aí ela tinha um pouco de inveja, tudo, e não conseguia... Rezava pra mim faltar, no dia de desfile pra poder carregar, né? Porque é o que tinha mais de atração, né, tudo, que o pessoal ficava: “Nossa! Olha que legal, carrega a bandeira, tudo.” Minha irmã ficou uns tempos, até um ano só com a gente, aí depois ela se interessou em tocar os instrumentos, foi tocar caixa e depois prato, tanto que chegaram... Quando ela começou a tocar prato, ela catava as tampas das panelas, né, e ficava tocando na rua. Aí a gente, tava ela, o nosso ex-vizinho, o Rogério, que já trabalhou na fundação, né, tudo, e nós catava lata, balde e ficava batucando. Nós fazia a nossa fanfarra na rua e o povo xingava tudo a gente tudo, né? Porque a gente fazia barulho, né? Pegava tampa... Minha mãe, nossa, dava cada grito no nosso ouvido... Então, nós pegava tudo escondido e ficava lá no prato... Prato e o que fosse era batuque.

 

P/1 – Isso de noite, depois da escola?

 

R – Depois da escola (risos). Depois da escola. Que os ensaios da fanfarra eram das seis às sete: “Ah, vamos ver o quê que nós aprendemos.” “Ah, então tá, vamos.” Então, aí catava um cabo de vassoura: “Eu sou a porta-bandeira. Vamos.” Eu queria sempre o mais fácil, jamais pra tocar instrumento.

 

P/1 – E como é que funcionava esse negócio, você falou que tinha três bandeiras?

 

R – Eram três bandeiras, né, o município, a do estado e a do Brasil. Então, a que tinha que ficar mais elevada tinha que ser a do Brasil. Aí as outras meninas do lado não tinham que ser da mesma altura e como era sempre a mais alta, então nunca saiu desse posto, né, só um dia que eu tive que faltar porque eu não estava me sentindo muito bem, aí eu não fui, aí foi o dia da realização dessa menina, mas disse que tava com a bandeira, parecia que estava no estádio de futebol, ficava sacudindo a bandeira e a moça que cuidava, na época das meninas, não gostou e ela falou: “Olha, pelo amor de Deus, quando for pra você faltar, não falta. Evita de faltar, né, porque a pessoa ficou fazendo isso, isso, isso.” Tanto que meses depois essa menina até saiu, né, da fanfarra tudo, mas era gostoso porque você conhecia a Zona Norte tudo, cada domingo você tava num ponto da Zona Norte, como você chegava lá? Não sei, sei que a gente tava indo e a nossa era a fanfarra mais simples que tinha, né?

 

P/1 – Quantas pessoas tinham?

 

R – Não lembro.

 

P/1 – Mas você lembra os instrumentos mais ou menos?

 

R – Tinha surdo, caixa, prato, corneta, tinha um bumbo, aí os de sopro eu não lembro mais o nome deles, mas tinha uns três tipos de sopro, tudo.

 

P/1 – Aí ia andando pela rua?

 

R – É, nós ia... A gente ensaiava na própria quadra da escola e às vezes a gente rodeava ali, descia a Antonio Simplício, pegava a Gabriel Martins, passava pelo cemitério e ficava dando essa volta, ou então... Às vezes, a gente ia pelo convento das freiras, descia até lá embaixo na Esmeralda e subia de novo, só dava nós marchando.

 

P/1 – Nossa... E o quê que te chamou atenção pra querer tocar na fanfarra?

 

R – Pra passear. Eu falo pra passear, que eu só viajava de final de ano pra casa dos meus avós de Minas e o resto do ano eu ia fazer o quê? Minha mãe trabalhando direto, o meu pai, falei: “Ah, eu tenho que arrumar uma diversão, né?” Não podia sair dali da onde que eu morava, porque a minha mãe não permitia, então a única coisa que ela autorizava a gente a fazer era a fanfarra. Então, nós ia pra fanfarra, que hoje o povo agora chama de banda; não é nem mais fanfarra, né? Tanto que na escola que os meus filhos estudam agora é banda, falei: “Nossa, que chique, vocês mudaram até de nome.” Então, era a nossa diversão e muitos deixavam pra entrar, muitos deixavam pra entrar na fanfarra, assim, na época de outubro, novembro porque era a época que a fanfarra ia pro Playcenter, que é a época que a Playcenter convidava todas as fanfarras das escolas pra se apresentar, aí pronto, era o que todo mundo queria. Quem não queria ir pro Playcenter? Na época, Playcenter era Hopi Hari de hoje. Então, o pessoal só ia só nessa época, aí depois debandava. Aí o professor já cortou isso: “Só vai pro Playcenter quem estiver desde o início; começou do começo do ano, vai até o fim”.

 

P/1 – E você já chegou a ir?

 

R – Já.

 

P/1 – E aí como é que era, ficava, onde vocês se apresentavam lá, como que era?

 

R – Ficava rodando dentro do Playcenter, tinha um horário do nosso desfile, a gente chegava às dez, a gente brincava, tudo, aí três horas tinha o nosso desfile.

 

P/1 – Muita gente assistindo?

 

R – Muita, né? Que o Playcenter lotado e nesse dia ainda tinha o show da Angélica. Aí três horas foi a nossa apresentação, me lembro até hoje, foi a apresentação, tudo, nós rodamos um pouco ali dentro do Playcenter, umas meia horinha, aí depois: “Ah, pode brincar.” Aí começou a brincar, às seis horas pararam os brinquedos pro pessoal poder assistir o show e nós assistimos o show da Angélica, tudo, aí depois nós viemos embora.

 

P/1 – Tá certo. E vamos falar um pouco da escola, mais um pouquinho. Como é que era a escola Maestro antes de ser a Gol de Letra?

 

R – O Maestro era divertido e mal falado, né? Porque nós éramos vistos como marginais, né? Os maloqueiros, né? Lá de cima, né? Que nenhum professor queria vim dar aula lá. Então, os próprios professores falavam pra gente: “Olha, gente...” Eu tava na primeira, na segunda série e os professores já falavam isso: “Olha, os professores não gostam de vir dar aula aqui porque a escola é mal falada, porque o bairro é mal falado, tudo.” A gente ficava um pouco chateado, né? Até nas apresentações da fanfarra, as outras escolas olhavam pra gente, muitas vezes de rabo de olho, muitas vezes até, nem cumprimentava a gente. Que, na época, eu lembro que o Judith tinha, as fanfarras que era mais organizada, tudo, bem vista, era Judith e o Marechal Rondon. Então, o pessoal do Marechal e do Judith não olhava pra gente; fazia pouco caso da gente porque a gente era mais simples, tanto que a roupa da gente era improvisada. O pessoal que tocava era uma calça azul marinho e uma camisa social branca e as meninas da linha de frente, uma saia azul marinho, cabelo rabo de cavalo e uma camisa social. Era assim. Então, a nossa roupa de desfile era essa, então o pessoal, eles todos bem arrumados, tudo, eles desfazia da gente. E os próprios professores contavam isso pra gente, por causa de muitos alunos do ginásio mesmo, né, que fez carregar essa fama, né, da gente... Aí conforme o tempo, os professores viram que não era assim, né, que tinha aluno que tinha vontade de aprender.

 

P/1 – Mas o quê que eles faziam que fez a escola ficar com essa fama? O quê que acontecia?

 

R – Bagunça, né? Aquela falta de respeito, né? Porque eu não cheguei a conhecer a primeira diretora de lá, né, tudo, né? Que eu vim mais a olhar pra cara de diretora na terceira, quarta série, né? Vim saber quem era a diretora, tudo, aquela curiosidade e tudo. Mas contavam pra gente que era por causa da bagunça, falta de respeito e também do próprio lugar, né? Aí quando os professores vinham, conheciam os alunos, já tinham outra visão, né? Porque tinha aluno ali que queria aprender. Tanto que na época que fechou, uma parte do pessoal foi pro Cardoso e a outra foi pro Ângelo. E eu lembro que quando eu entrei pro Ângelo que eu tinha ido pro primeiro, que eu terminei a oitava lá, tudo, Maestro, tinha um provão pra dividir as salas, pra ver como que estavam os alunos que estavam vindo do ginásio e os alunos que foram melhores, por incrível que pareça, tinham sido da escola de maloqueiro. Na época que era a diretora do Maestro aqui, no Ângelo dava aula de história, Dona Eunice, ela falou isso pra gente: “Olha, eu estou muito orgulhosa de vocês.” Porque o pessoal do Ângelo já recebeu a gente, até a própria direção, com anseio, né? Aí nas provas, nós falamos totalmente diferente, né? Alunos de Esmeralda, João Ramos, Judith e outras escolas ali mais próximas que na época tinha fama, né, tudo, era consideradas boas escolas, que hoje decaíram muito o ensino, tudo, o pessoal ficou de boca aberta com a gente. Que aqueles alunos não tinham elevado a nota que precisava.

 

P/1 – Os professores tratavam vocês mal ou...

 

R – Não, tratava bem... Tratava bem, os professores.

 

P/1 – E teve alguma coisa que aconteceu na escola, porque a gente já ouviu falar de... Na turma da noite, muitas vezes, entrava gente lá e mandava professor embora?

 

R – Olha, eu estudei um ano só, que foi a oitava série, à noite. Eu já tinha escutado já esse boato mesmo, que tinha aluno que brigava com os professores, né? Tudo. Que aluno que brigava, tudo. Aí o ano que eu comecei a fazer a oitava à noite, a oitava só era à noite, eu já não vi isso. Que eu acho que como tinha mudado a direção, acho que a direção deu uma brecada, né? Tanto que pedia pra a gente entrar na escola com calça jeans e camiseta branca e como a escola também era pequena foi mais fácil de tá controlando os alunos e na época morava o caseiro, que era um policial e à noite, depois que todos os alunos entravam pra dentro da sala, soltava o cachorro. É porque tinha gente que entrava, né? Quem não era aluno entrava pra bagunçar, pra desrespeitar e muitas vezes não sabia quem era quem, né, aí muitas vezes até confundia os alunos. Aí começava a soltar os cachorros, aí o pessoal foi debandando, né?

 

P/1 – E chegou a dar algum problema isso? Alguém tentou entrar e o cachorro solto lá?

 

R – Já, dizem que já, que o cachorro já tentou pegar. Acho que o pessoal não acreditava, né, que o muro era baixo, as casas ao redor era tudo baixinha, tudo telhado, hoje... Hoje não. O pessoal tá fazendo prédio do lado da fundação, tanto que na casa da minha mãe, a janela do quarto do fundo dá na fundação. Falei: “Um dia, eu vou vir pra cá, faço a reunião sentada, não precisa nem eu ir lá é só dar tchau pra Olga. Olga, tô aqui tá?” E pronto.

 

P/1 – E aí quando a escola fechou você já tinha saído, né?

 

R – Era o meu último ano na escola.

 

P/1 – O seu último ano?

 

R – Era o meu último ano. A minha irmã tava na sétima e eu e o meu outro irmão do meio, que desistiu, né? Era eu e o Ricardo que era o último ano, na oitava, e a Renata era na sétima série.

 

P/1 – Você estava na oitava série então?

 

R – Tava na oitava série.

 

P/1 – Você falou que na oitava série você passou pra noite, né?

 

R – Foi.

 

P/1 – Qual que era a diferença da noite, assim, que você via de diferente pra de manhã e de noite?

 

R – De manhã, você, era o recreio com todo mundo, né? Então ficava sempre aqueles bolinho de canto, né? E à noite não. Como era pouco aluno, os meninos tinham a sua diversão, né, jogar bola e nós meninas ia fazer o quê, né? À noite? Aí nós começamos a jogar vôlei. Aí fazia aquela roda grande e jogava cinco corta. Nossa diversão era o futebol e o vôlei. Aí nós ficava jogando cinco corta. Aí nessa até os meninos acabavam se debandando, né? Que ficava olho ali no jogo e olho aqui no vôlei. Aí chegava a época que os meninos nem jogavam bola, vinham brincar com a gente, porque no frio não dá, você fica ali tudo aberto, parado; até na sala de aula era gelado e a sala que a gente estudava era cá embaixo, então era mais gelado ainda. Aí nós tinha que inventar alguma coisa pra poder brincar. Aí a diretora permitia a gente brincando, aí ela viu depois que começou a brincadeira também diminuiu muito a bagunça, né, e a falta de respeito, né? E tinha um também lá que era folgado, que adorava: “Eu sou maior e eu vou e pego vocês.” Aí quando os menores começaram a se rebelar, né? Aí as coisas foram mudando.

 

P/1 – Você brigava na escola?

