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História

"Quem fica parado é árvore, o ser humano tem que se deslocar"

História de: Maria da Glória Cardia de Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2010

Sinopse

Em sua entrevista, Maria da Glória Cardia de Castro relembra sobre sua ampla trajetória profissional, pois experimentou diferentes trabalhos em diversas cidades e países. Também conta sobre as publicações de seus livros, ela foi pioneira em tratar sobre assuntos polêmicos, como a gravidez na adolescência e o uso de drogas, além de comentar sobre sua relação com a filha e como lidou com sua doença: mieloma múltiplo.

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História completa

P/1 – Pra começar eu vou pedir pra você falar seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?

 

R – Bom, meu nome é Maria da Glória Cardia de Castro, eu nasci em São Paulo na Maternidade São Paulo na Rua Frei Caneca em 19 de outubro de 1941, portanto eu completei no mês passado 68 anos e muito bem vividos.

P/1 – E aqui em São Paulo você vivia com seus pais?

 

R – Sim, eu vivia com meus pais, meus pais pareciam ciganos, mudavam muito e isso eu acho que assimilei e eu passei também a mudar muito na vida, sabe? Eu pensava assim: quem fica parado é árvore, que fica plantada cheia de raízes embaixo da terra, agora o ser humano tem que se deslocar. Eu vivi em vários lugares e comecei assim aos 18 anos já indo com minha malinha de São Paulo pro Rio de Janeiro, depois fui pra França e depois pra outros países e assim por diante.

 

P/1 – Você conheceu seus avós?

 

R – Olha, eu conheci meus avós paternos e eu tive uma avó materna simplesmente fantástica, maravilhosa, ela foi a minha fonte de inspiração na infância toda e até a minha adolescência... Quando ela morreu eu tinha 26 anos, portanto pude aproveitar muito desse convívio com a melhor... A pessoa mais bondosa que eu conheci na minha vida, sabe a pessoa que jamais diz uma coisa que possa magoar outra pessoa? Então eu digo que a minha avó me ensinou a amar, me ensinou a ler o mundo de uma maneira muito otimista, pode estar acontecendo a maior tragédia na minha vida, como muitas vezes acontece mesmo na vida da gente, eu sempre acho uma saída melhor, uma saída que me devolva a vontade de viver não sei por quanto tempo, mas que me devolva a vontade de viver e com alegria. Isso eu devo a minha avó.

 

P/1 – E da relação de vocês, você tem lembrança da infância? Como era? Você a visitava?

 

R – A minha avó? Não, ela morava conosco e eu dormia na mesma cama que ela, ela colocava... Eu sempre tive pé gelado - não é pé frio, é pé gelado - no inverno, ela dormia com as mãos nos meus pés e ela usava aquele birote aqui. Ela soltava o cabelo a noite e eu achava maravilhoso aquilo, eu adorava mexer no cabelo dela a noite pra dormir. Minha avó foi minha companheirona na minha infância, foi minha grande amiga, ela me levava ao cinema, só que ela não enxergava as legendas então eu assistia aos filmes, eu era tão apaixonada pela minha avó que eu assistia os filmes e ia lendo pra ela, sabe? As legendas dos filmes... O que eu me lembro da minha avó era [ela] me mostrando... Ela tinha uma galinha que botava ovo, ela cuidava das plantas, ela cuidava da vida e eu era a paixão da vida dela, por outro lado, ela tinha muitos netos porque ela tinha muitos filhos, ela tinha sete filhos e praticamente todos tinham dois, três filhos. Na minha infância eu tinha muitos primos, mas a paixão da minha avó e todo mundo sabia disso, ela não escondia isso de ninguém era... Eles me chamavam, me chamam até hoje... O meu irmão, por exemplo, meus primos ainda não me chamam de Maria da Glória e nem de Glória, me chamam de Glorinha. O meu convívio com a minha avó foi uma parte muito linda da minha infância, eu gostava de subir... Tinham árvores no quintal muito grande e eu gostava de subir nas árvores e ir pro telhado, eu ficava no telhado às vezes horas só deitada no telhado pensando... E dava pra um quintal de um cara que chamava Sacadura Cabral e ele tinha uma ameixeira que ia até o meu telhado. Às vezes o meu lanche da tarde era subir no telhado, deitar e comer ameixa, aquelas ameixas amarelas, a minha infância... Eu gostava de brincar com formiga, eu adorava ver as formigas, como elas trabalhavam, como elas se organizavam e às vezes eu pegava algumas formigas e punha na porta da cozinha de casa, sentava ali e ficava, eu queria ver como elas conseguiam sair daquela situação, sabe? Isso com sete anos, seis, sete anos de idade.

 

P/1 – Você comentou que tinha uns primos e que era uma casa agitada, como era?

 

R – Olha, era assim: o meu pai... Nós éramos [em] três irmãos, eu - a mais nova - depois tinha o meu irmão - do meio, que é vivo graças a Deus - e tinha o meu irmão mais velho que infelizmente faleceu já faz 20 anos. Eu também era o “xodó” do meu pai. As minhas festas de aniversários eram memoráveis. O meu pai é precursor dessas lembrancinhas de aniversário na mesa, porque ele passava dias e dias antes do meu aniversário... Ele comprava revistinha em quadrinhos pra mim pra depois ele recortar, pregar cartolina atrás e as minhas mesas eram enfeitadíssimas com esses bichinhos todos e cheio de bolas, de balões. As festas dos meus aniversários eram maravilhosas, ele inventava brincadeiras, jogos e aí vinham todos os primos e vizinhos, filhos de vizinhos e tudo, tinha muita criança nessas festas, eu tenho até foto de uma dessas festas quando eu fiz seis ou sete anos, não me lembro. Eu gostei tanto dessa parte da minha infância que o meu aniversário sempre me fascinava, até recentemente, vamos dizer que esse ano que eu achei muito chato, mas até o ano passado eu adorava mesmo. Quando eu fiz 50 anos eu morava em Lisboa e eu me lembro que uma amiga minha me viu chegando na varanda da casa dela e disse: “Glória, você está fazendo meio século” e eu numa alegria que só vendo “eu estou fazendo meio século, eu consegui chegar aqui”. Agora ela dizia assim... Quando eu voltei lá pra Portugal, em setembro do ano passado, ela dizia assim: “Eu nunca vi na minha vida uma pessoa ficar tão feliz porque completou 50 anos”. Então quer dizer, eu gostava do dia no meu aniversário, era fascinada, eu quis passar isso pra minha filha e de certa forma passei, ela não suporta trabalhar no dia do aniversário dela, mas vai ter que trabalhar esse ano. Mas eu não fazia as festas [para ela] que meu pai fazia pra mim, eu não sei, acho que ele passava o ano inteiro imaginando aquilo, mas ele fazia só pra mim, o que causou uma certa disputa de lugar, sobretudo com meu irmão mais novo. O do meio, que era só três anos mais velho que eu, era muito difícil dele entender, né? Por que uma criança de cinco anos tem uma festa daquela e ele não tinha festa nenhuma. Então nesse aspecto realmente foi um pecado do meu pai, mas ele achava que porque eu era menina... E eu era muito divertida, eu dizia muita... Eu tirava umas sacadas assim, incríveis. Então eu me lembro, por exemplo, que meus pais me colocaram... Eu estudava em um colégio de freiras, infelizmente durante 14 anos eu fiquei num colégio de freiras, e mais de um, né? Dois ou três. Tinha aula de piano no colégio, o meu irmão [que é] três anos mais velho do que eu só, ele é pianista, ele toca piano que é uma beleza e ele já era muito dotado e herdou essa musicalidade toda do meu pai, o meu pai foi músico de orquestra e tudo. Então eles me colocaram... Eu queria porque queria aprender piano, tinha piano em casa, meus pais faziam às vezes serões, convidavam amigos e tudo. À noite e meu pai tocava piano, meu irmão tocava violão ou vice-versa e outras pessoas... Tinha um português lá que tocava cavaquinho e eram noitadas de musicais interessantíssimas, eu guardo lindas lembranças disso daí. Bom, eu só sei que eu fui fazer esse curso de piano e o primeiro dia de aula de piano - tinha sete anos recém completados - estava chegando em casa e meu pai chegando do trabalho dele também no portão lá de casa. Aí meu pai disse: “Ah, hoje você foi à sua aula de piano?” e eu disse: “Fui”, esnobando, sabe?Ele disse: “Já aprendeu a tocar?” ele sabia que eu ia dar uma tirada qualquer, né? “você já tocou alguma coisa?” eu disse: “toquei” “que música você tocou?” eu disse: “A valsa dos encanadores” e dei uma gargalhada, porque eu tinha ouvido na valsa dos patinadores, imagina, era a primeira aula, eu mal tinha feito dó, ré mi, fá, eu disse: “A valsa dos encanadores”. Então essas tiradas, como por exemplo... Com cinco anos eu fui com ele e a minha mãe passar uma semana em Santos e eu entrava no mar com ele e uma hora eu parei, olhava para aquele mar todo, porque você com cinco anos... Aquilo é mais imenso do que hoje em dia, né? E eu olhava, meu pai parava e ficava olhando pra mim e de repente ele dizia: “O que você está pensando”? Eu dizia: “Quantos sacos de sal eles tiveram que jogar aqui pra ficar salgada desse jeito essa água?” Essas coisas que eu falava divertiam muito o meu pai e ele adorava conversar comigo e tirar essas tiradas minhas, então foi assim. A minha mãe já era o dia inteiro pegando no meu pé, eu adorava a minha mãe, mas ela era a que ficava ali... A que tinha a pior parte, né? A mãe é a que tem sempre a pior parte, porque ela que tem que ensinar, ela que tem que educar, ela que tem que acompanhar e tudo mais. E havia uma coisa que eu não gostava de fazer com a minha mãe, ela gostava muito de sair, de visitar as primas dela e me levar e eu enjoava muito no ônibus, eu não sei se era de raiva por fazer essas visitas pra adultos ou se era porque eu enjoava mesmo, porque depois de adolescente quando eu fui obrigada a tomar o ônibus pra ir pra escola eu já não enjoava mais. Mas durante a minha infância ela me levava porque meu pai não queria que ela fosse sozinha, então ela me levava com ela e eu às vezes chegava e sentava na casa das primas dela. Tinham aquelas bandejas de frutas artificiais na minha frente, eu morrendo de vontade de chupar uma uva, por exemplo, mas era de cera e eu ficava louca da vida com aquilo. Eu tinha atrito com a minha mãe e era esse, depois ela queria que eu ficasse sempre bonitinha e limpinha e eu queria subir no telhado, subir nas árvores. Um dia ela me levou ao médico porque eu estava muito nervosa, ela queria saber por que eu estava nervosa daquele jeito, aí o médico disse: “A senhora sai, por favor, que eu quero conversar com a sua filha sozinha”. Ele disse: “O que está havendo?” eu disse: “Ah, minha mãe quer que eu fique toda hora bonitinha, de sapatinho, de vestidinho, eu quero subir nas árvores, quero ficar só de calcinha pelo quintal, quero correr, subir no telhado”. Ele passou uma descompostura na minha mãe, ele disse: “Não, você vai fazer tudo isso”. Chamou minha mãe e disse: “Olha, ela precisa subir em cima do telhado, subir nas árvores, ela precisa brincar na terra”. Eu tinha um quintal imenso e eu me sujava lá no quintal, é lógico, era de terra, grande parte dele era terra, eu adorava as minhocas, por exemplo, sabe? Às vezes eu era mazinha, porque eu cortava a minhoca no meio só pra ver as duas partes sobrando. Minha mãe não queira que eu fizesse nada daquilo, mas a partir daquele momento - eu acho que tinha sete anos - ela me soltou, ela me deixou deitar e rolar, aí eu quebrava as telhas lá em cima, depois chovia dentro de casa, era um inferno. Mas se fosse me procurar podia me procurar em cima do telhado ou em cima das árvores, tinha uma casinha lá no fundo que dava uma árvore também, eu estava sempre assim...

 

P/1 – Como era essa casa, você falou um pouco do quintal, né?

 

R – Essa casa era uma casa muito comprida e térrea, sabe? É uma casa antiga, né? Começava no corredor e tinha um quarto na frente que tinha saída pro corredor e saída pra dentro da casa, era um quarto independente, depois tinha outro quarto, tinha eu acho que quatro quartos naquela casa ou cinco. Cinco contando com o do fundo e uma cozinha muito longa, tinha aquele corredor, o portão e o corredor pra você entrar na casa. Depois lá no fundo tinha um quintal enorme, ele praticamente atravessava de uma rua para outra até a rua de trás, contando com o quintal. Era um quintal maravilhoso pra quem tem criança, meus irmãos podiam fazer tudo que quisessem, mas eu tinha que ficar limpinha, bonitinha, sentadinha e não era meu estilo. E realmente não foi o que aconteceu.

 

P/1 – A casa ficava onde? Ficava aqui em São Paulo em que bairro?

