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História

"Quem lê muita bula encabula"

História de: Tércio Torres de Sá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nascido em 1926, no interior de Minas, Tércio teve uma infância marcada pelas brincadeiras de rua e mudou-se para Campinas, durante a adolescência, para estudar o científico e passar no vestibular de medicina. Ingressou na Escola Paulista e logo depois sua formação, foi convidado para trabalhar em um hospital em Dourados, no Mato Grosso do Sul, no qual atendeu a população local, composta de muitos povos indígenas. Decidiu retornar a São Paulo após os filhos crescerem e foi contratado pela Johnsons como funcionário do Departamento de Investigações Clínicas, permanecendo na subdivisão Farma, até hoje, após sua aposentadoria. Nesse depoimento ao Museu da Pessoa, Tércio relembra sua infância, seu trabalho em Dourados e descreve o passo a passo do desenvolvimento de pesquisas clínicas do laboratório da Johnson e Johnson, ressaltando sua responsabilidade e ética ao lidar com a promoção de novos medicamentos.

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História completa

P/1 - Bom, eu queria começar a entrevista perguntando pro senhor o nome completo, o local e a data de nascimento.

R - Tércio Torres de Sá, nascido em Guaranésia, Minas Gerais, uma cidadezinha perto de Poços de Caldas, no dia 22 de setembro de 1926. Faço setenta o ano que vem.

P/1 - Doutor Tércio, qual o nome dos pais do senhor e o que eles faziam?

R - O meu pai era Raul Jorge de Sá, ele era o filho mais velho de vinte e um irmãos, eram dezoito homens e três mulheres, ele era o mais velho. E ele começou a trabalhar com doze anos e depois se casou com dezoito e acabou, chegou a ser gerente do grupo de uma fábrica de tecido grande, de um banco cujos donos eram os donos do Mappin, Alberto Lopes Filho. E ele terminou, passou a vida inteirinha, foi o único emprego que ele teve, foi com o pessoal do Mappin, onde eu também fiz amigos, lá com os antigos donos do Mappin. A minha mãe Estefânia Torres de Sá, ela é descendente de alemães, suíços e portugueses. Dona Estefânia nascida em Três Pontas, ali no sul de Minas também. O meu pai era de Arceburgo, uma cidadezinha ali perto de Guaranésia também. Ela era um, ela ainda é viva, o meu pai morreu em 1968, a minha mãe ainda está viva, vai fazer noventa e um [anos] semana que vem, noventa e um. E de modo que a família é grande, numerosa, bastante, na minha mãe eram catorze irmãos e no meu pai eram vinte e um, de modo que você retirando os dois, sobravam vinte um com catorze, trinta e cinco, tira os dois, sobravam trinta e três tios, né, casando dava sessenta e seis tios, você vê que é coisa toda vida, mas são lembranças muito gostosas de guardar. O meu avô era um português da Ilha de Funchal, curtia muito, era muito bom.

P/1 - Certo. Quais são as lembranças marcantes que o senhor tem da infância?

