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História

“Queria ganhar asas”

História de: Edna de Jesus de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Família grande. Infância no sítio em Tessalônica, Pará. Culinária paraense. Caminho para escola em Tessalônica. Mudanças de escolas e cidades. Mudança para Tucumã, quando fugiu de casa com seu namorado. Casamento, gravidez, dois filhos. Curso de datilografia, trabalho em um escritório. Sonho em crescer profissionalmente. Mudança para São Paulo. Trabalho em diferentes cargos na Blue Kids. Representante comercial na Telecom. Viagens internacionais. Curso de cabeleireira. Após muitas mudanças de cidades, se estabelece na Comunidade Zaki Narchi, Zona Norte de São Paulo. Síndica do prédio. Faculdade de Serviço Social. Pandemia.

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História completa

P/1 – Edna, pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.



R – Eu sou Edna de Jesus de Lima, com cinquenta anos de idade, nasci na cidade chamada Irituia, Pará, e moro aqui em São Paulo, na comunidade.



P/1 – Qual é a data do seu nascimento?



R – Dezenove de fevereiro de 1971.



P/1 – Quais os nomes dos seus pais?



R – Inácio Schumber de Lima e Maria de Jesus de Lima.



P/1 – E o que eles fazem, ou faziam?

 

R – Meu pai é carpinteiro aposentado, minha mãe é falecida tem sete anos.



P/1 – Como você os descreveria, o jeitinho?



R – Ah, os meus pais foram minha vida, né? Tudo família grande. Já o irmão do meu pai é uma pessoa, assim, maravilhoso. Sou a filha mais velha, meus pais sempre me defenderam. Meu pai, minha mãe era mais brabinha, mas meu tudo. Não tinham condições financeiras, mas tinham… encaminhavam a gente pra ter o melhor que eles.



P/1 – E você sabe como eles se conheceram?



R – Minha mãe foi órfã de pai e mãe, criada por uma família e próximo da onde meu avô, no caso, meu avô Rofele é também, eram próximos, iam pra mesma comunidade aos finais de semana e minha mãe conheceu meu pai assim, numa cidadezinha pequena, num município chamado Tessalônica.



P/1 – E você tem irmãos?



R – Somos em nove irmãos. A família é bem grande.



P/1 – Como é a sua relação com eles?



R – Muito legal, a família é bem grande. Estão todos bem, a gente sempre teve um relacionamento bom, a gente sempre conversa, sempre a gente está no grupo da família, sempre se comunicando, aquela coisa gostosa. Agosto passado, não esse agora, no retrasado, a gente foi todos pra lá, pra Belém, encontramos todos os irmãos. Porque, depois que a minha mãe faleceu, então, como mora cada um numa cidade, a gente não tinha se juntado todos, então fomos todos, ficamos todos reunidos. Você imagina a festa. Gostoso.



P/1 – Sua família é de lá, eles ainda moram lá?



R – Sim, aqui em São Paulo tem só um irmão meu, que mora em Suzano. Todos moram em Belém do Pará, outros moram em Mosqueiro, que é uma cidade praiana. Outro mora em São João de Pirabas. Outra mora numa cidade chamada Acará. Tem um que mora em Irituia, outro mora na cidade de Timboteua, uma cidadezinha, Timboteua. E outro mora no sul do Pará, numa cidade chamada Xinguara. Bastante irmãos.



P/1 – Cada um num lugar?



R – Isso. Tem uma também no Amapá (risos). Tem mais uma no Amapá, né? E creio que a Maria Elmira também é de Irituia também. E, assim, cidades bem grandes.



P/1 – E como era, na sua infância, sua relação com os seus pais?



R – Muito legal, muito gostoso, aquele povo de uma cidade pequena, que eles trabalhavam com lavoura. Meu pai sempre teve lavoura, plantação de algodão, plantação de arroz, lavoura. E era aquela família bem grande, todos pequenos, os filhos todos pequenos, mas sempre a gente estudava, nós andávamos acho que uns sete quilômetros, pra ir pra escola todo dia. Aí era aquela coisa bem simples, bem pobre mesmo, mas a gente foi levando a vida assim, era bem gostoso, bem… aquelas crianças felizes. A gente do norte, pobre, é feliz com qualquer coisinha. Um lápis novo era uma festa, né? Final de ano era maçã, que a gente amava maçã verde. Final de ano, a festa era muito gostosa. Era maçã verde. E o queijo da capa vermelha, que a gente amava. Então era assim: no Natal não podia faltar uva, maçã verde e queijo. Então, aquilo ali marcava a infância da gente. É uma coisa que a gente vê no mercado, hoje a gente lembra da nossa infância, uma coisa gostosa.



P/1 – Que cheiros te lembram tua infância, comidas ou datas comemorativas, vocês tinham esse costume?



R – Tínhamos. Minha mãe era muito de fazer aquele... o bolinho de aniversário, de todos. Então, exemplo: fez aniversário hoje, fazer um bolinho que fosse de mandioca. Ela fazia aquele bolinho. O paraense come muito açaí. Então, açaí é normal você chegar na casa de um paraense e ter lá, toda tarde, o açaí. É normal. E não é com açúcar, a gente come com farinha, como se fosse um pirãozinho com farinha, mais um peixe assado, alguma coisa. É a cultura paraense. Lembra… é assim: maniçoba é uma comida também da gente, da nossa infância. Quando tem em algum lugar aquilo, é muito bom o cheirinho. As frutas são cupuaçu, que é de lá mesmo do Pará. Então, são as frutas, algumas coisas, assim, que São Paulo quase não tem, mas que lembra muito a nossa infância.



P/1 – Você sente falta?

 

R – Hoje em dia, o mercado está muito amplo. Então, você consegue. Você não consegue o natural, mas, assim, você consegue a fruta, você… a fruta em si, não, você consegue, por exemplo, uma polpa da fruta. Você consegue um creme, você consegue um sorvete, alguma coisa assim, que mata um pouco da vontade (risos).



P/1 – E os seus avós, Edna, você os conheceu?



R – Sim, minha vó morreu com 56 anos. Ela foi... não sei se exatamente do que minha vó morreu. Aquela senhora que era muito ativa e morreu. Depois, com uns dez anos, meu vovô morreu, o vovô Rofele morreu também. A minha mãe era órfã, então não cheguei a conhecer. Mas, assim, a minha infância, com meus avós, era muito pouca. Era aquela coisa, assim, que eu lembro, na época eu tinha cinco aninhos. Mas alguma coisa na minha mente aparece, sabe, lembra a minha vó.



P/1 – Você lembra de alguma coisa, algum dia, que vocês passaram juntos? 



R – A vovó gostava de botar eu pra, desde pequenininha… normalmente os paraenses gostam de subir em árvores. E ela me colocava pra apanhar caju. Então a gente ia colher muito caju, com esse caju maravilhoso, então ela me colocava, meio, assim… o cajueiro é uma planta que não cresce, ele cresce meio que assim, né? Então, ela me colocava pra apanhar os cajus e não podia deixar, colocava no saquinho, descia, apanhava. Assim, da minha vó era aquilo e pegando leite também, de manhã. Ela ia pegar o leite… todo mundo tem uma vaca pra tirar o leite. Então ia ali, tirava o leite daquela vaca, daquela vaca única, que era do leite, era mansinha. Então, eu sempre ia com ela, eu lembro. Aos domingos, porque como eu morava com meus pais, longe. Mas, assim, era domingo, então sábado, que é final de semana que ia pra casa dela e eu sou a neta mais velha, de menina, então era o xodó da vovó. Mas eu era pequenininha, assim. Não tem muita… só que eu lembro que ela falava: “Apanha, você consegue, vai, apanha o caju!” E eu lembro disso. E a roupa também. Caju mancha. Então, às vezes, com a roupa natural, ficava toda manchadinha do caju. Muito pouco, assim, as lembranças de minha avó.



P/1 – E Edna, principalmente na infância, como foi ser irmã mais velha? Você tinha muita responsabilidade?



R – Não. Ao contrário. Meus irmãos… o meu irmão que eu tenho, o Elias e o Isaías são meus dois irmãos mais velhos. Então, eles eram muito assim, tipo, protetores, porque era menina. Aquela coisa bem, sabe, isso é… sempre fui… eles foram meus protetores. Eu nunca tive problema com responsabilidade porque, normalmente, no norte as mulheres têm muitos filhos. Aí, assim, um pequenininho cuidando do outro. Como meu pai tinha uma condição melhor, minha mãe quase não trabalhava na roça. Então ela cuidava dos filhos, das comidas, das coisas. Então, eu não… eu fui sempre mimada. Sempre fui mimada. Não tinha, assim, aquela criança que andava com meus irmãos, ou tinha que olhar alguma coisa. Não, era… fazia as coisas depois de já grandinha, começando a aprender, porque mamãe colocava pra fazer. Mas, assim, responsabilidade, não. A família bem calma. A minha mãe era uma pessoa que era evangélica, sempre foram evangélicos, meus pais. Mas minha mãe era uma pessoa bem que gostava das coisas bem-feitas, bem caprichada, bem limpinha. Então, aquela infância era bem… lembra bem, no final de semana fazendo biju, fazendo os pães, fazendo pra semana toda. As comidas pra semana. Era muito legal, assim. Minha infância foi bem… nossa, minha infância, assim, não [foi] sofrida. Fomos pobres, mas não sofrida. Meu pai ia pra cidade levar um caminhão de algodão. E ele vinha, ele vinha com aquilo ali e com fardos de coisas. Não comprava um quilo de nada, sabe? Era um fardo de arroz, era um fardo de jabá, que a gente come muito jabá lá. Era um saco de biscoito. Então era uma vida bem, acho que era farta, era fartura, bem farta. Assim, fartura de… lá nas situações da roça, né? Tinha aquela, não era de passar fome, de morrer de fome assim, não. Tinha as dificuldades, mas pra gente ter aquilo era normal. Exemplo: não comprava roupa toda semana, calçado toda semana, que não tinha, mas o básico da gente tinha sim, sempre, sabe?



P/1 – E, pequenininha, como era o seu dia a dia, que atividades você fazia, você ajudava em casa? 



R – Sim, minha mãe criava galinha, porco, essas coisas assim. Como eu falei pra você, não tinha aquela responsabilidade, mas eu adorava apanhar os ovos, então apanhava os ovos, né? Minha mãe lavava roupa era no rio, não lava, assim, que nem a gente lava em máquina hoje. Era no rio, mesmo. Então, vamos supor, pra estender, estendia já ali na beira do rio, pra estender. Então, as panelas, ia lavar e o dia que ia lavar, ariava. Então, tinha os pauzinhos de colocar as panelas. Mas não tinha aquela responsabilidade grande não. Exemplo: pra descascar o milho pra fazer uma pamonha, vai, vamos tirar o cabelinho do milho, aquelas coisas básicas que mamãe coloca uma criança - assim, uma criança, né, eu tinha, pequena - pra estar acompanhando.



P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?



R – De quando eu nasci? Eu nasci na cidade de Tessalônica, nessa cidadezinha, a gente foi criado ali. Por eu ser menina pequena, não tem assim, bem o que, pequenininha, nasci normal, parto normal, lá com a parteira, lá na roça mesmo, na roça que eu falo, sítio. Então meu pai ia lá buscar, quando a minha mãe estava com nove meses, aquela pessoa pra ficar, que chama parteira. Então, ia buscar aquela pessoa pra ficar na casa, até ter o bebê. Tinha o bebê, dois dias ia embora, era assim que fazia, o bebezinho era assim (risos). 



P/1 – E você sabe como foi pra escolher seu nome?



