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História de: Ismael Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/10/2008

Sinopse

Promissão. Valparaíso. Aguapeí. Brincadeiras de rua. Natureza. Trabalho em fazendas. Cinências Contábeis. São Paulo. Avon. Conquistas profissionais. Golfe.

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História completa

P/1 - Bom dia senhor Ismael.

 

R - Bom dia.

 

P/1 - Vamos começar com o senhor falando o seu nome completo, o local e data de nascimento?

 

R - Muito bem. Ismael Ferreira, nasci em 16 do sete de 1935 na cidade de Promissão, interior de São Paulo.

 

P/1 - Qual é a sua atividade atual senhor Ismael?

 

R - A minha atividade atual, além da aposentadoria, eu faço corretagem de seguros, eu tenho uma corretora de seguros e dou assistência para a minha esposa porque ela tem uma loja de roupas seminovas e, então, eu dou toda essa assistência nas duas partes: na corretora e na loja de roupas. E o restante, como vocês já sabem, me dedico totalmente a área de golfe.

 

P/1 - Qual é o nome dos seus pais?

 

R - O meu pai é Joaquim Ferreira e minha mãe Sebastiana Martins.

 

P/1 - E qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R - O meu pai ele foi lavrador e a minha mãe ela lavava roupas pra fora, mas era uma prenda doméstica, mas que trabalhava em casa. Então ela se sacrificou bastante pra cuidar dos quatro filhos no interior. Não era fácil, então tinha que trabalhar bastante.

 

P/1 - Qual é a origem da sua família? De onde vem a sua família?

 

R - A minha família os meus pais nasceram na região de Catanduva também interior de São Paulo também. Catanduva foi antes desses pontos, digamos assim... número um de carnaval. Catanduva foi o carnaval mais lindo que nós tínhamos no estado de São Paulo. O carnaval mais famoso que tinha era Catanduva. Essa pequena cidade aí.

 

P/1 - O senhor tem irmãos?

 

R - Eu tenho três irmãs. São, digamos assim... eu sou o caçula e então até hoje ainda a minha esposa fala: "Poxa vida, ao invés de vocês ter ajudado a criar o Ismael tudo direitinho vocês acabaram estragando e agora quem sofre sou eu", porque diz ela que quando eu pedia um copo d'água vinham quatro mulheres me servir o copo d'água (risos). Brincadeira... Então ela fala, até hoje ela diz isso daí, né? Fala que eu fui mal

criado, não fui bem criado.

 

P/1 - Vamos falar um pouquinho da sua infância. O senhor morava onde?

 

R - Eu nasci em Promissão e fui criado em Valparaíso e, grande parte, numa cidadezinha anexa que é Aguapeí. Aguapeí acho quem nem consta no mapa. Consta sim. Consta que, tanto é que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil tem estação lá dentro da cidadezinha, Aguapeí. Tem estação de trem lá, né? E fui criado nessa região aí, nessa região.

 

P/1 - O senhor lembra da sua casa como era na infância?

 

R - Eu tive, digamos assim, na minha infância nós moramos em várias casas. Todas elas, digamos assim, muito aconchegantes, boas. Sem dúvida nenhuma era. Mas uma das melhores que eu me lembro era uma casa bem grande assim, que ficava perto de um riozinho e era uma casa de madeira bem grande e tinha um pomar espetacular. Então eu, como criança, vivia nas árvores lá.

 

P/1 - E quais eram as suas brincadeiras prediletas?

 

R - Brincadeira predileta? Não vamos dizer brincadeira, mas o meu passatempo, digamos assim, era nadar nos riachos, nos riozinhos e jogar futebol. Logicamente, eu era bem chegado nisso daí, né? E, sei lá, aquela brincadeira de meninada. Mas sempre, digamos assim, uma brincadeira salutar, sempre de boa conduta nunca foi... às vezes a gente fazia coisas que não. Crianças sempre gostam, como eu diria… tinha um

pomar em casa, mas as frutas dos vizinhos eram muito mais saborosas do que tinha dentro (risos), então muitas vezes a gente, a molecada, pulava o muro pra roubar fruta lá no quintal dos outros, o tipo de coisa que não. Era gostoso, fazer o que? Cabeça de criança é assim, né?

 

P/1 - E o senhor ajudava a sua mãe ou o seu pai?

 

R - Na minha família, eu vou te dizer, era um por todos e todos por um. Ali todo mundo trabalhou. As minhas três irmãs todas trabalharam, eu trabalhei, enfim, era realmente... Às vezes tinha final de semana, assim, que era em épocas de algodão, nós íamos catar algodão pra ter um dinheiro extra. Então ia a família inteira. Então era um negócio muito bonito.

 

P/1 - E era na sua terra o algodão?

 

R - Não. Algodão existia, como era interior, então tem aquelas fazendas de algodoeiro e então a gente ia lá e ganhava por arrobas colhidas. Então final do dia era pesado, e então você recebia aquele dinheiro.

 

P/1 - Então o senhor cresceu em Valparaíso?

 

R - Cresci e Valparaíso e Aguapeí.

 

P/1 - E como era a cidade?

 

R - Valparaíso?

 

P/1 - Isso.

 

R - Valparaíso já era uma cidade. Hoje a cidade deve estar com uns 40 mil habitantes, por aí, quarenta mil habitantes. Aguapeí não, Aguapeí não tem. Se tiver 50 habitantes é muito (risos).

 

P/1 - E o senhor começou a estudar, o senhor estudou onde?

 

R - Eu estudei o primário. Eu fiz três anos em Aguapeí e fiz um ano em Mirandópolis, o quarto ano, porque em Aguapeí só fazia até o terceiro ano e o quarto não tinha. Era formatura e então eu fiz em Mirandópolis, que era duas cidadezinhas depois de Aguapeí. Aí tinha parentes lá e então, eu morava na casa de uma tia e estudava lá, fiz o quarto ano lá. Terminei e voltei, e aí eu fui fazer o ginásio em Valparaíso.

 

P/1 - Certo. Conta um pouquinho da escola pra gente?

 

R - Da escola?

 

P/1 - Professores.

 

R - Não tinha muitos, digamos assim, só existia as peraltices de escola. Quantas latas d'águas a gente colocava na porta para o professor entrar e colocava, deixava a porta entreaberta e colocava a lata lá de pronto e aí, quando ele abria, a lata virava e caia em cima dele (risos). Mas no ginásio, ali existia aquele pátio todo coberto, muito bonito, e era de chão, chão batido, né? E eu era um dos campeões em jogo de bolinha de vidro, certo? E, muitas vezes, professores e o próprio diretor ia na quadra pra assistir a gente jogar bolinha nos intervalos. Muitas vezes tinha lá até torcida.