 

R – É o seguinte: quando eu nasci minha mãe estava no Ipiranga, meu pai estava na fazenda, porque ele trabalhava na fazenda, mas minha mãe estava na casa da irmã, no Ipiranga. Eu nasci ali na maternidade São Paulo, mas fui depois de lá pra essa casa do Alto do Ipiranga e depois moramos até os meus sete anos no Alto do Ipiranga que é outra história maravilhosa, porque tem aquele jardim fantástico que sempre existiu e ali eu passei a minha infância correndo, rolando na grama e tudo mais. Mas essa casa era no Brás. O Brás, naquele tempo, era um bairro muito tranquilo, tinha um empório grande de secos e molhados na frente de casa, uma farmácia na esquina e o bicheiro porque naquele tempo se jogava jogo do bicho. A minha avó gostava de fazer a fezinha dela e ela dava para “vai lá joga pra mim” e eu ia até a esquina e jogava pra ela, depois foi proibido e acabou. Depois tinha um... Como é que chama? Que tem... Ferro velho, um ferro velho, era só atravessar uma rua ali e ali você podia atravessar a rua a vontade porque naquele tempo não tinha trânsito, tinha meia dúzia de carros em São Paulo e eu adorava que tivesse esse ferro velho porque lá eles compravam jornal e compravam latinha e vidro. Então o que a gente fazia? Tinha um pipoqueiro que parava na esquina e eu fazia contas por mês, eu ia lá, comprava e dizia: “Marca aí pra mim” e ele marcava, aí o que eu fazia? Eu pegava todos os jornais que tinha juntado no mês, todas as latinhas que minha mãe tinha usado, os vidros e punha num saco e levava pro ferro velho e vendia aquilo tudo lá no ferro velho pra pagar o pipoqueiro. Outra coisa é que tinham muitas crianças ali por perto e a gente fazia rodas, brincava de roda, pegava a rua toda de uma calçada a outra. Só que meu pai, ele às oito horas queria que eu tivesse em casa, mas a maioria das crianças jantavam às oito horas e saiam lá pras oito e meia, eu ficava doente porque na hora que todo mundo ia sair, eu era obrigada a entrar. Às vezes eu ficava e a minha amiga, que foi minha amiga de infância dizia assim: “Ih, você vai apanhar do seu pai”, eu dizia: “Eu apanho, mas eu me divirto, eu vou ficar hoje” e eu fazia isso, eu ficava lá, depois meu pai me pegava pelas orelhas lá pelas nove horas, eu dizia: “Mas foi tão divertido pai, eu gostei tanto” e acabava não fazendo grande coisa. Aquele período nós moramos ali, eu morei ali dos sete aos onze anos, nesse bairro. Depois de onze anos, com doze anos eu mudei de lá pra Vila Mariana, fiquei na Vila Mariana durante muitos anos, mas sempre morei com meus pais, quer dizer, a não ser quando eu saía, porque com 18 anos eu quis ir embora no Rio de Janeiro. Eu fui e foi lá que eu consegui meu primeiro emprego em multinacional. Eu não sabia nada de trabalho burocrático, nem tão pouco era datilógrafa, porque naquele tempo era datilógrafa, né? Mas eu dei tanta sorte que na hora de fazer o teste chamaram o senhor do departamento de recursos humanos pra sala de um diretor. Ele ficou tempo suficiente pra eu “catar milho” a vontade e datilografar aquele texto, quando ele voltou... E ele pediu pra eu escrever uma carta que eram umas três, quatro linhas em inglês, também deu tempo de pensar e tudo, depois que eu tinha terminado ele demorou pra voltar e quando ele voltou estava tudo pronto e ele disse: “A senhora está admitida”, isso no Rio de Janeiro e era uma grande multinacional. Foi o meu primeiro trabalho, trabalho mesmo importante, né? Ganhava mais do que o salário mínimo, quando eu ia embora deixava meus pais, eles ficavam desesperados, mas eu dizia: “Não, eu tenho que experimentar as coisas, conhecer outras coisas diferentes dessas daqui”. Eu sei que no fim das contas eles deixaram e fizeram muito bem de ter deixado. Eu acho que não se arrependeram porque eu fui adquirindo uma vivência que foi importante depois também pra eles, porque no final das contas eles estiveram... Quando minha mãe faleceu, eu tinha 36 anos e meu pai faleceu seis meses depois dela, então eu perdi os dois do final do ano, ao meio do ano os dois tinham ido embora. E a minha avó... Ela morreu e eu fui embora pra França e eu trabalhava nessa empresa que eu comecei no Rio, seis meses depois eu queria voltar pra São Paulo, já sentia saudades e eu achava que São Paulo era melhor pra mim. Voltei pra São Paulo e fiquei na mesma empresa, eles me seguraram lá na empresa e ali eu fiz uma carreira, eu comecei como datilógrafa na seção de vendas da empresa, só que eu não sabia que não era assim que se trabalhava, eu achava... O meu chefe ficava ali com aquele monte de datilógrafa que datilografava aquelas notas fiscais, aquelas coisas horrorosas e acabava uma, eu ia lá e pegava mais e no fim das contas ele não me via trabalhar, redigir as coisas pra eu datilografar. Ele foi falar com o superintendente e disse: “Olha, eu tenho uma funcionária que primeiro fala inglês...” naquela época eu falava, né? Depois não falei mais porque eu substituí pelo francês e pronto. “Ela fala inglês e outra ela está revolucionando a minha seção, agora todo mundo corre pra pegar trabalho, porque acha que ela está pegando trabalho de todo mundo”. Eu achava que era assim que devia ser, aí ele disse: “Eu quero conhecer” e eu fui apresentada pra ele e eu estava fazendo, na época, o curso de secretária executiva que era de suporte americano mesmo. O superintendente disse: “Olha, a minha secretária acaba de sair, quando termina seu curso?” Eu disse: “Termina pra ser secretária executiva? Meu curso termina dentro de uns três meses mais ou menos”, ele disse: “Eu vou esperar, a senhora vai vir trabalhar aqui comigo”. Eu passei com uma classificação excelente e ele imediatamente pegou... Aí eu fui durante dois anos, eu trabalhei lá nos outros departamentos no Rio e São Paulo e seis anos eu trabalhei como secretária executiva da empresa, secretária do superintendente aqui em São Paulo. Esse trabalho foi muito interessante, porque ele percebia que eu era muito curiosa e que eu me interessava por muita coisa, então ele me dava, às vezes, incumbências super interessantes, por exemplo, vinha um casal americano aqui pra conhecer a COSIPA - que não era nossa empresa - a COSIP era do Estado, né? Ele me chamava e dizia assim: “Escuta aqui, você vai ser cicerone desse casal, você que vai levá-los na COSIPA” e eu ia, eu tinha 21, 22 anos e eu levava. Era muito engraçado porque eles falavam espanhol e eu, às vezes, falava com eles em português devagar e eles respondiam em espanhol, ficava tudo perfeito, eu não precisava estar fazendo exercício pra falar inglês, uma palavra ou outra só a gente buscava em inglês. Então funcionava e um dia ele disse: “Olha, tem uma escultura muito interessante que um escultor montou do Rio de Janeiro, essa escultura está no cais do porto e está toda desmontada, é com todo material da nossa empresa que ele usou, tudo que nós fabricamos está ali”. “Eu gostaria que você fosse lá para o Rio de Janeiro, no cais do porto e visse essa escultura, se você achar que você pode remontar essa escultura que está desmontada, porque vai ter que ser soldada, você vai ter que ter um soldador pra fazer isso. Traga ela pra São Paulo, porque eu já falei com o diretor...”. Hoje é a OCA - era Museu Histórico naquela época - e essa escultura vai ser exposta ali na OCA, eu não lembro, mas depois eu vou lembrar o nome do diretor naquela época, o Ocini naquela época. Eu fui lá no Rio, vi a escultura toda desmontada, desmantelada e tinha lá uma estrutura montada ainda, eu disse: “Bom,  tudo bem isso daí... Era [para] levar todas essas partes aí e ir ajeitando aqui e ali”. Quer dizer, eu vou mudar um pouco a escultura original, porque eu não sei como ela era e fomos pra São Paulo e essa escultura foi lá pra OCA, ficava na entrada da OCA. Eu tenho fotografia dessa escultura e eu junto com ela. Eu chamei um soldador e falava: “Isso aqui você pendura aqui, você coloca aqui, ali” e ficou muito bonita, sabe? Todo mundo gostou, o professor Ocini adorou, ele já deve ter falecido há muito tempo, eu acho. E no fim das contas eu acabei montando aquela escultura ali. E outros trabalhos interessantes que o meu chefe percebia que o meu negócio não era ficar só única e exclusivamente vendo arquivo, aquele trabalho burocrático que eu fazia. Então ele dizia: “Você deixa isso aqui pronto e vai fazer não sei o quê” e me mandava lá pra não sei onde, eu não me lembro mais, mas eu fiz muita coisa interessante naquele período. Foi uma experiência também bem importante e o que aconteceu nesse trabalho meu? Quando eu completei oito anos nessa empresa, eles me chamaram - aliás, o meu patrão mesmo - o meu chefe estava na Europa e o departamento pessoal me chamou e disse: “Olha Maria da Glória...” Tinha acabado de sair o fundo de garantia por tempo de serviço. “Foi criado o fundo de garantia por tempo de serviço, nós vamos indenizar todas as pessoas e as pessoas podem continuar trabalhando aqui, aliás, a gente indeniza ou você opta pelo fundo de garantia.” Eu disse: “Bom, mas é a minha grande chance, eu quero que vocês me indenizem pelos oito anos de trabalho, porque eu vou pra França”. E aconteceu isso, depois conversamos e eu disse: “Não, eu estou decidida, eu quero ir pra França, eu quero ir passar pelo menos um ano na França estudando e é uma oportunidade que eu tenho única, vocês estão propondo e se eu não quiser, eu não vou assinar o fundo de garantia, eu quero ser indenizada”. Eles me pagaram os oito anos e ainda mais um pouquinho e eu fui embora pra França sem conhecer nada e nem ninguém, mas assim, eu conhecia na Espanha uma prima. Quis chegar primeiro na Espanha. Cheguei primeiro na Inglaterra, completei 27 anos em Londres. De Londres eu tomei um avião e fui pra Espanha, fiquei na casa da minha prima que ficava numa cidadezinha maravilhosa medieval, de casas suspensas. Fiquei lá uns 15, 20 dias e eu estava com o endereço de uma amiga que tinha, de uma amiga não, de uma moça que tinha sido aluna na mesma escola que eu, só que ela vinha atrás de mim, então nós nunca estávamos na mesma classe, mas eu a conhecia e ela me conhecia do colégio. Tinha essa indicação. De lá da Espanha escrevi pra essa minha amiga e ela disse: “Você vem aqui pra Paris e você vai ficar...” ela morava na casa do Brasil na cidade universitária, “você vai ficar até você conseguir seu alojamento, você fica como clandestina na casa do Brasil”. Eu disse: “Ta bom”, porque o apartamento era bem espaçoso e tudo e foi o que eu fiz, aliás, eu fui pra Portugal também antes e depois fui pra França. Pra Paris, eu fui direto pra casa do Brasil, pro quarto dela, o apartamentinho dela lá na casa do Brasil e ali eu fiquei talvez uns trinta dias. Não estava gostando nada de ficar como clandestina, de ter que estar me escondendo e mais do que isso, quinze dias depois que eu estava em Paris descobri que na Rádio Televisão Francesa, um jornalista tinha sido transferido pra Suécia. Eu disse: “Eu vou me candidatar ao cargo dele”, quer dizer, eu estava falando pra você que pra fazer essas coisas realmente você tem que ter muita coragem, muita fé na vida e em você mesmo. Falei com uma pessoa que eu tinha uma indicação lá, ela também trabalhava na Rádio Televisão Francesa, ele disse: “Olha, eu não posso me responsabilizar por você, porque eu não te conheço, então você vai fazer o seguinte: realmente tem essa vaga, você vai lá na Rádio Televisão Francesa, eu vou avisar que você vai e você vai se candidatar. Eles vão fazer um teste com você, você vai ter que traduzir um texto jornalístico com linguagem jornalística”. Bom, eu lia jornal, eu sabia que linguagem era essa, eu disse: “Ta bom”, aí eu fui, passei e comecei rapidinho, eu falava... Isso foi em 68... Quando estava muito quente aqui no Brasil, tudo muito quente e eu tinha uns envolvimentos estudantis com as escolas, umas coisas assim que eu achei melhor realmente pegar aquele dinheiro e ir pra França. E fui e comecei a trabalhar de imediato. Três vezes por semana eu falava pro Brasil, falava pro Brasil aquilo que não podia ser publicado aqui. Então a gente dava notícias sobre o Brasil para o Brasil porque naquela época era tudo censurado, depois fiquei com um medo de voltar pro Brasil, né? Mas no final das contas eu tenho um anjo da guarda muito forte e eu consegui passar sem grandes problemas, eram apenas pequenos problemas que eram fáceis de superar, né? Fiquei trabalhando na Rádio Televisão Francesa falando [sobre] o Brasil. Eles passaram a me chamar, muitas vezes à tarde, pra responder correspondências de brasileiros que mandavam correspondência pra lá e eu ganhava por hora. Outra coisa é que naquela época ninguém lá sabia... Tinha uma pessoa só que mexia com telex, na época era telex e eu conhecia porque na empresa onde eu trabalhava tinha telex e eu digitava telex, eu mandava telex pra Europa toda. Perguntaram pra mim se eu conhecia telex e eu falei: “Conheço”, “Ah, então, por favor, você vai...” Eu ganhei muito dinheiro, sabe? Eu ia substituir sempre esse cara que trabalhava no telex, que às vezes não podia ir, e substituía a outra pra responder correspondência e durante três noites eu falava com o Brasil. Além disso, eu ainda achava pouco, estudava e queria ganhar mais porque queria fazer viagens pela Europa e não queria mexer no meu dinheiro, eu queria ir com o dinheiro dele lá. Na ocasião, consegui saber que tinha um casal de brasileiros, gaúchos, ela fazia provavelmente pós-graduação em Matemática e ele era pediatra. Eles tinham três filhos, dois que passavam o dia na escola e um que era pequeno, tinha um ano e meio, o Gabriel e eles precisavam de uma baby sister para aquele garotinho de um ano e meio. Eu disse: “Sou candidata” e fui ser baby sister do garoto, um espetáculo de garoto, hoje é diretor da revista Escola, o Gabriel... Eu não me lembro o sobrenome dele, enfim ele hoje é um diretor. Eu descobri que ele era diretor dessa revista e mandei uma carta pra ele com uma foto minha com ele, faziam, sei lá, quarenta com uma mocinha muito simpática. Quando ele viu cair a fotografia, ele viu que era alguma coisa séria e atrás estava escrito uma dedicatória a mim, aí eu disse: “Olha, porque eu sei que você é o Gabriel nessa foto, porque você tem o mesmo sorriso que você tinha com dois anos e pouco, quando eu deixei você”.

 

P/1 – (Pausa) Dona Glória, você falava então do Gabriel e da França.