R – Sim, meu nome era pra ser Edilene, porque a vizinha da minha mãe, que era uma das amigas que ela criou, foi criada junto, teve Adna. Minha mãe achava lindo esse nome de Adna e meu pai falava pra não colocar um nome tão parecido, aí, entre Edilene… aceitaram colocar, minha mãe foi e falou: “Não”. Meu pai queria sempre Edna, minha mãe queria Edilene e aí ficava naquela brigaiada de nome, decidiram colocar, em vez de mudar o nome, colocou Edna, um nome pequeno. Fui apresentada na igreja, igreja evangélica, bebezinha. E, na época... meu nome é Edna, porque na época era Edna Fagundes, uma cantora muito famosa. Então, aqui, era uma cantora famosíssima, como, ai… não sei te falar o que… estava no auge naquela época, então essa Edna Fagundes, por isso meu nome meu pai colocou, em vez de ser Adna ou Edilene, ele colocou Edna. Eu gosto do meu nome, Edna (risos).



P/1 – E como era a vizinhança? Tinham sítios em volta?



R – Sim. Eu não sei te falar, porque, assim, são glebas de terra. Então as terras são, não sei se é cem metros, mas, assim, cada pessoa tem… passa estrada… cada um tem. Vizinhança eram famílias que todo mundo se conhecia ali e sempre… é normal, família normal. As crianças, quando iam pra escola, normalmente iam juntos, pra ir junto naquela estrada, que era longe, uns seis, sete quilômetros pra chegar na escola.



P/1 – Vocês brincavam juntos?



R – Sim, costumava brincar juntos. Mas, assim, mais finais de semana, porque como a gente estudava de manhã, ia pra escola, quando voltava, já estava uma hora, uma e meia naquele sol quente do Pará, escaldante, então cada um ficava nas suas casas. Assim, raramente você vê essas crianças muito juntas, brincando. Era mais final de semana mesmo, ou quando vai ter, exemplo: “Vamos fazer um café da tarde?” Aí as mães se encontravam, as crianças brincavam juntos. Mas, assim, nunca fui aquela menina de estar sozinha, nos cantos, correndo, não. Sempre foi, que a minha mãe sempre estava junto, fui criada junto mesmo, assim, junto.



P/1 – E que lembranças você tem desse trajeto da escola? Vocês iam pela estrada, mesmo?



R – Era, pela estrada. Raridade ir a pé, raridade ter alguém, passar pra dar uma carona, porque é uma estrada de terra. Então a gente sempre ia a pé. Lembranças, frutas, mangas, porque o Pará, eles plantam, em vez de plantar um pé de árvore qualquer, eles plantam uma planta que seja uma fruta. Então, é tanto, você anda no Pará, é muito fruta, tu não vê qualquer cidadezinha, um pé de planta normal, essas plantas que tem aqui. Não, é um pé de abacate, é um pé de manga. Então a gente era muito danado, a gente comia muita manga. Tempo de manga, nossa, era tudo de bom, nossa, ficava sempre juntando as mangas, aquelas mangonas, a gente juntava tudo.



P/1 – No caminho da escola, vocês já iam comendo?



R – Sim, e aí, cadê... quando a gente, porque, pra não sujar a roupa, não deixar mancha, não tinha como limpar, porque a manga suja. A gente ia e levava pra comer lá na escola, pra lavar a mão lá na escola, pra não sujar a roupa, porque tinha que ter aquele cuidado com a roupa. Aí, quando voltava, não. Aí sim, se lambuzava tanto, se lambuzava tanto, chegava em casa toda lambuzada de manga.



P/1- Sua mãe e o seu pai iam juntos, ou era só _________ ?



R – Não, era raro papai ir junto e a mamãe também, irem juntos, porque como eles trabalhavam. Porque, quando meu irmão era pequeno, pequenininho, meu pai levava só o irmão pequeno. Mas depois que o meu irmão já ficou maiorzinho, porque a gente, lá, começa a estudar com sete anos, então comigo com sete, minha irmã já deveria estar com uns dez anos, já era bem maiorzinha, então a gente ia já todo mundo junto. E sempre tinha mocinha, que ia todo mundo junto, aquela fileira de criança pra escola, sabe, sempre ia, das vizinhanças, até chegar lá na escola. Então, sempre dava o horário pra ir junto, todo mundo, um na frente, outro atrás. Sempre, sempre… porque, por exemplo, da nossa casa lá, se desse uma hora de viagem, da outra casa, da outra pessoa, já ia dar o quê? Trinta minutos, vinte minutos e assim por diante.



P/1 – Que lembranças você tem da escola?



R – A escola, eu não sei te falar exatamente o nome da minha escola, mas a escola de Tessalônica, que é no município de Irituia, é aquela escola, é… não lembro se é estadual, se é da prefeitura, não lembro pra te falar exato. Mas era muito legal, porque, exemplo, todas as festividades eram… e eles usam muito a escola com aquele foco de fazer festa, de comemorar, de comemorações. O Sete de Setembro é a maior festa do mundo que tem, nessa cidade pequenininha. Então, Sete de Setembro, pra mim, está na minha memória. As roupinhas de desfile, bandeira, era roupa coloridinha. Assim, nos pelotões, fazia desfile mesmo nas escolas, era a coisa mais linda do mundo. Então na minha infância, falou escola, infância, Sete de Setembro. Era muito legal. E todos os dias cantava o Hino Nacional, era muito legal. Todos os dias cantava o Hino Nacional, antes de entrar nas salas. Então, todos os dias, era muito bonito. E todos de uniforme, nada de ninguém sem uniforme. Mas a cidade é bem pequenininha, bem pequenininha mesmo. Talvez uns dois mercadinhos, uma farmácia, uma igreja, uma escola, coisas poucas (risos). 



P/1 – E teve algum professor que tenha te marcado?



R – Professora Eulália. Que lá, assim, era da primeira até a quarta série. Então a professora Eulália era minha professora, dondoquinha, preferida, sabe? Sei lá, a professora Eulália era minha professora da infância, que eu lembro sempre.



P/1 – Por que ela era a preferida?



R – Então, ela foi a minha primeira professora. Aí, devido ser o horário da manhã, então, aquelas crianças eram com os professores, então aquilo ali me marcou muito. Mesmo estudando, passando de - porque cada sala era uma série – de série, mas eu via a professora Eulália todos os dias. A professora que me marca até a quarta série é a professora Eulália.



P/1 – Depois você mudou de escola?



R – Sim. Aí, depois, que aí eu já estava com o quê? Uns doze pra treze anos, eu creio, mais ou menos isso, não tem mais a quarta série em Tessalônica, é obrigado ir pra Irituia. Então, aí meu pai, nessa época meu pai já mudou pra mais próximo ali, vendeu aquela terra, aquela fazenda que ele tinha lá, de algodão e veio bem mais próximo aqui da cidade, era bem perto, bem pertinho. Coisa de quinhentos metros, era bem pertinho mesmo. Aí de lá, a gente já pegava um ônibus pra ir pra escola, em Irituia. Que era o ônibus que vinha de uma cidade chamada Capitão Poço, passava lá e a gente ia, nós íamos, já foi a quinta série, quinta, sexta, sétima, oitava, foi pra lá, pra Irituia. Aí eu fiz a quinta série. Quando foi na sexta série, a professora Zenaide também, a mãe dela era de Tessalônica e ela pediu pra minha mãe se eu poderia ir morar com ela lá. E aí eu gostava muito dela também, tinha aquela… uma amizade, ela era uma professora jovem, uma professora jovem e aí eu fui pra morar com ela, lá em Irituia. E ela casou, veio ter um bebezinho depois e eu fiquei morando com ela até os meus quinze anos, meus quinze anos. Morei em Irituia até a minha sétima série.



P/1 – Você foi sozinha, ou algum irmão foi junto?



R – Não, não, só eu sozinha, mesmo. Mas aí eu ficava… morava com ela lá, mas sempre que minha mãe estava indo ou vindo, estava sempre a vendo, todos os finais de semana. Era quando eu vinha pra casa, também, da minha vó, que era pertinho de onde meu pai comprou essa última terra. E aí, final de semana eu ia pra lá, pra casa da minha vó, com meu pai, minha mãe ali, meus irmãos e, nessa época já, já estava já mocinha. Meu pai já morava nessa cidade chamada…. nesse povoadinho chamado Tessalônica.



P/1 – E como foi essa mudança, de poder sair de casa?



R – Nossa, foi bem... pra minha mãe foi, assim, terrível. Aí minha mãe teve uma nenê, que é a próxima depois de mim e depois de mim teve o Ezequias, depois teve a Eliane. Aí, então, tinha uma menininha, e a minha mãe… só que meu pai, o meu pai é olho de águia, ele pensava: “Não, vai deixar essa menina aqui, morando aqui, só na quarta série? Não, a Edna não, ela vai estudar, na época era mais difícil o estudo, eu quero que cresça, não quero que tenha vida aqui, aqui não vai ter, se ficar aqui, não vai ter”. Então, assim… a minha mãe aquela coisa de pegajosa: “Mas minha filha, não sei o quê”. E eu já mocinha, falava: “Não, mãe, mas eu venho ver você, eu não vou te abandonar, eu quero ir, a senhora deixa?” No primeiro momento ela não queria aceitar de jeito nenhum. Como que... falou: "Aí, eu _________ Dona Zenaide”. A Dona Zenaide foi lá, falar com ela, tudo. E eu falei: “Não, mas ela vai ter responsabilidade, eu quero estudar, quero ser alguém na vida e aqui como eu vou ficar, só na quarta série?” Que não tinha. Aí minha mãe falou: “Tudo bem, vai, então”. E aí eu fui. Já estava maiorzinha e fui pra Irituia, que é o município mesmo, onde eu nasci, Irituia.



P/1 – Como era o dia a dia? Você ia pra escola, voltava…



R – Eu estudava na parte da manhã e a professora Zenaide dava aula tarde e noite. Aí na parte da tarde, eu ficava. Aí depois ela veio e engravidou. Eu ficava com o bebê dela à tarde. Eu estudava de manhã e à tarde ficava com o bebê dela. Quando era pequenininha. Eu fiquei dois anos com ela, dois anos só, com a professora Zenaide. Uma professora maravilhosa. Só sei que eu tenho muita lembrança boa dela. E eu sempre fui muito vaidosa, sempre gostei de cor de esmalte, coisas assim, brinco e ela sempre comprava aquelas coisas coloridas pra mim, ela era um amorzinho. E ela falava... a gente, quando vai morar na casa de uma pessoa, você não vai dormir o dia inteiro. Você, lógico, tem os afazeres de casa e eu sempre fui muito esperta. Eu queria aprender a fazer bolo, ela que pagou o curso pra eu aprender a fazer bolo. Eu falava: “Ah, eu queria fazer bolo”. Ela fala: “Então, o dia que você não for pra casa da sua mãe, daí você aprender a fazer bolo”. Aí eu fazia aqueles bolos maravilhosos. Aí, nos aniversários, eu queria fazer bolo e ficava torto, todo queimado, derrubava, mas fazia, Aí, quando eu voltava pra finais de semana, pra casa da minha mãe, aí eu que fazia os bolos. Mamãe não pagava pra fazer bolo, mais, era eu que fazia, uns bolos duros (risos). Até hoje uns bolos duros, mas é assim, coisa de infância. E eu achava muito legal. E as coberturas eram margarina e Ki-suco. Era horrível (risos). Era Ki-suco, era aqueles Ki-suquinho, sabe? Você não conhece, você não sabe nem o que é isso, mas é o Ki-suco, é um negocinho pequenininho, é um suco de Tang mais miniatura, que faz dois litros, fortíssimo. Pra mim, o Ki-suco era muito… e colocava o Ki-suco e açúcar e a margarina e fazia, pra fazer as florzinhas, aí botava pra meio que secar ali, pra poder depois confeitar. Então eu queria muito, eu achava muito lindo os bolos, aqueles bolos lindos, assim. Queria fazer, eu aprendi com a Zenaide, eu agradeço a ela, que ela me ensinava as coisas.



P/1 – Como foi se formar na escola, acabar?