 

P/1 - É mesmo? Era um campeonato?

 

R - Não era bem assim um campeonato, mas era uma exibição. Era uma exibição realmente, né? Isso é gostoso.

 

P/1 - E depois do quarto ano, o senhor continuou estudando?

 

R - Depois, como eu já estudava e fazia o ginásio e trabalhava no escritório do Jeremias Nardeli que era o rei do café, que era em Aguapeí, eu tinha um bom desenvolvimento e bom conhecimento. Quando eu terminei o ginásio, eles estavam abrindo a fazenda em Urubupungá, que era na divisa de Mato Grosso e São Paulo. Isso era em 1954, 55… por aí. Onde o Rio Tietê deságua no Rio Paraná. Do outro lado do rio é Mato

Grosso e do lado de cá, é São Paulo. Então eu fiquei nessa fazenda lá cerca de uns cinco anos mais ou menos, fazendo a parte financeira da empresa. Então foi bons momentos lá, bons momentos, digamos assim... coisas diferentes que a gente vivia. Então foi muito bom.

 

P/1 - Com quantos anos o senhor começou a trabalhar?

 

R - Doze anos.

 

P/1 - Doze anos.

 

R - Doze anos.

 

P/1 - E qual foi o seu primeiro emprego, foi esse?

 

R - Foi no escritório do Jeremias Nardeli.

 

P/1 - E depois, em quais outros lugares o senhor trabalhou?

 

R - Depois acontece o seguinte: que um dos Nardeli que tomava conta, morava aqui em São Paulo, mas praticamente ele vivia lá (na fazenda) também. Como eu terminei o ginásio e ali eu não ia continuar mais, então ele queria que eu fosse exercer, digamos assim, a função de veterinário. Ele foi um dos iniciantes de inseminação artificial no Brasil. Então ele tinha aquele gado, nelore. Era coisa maravilhosa. Então você

andava no pasto e você via os bois tudo branquinho, um igual ao outro. Parecia tudo gêmeos. Você olhava do outro lado, digamos assim, os bois tudo escuro, marrom. Era uma coisa espetacular. Então ele estava desenvolvendo isso daí de uma forma muito, muito interessante, realmente. Mas essa função pra mim, como rapaz, eu estava na flor da idade... era um negócio assim, meio difícil, porque você não tinha mais dia pra

trabalhar, você não tinha mais hora e você tinha eu não era veterinário. E então eu tinha que me debruçar em cima de livros e estudar, ver, desenvolver. Ele acreditava em mim e achava que eu ia resolver. Eu falei: "eu posso até resolver, mas não é aquilo que eu quero fazer", aí eu falei: "eu vou embora". Ele não acreditou que eu fosse embora, então eu: "mas eu vou embora mesmo" e peguei as minhas malas e vim embora. Vim pra São Paulo, e nisso, eu tinha um amigo que tinha recebido uma proposta de um outro amigo dele pra vir pra São Paulo pra se candidatar pra ser caixeiro viajante. Caixeiro viajante vocês já ouviram falar, mas hoje essa função não existe mais. Então, naquele tempo, caixeiro viajante. Então conversando com esse amigo "Ismael, você não vai ficar mais aqui?; Não, eu vou embora; Pra onde você vai?; Eu vou pra São Paulo, lá eu tenho parente e eu vou me virar lá", ele falou: "eu tenho essa proposta aqui de um amigo aqui e você não quer ir no meu lugar?" Aí eu aceitei: "eu vou sim". E vim pra São Paulo, cheguei e fui na empresa e falei: "eu sou amigo do Ari Rodrigues de Oliveira, é muito o meu amigo, você propôs a ele e ele não quer e pediu pra que eu viesse. Se quiser topar eu estou afim". Aí eu fiz os testes lá e passei, e aí fui ser caixeiro viajante na região da Paulista e Noroeste. Então eu vivi viajando durante um ano e meio mais ou menos. Aí, nesses intervalos aí, eu vivia em hotéis, né, todo esse negócio aí, e encontrei um dos diretores da refinaria Atlantic e ele falou: "quando você estiver já com a paciência esgotada de ser caixeiro viajante, se quiser a Atlantic está a sua disposição lá. Você pode se candidatar". Eu falei: "pode deixar que eu...", não deu outra. Dali a uns dois, três, meses eu estou lá na Atlantic. "Já não sou mais caixeiro viajante, eu vim trabalhar aqui", e ele me colocou pra ser despachante de produtos a granéis da Atlantic. Agora você imagina um caipira do interior, eu não conhecia São Paulo. Eu só sabia ir para os endereços indicados. Um cara, pra ser um despachante dentro da cidade de São Paulo, ele tem que conhecer. Enfim, não é você pegar o mapa, "eu vou mandar fulano fazer esse trajeto pra fazer as entregas assim, assim e assim", não faz sentido. "Eu sei que você vai se virar". E realmente eu fiquei na Atlantic quase

dois anos lá. Mas acontece o seguinte: eu conversava com todos os motoristas ali e os caras faziam tudo pra mim. "Eu sei que você não entende aqui", e os motoristas eram aquela. E todo mundo era o meu amigo e fazia um trabalho maravilhoso. Eles escolhiam as cargas aonde eles tinham que entregar. E aí esse aí deu tudo certinho.

 

P/1 - Que bom, né? Então senhor Ismael. O que influenciou o senhor a querer  trabalhar nessa área de administração?

 

R - Como eu estava na Atlantic, eu saí da Atlantic e fui num escritório da Belardi. Belardi são produtores de bebidas. Eles fazem muito bem o Vermute Belardi. Não sei se tem... deve ter até hoje ainda. Vermute, conhaque Belardi, e tudo mais. E trabalhei lá durante um pouco e, depois, eu fui pra um escritório de contabilidade já no centro da cidade aqui. Não me lembro o nome, mas era do Ricardo Jafet . Era uma empresa que vendia ferros para construções, vendia ferros para construções. Aí eu fiquei pouco tempo aí e aí aconteceu, como aconteceu no passado um amigo lá dessa empresa, recebeu um convite da Avon pra ir trabalhar lá e ele, como estava noivo e ia se casar em seguida, ele falou: "Ah, Ismael, eu não vou mudar de emprego agora justamente que eu vou me casar. Mudar de emprego e não dá certo... Como é que eu vou

casar, né? Vai casar como? Meio desempregado? Não é legal", aí eu falei: "Olha, eu não estou pra casar", então ele falou: "Então está aqui a minha senha. Pode ir". Fui na Avon, fiz os testes lá e tá tudo jóia.