 

R – Do Gabriel... Eu [o] reconheci pelo sorriso e depois vi o nome dele - estou tentando lembrar o sobrenome - e mandei essa carta com a foto e ele imediatamente entrou em contato comigo. Eu morava, nessa época, no Guarujá quando ele entrou em contato comigo, ele esteve lá, almoçamos juntos, ele com a esposa, passou uma tarde lá comigo e tudo, depois ele veio embora e eu fiquei lá. Depois teve um livro meu que ele colocou na revista pra fazer um lançamento [do meu] livro e nós tivemos mais alguns contatos. Aí eu tive esse problema com o cigarro, de ter sido internada com pneumonia, uma pneumonia difícil de tratar por causa do cigarro, ele teve em contato comigo mais uma vez aqui em São Paulo e depois não nos vimos e nem nos falamos mais. Mas foi um reencontro muito interessante, ele levou foto dos pais, foi bem interessante, eu entrei em contato com a mãe dele, a mãe dele é a Esther Grossi, que foi deputada, aquela que usava o cabelo sempre da cor da roupa, muito interessante, muito inteligente. Conversei com eles por telefone, ela adorou a carta que eu mandei pro filho dela.

Bom, mas lá em Paris eu fiquei com esses trabalhos. Tinha noite que eu trabalhava até uma hora da manhã, porque era à noite e a diferença de horário... Meus pais iam à Record, que era ali perto de casa, em Moema, pra me ouvir quando eu demorava um pouco pra escrever. “Ah, eu quero ouvir minha filha hoje” e eles iam e falavam com o homem do tempo, o Narciso Vernizzi, e ele deixava eles ouvindo o meu noticiário, eu falando lá na rádio. Eu fiquei nesse trabalho até quase voltar pro Brasil e quando eu saí coloquei no meu lugar um rapaz que foi cineasta aqui, ele trabalhava em televisão. Enfim, apresentei ele. Ele era formado em Sociologia, eu apresentei lá na Rádio e ele acabou ficando no meu lugar, ele trabalhava em conjunto com aquele que trabalhava também na embaixada do Brasil, lá em Paris.