R – Então, aí, depois, quando… a oitava série, quando eu passei da sétima pra oitava, vem outra história, sempre mudei. Aí eu fui, eu tive um problema na vista e eu tinha que ir pro hospital, Hospital Guadalupe, em Belém, na capital. Meu pai me levou, mesmo com a professora Zenaide, mas o meu pai me levou pra fazer um tratamento navistas. Porque lá na escola que descobre, tem exame de vista, aquela coisa toda, como hoje. E aí eu tinha um problema na vista. Inclusive, já fiz umas duas, três cirurgias. Aí, lá em Belém, como meu pai é evangélico, ele conheceu uns pastores e um desses pastores que meu pai conheceu lá na igreja, próximo dos meus tios lá, foram visitar na cidade do meu pai, convidaram pastores de fazer pregações na cidade do meu pai. E, nesse momento, lá na cidade, que foi lá na casa, que eles foram conhecer Tessalônica, aí eu conheci a esposa deste pastor. E ela falava assim... chama Damaris, pastor João _______ e a Damaris. Aí, eles falaram: “Ah, mas por que ela não vem morar comigo aqui?” Mas eu não queria ir pra Tessalônica de volta, que não tinha… e eles foram pra Tessalônica, terminar de fazer o pastorado, alguma coisa assim, lá em Tessalônica. Falei: “Como que... não, não quero ir. O dia que você mudar daqui e for pra outro local, outra cidade que tenha estudo, pode me chamar que eu vou, porque os pastores ficam dois anos no campo, um no outro, outro no outro. Aí isso eu estava mais ou menos na sétima série, com a Zenaide, quando eu conheci esse pessoal tudo. Veio que eles mudaram pra uma cidade chamada Vila Concórdia, esses pastores mudaram. O que aconteceu?



P/1 – Continua sua história. 



R – Então, aí, conhecendo a Zenaide... a Damaris, aí a Damaris foi e falou que o dia que ela mudasse de Tessalônica, se eu quisesse morar com ela, que ela gostou muito de mim, do meu jeito, que eu poderia ir. Daí a Damaris tinha um casal de filhos e foram morar nessa cidade de Vila Concórdia. Vila Concórdia é no Pará. Vila Concórdia já era uma cidade com mais pessoas. Já tinha festas, já tinha dois colégios maiores. Então já tinha até o primeiro, segundo e terceiro. Então já era aquela cidade mais movimentada. Você, por ter rio próximo, então era uma cidade bem movimentadinha, muita feira, muito, uma cidade, eu acho que era… se eu te falar hoje exato, mas era pimenta do reino que era a moeda daquela época. A pimenta do reino, então, era forte. E aí eu fui morar com ela e fiquei com ela ali, o quê? Um ano e meio, mais ou menos, morando com ela. Estava no primeiro, fazendo… eu fiz a oitava na Vila Concórdia e eu comecei o primeiro. E lá vem história. Aí, depois, nessa ida pra Tessalônica, vendo meu pai indo pra lá, tatata tatatá, eu estava com dezesseis anos, quinze, dezesseis anos, aí foi, eu conheci uma pessoa, namorinho escondido da mãe (risos). E ele morava numa cidade chamada Tucumã, sul do Pará. Aquela época, quem tinha um celular, nem existia ainda celular, era um negócio desse tamanho, com a antenona. Então, quem tinha o celular, quem tinha já se sentia, era o cara, sabe? E aí ele era todo assim, era mais velho, era uma pessoa mais velha e a família dele morava lá, nessa cidade, lá em Tessalônica, lá onde eu era criancinha. E, nessas idas e voltas, terminei conhecendo-o. Ele era, na época ele tinha 27 anos, eu acho, era nove anos mais velho do que eu. E essa pessoa foi embora. E a gente ficava se comunicando por carta. Carta. Ficamos um ano escrevendo correspondência, correspondência. E fui pra... estava lá na Zenaide, depois eu fui pra Vila Concórdia, continuei escrevendo, passei um ano, aí ele falou: “Ano que vem eu vou aí”. Aí, pra namorar, naquela época, namorar sério mesmo, assim, casar, tinha que pedir pros pais. Nisso, meu pai mudou pra Vila Concórdia. Vendeu aquela terra lá de Tessalônica, a segunda terra que ele morava, que minha vó já tinha falecido, e aí só estava meu vovô e meu pai falou assim: “Ah, a roça de plantação de algodão não está dando tanto mais dinheiro, vou vender a roça de algodão e vou comprar uma roça de pimenta-do-reino”. Foi o que ele fez. Foi pra Vila Concórdia, lá ele comprou pimenta… uma roça de pimenta-do-reino, fazenda e pimenta-do-reino, e veio ficar ali. E eu fiquei. Meu pai foi pra lá, mudou. Meu pai mudou pra... não, espera ainda, antes dele mudar estava naquela... fazendo negociação, deu um ano que meu príncipe encantado veio. Meu pai não deixou. Foi pedir em namoro, meu pai não deixou, minha mãe não deixou, porque era um homem mais velho, que meu pai não queria aquilo, que eu ia estudar, que eu ia ser uma doutora, que eu ia ser alguma coisa, menos filho, nesse momento não, nem casamento. O que eu fiz? Fugi. Lá no norte foge! (risos) Fugi, minha filha, eu fugi pro Acará, essa outra cidade que hoje meu irmão mora, Acará. Fugi pra essa cidade, fui pra Tucumã, embora.



P/1 – Sem avisar ninguém?



R – Sem avisar ninguém. Eu saí do colégio. Eu saí do colégio. Que loucura! História, né? Ninguém faz isso. Eu fugi. Aí eu fui embora pra lá, com essa pessoa. Eu tinha dezessete anos. Estava com dezessete anos, fazendo o segundo e fui embora e terminei ficando. E deu aquela história, virou a cidade e aí veio polícia e veio… é assim, né? Lá é desse jeito. E a filha do meu pai: “Imagina, pai”. Pegou e foi atrás de mim, na cidade onde eu estava, Tucumã. Três dias de viagem de ônibus, indo de Vila Concórdia pra Tucumã. Realmente já tinha montado uma casa, tinha saído a casa montada e casa, tudo, tudo, a casa montada pra… dele, comprou uma casa mesmo, e aí eu fui, morei lá, morei com ele. Aí meu pai foi, foi atrás: “Já que a trouxe, então, vai casar” (risos). Meu pai era bravo. Tipo: “Tira a minha filha do sonho, vai ter que casar”. Aí eu fui e casei, mas eu estava apaixonada. Casei. Daí, depois vem história... depois de dois anos eu já engravidei da primeira filha, que é da Leici. Ele trabalhava em madeireira. Tucumã é movida a ouro e madeira. Então, ele trabalhava na madeireira, dessa madeireira ele foi trabalhar com ouro. Ele trabalhava com exportação de ouro. Então, eu, assim, pras meninas, pras mulheres que moravam ali, em Tucumã, uma cidade pequena, mas é luxuosa. Uma cidade pobre e luxuosa, tem lojas de tudo, roupa, marcas, as meninas andam de roupa, é na pedra, de salto. Então lá, se você puxar na internet, as lojas, marca, usava marca, na época, coisas caras. Então ele tinha condições, por ser um garimpeiro, por ter, ele tinha condições melhores lá. E ele trabalhava, ficava vinte dias fora, trabalhando nos garimpos de ouro. Nas bocas. Tanto que o apelido dele era Jacaré, Jacaré se chamam as pessoas que ficam na boca, pegando os ouros. Então, eu tive dois filhos, saí… dois anos depois tive o Rangel. Primeiro eu tive a Leicilene, depois eu tive o Rangel. Foram criadas as crianças, já tinha casa, tinha tudo montadinho. Aí foi essa minha gravidez, foi uma gravidez tranquila. Minha mãe, pra ter minha filha, fui ter em Vila Concórdia. Voltei lá pra ter a minha bebê lá, que era uma cidade, aquela cidade movimentada, maior. Então fui ter próximo da minha mamãe. A primeira neta do meu pai, né? (risos) Foi assim. Aí, depois, voltei. Aí ele veio me buscar, né? Eu fiquei até um mês, até o bebê ficar com um mês e ele veio, já me buscou. Fomos de volta pra Tucumã. Aí Tucumã, aquele ano, de primeiros dois anos de casamento, de filho pequeno, bebê, engravidou. Aí eu voltei a estudar, porque eu queria terminar o estudo. Aí já engravidei de novo. Falei: “Não quero ter mais filho. Doutor Alexandre, o que eu vou fazer, que eu não quero ter filho. O que faz, porque tem mulheres que não tem filho, o que faz?”. Aí ele: “Ou cirurgia pra não ter filho, ou você vai ter que fazer tabelinha”, foi me dando, o ginecologista, e eu falei: “Eu não quero, eu engravidei sem... foi muito rápido, dois anos”. Tanto que os meus filhos nasceram dois anos exatos. Os dois são [do dia] quatro de setembro, mesmo dia de aniversário de um, o outro nasceu. Então, foram duas crianças pequenas e eu não estudei, fiz um cursinho de datilografia, aquela época era datilografia. Fiz o curso de datilografia, pra trabalhar na empresa que era a madeireira, que era a mesma empresa que fazia os garimpos, fazia, tinha o... a mesma que era garimpeira, era madeireira. Naquela cidade de Tucumã. Tucumã tinha a vida, pra mim, ali estava ótimo. Aí, na datilografia eu fui fazer pra trabalhar no escritório lá, com o pessoal da própria empresa madeireira. Mas ele vinha muito tempo, ele ficava muito tempo. Aí foi ficando, em vez de vir um mês, com dois meses, ele vinha três meses, quatro meses. Aí eu descobri que se… descobri método pra não engravidar e eu não quis mais gravidez. Aí, nessa época, depois passou, eu sempre ia todo ano pra minha família, pra Vila Concórdia. Meu pai já não quis mais ter fazenda de pimenta, porque era muito difícil acesso, pra ter um caminhão, pra ele voltar. Então, ele não tinha um caminhão, ele tinha que pagar os caminhões com a pimenta. O que meu pai fez? Voltou pra uma cidade chamada... no quilômetro quatorze, não é uma cidade, é pequeno, voltou pra lá. Já aí colocou minha mãe numa casa grande, aquelas casonas enormes, na cidadezinha. Com… casa de piso, alvenaria, porque até então, morava na de tábua. Depois, tinha uma vidinha da minha mãe melhor. E que aconteceu? Essa época, que eu viajava… aí ele não viajava, eu viajava sozinha. Ele falava: “Ah, eu não vou viajar, não. Não gosto de viajar não. Vai só você, com as crianças”. Então, assim, eu nunca tive problema, graças a Deus, com o dinheiro. E se eu quero comprar essa bolsa, eu tinha o meu dinheirinho. Se eu quisesse comprar, viajar e comprar uma roupa pros meus filhos, eu tinha dinheiro. Então, eu ia lá na empresa, pegava, eu tinha livre acesso. Aí, nessas viagens, vai e volta, vai e volta pra Belém, três dias de viagem com as crianças. Então, eu ia duas vezes no ano, uma vez no ano, eu ia pra cidade da minha mãe. A família tudo grande, um mora numa praia, outro mora noutro... Imagina, uma menina com vinte anos, com dois filhos, 21 anos eu tinha, com dois filhos. E aí aquele homem já se achava velho, que estava lá com seus 37, quase, anos já, é 37, mais ou menos, acho. E ele era alcoólatra, ele bebia. Uma excelente pessoa. E esse, por ele ser alcoólatra e veio ter diabete. Diabete. Então, ele era, ele inchou, ficou gordo e ficou um velho, um senhor, um senhor com... um jovem, ele era jovem, mas ficou uma pessoa velha, envelheceu. Imagina, pegando fogo, a cidade, viajando tudo, minha filha. O Rangel estava com dois aninhos e a Leicilene com quatro, dois anos de diferença. Aí, eu lá em... já indo pra Vila Concórdia, vendo meu pai, minha mãe. Aí eu fui conhecer Altamira. Fui conhecer Altamira, que era uma cidade próxima. Conhecer com amigas, coisa e tal. Aí, nessa cidade de Altamira eu gostei, amei Altamira. Falei: “Nós vamos morar aqui”. Aí eu pedi pra ele, falei: “Eu não quero morar em Tucumã, eu moro sozinha mesmo, eu não quero morar em Tucumã. Eu vou morar em Altamira, eu achei, gostei muito de Altamira”. Aí ele: “Ah, você vai morar em Altamira”. Eu falei: “Vou” “Ah, se você for, você vai então, se vira”. E ele não queria, porque ele ficava lá, nos matos, pra lá. E aí eu peguei e falei: “Vou, então”. Só que ele não imaginava que eu ia. Aí, o que eu fiz? Fui na empresa e, ah, eu trabalhava na empresa também, lá. Fui na empresa, peguei o meu dinheiro, falei: “Tô indo embora, tô mudando”. Aí eu liguei pra ele, eu falei: “Ó, tô precisando de dinheiro”. Ele: “Tá precisando de quanto?” Eu falei assim: “Ai, tô precisando de dinheiro, eu vou embora”. Ele falou: “Você está louca?” Falei: “Sim, eu vou, eu preciso de dinheiro, eu quero ir embora, não vou ficar aqui, sozinha aqui”. Tucumã era aquela cidade, assim, movimentada, tudo, mas eu não queria ficar em Tucumã mais. Queria ganhar asa. Aí ele: “Não, não, mas você não vai”. Falei: “Vou”. Aí ele veio, quando ele falou, eu fui no escritório da empresa, que era a mesma empresa e fui pedir pra ele se podia liberar um dinheiro, porque eu queria embora. Aí ele falou: “Tá, entrega tudo que ela quiser”. E eu falei: “Quanto ele tem?” Ele mandou entregar, passou rádio, naquela época não existia telefone, era rádio, mandou entregar, passar o dinheiro, ‘seu’ Florisvaldo me passou o dinheiro, eu falei: “Tô indo embora”. Estava procurando caminhão. Alguém do caminhão falou, foi na empresa, alguém comentou que eu estava indo embora. Ó, filha, bateu na porta: “Tá indo embora?” Falei: “Tô. Tô indo embora”. Falou: “Não, você não vai”. Falei: “Eu vou embora, não quero ficar aqui, mais. Você viaja, não fica em casa”. E não estava, não tinha mais aquele relacionamento. Aí foi que ele não queria deixar, aí eu fui na polícia, fiz boletim de ocorrência, falei que eu ia embora, porque eu não queria, eu queria ir embora. Aí, eles, na época, lá, porque eu tinha medo dele, porque, assim, por ele morar e trabalhar no mato, as pessoas… lá os garimpeiros todos têm arma, tudo tem, eu tinha arma, na época, dentro de casa. Acho que todas as mulheres, têm. As pessoas lá, você vai na casa, você bate, tem um cachorro, tem um… todo mundo tem, então, é normal ali. Normal, é normal, você chega na sala, tem um pendurado na parede, é normal. Assim, hoje não sei, mas, naquela época, sim. E aí, de lá, eu peguei, decidi que eu não queria mais, falei pra ele, como ele veio e falou tudo, aí ele pegou: “Tá bom, então tu vai, então some”. Eu peguei e sumi, eu peguei e fui embora. Aí, só que aí ele imaginou que, depois que eu fiz tudo aquilo, tatata, toda aquela confusão, ele achou que eu poderia voltar atrás e falei: “Não, não quero, eu quero ir embora mesmo”. Aí eu fui embora pra… aí eu fui pra Altamira, daí Altamira…