 

P/1 - Isso foi em que ano?

 

R - Foi em 1960.

 

P/1 - E o senhor conhecia a Avon antes disso?

 

R - Não. Pra mim a Avon era uma empresa que pouca gente, pouca gente no Brasil, acreditava, pelo sistema que ela estava impondo ao mercado brasileiro. Era um negócio assim... meio atrevido. Foi um sucesso realmente, a Avon, realmente. Pra nós, era um negócio diferente mas, pra Avon, ela já tinha 57 anos de experiência no mundo lá fora. "Estou fazendo aquilo que sei, que dá certo". Pra nós era tudo novidade, né? E tudo que é novidade ninguém acredita muito não, mas eu acreditei.

 

P/1 - Qual foi a primeira impressão que o senhor teve quando chegou na empresa?

 

R - Na Avon?

 

P/1 - É.

 

R - Eu sou um pouco, digamos assim, encrenqueiro. Não é que é encrenqueiro. Eu gosto das coisas assim muito certinhas. Pra mim se está tudo certo é nota dez, eu estou de braços abertos. Eu já comecei a fazer encrenca na entrevista. Um cara que está falecido já, mas era um cara, um alemão, gente fina, gente fina mesmo. Eu já tinha passado por um, passado por outro e ele era o diretor da área de finanças e eu lá. E ele, então, começou fazer perguntas meio difíceis. Aí eu me levantei. Não que eu

não sabia. Sabia, respondia, e eu falei: "Olha, o senhor vai me desculpar, mas eu estou atendendo aqui um anúncio pra auxiliar de escritório de contabilidade, certo? E o que o senhor está querendo, me parece, o senhor está querendo um auditor. Eu não estou em condições ainda de ser um auditor. Então, por isso, me desculpa, eu vou embora". Ele falou: "Não, não, o que é isso? Senta aí, pô, senta aí. Eu estou fazendo essas perguntas a você porque eu quero conhecer você, não pra fazer esse serviço que está aqui, mas eu

quero conhecer aquilo que eu posso explorar de você no futuro, certo. Então se eu depender, se eu precisar de uma pessoa pra exercer qualquer, já têm aqui as pessoas certas aqui tudo bonitinho. É por isso que eu estou fazendo isso aqui; Então o senhor me desculpa"(risos) . Mas as encrencas começaram logo de cara com o alemão lá, viu? Mas ele era gente fina, gente muito boa. Não é porque morreu não.

 

P/1 - E o senhor lembra do seu primeiro dia de trabalho?

 

R - O primeiro dia?

 

P/1 - É.

 

R - Foi no dia três de março de 1961. Na Avon, né? É. Lembro.

 

P/1 - O senhor chegou na Avon.

 

R - Na Avon, naquele tempo, era diferente de hoje. Naquele tempo o primeiro dia de trabalho na realidade você fazia muito pouco. Uma pessoa do R.H. (Recursos Humanos) pegava você e saía andando pela empresa apresentando setor por setor, e explicando tudo bonitinho o que era, o que era aquilo, o que está aqui e faz isso. Você conhecia a empresa, certo? Então, como a empresa ainda era naquele tempo, eu devia ser 290  e pouco, o número de funcionário. Hoje é 3500 ou sei lá, é diferente. Hoje não fazem mais isso, mas naquele tempo, faziam. O valor humano ainda era muito representativo pra eles, então eles investiam muito nas pessoas.

 

P/1 - E o senhor começou a trabalhar na Avon onde?

 

R - Eu comecei a trabalhar na contabilidade como auxiliar de escritório.

 

P/1 - Certo.

 

R - Da contabilidade.

 

P/1 - Isso na João Dias?

 

R - Na João Dias. Depois de uns seis, sete, meses de auxiliar de contabilidade, eu fui transferido pra área de orçamentos. Orçamento é uma área mais específica, é uma área já de estudos e projeções presentes e de futuro. Enfim, todos esses negócios.

 

P/1 - O senhor saiu dessa área, e depois?

 

R - Aí fiquei em orçamento mais uns dois anos mais ou menos e, nessa área, deixa eu só contar um fato.

 

P/1 - Claro.

 

R - Em orçamentos, naquele tempo existiam segredos, segredos militares mesmo, né? Então orçamento, como trabalhava com o futuro, então era um negócio assim muito... Então tinha a estimativa de vendas, o que ia vender, o que não ia, o número de revendedoras, quanto ia ter. Tudo isso aí era coisa sigilosa, certo? Então, vinha à tona somente aquilo que aconteceu, o que foi vendido, enfim, o dia-a-dia, né? Mas, o futuro

era só pra administração. Só a administração tinha acesso a esses números e tudo mais. E, muitas vezes, eu recebia telefonema e, então, quando a pessoa pedia informação eu falava "quem é que está falando, quem é?" Então, eu pedia a identificação da pessoa pra dizer. Então aí eu fornecia se podia ou não. O gerente geral, o presidente Herbert Moss, naquele tempo, e ele: "Ismael, me veja o número de revendedoras que nós vamos ter; Desculpa, mas quem é que está falando?” (risos). Ele me deu uma bronca. "Como?; Desculpa, mas o senhor não se identificar eu não vou te dar, eu não vou dar informação. É ordem que eu recebo e eu tenho que cumprir". Depois ele se acalmou e ele desceu, ele tinha sala em cima. Ele desceu e veio me cumprimentar, "Ismael, o senhor tem toda a razão, mas é que eu estava meio perturbado. Queria aquelas informações e eu fiquei meio bravo. Mas você está todo certo" (risos).

 

P/1 - Conta um pouquinho mais da sua trajetória pra gente?

 

R - Aí eu saí de orçamentos, eu fui ser sub-gerente do controle de inventários e produção. Era uma área totalmente diferente do que eu vivia. A minha vivência era finanças, não tinha esse negócio todo. Aí eu fui lá e fiquei uns dois anos e aí, o departamento financeiro precisava de uma chefia lá, de um subgerente, e aí eu saí do controle de inventário e voltei para finanças como subgerente de finanças. Aí depois de uns dois anos, três anos, daí eu passei a ser o tesoureiro da empresa. Aí eu fiquei até os meus últimos dias na Avon.