Agora em Paris, fiquei aqueles dias lá, naquelas semanas na casa do Brasil e depois fui procurar o serviço que dava suporte pra estudantes estrangeiros que viviam em Paris, estudando também encaminhada pela Sorbonne, pela carteira da Sorbonne. E foi muito curioso porque eu procurava um quarto pra mim. Cheguei lá um dia e eles falaram: “Não tem nada pra senhora, porque os pedidos são pra estudantes franceses de outras cidades. Para estrangeiro tem que ser alguém que queira receber estrangeiro no quarto da casa deles.” Eu disse: “Bom, tudo bem, volto aqui amanhã, quem sabe aparece alguma coisa”. Na hora que eu estava saindo de lá... Nessas alturas eu já trabalhava na rádio e como terminava a uma hora da manhã, nem metrô tinha mais, a própria rádio levava de carro até a casa do Brasil, me devolvia lá. No dia [em] que eu ia dormir na casa do Gabriel, porque eu tinha que estar lá muito cedo, eles me levavam até... Porque era fora de Paris, em Bolonha. Eu sei que durante esse período todo [em] que eu estive trabalhando na Rádio Televisão Francesa, aproveitei pra fazer viagens na Europa, quer dizer, pra conhecer outros países. Eu fui pra Holanda, Bélgica, Suíça. O meu negócio era realmente conhecer o máximo que eu pudesse e é por isso que eu trabalhava tanto, eu achava muito menos importante o meu estudo, eu ficar fechada numa sala na Sorbonne o tempo todo. Eu tinha lá um acordo, preparava as coisas que me eram passadas e solicitadas, e sempre conseguia cumprir aquilo que me propunham, que queriam que eu fizesse, mas a minha vontade mesmo era de explorar o máximo possível durante o período que eu tivesse morando na Europa. Nesse dia [em] que eu fui lá na CRUSP e que me falaram que não tinha, quando eu estava saindo a moça me chamou e disse: “Por favor, volta aqui brasileira, volta aqui”, aí eu voltei e ela disse: “Acaba de entrar um pedido, é uma mansarda”, eu pensei: “Puxa, que bacana, vou morar numa mansarda em Paris junto com os pombos”. Era uma mansarda num bairro mais caro de Paris, era a Seizieme, ali perto do Arco do Triunfo. É bem próximo do Arco do Triunfo e justamente, “eles ali estão pedindo uma estudante estrangeira.” Eu falei: “Então eu vou lá agora”, eu fui e quando a senhora abriu a porta da casa, do apartamento, era um apartamento luxuoso, muito bonito, naquele bairro estratosférico, espetacular, eu olhei pra ela e sabe quando o coração pula, eu disse: “Puxa vida, parece que eu já conheço essa pessoa a vida toda”. E ela idem, aí ela me fez entrar, muito simpática, muito sorridente e depois eu descobri, ela era escritora, uma mulher muito culta, que tinha viajado muito e que dava cursos nos Estados Unidos, mas naquela momento da vida dela sofria de grandes depressões. Ela tinha um livro publicado que se chamava “Cólera Sob o Sol”, porque ela morou durante dezessete anos em Marrocos. Esse livro falava sobre Marrocos, sobre a revolução no Marrocos, sobre a busca de independência do Marrocos. Bom, eu conversei ali com ela e ela me mostrou o quarto e eu achei maravilhoso, era uma mansarda mesmo, era tudo que eu queria, era muito bem arrumado e tudo. Ela disse: “Então está alugado” e era um preço muito bom, naquela época me custava 180 francos e eu ganhava só pra cuidar do Gabriel quatro manhãs por semana, eu ganhava 600 francos fora o que eu ganhava na rádio. Então eu disse: “Isso realmente dá pra eu assumir”. Ficava no sexto andar, porque é assim: essas mansardas, não sei se vocês conhecem as mansardas de Paris, são os quartos que ficam lá em cima no telhado e que eram ocupados no tempo da alta burguesia pelos empregados, tanto que um quarto pegado ao meu era a empregada dela, espanhola por sinal, que era maior que meu quarto o da empregada, era o quarto dela e o banheiro ficava no quinto andar. Então do sexto pra eu ir ao banheiro tinha que ir de escada e era pelos fundos, 120 degraus dos fundos, pra eu subir ao meu quarto, mas eu comecei a conversar com ela, depois conheci o marido dela e depois conheci os filhos dela, só a filha dela que era casada na época, era médica casada com um médico também. Era uma família muito educada, muito viajada e com uma mentalidade muito aberta. Eles também se encantavam porque tinha lá uma brasileira que falava de outras coisas. E outra coisa, quando eu cheguei na França não falava nada de francês, tanto que o motorista da Rádio Televisão Francesa ficava meio louco quando eu ia explicar pra ele alguma coisa pra ver o que... Um mês depois eu já falava francês, porque na casa deles eu percebi que ela começou a entrar em depressão, aí eu peguei um livro dela, esse “Colégio sob o sol”, como eu já não fazia quase nada, né? Eu disse: “Escuta, eu gostaria de traduzir esse livro para o português, a gente podia marcar uma horinha todo dia e eu traduzir esse seu livro para o português” e foi assim que nasceu uma amizade muito grande, essa foi a minha segunda mãe, ela que me ensinou o francês, era um francês perfeito o dela, ela me corrigia e em um mês eu falava francês e todo mundo já me entendia e falavam: “Mas não é possível em um mês...” Eu comecei a fazer essa tradução com ela e comecei a tirá-la da depressão com essa tradução. A família dela, sobretudo o marido, ficavam encantados “essa mulher caiu do céu, ela está tirando a Leiko da depressão” e ela ficava internada em clínicas, às vezes, durante muito tempo. Bom, tirá-la da depressão já é exagero, mas ela melhorava muito, durante o período que nós fizemos essa tradução ela não foi internada nem uma vez, ela precisou às vezes de algum suporte medicamentoso, mas não foi... E depois eu fiquei muito amiga deles, eles passaram a me convidar quando tinha jantar, quando tinha tudo na casa deles, quando tinha evento, [se] tivesse qualquer festa eles me chamavam, os filhos deles ficaram muito meus amigos, ela ficou muito minha amiga. Ela disse: “Você não precisa mais subir pela escada, a não ser quando você chega de madrugada da rádio, aí você tem que subir pela escada se não você toca a campainha, atravessa o meu apartamento e já sai no quinto andar” tem um lance só de escada até o sexto. Eu passei a frequentar a casa deles e outra coisa... Lá a questão do banho também é estratosférico, né? Eu tomava só os dias que eu ia cuidar do garoto, aí eu disse: “Bom, eu tenho desespero, porque no fim de semana dá pra eu ir à Casa do Brasil e tomar banho, mas tem um dia da semana que é a quinta feira que eu não trabalho lá com o garoto e não tenho onde tomar banho”. Conversei com ela e ela disse: “Tudo bem, as quintas feiras você pode vir tomar banho aqui no banheiro...”. Na sala de banho do filho mais novo dela, o José Dominique. Então eu já estava com a semana toda de banho felizmente e ficamos muito amigas, quando eu voltei... O marido dela não queria que eu voltasse pro Brasil, porque pra eles eu tinha feito um bem tão grande pra ela, e outra coisa, eu era... Muitos homens naquele tempo... 27 anos e muito interessada em tudo, então aquilo deixava ela encantada, né? Muito culta, ela percebia ali uma pessoa pra plantar muita coisa, tanto que o filho dela mais velho se casou, a festa foi em _______ que era a divisa com a Suíça, eles me convidaram pra ir com eles e eu fui e assisti o casamento deles em Viena, atravessamos a Suíça e fomos a Caridiã. Tudo que eles faziam realmente, eles me chamavam, então foi uma época de festa permanente, eu adorava o Gabriel que era muito engraçado, um molequinho adorável. Eu adorava essa senhora porque [ela] realmente me trazia tanto conhecimento, me mostrava tanta coisa, ela dizia assim: “Olha, eu estou encantada Glória, porque você não é como a maioria dos estudantes que chega fica aqui em Paris e vai ali e não sei o que, fazem festinha aqui, ali. Você não, você quer conhecer outros países, você quer conhecer...” Eu ia pra tudo quanto era museu, eu tinha folga na quinta feira e a quinta feira pra mim era sagrada, eu ia visitar os museus... Quando chegava a Páscoa ou qualquer outro feriado que juntava alguns dias, eu ia para outros países ali na redondeza, tudo ali é muito mais perto, muito mais fácil, né? A Europa inteira cabe dentro de um canto do Brasil, então era maravilhoso, foi um período de festa permanente até eu ter que voltar, porque meus pais estavam precisando de mim aqui, quer dizer, minha família estava precisando de mim aqui no Brasil. Eu voltei com muito sofrimento, porque abrir mão daquela vida que eu estava vivendo lá, não era fácil, mas eu amava muito a minha família e eu achei que tinha realmente que voltar, porque eles estavam precisando muito de mim, minha mãe já estava muito doente, meu pai também. E eu vim embora, aí comecei num outro... Trabalhar em empresas sempre porque era o que pagava mais e o que me interessava, porque eu queria uma vez por ano ir pra Europa. Então eu passava onze meses trabalhando num trabalho burocrático, que não era nada que realmente me agradasse, mas eu fazia o melhor possível e fazia bem, tanto que trabalhei onze anos numa empresa e depois trabalhei dezesseis anos na outra. Uma pessoa que não desenvolve um trabalho corretamente não fica tanto tempo numa empresa, muito menos numa multinacional e trabalhando com a diretoria e tudo. Procurava sempre uma empresa que me desse mais possibilidades de maneira que durante onze meses eu fizesse esse sacrifício, mas [tinha] trinta dias por ano [que] eu ia embora, porque trinta dias por ano eu ia pra França. Depois fiz a viagem pela América aqui e viajava para a Europa, todo ano eu ia conhecer um país novo, pelo menos um país que eu não tivesse conhecido na ocasião, eu voltava... Eu tinha países precisos, países que eu queria conhecer - esses, eu conheci muito bem. A França, porque eu vivi [lá] e viajei muito dentro da França. Depois quando eu voltava, por exemplo, às vezes essa senhora estava internada numa clínica com depressão, eu chegava lá ia visitá-la e dois ou três dias depois ela já começava o desespero de sair da clínica e acabava saindo. Com ela eu viajei pra regiões que se visita pouco na França, região mais pobre, mas lindíssimas como a Correse, por exemplo, que é lá no sul - logo invadida por turismo - muito preservada onde tem aquelas grutas extraordinárias pré-históricas. Fazia essas viagens porque ela tinha casa nesses lugares, teve uma vez que eu fui e passei as férias também na Costa Azul, porque ela tinha uma casa em (Uricain?) que ficava entre Nice e (Uricain?). Eu passei as férias inteira naquela... Na costa Azul e conhecendo toda a redondeza por ali, depois eles tinham um apartamento em Casablanca, aí fui conhecer Marrocos, fui conhecer o Marrocos. Ela já estava viúva, nós alugamos um carro... O filho dela morava lá com a esposa, que estava esperando bebê, ele era o que eles chamam de cophan que é... Ao invés de servir exército aqui, ele foi para outro país desenvolver determinado trabalho e ele fazia isso lá em Casablanca, no Marrocos, fui pra lá e fiquei hospedada na casa do filho dela e nós viajamos pro norte do Marrocos. Foi com ela que eu viajei, ela ia me mostrando e ela tinha vivido dezessete anos naquele país, então a viagem com ela não era uma viagem turística pura e simplesmente, ela [ia] mostrando o mais importante de fato, riquíssima, foi impressionante o que essa senhora Gernani de Mary acrescentou na minha vida. Ela me ensinou a viajar, porque o importante era o que nós íamos ver, o que nós íamos conhecer, o que nós queríamos conhecer. Eu fazia viagens extraordinárias tanto pro sul da França, como depois pra Corrèze, pro Marrocos com a pessoa mais indicada, porque naquele momento a filha casada médica e muito ocupada... Era uma festa pra ela também ter uma jovem que a acompanhasse nessas férias e pra mim era realmente um presente dos deuses e foi assim que eu conheci muita coisa. Na França eu conheci muita coisa, conheci quase que o país todo. E sobre os franceses eu aprendi praticamente tudo, eu conheço o temperamento, trabalhei vinte anos com franceses. Depois, sobretudo que eu voltei à França, eu passei a trabalhar mesmo só em empresa francesa, porque o fato de eu conhecer a língua me favorecia muito. E foi assim que eu fui até a França, mas eu voltei pro Brasil, não disposta a ficar parada aqui, por isso fiz viagens anos e anos, eu só decidi ser mãe aos trinta e... Porque eu nunca tinha renunciado a ideia de ser mãe. Casar era uma coisa que eu não cogitava, porque eu não teria feito nem um décimo do que eu fiz na minha vida se eu tivesse me casado e eu achava que a vida me convocava pra outras coisas. Eu ia seguir o vento pra onde o vento me mandasse e pra isso você não pode estar com uma família constituída, mas com 38 anos eu decidi que queria ser mãe e minha filha nasceu [quando] eu tinha 39, acabado de completar 39 anos. Eu disse pra minha filha quando ela nasceu: “Olha, é uma coisa só que eu vou prometer pra você, comigo a sua vida nunca vai ser monótona, porque nós vamos fazer muitas coisas” e quando ela tinha sete anos... Ah, eu tenho nesse livro que eu deixei aqui com vocês, se chama “No silêncio das Horas”, tem esse título justamente porque era nos momentos de maior silêncio e de maior interiorização que brotaram essas crônicas que eu coloquei nesse livro. Eu sei que essas crônicas vão dar muita confirmação daquilo que eu estou falando e ali tem uma crônica que se chama “O pescador que mudou a minha vida”, mas minha filha não tinha nascido ainda quando eu conheci esse pescador, justamente essa escritora francesa, essa senhora grande amiga minha que me ajudou muito. Ela tinha vindo para o Brasil e eu a levei pra conhecer Paraty. Lá em Paraty eu encontrei esse pescador que tinha o barco, uma casa de madeira que ele próprio havia construído, só que ele era uma pessoa completamente fora do comum. A gente alugou o barco dele “você leva a gente, nós queremos conhecer praias por aí, essas praias desertas que só a gente possa ir. Você vai ser nosso cicerone”. Ele era muito articulado e falava um francês muito bem. Eu falei: “Bom, esse cara não é...” Ele falava francês e inglês, né? A Lídice falava muito bem o inglês e às vezes ele se comunicava em inglês, mas em francês ele falava o suficiente pra gente bater papo. Eu disse pra Lídice: “Esse cara não é um cara comum, ele não é um pescador, ele está pescando porque ele quer, eu quero saber de onde ele vem”. Um dia nessas saídas nossas nós convidamos pra [ele pra] almoçar conosco no restaurante onde a gente parou e ali eu perguntei pra ele: “Olha, você não é um pescador, poderia pegar qualquer outro, mas fui cair com você”. Ele disse: “Não, eu fui executivo de uma grande multinacional americana durante muito tempo na minha vida, só que eu não aguentava mais aquelas reuniões chatas intermináveis, aquela gravata o tempo inteiro me apertando o pescoço...” E começou a falar e um dia eu perguntei pra ele: “Mas afinal o que você quer da vida?”, “a resposta está aí” e me mostrou o barco dele. “Eu vim embora, eu já tinha feito muitas viagens pelo mundo, ainda faço viagens porque hoje eu trabalho com turismo e com a pesca, quando não é época do turismo eu pesco, eu construí a minha própria casa”. Foi um achado,  aí ele contando tudo isso e eu naquela época tinha voltado da França e já estava achando minha vida também muito chata, eu disse: “Meu Deus, será que eu vou ter coragem de fazer isso uma hora qualquer, de soltar de novo as amarras e me mandar no mundo?”. A minha filha ainda não tinha nascido, ela nasceu dois anos depois, eu disse: “Tudo bem”, mas aquilo não saía da minha cabeça, eu a levei depois para conhecer outros Estados, fomos pro nordeste, mas aquele cara não saía da minha cabeça. Eu nunca mais o reencontrei, mas quando eu fui tomar minha outra decisão me lembrei da história dele. Teve um dia, a minha filha tinha completado sete anos, eu trabalhava a dezesseis anos numa multinacional, eu tinha um cargo prestigiado pela direção e tudo, mas eu não estava nada feliz. Aí eu pensei assim: “Bom, eu não posso ser uma boa mãe, uma mãe divertida, uma mãe que acrescente a minha filha me sentindo da maneira que estou me sentindo, massacrada.” Eu disse: “Quer saber de uma coisa? Vou embora com a minha filha dessa vez”. A primeira coisa que eu fiz foi deixar o meu trabalho, um dia eu virei a mesa lá e disse: “Não quero mais saber disso aqui” e eu fui trabalhar em vendas de publicidade, eu só não quero vender coisas, eu quero vender ideias e fiz um trabalho só durante um ano e meio. Eu ganhei um troféu da melhor vendedora daquela campanha, porque era um guia turístico de uma rede de hotéis que era apoiado pela EMBRATUR e eu fiz uma venda absurda, porque eu não era como todo mundo que vende publicidade, vende aí, eu não tinha a linguagem do vendedor, a minha linguagem era outra. Eu achava muito fácil, eu dizia: “É impressionante como se pode ganhar dinheiro vendendo” e foi incrível aquele período, eu trabalhei dois anos nessa empresa. Fui campeã de vendas, ganhei um bom dinheiro, aí surgiu uma oportunidade dentro da própria empresa, nós fomos convidados pelo órgão que correspondia a EMBRATUR aqui no Brasil lá em Lisboa, em Portugal e é claro, a primeira pessoa que eles pensaram em levar, era eu, né? Eu tinha acabado de ganhar um troféu, tinha vendido um absurdo e aí eles me propuseram de ir com eles, eu disse: “Quer saber de uma coisa... Eu consegui uma pessoa recomendadíssima pra ficar com a minha filha até eu me instalar em Lisboa”. Essa área de vendas aí nem sempre é muito 100%... E a gente foi e eu fui como gerente de vendas pra formar vendedores lá em Portugal, porque português é péssimo vendedor, então era barbada isso. E lá em Portugal, eu cheguei e fui primeiro à casa de uma amiga que tinha durante muitos anos trabalhado no Brasil, na mesma empresa que eu, depois eu aluguei um quarto e depois, dois meses depois queria que minha filha viesse. A empresa propôs pagar uma ajuda de custo boa que dava pra eu pagar um apartamento bom e eu fui morar no melhor lugar que tem em Lisboa, no Restelo, ali onde é o Jerônimo e o Jardim de Belém. Aluguei um apartamento lá, só que o apartamento me comia praticamente o dinheiro todo e não é fácil você vender pra português, pra treinar o vendedor tudo bem, porque eles não gostam de comprar... Pelo menos eles não gostavam de comprar de brasileiro. Então eu tinha que ter um suporte português, aí eu formava os vendedores e ia com os vendedores portugueses, eu entrava quando era necessário. Mas acontece que a empresa não funcionou muito e uma hora despencou e aí eu estava lá já com a minha filha, porque dois meses depois eu fiz a minha filha vir e coloquei ela na escola. De repente a empresa disse: “Nós vamos ter que voltar pro Brasil”. Eu disse: “Nós não, vocês voltam pro Brasil, eu não vou voltar agora, eu vim aqui pra ficar um ano, eu vou ficar no mínimo um ano, eu trouxe a minha filha pra cá, ela está na escola e toda hora eu vou ter que ficar mudando ela, agora eu vou ficar por aqui.” E eu decidi ficar e eles vieram embora, foi então... Eu tinha assistido no Reveillon uma reportagem na televisão sobre trabalho infantil em Portugal, essa reportagem... Em Portugal ou na Europa, eu não me lembro muito bem, foi feita por um alemão muito cheio de dedos, com muito medo, porque mexia com um verdadeiro vespeiro ali, né? Aí eu disse: “Quer saber de uma coisa, eu vou trabalhar em jornalismo, eu vou propor uma reportagem sobre o trabalho infantil aqui em Portugal”. Tinha uma revista que tinha começado, estava na segunda edição da revista e eu fui lá, fui lá e propus... Levei livros meus e disse: “Olha, eu sou escritora lá no Brasil e eu gostaria de fazer uma reportagem sobre o trabalho infantil aqui em Portugal”. Ninguém tinha coragem de fazer, nenhum repórter português tinha coragem de mexer nisso, ou eu fazia uma coisa assim completamente louca, que era pra realmente... Eu podia fazer, porque eu não era dali, eu já tinha acabado de conseguir minha residência em Lisboa e eles toparam, eu disse: “Bom, então vocês tem que me dar um fotógrafo e me dar condições para eu fazer uma entrevista numa entidade tal e tal, tal, eu tenho que ir pro norte, porque é lá que está o foco”. Eu fui pro norte de Portugal, eles me deram tudo, aí eu fiz uma reportagem de várias páginas, acho que tem umas sete ou oito páginas da revista e foi um sucesso, só que erraram meu nome, ao invés de pôr Glória Castro puseram Glória Matos. Eu fiquei com muita raiva porque achei que tinham feito isso de propósito, mas aparecia meu nome como colaboradora no começo da revista, eu não gostei nada daquilo, mas depois eu fiquei contente porque estava saindo a minha residência, eu disse: “É melhor mesmo que fique Glória Matos, porque de repente me negam a residência, porque eu estou enfiando a mão num vespeiro daqueles”. Eu sei que a reportagem saiu, eu recebi cumprimentos, eu trouxe até um cartão de uma entidade lá, mas eles colocaram Glória Matos. Bom, depois eu tenho outras publicações também, todas como Glória Castro e todo mundo sabe que fui eu que escrevi aquilo lá, até porque era um português de brasileira mesmo. Fiz outras reportagens e passei a trabalhar mais na área das artes, foi quando eu conheci os artistas portugueses e me apaixonei por aqueles artistas maravilhosos escultores, pintores, aqueles das joias assinadas. E voltei agora, 20 anos depois. Fazia 17 anos que eu não ia pra lá em setembro do ano passado, porque eu já estava doente e eu não queria nem saber o que eu tinha antes de ir, eu peguei e fui antes de saber. Passei o mês de setembro inteiro e foi uma festa, eu adorava ir para aquele café à brasileira que fica onde tem a estátua do Fernando Pessoa, tomar o café da manhã com os artistas e era o que eu fazia 20 anos antes e o que eu fiz agora durante esse período. Eu vou pular esses 17 anos que eu estive fora de Portugal, porque eu saí de Portugal em 92 e no ano passado, em maio do ano passado, eu comecei a sentir fortes dores, sobretudo na minha lombar, mas escrevi para meus amigos porque eu disse: “Eu quero voltar aí em Portugal pra abraçar vocês todos antes que aconteça alguma coisa comigo, eu faço questão de dar esse abraço em vocês”. E eles ficaram muito contentes, eu disse: “Vou no ano que vem, em abril do ano que vem” que seria abril deste ano, isso em maio, mas aí correndo fim de maio eu disse: “Eu não vou no ano que vem, vou este ano, vou em setembro, eu vou no final do verão começo do outono”. Acho maravilhoso viajar em setembro, eu acho um mês maravilhoso setembro pra viagem. Escrevi de novo pra eles e disse: “Olha, não vou mais o ano que vem, porque em um ano muita coisa pode acontecer e eu posso não poder ir no próximo ano. Então estou agora talvez podendo e é agora que eu vou. Dia 02 de setembro eu estou indo para aí”. Todo mundo concordou, mas eu comecei a ter crises fortíssimas de dores e a ortopedista vê aqui vê ali e não resolve nada, manda fazer fisioterapia e aquilo lá não resolve coisa nenhuma. Mas eu consegui segurar isso tudo e ainda tive a crise em agosto, eu disse: “Não, isso não vai atrapalhar a minha viagem, eu vou viajar e pronto”, eu tive medo até de ficar dez horas no avião sentada com um problema desses, sobretudo aqui na lombar. Eu disse: “Bom, vou e seja o que Deus quiser” e fui. Foi uma festa, foi uma maravilha, porque quando a empresa voltou há 20 anos pro Brasil, me deixou lá com minha filha e eu fui trabalhar em jornalismo, foi muito difícil pra mim, porque as revistas, às vezes, atrasavam o pagamento, nem todas pagavam bem como determinadas revistas e eu tinha que diversificar, publicar em todas. Eu deixei muitos trabalhos publicados lá, mais de 40. Depois de um determinado tempo eu passei a escrever só sobre arte e coleções, era um veio que ninguém explorava lá, por incrível que pareça, depois que eu comecei é sempre assim, né? Aí Então apareceram montes fazendo a mesma coisa sobre coleções, mas eu já tinha feito bastante e eu ia descobrindo as pessoas que colecionavam coisas interessantes, eu não ia fazer coleção [de] disqueira, né? Eu queria fazer coleção que tivesse significado até histórico, se possível. Bom, passei muita dificuldade nesse período durante dois anos, os dois primeiros anos lá, mas eu tinha os meus livros publicados aqui, então quando mandavam os meus direitos autorais... E eu tenho livros na Editora Moderna, tenho um dos meus livros que é “Menina Mãe”, sobre a gravidez na adolescência, escrito quando ninguém escrevia sobre gravidez na adolescência. Esse livro foi Best seller daquela editora e eu tenho outro da Editora do Brasil que é “Quem Roubou Minha Infância” que também é um Best seller da Editora do Brasil. Então assim esses dois livros me ajudavam muito a venda deles, né? Me transferiam dinheiro pra lá e depois um rapaz que estava... Sobrinho de uma amiga minha que estava muito envolvido com drogas lá em Lisboa e queria vir pro Brasil pra se afastar do grupo, eu disse: “Olha, eu tenho uma proposta, eu tenho um apartamento lá na Aclimação em São Paulo e eu pago apartamento aqui, então posso fazer o seguinte...” com o pai dele eu fiz isso “o senhor paga o meu apartamento aqui e ele mora no meu apartamento lá que está mobiliado e tudo que ele precisa está lá dentro”. E foi o que nós fizemos, durante dois anos eles pagavam o meu aluguel e o rapaz morava lá, depois detonaram meu apartamento, porque levava amigos, roubaram muita coisa. Livros franceses, por exemplo, desapareceram, um quadro que eu tinha ganhado até de uma escritora francesa, um quadro maravilhoso surrealista também desapareceu. Eu acabei perdendo muita coisa, mas isso me ajudou muito lá em Portugal e dois anos e meio depois eu comecei a ser muito perseguida por outros jornalistas que achavam que eu estava tendo muita folga lá, muita publicação tirando o trabalho deles e isso acontece mesmo, né? E lá é uma província, eu sou obrigada a confessar, então eu comecei a procurar também trabalho em outras áreas, eu tinha uma filha ali, eu não podia fazer minha filha passar fome. Me candidatei numa empresa temporária de temporários, eles procuravam uma secretária pra diretoria bilíngue português/francês e eu fui e me candidatei, era pra Renault portuguesa. Eles me chamaram lá na Renault, fizeram um teste comigo e aprovaram, era pra trabalhar por quinze dias e eu pensei assim: “Bom, 15 dias eu já ganho uma notinha e já dá pra eu me segurar aqui por um tempo e depois eu vejo outra coisa”. Fui por quinze dias e acabei ficando um ano e meio. Depois de um anos eles disseram: “Agora a senhora tem que se afastar daqui por dez dias, porque é proibido trabalhar mais de um ano como temporária e a Renault não está admitindo ninguém, pelo contrário ela está pondo fora todo mundo. Agora nós não temos interesse que a senhora saia, então viaja aí por dez dias e a senhora volta”. E foi o que eu fiz, eu fiquei lá um ano trabalhando em duas diretorias, uma era a diretoria da informática e a outra era a diretoria de venda de carros usados, de recolocação de carros usados, numa eu era secretária bilíngue e na outra... Havia até uma disputa dos dois patrões, sabe? Porque queriam que eu fizesse período integral num deles, foi complicado a beça nessa época, porque eu dizia: “Eu não quero estar escolhendo ninguém”, então eu fiquei um período com um, um período com outro e depois eu voltei pro... Ali eu era assistente do diretor gerente, o Carlos Louzada e acabei ficando até o fim, eu só saí da Renault porque eu ia ter que sair de novo por dez dias, esses dez dias que eu saí a primeira vez eu levei minha filha para a França, minha filha estava numa escola que chama A Voz do Operário, uma escola comunista que fazia um trabalho experimental com crianças, ensino experimental muito interessante pra mim, era o mais interessante que tinha lá. Coloquei minha filha nessa escola, na A Voz do Operário e o professor era belga e ele ao invés de ensinar que dois mais dois são quatro, era um ensino muito mais interessante e muito mais enriquecedor. Ele perguntou sobre o que alguém queria escrever, a minha filha sempre leu muito, ela aprendeu a ler com cinco anos de idade, eu coloquei o máximo de livros na mão dela e eu tinha amigos escritores infanto-juvenis aqui do Brasil, que davam livros autografados pra minha filha. O Pedro Bandeira mesmo, ele foi a Portugal visitar a gente e levou 26 livros dele infantis pra minha filha, porque minha filha em uma semana leu os 26, ela tinha paixão por leitura e eu estimulei muito isso nela, dei muito livro na mão dela, eu disse: “Minha filha, nunca faltará livro pra você, pode faltar qualquer coisa, mas livro não vai faltar” e nunca faltou mesmo.

