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História

Quem é do Mar não Enjoa

História de: Valter Antunes Pinto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/01/2021

Sinopse

Operário instrumentista com atividades em Plataformas da Petrobras, atuou por mais de 24 anos. Conta sobre as mudanças durante esse período de trabalho em plataformas, sobre sua participação no sindicato, sobre greves, sobre como é viver embarcado, sobre a jornada de trabalho e sobre os costumes.

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História completa

P/1 – Boa tarde. 

 

R – Boa tarde. 

 

P/1 – Gostaria de começar pedindo que o senhor nos fale o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Valter Antunes Pinto. Nasci no Rio de Janeiro. Nasci em 20 de maio de 1960.

 

P/1 – Sr. Valter, o senhor pode contar pra gente como que foi o seu ingresso na Petrobras e quando foi?

 

R – Sim. Eu fui admitido em 1º de outubro de 1981. A primeira plataforma que eu embarquei foi PP- Moraes, que era um navio que tinha aqui do lado dessa jaqueta aqui. E fiz dois embarques lá. E logo depois vim pra ir pro MPG, que era o Módulo Provisório de Garoupa. E esse módulo provisório ficou até 1984, onde foi, em 1984, em agosto mais ou menos, foi, começou-se a montar PGP 1. E venho nessa trajetória até hoje, aqui nesta plataforma. 

 

P/1 – E assim que o senhor ingressou, pra qual setor o senhor foi trabalhar?

 

R – O meu setor, eu entrei como instrumentista na empresa. E vim nessa área de instrumentação, estou até hoje praticamente. 

 

P/1 – E como é que é assim? Conta pra gente um pouquinho como é que é o seu trabalho, pra gente que não conhece. Como é esse dia a dia de instrumentista?

 

R – A instrumentação faz parte da manutenção. É ela que está mais ligada à parte da proteção dos equipamentos, do sistema em si. E o que a instrumentação faz é dar manutenção preventiva, corretiva nesses instrumentos.

 

P/1 – E como é que foi assim o passado PP-Moraes? Como é que era trabalhar lá? Conta pra gente como é que foi um pouquinho dessa vivência, estar embarcado nesse navio. 

 

R – É, eu passei praticamente só dois embarques lá. Tem pouca lembrança do navio em si. Eu tenho alguma, assim, parte da história dele, que ele veio pra aqui e que, na época, era ele que, através da monobóia, pegava esse óleo e transmitia depois esse óleo que vinha dos poços submarinos. Ele pegava isso, tratava e bombeava pra um outro navio no apoio de carregamento. E isso aí depois vai ter um monte de corte aí. 

 

P/1 – Fica despreocupado. 

 

R – Esse óleo que ia pra esse navio era abastecido e ia embora pra terra pra...

 

P/1 – Pra fornecer. 

 

R – Pra fornecer lá pra refinaria. As coisas da época que eu lembro é que... o que é que aconteceu? Aqui, essa plataforma teria que ser, pelos planos da Petrobras, ela seria a primeira plataforma definitiva a ser montada, com uma ideia de poder fazer o bombeio através do oleoduto, gasoduto, que foi montado pra essa plataforma aqui. E na época houve um acidente com as torres de carregamento que...

 

P/1 – No PP-Moraes?

 

R – No PP-Moraes. O que aconteceu é que foi se obrigado a montar um módulo provisório aqui nessa plataforma, que foi o MPG. Então montou-se um módulo aqui, provisório, que passou a bombear através do oleoduto e do gasoduto, esse óleo, esse gás, pra terra. Com isso, mudaram os planos e começaram a montar as outras plataformas, que era Namorado I, Cherne I. E a coisa começou a ficar insustentável porque, quando chegou em 1984, as outras plataformas já produziam, já estavam produzindo, e aqui já não tinha mais a capacidade de bombeio porque as outras mandavam pra aqui. E aí foi obrigado aqui a levantar Garoupa. 