 

P/1 - Senhor Ismael, quais foram os principais desafios que o senhor enfrentou lá na Avon?

 

R - Na Avon? desafios? É difícil dizer.

 

P/1 - Obstáculos que o senhor precisou superar.

 

R - Obstáculos que eu tive? Na realidade não era assim. É que, a Avon sempre foi uma empresa tão sólida, que eu acho que ninguém teve preocupações. Eu trabalhava com muitos números, muita coisa. Eu fazia todos os investimentos da empresa, e então, eu conhecia 90 por cento dos banqueiros, diretores de banco, enfim, financeiras, a própria GM... Nós financiamos naquele tempo a GM. A GM precisava de dinheiro e

vinha nos consultar, então era tudo coisa dessa natureza. Quantas vezes o Aguiar mandava um helicóptero na Avon para apanhar Ismael Ferreira e mais Odécio, ou quem fosse o presidente, pra ir almoçar com ele lá. Era realmente um negócio que dava uma tranqüilidade muito grande de ver isso daí. E isso aí, não vou dizer que não era corrupção… naquele tempo, nunca ninguém falava nisso daí. Não tinha esse negócio. Era uma coisa assim de amizade, “vamos fazer um círculo de amizade tudo

bonito, tudo fortalecido, tudo jóia". Tanto é, vamos supor assim, eu saí da empresa e o que eu ganhei foi o que eu ganhei através do que eu ganhei. Era o meu salário, né? Se fosse dias de hoje, sei lá, em outras empresas. A Avon não. Mas eu tive uma passagem, algumas passagens, digamos. Eu fiz um investimento num banco de investimento, e eu fazia diretamente com o banco, com a mesa operadora do banco. Era um

valor bem alto e, depois da operação feita e tudo mais, mais tarde um cara me liga dizendo: "Pô, Ismael, acontece o seguinte: o banco, ele capta o dinheiro através de corretor, certo? E você fez a operação diretamente conosco. Mas eu pago a corretagem. Então eu vou fazer o cheque em teu nome", eu falei: "Por que o meu nome?; O dinheiro é teu, você que operou e o dinheiro é teu. Nós estamos pagando pra você. Não é a Avon. É nós que estamos pagando pra você; Então ótimo, perfeito. Então faz o cheque tudo bonitinho,mas ao invés de botar Ismael Ferreira você põe assim 'Avon Cosméticos Ltda'; O que que é isso, pô?; É isso aí que você está ouvindo, faz desse jeito". E ele fez o cheque e pôs "Avon Cosméticos Ltda". Então, na entrada do dinheiro no caixa da Avon, tudo bonitinho como brinde os investimentos. E, nas reuniões que a gente tinha, reuniões mensais que participava toda a gerência da empresa, então o presidente sempre fazia aquela gozação, que bom…"vamos analisar o lucro da empresa pra ver se nós um dia nós vamos chegar no lucro que o Ismael faz". Então tinha o lucro financeiro, que era dos meus investimentos, e o lucro operacional da empresa, mas a empresa nunca ganhava do meu (risos), então era uma gozação, mas eu falava: "Olha, não esquece que esse dinheiro que eu estou girando veio de vocês. Então isso aqui não é mérito meu não. Quanto mais dinheiro tiver aqui, é mérito de vocês. É vocês que estão trazendo o dinheiro pra dentro de casa, né?". Então era interessante.

 

P/1 - Está certo. E o senhor falou que passou por vários departamentos. Departamentos não.

 

R - Tinham departamentos também.

 

P/1 - E durante esse tempo o senhor precisou fazer algum curso?

 

R - Curso... Eu me formei em várias faculdades, digamos assim, depois de velho. Eu fazia as entrevistas para admitir pessoas e exigia: "Tem que ter escolaridade, tem que ter faculdade, tem que ter isso. Você vai trabalhar na contabilidade? Então você tem que ter diploma da faculdade de Ciências Contábeis". E aí caiu a ficha. Como é que eu posso exigir de pessoas aquilo que eu não tenho? Não faz sentido. Aí em 1975 foi a

primeira formatura minha em faculdade. Fiz Ciências Contábeis, terminei e, em 1977, que foi uma extensão, fiz Ciências Administrativas e fiz também Comércio Exterior. Agora... cursos na Avon, no mínimo eram dois, três, cursos por ano que a gente fazia. Era impressionante. Esses cursinhos de 10 dias, 15 dias. Esse negócio todo aí, né? Então, olha, se isso valer dinheiro eu vou te dizer: eu sou um homem rico, viu? (risos)

 

P/1 - Senhor Ismael, quais as alegrias que a Avon proporcionou para o senhor?

 

R - São muitas. Eu acho que, a primeira, eu acho que é a possibilidade que ela me deu de se realizar profissionalmente. Eu acho que isso é muito importante. Porque, às vezes, você luta e faz de tudo pra conquistar certas coisas e, no fundo, no fundo, não é reconhecido. Então isso é muito importante, né? A Avon, quem trabalha e quem se dedica, ela reconhece. Existe, acho que, em toda empresa, sempre há uma

ovelha negra. Isso tem que ter, né? Em todo lugar tem, mas, isso aí você tem que separar as coisas. Não é empresa, isso não é empresa, isso aí foi uma semente do mal que caiu aqui dentro, mas nós vamos.

 

P/1 - O que o senhor considera como a sua principal realização na Avon?

 

R - Olha, é meio… a gente falar de si mesmo, né? Um ponto que eu contribuí e pouca gente não dá o reconhecimento, mas eu sei, eu tenho, a minha consciência diz que foi eu que fiz, eu que construí, eu que resolvi, certo?  O sistema da Avon, ele estava um pouco meio ruim, meio fora de ser executado. Quando começou no Brasil aqueles assaltos que roubavam mercadoria, que roubavam dinheiro, enfim. E a Avon, queira ou não, ela é campeã de vendas, não é na classe A e nem classe B. Ela é campeã de vendas na classe C, D, E. E, nessa classe, pra você atingir, você tem que entrar em área de risco, certo? Então, a grande venda da Avon hoje é, praticamente, ou é favela ou é periferia, sei lá, nessas áreas. E é onde se concentra o maior volume de assaltos. Assalto não pela mercadoria, a mercadoria... o bandido, o que ele vai fazer com a mercadoria? Ele não tem onde ele vender a mercadoria, né? Mas o dinheiro sim, o dinheiro ele vai fazer,