Bom, eu sei que... Você vê, eu fico devaneando, divagando assim e depois eu não lembro mais por que eu cheguei nessa conversa, eu tinha que ter um trabalho que me desse sustento, trabalhei na Renault e aí eu falei: “Eu vou ter que voltar pro Brasil, porque no jornalismo eu estou sendo altamente perseguida, na Renault se eles me efetivasse talvez eu tivesse ficado”, mas eles não podiam me efetivar em Portugal, porque a Renault da França não tinha, eles estavam dispensando muitos funcionários e a proposta era eu continuar como temporária. Eu disse: “Bom, mas é um trabalho que não me dá nenhuma garantia”. Eu criei lá algumas coisas interessantes de registro de correspondência e tudo, não tinha plano de arquivo nada disso, tudo eu criei lá e eles realmente gostavam muito do meu trabalho. Foi um período interessante, porque quando a empresa brasileira veio embora pro Brasil e eu estava num apartamento que era muito caro, de repente eu despenquei, eu tinha que sair de lá, porque eu não podia pagar aquilo, custava 80 mil escunas e na época era muito dinheiro  por mês. Eu disse: “Não, eu tenho que ir pra um lugar mais barato”. O proprietário queria que eu saísse imediatamente e eu com uma criança com escola ali perto, aí aconteceu uma coisa muito interessante, uma vizinha que o filho estudava na escola da minha filha e dava carona pra minha filha de manhã, ela me viu de repente com as malas, eu estava com pouquíssimo dinheiro e falei: “Vou fazer minhas malas e vou pra algum lugar, vou pra um hotel pra ver o que eu consigo fazer da minha vida”, a minha preocupação era a minha filha. Quando ela viu as malas, ela disse: “Glória, o que está acontecendo?” eu disse: “Minha filha, eu tenho que sair daqui agora” ela perguntou: “Por quê?” eu disse: “Porque eu não posso continuar pagando isso daqui e ele não tem paciência de esperar nem uma semana, então eu tenho que sair agora”. Ela disse: “essas malas suas, por favor, vamos levar lá...” ela morava no andar de cima “leva lá pra minha casa, põe lá num canto da sala, eu vou levar a sua filha e depois a gente volta e conversa” mas acontece... Tem gente que fala assim: “Não conta essa história porque vão pensar que você é louca” porque realmente foi uma loucura aquilo que aconteceu, eu fiquei lá no apartamento esperando até o proprietário... As malas eu tinha levado lá pra cima e aquela altura eu comecei a chorar sentada no sofá. Entrou a zeladora - acho que é uma portenha -  na época muito querida, é querida até hoje, é uma amigona, ela disse: “Dona Glória, o meu marido pintou um estúdio ali no prédio atrás...” em pleno Restelo onde tem as embaixadas, onde tem o Jerônimos, o Jardim de Belém, o lugar mais nobre que tem em Lisboa. Eu disse: “Bom, ele pintou o apartamento, mas como eu faço pra chegar a esse apartamento?” “Ah, eu vou chamar o cara que está alugando”. Telefonou, chamou, ele veio, me mostrou o apartamento, era realmente um estúdio, mas tinha uma cozinha, tinha um hall de entrada bastante largo e tudo com estante e tal, [tinha] quarto e o banheiro. O banheiro era sem graça, eu disse: “Ih, esse banheiro está muito feio”. Era sala/quarto e aquele banheiro e eu disse: “Bom, eu só tenho que ajeitar esse banheiro aqui” e de fato ajeitei, eu mudei pra lá, ali era assim, eu pagava 80 mil escudos lá em cima onde eu morava e ali eu passei... Era só eu e minha filha, eu passei a pagar 27 mil e foi esse apartamento que depois eu troquei com o apartamento de São Paulo, meses depois eu troquei e passaram a pagar meu apartamento lá e o rapaz veio viver aqui. Pronto estava perfeito, eu tinha que ganhar pra comer, pra minha filha fazer os estudos dela e a gente ter uma vida agradável. Entravam os meus amigos, porque quando eu mudei lá pra baixo, lá embaixo não tinha nada, os vizinhos... Foi a coisa mais espetacular que aconteceu, os vizinhos que conheceram a história, que me viram ir lá pra baixo, eles mobiliaram minha casa inteira, eles colocaram tudo lá dentro, inclusive uma das vizinhas do prédio, atrás ainda do meu, porque eram quatro blocos, ela levou cestas básicas. Em 24 horas eu tinha a casa completamente montada, eu tinha geladeira... Eu só não tinha televisão, tinha fogão, mesa pra cozinha, cama pra mim, cama pra minha filha e faltava o armário, nisso um primo meu, muito meu amigo - é meu amigo até hoje - casado com uma prima minha que infelizmente faleceu há alguns anos, ele ligou pra mim lá em Portugal e disse: “Glorinha, o que está havendo aí com você?” Eu disse: “Olha meu filho, eu estou despencando...” Eu ainda estava no apartamento de cima “eu vou ter que sair daqui agora”, aí ele disse assim: “Se eu mandar mil dólares pra você, dá pra você se virar até você arrumar suas coisas, sua vida aí?” Eu disse: “Puxa! É a minha salvação”. Olha que coisa extraordinária aconteceu lá em Portugal. Ele disse: “Tudo bem, eu vou mandar esses mil dólares através de uma pessoa aqui que tem uma empresa que vende automóveis aí, e ele manda a ordem por fax, eu dou aqui o dinheiro e ele manda a ordem pra empresa dar os mil dólares pra você”. Nesse período o meu passaporte estava aqui em São Paulo, porque justamente eles estavam tentando conseguir a minha residência lá em Lisboa e o que aconteceu? Eu estava sem documento, aí eu disse: “Puxa, eu vou lá buscar o dinheiro, mas eu não tenho nem documento pra provar que eu sou eu, bom, mas eu vou assim mesmo”. Eu me vesti e fui pra... Ele disse: “Amanhã o dinheiro está aí”. Fui pra essa loja que vendia automóveis, um rapaz que é sobrinho do cara daqui de São Paulo me atendeu, ele disse: ”Olha, não recebi nenhum e-mail autorizando, a senhora vai ter que esperar que chegue esse e-mail, esse e-mail não, esse fax”. Eu disse: “Oh meu Deus!” Eu já estava quase sem dinheiro nenhum, nem para o transporte, eu disse: “Bom, então eu tenho que voltar quando?” Ele disse assim: “A senhora deixa o telefone e eu ligo pra senhora assim que chegar”. Quando eu ia saindo ele disse: “Senhora vem aqui, eu vou fazer uma coisa para senhora, eu vou dar um cheque pra senhora em escudos correspondente a mil dólares, que é o que a senhora disse que estão mandando pra mim”. Eu disse: “Bom, é isso mesmo”. Ele disse: “Eu vou dar esse cheque pra senhora, mas vou pedir... Pra senhora não precisar vir aqui, a senhora leva esse cheque, mas a senhora só deposita depois que eu telefonar e dizer que recebi o fax”. Eu disse: “Ta bom”. Eu saí de lá com esse cheque, passei na porta do banco, sabe? Eu fui embora pra casa e no dia seguinte ele telefona e diz: “A senhora já pode sacar”. Eu falava para os portugueses que tinha acontecido isso, eu dizia assim: “Puxa como vocês são maravilhosos”, confiança, ele não me pediu documento, porque eu também não tinha pra mostrar pra ele, eu estava sem passaporte e ele não me pediu nada, ele simplesmente acreditou naquilo que eu disse. Os portugueses falavam assim: “Mas olha, isso também não é comum aqui, pode ter certeza, eu não sei o que aconteceu” eu disse: “Puxa vida, que anjo da guarda fantástico eu devo ter”. Com esses mil dólares eu aproveitei pra comprar o armário que era o que não tinha no apartamentinho lá em baixo, algumas coisas que faltavam, pouquíssimas coisas porque até arranjos de cama, toalhas de banho tudo isso eles me deram, foi um movimento de solidariedade que eu jamais tinha conhecido, né? Fora do meu país com uma criança, como eu não vou ser apaixonada por esse povo? E por esse país? Eu adoro esses dois países, a França também me deu muita coisa. Bom, a minha amiga da França faleceu já faz alguns anos, mas eu estive em 96 na França de volta, só pra vê-la porque ela tinha feito um AVC e estava paralisada. Fui lá pela última vez, eu a vi em 96 e ela morreu uns dois anos depois.