 

R – Eu não. Era a minha irmã. Minha irmã era triste; meu irmão se escondia, porque a gente estudava junto, nós dois, quando vinha a inspetora, que era uma senhora, aí pronto! Você podia ter certeza que tinha sido a minha irmã feito alguma coisa. A minha irmã na primeira série, ela brigou com um colega, ela saiu lá fora com uma pedra desse tamanho, pra jogar no colega, a professora entrou na frente.

 

P/1 – Nossa e aí?

 

R – E quem desce pra apartar a briga? Eu. Meu irmão se escondia na sala de aula. Ele falava: “Vai lá, vai lá, a irmã é sua, a irmã é sua, vai lá e resolve você.” Foi a hora que na... Conforme ela foi crescendo, tudo, eu lembro uma vez a gente indo na educação física, que era tudo junto, ela brigou com um menino, na época nós não tínhamos dois metros de altura e eu lá pequenininha e ela menor ainda, eu no meio dos dois, o cara querendo dar nela, que era um adolescente, querendo dar nela e ela lá querendo dar nele e eu lá no meio apartando a briga; já apartei muita briga da minha irmã ali.

 

P/1 – Já? Já se deu mal fazendo isso ou não?

 

R – Não, ainda não.

 

P/1 – Então tá.

 

R – Coitado dos meninos, no caso dela.

 

P/1 – E quando você soube que a escola ia fechar, como é que foi isso pros alunos?

 

R – Foi triste. Todo mundo ficou triste, tudo. O pessoal quis fazer abaixo-assinado, fez, mas falaram que as assinaturas não eram o suficiente, que o pessoal do Isaac também tinha feito abaixo-assinado, pra não ser fechado o Isaac, que o Isaac tem menos vida... Até hoje, né? Tem menos vida o prédio, do que o prédio cá em cima. Aí a delegacia fez o levantamento, disse que lá tinha mais número de alunos do que aqui em cima, aí resolveram fechar cá em cima e deixar aberto lá.

 

P/1 – E aí o pessoal foi pra lá depois?

 

R – Não. Alguns alunos foram. Que eu acho que ficou funcionando de primeira a quarta série. Os alunos de primeira a quarta série alguns foram, outros os pais colocaram na Esmeralda; quem conseguiu pôr no João Ramos, conseguiu, que o João Ramos ficou muito lotado na época, tudo; uns foram pro Arnaldo Cardoso; Ângelo, que eram escolas mais próximas, né? É o que também os pais conheciam, né? E também teve escola que não aceitava aluno de lá, né, mas no caso da transferência, foram obrigados a aceitar os alunos.

 

P/1 – E aí depois você fez colegial ou parou de estudar?

 

R – Aí eu comecei o colegial, tudo, aí eu engravidei do meu filho, que hoje está na fundação, aí eu parei.

 

P/1 – Mas você fez... Você começou o colegial aonde?

 

R – No Ângelo. Comecei, estudei até o meio do ano, aí eu parei.

 

P/1 – E tinha... Te olhavam torto, assim, por você ter vindo do Maestro?

 

R – Não. Não, o pessoal não. O pessoal já foi amigo, tudo, a gente fez amizade fácil toda a turma, todo mundo se deu bem na escola, uns terminaram lá, eu, no caso eu parei, né, outros também pararam, tudo, outros se transferiram porque não se adaptaram ou porque arrumaram serviço e a condução ali próximo do Cardoso era melhor, que já descia ali e não precisava pegar todo aquele trânsito da César Freire, né? Descia ali sim e já caía na escola.

 

P/2 – E os seus irmãos continuaram na escola?

 

R – O meu irmão, o Ricardo continuou, terminou lá o ensino médio, a Renata também terminou lá o ensino médio, só o Ronaldo que parou na quinta série, né? Que do Maestro ele recebeu outro convite pra ir pro Isaac, tudo. Aí eu e os meus outros irmãos viramos pra minha mãe: “Não! A gente não vai mudar de escola. Ele fez a coisa errada, ele que vá sozinho. A gente não vai, porque toda a escola que ele for mau aluno, tudo, não obedecer professor, não fizer nada, não querer nada com nada e a gente tem que ir atrás dele, não dá, né? Então ele que vá sozinho.”

 

P/1 – E o que ele fazia?

 

R – Bagunça. Ajuntava com a turminha do mal, ficava bagunçando, saía da sala de aula. Responder o professor, ele não respondia, mas era aquilo, tava no meio da turminha, então o professor pra não se estressar pedia pra sair da sala. Aí ele saía com os amigos e ficava andando pela escola. Aí tomava advertência, mais advertência, pra não ficar admitindo muito aquilo repetitivo, a diretora convidava o aluno pra sair da escola.

 

P/1 – Ah, tá. E você falou então que começou o colegial, engravidou?

 

R – Isso.

 

P/1 – E foi namorado seu da escola, não?

 

R – Não, eu conheci o pai do meu filho fora da escola. Ele começou a trabalhar, foi estudar lá no Maestro; ele estudava no Esmeralda. Tanto que quando ele entrou na escola... O pessoal... Escola do tamanho de um ovo, aí todo mundo começava a zoar: “Ah, ele veio pra cá por causa de você. Ah, vocês não vão namorar?” Falava: “Eu vim pra escola pra estudar, não foi pra namorar.” Aí então que a gente até tinhas as briga por causa disso, né? Que ele queria que chegasse na hora do intervalo, queria que eu ficasse com ele e eu morria de vergonha de ficar na frente das outras pessoas, né? Ia ali fora e namorava escondido e o meu irmão estudando junto comigo e o meu irmão tudo que eu fazia contava pra minha mãe, aí eu ficava na minha, né? Então eu ficava mais quieta, na minha.

 

P/1 – E vocês se conheceram aonde?

 

R – Num parque de diversões, que hoje é um depósito de mercadoria do Ourinhos.

 

P/1 – Então lá na César Freire mesmo?

 

R – Na César Freire.

 

P/1 – Tá. E aí você engravidou e como é que ficou então?

 

R – Ah, eu engravidei, a minha mãe quase enlouqueceu, né? Tudo. Que ainda fui passar um tempo com meu pai em Minas, tudo, que ela achou que eu consegui esconder a minha gravidez, tudo. O pai, o pai da criança querendo assumir, ela não queria que ele assumisse, aí naquela turbulência, tudo, acabei casando e fui morar ali na Marcelino Miranda, tudo, num sobrado que tem ali entre a Marcelino Miranda e a Gabriel Martins.

 

P/1 – Que é na Vila Albertina também?

 

R – Ali também, que é do lado de baixo da Gol de Letra.

 

P/1 – Só me conta uma coisa você passou quanto tempo em Minas?

 

R – Um mês.

 

P/1 – Um mês?

 

R – Um mês, aí eu vim embora.

 

P/1 – O seu pai quis te deixar longe?

 

R – Não, a minha mãe me mandou pra lá; ligou pro meu pai, tudo, aí quis até me pôr pra fora de casa, aí os dois ficaram discutindo e vai... “Sabe de uma coisa, vocês vão ficar maltratando então é melhor levar.” Meu pai falou: “Vamos?” Falei: “Vamos.” Aí fui, fui muito paparicada lá, tudo, por tios, primas, avós, né? Que a família lá é tudo grande, né, tudo. Aí depois eu voltei, casei grávida, né, tava grávida de sete meses, casei, tudo, fiquei casada cinco anos, tudo, aí eu tive a Beatriz que a minha filha do meio, que é do mesmo pai, tudo, aí me separei, tudo, aí voltei pra casa da minha mãe.

 

P/1 – Tá e você tava trabalhando, não?

 

R – Não, eu vim trabalhar depois que eu tive a Beatriz.

 

P/1 – Ah, é, e o que você foi fazer?

 

R – Trabalhar com confecção de roupas ali mesmo na Vila Albertina.

 

P/1 – Foi o seu primeiro emprego então?

 

R – Meu primeiro emprego.

 

P/1 – E como é que é, o que você faz lá?

 

R – Eu... Primeiro, eu entrei lá limpando roupa, eu nunca imaginava que roupa soltava tanto pó na minha vida. Eu comecei limpando roupa, né, tirando linha das roupas, camisa social, calça jeans, moletom, camisa pólo, tudo. Aí conforme faltava gente no corte eu ia, aí nessa de substituir, substituir, substituir acabei sendo transferida de setor e fui trabalhar de ajudante de corte. Aí ajudava a esticar o tecido, ajudava a riscar, medir a mesa, tudo. Aí foi nessa que eu peguei uma linda sinusite, que eu fiquei alérgica, fiquei inalando muito... Pó de jeans, que o jeans quando corta solta um pó incrível que ele ainda está cru, né? Então, moletom também; solta muito pó moletom. Aí eu comecei a ficar mais doente do que trabalhando. Daí eu peguei e fui mandada embora.

 

P/1 – Tava doente e foi mandada embora?

 

R – Fui mandada embora... O que, uns seis meses também eu queria sair, né, porque o próprio médico falou pra mim, se eu não saísse, eu nunca ia melhorar das crises. Porque eu tinha crises feias, que eu ia me arrastando até o pronto socorro da Unimed pra pegar o atestado do dia e como eu estava tendo muito atestado, meu patrão achava que eu tava falsificando atestado. E ele achava o cúmulo, como uma funcionária que ganha quatrocentos reais tem um convênio da Unimed? Aquilo ali pra ele, ele achava o cúmulo. Então, a moça do RH veio conversar comigo: “Você ganha pouco tudo, você nem é casada, você não ganha muito da pensão dos teus filhos. Como é que você tem um convênio?” Aí eu fui explicar: “Olha, o meu filho tá na fundação, o convênio é estendido pros pais, tudo.” “Ah, tá.” Falei: “Se você não acredita...” Ainda falei pra ela: “Se você não tá acreditando em mim, o Seu Roberto, por favor, sobe lá e pergunta pro pessoal como que funciona.”

 

P/1 – Aí mesmo assim te demitiram?

 

R – Aí demitiram. Eu preferi eles me demitirem do que eu pedir as contas, né?

 

P/1 – Lógico... E aí você foi fazer mais alguma coisa depois?

 

R – Ah, depois eu fiz, trabalhei como promotora de vendas, divulgava, né, terrenos, em postos de gasolina, tudo. Aí eu fui fazendo bico, né?

 

P/1 – E bom, você chegou a tocar no assunto da fundação, então você viu a fundação chegar na Vila Albertina...

 

R – Vi.

 

P/1 – ... Começar, tudo, tá. E antes de ela ser fundação e depois ser escola, teve uma época que teve...

 

R – Ah, o pessoal da Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor].

 

P/1 – Como é que era isso daí?

 

R – É assim: tinha tido rebelião, né, e os anjinhos, que não é demônio, é anjinho, vamos dizer, né, os anjinhos tinham botado fogo em tudo, que é burro, né? Vão dormir aonde, né? Botaram fogo em tudo e as outras unidades também tinham tido o mesmo atrito e eles não sabiam aonde que ia enfiar esse povo e na época eu morava ali na Gabriel Martins. E a escola tava fechada, acho que fazia uns dois anos, mais ou menos. Eu acho; nas minhas contas. O quê que fizeram? Trouxeram esses meninos da Febem, não lembro qual que era a Febem, trouxeram de madrugada, o muro baixo, que hoje não; hoje tem aquela cerca, tudo bonitinho, mas muro baixo, tudo. Quando foi de manhã, você só escutava o boato dos vizinhos falando, que vizinho ali falou, você escuta dentro da sua casa, você quer saber da vida do vizinho você não precisa nem sair da sua casa, você fica ali dentro, tudo, só você desligar a televisão que você escuta tudo. Aí tava aquele boato: “Olha, tem os meninos da Febem, vocês viram? Tal, tal?” E o sobrado que eu morava do meu ex-sogro, tem uma área que fica pra... Aí nós fomos ver, que dá pra ver o fundo da fundação. Aí o pessoal da Febem estava tudo pulando, parecia aqueles um monte de bicho pulando cerca. Tinha uns com perna quebrada, com aqueles pino, com aqueles ferro do lado de fora pulando, aí chegaram na rua cá em baixo, que antigamente era ponto de drogas, trocava e os cara tudo com roupa boa mesmo. Falei: “Nossa! Esses menino da Febem tá melhor do que eu. Só roupinha boa mesmo.” E trocava. Muitos saíam até descalços. Alguns assim escutando o pessoal falando, que conhecia ali a região, então quem conhecia, sabia onde pegar o ônibus pra ir embora; aqueles que não conheciam ficavam ali perdidos e pedindo informação: “Ó, como é que eu faço pra sair daqui?” Aí desceu, desceu ali pra aquele lado ali sentido Ourinhos, outros ia sentido Fazendinha, e outros subiam a serra que não sabia, tavam perdidos. E muitos acabaram sendo capturados pela polícia. Outros caiu no mundo, né, foram embora. Tanto que saiu no jornal, tudo, falando... Aí quando a mídia, lógico, que algum vizinho deve ter chamado, que nessas a imprensa tá tudo de antena ligada, né, aí saiu até no jornal, tudo, aí na época eu não lembro quem era o governador, deu uma desculpa esfarrapada no mesmo dia, tiraram... O pessoal foi cedo, à noite já tiraram os menores de lá e levaram pra outro lugar.