(44:32) P/1 – Como que você foi, de caminhão?

 

R – Não, aí, então, aí que eu falei: “Não vou levar então, não vou levar mudança”. Porque eu tinha uma casa montada, falei: “Não, não vou levar mudança”. Eu peguei essa mala, fui com a mala de rodinha, na época, mala de rodinha era chique (risos). Comprei mala, peguei o dinheiro. Na época, eu tinha pegado, vamos supor, hoje, uns duzentos mil reais. Eu tinha dinheiro guardado, eu tinha poupança, eu tinha o dinheiro da empresa e ele, como ele estava com rolo, sempre tinha, o rolo, peguei como se fosse hoje duzentos mil. Que duzentos mil dá pra você comer uns dois anos sem fazer nada. Aí eu falei, ele tinha liberado, tinha pegado, até então ele veio, ele não reclamou do dinheiro, nada: “Você quer ir embora, então vai, então some”. Aí eu sumi, peguei e fui embora. Só que ele falou aquilo naquele ar de briga, de confusão, achando que eu não ia ter essa coragem, e eu fui. Mas eu não fiquei parada, eu cheguei em Altamira e eu já fui trabalhar, procurei serviço. Aluguei um lugar pra mim, como se fosse uma kitnet, meus filhos e aí eu procurei um serviço, já consegui um serviço, que era em madeireira. Lá tem muita madeireira. Fui trabalhar não no escritório, fui trabalhar de cozinheira na casa da família, dessa família que é lá de Altamira. E ali eu coloquei meus filhos na escola, tudo, aí eu fui e falei: “Não, vou ficar pelo menos três meses aqui, depois vou embora pra minha mãe”. Porque, qual era o meu medo? Dele ir na casa da minha mãe e me achar lá. Então, eu não queria mais, estava muito decidida. Sou muito decidida. Aí eu falei: “Eu não quero mais esse relacionamento, eu vou pra minha mãe”. Aí, esse pessoal que eu trabalhava, nessa casa, são pessoas muito bem, em Altamira, falavam assim pra mim: “Se você quiser vir morar aqui, tu mora”. Mas eu falei: “Não, eu quero ter a minha independência”. Então, como eu tinha dinheiro, não falei que eu tinha dinheiro, né? Mas, como eu tinha dinheiro, eu pagava meu aluguel, montei… peguei uma kitnetzinha bem perfeita, kitnetzinha, montadinha. Coloquei meus filhos. O Rangel com três aninhos, a Leicilene com cinco, coloquei na escola, porque eu queria que fosse pra escola, que até então, em Tucumã eles não estudavam, que eram bem bebezinhos, não tinha creche, não tinha nada. Então, aí, lá em Tucumã... na cidade de Altamira, no final do ano eu fui pra minha mãe, pra minha mãe, falei: “Mãe, eu separei, tô nessa situação”. E ele foi atrás de mim, na minha mãe, de volta. Eu imaginei, falou tudo. Aí, só que aí eu falei pra minha mãe, realmente já sabia que eu tinha separado, que eu estava em Altamira, que eu estava lá, trabalhando em casa de família, já tinha telefone pra você ligar, já tinha… já era, estava mais avançado, não tão ruim, naquela época. Aí, a partir daquele momento, ela falou: “Você vai fazer o que, com duas crianças?” Falei: “Mãe, pra sua casa eu não volto. Eu tô bem, tô tranquila, eu quero terminar os meus estudos, eu fiz o curso de datilografia, a única coisa que eu fiz casada foi o curso de datilografia e eu vou arrumar um serviço melhor pra mim, nesse momento eu tô lá, mas eu não sei, eu vou ficar lá pelo menos mais um ano e depois eu vou, eu não quero ficar, eu quero ir pra São Paulo” “Fazer o que, em São Paulo?” Eu falei: “Eu quero conhecer São Paulo”.



P/1 – De onde surgiu essa ideia?



R – Ideia de querer conhecer o mundo, de querer crescer, de querer andar. Aí eu falei: “Eu quero conhecer São Paulo”. Aí tudo que, exemplo: eu ia num lugar, algum lugar, eu ficava vendo o comentário das pessoas, ia no hospital, algum canto, queria ver comentário, eu sou muito observadora. E aí, numa daquelas idas em alguns cantos e o pessoal que eu fazia, que eu cozinhava só almoços, lá só almoçava, depois, falou: “Vai ter um evento na cidade”. Sempre lembra que cidades pequenas tem muitos eventos. Eu fui num desses eventos, um dos eventos era um leilão. E, num desses leilões, uma pessoa de São Paulo leiloou um dos gados nelores, alguns dos bois, que é muito dinheiro, lá do meu patrão. Aí teve o jantar, comemoração, tudo. Aí eles marcaram o final de semana lá e foram pra lá. Lá eu conheci esse senhor. Era um senhorzinho, tinha, ‘seu’ Benedito, um empresário de São Paulo, ele é da Coral, vende químicas pra Coral. O escritório dele fica aqui na Avenida São João. Ele falou: “Nossa!” Aí me apresentaram, lá, ele falou assim: “Ah”. Eu falei assim: “Eu quero ir conhecer São Paulo” - cara de pau - “Você mora em São Paulo?” Ele: “É, moro em São Paulo” “Quero conhecer São Paulo”. Ele falou assim: “São Paulo é uma oportunidade pras pessoas que querem conhecer”. Era em 1998, mais ou menos. Meu filho, naquela época, tinha uns três, cinco aninhos. Aí eu liguei pra minha mãe, falei: “Mãe, eu conheci uma pessoa, um senhor e esse senhor é de São Paulo, eu vou ficar, só vou ficar, completar uns trinta dias aqui e depois eu vou pra São Paulo”. Ela falou: “São Paulo, você não vai pra São Paulo, não, você é louca? São Paulo, não! Eu te deixo ir pra todo canto, menos São Paulo” “Mãe, quero ir pra São Paulo!” “Não vai”. Aí, conclusão, indo pra São Paulo… aí, indo pra minha mãe, aí a minha mãe falou: “Então, você vai pra São Paulo, você não leva suas crianças, deixa essas crianças comigo” - lá, já no quilômetro quatorze – “... você vai em São Paulo ver como que vai ser a vida lá, se você vai conseguir um serviço melhor (risos) e aí, se você quiser ir, vai, mas as crianças, nesse momento, não”. Falei: “Você fica com as crianças?” Ela: “Sim, fico, fico com as crianças”. Aí eu fui, voltei pra cidade de Altamira, terminei os trinta dias, falei com meus patrões que eu vinha pra São Paulo, que tinha conhecido aquele senhor, mas aquele senhor, amigo mesmo, pra eu trabalhar, no caso, em São Paulo, ele me daria uma força até eu ficar. Tomar um rumo da minha vida. E foi uma pessoa que me ajudou, sem interesse, sem nada. Foi uma pessoa que, realmente, literalmente, me ajudou. Aí eu comprei passagem e vim pra São Paulo. Ele me acolheu por quatro meses, na casa dele. Ele era um senhor viúvo, ele tinha um filho. O filho dele é da Editora Abril. E ele falou, me deu um quarto: “Você vai ficar no seu quarto”. Uma pessoa que sempre me respeitou, não tive… foi um senhorzinho que me ajudou. Incrível, eu conto essa história, ninguém acredita. E ele falou: “Olha, tu…”. Comprou, quando eu cheguei na rodoviária, ele me buscou, aí ele falou pra mim: “Você não vai ficar muito tempo parada, eu sei disso. Então, o que você vai fazer? Eu vou te comprar um jornal”. Me comprou um Jornal da Tarde e falou: “Esse jornal aqui, você lê, vê se te interessa alguma coisa”. E eu li. Aí, quando eu vi: “Precisa de pessoas pra trabalhar”. Eu: “Nossa, quanta oportunidade de emprego em São Paulo! Pronto, me achei”. Sabe aquele jornal, que ele comprava jornal todo dia. Aí, eu lendo jornal, consegui trabalhar como auxiliar de costureira. Eu morava na Lapa, ali, na Lapa e com dois meses, no máximo, já estava trabalhando de auxiliar de costureira. Ele falou: “Faz um curso”. Fui pra Sigbol, fiz um curso na Sigbol. E eu tinha aquele dinheiro guardado ainda. Não tinha gastado todo o dinheiro, deixei um pouco pra minha mãe, mandava todo mês dinheiro pra minha mãe. Já comecei a trabalhar na Blue Kids, uma fábrica de costura, na Blue Kids e o salário não era mal. Depois eu fiz o curso de costureira piloteira, que tinha que ter uma qualificação pra trabalhar na empresa. Uma empresa, não era tão grande, tinhas uns doze funcionários, só, mas era muito certinho. E a Isabel falou: “Edna, faz o curso”. E eu fiz o curso. Já comecei ir pras máquinas. Aí fiz o curso piloteira, eu fui piloteira da empresa, fiquei sendo… piloteira é fazer a primeira peça. A pessoa desenha, coloca aquela peça, você tem que montar a primeira peça. Já vê se tem que fazer detalhes, se vai ter que mudar. E era infanto-juvenil, as roupas da Blue Kids. E eu fui pra… depois, aí, a empresa cresceu muito. E tinha que levar, a Isabel, que é a dona, as peças-piloto no shopping, pra apresentar. Não sei se pode falar marca, de nome, pode? Era pra C&A, Renner e Riachuelo e não sei se é Zara, alguma coisa assim. Só sei que, pronto, levava nessas lojas, que tinha pouquíssimo shopping. Então o Shopping West Plaza. E ela falou: “Como aqui...” - era na Barra Funda que ela trabalhava - “Edna, você faz a peça-piloto, mas você vai ter que sair das meninas, que você vai ter que sair, rua”. Falei: “Tá bom”. Porque, eu ia sair pra rua, pra levar as peças da loja. Ela falou: “As outras pessoas... você se destaca muito bem, você é muito comunicativa, você vai pras lojas, oferecer nas lojas. Falei: “Tá bom”. Aí mudou o salário, ficou melhor, isso com dois anos. Eu já estava dois anos em São Paulo. Todo final de janeiro ia pra Belém, ver minhas filhas. Então, eu viajava. Aí, o que ela falou pra mim? Ela falou: “Você quer continuar na empresa? Então, você vai trabalhar agora não como costureira, mas você vai ser representante comercial”. Falei: “Ótimo, bom”. Porque eu conseguia vender, conseguia levar duas peças e oferecer pras empresas, nem que fosse cem peças, a C&A ficava, a outra, a outra ficava, a Renner ficava e conseguia passar. Aí ela contratou mais funcionárias e ela falou: “Nossa, está ótimo, na rua”. E expandiu a empresa da Isabel. Aí depois eu fui pro Rio de Janeiro, ela começou a oferecer peças no Rio de Janeiro, só sendo representante comercial já, da empresa. E, numa dessas representações, almoçando no Shopping West Plaza, eu conheci uma pessoa. Aí eu fiz curso, nisso eu fazia curso, eu estudava já, em São Paulo. Já estava com meus filhos em São Paulo, já fui buscar lá meus filhos. Consegui alugar uma casa e trazer meus filhos pra São Paulo.