 

P/1 – E é por isso que o senhor ficou nesse? Só teve dois embarques lá então, e o senhor veio transferido pra cá?

 

R – Isso. Vim pra cá. 

 

P/1 – E o senhor viveu esse acidente. senhor Valter?

 

R – É, o acidente do Morais eu não vivi porque foi antes, foi na torre de carregamento. Porque eram duas torres. Uma torre foi e entrou no Morais. Ela quebrou e entrou e provocou um incêndio, coisa e tal. Isso aí. Depois descobriram que a outra torre, que era a torre que recebia o óleo que era processado do navio, descobriu-se que ela tinha uma rachadura, então não podia ser mais usada. Então, o que é que houve? Bom, não tinha mais tempo pra montar o Garoupa definitivo. Então, optou-se por fazer um módulo provisório pra poder substituir essa produção do Morais e passar pro Garoupa. 

 

P/1 – E o senhor acompanhou todo esse processo aqui no Garoupa. O que é que o senhor se recorda, assim, que o senhor tenha vivido, que possa ter marcado pro senhor?

 

R – Assim... eu.... as coisas que me, quer dizer, eu tenho 24 anos daqui, trabalhando embarcado. E, desses 24 anos, aí às vezes as pessoas pensam assim: “Ah, ele está há 24 anos embarcado numa mesma plataforma. Como é que pode? ” Mas só que cada embarque é um diferente do outro. Eu acho que isso é o que mais marca, entendeu? Porque sempre que tu vens, sempre tem alguma coisa diferente. 

 

P/1 – E como que é viver embarcado?

 

R – Eu gosto. 

 

P/1 – Como é que é essa experiência, pra gente que não sabe? Não esse conhecimento.... como que é estar aqui todo dia?

 

R – Aqui existe um perigo iminente aqui, né? Que é plataforma, trabalha com óleo, com gás. Existe um perigo aqui, em potencial. E, quer dizer, de repente esse tipo de pergunta seria até mais pra uma pessoa mais nova de empresa, pra você perguntar, porque eu já estou aqui há 20 e tantos anos. Então, tem certas coisas que tu já perdeu a sensibilidade, entendeu? Assim, do: “Ah, estou num lugar perigoso! ”. Eu não acho que isso aqui seja perigoso. Acredito que existam outras plataformas que estejam muito mais perigosas do que essa. Eu me sinto seguro aqui. E esse é um dos motivos que eu, às vezes, não penso: “Ah, vou pra um projeto novo! ” Isso é uma das coisas que não me leva a ir, porque eu conheço aqui. Aprendi a conviver com o perigo e conheço o perigo que tem aqui. Isso é uma das coisas que também marca aqui. 

 

P/1 – Mas, assim, na verdade, a gente queria saber um pouco mais como é o dia a dia de vocês. Como é que é estar embarcado? Como é acabar o trabalho e continuar aqui? O que é que vocês fazem? Como é a vida de vocês aqui dentro?

 

R – Por exemplo, agora a manutenção está até mudando já, o regime de trabalho e coisa e tal. Mas a maior parte do tempo aqui o pessoal trabalha de sete da manhã às sete da noite, tá certo? Com uma hora de almoço ali, uma hora e meia, mais ou menos, pra almoçar. E quer dizer, se tu larga às sete da noite, tu também não tem muito, tu tem várias opções. Pode ver uma televisão, tu pode ler um jornal, ler um livro. Você tem uma academia que você pode usar. Pode jogar um futebol. Quer dizer, mas o tempo de lazer é muito curto porque, ou tu faz um ou faz o outro. Eu, por exemplo, que sou um cara que tenho um problema de peso, então eu largo às sete. Aí tenho que me dedicar pelo menos umas duas horas em termos de dar uma caminhada ou ir numa academia. E quer dizer, aí sete, oito, nove, tomo um banho, dez já acabou o dia. 

 

P/1 – E como é a jornada de trabalho de vocês agora, que o senhor falou assim: “Agora está mudando um pouco”?