 

P/1 – Então durou uma madrugada isso daí?

 

R – Isso. Durou um dia. Chegaram de madrugada, às quatro da manhã e saíram à noite. Eu sei que tinha polícia pra tudo quanto era lado. Pra você poder entrar na sua rua, você tinha que se identificar pra polícia e menor, sozinho, tinha que ou estar acompanhando ou o policial acompanhava você até a sua casa.

 

P/1 – E como é que a comunidade ficou com isso?

 

R – Ah, ficou agitada, né? Os que vendiam drogas não gostaram muito. O comércio aquele dia, acho que fechou pra eles, porque tanto de polícia que tinha ali, nossa, era impressionante.

 

P/1 – E polícia... Policiais geralmente não subia lá, né?

 

R – Subia. Sempre subiu, sempre subiu, sempre subiu polícia ali.

 

P/1 – E aí quando a Febem, quando saiu, o quê que vocês ficaram imaginando o que ia virar aquilo lá?

 

R – Ninguém sabia. Aí quando começaram a reforma uns falaram que tava reformando pra reabrir a escola, mas com outro nome; outros estavam dizendo que ia fazer só ensino médio ou história de faculdade... Eu falei: “Gente, aqui não suporta uma faculdade.” Então, os nego, cada um fantasiava as coisas e ninguém sabia o quê que era.

 

P/1 – E o que você estava imaginando?

 

R – Eu, pra mim, que tavam reformando pra reabrir a escola, né?

 

P/1 – E aí como é que você ficou sabendo da Gol de Letra, que o Raí aparece?

 

R – Olha, foi por boato de vizinhos, né? “Olha, vai abrir a fundação do Raí e do Leonardo.” Digo: “Ah, vai nada. Você acha que esse povo vai olhar pra cá? É ruim hein? Esse fim de mundo aqui...” Que nós considerávamos assim. “Mudar nada pra cá. Tudo mentira desse povo.” Aí quando nós viu, tudo, tava lá a faixa, tudo, aí o pessoal tinha ido fazer fila... Até eu cheguei a fazer ficha pra trabalhar na época, tudo, lá, tudo, mas não fui selecionada. Aí muita gente foi pra fazer ficha pra trabalhar, tudo, depois que pegou o pessoal pra trabalhar, tudo, aí abriu inscrição pras crianças, pros jovens. Tudo. Que também o pessoal fez fila. Como o meu filho era menor, tinha uns quatro anos, mais ou menos, eu acho, então... “Eu? Pra quê que eu vou?” Aí tinha gente que falava assim pra mim: “Vai lá porque assim você já garante, ele entra com sete anos.” Falei: “Não. Não vou não. Vou pôr o nome lá à toa? Deixa dar o período certo.” Aí depois que inaugurou, tudo, aí tinha reuniões, acho que era Mulheres em Ação, que tinha, grupo de mulheres que faziam reunião, toda semana. Eu ia de vez em quando, eu ia, tudo, quando dava eu ia, tudo, aí eu perguntei: “Olha, como é que faz pra fazer inscrição, tudo?” Aí, uma dessas reuniões, tinha uma outra moça que fazia parte da fundação, eu não lembro o nome dela, que ela falou: “Olha, gente, não é por nada não. Ó, vocês querem fazer inscrição dos filhos de vocês, vocês podem fazer sim, mas faz com a idade certa, porque tem gente vindo aqui, a criança ainda tá com cinco anos, seis anos, querendo fazer inscrição e só pega com sete anos e a seleção não é assim. Não é igual escola que você fez a inscrição, pronto, já está matriculado. Não. Aqui não é escola, aqui é uma atividade pras crianças...” Foi explicando tudo. E fora que o povo chegava lá, já falava pro pessoal, né?

 

(PAUSA)

 

P/1 – Então Rosângela você tava falando de quando a fundação chegou e aí?

 

R – Então, aí foi explicando, né, pra população como funcionavam as inscrições. Todas as vezes que abria inscrições, colocava lá o papel lá na frente, tudo, o pessoal tá fazendo, tudo. Aí quando o meu filho fez sete anos, tudo, que era sempre no começo do ano, né, janeiro, fevereiro por aí; aí eu peguei fiquei na fila, tal, aí o pessoal: “Vai lá, faz.” Que o primo do meu filho já estava lá na fundação. Aí a mãe dele: “Olha, já abriu inscrição, vai lá e faz pra ele” Aí eu peguei e fiz a inscrição dele e tudo, lá, aí eu fiquei aguardando. Ele entrou dois anos depois que eu fiz a inscrição dele. Eu nem esperava. Falei: “Ah, não vai chamar mais nada.” Que primeiro eles fazem a visita, né? Vem, olha a casa, tal, tudo, vê quem está na casa, como a criança dorme, como que a criança vive, né, tudo.

 

P/2 – Nessa época você ainda estava casada?

 

R – Não. Eu já tava separada, já tava separada. Só estava eu, meu pai e os meus dois irmãos. O outro já tinha casado, o mais velho, tudo.

 

P/1 – O seu pai não morava em Minas?

 

R – Morava, mas ele veio. A minha mãe foi viver a vida dela, que a gente estava tudo grande. Aí o meu pai já queria vir embora pra Minas, voltar pra São Paulo. Aí foi a oportunidade dele, aí ficou com a gente.

 

P/1 – Aí trocou a sua mãe...

 

R – Aí trocou... É, minha mãe saiu, entrou o meu pai, né? Pra mim foi bom que me ajudou, que eu estava trabalhando, na época, só fazendo bico, né, tudo. Que eu ia pra confecção, eu só fazia bico. Depois que eu fui registrada, tudo, então não era todo dia que eu ia trabalhar. Depois que eu passei a ser registrada, já ia todos os dias. Aí o meu pai, nessa, meu pai ajudou, tudo. Tanto que quando ligaram da fundação, que tinha saído a vaga pro Matheus, eu estava trabalhando. Aí o meu pai marcou de final de semana, tudo, com a Bárbara, isso na época era a Bárbara, marcou com a Bárbara, aí ela foi num sábado pra a gente conversar nós duas, tudo.

 

P/1 – Bárbara agente social?

 

R – Isso. Que saiu da Fundação.

 

P/2 – E como é que foi a visita?

 

R – Ah, foi tranquila, tudo. Na época, eu tinha o meu quarto do lado de fora, né, porque a gente tava reformando o outro. Minha mãe tinha ido embora e o quarto tava com vazamento e nós tava reformando, né, arrumando. Tanto que só o Matheus dormia, né, porque só pingando... Só cabia... O quarto é grande, né, mas o único canto que não pingava tava o guarda-roupa e uma cama de solteiro, então ele quis ficar lá e eu e a Beatriz ficava no outro. Aí depois que terminou a reforma, nós pulamos de quarto, tudo. Ela veio, ela perguntou se ele tinha algum problema de saúde, porque eles perguntam, né? Da família quem tem, quem não tem, e tudo. Aí eu expliquei dele, né? Que ele tinha adenóide, tudo, e que pelo SUS eu não tinha conseguido operar. Eu já tinha rodado São Paulo: tinha ido com a minha mãe pra Santa Casa, da Santa Casa me mandaram lá pra Praça Ramos, da Praça Ramos mandaram de volta pro Luiz Gonzaga e eu fiquei passeando; até no Ipiranga eu fui, com esse menino pra fazer exame e tudo, e nada de operar ele. Aí ela: “Ah, eu posso olhar a garganta dele?” Eu falei: “Pode.” Aí quando ela abriu e viu, tava meio fechado, falou: “Nossa, como que ele consegue comer?” Falei: “Nem eu sei.” E ele roncava alto, que a pessoa que tem ronca, né, muito alto, tudo. Você sabia que o Matheus tava dormindo, roncou: “Ah, tá dormindo.” Eu nem precisava subir pro quarto que o barulho, cá embaixo, você escutava. Aí não demorou muito, né, fiz a ficha dele, tudo, lá, tudo. Aí ele começou. Aí quando chegou a carteirinha do convênio, eu não precisei participar da reunião, porque a carteirinha do convênio é entregue na reunião com a Unimed. A Unimed ou Dr. Prev. Eu recebi antes. Ela me ligou na hora do meu almoço, porque eu subia pra almoçar em casa, ela me ligou: “A carteirinha do seu filho chegou, vem buscar.” Falei: “Tá bom.” Eu comi rapidinho e subi, né? Que é dali pra subir é dois pulos. Subi, ela pegou, falou: “Olha, agora você vai poder operar o teu filho.” Eu acho que o meu filho entrou mais na fundação eu acho que por causa desse problema dele de saúde, porque estrutura em casa nós temos, né, tudo. Ele não ficava sozinho porque disse que os critérios das crianças antes, não sei se agora, né, pra criança entrar era que as crianças ficavam sozinhas em casa e muito na rua. Ele sim brincava muito na rua, mas ficava o meu tio olhando, meu irmão, meu pai. Então, ele não ficava completamente sozinho. Eu acho que ele entrou mais por causa do problema dele de saúde que ele tinha na época.

 

P/1 – Mas quando a fundação chegou ele ainda não estava na idade, né?

 

R – Não, ele ainda não tava na idade de entrar.

 

P/1 – Eu só queria voltar nessa época, só pra saber o quê que, o pessoal achava que era escola de futebol?

 

R – É, o pessoal achava que era escola de futebol: “Ah, só joga bola.” Aí o pessoal: “Não gente...” Cada um falava uma coisa, né, e ninguém conhecia nada.

 

P/1 – Você chegou a pensar que era escola de futebol também?

 

R – É, o pessoal falou, eu falei: “Nossa! Escola de futebol...” Falei: “Nossa! Tem tanta coisa pro Raí pôr pra essas crianças. Só bola? Que graça tem? Então aqui só tem só menino?” Porque as meninas eram poucas lá em cima que gostavam de um futebol, tudo, né? Falei: “Pô, só bola é chato.” E outra coisa, ali não tem campo de futebol; só se pegar o pessoal aqui, levar pra outro lugar. Aí depois falaram que ia ter futebol e natação. Gente que nem conhecia as estrutura... Eu falava: “Gente, ali não tem nem como ter uma piscina, gente.” “Não, vão construir uma piscina.” Falei: “Ô vai...” Cada um falava uma coisa. Aí conforme mães que tavam lá com os seus filhos, tudo, aí pegava e perguntava: “E aí? Como é que é lá?” Que as festas, antigamente, era fechadas; as festas era fechada então era só pros funcionários, alunos e os pais. Hoje não. Hoje é muito aberto as festas pra comunidade e tudo. Aí você perguntava: “Como é que é, tal e tudo, né?” Aí falava: “Por quê que fulano falou isso?” “Ah, eu não sei da onde que o fulano tirou isso.” É aquilo de boca, né? “Ah, que cicrano falou, que falou pra fulano.” E assim vai. Tanto que quem entrou na fundação antes do meu filho foi o primo dele, né? Então, eu sabia, mais ou menos, como funcionava o esquema dentro da fundação, tudo. Aí o primo dele falava que ele fazia artes, passeava, jogava bola, jogava basquete, vôlei, tinha as atividades, que não era igual a escola, né? Que tinha de atividades e não ficava parado.

 

P/1 – Esse seu sobrinho era filho de quem?

 

R – Não, não é sobrinho meu. É primo de segundo grau do meu filho, né, que é primo do meu ex-marido.

 

P/1 – Ah, entendi. E tinha alguma diferença de ele antes de entrar na fundação e depois?

 

R – Do primo do meu filho?

 

P/1 – É, você conseguiu notar alguma coisa?

 

R – Ele ficou mais sociável, né? Que era aquela criança agitada, muito agitada. Ele ficou mais tranquilo, mais social, né? Sabendo se comportar que conforme... Acho que a escola, acho que não era suficiente pra gastar a energia dele, né? Aí depois que ele foi pra fundação gastou bastante a energia dele, então ele ficava mais tranquilo, tudo.

 

P/1 – Ficou mais manso?

 

R – Ficou mais manso.