 

P/1 – Como foi ficar esse tempo longe dos seus filhos?

 

R – Pesadelo. Era horrível, porque eu queria… mas só que eu sabia que faltava quatro meses, cinco meses, pra mim já estar voltando pra vê-los, eu já estava montando, já tinha conseguido, foi muito rápida a minha mudança. Quando eu pensei de trazê-los, eu fui fazer o curso, eu saía do serviço, que era o dia inteiro e já ia fazer o curso na Sigbol, que era na Vila Mariana. E eu falava: “Com as crianças aqui, como vai ser?”. Aí eu falei com a minha mãe, eu mandava dinheiro todo mês pra eles, porque, até então, o pai, como eu fugi do pai, não tinha como eu pedir dinheiro pra ele, pensão, alguma coisa. Aí eu falei: “Não, eu vou buscar meus filhos e vou manter alguém”. Nessa mudança muito rápida, na minha vida, de costureira pra uma piloteira, da piloteira pra representante comercial, eu via muitas pessoas nos shoppings. Fui pro Shopping Internacional, tanto o de Guarulhos, como ia nas lojas e sempre precisava de uma língua. Falei: “Ah, vou estudar”. Aí fui estudar inglês, aí fui e estudei inglês, uns seis meses, mais ou menos, foi péssimo, foi mal, nada de inglês. Aí eu falei: “Vou tentar italiano”. Aí também, italiano foi mais ou menos. Eu falei: “Não, quero outra, francês”. Aí fiz, amei o francês. Aí fiz o curso de francês. Num dos almoços, o povo almoçava na rua. Então, num desses almoços, no restaurante, eu conheci uma pessoa que era representante comercial internacional. E aí começou a falar e eu vi que ele falava francês, muito difícil o português. Aí comecei a me comunicar com ele. Ele era da Telecom, na época era Telefonica. E ele trabalhava na Telecom. Ele falou: “Eu tô precisando de pessoas pra viajar”. E época da Copa do Mundo, que foi feito em uma cidade chamada Abidjã, na África do Sul. Era o foco, estava precisando de representante comercial pra trabalhar lá. Eu falei: “É, mas eu não sei inglês, mal francês, que eu tô fazendo curso”. Ele falou assim: “Você vai pra uma entrevista?” e marcou uma entrevista. E eu fui pra entrevista. Ligou pra mim, falou: “Tem como você trazer toda a sua documentação, fazer passaporte, pra viajar daqui quinze dias?” Falei: “Sim, sim”. Meus filhos já estavam em São Paulo, já estavam aqui, em São Paulo já. Já tinha vindo com a mudança deles pra cá.



P/1- Você estava morando onde?



P/1 – Em uma cidade chamada… aqui em São Paulo? Guaianases. Morei em Guaianases. Porque as meninas, que é a Marli, que era muito minha amiga da empresa, que a gente tinha muito, mais um relacionamento, morava lá em Guaianases e eu fui, aluguei uma casa próximo da Marli, porque a Marli tinha uma menina na idade da minha filha e então ia pra mesma escola, junto. Então, ficava próximo. Então, a mesma perua que levava a filha da Marli, levava a minha filha, e meu filho. E ficou ali, aquela coisa bem próxima. Aí, nisso, falei pra Isabel: “Isabel..” “O que foi?” “De você eu não posso fugir, vou te falar a verdade: eu arrumei um... fiz uma entrevista, passei nessa entrevista e já entreguei a documentação, já foi aprovado e eu vou trabalhar na Telecom” “Como assim, Edna? Não”. Falei: “É, foi uma oportunidade que surgiu pra minha vida e a oportunidade vem e bate na porta uma vez, eu não posso deixar essa oportunidade”. Aí a Isabel falou: “Então”. Fez lá uns contratos do dinheiro que tinha, tudo mais. Essa época meu dinheiro acabou. Não tinha mais dinheiro porque, mudança de Belém, traz filhos pra cá, paga babá. Eu pagava, queria morar numa casa melhor, não queria um... tirar meus filhos da casa da minha mãe. Cada um dos meus filhos tinha um quarto na casa da minha mãe ali, aquela casa enorme. Como ia sair dali e trazer meus filhos pra morar mal? Tinha que morar bem, as crianças. Então, assim: os meus filhos, quando chegaram em São Paulo, era aquela curiosidade. Meu filho já estava com seis, minha filha com nove aninhos e aquelas crianças curiosas. Querer saber o que é isso, o que é aquilo. O mundinho, a minha filha veio no mundo das Chiquititas, a minha filha queria ver Chiquititas. Então, aquela coisa de criança. Então, eu fui aquela mãe sempre que eu quis também, deixar os meus filhos conhecendo as coisas. Fui, viajei pra… aí fui, tirei o passaporte, o documento, recebi meu direito com a Isabel, fiz os trinta dias lá, com ela, na empresa. Perdi dinheiro. Assim, foram dois pra três anos com a Isabel. E já fui viajar. Aí deu uma loucura, uma virada na minha vida, assim, ó. Viajando, internacional. Cada quinze dias, vinte dias, eu ficava vendendo, era aquela mocinha do aeroporto que vendia fichinha telefônica. Sapatinho, uniforme, cabelinho, coquezinho. Uniformezinho estilo aeromoça do aeroporto, pra poder vender. Então, eu ficava, primeiro meu trabalho, onde foi? África do Sul, na Copa do Mundo de 2000, eu acho que foi 2000, eu não lembro de falar exatamente o nome... o ano. Mas véspera de Copa do Mundo, ali, Ronaldinho, que era época, ele estava no auge dele e eu fui pra… viajei vendendo fichinha de telefone pras pessoas que chegavam no aeroporto e queriam fazer uma ligação. Então, tinha fichinha internacional, pra poder… colocava no orelhão, pra ligar. Era Telecom. Aqui, no Brasil, era Telefonica. Aí eu fiquei… eu tive um contrato, fiz um contrato por dois anos com a empresa. Fiz o contrato com dois anos, trabalhei os dois anos e esses dois anos que eu fiquei na empresa foi… eu consegui comprar minhas coisas, consegui mudar, um up total, foi quando eu tirei carta de motorista, quando eu comprei minha casa própria. Eu sempre fui muito econômica, sempre guardei dinheiro, eu sempre tive poupança, sempre quis guardar aquele pouquinho, que eu não sei o amanhã. Então, assim, deu uma boa mudança, deu um up na minha vida. Aí, pra viajar, eu precisaria estar arrumada. Precisaria estar… gastava muito dinheiro em salão. Conheci uma menina que era, que foi de Santa Catarina, que viajava junto também, a Inês. Aí, nessa viagem pra Santa Catarina, férias, quando tinha férias da empresa, eu ia pra Belém, pra minha mãe, com meus filhos, outra vez pra Santa Catarina. Amei Santa Catarina (risos). Lindo!



P/1 – Antes de Santa Catarina, eu queria saber como foi… teve alguma viagem que foi muito marcante pra você, nessa época?



R – Das viagens que eu fiz, internacional?



P/1 – Aham.



R – Sim. Uma das viagens que eu fiz, que foi marcantíssima, indo pra Abidjã, chegou no aeroporto de Lisboa. Ali, a conexão deu algum problema na minha documentação, conexão. Então, aquela viagem, pra mim, foi marcante. O que aconteceu? Edna ficou em Lisboa, em um dos melhores hotéis, pela empresa, pela TAP, acho que era pela TAP. Fiquei nos hotéis e eu não ficava no hotel, eu ganhava a rua, eu queria conhecer, eu queria ir. Então, eu ficava andando em Lisboa. Amei Lisboa! Uma cidade encantadora, aquelas ruas e aquelas coisas lindas. Maravilhoso. Falei: “Pronto, na minha velhice, eu vou morar em Lisboa”. A palavra tem poder. Aí eu falava assim - aí o sonho de mãe, né? “Meu filho vai ser um policial, um bombeiro, alguma coisa assim. Ai, minha filha vai ser aeromoça”. Sonho de mãe, da Edna, de mãe. Aí, nessa viagem, que essa foi muito marcante, eu conheci, me apaixonei, continuei viajando, tudo, mas, assim, Lisboa ficou na minha cabeça, na minha memória. Lisboa entrou, eu falei que eu vinha, queria conhecer. E continuei viajando, porque aí eu fazia Lisboa, fazia França. Quando faltava alguém que não tinha pra ir porque, como eu fiz o curso de francês, então eu não sabia escrever a gramática, mas pra falar o básico, ali, ouvir, vender uma ficha. Eu sabia fazer o curso, eu conseguia vender uma ficha em francês. Então, aquilo ali, pra mim, era tudo, eu conseguia, era das melhores. Eu batia minha meta, minha cota fechava, dobrava. Sempre fui, sempre dei o meu melhor em tudo o que eu ia fazer, me jogava em tudo, naquilo. E, assim, depois eu… como eu fiquei…. terminou o meu contrato. Foram dois anos. Aí a Telecom comprou, o Brasil comprou. Telecom que comprou, o Brasil. Comprou, ficou o quê? Telefonica, né? Que era a tal Telefonica aí e tiraram todos os orelhões amarelos e colocaram os coloridos, verdes, coloridos. Então, foi nessa época. Aí o meu contrato terminou e a empresa que eu estava viajando, aí não contratou mais, porque vendeu, a Telecom comprou. E aí eu fui mandada embora, mas foi quando recebi o meu dinheiro da empresa, tudo que foi o dinheiro, nossa, consegui ajudar minha mãe, que ela estava lá em… um pouco. Mas eu consegui ajudar. Eu conseguia manter uma vida melhor. Aí eu mudei de Guaianases, foi o tempo que eu fui conhecer a minha amiga, através da viagem. Fui pra Santa Catarina. Amei a cidade. Eu queria uma cidade calma, pra criar meus filhos. Uma cidade tranquila. E eu gastava muito dinheiro em beleza, o que eu fiz? Fiz curso de cabeleireira.