 

R – É, porque agora, no último acordo aí do sindicato, optou-se pelo sobreaviso do pessoal de manutenção. E pegamos da sete da manhã às seis da noite. Por um lado, foi bom. Em termos de fazer hora extra a gente optou mais pelo lado do viver. Aqui dentro melhora bastante, porque agora você já ganhou mais uma hora pra poder se dedicar a outras coisas que não seja só o trabalho. Apesar que você, aqui dentro, eu entendo que eu estou 12 horas trabalhando e 12 horas sobreaviso. Porque volta, de acordo com o que acontecer aqui, você pode ser chamado. 

 

P/1 – Entendo. Vocês trabalham quantos dias por quantos dias de folga?

 

R – 14 por 21.

 

P/1 – 14 por 21. O que o senhor tem percebido, assim, que tem mudado nesse tempo que o senhor tem trabalhado aqui, nesses 24 anos, o que é que o senhor achou que tem mudado nessa jornada de trabalho?

 

R – Não, não mudou. Eu acho que não mudou muito não. Muda, às vezes. É um detalhezinho ou outro. No geral, isso aí é de sete da manhã às sete da noite. 

 

P/1 – Sr. Valter, o senhor é filiado ao sindicato, né?

 

R – Sim. 

 

P/1 – Qual é a recordação que o senhor tem desses... dos movimentos? Que o senhor até encaminhou agora uma conquista de vocês em relação ao horário. Mas, o que é que o senhor tem de momentos marcantes que o senhor tenha vivido ou tenha presenciado do sindicato durante esse tempo?

 

R – O que eu vivi com o sindicato? Quer dizer, normalmente a gente se aproxima mais do sindicato, que é até errado, na época das greves. Normalmente existe um afastamento tanto nosso também, como do sindicato, se começa mais a aproximar no período de conflito, de acordos. Agora a gente está passando um período mais sem. Eu não vejo possibilidades de greve. Mas a gente passou um período conturbado na era Collor aí, que houve várias greves. E, quer dizer, em 1988, foi em 1988 que teve aquela greve do Collor, que mandou um “cado” de gente embora?

 

P/1 – Não recordo. 

 

R – Eu também já não me recordo mais.

 

P/1 – Foi em 1992, eu acho. 

 

R – Foi 1992? Quer dizer, a primeira greve que nós fizemos aqui acho que foi em 1989. E, quer dizer, foi uma greve assim, depois de 20 anos de recessão, quer dizer, quem está preparado pra greve? Houve um movimento assim meio desorganizado. Depois, em 1992, também houve um outro movimento aqui que também foi meio desorganizado, meio fraco. Mas a coisa foi evoluindo em termos de participação do sindicato com o trabalhador aqui. 

 

P/1 – E o senhor, como trabalha embarcado, como é que foi essa participação de vocês nos movimentos sindicais? Vocês estão um pouco distantes, não?

 

R – Eu vejo que, na hora de partir pra realmente uma greve, a arma maior que o sindicato tem são as plataformas, porque é daqui que sai o petróleo. Então, aí existe um entrosamento maior entre sindicato e pessoal embarcado. 

 

P/1 – Como assim, senhor Valter? Vocês param? Como funciona essa participação das plataformas?

 

R – Olha só, cada greve foi um movimento. Então teria que contar uma por uma, porque...

 

P/1 – Mas conta pra gente alguma marcante que o senhor tenha vivido, que o senhor acha que...

 

R – Assim, a mais forte que nós tivemos aqui foi a de 1995, que foi uma greve que houve praticamente a participação de todos os grupos, porque foi uma greve longa, de 35 dias, a maior da Petrobras. E foi uma greve que marcou porque, além de ter tido assim, ter sido uma das maiores greves, foi onde teve as maiores punições também. Eu perdi dias de trabalho, perdi dias de férias, deram falta. Deram falta não justificada, estando aqui embarcado. A gente estava de greve, mas estava embarcado. E me deram falta não justificada. Me tiraram dias de férias, me descontaram dias, em termos de dinheiro. Assim, umas das maiores perdas. As outras, eu tive até ameaças. Foi carta, telegrama, pra casa. Mas, assim, a de perda realmente foi essa última.