ele vai resolver o problema dele provisoriamente. Então, nós estávamos com um problema sério. Ia as peruas fazer entregas e a escolta e, mesmo assim, era roubado. E numa reunião, eu me lembro que era o Vinícius e, o Rodrigo era o presidente, ele falou: "Eu não quero saber, eu quero esse problema resolvido o quanto antes possível". Eu estava na reunião e falei: "Eu sou o tesoureiro, eu sou o que estou mexendo com todo esse negócio aí", aí eu falei: "poxa vida, existe no Brasil que você pega uma

conta de luz,  uma conta de água, um imposto e você vai, e você paga em qualquer banco, certo? Você paga lá a conta. Esse dinheiro vai ser canalizado para aquela conta do próprio comprovante”. Eu falei: "é só eu me adaptar a esse sistema. Agora, como eu vou me adaptar isso aí, como o Banco Central vai resolver ou vai conceder que os impostos, é dele mesmo", né? Conta de luz também é dele mesmo, conta de água também faz parte, todo negócio. A Avon e, por que a Avon vai querer… a Avon não tem nada a ver com o negócio. Eu fiz essa caminhada: São Paulo, Brasília, São Paulo, Brasília, eu vou te dizer… olha, eu fiz várias vezes, e ia lá na fiscalização do Banco Central, e consegui convencer os caras que eu não ia atrapalhar o sistema de

forma nenhuma. Pelo contrário, eu ia dinamizar a coisa. Eu queria que o sistema da Avon se enquadrasse no mesmo sistema que está essas empresas. Aí então, começou o trabalho. O Banco Central falou: "Olha, nós damos autorização, pode continuar, pode desenvolver". Aí eu fui junto aos bancos, certo? Ver o se eles podiam fazer isso. Fiz várias reuniões com os bancos. Um banco: "Não e não pode ser. Tem que ser

assim, tem que ter, eu preciso de uma via", e o outro não dispensava e “tá, tá, tá”. E fui contornando a coisa pra chegar num ponto final. Aí, chegou num ponto final e selecionei os que mais atendiam dentro do sistema. Selecionei cinco bancos pra operar e aí começamos essa parte interna da Avon. Como o computador ia fazer isso aí... eu gosto de computador ele lá e eu aqui. Eu não quero saber de computador. Então, realmente, a área de computação da Avon entendeu o problema, entendeu o sistema e desenvolveu dentro da própria nota fiscal que tivesse esses canhotos que serviriam de comprovante pra pagar nos bancos. Então, a mulher não pagava mais em dinheiro para os transportadores, não pagavam nem em cheque mais ao transportador. Ela ia diretamente no banco e: "vim vir pagar a conta da Avon", e pagava a conta da Avon. Logicamente, é um sistema que, pode dizer que ninguém conhecia, nem os próprios bancos. Então começou eu ter problema junto às agências bancárias fora de São Paulo. Qualquer canto do país: "Pô, recebi uma conta da Avon aqui e, poxa vida, agora o que eu faço?”, “abre a conta", o gerente falando: "abre a conta pra Avon aí". Pronto, o cara abria uma conta pra Avon lá. E ficava com o dinheiro. E correndo atrás do dinheiro. Então eu tive que percorrer, praticamente eu conheço o Brasil inteiro. Percorri o Brasil inteiro indo a cada agência que tinha problema. "Meu filho, você não entendeu o sistema? O sistema é o seguinte: quando você recebe aqui o imposto de renda o que você faz?; Ah, eu recebo e mando pra…; Essa é a conta da Avon, você manda pra São Paulo, é lá que está a conta da Avon; Hum, mas é a mesma coisa?”, eu falei: "é a mesma coisa". E aí consegui, realmente, que o sistema funcionasse e está até hoje, minha filha. Eu tenho certeza que não vai mudar não. Não muda nunca mais. Essa cria é minha, viu?

 

P/1 - Senhor Ismael, conta um pouquinho pra gente como que era o relacionamento com os colegas de trabalho?

 

R - Meu relacionamento na área de trabalho? Eu acho que foi muito bom, muito bom mesmo. Eu só fiz amigos, viu? Só fiz amigos. Acontece que, muitas vezes, a gente extrapola. Na implantação desse sistema eu tive muita discussão dentro da empresa. Teve hora que eu tive que xingar, verdade, falar palavrão pro indivíduo. Porque aquilo era um boleto bancário, era um boleto pra mulher chegar no banco e: "eu vim

pagar a minha conta, eu vim pagar este boleto bancário", e os caras começavam a chamar: "e as ordens de pagamento" e não sei o quê... Aí eu xingava ele, a mãe dele e tudo mais, "O que que é isso? Se você está me falando isso, o que você vai transmitir para as outras pessoas? Você vai confundir mais as cabeças dessas mulheres lá fora, pô. Cai em si. Não é assim não", aí os caras... pedia desculpas, fazer o que, né?

Mas eu já tinha xingado (risos).

 

P/1 - Senhor Ismael, o que a Avon representava para os funcionários?

 

R - Olha, representava e, eu acho que representa, não é mesmo? Você é casada? É, né? deixa eu te dar um exemplo pra você. Você, quando solteira, você tinha aquele lar, certo? Você quando você se casou, você se propôs estar construindo um novo lar. Mas você não esqueceu do outro, não? De jeito nenhum, né? Muitas vezes, você aperfeiçoa e, muitas vezes, você copia de tudo aquilo que você aprendeu, certo? A Avon é o nosso terceiro lar. Aquele que eu fui criado, aquele que eu ainda estou criando, e aquele que a Avon me proporcionou como lar. E ninguém media no meu tempo, ninguém media esforço pra trabalhar pra Avon. Minha filha, eu passei noites de natal, de final de ano, trabalhando dentro da Avon pra poder, digamos assim, ter no final do ano as peças que Nova York queriam. Os relatórios de vendas, os relatórios, enfim, tudo que era necessário, nós tínhamos que mandar pra que eles lá em Nova York. Como eles não eram só Nova York e Brasil, lá eles tem cento e poucos países que a Avon atua. E então, tinha que ter aquela concentração. Não podia, não pode, digamos assim, que 110 mandaram e uma não. Porque não dava pra fazer compilação de todas, o agrupamento de tudo aquilo ali. Como é que vai fazer? Cumpria exatamente aqueles mandatos, todos esses aí. Mas isso era feito de uma forma que a pessoa não sentia, digamos assim:"Poxa vida, eu estou  me sacrificando, eu estou me matando", não, não... Fazia aquilo com prazer, terminava e cumpria a obrigação e "pô, estou feliz da vida, cumpri a minha obrigação".