P/1 – Lá em Santa Catarina?



R – Não, eu fiz em São Paulo. Eu fiz aqui em São Paulo, quando terminei o meu contrato, porque eu já estava, como já tinha ido pra Santa Catarina, de olho lá e lá é muito barato. Exemplo: uma casa com três dormitórios, em Santa Catarina, duas suítes, garagem, área, tudo ao redor, casa de vinte metros, que é uma mansão em São Paulo, aqui custa um milhão, lá você compra por... trezentos mil? Eu tinha o dinheiro, fui lá, pá, comprei. Uma casa na Avenida Quinze de Novembro, na principal, tudo. E montei um salão com essa amiga, no Centro. Era alugado o local, o espaço. Montamos Dia de Noiva. Chique. Um dos melhores. Anúncio na rádio, anúncio na televisão. Aí fiz o curso de cabeleireiro pra alongamento, extensões capilares. Alongamento, tudo estilo de alongamento de cabelo, eu fiz os cursos na Teruya. E na Ikesaki. Aí tinha que montar, fiz, tudo certinho, montei toda a empresa, tudo direitinho. Só que não tinha cliente. Investi um dinheiro num lugar que não tinha cliente para aquela altura. Porque, quando estava fazendo curso, eu trabalhei no Copan, aqui em São Paulo. Copan é só pessoas classe... que gastam, que eu gastava lá no Copan. Então, quer dizer, eu gastava, deixava mil reais, na época, no cabelo. Fazia uma escova e gastava absurdo no salão. Então, eu falei assim: “Nossa, eu não vou… como eu vou sobreviver agora? Voltar pra costura, eu não vou. O que eu vou fazer com esse dinheiro? E o que eu vou fazer da minha vida?” Falei: “Não, eu tenho que montar alguma coisa, algum negócio que dá dinheiro, que vai virar dinheiro. Pronto, eu gasto dinheiro no salão. Se eu gasto X por mês, porque que eu não posso virar esse X e vir pra mim, de volta, em dobro?” Foi onde eu fui. Aí, em Santa Catarina, aquela casa maravilhosa, aquele… pensa num mundo dos sonhos, uma cidade chamada São Miguel do Oeste, é o mundo dos sonhos. Linda a cidade, linda, tudo igual. Você não faz uma casa sem tirar planta da prefeitura. Não existe você fazer um puxadinho, não existe nessa cidade. Cidade lá é muito bem detalhada, é linda, tudo, nossa, tudo muito perfeito. Então, eu amei, foi a cidade dos sonhos. Mas não tinha cliente pro curso que eu tinha feito, então eu montei um negócio numa cidade que as pessoas lá são tudo loirinhas, cabelos enormes, fazer alongamento em quem ali, naquela cidade? Não tinha como. Aí eu falei: “Não, não dá” (risos). A pessoa não se programa, não faz o planejamento da vida. Tipo: eu queria fazer, eu gastava em São Paulo, não Santa Catarina. Edna volta pra São Paulo, vai pra São Paulo, que em São Paulo você vai estourar, vai. Voltei pra São Paulo, foi quando eu voltei pra São Paulo. Vendi a minha casa de lá. Só que a casa de lá, que você… o que eu gastei na casa, pra construir, foi um absurdo. Que eu comprei a casa e fiz mudanças e gastando um dinheiro, tudo luxo, tudo top. Casa com banheira, casa chique. Que é uma mansão aqui, lá é uma casa, que lá eles são assim. Aí vou fazer o que da minha vida? Não, aí eu fiquei lá um ano, só gastando. Quando você está num nível de gastar dinheiro, exemplo, se você almoçar todo final de semana numa churrascaria, você não vai querer fazer comida de final de semana, você vai querer gastar na churrascaria. O que acontece? Você vai gastar, então eu gastava dinheiro, eu gastava. Eu saía, eu gastava. Eu estava no mundo que ainda era de quando eu viajava. E aí eu falei: “Não, volta pra São Paulo, o dinheiro está acabando”. Conta, o dinheiro foi indo. Só o dinheiro foi indo, o dinheiro saindo. Aí eu voltei pra São Paulo. Foi onde eu aluguei ainda pra morar em Osasco, de primeiro momento morei em Osasco. Mas aí eu não gostei do jeito da cidade de Osasco, achei que não era, aí eu comecei a pesquisar onde que eu ia morar e o dinheiro acabando. Aí eu falei: “Não”. Eu vendi o carro, tinha um carro melhor na época, vendi, comprei um carro, já fui… dei uma freada. Onde que eu vou ficar? Aí fiquei morando de aluguel, depois eu falei: “Não, vou fazer...”... como já era cabeleireira, trabalhava no Centro de São Paulo, na Quinze de Novembro, ali na Sé. Trabalhava ali, no salão. Era uma loucura, vida de cabeleireiro, em São Paulo, é bem corrida.

 

P/1 – Como que é?



R – Mas a vida de cabeleireira… porque, assim, você trabalha… pra trabalhar num salão, como era, eu trabalhava no Copan. Depois fui trabalhar em Santa Catarina. E, quando, vou te falar, salão de classe, não tem muito cliente e você ganha mais. Mas, nessa minha mudança, que eu vim, eu fui trabalhar num salão do Centro. Eu olhei quantidade e fui trabalhar, e realmente ganhava dinheiro, que era muito cansativo. É puxado. Das oito da manhã às dezessete horas e fecha a porta e fica lá com a cliente, até sair. Então desse tempo pra cá, quando eu cheguei em São Paulo, de volta, aí foi onde que aconteceu, pra chegar na Zaki Narchi. Eu fui e comprei, com o dinheiro, apartamento. Comprei o apartamento aqui, porque eu falei assim: “Tô pagando casa em Osasco, cara, se não, daqui uns dias, esse dinheiro acaba e aí? Eu preciso ter o que é meu, não posso pagar aluguel”. Eu pensava assim. Aí eu falei: “Não, vou comprar”. Porque, na época, aqui, já estava vendendo. Aí eu fui, vi o anúncio, que tinha um anúncio de vender apartamento. Aí fui comprar apartamento. Nessa época, a minha filha já estava com doze pra treze anos, já estava uma mocinha. E vim pra cá, pra Zaki Narchi, com meus filhos. E eu achei, olhei o local. Eu não conhecia, eu queria local, Shopping Center Norte, Praça da Sé próxima, Brás, 25 está tudo próximo, metrô, rodoviária Tietê… então, falei assim: “Nossa, perfeito”. Tô num local, Centro de São Paulo, mas o custo de vida é alto, mas eu achei esse apartamento, que próximo era muito caro, meu dinheiro que eu tinha, não dava pra comprar um fora, porque vendi a casa, o dinheiro que vendi a casa de Santa Catarina, nossa, não dava pra comprar nem a metade, ainda tinha um pouco do dinheiro guardado, foi indo. Mas eu falei: “Quero comprar”. Aí fui e comprei aqui.



P/1 – Mas como você ficou sabendo daqui?

 

R – Foi num jornalzinho do metrô, jornalzinho do metrô. “Vende-se apartamento em Santana”. Eu fui ver, pesquisar, falei: “Nossa, baratíssimo!” Eu tinha dinheiro pra comprar dois. Daria pra eu ter comprado dois, se tivesse comprado, na época. Eu falei: “Nossa, eu vou comprar. Nossa, será que é verdade?” Vim ver, aí não... já... só que, assim, na época não estava reformado, mas daria pra eu reformar, dar uma boa reforma e montar móveis, tudo. Falei: “Ah, vai dar pra mim”. Porque o importante pra mim, naquele momento, era sair do aluguel, aquele aluguel caro. Trabalhava já, em salão. Mas eu falei: “Não, eu vou… dá pra eu montar o… com esse dinheiro que eu tenho, dá pra eu comprar o apartamento, montar o apartamento e ter uma vidazinha aqui, bem arrumadinho. Aí eu fiz isso, comprei apartamento, montei, reformei tudo, entrei pro apartamento, igual casinha de princesa, montadinho, tudo novinho, tudo. E a minha filha foi, depois de próximo ano, dois anos, ela fez quinze anos. Aí, aquela coisa da mamãe, lá de trás, de fazer os bolinhos, fiz a festa dela dos quinze anos, maravilhoso, quinze. E meu filho... a minha filha fez um, teve um… lembra do Silvio Santos, tinha Maresia, que dançava igual, as menininhas. Aí, o SBT era aqui no final, era pertinho aqui. Então, numa dessas andadas por aí, os olheiros a viram e a levaram pra lá, pro SBT e ela ficou trabalhando, deve ser, ela ficou lá na Maresia ou Fantasia, eu não lembro exatamente o nome. Fantasia. Isso. E ela foi. De lá ela conheceu, conheceu um pessoal lá dentro. Foi conhecendo. Fez a participação do filme Eloá lá… filme Eloá não, filme Tainá, né? Aí, ela foi… viram, gostaram. E ela ficou fazendo, Rodrigo Faro, Luciana Gimenez… aí eu já estava, saí daquele salãozinho, lá do salão da Quinze de Novembro e montei meu próprio salão, aqui na Doutor Zuquim. Montei meu salão, duas cadeiras, duas manicures, tudo e fui trabalhar como cabeleireira, dentro de oito anos, aí fiquei, foi uns cinco anos, eu fiquei ali. Em cinco anos fiquei nesse salão, aí já era meu, aí já era movimento, aí tinha manicure que trabalhava comigo. Tinha as pessoas, era… atendia criança, fazia pé, mão, tudo de um salão e o alongamento só eu fazia. Eu tinha minha sala de alongamento e assim voltei a estourar de novo, de ganhar dinheiro. Tenho cliente até hoje, tenho cliente minha daquela época do Copan. Época de… tenho cliente até hoje, que esses clientes, até hoje vêm fazer o cabelo comigo, que é alongamento. Alongamento era bem mais caro na época, era 1500 reais um alongamento. A minha mão de obra. Hoje em dia está quatrocentos, trezentos, duzentos, depende de quanto que a cliente vai pôr. Então tirou um zero, né? De 1500, tirou um zero, ficou 150, mais ou menos isso. E aí eu montei esse salão, trabalhei nesse salão ali. Só que começou… é assim: quando você monta uma portinha, que começa a crescer, aí tem pessoas que vão cobrar aluguel mais alto, foi o que aconteceu comigo. Foram cobrando muito o aluguel, aumentando aluguel, aumentando aluguel.



P/1 – Era aqui?