R - Era uma infância completamente diferente da infância dos meus netos hoje. Naquele tempo em que a gente fazia uma pipa que, no meu tempo, chamava papagaio, a gente fazia papagaio pra soltar, a gente tinha que fazer e a gente soltava, onde você ainda jogava pião, eu não sei se vocês conhecem o pião, jogava bolinha de gude no chão, jogava pião. Entrei na escola, naquele tempo a gente só usava calça comprida depois que começava nascer o princípio da barba com treze, catorze anos, antes disso usava só calça curta. Começava só quando começava a mudar a voz, que a gente usava calça comprida. Então na escola primária, onde eu freqüentei a escola primária lá em Guaranésia, é uma lembrança muito boa e de uma época que você já não tem mais comparações que você faz com os filhos, com a infância dos filhos e dos netos, né? Hoje eles vivem na televisão, eu vim conhecer rádio quando eu estava com sete anos, rádio, quando eu tinha sete anos foi que eu conheci rádio lá em Guaranésia que o meu pai comprou um dos primeiros rádios que tinha lá em Guaranésia. Hoje a meninada já nasce com dois, três meses a primeira coisa que vê já é a televisão e a mãe está vendo televisão amamentando, amamenta a criança vendo a televisão, de modo que a criança cresce naquilo não tem mais divertimento, nem brincadeira. E uma coisa que eu me lembro muita da minha infância é que a casa onde eu nasci, que é a casa onde a minha mãe mora até hoje, era uma chácara de cem por cento e cinco metros e ficava numa subida e naquele tempo era de terra e os caminhões quando entravam na cidade, estrada de terra encravavam, né, e a gente ficava só torcendo pra eles encravarem pra gente ficar torcendo. (risos) Até os motoristas ficavam xingando a gente, que a gente torcia pra eles encravarem. E na época da seca, aquela subida de terra, a gente tinha aqueles carrinhos de roda, que hoje a meninada já não tem mais, né, aqueles carrinhos de roda a gente descia de carrinho, subia. De modo que era uma coisa, era uma infância muito diferente. sabe? E de lembranças muito gostosas e que não existem mais, né, você não tem mais por, onde nem olhar nos filhos e netos e relembrar coisas do teu tempo porque é uma vida completamente diferente, né? Fiz o primário lá em Guaranésia e depois vim fazer o ginásio no Ateneu Paulista em Campinas, depois vim aqui pro Anglo Latino, onde fiz o curso científico e depois entrei na Escola Paulista de Medicina em 1947 e saí de lá em 1952. E fui trabalhar no interior de São Paulo e Mato Grosso, onde eu trabalhei com índios lá até 1968.

P/1 - Por que é que o senhor quis ir pro Mato Grosso trabalhar com os índios?

R - Porque eu gostava muito, achava que era uma população muito sofredora e sem recurso e na Escola Paulista tinha um grupo que gostava muito de atender pessoal do Rio Xingu até hoje, o professor Roberto Baruzzi é um dos que chefia, muito amigo do Orlando Villas Boas e eles gostavam daquilo. E eu via aquilo e quando a minha mulher, naquele tempo, a minha noiva estava fazendo o último ano de odontologia, eu me casei e nós fomos morar lá em Mato Grosso. Pegava asfalto só até Sorocaba, depois pegava 1.030 quilômetros de terra, eram três dias e meio de jipe, só que no meu primeiro ano de formado eu não tinha carro, não tinha nada, eu atendia cliente com a bicicleta Caloi e a malinha no bagageiro, né? Mas fomos pro Mato Grosso, moramos lá numa casa de madeira, fogão de lenha, ferro de brasa, geladeira a querosene, os filhos ficavam todos encardidos na terra vermelha. Quando a gente vinha de férias pra cá, quando estava começando a desencardir, estava na hora de voltar pra lá, né, mas foram... Como profissional médico, eu acho que foram uns anos muitos gostosos da minha vida, se eu tivesse de refazer a minha vida hoje e pudesse vivê-la de novo, eu acho que eu escolheria viver lá de novo. Eu fiz o parto de dois filhos meus, dos três que a gente tem, dois eu fiz porque não tinha outra alternativa. E é curioso, que no ano em que eu saí lá de Dourados, que eu vim pra São Paulo, o hospital era um hospital missionário da Igreja Presbiteriana e eles me deram um relatório do meu trabalho durante o tempo em que eu permaneci lá. E no dia em que eles me deram um papel assinado, firma reconhecida em papel timbrado, assinado, aí é que eu fui ver o quanto eu tinha trabalhado, eu tinha atendido mais de setenta mil doentes durante esse tempo que eu estive lá, trabalhava de manhã, de tarde e de noite. Fiz mais de 1.200 partos e mais de 2.400 cirurgias durante esse tempo. De modo que foi uma época em que se eu voltasse para São Paulo muito cedo, aqui eu seria mais um perdido no meio de uma população, onde eu não faria falta nenhuma e lá a gente era útil com todas as dificuldades que a gente enfrentava como profissional, a gente sentia ainda um profissional útil, fazer parto a domicílio, na roça, no meio do mato, passar um dia inteiro e uma noite muitas vezes esperando nascer um nenê, uma criança onde você praticamente não tinha condições de trazê-la pro hospital. E ficava lá. Foi uma vida profissional extremamente gostosa e curiosa.

P/1 - Certo. E vindo pra São Paulo o senhor entrou na Johnson?