 

P/1 – E o senhor acha que a relação do sindicato com a Petrobras mudou nesse tempo que o senhor...

 

R – Agora? Eu acho que mudou, sim.

 

P/1– O que é que o senhor vê de mudanças?

 

R – Quer dizer, eu acho que o sindicato antes ele era mais claro nas atitudes dele com o que ele estava de relação com a Petrobras. Hoje eu já não vejo essas coisas. Eu acho que hoje a coisa está mais... não está chegando tão claro pra gente. 

 

P/1 – E o senhor falou pra gente desses movimentos que o senhor viveu. Eu queria que o senhor contasse pra gente alguma história marcante, uma história engraçada... enfim, uma história que o senhor considera importante, que o senhor tenha vivido nesse tempo de empresa Petrobras. 

 

R – Uma história marcante? 

 

P/1 – Alguma coisa que o senhor lembra. Pode ser engraçada, enfim, que o senhor...

 

R – É melhor dar uma paradinha pra pensar. 

 

P/1 – Se o senhor não se recordar, não tem problema.

 

R – Uma das coisas assim que... não sei se... como eu fui o primeiro, eu não ia deixar pra ele. Mas as coisas que foram marcadas aqui... O pessoal aqui tinha negócio de dar banho nas pessoas, foi até uma coisa que se perdeu até. As pessoas novas, quando iam chegando, aí levavam um banho. Hoje, comportamento de alguém meio fora do padrão, também merecia um banho. 

 

P/1 – Banho mesmo, de...

 

R – Banho de água. Uma das coisas marcantes que aconteceu eram dois engenheiros que tinham aqui do lado, era o Uzeda e Rubens, que resolveram pegar o pessoal aí de baixo, da execução. Montaram uma cadeira assim como essa aqui, sem um pezinho. Então, chamavam as pessoas pra ir conversar ali e forçavam, acabavam direcionando a pessoa a sentar naquela cadeira. Quando sentava na cadeira, a cadeira dava uma viradinha e a pessoa caía. Então, fez isso com o primeiro, com o segundo, com o terceiro, até que o pessoal virou e falou: “Não, então vamos dar um banho nele”. Aí: “Como é que nós vamos tirar esse cara de dentro da sala dele? ”. Aí: “Vamos fazer o seguinte: vai um lá que ainda não foi pego na cadeira. Dá aquela que vai entrar, que vão chamar pra sentar, e nisso fala: ‘Não, peraí que eu já volto, que eu vou ver uma baleia que está ali fora, o jato da baleia. Tem uma baleia ali fora’”. Aí um deles falou: “Baleia?” Aí veio atrás. Ele falou: “Vamos lá”. Mas nisso, já está todo mundo armado ali pra dar um banho no sujeito. Aí o rapaz desceu, ele veio atrás. Quando entrou, desceu a escada, água desceu em cima dele. 

 

P/1 – Nossa! Mas essa prática acabou entre...

 

R – Isso aí se perdeu um pouco porque a última turma que entrou na empresa foi em 1989. Então, agora é que está começando a entrar um pessoal. Então, muita coisa se perdeu. 

 

P/1 – Entendo. Sr. Valter, eu queria saber o que é que o senhor achou de ter participado do Projeto Memória Petrobras, contribuindo com o seu depoimento? E como que o senhor vê o projeto?

 

R – Eu acho que é válido... apesar de ... quer dizer, a gente deveria ter se preparado melhor. 

 

P/1 – Ah, tá ótimo! 

 

R – A nossa memória aqui já não vai muito pra.... vai embora, não tem jeito. Mas é válido. Pode fazer uma montagem aí e acerta esse negócio aí. 

 

P/1 – Bom, eu queria agradecer a entrevista. Muito obrigada. 

 

R – Tá legal. 

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---


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