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História de: Mira Felmanas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Identificação. Infância em Montevidéu e vinda para o Brasil. A loja do pai. Os estudos de Direito e o casamento. A confecção do marido e a mudança para o ramo de objetos antigos. O primeiro leilão que organizou. A Rua Gabriel Monteiro da Silva. A organização de um leilão e os objetos mais procurados. Os clientes. A avaliação das peças. O desenvolvimento de um leilão. O trabalho que realiza na Pró-Arte e a participação dos filhos. As formas de pagamento e o leiloeiro. O relacionamento familiar. Sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Mira Fridberg Felmanas, nasci em 9 de julho, em Budapeste, na Hungria. Meu pai era Marcos Fridberg e minha mãe Dora Fridberg, eles nasceram na Polônia.

INFÂNCIA NO URUGUAI

Meus pais estavam fugindo da guerra e foram morar no Uruguai. Meu pai tinha um irmão que morava lá e foi. Passei minha infância no Uruguai. Montevidéu é uma cidade mais tranquila, é uma cidade calma, pequena, foi uma infância normal, sem atropelos, estudando, ajudei a cuidar do meu irmão. Tenho um só um irmão. Não teve nada de especial. EDUCAÇÃO NO URUGUAI Lá a educação é um pouco mais rigorosa do que aqui no Brasil. O governo paga os estudos e é obrigatório cursar até o oitavo grau. Quase analfabeto. É o menor índice de analfabetismo da América.

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL Cheguei aqui com dez anos. Me apaixonei; logo gostei. Tanto é que hoje não troco nada, por nenhum lugar do mundo. Adoro São Paulo, adoro o Brasil. O povo, apesar de tudo, é muito carinhoso, muito receptivo. E o Brasil é um país que dá chance pra todo mundo. É só a pessoa ter um pouco de boa vontade, querer trabalhar. TRABALHO DOS PAIS Eu fui morar na Vila Mariana, mas meus pais foram trabalhar no Bom Retiro. Eles tinham loja de confecção de roupas femininas. Eu ajudava um pouco, na época eu estudava. É pessoal mais simples talvez, pessoal do Bom Retiro, que sempre foi assim, um comércio mais popular, mais voltado pro varejo. NAMORO E CASAMENTO Eu fazia um curso de Contabilidade, depois eu fiz faculdade de Direito. Nesse meio tempo namorei e casei. Parei a faculdade, comecei a ser mãe de família, dona de casa. Conheci meu marido no clube, na Hebraica. Casamos, viemos morar aqui no Bom Retiro. Meu marido montou uma confecção também e ficamos. Eu ajudava ele um pouco, logo teve as crianças.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – DE MALHARIA A CASA DE LEILÕES A confecção era uma malharia. Na época, já vendia pros magazines, pras grandes lojas de São Paulo, Lojas Marisa, Casas Pernambucanas, era já voltada pro atacado. Chamava-se Mundosport. Ficamos nesse ramo de confecções acho que uns 15, 20 anos. Aí meu marido resolveu dar uma parada, estava um pouco enjoado, ficou doente, a gente foi viajar. Tenho uma casa em Campos do Jordão e nós fomos passar umas férias, fomos assistir alguns leilões com as crianças, pra distrair, e ele gostou do ramo. Achou interessante, meus filhos também gostaram e a gente montou uma casa de leilões. A gente sempre gostou de colecionar, de comprar, nós íamos aos antiquários. As crianças adoraram, nós achamos que era um futuro encaminhar eles dessa forma e aí uma brincadeira virou um grande negócio. PRIMEIRO LEILÃO O primeiro leilão foi até interessante, por que nós montamos na minha casa, com a ajuda de alguns amigos e uma coisa que ia ser um hobby teve um fundo empresarial. Todo mundo adorou por causa da recepção que a gente fez pras pessoas, nós somos muito festeiros, então fica uma coisa muito agradável. É um evento social, um ponto de encontro, uma coisa cultural. Depois, montamos um espaço na Avenida São Gabriel. Nós montamos uma casa de leilões e cada vez ia ficando menor, que a clientela cada vez foi aumentando. MUDANÇA PARA A ALAMEDA GABRIEL MONTEIRO DA SILVA Quando tivemos oportunidade, mudamos para a Gabriel Monteiro da Silva. Meu filho sempre falava que lá ia ser a rua voltada para esse tipo de comércio de antiguidades e decorações. Depois, realmente, muita gente se mudou pra lá. Tanto que o pessoal que vem de fora de São Paulo, de outras cidades, de outros estados, eles já vão direcionados na Gabriel. Antes, o único ponto de referência que tinha na Gabriel Monteiro era a Brunella, que é uma sorveteria famosa e tal. E talvez umas quatro, cinco lojas. Hoje em dia são muitas, desde tecido até luminárias, móveis de jardim. Então, tudo que uma pessoa precisaria pra decoração de uma casa encontra na Gabriel Monteiro. DINÂMICA DE UM LEILÃO Um leilão parece muito fácil de fazer, mas não é, pelo contrário, é muito complicado. É um trabalho constante, tem que fazer a parte de arrecadação das peças. Praticamente todo dia tem gente pra trazer uma peça, pra avaliar, pra vender, pra ver se a procedência é boa. Nós temos um avaliador e qualquer dúvida existente eles procuram um perito, um conhecedor específico ou daquele quadro, ou daquela peça, ou daquele móvel, ou daquela peça, o que for. Depois que a gente consegue uma boa arrecadação, começa a parte da catalogação pro leilão. Em São Paulo, a gente faz um a cada 40 dias, mais ou menos. Depois, nós fazemos as fotos para os catálogos, expedição dos convites. E logo já vem a montagem da loja. Nós temos uma decoradora, ela monta, meus filhos ajudam. Meus três filhos estão na galeria, eles que são braço direito, braço esquerdo, eles que fazem tudo.