R - Quando eu cheguei aqui em São Paulo, refazer uma vida profissional não foi fácil porque os meus colegas de turma, dezesseis anos depois de formados, já estavam todos encaminhado na vida e eu cheguei aqui e fui trabalhar em três lugares, eu trabalhava no pronto-socorro do hospital de São Miguel Paulista, eu dava um plantão lá de sexta-feira à noite a sábado a noite, vinte e quatro horas, dava um plantão lá no hospital de São Miguel. E trabalhei na Amico em dois lugares, eu trabalhava no hospital ali na Azevedo Macedo de meio dia às seis e trabalhava de oito a meio dia no laboratório da Arno que também era mantido pela Amico naquele tempo. Então é fácil de você imaginar, eu trabalhava, saía de casa seis e meia, sete horas da manhã porque eu não tinha carro, ia lá pra Amico lá perto da Avenida do Estado, lá na Arno lá na Avenida do Estado. Trabalhava até o meio dia, dez, quinze pra meio dia eu saía correndo porque eu entrava na Azevedo Macedo do meio dia às seis, tomava um lanche quando dava tempo, trabalhava até as seis na Azevedo Macedo, depois pegava um ônibus pra ir pra casa. E na sexta-feira então, quando eu dava plantão lá em São Miguel, eu saía dali às seis e já ia direto pra São Miguel. Então eu estava trabalhando setenta e quatro horas por semana, cinco dias de 10 horas e uma de 24, setenta e quatro. E é gozado, hoje a turma trabalha 40 e reclama, né, eu trabalhava 74, mas cheguei a conclusão de que fosse pra continuar naquele ritmo, eu iria dar um prego logo e ia deixar uma mulher com três filhos, né? Aí um dia eu vi um anuncio no jornal de uma empresa que tava querendo um médico que tivesse experiência profissional e que tivesse eventual condição de viagem, que pudesse eventualmente até dar aulas de treinamento e eu fiz uma entrevista, não sabia quem era mas fui lá, fiz a entrevista. Vi que era a Johnson, fui selecionado entre três e depois fui escolhido pra trabalhar. E é curioso que quem me admitiu pra trabalhar naquele tempo como membro do comitê executivo da Johnson foi o senhor José Augusto Pinto, que é o meu companheiro de trabalho até hoje, são dessas circunstâncias muito gostosas e curiosas da vida, né? E eu trabalhava lá na Johnson cinco dias por semana, mas ainda dava plantão em São Miguel porque a situação financeira não permitia. Até que um dia o senhor José Augusto Pinto disse: "Tércio, você agora não quer ficar só com tempo integral na Johnson? Porque você agora vai ter que viajar, vai ter que ir a congresso". E muitas vezes não podia trocar o plantão, né? Aí eu acabei ficando com o tempo integral na Johnson a partir de 1970, comecei a ficar com o tempo integral na Johnson até hoje, só vivendo dia, tarde e noite, Johnson 24 horas por dia e valeu a pena. E foi uma das, a segunda fase da minha vida tão boa quanto a primeira e que são essas coisas que vão marcar a vida da gente até o fim, né?

P/1 - Deixa eu perguntar uma coisa pro senhor: Qual a função do senhor, o que é que o senhor fazia exatamente?

R - Quando eu entrei na Johnson eu fui admitido como Assistente de Departamento de Investigações Clínicas, cujo chefe era o senhor Pagano Botana, que é um colega meu que já é falecido, o Pagana Botana. Depois de algum tempo de Assistente da Gerência de Treinamento, aí eu passei para Gerente de Pesquisas Clínicas e foi o cargo que eu fiquei até ser aposentado em 1991, quando eu completei sessenta e cinco anos. Lá na Johnson com sessenta e cinco anos a gente se aposenta, então eu com sessenta e cinco anos me aposentei como Gerente de Pesquisa Clínica, mas a experiência que a gente tinha acumulado ao longo do tempo, a Johnson naquele tempo estava inaugurando uma nova divisão de trabalho que era a Divisão OTC, divisão de produtos farmacêuticos de venda livre pro consumidor, né, e o senhor José Augusto Pinto, de novo, naquele tempo foi lá me chamar pra trabalhar lá na Divisão OTC com o Gabriel Tanos, que era o gerente da área. E eu passei direto, me aposentei e continuei, estou na Divisão OTC até hoje de modo que eu só vivi Johnson desde que eu voltei do interior em 1968, de 1969 até hoje, só vivi Johnson e estou completando agora de 1969 até agora vinte e seis anos de Johnson. E o ano passado eu fui admitido no clube dos vinte e cinco anos. Então é uma experiência de vida extremamente curiosa, gostosa e que vai marcar saudade até o finzinho.

