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História

Quem não leu pode ser sábio, sim senhor

História de: Maria de Nazaré Menezes da Costa
Autor:
Publicado em: 12/09/2021

Sinopse

Em sua curta entrevista, Dona Maria conta a respeito das dificuldades de sua infância e de como desde cedo precisou trabalhar e cuidar de sua casa. Fala também da criação de seus filhos na região do Cafezal, na Barcarena Sede. Maria fala um pouco dos mistérios que assombram a cidade, devido ao casarão do Cafezal que, segundo muitos, abriga a alma de tudo o que aconteceu nos últimos anos da escravização.

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História completa

Eu não estudei, porque meu pai não queria que eu estudasse. Ele ainda dizia: “Não, não vou te botar pra estudar, pra ti não aprender a fazer bilhete pra namorado”. Acabou que ele trouxe pra dentro de casa, trabalhador pra trabalhar com ele e aí a gente se gostava, e pronto. Aí a gente se conheceu e pronto, acabou. Foi isso. Porque senão, eu não chegava a nem ter essa filha, porque eu tinha aprendido, eu tinha um saber bom pra eu aprender e gostava, queria, tinha muita vontade de estudar. Mas aí não deu. Por exemplo, se o senhor tivesse um papel aqui me ensinando, ele tomava e rasgava tudo e pronto: “Isso é só pra vagabundagem”. Ele dizia assim. Aí tá bom, não tem problema. Eu me criei, construí minha família, me disciplinei por conta própria dele, porque ele arrumou duas pessoas pra trabalhar com ele. Chegou no fim um veio gostar de mim, eu estava com quê? Meus dezesseis anos, estava nova ainda. Eu tive a primeira filha, que está com sessenta anos já, em 1956.

Mas tudo bem. Que Deus é um só. É, sim senhor, é um Deus só. Ele cuida de nós todos no mundo. O meu pai dizia assim, ele tinha um catecismo e dizia assim: “Quando Deus quiser acabar o mundo, não vai ser só com um, vai ser com tudo. Tudo pra um não falar do outro”, certo? Então, como eu digo sempre, converso com as pessoas que, às vezes, em casa, vão perguntar e conversar comigo, eu digo: “Não. Eu falo isso aqui, não é que eu saiba ler, porque eu vi o catecismo que o meu pai tinha, que o padre deu pra ele”. Então, por isso que, quando eu lembro, eu falo e é verdade.

Quem não sabe ler, dá pra ser sábio ainda. Dá um pouco, né? Dá um pouco, sim senhor. Eu não sei ler, não sei escrever, não sei assinar um nome. Aí eu ponho essas palavras pra você, por quê? Porque Deus está na minha mente, me orientando, não é verdade?


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