 

P/1 - Senhor Ismael, conta pra gente um caso engraçado que teve lá na Avon?

 

R - Tem vários, né? Mas um assim que se ele ouvir ele não vai gostar muito (risos). Que é o meu chefe, que foi o meu chefe na Avon muito tempo. Ele era vice-presidente de finanças, e ele estava sendo preparado, estavam preparando ele, pra ser o gerente geral, o presidente da empresa. E essas pessoas, elas tem que ser amigos, tem que ser, digamos assim, extrovertido, toda essa história, né? Essa história de, se eu cumprimentar e chegar aqui e cumprimentar você, coisa que eu não fiz que não tem essa intimidade, mas lá, tem gente que cumprimenta e dá um beijinho. Então, é um tal de beijinho pra lá, beijinho pra cá, que não tem tamanho, né? E, no andar superior lá, bem grande, corredores grandes lá, né, uma das secretárias recebeu a visita de uma vendedora de livros, certo? Vendia enciclopédia, sei lá, negócio lá. E ela estava com uma maleta, quase todas as promotoras de vendas da Avon usam uma maleta de vendas. Nisso, esse

Odécio, que era o que estava sendo preparado pra ser, né, encontra a mulher no corredor

e não deu outra: "como é que vai a senhora?", já largou um abraço e um beijo nela (risos), "como é que vai? Desejo boas vendas pra senhora, tudo bom", e a mulher ficou meio assim… (risos), não sabia o que fazia. Aí, ela foi e chegou até a secretária lá, que ela ia atender e vender livros pra mulher: "Bom, o que aconteceu aí?", aí ela explicou (risos). Mas foi interessante, isso aí foi uma gozação com o cara, né?

 

P/1 - Foi carinhoso. Senhor Ismael, vamos falar um pouquinho da sua família.

 

R - Minha família?

 

P/1 - É. O senhor é casado?

 

R - Eu sou casado, tenho um filho. Ele estudou, sempre um bom aluno, ele sempre nunca repetiu um ano. E ele fez Engenharia e na ocasião: "Ô, pai”, “Ah, faz Engenharia. O quê? Eu concordo. Faz Engenharia. Mas faz Engenharia que seja ligada à computadores". Era aquele apogeu, computadores, isso. Isso ele estava

no primeiro ano de Engenharia, "Acho que eu vou seguir esse aí", e passou o tempo e, quando entra para o terceiro ano, você tem que decidir o que você quer realmente. Um dia ele chega e: "Ah, eu estou fazendo lá e não sei o quê; Mas o que você está fazendo?; Estou fazendo Engenharia Mecânica e Produção; Mas como? Você não tinha combinado comigo?" (risos). Já estava, fazia meio ano que já estava fazendo o curso já, de Mecânica e Produção já. "Tá, ok, então você tomou essa decisão e a decisão é tua". Não pode fazer aquilo que eu quero, não é por aí. Mas ele sempre foi um bom aluno. Aí eu consegui pra ele fazer estágio na General Motors. Fez estágio na General Motors e, depois, eu consegui pra ele fazer estágio no Banco Itaú e depois eu consegui pra ele fazer estágio no Banco Bradesco. Aí eu consegui pra ele vir fazer estágio também na Avon. Aí ele ficou fazendo estágio na Avon e aí, a Avon falou: "esse menino vai ficar muito tempo fazendo estágio aqui, viu? Não vai sair daqui não". Mas ele não podia ser funcionário porque ainda eu estava dentro da Avon. Aí, eu me aposentei e ele ficou na Avon. E, pra castigo dele, puseram ele na tesouraria (risos). Aí realmente, ele fez praticamente seguindo a carreira que eu estava dentro da Avon. Ele ficou quase dez anos na Avon, e aí ele saiu da Avon e está numa empresa multinacional bem grande também. Nos Estados Unidos, ela é maior do que a Avon e, hoje, ele é o presidente dessa empresa no Brasil. Só tenho ele também, né? Ele já tem dois filhos, um com 14 anos

e uma menina de nove anos.

 

P/1 - E a sua esposa, qual o nome dela?

 

R - Joana. Joana Otrila Ferreira.

 

P/1 - E como o senhor a conheceu?

 

R - Eu conheci naquele tempo ainda, que eu tomava ônibus pra ir trabalhar. Tomei o ônibus e, no que eu entrei, segurando ali, que eu peguei, coincidentemente, peguei na mão dela, né? E que ela olhou pra mim e eu olhei pra ela e falei "desculpa" (risos). Mas ela deu um sorriso de satisfação e eu falei "então ela gostou, né? Deixa eu segurar mais na mãozinha dela então" (risos). Aí deu o que deu, né? Você viu, né?

 

P/1 - Tá certo. Quanto o senhor está casado?

 

R - São 47 anos, 47 anos.

 

P/1 - Senhor Ismael, o que o senhor gosta de fazer na sua hora de lazer?

 

R - Olha, tem uma coisa muito importante na minha vida, que eu sempre digo... Se isso não tivesse aparecido na minha vida, eu acho que eu já teria morrido. Eu fumava, comia assim meio desordenadamente. Por isso que eu tenho esse negócio aí, que é difícil tirar. Hoje, não é por comer, hoje é por, sei lá, virou uma anomalia aqui que, só operando pra tirar essa. Mas realmente, surgiu o golfe na minha vida, onde eu comecei a me corrigir. Não fumo mais há 30 e poucos anos. Eu jogo golfe há 35 anos, por aí, né? Então o golfe é realmente uma parte da minha vida. Só veio contribuir pra minha saúde e para o meu lazer.

 

P/1 - Que bom, né?

 

R - É bom mesmo.

 

P/1 - Vamos falar mais um pouquinho da Avon? Para o senhor, qual a importância da Avon para a venda direta? Esse sistema de porta em porta no Brasil.