 

P/1 – E você lembra do dia da inauguração?

 

R – Não, não lembro que eu nem fui no dia da inauguração.

 

P/1 – Mas ficou sabendo...

 

R – Fiquei sabendo.

 

P/1 - ... Se tinha bastante gente?

 

R – Dizem que a rua tava cheia. A rua até foi fechada, por causa da muvuca, né? Que a curiosidade do povo era tanta... “Ah, vamo lá ver o Raí.” “Eu não. Gente, vocês vão conseguir chegar perto dele? Ó o tanto de gente...” Eu nem me dei o trabalho de subir pra ver nada, porque a muvuca que o povo se formou, a curiosidade do povo era tanta, você acha que ia conseguir ver alguma coisa? Não ia, né? Então era melhor ficar em casa, né? Tanto que o pessoal ficava naquela euforia, né? “Ah, o Raí, o Raí.” Eu falei: “Ai, gente, eu não vejo graça. Ele é são paulino, gente, eu sou corintiana. Não vejo graça, gente...” “Não, ele é lindo. Você viu aquelas pernas dele?” Eu falei: “Sorte da mulher dele. Vocês tão aí babando, quem pega ele e quem pega é a mulher dele e não vocês.” “Não, que...” As mulheradas estavam tudo doida, tudo assanhada e eu ia muito às reuniões lá na fundação, né, aí teve uma delas que, a Beatriz tinha um ano, mais ou menos, um ano e pouco, aí ela chorando muito, quem entrou? O Raí, aí depois entrou o irmão dele, o Sócrates, aí as mulheres se alvoroçaram todas. Aí tinha uma moça que fazia um trabalho social no antigo Carandiru e essa mulher estava explicando o direito das mulheres e tal e o trabalho que tinha lá. Coitada dessa moça, ficou falando pras paredes, porque as mulheres, a atenção foi tudo em cima do Raí, tudo em cima do Raí, as mulher.

 

P/1 – E você ia nesse grupo Mulheres em Ação antes do seu filho entrar?

 

R – Antes do meu filho entrar.

 

P/1 – Como você ficou sabendo desse grupo?

 

R – Pela Marlene que era a líder do grupo, né? Que ela passava nas portas: “Olha, gente, tem palestra disso, tem daquilo, tem artesanato.” E com o meu filho pequeno, meu filho pequeno ele não deixava eu fazer artesanato e não tinha quem olhasse ele, então ia mais quando tinha as palestras, né? Que dava pra levar ele e ele fica ali do meu lado, né? Mas fora isso, não dava pra tá participando de outras atividades, porque elas iam, as próprias mulheres iam nas portas: “Olha, gente, tem assim, assim...” Explicava, tudo, convidava os moradores.

 

P/1 – Era tudo lá no Gol de Letra?

 

R – Tudo lá na Gol de Letra.

 

P/1 – E que palestras que tinham?

 

R – Falava sobre tudo, abordava todos os temas, drogas, sexo, tudo. O direito das... Eu lembro que das vezes que eu fui, tanto na reunião já foi falado uma vez sobre o direito das mulheres, tudo, aí vinha os temas, né, das coisas, tudo.

 

P/1 – E teve alguma que te marcou, assim?

 

R – Que me marcou? Ah, teve uma que o irmão do Raí fez a minha filha calar a boca, né? Que a minha filha não parava de chorar. Que a minha vizinha também fazia parte lá da fundação, né, do serviço social, né, e pegou ela e ela não parava de chorar. Aí o irmão do Raí foi lá e pegou ela, aí eles desceram... Eu não sei pra onde a minha filha foi, eu sei que eu assisti toda a palestra. Aí depois... Ela conseguiu aquilo que ninguém conseguiu: ficar lá brincando com o Raí (risos) que ele ia muito na fundação, nessa época, né? Ele ia, não tinha um dia certo, né, tudo, mas ia direto. E as menina: “Ah, eu queria ser um bebê.” Sabe, aí eu falava: “Gente, pára de ser besta. Nem eu vi o homem de perto, gente. Aí veio a moça aí falando que trouxe ela, tudo, que conseguiu acalmar ela, tudo, e trouxe...” Mas as mulheres ficavam doida. Até hoje, né?

 

P/1 – Que irmão do Raí que era?

 

R – Sócrates.

 

P/1 – Sócrates. Você nem lembra do quê que era a palestra?

 

R – Olha, eu não lembro. No dia, eu nem lembro, porque ele chegava... E tanto que uma das meninas falou: “Olha, gente, o Raí nem vai mais participar das reuniões.” Dizem que ele participava muito, né? Que ele parou um pouco, porque até quem ia dar palestra pra gente queria agarrar ele; que teve uma delas que quis agarrar ele. Viu ele e ao invés de dar a palestra pra gente, que ele entrou, ele ficou no cantinho, ele sentou ali no cantinho do auditório e ficou quieto. Aí a mulher no Raí, uma abraçou, a outra beijou, eu fiquei só, assim: “Ah, pronto! É hoje que eu não saio daqui.” Que é desse jeito o pessoal e continuou lá. Aí acho que ele parou que ele tava sendo mais atração do que a própria palestra, né, tudo, do pessoal.

 

P/1 – E aí quando o seu filho entrou na Gol de Letra o quê que ele falava de lá?

 

R – Ah, ele adorou! Que ele mexia no computador, que ele pintava, que ele só não ia jogar capoeira, porque ele não gostava. “Mas por que Matheus? Você é alto, tudo, você tem o perfil certo.” “Ah, não, mãe. Não quero.” “Tem certeza?” “Tenho.” Aí teve uma menina aqui do serviço social, disse: “Ah, ele só não quer fazer capoeira. A gente não obriga. A criança faz se quiser, né?” Aí eu falei: “Ah, ele não quer, deixa.” Mas artes plásticas ele gostou muito, aí conforme o decorrer, conforme os anos se passou, tudo, capoeira mesmo ele não se interessou mais mesmo, mas uma coisa que ainda gostou muito é teatro, lá, tudo.

 

P/1 – Esporte não era muito ligado, né?


R – Ele gosta. Futebol, ele gosta, tudo, a paixão dele é futebol, tudo, sempre jogando como goleiro, porque ele já tentou jogar (risos) na linha... Era até engraçado que teve uma época que eu levava ele pra jogar bola no canil da PM. Aí uma vez, eu comecei a dar risada, não aguentei, aí invés de eu chorar e acudir o meu filho, eu ria. Ele foi jogar bola, o menino chutou a bola e bateu no estômago dele. Esse menino sentou no meio do campo e chorava (risos) e eu ria; eu não aguentava e todo mundo: “Vai lá. Vai acudir o seu filho.” Falei: (risos) “Deixa ele. Ele não quer jogar bola? Acha que é fácil jogar bola? Não é fácil jogar bola. Se a mãe dele não aprendeu, quanto mais ele...” “Não, vai lá.” E ele chorava, ele chorava, aí desistiu da bola ali. Aí depois quando entrou na fundação já foi pra goleiro. Aí ele ia... Aí já gostou e tudo. Aí depois... Fora o futebol, ele gosta também muito do teatro. O ano passado teve apresentação na feira cultural e falou que ia se apresentar às duas horas. E lá foi eu pro auditório. Sentei eu e o meu esposo, meu atual esposo, né, tá. Aí entrou as crianças: “Ah, vai ter a apresentação das crianças, da aula de música, da turma três não sei que outra...” “Tá bom, pai, ele vai tá no meio. Ué? Cadê ele?” Assisti toda a apresentação do filho dos outros (risos). Quando eu saio, lá vem ele: “Ué, mãe, você tava aí?” “Eu vim ver a sua apresentação, Matheus” “Não, porque eu tava apresentando teatro e é lá em cima.” “E por que você não avisou?” “Ah, é que trocaram os nossos horários.” Falei: “Nossa! Eu assisti a apresentação... E agora o que você vai fazer?” “Agora eu vou tocar.” Falei: “Bateu a cabeça menino?” (risos) “Eu sei todas as batucadas.” (risos) “Ah, então vamos.” Aí nós fomos assistir a apresentação dele. Aí eu subi pra assistir a do teatro. Aí, a minha vizinha: “Você perdeu. Você ria muito com o teu filho e todo mundo perguntando de você e cadê você?” “Ah, eu tava lá embaixo. Ele falou que ia ser lá embaixo, eu fiquei lá embaixo. Depois que eu fiquei sabendo que era aqui em cima.” Aí, no mesmo dia, a peça apresentou três vezes. Aí eu consegui assistir uma, né? E eu ria dele, nossa, muito legal. Aí eu falei pra ele: “Como vai ser sábado agora?” “Não, mãe, é teatro.” “E o horário?” “Não, não, vou ver direito.” “Acho bom você ver direitinho porque eu não tô a fim de ficar subindo e descendo mais aquelas escadas não.” E ele: “Aí, tá bom.” Já corri muito aquelas escadas, muito, descendo instrumento pra levar pros colegas, pra ajudar a montar lá na quadra, na própria sala de aula, batia o sinal do recreio, a gente descia correndo. A gente descia escorregando pelo corrimão, a professora ficava doida com a gente: “Vocês vão cair daí. Vocês querem morrer?” “Não, ‘prô’, não cai não.” “Vocês vão cair sim.” Tudo a gente descia escorregando, correndo. Que ali naquele prédio ali de cima mudou pouca coisa.

 

P/1 – O quê que mudou?

 

R – Lá em cima continua do mesmo jeito que tá as salas ficou, né? Tudo. Cá embaixo aonde que é o auditório, ali era uma sala do Profic que era uma sala de reforço e do lado a biblioteca. Eles só tiraram a parede e aumentou. Você pode ver que tem até uma porta, né? Então eles só aumentaram, tiraram a parede e fizeram um auditório. Os banheiros eles fizeram uma pequena reforma, que os banheiros eram os mesmo, os banheiros, tudo. Onde que é a brinquedoteca e a biblioteca lá, tudo, ali as duas cada uma era uma sala de aula. Acho que a biblioteca eles só tiraram, só colocaram a parede e fizeram um corredor pra poder pôr o portão, tudo. Lá embaixo, onde que era a sala dos professores, eles dividiram, colocaram secretaria e colocaram mais o não sei o quê, que eu não sei. E lá dentro, onde ficava a sala de direção, eles já abriram, né? Agora eles colocaram uma divisória, tudo (risos). Os banheiros continuam os mesmos, tudo. Lá embaixo onde que era a cozinha, eles fecharam, fizeram sala, fecharam tudo. Lá atrás tem tipo uma quadra pequena, ali era o barranco, eles aterraram, tudo, que ali nós víamos os moradores subindo, as ratazana do tamanho de gato, subindo pra comer a merenda junto com a gente e o pessoal jogava, né? Tinha medo dos ratos virem e aquele povo mais atentado, jogava bolacha ou pão pro rato vim comer, quando o rato aparecia, jogava pedra, os anjinhos... Tinha uns anjinhos que fazia isso, né? Aí eles fecharam tudo, tanto que ali embaixo é mais quentinho agora, que antes era gelado, ali era tudo aberto, nós passava frio. Onde é agora o refeitório e a cozinha que eles fizeram, ali a gente chamava o pátio coberto, ali era tudo aberto, tudo. E fizeram ali os dois banheiros, que ali aonde está os dois banheiros, ali era os quartinhos de limpeza; um era o quartinho de limpeza e o outro era o quartinho de educação física, guardava as coisas. E aonde que é a quadra de antes onde jogam vôlei ali, continua a mesma coisa. Só a quadra que eles aumentaram, colocaram aquelas pilastras pra fazer uma quadra em cima. E aonde que fizeram aquela rampa era um barranco, tudo. Onde tem aquele apoio, né, que você já chega de cara, encosta num corrimão que tem ali, ali era uma escada, você descia direto e só colocaram a escada de ferro do lado, fecharam aquela escada principal que tinha pra poder fazer a rampa pra deficiente. E o estacionamento, eles colocaram o muro pra dentro, que o muro era toda aquela extensão que tá ali fora; ali do lado era todo o muro que tinha o barranco. A gente brincava, a gente dava aquela volta todinha na escola. Nós conseguia dar aquela volta todinha, tinha gente que até caía no barranco, correndo com euforia, rolava o barranco abaixo. Queria nem saber se tinha pedra ou não tinha. Chegava em casa tudo ralado e tudo. E, na época de escola, conforme o dia, a merenda não era boa, o aluno pulava o muro pra ir em casa comer. Os alunos ia em casa comer e voltava.

 

P/1 – Ah, voltava pelo menos?