R – Não, Doutor Zuquim, em Santana, aqui já. Aí eu peguei, sempre como gostei de casa de praia, gostei de viajar, meus filhos viajavam sozinhos, ‘de menores’, eu tirava documento deles: “Quer ir passar férias onde, na vovó? Vão”. Pega a mochilinha das costas, botava no avião e ia. Eu era aquela mãe que criei meus filhos bem. E eles iam e a minha filha viajava, meu filho viajava. Então, eu gostava que eles iam conhecer coisas diferentes. Aí eu ia muito pra praia, gastava, quando eu estava viajando, lá internacional, meus finais de semana com meus filhos, era Jaraguá, era frete, era coisa caríssima. Daí estava chovendo dinheiro, na época. Então, eu gastava bastante. E eu não quis mostrar pros meus filhos, tipo: “Nossa, agora não tem praia, mais. Mudou a história, mamãe vai comprar uma casa na praia, bem pertinho da praia”. Fui, comprei uma casa na praia. Comprei essa casa, que era pra pagar não sei quantos anos. Paguei essa casa em oito anos. Paguei essa casa em oito anos, paguei em Itanhaém. Aí comprei essa casa, paguei muito rápido. Só que meus filhos cresceram, gente! Crescem. Cresceram. Aí não é mais aquela coisa: “Vamos pra praia, mamãe junto, junto com a mamãe”. Não vão! Eles querem ir outra balada, eles querem outra praia, querem ir com os amigos. E como que eu vou falar “não” pros meus filhos, se meus pais, mesmo falando não, me liberaram pra eu conhecer o mundo. Por que eu vou falar “não” pros meus filhos? “Tá bom, não quer ir” “Mãe, eu não quero” - meu filho - “não, mãe, eu não quero ir pra praia com a senhora, eu quero ir pra praia…”. Aí, meus filhos maiores, fui pra Belém, final de ano, passar Natal e Ano Novo, que eu sempre gostei de passar Natal e Ano Novo com a família. É coisa assim. Então, numa dessas viagens, reencontrei o pai dos meus filhos. Ele já com quinze, ela com dezesseis. Aí ele queria contar pros meus filhos que ele não casou, mas ele só tinha meus filhos e como que ia fazer? Eu falei: “Não, teus filhos, quer notícia? Vai ver teus filhos. Eu não, tenho minha vida, sempre sozinha, nunca quis…”, com medo de ter alguém, por causa da minha filha, então, assim, eu tinha minha vida fora, em casa era só… eu fui mãe e pai dos meus filhos. Então, aí eu falei: “Não, se quiser – nunca deu pensão – dar pensão pra ajudar seus filhos, dá”. Sempre fui aquela mãe que eu fiz - completou dez anos, meu filho, minha filha - poupancinha. Então fazia mercado, dez da poupança. Come isso... então, eu ensinei meus filhos a guardarem dinheiro. O seu cartãozinho, eles tinham o cartãozinho deles. Poupança bem, tinham já, naquela época já tinha. Então, eu sempre ensinei a ter a mesadinha deles, pra eles conseguirem guardar o dinheirinho deles, saber o que tinha: “O que tu quer comprar? Quer comprar isso? Você vai ter isso, mas você tem que comprar com seu dinheiro. Eu dou pra você, você vai lá comprar”. Então, assim, meus filhos... era do lado do shopping. Então, eles foram, aí nessa época já foram ter o dinheirinho, ter tudo deles. Foi uma mudança, também a minha filha já estava mocinha. Aí o pai começou, ajudou, acho que três vezes. Três vezes que ele ajudou meu filho: “Pai, eu quero ir viajar lá, conhecer meu pai lá no Tucumã”. Vai, meu filho foi pra Tucumã, ficou lá com ele, umas férias, tirou uma férias com ele e isso ele se machucou, na perna, pai dos meus filhos. Ele machucou a perna dele porque ele… lembra que ele tinha diabetes? Então, ele machucou a perna, um machucadinho de nada, aquilo deu um… inflamou. Conclusão: quinze dias ficou no hospital, aí deram alta pra ele, veio pra casa, passando doze dias, meu filho estava lá com ele, estava passeando lá com ele. Até então tinha, queria ver se ele ficava lá, pra morar, pra ver se mudava, se queria ficar lá ou não. Meu filho estava naquela idade de jovem, não sabia onde que ele queria ficar. E lá, anda sem capacete, lá os meninos dirigem. Meu filho chegou lá, o pai dele com motona, aquelas motonas grandes, do mato lá, coisa e tal. O que acontece? Já levou aqueles meninos pra ir lá, então ele ficou lá com o pai, estava querendo ficar morando lá, pra ter… meu filho com dezesseis anos já, de idade. O que acontece? Meu filho... o pai dele foi e se acidentou, foi hospitalizado, voltou pra casa, quando foi à noite, faleceu. Mal reconheceu os filhos, aí faleceu. E, de lá pra cá, eu fui mãe sozinha, total. Se eu não tinha, agora tem que ser total. Quando eu conheci, vieram reencontrar o pai, foi e faleceu. Depois, disso pra cá, o que aconteceu? Ele... aí minha filha já estava maior, maior de idade. Aos dezesseis anos de idade, aos dezessete, ela teve um probleminha no seio, eu passei por uma dificuldade com ela, com um nódulo no seio e tal. Desse nódulo no seio, depois, nas férias, quando ela melhorou, eu dei uma viagem pra ela, em Ubatuba e ela viajou. Eu sempre tive essa vontade dela querer ser o quê? Aí ela fez, estava fazendo Uniban, terminou os estudos com dezessete anos, fez Uniban, fez Enfermagem e eu ali no salão, desse salão ali, que eu tinha, estava muito caro, estava seis mil já, o aluguel. Tinha que terminar de pagar minha casa, tudo. Conheci um moço daqui, ele falou: “Olha, eu tenho, vai desmontar a padaria, vai ficar o salão enorme, você não quer montar o teu salão lá?” Eu falei: “Quanto o aluguel?” “Ah, é X”. Era metade, bem metade do valor. Falei: “Tá”. Aí eu vim, montei meu salão aqui…



P/1 – Que benção!



R – Já aqui dentro da comunidade, Zaki Narchi. Mas aí, onde é a padaria, ali do outro lado. Eu fiquei dois anos, aí eu montei aquele salão, papel de parede, muito lindo. Trabalhei ali, fiquei trabalhando e, com isso, veio enchente e teve algum problema lá, o dono me pediu de volta o salão. Mas eu tinha minha casa paga, já estava com meu carrinho, aí eu falei: “E agora, eu vou voltar pra onde? Que salão que eu vou?” Meus filhos já estavam maiores. A minha filha, nesse período que ela foi pra Ubatuba, depois ela queria viajar. Eu falei: “Vai viajar, quer viajar no final de ano, alguma coisa assim?” Aí ela falou: “Quero, eu não quero ir pra Belém”. Eu falei: “Vai pra Portugal”. Ela: “Ahn?” Eu falei: “É, vai”. Aí ela fez, ia fazer dezoito anos. Aí, na festa de dezoito anos dela, eu dei o passaporte dela. Passaporte e a carta de motorista. E ela foi pra Portugal. Portugal, ela foi, estudou, está já onze anos em Portugal, se forma agora, ano que vem, em Medicina, em Portugal. Graças a Deus, tudo bem, assim. Meu filho aqui tem duas filhas. E a Edna ficou sozinha, fazer o que agora, sozinha? (risos). Filhos cresceram, casa na praia, cachorrinha morreu. Vai fazer o que da tua vida, Edna? E eu faço muitos trabalhos comunitários. Eu faço, participo de entrevista, eu participo de época de política. Eu participo de coisa de igreja e faço bastante coisas assim. Edna, vai pra faculdade, porque pra você fazer alguma coisa, faculdade. Fui pra faculdade. Me formo agora, dia trinta, Serviço Social. Tô, assim, realizada. Tô tranquila, com cinquenta anos vou começar minha vida do zero. Faço alongamento, porque eu adoro, amo o que eu faço, é um hobby. Vou ser aquela velhinha, que pretendo morar em Portugal. Minha filha já está lá, este tempo todo. Eu creio que, ano que vem, eu tô com meus planos, meus projetos, de ir. Mas, enquanto isso, quero fazer minha pós lá, independente de morar lá ou não. 

Mas a Zaki Narchi, pra mim, foi um livro aberto, que me ensinou a viver, me deu asas pra crescer, pra conhecer, amadurecer. E, pras pessoas que acham que por… eles falam: “Zaki Narchi é o morro, Zaki Narchi pobreza, Zaki Narchi fogo, Zaki Narchi briga”. Não, temos muitas pessoas maravilhosas aqui dentro, pessoas que cresceram, pessoas que eu conheci. Uma das crianças que eu cortei o cabelo dele, talvez ele não lembra, Ricardo Oliveira. Mas cortei o cabelo do Ricardo Oliveira. Aqui, nessa casa, ali atrás dessa casa, era a quadrinha. O Ica dava o dinheiro, que é meu vizinho de cima, pra ele ir cortar o cabelo. Quantas vezes eu cortei o cabelo dele? Porque o salão que entrou aqui na Zaki Narchi, primeiro só eram dois: Edna e Zé cabeleireiro. Meu salão era lotado, eu trabalhava muito, tanto que eu tinha duas, três manicures comigo. Hoje em dia não mais, eu tô… como apareceu bastante menina, ensinei bastante menina: Angélica, Cristina. Bastante pessoas aprenderam a trabalhar. Saíram dali do salão, aprenderam, a trabalhar. Então, eu creio que esse crescimento, esse conhecimento, Zaki Narchi é um livro aberto, um mundo, uma porta que dá asas. Eu agradeço muito tudo o que eu vivi, o que eu aprendi, eu cresci aqui. Aqui eu aprendi a economizar, aqui eu aprendi a olhar o mundo com olhar diferente e olhar as pessoas com olhar diferente também. E hoje tô aqui, contando um pouco da minha história pra vocês. Agradeço a vocês, agradeço as meninas que me chamaram, pra estar dividindo isso. Creio que, um dia, minhas netas, bisnetas, tataraneto, vão ver essa história, pode ser que veja, não sei como que funciona, mas, assim, eu tô muito… obrigada, tá, vocês, acho que até passei do horário.

 

P/1 – Gostaria de fazer uma pergunta: o que você mais gosta aqui?



R – Aqui, da Zaki Narchi, da comunidade, eu me sinto, eu acho que a minha liberdade. Eu ando São Paulo todo, lugar todo. Mas, dentro da Zaki Narchi, a minha liberdade, aqui dentro, assim, eu gosto da liberdade. Essa coisa: você deixa isso aí hoje, estacionou ali, deixou ali, vai aqui. Essa é… e, vamos supor que aconteceu qualquer problema, dou um grito na janela, essa coisa da comunidade, em si. Esse... o povo comunitário da Zaki Narchi, acho que é muito legal isso. Te conhece, as pessoas te conhecem, você precisou de uma ajuda, essa coisa da comunidade, dentro da Zaki Narchi é muito legal. Acho isso muito legal, das pessoas. A convivência, essa convivência. Eu olho esse olhar, totalmente diferente.



P/1 – Tem algo que você não gosta muito daqui?