P/1 - Doutor Tércio, como é se desenvolve, na época que o senhor entrou se desenvolvia o trabalho de pesquisa do senhor?

R - O trabalho de pesquisa a gente tinha duas fases curiosas na área de pesquisa, primeiro a gente desenvolvia pesquisa com algum produto já comercializado no exterior e a gente ia ver a experiência brasileira com aquele medicamento. Então a gente procurava os professores universitários de Norte a Sul do Brasil na dependência da doença que você ia estudar, eu fiz estudos desde Pará, desde Belém do Pará até o Rio Grande do Sul, até Porto Alegre, diferentes professores, apresentávamos um protocolo de pesquisa, as condições, tudo feito absolutamente dentro das normas legais nacionais e internacionais. Aprovado aquilo, o estudo era implantado, a gente fazia um acompanhamento periódico, terminado o estudo a gente fazia uma avaliação clínica do estudo e depois o trabalho era publicado para ser eventualmente divulgado e levado pelos nossos propagandistas aos médicos. Em outra fase do estudo era quando a gente ia fazer parte de um grupo multicêntrico internacional de uma substância nova, onde muitas vezes a nossa companhia investigava em vários países e, muitas vezes, o nosso país era incluído no rol dos países participantes, então a gente também procurava outros professores dentro das normas de ética e o estudo, a gente participava de tudo aquilo. Paralelamente depois que esses produtos eram comercializados, evidentemente, a gente tinha que participar de uma área de treinamento para que os nossos propagandistas levassem aqueles conhecimentos aos médicos que iam receber o produto daquelas pesquisas. Então a gente também trabalhava na área de treinamento de propagandista-vendedor, fazia revisão periódica daqueles treinamentos e, paralelamente, a gente tinha que participar de congressos nacionais e internacionais, pra você viver dentro do teu programa de trabalho, ficar atualizado na linha de conhecimentos em congressos nacionais e internacionais. De modo que era uma atividade bastante agitada, mas bastante gratificante em todas as áreas porque eram normas muito rígidas, muito éticas de trabalho e aquilo fazia muito bem pra gente, ser participante de uma empresa com essa linha de trabalho, né, muito bom.

P/1 - Certo. O senhor participou de lançamento de algum produto que o senhor lembra?

R - Eu dei uma lista que eu forneci para Carmen desde a época que eu entrei na Johnson, o primeiro produto que eu participei do lançamento oficial foi o Stugeron em julho de 1970, foi o primeiro produto, onde eu fui em diversas capitais do Brasil, fazendo os lançamentos regionais para diferentes equipes do Brasil. E depois eu fui tomando nota daquilo, que eu participei e até hoje, de 1970 até a data de hoje, eu já participei do lançamento de 54 produtos na Johnson. De modo que eu tenho isso tudo marcado, tudo historiado, bem resumido, nas cidades onde foi o lançamento, onde nós fizemos as palestras, os estudos que foram realizados de modo que, até hoje, 54 produtos passaram pelo conhecimento da gente, pelo treinamento, de modo que foi uma vida bem gostosa.

P/1 - Certo. Deixo eu perguntar uma coisa pro senhor. O senhor chegou a trabalhar no biotério?

R - Não, no biotério a gente tinha um relacionamento profissional com o doutor Chaia, Geraldo Chaia que, naquele tempo, quando a Johnson instalou a nossa fábrica de pesquisa de síntese química, que foi ali na área de Sumaré e o professor Geraldo Chaia que era da faculdade lá de Belo Horizonte, ele foi chamado de Belo Horizonte para tomar conta da nossa parte de pesquisa em São José, lá em Sumaré. E o Geraldo Chaia tomou conta de toda parte do biotério de pesquisa e também na área de parasitologia, que era uma área que ele conhecia muito bem e com o qual ele tinha um relacionamento muito bom dentro da área dos parasitologistas. Então o Chaia, também eu tinha um relacionamento muito perto porque a gente trabalhou juntos em muitos projetos e participamos juntos em vários congressos, eu tenho fotografias participando com Chaia, onde ele estava presidindo mesa e eu fazia parte de participante, como participante da mesa, né, de modo que eu convivi bem com o Chaia, ele na área dele específica e eu na minha área de pesquisa de produtos onde ele paralelamente trabalhava.