 

R – Voltava pelo menos. Tinha uns que nem voltava. Que morava lá perto da Vila Nova, perto da (Fio Sam?) então nem compensava, né? Ia até lá embaixo e voltar? E na época não tinha condução perto da fundação, né? Na época que era escola não tinha condução ali na porta. Agora quem morava ali perto... Eu mesma já fiz isso muito, tanto que uma dessas eu me dei mal, né? Levei advertência, aí depois que eu levei isso, eu peguei e parei, tudo. Mas tinha gente que morava do lado da escola, então, tinha um menino da minha sala que a casa dele era grudada. Hoje a mãe dele, ele já não mora mais lá, tudo. A irmãzinha dele gritava, dava o lanche pra ele, ele comia ali, ele era o único sortudo, né? Que tinha pelo menos a irmãzinha pra jogar o lanche pra ele. E os outros pulavam pra ir em casa. Ia em casa, comia e voltava e mesmo assim tinha aluno que morava do lado, chegava atrasado na escola, que dormia demais; a escola do lado, conseguia chegar atrasado. Tinha uma menina na sala da minha irmã que era assim. Falava: “Nossa, Janete, como que você consegue? Você mora grudada na escola ainda chega atrasada. Eu gasto só dois minutos daqui na minha casa. Você é incrível.” Eu falava pra ela.

 

P/1 – Tem uma história que a gente ouviu lá, que o lugar onde foi construído a fundação, a escola, era um cemitério antes?

 

R – Eu não sei. Quem deve saber dessa história é a Cleide. Que a Cleide é mais antiga ali. Não sei se você lembra dela, uma morena alta. Ela deve saber mais porque ela ali ela é bem antigona mesmo, a Cleide.

 

P/1 – Você nunca ouviu falar disso daí?

 

R – Não, nunca ouvi falar.

 

P/1 – Na época de escola não falavam isso, então?

 

R – Não, não falavam isso não. Só falavam da loira do banheiro, né? Só isso. Não falava nada.

 

P/1 – Tá. E, você quer perguntar alguma coisa, Fernanda?

 

P/2 – Não sei, talvez tipo dessa gravidez na adolescência na escola?

 

R – Ah, eu fiquei grávida, né, na adolescência com dezesseis anos, né? Fiquei grávida, tudo, fiquei só nos primeiros meses, né? Tudo.

 

P/2 – E depois você terminou?

 

R – Não, eu parei de estudar. Eu vim voltar a estudar três anos atrás, tudo. Eu parei de estudar, casei, tudo, o meu ex-marido continuou o estudo, tudo, e também parou, né? Não sei se voltou, né, que cinco anos depois a gente acabou se separando, tudo. Aí agora, de três anos atrás que eu peguei, comecei a conhecer esse meu atual esposo, tudo, e ele: “Ah, volta a estudar, tal, tudo. Eu te ajudo com os meninos, tudo.” Falei: “Tá bom.” Minha irmã desempregada e eu estava trabalhando, aí a minha irmã me ajudava, né? Falava: “Ah, eu te dou vinte reais só pra você só olhar uma noite pra mim.” Que durante o dia eles ficavam na creche. O Matheus estudando de manhã e à tarde na fundação, então não tem quem olhasse, né? Era mais à noite mesmo, que era só pra dar uma olhadinha mesmo, tudo. Aí eu peguei, voltei a estudar, terminei, tudo, o ensino médio tem três anos, tudo, eu sei que foi uma barra a gravidez na adolescência, mas também eu tinha consciência daquilo, né? Como ocorreu, tudo, porque eu lembro que assim que inaugurou o posto de saúde, eu com as amigas, a gente conversando, que na escola a gente teve palestra sobre gravidez, tudo. Aí eu cheguei no posto de saúde: “Ah, quero passar na consulta médica.” “Ah, mas o pai de vocês sabem?” “Não, não sabe.” “Ah, então não vai passar.” Aí a gente já foi barrada ali. Eu quero passar em médico, né, eu quero passar escondida da minha mãe. Como é que eu vou passar, se eu falo pra minha mãe, que eu tenho curiosidade... Se eu sentasse com a minha mãe, treze anos atrás, e falar: “Olha, eu quero ir no médico.” Minha mãe ainda demorou muito pra querer ir no médico. Meu pai quando foi pra ter a minha irmã quase bateu no médico. A caçula. Tinha tido os três filhos no hospital, no último queria arrumar confusão bem no dia do parto.

 

P/1 – E por quê?

 

R – Sabe, minha mãe é meio esquentadinha, a minha mãe, meio esquentada. Aí falei: "Pô, se eu falo pra ela que eu quero ir, como que eu vou ficar, eu vou apanhar feio, né?" Aí eu peguei e deixei pra lá. “Ah, não tem a sua camisinha, então vamos usar a camisinha.” Aí tinha vezes que usava a camisinha, tinha vezes que não. Aí nessa eu acabei engravidando, né? Aí quando eu fiquei grávida eu procurei o posto, pra fazer o teste de gravidez, que eu queria fazer o teste de gravidez. Aí na época eu falei com a enfermeira, a enfermeira: “Quanto tempo está atrasado?” “Olha, tem quinze dias.” “Mas você não pode estar grávida!” Falei: “Moça, a minha menstruação é certinha.” “Não, mas costuma atrasar a menstruação.” “Não, mas a minha é certinha.” “Como você sabe?” Não discuti com a mulher, uma senhora, não discuti com ela, fui embora. Que eu já sabia que eu tava grávida, tudo, que cada... É bobeira a mulher falar: “Ah, eu não sei do meu ciclo.” Toda mulher sabe sim. Sabe quando ocorre e como não ocorre. É distraída porque quer, porque sabe. Quando ela quer ali certinho, ela sabe. Aí... Aí depois que eu já estava do quê? De seis meses de gestação, naquela briga, vai e volta, vai e volta de Minas, fui pra Minas, voltei, a minha mãe brigando, a minha mãe estressada, tudo, consegui fazer um pré-natal. Tudo. Aí a moça quando eu fui fazer o pré-natal, que eu tava de seis meses: “Agora, você vem procurar o posto.” Eu falei: “Caramba! Eu só levo xingo aqui toda vez que eu venho?” Aí eu peguei, dei uma linda res... Não lembro a resposta que eu dei, mas eu dei uma linda resposta pra ela, tudo. Ela ficou quieta, tudo. Aí depois que eu tive o Matheus tudo, aí eu peguei, eu fiz planejamento familiar e comecei a tomar remédio. Aí eu fiquei tomando remédio num período de cinco anos. Tomei remédio tudo. Aí quando eu parei de tomar remédio, eu tinha me separado e voltei pra Minas. Tudo foi... Fiquei três meses em Minas.

 

P/1 – Isso foi em que ano, mais ou menos?

 

R – 2001.

 

P/1 – Tá. Seu filho já estava na Gol de Letra?

 

R – Não, não estava na Gol de Letra.

 

P/1 – E aí você foi pra Minas?

 

R – Fui pra Minas, fiquei três meses lá, tudo, voltei. Tentei reconciliação, fiquei grávida novamente. Aí a tal reconciliação não tinha acontecido coisa nenhuma. Aí me separei grávida da minha filha e o pai dos meus filhos só queria saber de zoeira e de filho que é bom, nada. Tanto que eu tive que sair da casa que na época ele alegava que a casa era do pai, tal, tudo, saí. Fui pra casa da minha mãe, que a minha mãe ainda na época tava na casa, aí dormia num quarto com o meu irmão, tudo. Aí depois de um ano, que a minha filha tava com um ano, tudo, que eu comecei a trabalhar, tudo. Aí foi quando eu fiquei sabendo que tinha inscrição aberta na Gol de Letra, tudo, e o pessoal: “Olha, faz inscrição que você consegue, né, tudo. Que aí você pode trabalhar mais tranqüila.” Mas daí fiz a inscrição dele, esqueci. Aí meio período eu consegui a inscrição, uma vaga pra outra, a Beatriz, na creche. Aí a Beatriz entrou na creche em 2002, finalzinho de 2002 pra 2003, aí foi no mesmo ano o Matheus também entrou. O Matheus foi chamado em dezembro, em fevereiro ele começou na fundação.

 

P/1 – E você tem dois filhos?

 

R – Eu tenho agora três.

 

P/1 – Qual que... Pode falar o nome deles?

 

R – Pode. O Matheus de treze anos, treze, não, doze anos, quer dizer. Vai fazer treze agora em setembro, que tá na fundação; a Beatriz, de sete e a Ana Carolina de um ano e dez meses.

 

P/1 – A Beatriz entrou na Fundação também, não?

 

R – Não, ainda não. Porque como a área da fundação é do Ourinhos pra cima e eu desci o morro, né, o Matheus ele continua lá, né, tudo, que eu conversei com a Olga, né, tudo. Aí a Olga permitiu que ele continuasse lá na fundação, né? Porque... Um bom aluno, não responde monitores, sempre educado com todo mundo, que naquele lá tem alunos de todos os portes, né, tudo, né? Que já chegou ir lá na fundação, o aluno... A monitora: “Olha, eu quero que você faça essa atividade.” “Ah, eu não quero fazer.” E fica atrapalhando as turmas que quer fazer, o pessoal que quer fazer. “Ah, então você vai brincar, vai passear pela fundação e deixa quem quer fazer.” Que eu já vi muito isso, tudo. E ele sempre tendo aquele bom comportamento, foi o que contou e eu também sempre nas reuniões, né, tudo. Eu sempre tando ali nas reuniões, palestras. Toda vez que me convocava na fundação pra alguma coisa, eu sempre tava ali, tudo, foi o que contou também pra ele continuar ali na fundação. Mas eu já tô pensando em voltar de novo (risos). É que eu tô vendo casa ali próximo que eu tô querendo voltar, né? Pra ver se eu consigo pôr a Beatriz também, né? E eu também não me adaptei aonde que eu tô morando, né? Que eu tô morando ali atrás do cemitério do Tremembé. Ali no novo armazém né? Ali próximo a Maria Amália. Eu não gostei muito dali, né? Tudo. Tanto que eu falei pro meu esposo: “Ah, não. Quero voltar. Quero subir o morro.” Que tá todo mundo: tá o meu pai, meus irmãos, tudo, e agora a minha mãe trouxe a minha vó de Minas, tudo, né? E também fica um pouco mais perto também pra mim tá ajudando a minha mãe com a minha vó, né, tudo. E eu tô doida pra voltar (risos). E toda vez que eu subo tem um monte de coisa, vou na casa do meu pai, tem umas coisas pra levar pra casa; vou na casa da minha mãe, tem um monte de coisa pra levar... “Ah, isso aqui eu guardei pros meninos. Tá, leva, que é roupa que não serve mais, serve pras meninas.” Falei: “Eu subo o morro com a mão vazia e desço o morro carregada, então é melhor eu voltar logo, né?” Aí eu tô vendo casa pra poder tá voltando, né?

 

P/1 – A Nádia falou que você tinha comentado de gente que sai do morro e depois volta...

 

R – É.

 

P/1 – Sente uma diferença. Como é que é isso?

 

R – É porque você nasceu no lugar, né? Quando você nasce e é acostumado com as pessoas, né, você saí mais tranquilo de casa, entendeu? E quem sai acaba voltando, porque tem lugar que as pessoas... Igual a eu mesma, aonde que eu tô morando, os vizinhos cuidam, igual lá em cima? Cuidam, mas tem uma diferença. Na hora da sua dificuldade, o seu vizinho estende a mão e lá não, aonde que eu moro, você entendeu? Eu mal falo com o vizinho, mal falo, entendeu? E vizinho ali briga à toa, lá em cima eu não vou falar que não briga. Briga, entendeu? O que vai pra resolver, discute, tudo, resolve ali, entendeu? E o pessoal te ajuda. Igual eles falam, você trabalha, então o seu filho tá ali sozinho: “Ah, deixa eu olhar.” Entendeu? “Ah, eu te cobro uns vinte, trinta reais, só pra mim tá ali olhando o teu filho.” Entendeu? Então, os vizinhos te ajudam mais e os outros lugares não tem isso. Tem gente que foi morar... Quer ver uma minha amiga, que agora ela voltou a morar na casa da mãe, ela tava morando na Artur Alvim. Tem dois meses que ela voltou pra vila. Ela falou que ela nem sabia quem era o vizinho do lado. Ela: “Sou estranha no meu próprio prédio.” Quer dizer, se mudasse o porteiro, até o porteiro saber que ela morasse ali: “Ah, você conhece fulana?” “Não conheço.” E lá em cima não.

 

P/1 – Tem mais união.