Dessa vez voltei pra Lisboa pra rever todo esse pessoal maravilhoso ali, aquela vizinhança toda, fiquei hospedada na casa de um deles, saí com todos eles, todos me levavam pra cá e pra lá. Os artistas também me paparicaram a beça, eu ganhei uma escultura de um escultor que eu admiro tanto, ganhei esse que é escultor também, mas que tem as joias assinadas e que é conhecido na Europa toda, o Roberto Gordilho, ele me deu um crucifixo de prata maravilhoso feito e assinado por ele. O outro artista, o outro pintor me deu um livro de arte, ele fez uma exposição aqui no Brasil em vários Estados, ele e outro pintor que eu conheci quando veio aqui pro Brasil - que também ficou muito meu amigo - eles me deram esse livro que tem a foto dos trabalhos deles que foram expostos aqui no Brasil, com outros artistas que expuseram aqui. Todos davam presente pra eu trazer pra minha filha, sabe? A minha amiga dizia assim: “Glória, o tempo que você morou aqui...” porque nós continuamos nos correspondendo, mas nunca mais nos vimos durante 17 anos, podia ter de imediato assim, tido essa... Como se não tivesse me separado deles, ela dizia: “Você foi um grande exemplo de vida pra mim, porque no período que você passava aqueles apuros, porque demoravam pra te pagar os trabalhos publicados, e vinha o cara aqui pra te cobrar o aluguel e você ficava desesperada e dizia: ‘por favor, o senhor vai ter que esperar mais um dia ou dois dias…’ Eu estava esperando chegar o dinheiro do Brasil que não chegava, no dia seguinte, eu olhava daqui...” Porque os prédios tem um jardim só que separa... “Olhava daqui e via você com uma bola embaixo do braço e com a sua filha na outra mão e eu dizia: ‘Glória, pra onde você vai?’ e você dizia assim: “Eu vou ao parque”, o Jardim de Belém você chamava de parque “Ah, eu vou ao parque jogar bola com a minha filha”. Feliz da vida, eu dizia: “Mas como é possível uma pessoa que passou aquele aperto danado a um ou dois dias atrás de repente estar nessa felicidade toda e vai jogar bola com a filha porque chegou o dinheiro e ela pagou”. Eu disse: “Mais que eu precisava que chegasse o dinheiro e eu pagasse, nada além disso”. Vamos dizer, às vezes eu tive momentos extremamente difíceis, mas tudo que esses artistas me ensinaram  sobre arte, a paixão que hoje eu tenho pela arte, por exemplo, por artes plásticas... Eu vivo na Pinacoteca, os meus grandes programas são: a Pinacoteca, o Jardim da Luz que eu acho fantástico, aquela Estação da Luz que me lembra a minha infância e a minha adolescência, porque na infância eu ia com a minha mãe buscar minha tia avó, que vinha do interior passar as férias aqui em São Paulo. Na minha adolescência... Porque eu ia de trem pra cidade dos meus pais, da minha família, passar férias. Aquele espaço é um espaço muito importante pra mim, não tem nenhum espaço em outro lugar no mundo que me emocione mais do que o Jardim da Luz. Eu acho aquele jardim maravilhoso e aquelas esculturas, no meio das esculturas da natureza, porque tem árvores extraordinárias ali, aquilo tudo me fascina. Tenho também nesse livro o momento [em] que eu passo no Jardim da Luz e depois vou pra Estação da Luz, pra ver um trem indo embora. Isso realmente me fascina muito. Bem, eu acho que em síntese essas coisas todas que eu contei são episódios muito importantes na minha vida e que me enriqueceram muito, a minha filha fez o primário em Lisboa, às vezes ela se queixa, porque ela aprendia o português de lá, que tem muita diferença. Imagina você, quando eu saí de Lisboa pra onde eu fui? O normal é vocês pensarem que eu vim pra São Paulo, mas eu não vim, eu fui pra Maceió, você imagina o que é sair da Europa e cair em Maceió, no nordeste brasileiro e eu fiquei três anos em Maceió. A minha filha que não aguentava mais depois de um ano e disse: “Mãe, tudo bem, você quer ficar, você fica, agora você me manda interna no colégio...” Um colégio onde a amiga dela tinha ido “Porque vai ser muito divertido” e ficava em Pernambuco. Eu tinha vendido o apartamento em São Paulo e comprado um apartamentão lá, um apartamento de 40 metros quadrados, um apartamento de 50 aqui em São Paulo comprei um de 120 lá e ainda carro e tudo mais. Então eu tinha montado ali, eu falei: “Você quer saber de uma coisa, eu vou vender esse apartamento e comprar um menor e você vai ter a experiência pelo menos durante um ano num internato”. Era um internato de uma escola adventista que ficava num vale numa cidadezinha lá em Pernambuco a duas horas de distância de Maceió, eu disse: “Então está fechado”. E ela foi e foi maravilhoso porque ela conviveu com estudantes da idade dela de vários Estados do Brasil, sobretudo lá da parte do nordeste: Maranhão, Ceará e tudo mais, ficou amiga de muitos deles, é amiga até hoje. Ela foi a primeira aluna do colégio no ano [em] que ela estudou lá o ano inteiro. Lá eles faziam assim: o primeiro aluno do colégio - e olha que tinham 1200 alunos - eles colocavam uma placa com o nome do aluno, então tinha lá várias placas e naquele ano a placa foi com o nome da minha filha. Eu resolvi depois de três anos em Maceió, tentando fazer alguma coisa muito difícil... Eu tenho muita pena porque Alagoas é um Estado que sempre foi muito mal administrado, é impressionante como o povo de lá não tem nem ideia de como a vida pode ser muito mais fácil, muito mais simples, sobretudo num lugar como aquele. [Lá] é assim, aquela terra dura mesmo, difícil de você cavar, fazer um buraquinho, porque é uma seca dura. E lá eu vivi outras experiências que não vem aqui ao caso. A minha filha foi pro internato durante um ano, ela vinha passar uma vez por mês pra passar um fim de semana comigo e eu uma vez por mês ia pra lá visitá-la. Foi interessantíssimo pra ela, foi importante pra ela, [porque] foi um ano que ela produziu muito e teve alguns embates lá que foram importantes também pra ela. Depois de três anos eu disse: “Bom, tudo que eu podia tirar daqui eu já tirei”. Lá eu dei um curso de reciclagem de secretárias numa escola de formação de secretária. Eu fazia reciclagem de secretárias, direção, gerência. Eu trabalhei também em venda de publicidade, em algumas publicidades, quer dizer, todo lugar que eu ia eu procurava fazer um trabalho que me desse um retorno financeiro que fosse suficiente pra eu sobreviver com a minha filha da melhor maneira possível e sempre conseguia... Não faz parte do meu currículo essas coisas todas que eu atravessei. Não faz parte, por exemplo, do meu currículo, porque quando eu voltei pra São Paulo eu fui dar aula de francês em empresas e comecei a fazer as traduções em francês pra esses dois órgãos que eu falei francês durante dois anos, eu fiz lá... Um deles eu acho que foi um ano, o outro eu acho que dois anos e eu cuidei de toda a correspondência francesa de francês desses dois órgãos e dava aulas de francês pra escritório de advocacia e para onde tivesse profissional que quisesse aprender a língua francesa. Por outro lado eu também... A minha sobrinha, que é minha afilhada, me ensinou... Ela fazia umas coisas de cartonagem, hoje ela é artista plástica e professora de Filosofia, ela me ensinou a trabalhar com cartões, cartonagem. Fiz durante um bom período e eu trouxe fotografias até das coisas que eu fazia, por exemplo, na Páscoa eu fazia esses tipos porta jóias, que enchia de bombom, então além do bombom a pessoa dava um presente que servia como porta joia e tudo em cartão, uma gramatura bem forte que parecia madeira. Durante um período eu fiz esse artesanato também, eu não tinha problema nenhum em entrar pra tudo quanto é... De usar todas as possibilidades de sobrevivência correta, então minha filha fez os estudos dela e eu fiquei acho que treze anos fora de São Paulo, foram os quatro anos [em]  que eu fiquei em Lisboa e de Lisboa eu fui pra Maceió e fiquei lá três anos. Depois eu voltei pra São Paulo e fiquei dois anos aqui em São Paulo, mas não aguentava muito aquela coisa, aquela vida trepidante, achei muita diferença dos últimos anos e também achei que não era um bom lugar pra ficar com a minha filha naquele momento, porque ela estava no colegial naquela altura, mocinha e a cidade de São Paulo pra mim é muito preocupante e também eu não queria ficar prendendo a minha filha, eu queria que ela tivesse liberdade, mas uma liberdade segura, né? Então eu decidi ir pro Guarujá, fui pro Guarujá e morei seis anos lá. Desses seis anos, durante três anos eu trabalhei muito com traduções sobretudo e com os meus cartões, com a minha cartonagem. Depois durante mais três anos eu fui administradora da casa do menor do Guarujá, foi um trabalho interessantíssimo e muito gratificante que eu fiz e, às vezes, muito decepcionante, porque você trabalha com crianças e adolescentes, pré-adolescentes. Então você não consegue... Ele já vem com uma história de vida, às vezes, que mexeu com a vida deles e já traçou algum caminho. Foi um trabalho importantíssimo, talvez o trabalho que eu tenha mais gostado de fazer na minha vida foi esse. [Quando] Eu cheguei a casa estava sob intervenção da prefeitura porque antigos administradores... Tinham tido problemas lá, eu sei que eu participei de toda a reerguida dessa casa, tanto na parte da reforma do próprio prédio como da reestruturação da vida das crianças. Eu tinha como suporte uma assistente social competente, uma psicóloga também competente, uma secretária muito eficiente que me ajudava muito e o presidente da casa que respeitava muito o meu trabalho. Eu participei de eventos, criei eventos nessa casa que trouxesse não só a parte financeira pra esse reerguimento da casa, mas eu achava que era muito importante as crianças... Eu achava que a arquitetura era importante na vida das pessoas, sobretudo da criança, sabe? Quando ela vive num ambiente de bom gosto, num ambiente agradável, um ambiente claro, bonito, ela tem mais possibilidade de aceitar a história dela. Durante esses três anos eu batalhei muito e consegui... Tinha um hotel que estava fechando e eu consegui entrar em contato com esse hotel e eles doaram ali pra casa, estava terminando a reforma, os beliches e separamos ala dos garotos e das meninas, só dormitórios. Todo o mobiliário para os quartos eu consegui com essa empresa que estava fechando e, além disso, eu consegui que eles... As máquinas pra montar uma lavanderia, porque nós tínhamos uma lavadeira, mas montamos uma lavanderia ali dentro e realmente montamos, consegui uma secadora semi-industrial, uma lavadora semi-industrial, centrífuga e tudo isso. A casa que estava completamente desacreditada pelo povo lá do Guarujá… Quando eu cheguei estava começando a se reerguer e voltou a ter o crédito da população, passaram a fazer muitas doações. Então foi um período também muito importante e naquele período quiseram que eu participasse do conselho municipal da criança e do adolescente lá e eu fui um dos membros do conselho também. Foram mais seis anos lá e só daí já são 13 anos, a minha filha lá no Guarujá fez o último ano de colegial e com a ajuda da internet, ela não fez nem cursinho, ela prestou exame no fim do ano e conseguiu...

 

P/1 – (Pausa) Glória começa da parte que você estava falando da sua filha, que ela estudou pela internet...

 