R – O que eu não gosto da Zaki Narchi, que eu tento lutar, eu sou síndica lá do meu prédio, que eu moro, é a sujeira, em si. Eu acho que deveria ter mais um olhar diferente das políticas públicas, aqui dentro, pra colocar mais caçamba de lixo. Tem duas caçambas de lixo, uma aqui e outra lá. Então, você vai colocar o lixo onde? Eu queria, sei lá, eu gosto das coisas… casinha de boneca. Então, seria muito se tivesse esse… um olhar diferente, políticas públicas, pra dentro, pra poder fazer o quê? Colocar mais caçamba, colher mais lixo, dar uma pintura, tirar essa cor apagada e tudo existe regra e leis e ordem. Então, poderia ter regras, pra deixar isso aqui com... sabe a Zaki Narchi diferente, bonita, com um olhar diferente? Alguém olhou: “Você mora onde? Na Zaki Narchi? Ai, que lindo aquele lugar, como é bonito”. Não, a gente tem um olhar totalmente diferente. É esquecido, não, é um Cingapura esquecido e nós estamos no Centro de São Paulo. Então, eu peço, sim, com os olhares, pra que possam fazer. Aqui é uma pérola, só está ainda lá dentro da lama, lá dentro da água. Tem que tirar, tem que alguém vir socorrer aqui, colocar mais projetos. Eu fiz o meu projeto de intervenção do quinto ano, aqui da faculdade, eu trouxe as crianças, tem tudo gravado, fitas. Trouxe as crianças, levei as crianças daqui pra dançar fora, foi a casa mais linda, balé. Foi muito bonitinho. Pedi pra moça que estava aqui, na época, dando balé pras crianças. Depois, o segundo foi pra fazer alimentos. Depois tem o chá das mulheres aqui também, porque tudo eles fazem pras crianças e pros jovens da quadra, as mulheres ficam esquecidas. Então, eu fiz o chá das mulheres. Através do Doutor Ribamar, eu consegui trazer o chá das mulheres. Então, todo final de outubro, a gente faz uma festinha, um bolo e eu consigo algumas doaçõezinhas pequenas e chamo todas as mulheres. Pego o nome de todas as mulheres da Zaki Narchi, de dentro da Zaki Narchi e faço um sorteio, que a gente não tem pra todo mundo, mas todas as mulheres: é a pobre, é a rica, é a crente, a evangélica. Independente da cor, raça, ou etnia delas, independente de tudo delas, eu gosto disso, dessa união, desse olhar. Então, que tivesse mais projetos pra vir, como vocês hoje estão aqui, com um olhar diferente, aqui dentro. Mas eu olho aqui, vocês, está um calor abafado, não tem uma geladeira, um banheiro. Se alguém fosse... a comunidade não tem condições. Então, se alguém viesse junto com vocês, dar um… tem o local, mas precisa alguém pôr a mão neste local e deixá-lo organizado, bonito. Porque, o que tem aqui dentro, os meninos que trabalham aqui, coitados, eles não têm o que… como eles… com certeza que, por eles, fariam de tudo. As meninas que atendem vocês, os meninos, fariam de tudo. Mas não, não tem condições, não tem condições. Então eu peço, se vocês puderem colocar isso, que coloquem, pra gente ter um olhar diferente das políticas públicas, tá bom?



P/1 – E como é ser síndica?



R – Síndica do prédio. O síndico aqui não ganha nada, não ganha nem um real. É muito difícil, porque você... as pessoas, as casas das pessoas um brinco e fora aquilo sujo, feio. Então, eu quero ver bonitinho, eu quero ver plantinha, eu quero ver arrumado, eu quero ver limpo. Eu procuro a moça que limpa lá, ela é uma gracinha. Não tem um salário-mínimo, não tem nada, não tem um décimo terceiro, não tem nada. Normalmente são duzentos, 250, acho um absurdo, acho muito pouco. Então, eu cobrei do pessoal, junto, pra pagar trezentos pra ela, mais os produtos, que eu acho muito pouco, porque é muito pouco. Então se tivesse uma organização pra colocar uma portaria, uma portaria e o governo ajudasse, botasse lá um porteiro, pra ficar bonitinho, porque tem condições de fazer isso. Pagasse salário-mínimo pra aquela pessoa, o porteiro ali, limpar, cuidar, seria muito mais organizado. Que de onde vem, de onde tem, tira? Agora, de onde só tira, não coloca... então, assim, é muito difícil a gente querer fazer as coisas num local que não tem condições. Você tem que correr e fazer. Eu consegui colocar, no bloco ali, ali na frente bloco, bloquinho, foi um dos primeiros, lá é bem... o bloco I é fechadinho, tem aquela parte, não deixa colocar moto, bicicleta ali, não deixa colocar nada, porque as crianças vão brincar, descer o bebezinho pra brincar, tem que estar limpinho, tem cerâmica lá. Quero que seja melhor. A gente vai até ver se consegue fazer agora reunião pra dar uma melhorada no prédio, mas é bem complicado.



P/1 – E a pandemia, Edna, como foi aqui, pra você?



R – A pandemia. Pra mim (risos) não disse nada, porque véspera da pandemia, eu viajei, guardando dinheirinho e queria conhecer Inglaterra. Aí eu fui, viajei e tirei a minha foto na Universidade de Oxford, queria conhecer. Que onde foi feita a primeira vacina pra covid. Cheguei no Brasil dia 27... no dia 22, dia 27 fechou tudo. Mas eu tinha [dado] uma economiazinha e consegui sobreviver a essa pandemia. Não foi fácil. Totalmente sem cliente, porque não tive cliente. Então, fiquei em casa, engordando, (risos) comendo e agora que voltou de novo, mas eu não parei, consegui pagar minha faculdade, com toda a dificuldade, consegui. Consegui, eu sobrevivi, nessa pandemia, como todos. Junto com o Doutor Edvan, que foi um dos que me abriu a porta pra fazer o estágio, mesmo na época da pandemia, no quinto semestre, primeiro semestre que eu fui, que é o quinto, ele me abriu a porta. Como a instituição é de mulheres vítimas de violência, achei muito importante. E ele trouxe algumas cestas, conseguimos arrecadar algumas doações. Algumas coisas. Muito pouco, pro tanto de necessidade que há, pro tanto de pessoas que necessitam, nesse lugar. Muito pouco, assim. Zero vírgula zero, zero, zero por cento, entendeu? Então é muito pouco, não tem, tipo…



P/1 – Como que foi esse estágio, pra você?



R – O meu estágio? O estágio que eu fiz foi muito… como eu tive um conhecimento muito bom, vi quanto que, hoje em dia, as mulheres são vítimas de violência, não só… em um todo aumentou muito, muito, muito, muito. Principalmente na pandemia. E agora, o sétimo estágio, eu estou estagiando com pessoas em situação de rua. Porque, como eu já tinha terminado, eu concluí minha faculdade em julho, no caso, só que faltam as horas [complementares]. São 450 horas. Tô fazendo no CTA, aqui da Zaki Narchi mesmo. É um aprendizado maravilhoso, porque ali já tô tendo conhecimento totalmente diferente, de pessoas em situação de vulnerabilidade. Então, pra mim está [sendo] um conhecimento muito bom.



P/1 – Quais são os aprendizados?



R – Ali, nossa, geral! Ali você faz o atendimento, você faz o acolhimento, você faz a transferência, você aprende a fazer um boletim de ocorrência, você aprende a encaminhar pra um hospital. Já fiz acompanhamento pra hospital, em covid, porque a Assistência Social, tô me formando assistente social, tem que acompanhar, se está no hospital, tem que ir no hospital. Então é um aprendizado muito enriquecido, muito bom.

 

P/1 – E, Edna, quais são seus sonhos?



R – Nesse momento, eu concluindo a minha faculdade, eu quero fazer minha pós e eu quero fazer minha pós fora. Quero fazer minha pós fora e eu quero voar um pouquinho mais.



P/1 – Você gostaria de falar mais alguma coisa, contar alguma passagem ou deixar alguma mensagem?



R – A mensagem que eu deixo é pras mulheres. Eu foco muito na parte das mulheres. A mensagem que eu deixo é pras mulheres que são vítimas de violência, que acham que não vão conseguir, porque é uma mãe solteira, não vai conseguir na vida. Não fica, não pensa que isso vai ser o seu desespero, ou se desesperar. Não. Se quiser, consegue. O sonho não tem idade, não tem preço. Então, uma frase que eu falo muito: “O sonho não tem preço, ele não tem idade”. Então, corre atrás dos teus sonhos. Seu filho quer ir, vai, deixa ir. Faz, faz empréstimo, faz alguma coisa. Põe… incentiva a estudar, incentiva a fazer o que quer na vida. Às vezes a gente fala: “Ai, que eu não vou conseguir”. Consegue sim, é só ter objetivo, que consegue. Consegue.



P/1 – Por fim, queria saber como foi, pra você, lembrar toda a sua trajetória, dividir um pouquinho aqui, com a gente?



R – Foi uma experiência totalmente… assuntos que você não lembra. Olha que faço relatório todos os dias. Eu faço isso, relatórios. Então você busca a tua infância, os teus momentos, as suas dificuldades. Eu sou uma pessoa que agradeço muito a Deus porque, em todos os momentos da minha vida, todas as situações, eu nunca dormi um dia sem comer. Meus filhos nunca dormiram um dia e falaram: “Ai, mamãe, eu tô com fome, não tem o que comer? Mamãe, eu não tenho calçado”. Não, eu nunca passei por essa situação. Mas, assim, tem dificuldade, tem dificuldade, com certeza, mas a minha maior dificuldade, que eu tive, foi quando a minha filha adoeceu. Aquilo, pra mim, eu não aceitei. Então, é uma das partes também que eu falo que não abandona um filho no momento de uma doença, num momento de dificuldade do filho, não abandona, não. Seja forte, vai com ele. Vai conseguir. Tudo é passageiro, tudo passa nessa vida, tudo é momento. Então, quando a minha filha ficou doente, eu não aceitei, eu não aceitei, eu falei: “Não, você doente, não. Eu posso morrer primeiro, você não”, que é a lei. Então, eu nunca aceitei. O meu filho, a minha filha, no caso, ter essa doença, não. É tanto que eu ganhei um livro da médica dela, lá do Pérola Byington. A médica me deu um livro, chamado “Por amor”. Que a mãe se doa ao filho, ela se doa àquela situação e não aceita o filho passar por situações que ela passou. E prefere ela passar, do que o filho. Dá tudo. E eu fui aquela mãe guerreira. Assim, e é isso. O assunto da vida é isso, então, deixo essa mensagem pras pessoas não desistirem dos seus sonhos, dos projetos de vida. Está com sessenta anos, minha filha: “Deixa a mochila em casa, deixa o sofá, levanta, vai fazer caminhada”. Eu gosto de fazer caminhada, viu? Faço caminhada, eu sou muito vaidosa, muito de cores, gosto das coisas coloridas. Saia, viaja, vai pra igreja. Teve um vizinho meu, esses dias, que parou pra mim e falou: “Edna, como você consegue? Você faz faculdade, você trabalha, você é cabeleireira, você viaja, você vai pra praia”. Eu fui pra Arraial do Cabo, agora em junho... em agosto, nós fomos fazer uma viagemzinha, sabe bate e volta? Fomos a Arraial do Cabo, passamos o final de semana lá. Eu falei assim: “Eu tenho tempo pra tudo. Eu agradeço a Deus”. Tem meu Deus, que eu agradeço muito. Faz três anos que eu frequento a igreja também e assim conheci um outro lado, que é frequentar uma igreja, eu acho muito legal. Eu aprendi muito, me amadureceu muito também. Você aprende a entender as pessoas. Você tem que entender as pessoas do jeito que elas são. Você não pode colocar: “Faça isso, porque eu gosto”. Não. Você tem que entendê-la. Se você entender, a onda é bem diferente, é bem melhor. Entender a pessoa do jeito que ela é, porque pedir, sempre tem alguém pedindo, faz isso, passa num lugar hoje, que tem alguém pedindo. Aí você vai pegar e você vai doar aquilo pra pessoa. Amanhã você vai passar lá, ela vai pedir novamente, você vai doar. Então, quem pede, sempre vai pedir. E quem tem, às vezes, nem sempre tem pra doar. É uma palavra assim que eu falo bem forte, então, a gente tem… nós temos que dar o conhecimento diferente pra pessoa, e entender o lado dela, porque ela está ali, naquela situação. Então, não é muito melhor pra pessoa, que cada um siga sua vida, viva sua vida e você entende a sua vida e já era. Eu penso na vida assim.



P/1 – Muito obrigada, muito obrigada pelo seu tempo, pela sua disponibilidade....



R – Nada. Ah, eu tirei esse dia, eu marquei… porque estava muito agendada. Olha que hoje eu fiz cartório, hoje eu fiz o Banco, hoje eu fiz mercado, bem corrido, mas eu tirei esse momento pra contar um pouco da minha história. Aí um pouco da história da Zaki Narchi, né? Eu achei muito importante, falei: “Nossa, legal, gostei da ideia”. Porque eu também já corri atrás de projeto pra cá e eu tenho certeza que, através de vocês, as portas abrirão pra muitas pessoas aqui, nesse lugar. Tá bom? Tá, obrigado pra vocês!

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