P/1 - Como era, a pesquisa de produtos como é que ela se desenvolve passo a passo?

R - É uma caminhada extremamente longa, pra você ter uma idéia, entre os laboratórios de porte que são vários laboratórios de porte internacional e que tem uma linha de conduta de pesquisa clínica bastante séria e bastante rígida, para você ter uma idéia, a gente tem uma média entre oito e nove mil substâncias que você começa no princípio, pra depois você colocar um vidrinho na prateleira ou uma caixinha de injeção que, muitas vezes, você muitas vezes não valoriza. E essa caminhada, às vezes, pode levar de seis a oito, dez anos, pode envolver investimento de 50, 60, 70 milhões de dólares e envolve estudos que, muitas vezes, se desenvolvem em um país porque aquele país possui a principal doença estudada, outras vezes se desenvolve em vários países onde as doenças, aquela patologias estudadas estão freqüentes. E o estudo demora porque você tem que começar por uma série de fases do estudo, né, quando você tem a substânciazinha inicial, você faz os testes iniciais em animais de laboratório, depois você passa pros animais roedores, depois você passa pra animais não roedores, depois você tem que fazer testes de primeira e segunda geração, então você estuda em animais de primeira geração, depois os da segunda geração você acasala, vai vendo efeitos que podem acontecer na propagação em gerações seguintes até você chegar na fase mais difícil de decisão, que depois de você ter todo aquele material, pilhas e pilhas de animais que você examinou todos os órgãos e cada animal tinha a sua ficha como se fosse um paciente, e depois de ter tudo isso, você entregava para professores fazerem uma análise daquilo até que você tomasse a decisão de partir para experiência em humanos, que você inicialmente começava com voluntários num grupo muito pequeno e reduzido, extremamente controlado até você começar em grupos pequenos também excessivamente controlados, depois você expandia o leque para uma fase maior até que você tivesse dados resultantes dos percentuais de cura, dos percentuais que você tinha de recidivas e dos casos que você não tinha conseguido curar e que você estabelecia relação com patologias porque, muitas vezes, você tratava um paciente portador de uma doença onde muitas vezes ele podia ter outra doença, o medicamento que você usava para um hipertenso, mas se ele fosse também um portador de uma úlcera ou uma diabete tudo isso, então a pesquisa era muito ampla. E mesmo depois de lançados, com todos esses recursos e com todos esses cuidados, a gente ainda tinha um departamento de Farmacovigilância, que fazia o controle de todos os efeitos colaterais que nos eram comunicados por profissionais que faziam uso daquele medicamento e até hoje a gente tem o controle de Farmacovigilância com os medicamentos, porque depois que ele é lançado você nunca perde o contato com ele. E medicamento que não tem parefeito, porque não tem efeito só que você tem que educar e controlar e administrar a situação dos parefeitos, de tal maneira que você obtenha o efeito desejado do medicamento controlando também aqueles efeitos secundários que eventualmente possam acontecer.

P/1 - Como é que é feito esse controle?

R - Esse controle a gente faz inclusive com os próprios médicos, a gente tem um departamento de Farmacovigilância na escola. Se, por exemplo, um pesquisador usa um medicamento numa mulher que, muitas vezes, por exemplo, não pode estar grávida quando toma o medicamento e eventualmente ela toma o medicamento, a gente tem que fazer os controles porque, muitas vezes, a sucessão de efeitos que você possa admitir, você tem que ter um controle porque tem uma situação, por exemplo, muito difícil de controlar em medicina quando você tem duas vidas em jogo, é o caso de uma mulher grávida onde tem a vida em jogo e a vida do nenê que ela amamenta. Ou então muitas vezes uma criança que ela amamenta e, muitas vezes, o medicamento pode ser eliminado pelo próprio leite ou pode passar pela placenta no caso dela estar grávida. Então você tem que ter um controle extremamente rigoroso, principalmente, no pós lançamento, por isso que nas bulas de medicamento você tem que ter aquele extremamente rigoroso de colocar que mães grávidas e que estejam amamentando não podem fazer uso de medicamentos até que você tenha uma confirmação, que somente o passar dos anos pode completar aquilo. Mas a gente não recomenda o uso por gestante e mulheres que amamentam porque são duas vidas em jogo e você tem nunca condição ética de fazer estudos com pacientes dessa natureza, né?