 

R – Tem mais união o pessoal. Todo mundo tem seus defeitos? Tem. “Ah, eu não gosto daquele.” “Tudo bem. Eu não gosto de você, mas também não cuido da tua vida. Eu também não chego lá na sua casa, ó fulano, como que é isso?” Mas na hora que você tá precisando, te ajuda, tem essa diferença.

 

P/1 – Tá e eu queria saber também do Matheus. Quando ele entrou na Gol, que diferença você percebeu no comportamento dele, no desempenho dele na escola, teve alguma diferença?

 

R – Na escola ficou a mesma coisa, né? Conversador, tudo. Fazendo sempre a lição rápida, que o meu filho hoje ele tem caderno, na sétima série hoje ele tem caderno, porque eu deveria ter guardado os cadernos dele, porque ele não tinha caderno. Eu não sei como que o meu filho fazia pra ter tanta orelha o caderno. O caderno chegava a fechar. Teve uma professora dele do terceiro ano que ele não tinha matéria em caderno, que você não entendia, ele copiava tão rápido que nem ele entendia o que tinha escrito; ou então com preguiça pegava a borracha apagava, apagava com o dedo, a folha furava. Chegava o dia de prova, ele fazia prova, a professora achava aquilo ali o cúmulo e achava que ele tinha colado. Tanto que em uma reunião ela falou muito mal dele: Nossa, eu saí mal da sala de aula. Falei: “Não, o meu filho não é assim, esse marginal que ela tá pintando.” Aí no mesmo dia eu encontrei a professora, a ex-professora dele do primeiro ano, aí contei tudo pra ela, tudo. Ela falou assim: “Nossa, ele não é assim. Eu vou conversar com ela.” Aí ela pegou e tinha falado pra outra professora que deu aula pra ele no segundo ano, aí as duas foram conversar com essa professora do terceiro. Aí conforme as outras reuniões, conversando com os outros pais, ela não tinha falado só do meu filho, ela tinha falado dos outros, tudo, e também ela estava grávida e todo mundo viu que ela tinha tomado bronca da sala toda, porque essa professora ela pegou a mesma turma das outras duas professoras. Falaram: “Não, a minha turma não é assim.” E ela ficava inconformada que como que as professoras elogiavam aquelas salas, elogiava ele. Falou assim: “Olha, eles bagunçam?” “Bagunça.” “Mas na hora que eu explico, todo mundo fica quieto.” “Ó, fulano, vamos fazer o trabalho assim, eu quero revistas, quero jornais.” No dia seguinte, chegava três, cada um levava aquele monte, tinha um que nem aguentava carregar. “Ah, a professora mandou levar essas revistas.” Falei: “Tinha em casa, leva.” Eu mesma, minha vizinha trabalhava de faxina, trazia aquele um monte de revista, principalmente da Veja. Eu mandava tudo pra escola. Então era uma sala que colaborava e acho que também ela estressada com a gravidez, descontou tudo nos alunos, né, tudo. E a fundação só acalmou ele um pouco dentro de casa, né? Cansava ele, era um a menos pra dar trabalho dentro de casa, chegava cansada do serviço, tudo. Ficava correndo: “Fulano, saí da rua. Fulano, ó, tá tarde.” Deu uma acalmada nele. Agora ele tá mais tranquilo, menos falante, mais estudioso tudo e também, né, já tá entrando na adolescência, aí já muda o comportamento, né? Aquela agitação que ele tinha, tudo, ele já tá mais calmo. Aí conforme ele tá andando pela... Quando eu subo pra ir na casa do meu pai, tudo: “Ah, mãe esse aqui é o meu monitor. Ah, mãe esse aqui é fulano de tal.”

 

P/1 – E perguntar um negócio... Quer perguntar alguma coisa, Fernanda? Tá. E, meu Deus, esqueci o que era...

 

R – (risos) Fugiu?

 

P/1 – Fugiu totalmente. É, me fala um pouquinho... Ah, lembrei, me fala um pouquinho como que é a diferença de uma reunião de pais na escola e uma reunião de pais da Gol de Letra.

 

R – A reunião de pais na escola, primeiro, a professora chega falando, lendo um texto, muitas vezes até chato, como se aquele texto fosse mudar a vida de alguém. Pode até ser um ou outro, é raridade. O que ela lê ali é o que a gente passa dia a dia. Que cada pai conhece os teus filhos e os que vão na reunião é os pais presentes, que os pais ausentes mesmo, a gente até acaba escutando do filho dos outros, entendeu? A gente até acaba escutando pelo filho dos outros, tudo. E você sabe o que o seu filho fez. Na fundação eles não apontam: “Ó, o seu filho fez isso, aquele filho é bom, aquele é ruim.” Não. Eles trabalham dinâmica com os pais, tudo. Tem dinâmica, dá palestra: “Ah, vamos fazer uma brincadeira, tal?” “Vamos.” Entendeu? É totalmente diferente de uma reunião de pais da escola. Prefiro a reunião da fundação, eu me divirto mais. Se você vai conversando conforme o tema, né, porque nas reuniões de quarta-feira, as falantes sou eu, a Cleide e um pai que acho que a filha deve ter saído da fundação, né, tudo, e um outro pai que eu nem sei o nome. Então, a gente fala. Tanto que nessa última que teve eu era a única. Eu fiquei quieta. A menina: “Você não vai falar hoje?” “Não, hoje eu vou ficar quieta, hoje eu só assisto vocês, porque só eu que falo.” “Vai, Rô.” Aí fica um empurrando pro outro... “Não, você não vai falar?” “Não, não vou”.

 

P/1 – Então na Fundação você acaba participando mais?

 

R – Eu participo mais. Porque não tem aquela, tá apontando: “Olha, o seu filho fez isso.” E muitas vezes você tá cansada, você veio do serviço ou então vocês tá com um problema em casa, você quer ver, quer distrair a cabeça, entendeu, pra quando você voltar em casa ter a cabeça mais relaxada, ainda tá enfrentando aquele problema dentro de casa, vêm mais problemas, entendeu? Ali eles não apontam. O que tiver pra resolver com você sobre o seu filho, eles não esperam o dia da reunião, entendeu? Seu filho tá faltando, seu filho fez alguma coisa de grave, no mesmo dia te é comunicado. Se não é no mesmo dia, é no dia seguinte porque não deu tempo pra tá te ligando: “Olha, tem como você comparecer aqui na fundação pra falar sobre o seu filho...” Entendeu? Tem o dia e o momento certo; não precisa ser no dia da reunião e a reunião é bem divertida, você brinca muito, é muito gostoso as dinâmicas.

 

P/1 – Teve alguma reunião que te marcou?

 

R – Aí, acho que foi a do ano passado, acho, que a gente teve que pintar as mãos, que eu não cheguei na festa do dia, que eu saí, que agora eu curto escola de samba, né? Eu acompanho meu esposo que ele toca, né? Aí na reunião, a gente pintou as mãos, tudo, e colocamos num pano grande que ia ser erguido no dia da festa. Que eu não cheguei a ir na festa. Só que eu participei da reunião, tudo, e tava todo mundo agachado, pondo a mão, tudo, que foi muito gostoso.

 

P/1 – Que festa que era?

 

R – Acho que era festa de final de ano, de encerramento, que tem sempre agora no meio do ano que eles fazem a feira cultural e tem a de final de ano, a de encerramento. Eu não fui na do final do ano.

 

P/1 – Como que é essa feira cultural?

 

(PAUSA)

P/1 – Então, Rosângela, você podia falar um pouquinho como é que é essa feira cultural?

 

R – A feira cultural divulga os trabalhos que os nossos filhos fazem na fundação, né? Então é uma tarde totalmente dedicada a eles, pra eles mostrarem pros pais e pra comunidade, né, o quê que eles fazem lá realmente. Tem gente que fala: “Ah o meu filho não faz nada, meu filho depois...” Que eu já escutei isso, né? “Ah, meu filho depois que foi pra fundação ficou pior. Tá cantando rap, não sei o quê.” Falei: “Isso vai de cada um. O meu filho não canta rap, meu filho não curte rap.” “Ah, mas o meu filho tá falando as gírias.” “Mas o meu não fala. Muitas vezes o seu filho tá levando daqui lá pra dentro.” Mas ele nem percebe e o pessoal escuta essas coisas de cada mãe... E quando não vai nem na reunião, não vai. Pelo menos não vai. Aí mostra os trabalhos, né, que as crianças têm aula de artes plásticas, teatro, tudo, aí tem uns pais que... Fica um espaço pros pais apresentar seus artesanatos, tem um espaço que dá pra fazer artesanato. E outros: “Ah, eu faço bolo pra fora.” Então é a oportunidade, né, de estar lá vendendo na feira, né? Assim já divulga, né? Que muitas vezes o vizinho está tão correndo e nem sabe que a vizinha começou a fazer bolo pra fora ou então sabe que tá fazendo, mas nunca experimentou: “Ah, a vizinha tá fazendo... Mas será que é bom?” Mas o tempo tá tão corrido que não pára nem pra comer, né? E na feira é uma oportunidade até de saber o que o seu vizinho tá fazendo, né? Que é muito gostoso a feira. Eu gostei o ano passado. Que os outros anos não deu pra mim ir, né? Que ele também não quis participar das atividades. Tanto que o ano passado ele já criou coragem falou: “Ah, não, vou fazer alguma coisa esse ano.” Porque não são todas as crianças que fazem, que algumas querem, as outras já não querem. Então, ano passado ele já se enturmou mais: “Ah, esse ano eu quero.” Falei: “Ó, Matheus, eu só vou lá na feira cultural se você fizer alguma coisa, porque pra mim ir lá pra ver o filho dos outros não tem graça.” O gostoso é você ver o seu filho, o barato é esse, você ir lá curtir o seu filho, o seu filho saber que o seu filho tá ali, entendeu? Que nesse ponto eu sempre fui muito presente com ele. Já o pai não. O pai mora ali do lado. O pai continua morando ali na Gabriel Martins, o pai mora ali do lado, o pai nunca faz nenhuma atividade. Quando eu fui pra ganhar a minha neném, tudo, que eu fiquei uns dois, três meses, eu pedi pra ele poder ir na reunião. Falei: “Pô, você tá aí do lado.” Liguei: “Você tá aí do lado, vai na reunião dele, tudo.” E ele foi? Foi em uma depois não foi mais. O bom que a Olga sabia que eu tinha ganhado neném, tudo, né? Que eu não estava em casa, tava na casa da minha sogra, tudo. Então eu já fui... E ela já sabia, sempre deixei a par de tudo, o pessoal do serviço social. O bom foi isso. Agora, ele não é participativo. Agora sábado mesmo, tem a feira e ele não vai. E é legal, entendeu? Você dá mais... Eu fiquei quatro anos na fanfarra, quase quatro anos na fanfarra, minha mãe nunca foi me ver marchar. Nunca foi. Ela sabia assim: “Nossa, a minha filha está na fanfarra” “Você já foi ver?” “Não.” O que adianta? Fala: “Meu filho trabalha em tal empresa.” Mas se você não conhece o chefe do seu filho, tem graça isso? Não tem, né? Então, eu sempre sou participativa, tanto dele, tanto da Beatriz. Semana passada teve a festa junina da Beatriz, tirei foto dela com as amigas, tudo, foi uma curtição só. O Matheus já não quis isso. Ele não quis ir na festa junina da escola, tudo. Então, eu participo, mesmo trabalhando, quando eu estava trabalhando eu ia, sempre ali, nas reuniões, tanto na escola, tanto na fundação.

 

P/1 – E você falou também da festa do fim de ano, como é que é essa festa?

 

R – Eu nunca cheguei a ir na festa de final de ano, mas dizem que ela é a mesma coisa igual a da feira, né? Que é dois tipos de “encerração”; “encerração” pras férias no meio do ano e dizem que é igual, né? O que muda é pouca coisa. Algumas mães que já foram, falaram pra mim que muda pouca coisa, lá, tudo, né? Não é tudo que muda não.


P/1 – E que evento mais tem?