 

R - A importância? Olha, acho que não tem. A pergunta não é bem assim. Não tem importância nenhuma. A venda direta é a Avon. Alguém que entra, fazer venda direta, está copiando a Avon. A Avon é a dona da venda direta. Ela não copiou ninguém. A Avon, há 120 tantos anos atrás, quando começou a vender, ela começou a vender livros, certo? Então o vendedor de livros começou a vender enciclopédia, vendia, enfim, era aquele negócio... E acontece que ele tinha, digamos assim, aquela necessidade de presentear os clientes. Quem comprava os livros dele, chegava o final do ano e dar um presentinho. Mas ele tinha que fazer alguma coisa pra não ser caro pra ele, né? Então ele começou a fazer o seguinte: ele começou a fazer perfumes e dava perfumes para os clientes no final de ano ou aniversário das pessoas. Aí começou a surgir dos clientes, partiu do consumidor lá: "Escuta, eu gostei daquele perfume que você me deu, você quer me vender? Manda um frasco daquele lá, que eu compro de você". Então começou a ter procura e, então, ele começou a vender perfumes, certo? Então ele começou, falou: "O negócio aqui é bom". Então ele começou a produzir, vender. Mas acontece, ele falou assim: "Eu tenho essa clientela aqui porque eu vendia livros, agora, eu quero vender perfumes, eu quero vender coisa pra mulher. Mas como é que eu faço? Eu

não posso conseguir abrir portas... um homem batendo na porta pra mulher atender?" É difícil, a não ser que ela já conheça o cara, se não, ela não abre a porta, né? Então, ele sentiu a necessidade de ter uma mulher vendendo e, essa mulher foi a Miss Albee. Então, foi a primeira revendedora da Avon. Então, essa mulher começou a vender produtos pra ele. Então, começou a dar certo e, então, ele botou mais uma, mais

duas, mais três, mais quatro e aí foi crescendo a venda de porta em porta.

 

P/1 - Como o senhor vê a Avon nesse sistema de levar os produtos de beleza para a mulher? Porque o senhor falou que ele começou  fazendo isso nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, quando o senhor soube que a Avon fazia isso?

 

R - Mas eu não conhecia a história, né? Eu conhecia, eu estava sabendo que estava acontecendo aqui no Brasil eu achava que era uma estupidez, que não ia dar certo.

 

P/1 - E hoje?

 

R - Hoje não. Há muito tempo já me convenceu, e muitas vezes. Isso aí é fato consumado, isso aí não tem problema nenhum. O mundo, todo mundo vai ter que... Esse aí é realmente o caminho que nós vamos seguir vai ser esse daí. Você, pra comprar as coisas, não vai ter que sair de casa não. Você vai receber lá na tua casa lá, quem quiser vender, vai ter que ir lá te procurar, certo? Esperar que você venha aqui na minha

loja? Isso aí já não.

 

P/1 - E a Avon ela colocou a mulher no mercado de trabalho. Como que o senhor acha que foi isso para a mulher? Porque a Avon já fazia isso nos Estados Unidos. E aqui no Brasil?

 

R - Então, mas isso em todo lugar. Você não vai gostar, né, mas a mulher sempre foi tida como, digamos assim, uma peça… vamos chamar de meia ociosa, que não tem muita atividade no trabalho, nunca faz nada, está sempre disposta e está lá. O homem não reconhece o que a mulher faz dentro de casa, isso é claro, né? "Ela não faz nada" e não sei o quê. Então era uma chance para que a mulher fizesse algo mais daquilo que ela faz, e uma chance dela ganhar dinheiro. E é uma grande chance num país como o nosso quando, e hoje ainda também, de ter uma receita adicional, certo? Você não tem tempo de ser empregada num banco, numa loja em tempo integral. Não porque você tem filhos, você tem que cuidar disso, você tem que cuidar da roupa, você tem que fazer comida, você tem que fazer um monte de coisas. Mas você tem duas ou três horas de folga que você pode sair e atender as suas amigas, as suas clientes e revender um produto Avon. E você está ajudando, digamos assim, essas pessoas também, a se produzir, a tua imagem, enfim, fazer todo aquele negócio que é o que a Avon sempre quis fazer e faz.

 

P/1 - Para o senhor, como você avalia o fato dos produtos Avon chegarem a esses lugares tão distantes do Brasil pelas revendedoras?

 

R - Não é  bem assim, né? A revendedora, ela tem um trabalho muito... Mas você tem que levar em conta que nós temos uma equipe de transportadores que é muito importante, você tem que entregar esses produtos na mão da revendedora e, essas revendedoras, na realidade 90 por cento, praticamente, é desse meio, é desse

bairro, desse pedacinho ali que que atua, ela mora ali, certo? Geralmente, é dado a revendedora na área dela. Eu não posso ter uma revendedora aqui do bairro, aqui, vendendo lá em Santo Amaro, né? Não dá produção, não é por aí. Existe, em certas regiões, vamos pegar a região do Amazonas: ali existem reuniões que a mulher vai fazer entrega de barcos, a revendedora vai fazer entrega e vai vender também, de barco. Então, cada região tem as suas características.

 

P/1 - Senhor Ismael, a Avon ela realiza muitas ações sociais. No seu tempo quais eram? Eram mais voltados ao esporte?

 

R - Existem muitas coisas. A Avon começou um bom exemplo, que a Avon, eu não sei hoje como é que está, mas era o câncer de mama. A Avon foi uma das primeiras empresas a divulgar da mulherada, enfim. Fazia, inclusive ela patrocinava, a corrida das mulheres no Ibirapuera, de câncer de mama. Era um negócio. Eu não sei hoje, hoje não sei se ainda tem, sei lá.

 

P/1 - Na sua opinião, qual é a importância da Avon para a história dos cosméticos?

 

R - É difícil você dizer que esse mercado é um mercado meio difícil, viu? Difícil. Quando você pensa que você é o criador, você passa a ser a cria. Então, eu não posso dizer "a Avon criou isso", não. A Avon, logicamente, eu acho que a Avon, desenvolveu mais esse mercado porque ela, fazendo, outros também, vão querer se desenvolver e se desenvolve. Não é um segredo a sete chaves, e acaba surgindo outras empresas e

fazendo coisas até, digamos assim, pode ser até melhor do que a Avon está fazendo. É um mercado difícil, não é fácil não. A empresa, pra se meter nesse meio, aí tem que... Haja visto o Silvio Santos, o Silvio Santos tentou e quebrou a cara há muito tempo.

 

P/1 - Como é essa história do Silvio Santos?

 

R - Se eu falar pra você. Eu não tenho nada concreto, né? (risos). Foi tudo aquilo que você já ouviu, né? (risos). Mas muita gente boa já andou querendo entrar no sistema e quebra as pernas, quebra as pernas...

 

P/1 - Qual o fato mais marcante que o senhor presenciou enquanto esteve lá na Avon?

 

R - Difícil de selecionar, viu? Todos foram importante, não tem nada que sobressaísse: "Esse foi melhor do que aquele”, não tem.

 

P/1 - E os maiores aprendizados de vida que a Avon proporcionou para o senhor?

 

R - Aprendizagem de vida?