R – Ela estava numa escola pública lá no Guarujá que não dava assim muito suporte pra ela, eu mesma levantava muita coisa pela internet que ela ia precisar naquele ano, porque ela ia prestar exame pra faculdade. E realmente ela não precisou fazer nenhum cursinho nem nada, entrou direto na faculdade, fez a faculdade em 99. Ela entrou e fez a faculdade de Ciências Sociais depois que terminou, eu decidi deixar o Guarujá e mudei pra Araraquara, que era onde ela fazia faculdade, na UNESP. Fui embora pra Araraquara, eu queria ficar lá o tempo necessário pra ela se preparar pra começar o Mestrado e foi o que nós fizemos, eu fiquei lá com ela durante dois anos, ela se preparou muito bem pro Mestrado e fez o Mestrado com bolsa da FAPESP e terminou muito bem o Mestrado dela. Atualmente ela faz Doutorado na Universidade Federal de São Carlos e mora em Araraquara, continua morando em Araraquara. Bom, mas antes mesmo de chegar nesse período agora, desse ano, eu gostaria de acrescentar o seguinte: eu não me poupei a vida toda, eu me lancei em tudo quanto foi desafio possível e imaginável e realmente levei a carga dos meus nervos de todas as decisões que eu tomei, porque eu tomava as decisões e sabia que eu ia me responsabilizar sozinha pelas consequências. Então vamos dizer que... Quando eu morava em Maceió, um grupo de professores de uma determinada escola de São João Del Rei me telefonou e disse: “A senhora não viria dar palestras aqui na escola para nossos alunos? A senhora cobraria as palestras pra vir aqui falar para nossos alunos?” Eu disse: “Olha, eu não cobro a palestra, porque eu vou falar sobre meus livros e se vocês estão me chamando é porque adotaram os livros. Então aí o lucro que eu tinha que ter, eu já tive a questão agora é a seguinte: “vocês teriam que pagar minha viagem, vocês têm que pagar meu transporte até São João Del Rei, a minha estadia e a minha alimentação, vou ficar por conta de vocês, transporte aí dentro e tudo.” Mas eu não imaginei que eles fossem me chamar não só pra dar palestra na escola deles, mas o que eles fizeram? Eles entraram em contato com várias outras escolas, inclusive a universidade lá de São João Del Rei e se cotizaram pra poder pagar essas despesas para eu ir lá. E foi muito interessante esse episódio, porque eu era escritora infanto-juvenil pra todos os efeitos, eles tinham adotado livros sobre drogas na adolescência que eu havia escrito, aliás, o primeiro livro que abordou droga na adolescência, assim direto falando das drogas e inclusive mostrando conivência de polícia e tudo mais foi o meu livro que se chama “Em Carne Viva” que foi lançado pela Editora Moderna em 85, 86, não me lembro e que até hoje está lá. Depois que eu lancei meu livro, vieram outros livros, mas primeiro tinha que ter alguém que desse a cara pra bater pra mostrar que a pessoa podia falar isso aí e que não ia acontecer grande coisa, a verdade é que depois disso... Todo mundo tinha muito medo, quando passava a polícia na frente da editora naquela época, a editora de lá deve lembrar, eles corriam e recolhiam os meus livros e a gente tinha realmente muito medo. Quando lançou o livro eu fui chamada pela Rádio Cultura, TV Cultura, pelo consulado americano aqui em São Paulo pra me entrevistar, o consulado achou que eu ia levantar uma bandeira contra as drogas, eu disse: “Não, o meu propósito não é esse, o meu propósito foi escrever um livro que colocasse nas mãos dos estudantes a possibilidade deles discutirem em classe com professores, com orientadores, com pessoas que pudessem dar esclarecimento sobre o tema drogas”. E depois dando uma palestra em uma escola até em Santo Amaro, sobre drogas, sobre esse livro meu, eu fiz algumas perguntas pras adolescentes e percebi que em termos de sexualidade, elas não sabiam nada de nada, era tudo completamente aprendido entre elas mesmas. Elas se queixaram disso, né? Porque não tinham como conversar com os pais e que a escola não dava esse suporte, eu disse: “Olha, eu vou assumir um compromisso com vocês agora, eu saio daqui e vou começar um livro sobre gravidez na adolescência que vai dar pra vocês essa possibilidade”. E foi o meu best seller durante muito tempo na Editora Moderna, teve um ano que vendeu nove edições, eu até estava em Lisboa, foi quando eu recebi mais dinheiro. Mas eu sei que escrevi esse livro, então o meu mérito como escritora infanto-juvenil e isso a Moderna é testemunha porque na época que eu lancei esses dois livros, que eram sobre temas polêmicos, não existia ainda a coleção polêmica e um dia a editora dos meus livros, a Maristela lá da Moderna, ela disse pra mim: “Glória, você tem consciência de que os seus livros é que abriram... Que foram responsáveis pela abertura de coleções polêmicas na área infanto-juvenil?”, na verdade eu não tinha essa consciência, sabe? Pra mim eles deviam... Se não escreveram deveriam ter escrito porque era importante colocar esses temas na mão dos estudantes e depois disso escrevi outros livros, por exemplo, o primeiro livro meu que foi publicado pela Editora do Brasil e até hoje está com 20 e tantos anos já que ele é vendido, até hoje ele é muito vendido, ele é o campeão de vendas de livros infanto-juvenis lá na Editora do Brasil e eu falo isso sem medo nenhum, porque os vendedores, os divulgadores dizem pra mim. O que se chama “Quem Roubou minha Infância” foi por quê? Foi a primeira autora que teve coragem de colocar uma mãe má na mão dos estudantes, quer dizer, toda mãe é santa, toda mãe é filha de Nossa Senhora, é perfeita, [mas] não é, existe muita rejeição de mãe pra filho, existe... Às vezes elas não percebem que eles é quem sentem, nem é exatamente uma rejeição, é um excesso de preocupação e eles sentem essa rejeição. Então o que esse livro fez? Qual o caminho dele e que deve ser até hoje, né? Vai pra alunos de oito, nove anos, dez anos, onze anos e quando eles leem o livro e veem aquela mãe que teve coragem de ferir a filha, que realmente rejeitou aquela filha, eles se identificam de alguma maneira um ou outro, né? Não é todo aluno que se identifica, mas aconteceu de muitos deles de escola pública, inclusive pelo menos foi a informação que os professores me passaram, tem catarse na leitura do livro. A escola chamava os pais e os pais diziam: “Mas eu não percebia que eu estava passando esse sentimento de rejeição pro meu filho”. Vamos dizer que esses três livros pra mim são de maior importância, porque eles realmente cumpriram e cumprem uma missão importante que eu acho necessária, não que os outros não tenham escrito, porque provavelmente depois devem ter surgido outros que escreveram sobre temas assim, dessa natureza. Sobre drogas, tem de monte, hoje o meu livro é refresco, meu livro hoje serve pra quarta série, terceira série, porque não faz abordagem das drogas de hoje, hoje é um absurdo, mas durante um bom período e eu sei... Eu recebia muita carta de estudantes que tinham lido esse livro ou que tinham lido “Menina Mãe” e que falavam que nunca entrariam nas drogas em função do que eles tinham aprendido naquele livro e eu conheci... Hoje ele é doutor, eu não me lembro bem, acho que era no Ceará ou em Pernambuco não sei, eu sei que o conheci aqui em São Paulo e ele falou assim: “Olha, o seu livro “Em Carne Viva” foi importantíssimo na minha adolescência, foi meu livro de cabeceira, eu jamais me envolveria com drogas depois da leitura desse livro”. Então esse livro, ele teve uma função importante e hoje se ele é menos importante do que outros que surgiram depois dele abordando outras drogas mais fortes, mais pesadas e tudo mais que servem pra adolescentes a frente, mas esse livro quando surgiu, ele foi... Teve [uma] professora numa cidade do Rio de Janeiro que foi processada pelos pais por ter adotado esse livro, porque ele mostrava não só envolvimento com a droga como mostrava o traficante e isso de uma maneira muito... Eu tive que tomar muito cuidado porque era o primeiro livro que saía, que surgia do assunto e foi a pedido até de um diretor de [uma] escola que eu resolvi escrever esse livro. Mas ela foi processada por ter adotado esse livro na escola, isso logo no começo, esse livro já está desde 85, então faz muito tempo, né? Está aí a 25 anos rodando e o “Menina Mãe”, sobre a gravidez na adolescência também e faz esse caminho aí, ele, eu acho, que saiu em 86, eu prometi em 85 e em 86 ele saiu. Eram livros assim que eu falava com muito vigor, naquela época, né? Aparece até na contra capa, na quarta capa do livro que normalmente o editor escreve, né? É um dos livros mais contundentes da moderna literatura infanto-juvenil naquela época. Hoje existe o crack e outras drogas fortíssimas que destroem, são devastadoras, é óbvio que tinha que aparecer outros escritores que falassem e vissem que... Pra mim, por exemplo, na verdade é que logo depois eu fui pra Lisboa, mas eu não fui fugindo eu fui porque coincidiu deu ir e tive oportunidade. Mas então, eu acho que a minha importância na literatura infanto-juvenil maior são esses três livros e, sobretudo desses livros polêmicos que abriram o caminho e eu não sou aquela escritora que participa de todas as coisas de escritores, sabe? Quando você tem uma função e você faz um trabalho em áreas como a literatura, como as artes, você tem que estar sempre em contato em eventos onde têm editores, onde têm escritores, sabe? Isso faz parte, mas não é o meu feitio isso, não é o que eu gosto, eu achava que aquele tema era importante, eu punha no livro, lançava o livro e pra mim o livro ia fazer o caminho que o editor destinasse, mas eu não tinha necessidade de participar de badalações e de muitos eventos e tudo mais. Nesse aspecto vamos dizer que eu perdi muito, perdi muito terreno e também não tem importância, porque eu não abri mão da maneira como eu interpreto a vida. Quando você tem esses envolvimentos e essas coisas que você coloca na mão dos outros, eu acho que fui o mais consciente possível, sou contra qualquer espécie de droga, sou totalmente desfavorável a qualquer descriminalização, porque acho que todas elas... O próprio cigarro já é uma porta menos fatal, mas outras, descriminalizar a maconha, eu particularmente... Como não vou interferir nisso, isso vai tomar o rumo que deram, mas se perguntasse pra mim se eu sou favorável, eu não sou, porque eu acho que uma droga abre caminho pra outras drogas e você depois de certo tempo não se satisfaz mais com aquilo. Você vai buscar uma mais forte e depois você vai buscar outra e vai acabar caindo nessas que vão realmente destruir e também não é o caminho que todo mundo tem que fazer, tem aquele que fuma isso, cheira aquilo e consegue viver em sociedade e manter um padrão de vida dito “normal”. Mas eu acho que é o resultado disso tudo pode ser devastador e pelo fato de poder ser devastador e de devastar a vida de muita gente, de muitos adolescentes, crianças, que cheiram cola, sabe? Que fuma crack e tudo isso me exaspera, eu particularmente... Pra ser muito coerente comigo mesma, sou totalmente desfavorável a que qualquer uma dessas coisas sejam liberadas, é isso.

 

P/1 – Você chegou a falar em Araraquara e não terminou depois de Araraquara, você ficou com a sua...

 

R – Fiquei dois anos em Araraquara até minha filha ser admitida na própria UNESP, no Mestrado e ainda fiquei mais seis meses, porque ela preparou o projeto e mandou pra FAPESP assim que foi aprovado o projeto e ela ganhou a bolsa, eu disse: “Agora você não precisa mais que eu fique aqui, segue o seu caminho direitinho”. Minha filha nunca me deu trabalho fora do normal. Eu vim embora, foi quando eu vim e aluguei esse apartamento, aliás, lá de Araraquara essa minha amiga tinha feito uma cirurgia, a minha amiga do apartamento onde eu moro hoje, ela tinha feito uma cirurgia e ela estava convalescendo. Ela ligou pra mim lá em Araraquara, ela é madrinha da minha filha e eu disse: “Ah, eu estou voltando pra São Paulo e eu vou alugar uma quitinete na Praça da República porque eu não aguento mais esse marasmo, eu quero morar num lugar bem movimentado, então eu quero uma quitinete na Praça da República que é onde tem bastante movimento”. Ela disse: “Em vez de uma quitinete na Praça da República, o meu apartamento está vago na Praça da Árvore e ele tem uma sala grande, tem um quarto confortável, uma cozinha grande, duas varandas, uma área de serviço espaçosa. Você não prefere ir pra esse apartamento do que pra uma quitinete na Praça da República?” Eu disse: “Olha, pra mim tudo bem, é indiferente desde que eu possa pagar o preço que eu vou pagar da quitinete”. Ela disse: “Perfeito, você paga os encargos e depois você vê aí quanto você paga de aluguel”. Eu disse: “Quanto eu pago não, eu vou pagar aquilo que eu pagaria se eu fosse pra Praça da República pro apartamento que eu estou tratando”. Ela disse: “Tudo bem.” E eu vim... Quando foi? 2005, eu acho, em agosto de 2005 e por que me fascinou? É um lugar poluído? É, mas eu fecho lá as minhas portas de vidro e deixo aberta só a porta de dentro que dá pra área de serviço, então já não entra tanta poluição. Depois eu saio da minha casa dou três passos e estou descendo a escada do metrô e no meu quarto... A varanda do meu quarto, ela é protegida pela copa de uma árvore que vai da calçada até lá em cima e passarinhos me acordam de manhã. Eu não admito que falem que é um lugar super poluído, que é isso que é aquilo, tem muito charme também.

Eu estava falando pra vocês que recentemente eu resolvi comprar aquela casinha onde você coloca néctar e que tem aquelas florzinhas pro beija-flor ir lá tomar o néctar, beija-flor e outros pássaros. E todo mundo fala: “Imagina [que] aqui na Praça da árvore vai ter beija-flor?” Eu disse: “Quer apostar como vai vir beija-flor”. É impressionante como eles visitam, todo dia eu encho aquela casinha. Agora você vê, eu quero viajar no Natal, ir pra Araraquara passar com a minha filha ao invés dela vir pra cá, porque eu quero conhecer a casa que ela foi morar, que ela alugou recentemente e já estou preocupada com os passarinhos. Aí eu disse: “Bom, eu acho que vou comprar mais umas duas casinhas e eu deixo as três cheias de maneira porque durante uns dias eles tem aí o néctar deles” e acho que é o que eu vou fazer, porque não tem outro jeito. Bom, a minha filha tem uma cachorra que ela adora e que não tem com quem deixar nesse período, porque todo mundo viaja. Aí eu disse: “Se eu puder, eu vou”.

Agora eu vou entrar numa parte mais dolorosa na minha vida que foi quando eu contei aqui que no ano passado eu senti aquelas dores fortíssimas, sobretudo na região [da] lombar. Estava muito desconfiada de que tivesse um tumor, mas os ortopedistas não enxergavam nada nem nas radiografias e nem em tomografias. Lá em Lisboa quando eu fui em setembro eu cheguei a ir parar no hospital um dia, travou completamente, eu não podia andar, não podia levantar a perna, eu tinha sobretudo, muita dor na virilha do lado direito. Eu dizia: “Não, não é possível isso aqui, não pode ser uma coisa simplesmente... Um problema de deslocamento? Eu estou com uma coisa muito mais séria do que isso”. Na verdade eu comecei com uma anemia crescente até chegar em fevereiro desse ano, por sorte eu fui em setembro do ano passado pra Lisboa, porque se eu tivesse deixado pra ir em abril desse ano, como eu tinha pensado inicialmente, eu não teria ido, porque em abril eu já estava hospitalizada, abril não, em maio. Em abril eu já estava com um problema seríssimo, não tinha mais... Já estava com diagnóstico praticamente fechado. Muito bem, eu ainda escrevia e achei que ainda ia escrever durante muito tempo esse meu livro “No Silêncio das Horas”, em que esses episódios da minha vida vinham e eu escrevia sobre eles. Então tem coisas que eu não escrevi ainda e que acabo de narrar pelo menos parte dela, mas eu resolvi agora não só entrar em contato com vocês... Você ia me fazer uma pergunta a respeito? Você quer fazer essa última pergunta?

 

P/1 – Não, não, pode ir.

 

R – Então eu resolvi agora entrar em contato com vocês, porque eu disse: “É muito ruim quando a gente passa a vida e não deixa as coisas registradas”. Eu tenho uma filha que segue um caminho diferente do meu, mas com muitas coisas semelhantes, ela coloca o estudo dela acima de tudo e até pode parecer corujice pura, mas não é, ela é extremamente estudiosa, inteligente de maneira que nesse aspecto, eu nunca me preocupei e nunca tive problema pelo contrário, eu, muitas vezes me preocupo pra ela parar um pouco, respirar um pouco, mas ela leva tudo muito a sério.