 

R – Olha, de agora os eventos tão meio parado. Que eu lembro de um que teve o Gol da Cidadania, tudo, que eu ainda tava grávida da Beatriz. Foi tão engraçado nesse dia, em pleno domingo, um sol de rachar coco e a fila tava indo em direção à pedra. O pessoal... Abriu oito da manhã e a fila já tava indo em direção da pedra. Tava enorme a fila, tudo. Aí um colega que estudou com o meu irmão, tudo, viu eu descendo a rua: “Ah, porque o nosso caso, porque o nosso caso...” E eu com um puta de um barrigão: “Eu não vou ficar nessa fila, pra tirar o RG dos meninos...” Na época, só do Matheus, né? Pra tirar o RG dele e tudo. Peraí, que eu vou atrás dos meus direitos. Falei: “Cadê a lei que diz que gestante, mais com criança no colo, idoso...” E tinha um monte. Que ali naquela Vila Albertina brota criança do chão, que eu nunca vi. Brota. Você desce... Toda rua que você entrar, você tem que tomar cuidado, quando você tiver de carro, quando você menos esperar, tem uma criança pulando na sua frente. É criança e cachorro. Um dos dois você pega pra atropelar. Mas tinha muita mãe com criança no colo, aquele sol, ele olhava assim pra mim: “Eu te mato, eu te mato.” Falei: “Ué, cadê? Nós tem os nossos direitos. Você não tá aí gritando parecendo que você tá na feira?” E aquela muvuca que tinha fechado a rua. A minha irmã, ela entrou na fila às nove horas da manhã, que foi a hora que eu entrei junto com ela. Ela conseguiu fazer o RG dela às quatro da tarde. Ela passou o dia, que era muita gente. Aí tava um carro pipa da Sabesp, aí tinha um monte de atividade lá dentro.


P/1 – Que tipo de atividade?

 

R – O pessoal tirava RG, carteira de trabalho, assistia palestras sobre sexo, sobre doenças, sobre... Abordava um pouco de cada. Eu só não assisti todas porque tava cansada, tava com um puta de um barrigão e o Matheus toda hora... O Matheus tinha o quê? Cinco anos. E toda hora corria pra um lado, corria pro outro, eu não tinha pique pra tá correndo atrás dele. Aí eu ia em casa, comia, voltava e ficava lá um pouco com a minha irmã. Minha irmã nesse dia pegou até um bronzeado. Que ela tava de camisa regata, pegou até um bronzeado (risos). Ela disse: “Se eu soubesse que ia pegar um bronzeado, eu tinha ido lá era de biquíni.” (risos) Pra ficar na fila. Que o pessoal ficou na fila ali. Aí foi muito gostoso.

 

P/1 – Você lembra do Dia de Fazer Diferença? Que comentam bastante lá.

 

R – Olha, desse dia eu não cheguei a ir, o Dia de Fazer Diferença. Eu não cheguei a ir.

 

P/1 – Ouviu falar alguma coisa?

 

R – Ouvi, porque todos os eventos que tem lá no Gol de Letra, manda bilhete pros pais. Apesar que tem uns alunos que amassa o bilhetinho e joga fora. Igual ali, ali tem bastante oficina de pães... É gostoso um pão que ela faz (risos). Ela nunca deu pra mim fazer, né? Participar, mas tem agora um de yoga, agora tem pro pessoal, tudo.

 

P/1 – Chegou a ir em alguma das oficinas?

 

R – Não dá. Porque é sempre das seis às sete. Seis e meia, sete horas, a Beatriz tá chegando da escola, aí meio ruim, né? Aí não dá. Aí sempre vai aparecendo algumas atividades lá, tudo, mas sempre alguma coisa não dá pra mim ir. Mas reuniões é lei, eu tô lá então, mas daí eu sempre pego bilhete e levo, igual nessa última reunião estavam falando de um lugar que tava precisando pra trabalhar de um porteiro, aí eu lembrei que um amigo meu que a firma tá falindo, ele tá procurando emprego, né, tudo, catei o folheto, levei pra ele, né, tudo. Dependendo do que tiver, no momento que diz? “Ah, divulga pra mim?” Né, tudo, aí o pessoal divulga nas reuniões. A gente passa pras outras pessoas, tudo, como funciona. É só entrar lá, você liga e vê lá que bicho dá, né?

 

P/1 – E, assim, como é que é o trabalho da Gol de Letra com a família, você se sente envolvida, assim, no trabalho da Gol de Letra?

 

R – Ah, eu me sinto.

 

P/1 – Como que é isso?

 

R – Eles dão mais atenção pra família, né? Eles procuram é conhecer as famílias, quem são os membros dessa família, né? O quê que o pai faz, o quê que a mãe faz, os irmãos, se é de pai separado, se vive só com os avós, entendeu? Não dá ali pra saber onde cada um mora, né, porque é muita criança, mas sempre tem aquele rostinho, né, aquela família que marca, né? Sempre tem algum que marca, né? Igual do episódio que teve dois anos atrás, né, do aluno ter morrido num passeio, né, no MASP [Museu de Arte de São Paulo], que na época que aconteceu, muitos pais tiraram o filho. Chegou a acontecer isso, tudo, que foi a última turma, a turma seis parece, né? Que tinha ido lá pro MASP tudo e os colega contando... Assim, o pessoal vai contando, né? Quem tava realmente já contou outra versão. O menino brincando, desequilibrou e caiu, por falta de obediência dele, né, que diz que o pessoal falava pra ele: “Olha, saí daí, pára.” Entendeu? E não pára. Umas ficaram assustadas, muitos pais ligaram; na época, a Olga falou com a gente na reunião, tudo, teve pais que ligaram, gente xingando a fundação, chamando eles de irresponsável. Eu não acho eles irresponsável. A educação quem dá somos nós, os pais, entendeu? Agora todo passeio... Qualquer lugar pode acontecer qualquer fatalidade com você ou com estranho, principalmente com estranho. O que você vai recomendar pro teu filho? “Olha, você tem que obedecer fulano. Não é legal você ir pra passear, não tá pagando nada, tá indo, não vai precisar levar lanche, leva se você quiser alguma coisinha, lanche é a fundação que fornece, tudo, pra que essa falta de respeito?” Igual teve: “Ah, você vai tirar o seu filho?” Falei: “Não, não vou tirar ele. Ele vai continuar lá. Ele gosta de lá e outra coisa: ele não quer sair, deixa ele lá.” Que o meu ex-marido chegou a falar pra mim: “Ah, vamos tirar ele.” Falei: “Não. Nós não. Quem colocou ele lá foi eu. Eu que batalhei sozinha pra pôr ele lá na fundação, tudo, e pôr a Beatriz na creche. Enquanto você tava aí curtindo a sua vida, eu tava batalhando, agora é fácil falar, ah, meu filho.” Porque ele teve condições de pagar um convênio pro filho operar, e não quis; pagou assim, uns dois meses, depois desistiu, entendeu? E eu permaneci ele lá. Se tiver a oportunidade de a Beatriz entrar, vai entrar. Eu não tiro. Porque tem criança atentada lá? Tem, como tem! Ainda o meu pai fala, o meu pai fala: “O quê que o Matheus tá fazendo aí, ele não é atentado, porque lá o Gol de Letra é pra criança atentada.” Falei pra ele: “Pai, lá não é Febem. Lá não é Febem.” O pai: “Não, porque lá tem causos mais terrível.” Falei: “Nossa! Se ficaram também os mais terrível, coitado do pessoal, né? O pessoal volta pra trás.” Porque vai falar com marmanjo: “Ah, fulano, não faz isso.” “Ah, mas você não é minha mãe.” Que agora todo mundo sabe os seus direitos, né? A criançada... Eu não sabia. Na minha época, eu não sabia. Se gritava comigo ficava por isso mesmo. Hoje não: “Não grita comigo porque eu sei os meus direito.” A criançada já vira isso que a televisão tá aí pra informar. Na minha época já não informavam isso. Só tinha que você escutar do pai: “Tem que obedecer. Não obedeceu lá, chega em casa apanha.” E hoje já não tem isso, né? Tem muitos pais: “Ah, porque eu apanhei muito, eu não quero isso pro meu filho.” Mas aí acaba cedendo demais pro filho e lá fora o filho faz o que quer, né? Não é besta... Acho que tem que ter os dois, né? Tem que ali tá soltando um pouquinho, mas ao mesmo tempo puxando. Que senão como vai ser um adulto?

 

P/1 – Tá certo. E, assim, qual que você acha que é a importância da Gol de Letra envolver a família no trabalho?

 

R – A importância... Que os pais olhem melhor os teus filhos, sejam mais amigos, participem mais da vida dos teus filhos. Que a minha mãe não participava da minha vida. Eu aprendi sobre sexualidade na escola, na quinta série. Não sabia o quê que era uma menstruação! Na quinta série. Que a professora de matemática, na outra escola, ela dava aula de sexologia. Que ela acha que... Ela achou aquilo importante de falar pra gente. Eu fui saber isso por uma professora, não pela minha mãe, entendeu? Minha mãe quando veio saber que eu estava menstruando já, já tinha dois anos já. Porque eu dividia de uma amiga. Uma amiga minha tinha ficado antes do que eu. Aí a mãe dela comprava, mas ela falava pra mãe dela que descia muito, mas não era. Era pra dividir comigo o absorvente. Entendeu? Aí quando a minha irmã começou ainda orientei a minha irmã, entendeu? Minha irmã pegou, me chamou de canto e falou. Não chamou a minha mãe. Meu filho tá com doze anos, ele sabe. Porque ele na segunda série começou a ter aula de sexualidade na escola. Ele chegava: “Olha, mãe. isso...” Eu explicava. E o ano passado, nós fomos numa festa do primo dele, tem a mesma idade que ele, ele faz aniversário em setembro, o primo em novembro, a meninada de doze anos naquela putaria, né? Fazia a roda pro casalzinho se beijar. Eu falei assim: “Olha, Matheus, segura um pouco aí essa euforia que você ainda não tá na idade. Eu sei como é que é, entendeu? Vai estudar, porque o que adianta, você tá saindo com menina hoje, amanhã ou depois, o quê que você vai falar pro pai da menina? Como que eles vão te ver? Aí você vai querer comprar um sorvete, chegar Dia dos Namorados, vai pedir dinheiro pra mim pra comprar o presente dela? Não. Não dá, né? Então não é melhor você estudar, entendeu, arrumar um servicinho... Tudo tem a sua hora. Não precisa você ficar ansioso. Não precisa. Sua hora vai chegar, não se preocupa. Tudo tem sua hora e seu tempo.” “É mesmo, né, mãe. Esse negócio de ficar muito namorando aí acaba fazendo coisa que não deve...” Porque ele não fala sexo, fala “coisa que não deve”. Acaba fazendo coisa... Eu fico... Eu já falo direto. Ele já fica naquele cuidado comigo em como que ele vai me falar as coisas, né? Que ele: “É, aí tem que fazer aquelas coisas, sabe, com cuidado, tudo, porque você engravidou de mim, você tinha dezesseis anos, né, mãe?” Eu falei: “É, eu tinha dezesseis anos.” “É, a senhora veio terminar de estudar agora, né?” Eu falei: “Pra você vê. Já pensou se eu tivesse alguém pra me orientar?” Igual outro dia um homem falou assim pra mim: “Ah, mas você... Se eu soubesse que você tava namorando eu tinha te orientado.” Eu falei: “Qualquer um sabe. Todo mundo foi adolescente, todo mundo foi criança ou adulto.” Sabe muito bem quando entra nos nove em diante que cada um tem sua época. Uns amadurecem mais cedo, outros mais tarde. Sabe muito bem que nessa faixa etária, se você não orientar... Você já tem que começar a orientar, mesmo que a criança não tem nada. Você tem que deixar: “Lá vem com esse papo chato. Mas eu não tô fazendo nada.” Entendeu? Eu não tive orientação. Eu, quando eu procuro... Ele tem alguma dúvida, eu sento com ele e falo, tudo. A outra pequena, não: “Mas por quê que eu não posso fazer isso?” “Beatriz, você não tem idade. Calma, vai ser criança. Não queira ser adulto. Que adulto é chato.” Aí tem hora que ela fica assim: “Ah, não tem ninguém pra brincar” “Ah, você quer ser adulto? Então, peraí, por favor, vai guardar sua roupa, sua cama quero bem forrada.” Ela arruma de qualquer jeito e quando quer arruma bem arrumadinho. A de sete. Ou então, ela pega e vai brincar. Que eu falei pra ele: “Tudo tem a sua hora.” “Ah, mas o Alex tá namorando.” Falei: “É, Matheus, mas esse negócio aí de beija uma, beija outra... Você sabe o que ela tem na boca?” “Não, mãe, não sei.” “Então, né? Ou você acha que as doenças sexualmente transmissíveis é só pelo sexo? É também pela boca. Você sabe se ela tem um sapinho na boca ou uma herpes, ou sei lá o quê na boca? Ou um problema na gengiva e você acaba tendo esse problema na gengiva. No caso dela não tá dando nada, só tá dando assanhamento na boca dela, mas no teu caso, conforme a imunidade do teu corpo, seus dente começa a cair? E aí?” “É mesmo, né, mãe.” “É, a gente tem que saber onde tá pondo a boca, não é pondo a boca em qualquer lugar.” Aí ele: “Ah, é mesmo.” Aí o primeiro... “Agora, pergunta pro teu primo, se ele vai bem na escola.” Porque o primo dele foi chamado pra entrar na fundação, a mãe não quis. Que a mãe falou que na fundação não faz nada. Ela prefere ver o filho dela na rua, empinando pipa, correndo atrás de mulheres, do que fazendo alguma atividade que no futuro dele vai ser muito mais “rendável” pra ele. Também, quando ele for sair com a garota, porque os dois, também não dá, eles vão acabar saindo juntos. Eu falei: “Pô...” Então tá na hora de conversar: “Pô, o cara só pensa em bola, só pensa naquilo que aconteceu na rua dele, não tem o que conversar... O quê que eu vou conversar com ela? Pra que eu quero ser amigo dele?” Vou sair com ele: “Ó, você já foi em tal lugar?” “Não, não fui.” “Mas, por quê? Por quê que sua mãe não tinha condições?” “Não, porque eu não quis.” Pô, peraí. Eu falo pro Matheus: “Olha, curta o período que você tiver na fundação...” Porque todos os passeios ele vai. Ele passeia mesmo. Passeia. “Se tiver oportunidade de você viajar, você viaja, curta. Porque eu não tive essa oportunidade.” Eu não conheço o MASP, meu filho conhece. O Museu, eu não conheço, conforme a correria e também o dinheiro não dá pra ir. Ele conhece. Teatro, eu nunca fui no teatro. Meu filho já foi várias vezes com a fundação, entendeu? Tem lugares em São Paulo que é barato? É, mas muitas vezes as condições no momento não dá de você tá levando todos. Ou então até mesmo de você tá indo sozinha, aí você fala: “Pô, eu vou curtir o negócio sozinha?” Muitas vezes você indo com todo mundo, você acaba gastando mais do que o limite. E indo com os colegas, não; é o momento seu com os seus amigos. Você pode dizer, virar assim pro teu filho, até mesmo pra um parente, falei: “Nossa! Eu fui em tal lugar legal, tudo, com meus amigos. Ó, tirei foto.” Igual eu agora, você viu, eu trouxe só duas fotos. Eu tenho poucas fotos minhas quando criança. Eu tenho sim, foto, assim, de parentes, mas parentes morava longe, e tudo. Outro tempo atrás, eu falei: “Nossa, eu não tenho nenhuma foto minha pequenininha, né, tudo. Uma hora quando eu for lá pra Minas vou ver se eu sento com a prima do meu pai pra revirar o baú dela, pra achar alguma coisa.” Meu esposo tem foto até demais. Os pais sempre gostaram de fotografar os filhos, né, tanto que a minha bebê tem tanta foto... Você entra no Orkut tem mais foto dela do que dos outros. Porque o pai, vai ali na esquina, tá ali tirando foto, entendeu? Vem de outro tipo de criação, está mais presente na vida dos filhos.