PEÇAS MAIS PROCURADAS

Todo mundo gosta muito dos tapetes orientais, acho que é o que tem mais procura, [além das] pinturas, quadros, telas em si. Os homens adoram ter um quadro, mas sempre quem dá a última palavra é a mulher, naturalmente. Se a mulher falar: "Ah, não gostei daquela tela", não adianta que o marido não vai comprar.

CLIENTES

Geralmente, as pessoas já conhecem a galeria e vão lá. Às vezes vão até sem a decoradora, depois ela vai lá e aprova ou não. Às vezes, é o contrário, vai a decoradora, que está procurando uma peça específica para um cliente, gosta e marca já de ir lá na galeria com ele para comprar ou para passar no leilão.

DINÂMICA DA LOJA

Nossa loja não está voltada para venda, para o público, estamos voltados para o leilão. A gente procura atender, fazer o possível, pra pessoa depois voltar pro leilão.

LEILÕES EM OUTRAS CIDADES

Nós temos uma casa de leilões no Guarujá, onde fazemos leilão todo sábado. Também fazemos em hotéis, no Casa Grande Hotel, e num hotel em Campos do Jordão, cinco estrelas, muito bonito, o Mont Blanc. Fazemos esporadicamente leilões no interior, as pessoas chamam pra fazer um leilão beneficente, já fizemos em praticamente todo o estado de São Paulo. Em Campos do Jordão, os clientes estão de férias, passando temporada, não são grandes conhecedores de obras de arte ou colecionadores. Eles vão assistir um leilão como uma forma de lazer, é mais descontraído.Em São Paulo, o pessoal, apesar de querer se divertir, quer comprar uma peça um pouco melhor, uma peça de mais porte.

AVALIAÇÃO DAS PEÇAS

A pessoa, quando está disposta a vender, procura a galeria e nós temos um perito que dá o preço do mercado. As obras de arte em geral têm um preço internacional. Tanto faz aqui em São Paulo ou na Europa, ou nos Estados Unidos é o mesmo preço. Muitas coisas são do exterior. Há peças de estrangeiros que, às vezes, têm de deixar o país, estão só de passagem e não podem voltar carregando tudo, eles querem se desfazer. Proprietários de casas grandes que hoje em dia os filhos já casaram, querem morar num apartamento menor. Esse tipo de coisa acontece frequentemente.

O AMBIENTE DO LEILÃO

O leilão é uma coisa muito agradável, muita gente que nunca frequentou vai uma vez, adora e fica até cliente, fica amigo. Muita gente acaba se conhecendo, se encontrando. Não precisa ser um grande conhecedor, tem peças caras, de porte grande, mas ao mesmo tempo tem muita que a gente põe sem valor mínimo, só pra pessoa poder adquirir e falar: "Comprei tal peça no leilão." Vai virando um evento social, todo mundo acaba se conhecendo. Tanto é, por exemplo, que nós temos clientes que depois convidam, nós já fomos convidados pra fazer leilão em Fortaleza, em Campinas, em outras cidades.

LEILÃO EM UM NAVIO

Juntamos forças eu, meu irmão, que faz leilões de cavalos, e o Reinaldo, que é o proprietário da "Amor aos Pedaços". Como tínhamos que vender praticamente a lotação do navio, cada um cuidou de uma parte e fizemos essa viagem para Buenos Aires. O pessoal adorou, tanto é que queriam fazer uma nova viagem. Tinha todas as brincadeiras a bordo, tinha o passeio a Buenos Aires nós aproveitamos, logicamente, e fizemos o leilão. Levamos as peças e fizemos leilão quase todas as noites. Teve desfile de miss, teve várias atividades, baile de Carnaval. Fizeram também um leilão de coberturas de cavalos, e foi muito interessante.