No começo desse ano a minha hemoglobina começou a cair muito e eu passei a mostrar uma anemia bastante importante, eu me sentia muito doente, me cansava muito de ir daqui até ali na porta, às vezes nem isso eu conseguia fazer. Eu disse: “Alguma coisa muito séria eu devo ter e esses ortopedistas não são os que vão resolver esse assunto”. Um dia cheguei muito mal com a hemoglobina baixíssima no pronto socorro do Hospital das Clínicas e fui por sorte atendida pela diretora do pronto-socorro, ela olhou os meus exames e disse: “Bom, está acontecendo alguma coisa. A senhora não está produzindo hemoglobina por alguma razão ou ela está sendo sugada por algum problema seu”. “A senhora tem que fazer imediatamente transfusão de sangue”  tanto que ela não me deixou sair, eu nem avisei ninguém que eu estava vindo pra cá, eu me senti mal e vim. Ela disse: “A senhora vai já pro pronto-socorro fazer transfusão” e eu fui fazer essa transfusão e de lá, quando terminei de manhã no dia seguinte, eles me mandaram para um médico, pra um grupo que estuda essas anemias que não têm uma causa definida e esse grupo... Foi impressionante, porque eles mataram na hora a charada, fizeram os exames e a residente que faz aqueles exames todos… Ela foi falar com o chefe dela que é o professor e ele veio com ela. Ele pediu pra ver minhas mãos, pra ver meus olhos, fez umas perguntas e disse: “Tudo bem, nós vamos conversar e ela volta aqui pra falar com a senhora” foram lá pra dentro e daqui a pouco ela voltou e já voltou com um diagnóstico, ela disse: “Olha, a nossa suspeita é que a senhora... Nós não vamos poder ficar com a senhora aqui nesse departamento, vamos encaminhar a senhora pra hemato, porque a senhora está com mieloma múltiplo, com certeza.” Eu disse: “Bom, mieloma eu sei o que é, mieloma é tumor, é câncer, é um tumor maligno, mas que múltiplo é esse? Que negócio de múltiplo?” Depois eu fui fuçar na internet tudo que tinha sobre esse negócio aí e... Bom, me encaminharam pra hemato e a hemato em pouquíssimo tempo... Os exames todos apontaram pra isso. Mieloma múltiplo é o quê? É um câncer na medula óssea e se você... Não tem cura, se você fizer um transplante, você pode viver aí mais uns dez anos e tal, mas o transplante eles só fazem até 65 anos de idade e eu já estou com 68. Então o transplante está fora de cogitação até por outros problemas que eu tenho. Eu comecei a ficar muito mal, mas muito mal mesmo, tanto que em maio eu fui internada no Instituto do Câncer e passei dezoito dias internada lá naquele anexo do Hospital das Clínicas, aliás, um instituto maravilhoso de primeiro mundo, sabe? A enfermaria era um quarto com outra pessoa, banheiro privativo, televisão, super limpo, super bem tratado, tudo novíssimo, maravilhoso, Deus queira que mantenham isso, porque muda o governo, às vezes eles relaxam essas coisas todas. Deus queria que eles mantenham sempre, porque é extraordinária essa assistência que estão dando nesse Instituto do Câncer, de graça, é maravilhoso isso, muito bem assistido. E a médica que chefia a equipe, que trata do meu caso e de outros casos iguais aos meus também, é excelente, extraordinária ela tem uma memória incrível e sabe o caso de cada um dos pacientes dela, isso dá muita segurança pra gente. Passei a viver mais em função desse problema e o que aconteceu? A minha filha em maio resolveu acabar com a casa dela lá em Araraquara, entregou a casa, espalhou as coisas na casa dos amigos e veio embora pra São Paulo, ela ficou cinco meses aqui comigo, até eu me sentir bem melhor. Ela estava fazendo Doutorado, estava prestes a ganhar uma bolsa e largou tudo e isso me fazia muito mal, mas eu não estava em condições de discutir e nem de fazer nada sozinha, tanto que eu fiquei em cadeira de rodas durante dois meses pelo menos e ela empurrando, levando pro hospital, sabe? Realmente eu melhorei porque a minha filha me deu um apoio extraordinário e cuidou de tudo, de tudo com muita eficiência por sinal. Mas só que me incomodava muito ver minha filha fora da vida dela renunciando o que ela mais gostava e isso me aborreceu. Quando eu melhorei, eu comecei a lutar pra levantar, eu disse: “Não, eu vou sair disso daqui, eu não vou ficar assim e vou liberar a minha filha” e realmente passei a fazer todos os esforços. Eu fiz a última transfusão de sangue, acho que há três meses e nunca mais precisei fazer, a minha hemoglobina subiu num nível aceitável, está abaixo, mas num nível muito aceitável, eu não sinto mais aquele cansaço de ir daqui até ali, sei muito bem a gravidade do problema, mas ninguém sabe o tempo que eu vou ter, nem o médico, porque eu estou respondendo muito bem ao tratamento, eu faço quimioterapia todo mês, mas respondo muito bem ao tratamento. O dia que tiver que ser, será e não precisava ter uma doença dessas pra chegar o meu dia, todo mundo tem seu dia e pronto. Eu não vivo pensando na morte, pelo contrário, eu estava falando com vocês ali antes de entrar, eu criei coisas que me relacionam com a vida, que são os passarinhos, são as plantas, a literatura e os meus interesses todos. A primeira coisa que eu fiz no dia que eu senti que podia levantar da cadeira de rodas, imagina, eu levantei num dia e acho que dois dias depois, a minha filha ainda estava aqui, eu disse: “Olha, eu vou sair”, “Pra onde você vai?” “Ah, eu vou dar uma volta”. Eu tomei o metrô, fui até a Estação da Luz, atravessei aquele corredor que é uma quadra aquilo lá, né? Fui na Pinacoteca, fui no Jardim da Luz, sentei no café da Pinacoteca, que eu acho uma delícia, tomei meu café gelado, visitei uma exposição, eu estava apaixonada aquele dia pela liberdade e de me ver de repente tendo andado, feito aquele caminho todo, tá certo que eu estava muito cansada, mas eu sentei lá um bom tempo, até me sentir descansada e poder voltar. E voltei e cheguei feliz da vida e disse: “A partir de agora você faça o favor de começar a cuidar da sua vida lá onde você estava, pode voltar pro seu mundo que lá que é o seu lugar”. Aí imagina, nós buscamos uma casa pra alugar pela internet, alugamos pela internet, tinham quatro pessoas na frente dela, pois derrubaram as quatro, as quatro caíram e ela ficou com a casa que ela queria, ela queria a cachorra dela de volta, que estava na casa de uma amiga e voltou pro estudo dela. Infelizmente esse ano pra ela foi muito difícil, ela com certeza perdeu muita coisa, mas vamos ver se ela consegue recuperar e ganhar a bolsa agora no próximo ano, de maneira que ela não precise estar lecionando, porque é muito cansativo. A pessoa quando está fazendo um doutorado, ela tem que ter tempo pra cuidar do projeto dela, né? E eu espero que isso aconteça, então vamos dizer que a minha filha é minha legítima representante na vida, ela escreve muito bem, tem poesias maravilhosas, eu quero publicar, mas ela ainda não... Mas algumas delas foram publicadas, ela ganhou uns concursos aí e eu espero que ela siga o caminho dela, é o que nesse momento eu passo o bastão pra ela. Vim procurar vocês pra dizer tudo isso, porque eu perguntei pra minha médica ainda quando estava internada: “Bom, quais são as minhas expectativas de vida, porque eu tenho muita coisa pra fazer ainda, então eu quero saber o que eu vou poder fazer”. Ela disse: “Olha, é difícil dar perspectivas, o que eu posso dizer é que nós seguramos tranquilamente por um ou dois anos”, um ou dois anos, isso é muito pouco, né? Eu disse: “Não, eu vou aumentar esse prazo”, mas se eu puder e eu, hoje, realmente estou vivendo uma vida normal, normal no momento pra minha condição, eu não faço o que eu fazia, a minha vida hoje é muito mais limitada, mas em compensação eu faço as minhas compras de casa, ninguém faz pra mim. Eu, ontem passei o dia todo praticamente no hospital fazendo exames e não sei o que, não sei o que lá. Então tem lá as minhas consultas, eu mesma vou, falo, converso, discuto com os médicos e eles às vezes discordam, eu fico no meio... Mas são médicos muito competentes, eu estou em boas mãos, eu acho. E acho que eu fiz na minha vida tudo o que eu quis fazer, eu não deixei nada pra depois, tudo que eu senti vontade de fazer eu fiz e estou muito satisfeita com... Quando eu olho pra trás e tem muita coisa que evidentemente não dá pra você contar metade da sua vida, mas eu sempre fiz bastante coisa e isso me dá certa tranquilidade, eu não vou passar pela terra sem que ninguém tenha notado. Então esses trabalhos todos que eu publiquei lá em Lisboa, imagine chegar lá 17 anos sem falar com eles, sem vê-los e reencontrar os amigos que realmente você percebe que gostaram do trabalho que você fez sobre eles e sobre outros artistas. Isso tudo me dá uma grande satisfação, eleva minha autoestima, o meu cardiologista é que fala: “Você está com a autoestima bastante elevada, continue assim”, eu disse: “Eu só não posso é que me diga que não posso fazer isso ou aquilo, eu sei onde eu posso ir. Eu tenho confiança no senhor e o senhor tem que ter confiança em mim”. Eu quero ir passar o Natal com a minha filha, porque ela não tem com quem deixar a cachorra dela e eu não quero que ela abra mão de novo da cachorra dela, ele disse: “Não, se você tiver bem até lá tudo bem, a única preocupação é que você vai fazer de ônibus e são quatro horas de viagem, você para no meio do caminho, você de vez em quando levanta, pelo menos o ar condicionado que fica em cima de você, você deixa desligado e o que for geral do ônibus, paciência, né?”.

Então eu acho que é impossível a gente lembrar de todas as coisas que fez na vida, agora uma que eu acho interessante de registrar, porque foi...Eu tinha dezessete anos, estava perto de completar dezoito anos e eu frequentava um clube na Vila Mariana, um clube pequeno e de repente entrou um grupo de rapazes e um desses rapazes era o Lauro Cesar Muniz, autor de várias novelas e de várias peças de teatro. Não sei por que ele se interessou de fazer um teste comigo, ele estava procurando uma pessoa que vivesse a personagem dele, Ritinha, na peça “Este Ovo é um Galo” e foi uma peça que depois foi pra cinema, até quem fez o papel que eu fiz no teatro amador, se não me engano, foi a Débora Duarte, mas isso há muitos anos. Eu sei que ele fez um teste ali comigo, eu achei divertidíssimo, me chamarem pra fazer uma peça de teatro, pra participar de um concurso de teatro amador em São Paulo, era um grupo de teatro amador, eu topei, claro, eu nunca recusei boas ofertas e fui fazer essa peça. Essa peça ganhou o prêmio, o próprio Lauro ganhou, talvez tenha sido o primeiro prêmio dele quando ainda era autor amador. Porque a peça era pra teatro amador e ele ganhou o prêmio de melhor autor e eu ganhei o prêmio... Uma menção honrosa como atriz dessa peça, porque eu nunca tinha pensado em fazer teatro na minha vida e de repente fiz a peça e ganhei esse prêmio. Eu me empolguei e a minha família não queria de jeito nenhum, então essa peça foi convidada pra ir pra televisão, tinha, naquela época, o teatro Tupi que passava as segundas feiras e foi convidado pra levar essa peça no grande Teatro Tupi na segunda feira. Eles escolheriam alguns atores e atrizes da peça que participaram do teatro amador e outros que eram da televisão que iam contracenar com os amadores que estavam lá. E eu fui atriz, fiz o mesmo papel e eu me lembro que o Armando Bogus que hoje é falecido... O Armando Bogus fazia o papel de um coronel que entrava assim... Uma coisa assim e foi um teatro muito interessante e depois disso outro escritor de teatro amador me pediu pra participar pra fazer um papel da atriz num... Porque lá, o concurso era pra televisão, mas já era um papel totalmente diferente, a essa altura eu já estava com dezoito anos, eu aceitei e fiz esse papel. Depois eu me apresentei pro Júlio Gouveia, que na época fazia o teatro da juventude, era aos domingos à tarde e ele me deu um papel numa peça no teatro da juventude, mas era assim: eu peguei o texto na sexta feira a noite, eu tinha que decorar o texto até sábado e nessa época eu tinha começado a trabalhar. Eu trabalhei na sexta feira toda, no sábado eu tinha que ir a tarde, seis horas da tarde parece com o texto já decorado, lá onde ele fazia os ensaios e no domingo ia ao vivo, porque não existia videotape naquele tempo. Era tudo ao vivo e eu fui e fiz essa peça, ele deixou o texto lá na sexta feira, no sábado de manhã trabalhei e eu só pude decorar durante a noite de sexta pra sábado e depois tive umas horinhas no sábado. Eu achei muito puxado, muito difícil, tanto que eu não me lembrava lá na hora, imagina no meio de atores já tarimbados e tudo, eu estava no meio de atores que já trabalhavam há muito tempo na televisão. Eu achei muito puxado e no domingo foi pra televisão e foi muito bem, ele depois me cumprimentou e tudo, mas foi o único trabalho que me deu dinheiro, eu ganhei naquele trabalho de fim de semana exatamente o salário que eu ganhava, era salário mínimo que eu ganhava que era melhor do que hoje, né? O que eu ganhava no meu trabalho pra trabalhar mês inteiro, eu achei o máximo, mas aí minha família não queria, naquela época, trabalhar na televisão, trabalhar no teatro era assim, era assado e no fim das contas, eu achei... Quer dizer, o meu raciocínio foi o seguinte: eu acho difícil fazer essa carreira com todo mundo contra, né? Se eu quisesse enfrentar também, eu teria enfrentado, mas eu achava que não ia me dar o retorno que eu precisava na minha vida e foi assim que depois de fazer três peças na televisão, eu não quis mais. Mas eu ganhei esse prêmio, eu ganhei três prêmios na minha vida, quer dizer, mais de três porque na verdade eu ganhei esse prêmio na televisão em 59, na televisão não, no teatro, depois eu ganhei o prêmio como vendedora que eu já falei pra você de publicidade, campeã de vendas de 87, se não me engano. Depois eu ganhei quatro prêmios em literatura, se bem que são coisas totalmente distintas, né? Quatro prêmios de literatura, foi a Academia de Letras, academia Barra Intensa e Cultura, Academia de Letras de Botucatu, prefeitura de cidades... Parte cultural de cidades de Minas, então eu tenho os diplomas guardadinhos desses prêmios que eu ganhei, um deles só que foi com dinheiro. Foi ótimo, esse me deu dinheiro, mas os outros eram prêmios de menção honrosa, essas coisas e publicação do seu texto. Então eu ganhei quatro prêmios com três trabalhos. Além disso, tive outros trabalhos publicados no Jornal Cultura, naquela época tinha o Jornal Cultura do Estado de São Paulo, era dirigido pelo Nilo Scauzer e ele publicou dois contos meus, um deles está nesse livro, o outro não, porque o outro é outra coisa, é mais longo e tudo, não servia pra minhas memórias. Mas esse que foi publicado, esse outro que é curto, esse está no meu livro, porque foi na época que passou o cometa Halley e eu fui pro campo pra ver esse tal cometa, eu queria ver no meio do campo. Então aquilo lá eu achei que tinha tudo a ver com as minhas memórias e está lá no livro que eu estou oferecendo aqui pro Museu, porque ali tem coisas... Eu falo sobre viagens, por exemplo, que eu não falei aqui, viagem que eu fiz... Eu conversei com você até fora daqui, sobre a viagem que eu fiz ao Chile, subindo o Chile, apaixonada pelo Pablo Neruda e visitando todos os lugares que ele citava no livro dele, eu confesso que vivi, foi uma viagem muito interessante e com certeza faltaram muitas coisas na minha história, porque eu não posso ocupar também o tempo todo.

 

P/1 – Ta ótimo. Vai ter outra oportunidade, a gente combina.                                           

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