 

P/1 – Olha só, como que é o nome dele?

 

R – Do meu esposo? Wellington.

 

P/1 – Como que vocês se conheceram?

 

R – No samba (risos).

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É (risos).

 

P/1 – Na Vila Albertina mesmo?

 

R – Não. No samba ali do lado da Farmácia São Carlos. Ali na Sezefredo, onde que agora é a Dicico. Em frente ali tinha um samba. Eu desci com uma amigas pra comemorar o aniversário de uma delas, foi quando eu conheci ele, né? E eu nem sabia que ele tocava em grupo de samba, eu tinha visto o grupo dele tocar (risos), e nunca reparei nele (risos). Tanto que a minha amiga, o ex-namorado dela tocava no grupo. Eu cheguei a umas duas vezes ver o grupo tocar, tudo. E ela: “É fulano, fulano de tal.” “Ah, tá bom, legal. Deixa eu ir lá pra fora.” Porque samba é sempre cheio, né? Eu vou ficar lá parada olhando pra cara dos caras? Eu não ficava, eu não tinha paciência pra isso. Aí eu ficava andando com as outras: “Ah, vamos andar. Vamos curtir, vamos curtir o lugar. Se der pra ficar a gente fica... Pelo menos, a gente não tá com a noite perdida.” Que tinha uma amiga nossa que a intenção dela era só beijar. Eu tinha até raiva. Antes da gente sair: “Ah, você vai beijar quantos?” “Minha filha, não é loteria, não estou disputando com ninguém. Eu quero ir pra curtir o lugar. Vamos curtir. Calma, sossega aí um pouquinho e vamos curtir.” Conheci ele no samba, tudo, aí depois eu descobri que ele tocava no grupo, aí, nós começamos a namorar, aí ia com ele, tudo, depois eu descobri que também ele tava começando a tocar em escola de samba, tudo. Ele começou a tocar numa escola de samba ali na Engenheiro. Aí, o amigo dele é da X-9, compositor da X-9, sempre chamava ele pra tocar cavaco ou então violão, na X-9, tudo, aí ele foi indo, ele acabou entrando na X-9 que hoje ele é segundo violão, ele faz violão de sete, de sete, não, de seis, lá na X-9. E quando o menino do cavaco não vai, ele faz cavaco também. Aí eu fico nessa agitação, né? De escola de samba, né? Aí tem vezes que dá pra ele me levar, né, conforme a escola vai fazer show pra fora, eu vou com ele, tudo. Aí, conforme... Que no samba, você conhece todo mundo. Impressionante. “Ah, porque eu já toquei naquela escola...” Você acaba encontrando o pessoal pelas outras escolas, né? Aí ele é chamado porque agora começa a eliminatória de samba, tudo, aí o pessoal chama ele pra fazer freelancer, né? Pra tocar cavaco ou violão. Aí vou conhecendo as escolas de São Paulo, né? Aí eu falo que hoje eu conheço os bastidores do carnaval, né? Acompanho desde o barracão, vou lá no barracão, é gostoso. Você vê o esqueleto daquele carro, aí dois minutos você volta e já tá diferente e no dia do desfile tá aquele... Imensidão. E você não sabe como que os caras tiveram criatividade pra tá montando cada peça do carro. Muito legal.

 

P/1 – Vocês são casados, mesmo?

 

R – Não, somos amigados, mesmo (risos).

 

P/1 – Ah, então tá bom. (risos)

 

R – Tá bom! (risos) Que diz quando é assim, dá certo. Que quando casa, separa. Que eu tô já seis anos junto com ele. Há um ano, morando com ele. Então, aí, a nossa vida é de carnaval, né, tanto que finais de semana eu não paro, né? Pra quem não saía, ali, daquele mundinho, Vila Albertina, mês de junho ir lá pra quermesse de Nossa Senhora Aparecida, sábado ou domingo, esperando alguma coisa demais pra acontecer ali, quando ia só nos arredores e voltava pra casa, eu tô andando é muito, mas sempre acaba voltando (risos).

 

P/1 – Quer perguntar alguma coisa?

 

P/2 – Eu acho que...

 

P/1 – Então, a gente tá terminando aqui... Quero falar mais uma coisinha, aqui, da Gol de Letra. Queria que você me falasse, se pudesse traduzir a Gol de Letra em algumas palavras, o quê que você diria?

 

R – Em duas palavras... Como que é a palavra? Ai, tá na ponta da língua, não sai... 

 

P/1 – (risos)

 

R – Soli... Sol... Como é que é... Ai...

 

P/1 – Solidariedade?

 

R – Isso. Que não sai... Eu digo assim, que eles é muito social com a população ali. Que procura ser amigo de todo mundo, igual no episódio do aluno, né? Eles deram todo o apoio à família, tudo, todos compareceram no velório do rapaz, tudo. Eu não conhecia o menino, que você conhece alguns alunos que mora ali na sua mesma rua, né? Que ali é grande a Vila Albertina. Eu nunca vi um lugar pra caber tanta gente como cabe na Vila Albertina. Tanto que tem um cobrador, amigo meu, que fala que Vila Albertina tem um pedaço de Minas, que ali é retiro dos mineiros, que lá tem mais Minas do que os próprios mineiros, ele fala assim, entendeu? Então eles procuram ser amigos de todos, né, e é legal isso, pelo menos você sabe que tem alguém que se preocupa, né? Que você pode entregar teu filho e ficar tranquilo em casa. Você conhece as pessoas, você sabe da onde vêm essas pessoas e já na escola, não. O professor já tem medo do aluno. Hoje eles têm medo, antes não. Na época em que eu estudava naquela escola, você sabia onde seu professor morava, professor chegava, trazia foto, trazia seus filhos, entendeu? Participava mais da vida do aluno. Ali, quando era escola, a diretora sabia onde era a casa de cada aluno. Sabia se o aluno estava mentindo, se os pais tavam em casa ou não, mesmo aqueles que os pais nem vinham em casa, mas sabia. Teve um episódio, com uma colega minha de infância, ela foi atropelada; a gente tava na quarta série. A professora chegou a ir na casa dela pra ver se os pais tavam precisando de alguma ajuda. Que ela tinha sido atropelada na porta da escola. Hoje ela não mora mais lá, né? Os avós continuam morando na Vila Albertina, tudo, mas... O professor, né, o professor foi em casa, tudo, pra ver como que ela tava. Foi o inspetor de alunos, pra saber como que o aluno tava. E deu aquela ajuda pro aluno, pedindo até pros próprios colegas levar trabalho, também, pra tá fazendo, pro aluno não perder o ano. Hoje não tem isso, o professor se foca naquele aluno que sabe. Aquele aluno que tem dificuldade, quer até aprender, tudo, mas tem dificuldade, ou tem medo ou vergonha de perguntar, eles não se interessam. É mais fácil pegar aquele que pegou a lição na primeira explicação do que naquele que tem vergonha de falar que não entendeu, ou que não sabe. Eles procuram sempre o mais fácil, ele não quer trabalhar com a sala. Uma sala de aula não é composta só daqueles que sabem; é composta também daqueles que não sabem.

 

P/1 – E o quê que você acha dessa ideia de pegar os dez anos da fundação através das histórias das pessoas? O que você está achando desse projeto?

 

R – Eu tô amando (risos). Porque tá contando, né, a história da gente, né? Que a Vila Albertina existe, né, que não é simplesmente um pedaço da Zona Norte, próximo ali da Serra da Cantareira, não. Que ela existe, como que ela foi formada, tudo, entendeu? Ali tem gente que trabalha, que é honesta, apesar que tem marginais? Tem. Malandro? Tem, tem tudo, como qualquer outro lugar de São Paulo existe, tudo, entendeu? Que lá não é um lugar só de vagabundo, é lugar de gente trabalhadora, que dali sai todo dia de manhã pra trabalhar, pra levar o sustento pros teus filhos. Que muitas vezes, no fundo da sua casa, vende roupa pra ajudar na renda da família. Ou, então, pega a garagem pra fazer aquele barzinho, aquele mercadinho, que sabe que o colega, conforme tá correndo, não tem tempo de passar no mercado. Acha que ali, pelo menos, tá do lado de casa, adianta um pouco.

 

P/1 – E quê que você achou de dar essa entrevista?

 

R – Adorei! (risos) Eu gostei muito. Eu pensei que vocês tinham esquecido de mim? (risos) Que me ligaram da fundação, que tavam ligando pros pais, pros pais subirem, né, irem até a fundação, que muitos pais não tavam conseguindo escrever. Tanto que eu falei pro meu esposo: “Olha, eu vou falando um troço, você vai escrevendo, depois a gente vê o quê que vai pôr no papel, o que não vai pôr.” “Ah, mas você não deu o telefone lá pro pessoal?” “Dei, mas acho que eles não vão ligar que é tanta gente... A gente vai conseguir?” “Ah, quem sabe, né?” “Vamos ver, né?” Aí a moça tinha me ligado, não deu pra mim ir na fundação, né? Aí o prazo de entregar o papelzinho já tinha acabado, na outra reunião passada eu não fui, eu fui só nessa, né, tudo. Aí, nessa reunião, as meninas falaram: “Olha, gente, quem ainda não deu o seu depoimento, dá, é legal, é assim, assim, assado.” Eu falei: “Então tá. Vou escrever.” Escrevi nada, não tive tempo (risos). Os filhos não deixa (risos).

 

P/1 – Mas tá aqui contando...

 

R – Tô aqui contando.

 

P/1 – Tá certo. E tem alguma coisa que a gente não perguntou que você acha que deva falar ou registrar? Alguma coisa que ficou faltando?

 

R – Que ficou faltando... No momento eu não me lembro.

 

P/1 – Quer perguntar alguma coisa?

 

P/1 – Então é isso aí. Brigadão.

 

R – Obrigada a vocês. (risos)

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