P/1 - Certo. O senhor falou das questões da bulas, quem que elabora as bulas?

R - As bulas, existe um regulamento hoje do Ministério da Saúde que dá as normas para você obedecer na regulamentação da bula. E é evidente que um laboratório que se preza, muitas vezes, você tem que colocar o mínimos efeitos colaterais passíveis de ter incidência. Porque quando você fala que isso pode ocorrer, por exemplo, em um em cada mil pacientes, isso não é um número, esse um é uma pessoa, e essa pessoa pode ser seu pai, sua mãe, seu filho, seu irmão, esse um em medicina tem que ser olhado em consideração. Então a gente tem que ter muito cuidado na bula por isso, até que muitas vezes brincando com colegas dizem: "Quem lê muita bula encabula". Mas tem que ser, o laboratório tem que ter cuidado, todas as vezes que a gente encontra alguma coisa que vem a colocar e muitas vezes coloca um cuidado sobre o uso daquele medicamento, ele deve ser incluído em bula mesmo que, muitas vezes, isso implique numa linguagem que possa até merecer alguma crítica, mas faz parte do princípio ético do laboratório.

P/1 - Certo, doutor Tércio, a gente está encaminhando pro fim da entrevista, eu gostaria que o senhor fizesse assim uma avaliação da trajetória do senhor dentro da Johnson, dentro da Farma.

R - A minha avaliação foi uma pessoa que entrou para uma fase completamente nova da medicina, depois de ter trabalhado dezesseis anos com índios. Na minha fase da minha vida, dezesseis anos com índios e de repente, eu me vi trabalhando com professores universitários e freqüentando congressos e foi uma situação de uma virada muito grande, onde eu saí de atender índios em consultório e fazendo parto domiciliar no mato e vim freqüentar só ambientes universitários com professores universitários. Mas foi uma vivência onde eu me adaptei muito e encontrei colegas muito bons, muito deles que estavam começando a vida como assistentes que tinham sido meus colegas e que caminhamos juntos, muitas vezes muito deles entraram como professores universitários e quando a gente encontrava com eles, ainda eram colegas de tempo de escola, que a gente mantinha uma amizade que não tinha fim. De modo que foi uma caminhada e as amizades que eu fiz ao longo de trabalhar com pessoas do campo, com propagandistas-vendedores de cidades grandes, de hospitais e de propagandistas que trabalhavam lá no mato, que faziam trabalho lá no Rio Amazonas, que viajavam de noite que faziam isso e que foi uma caminhada muito grande e muito curiosa. Pra você ter uma idéia, quando eu trabalhava lá no Mato Grosso, os propagandistas- vendedores tinham que usar gravata e você já viu você entrar numa cidade de terra vermelha com nada asfaltado, poeirenta e o coitado do propagandista aparecia na gente com a camisa toda vermelha de terra, de tudo isso. Até que isso foi feito uma adaptação, eles vão trabalhar porque a gente não trabalhava daquele jeito, né, a gente trabalhava à vontade até que depois as coisas foram mudando, foram mudando, foram mudando e o próprio comportamento do médico de roça, o comportamento de viver com médicos de capital e de tudo isso. Mas o colega honesto e bom é o mesmo em todos os lugares e os professores, conviver com eles foi uma experiência muito gratificante. Eu convivi com professores universitários que marcaram a minha vida de uma maneira muito intensa, muito grande e que eu recordo muito bem até hoje, sabe? De modo que não foram só os propagandistas que marcaram a minha vida, não foram só os diretores e amigos da Johnson que marcaram a minha vida, foram também esses professores universitários, os colegas de turma, muita gente marcou.

P/1 - Então ok. A gente agradece ajuda do senhor pela entrevista.

R - Fico feliz, quero terminar agradecendo e dando um abraço ao Saliba pela idéia gostosa e feliz que ele teve de fazer alguma coisa desse tipo, que vai permitir que a Johnson guarde na história alguma coisa dessa data para que, daqui pra frente, os outros que pagarem o bastão, deem continuidade na corrida.

P/1 - Fantástico. Obrigada.

P/2 - Obrigada.

R - Obrigado.

P/1 - Pronto.

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