 

P/1 - Uma lição de vida que o senhor tomou lá dentro da Avon, alguma coisa que aconteceu.

 

R - Eu acho que isso não é bem assim, né? Eu acho que a gente aprende. Que a empresa, ela é uma pessoa jurídica, não é uma pessoa física. Então, essa aprendizagem de vida, você aprende. Eu estou aprendendo com você, eu estou aprendendo com ela, ela está aprendendo comigo e assim sucessivamente. A gente aprende, digamos, na convivência com as pessoas, né, aí você tem realmente...



P/1 Seu Ismael, vamos falar um pouquinho dos esportes?

 

R Esporte? Ótimo, isso é bom!

 

P/1 Conta pra gente como era.

 

R Esporte é o futebol, a gente jogava muito também era o society. Deixa eu contar um fato pra você, digamos assim, mais pitoresco. A Avon, quando começou, tínhamos uma data festiva, era no mês de junho, festa junina, e nós fazíamos essa festa num clube ali pertinho da João Dias… mais pra baixo, um pouquinho do lado direito, BNI (Banco Nacional de Investimento), um clube grande e tudo, tinha até bosque, aquilo tudo. A gente fazia lá uma festa que começava de manhã, e terminava às tantas da noite. Todo mundo adorava aquelas festas, e nós tínhamos o laboratório, o posto médico dentro da Avon e tinha um médico e, quando terminava essas festas, o médico, digamos assim, gostava de fazer as brincadeiras dele, né, então as meninas iam fazer consultas, né, dependendo do tipo de problema lá. Então, o médico fazia a primeira pergunta: “Escuta aqui minha filha, você participou da festa junina?” (risos), e teve casos, não foi, né, mas ele fazia isso aí ligando, né, teve caso que a menina, sei lá, estava grávida, né,”você participou lá festa junina?” (risos), mas então ficou, né, aquela brincadeira, né, então ele (risos), vez em quando, ele brincando às vezes com a menina assim, “escuta aqui, você foi à festa junina, se foi me conta direitinho hein...” (risos).

 

P/1 E a Avon tinha time de futebol? O senhor participava do time de futebol da Avon?

 

R Participava assim, mas não do futebol, digamos assim, oficial, né… eu participava do futebol da administração. Mas Avon tinha um timão, um time grande, onde ela participava, O SESI fazia as competições de todas as indústrias daqui de Santo Amaro, Avon foi campeã por alguns anos, de futebol.

 

P/1 E tinha outros times, ou era só futebol?

 

R Eras mais futebol mesmo, né, basquete nunca foi. Tinha time de basquete, mas também não era grande coisa não… Tinha bons tenistas, tenista tinha gente boa lá, no tênis, mas não chegou a ser lá em cima não.

 

P/1 Mas eram bons?

 

R Mas tinha gente boa, é...

 

P/1 E a festa junina era nesse clube?

 

R Era no BNI.

 

P/1 E tinha todo ano?

 

R Ih! Era uma festa muito esperada. (risos)

 

P/1 Juntava todo mundo?

 

R Todo mundo, era Avon inteira, Avon inteira ia lá, todo mundo ia lá.

 

P/1 Tá certo, deixe eu perguntar só mais coisa só para o senhor, o senhor começou na João Dias?

 

R Sim.

 

P/1 E quando mudou para Interlagos?

 

R Olha, nós mudamos para Interlagos em 1970, começou na área de fabricação. O produto começou a ser produzido lá na fabricação porque na João Dias, já era um meio acanhado ali, o espaço não era o suficiente, né, então foi dada preferência para a área de fabricação ir primeiro, então ficou dois anos, escritório João Dias e fabricação lá em Jurubatuba, aí, em 72 foi uma mudança total, aí, fomos todo mundo pra lá.

 

P/1 E a Avon tem um centro de distribuição?

 

R É.

 

P/1 Eles têm uma administração própria ou o senhor que cuidava disso também?

 

R Tudo ali faz parte de uma só administração, né… aí, esse centro de distribuição que nós temos em Osasco lá, foi criado pra desmembramento de área mesmo, né, porque realmente onde estava sendo feito não dava pra continuar porque o volume era muito grande, né, então nós fomos para Osasco. Hoje, o negócio funcionou tão bem em Osasco, né, já estamos com mais dois centros de distribuição, Norte, Nordeste, todas essas áreas aí, estão dando certo.

 

P/1 Seu Ismael, o que o senhor acha da Avon está resgatando a história através desse projeto?

 

R Posso falar a verdade? (risos) Se quiser põe a Bíblia aí, que eu vou rezar em cima dela. O fato é o seguinte: que a Avon foi uma empresa que zelava muito pelo valor humano, certo, tudo pra ela em primeiro lugar estava o ser humano, isso sempre foi muito bonito dentro da Avon e, por uma questão, não sei onde surgiu, que o valor principal dentro da companhia passaria a ser o dinheiro, não mais as pessoas, então isso foi criando uma certa, digamos assim, política ou uma tentativa de lavagem cerebral porque a coisa, o negócio, é dinheiro, então, isso começou a se distanciar um pouco daquilo que a Avon sempre tinha em mente,né, e isso aí começou a dificultar as coisas, o dinheiro não é tudo na vida, né, o dinheiro, ele faz bem, tudo, ajuda, mas não resolve tudo, né. Acontece que a Avon, agora, começa usar aquele tema que você usou, resgatar aquilo que ela sempre fez, certo, é difícil, digamos assim, eu tiro por mim, uma pessoa como eu, que eu, quando trabalhei dentro da Avon, eu era, digamos, Avon... eu não era Ismael Ferreira, eu era Avon, pô, agora, se eu me aposento, eu não deixo de ser Avon, eu continuo sendo Avon... mas acontece que, quem ficou lá dentro, tá querendo passar uma esponja em cima dessa imagem, desvincular essa pessoa que fez a Avon crescer, pra ignorar e jogar fora da coisa, certo, e isso não foi, digamos assim, o bom de tudo isso, não foi em decorrência, digamos assim, de uma revolta das pessoas, não, não, não houve, sei lá, eu nunca movi nada contra Avon em decorrência de eu ser colocado à parte, não, de jeito nenhum, isso não é a empresa, isso são pessoas que estão lá e, logo amanhã vão estar fora, foi o que aconteceu. Essas pessoas não estão mais lá, então as que estão lá, estão resgatando tudo aquilo que deixaram pra trás, né, eu só tenho que aplaudir essa nova administração da Avon, né, tá excelente, jóia.

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