ENVOLVIMENTO DOS FILHOS NO NEGÓCIO

Todos os meus filhos estavam fazendo faculdade, ou tentando entrar na faculdade, e tiveram de dar uma mão. No fim, eles gostaram e foram ficando. Cada um cuida de uma parte, eles se envolveram de tal forma que não conseguem mais se separar. A gente já viaja voltado para a galeria, vai visitar museus, vai visitar leilões fora. A Mônica [filha] se formou em Relações Públicas, ela faz os anúncios, propaganda, matéria pra alguma revista. Ela também faz as escolhas das mercadorias, tem muito bom gosto. O Marcelo cuida mais da parte burocrática, do escritório. Ele se formou em Administração de Empresas, tanto ele que cuida do catálogo, ele é muito detalhista, não pode ter um errinho. A Márcia agora está superenvolvida, vai se formar este ano, cuida da avaliação, atende o público. Sem eles não teria o leilão!

CUIDADOS COM AS PEÇAS

A gente procura tomar o maior cuidado. Quando a pessoa mora fora de São Paulo tem que despachar, ligamos para uma transportadora ou ela indica. E durante o leilão, se for uma peça grande e a pessoa não puder retirar, a gente manda entregar após o leilão. Se for uma coisa pequena, o próprio funcionário já coloca no carro, ou nós vamos até a casa da pessoa pra ver se fica bem a peça em tal lugar ou não. Nós temos uma decoradora que pode fazer esse tipo de serviço.

FORMAS DE PAGAMENTO

Eu gostaria de poder fazer financiado, mas é que pra nós não tem a mínima chance. Paga-se após o leilão com dinheiro ou com cheque. As peças são consignadas, então após o leilão a pessoa que deixou a peça quer receber: A galeria cobra uma comissão sobre o preço e funciona basicamente assim.

DIFERENCIAL

Nós já temos praticamente 15 mil clientes cadastrados. Não adianta você ir num lugar, comprar uma coisa e, por mais que saia satisfeito, não volte mais. Nosso interesse é completamente outro, a gente quer que você, mesmo que você não compre, que você seja habituê da casa. A partir desse método, a gente está conseguindo aumentar a clientela. Não é só você chegar e fazer o leilão e pronto, tem que dar uma assessoria antes e depois.

LEILOEIROS

Nós temos uma equipe de três ou quatro leiloeiros que trabalham com a Pró-Arte. São praticamente fixos. Pra ser leiloeiro tem que ter um montão de requisitos que a junta comercial exige. Eu falo que é mais difícil ser leiloeiro do que presidente ou deputado. Tem que ter uma formação universitária completa, ser maior de idade, ter mais de 25 anos e não poder ter nenhum problema de, digamos, na junta comercial. E tem que ser uma pessoa bem falante, simpática, pra conquistar o público. MUDANÇAS NA CLIENTELA Os clientes cativos começaram também a comprar uma peça mais barata, de menos importância. Eles estão tentando se aprimorar, começando coleções, tem gente que gosta de colecionar marfim, tem outros que gostam de colecionar algum tipo de pintor. Hoje em dia eles estão dando muito valor pro mobiliário, as pessoas estão buscando peças mais adequadas, móveis de estilo. Os europeus são muito procurados. PUBLICIDADE Fazemos no jornal, às vezes, na televisão. Tem muitos canais de televisão que nos procuram para fazer uma chamada, uma reportagem. A galeria está sempre muito bonita e é um chamariz.

LEILÕES BENEFICENTES

É só ter uma disponibilidade de data que a gente faz o leilão, é um lado muito satisfatório para a gente. Não é só pela parte monetária, comercial, é uma satisfação que você tem, você acaba ganhando novos amigos, novos clientes, é muito importante. Nós já fizemos leilões para a Abem, pra ASA, pro Castelinho, que é uma creche grande com mais de 800 crianças, e todos eles foram satisfatórios pros dois lados.

HÁBITOS DE CONSUMO

Eu sou meio consumista, se deixar eu compro tudo, às vezes precisa dar uma brecada. Quando viajo gosto de trazer uma peça diferente, quando possível. Nós vamos pra Fortaleza e eu falei: "Vou comprar umas toalhas bordadas lá que eu sei que são bonitas." A gente dá sempre um jeitinho de comprar uma coisa diferente. SONHOS Nosso negócio foi assim, pedrinha sobre pedrinha, foi tudo com muito esforço, mas eu estou muito contente, paga pelo que eu fiz, que eu acho certo, que é educar meus filhos. Dei pra eles um trabalho e agora eles vão continuar, é uma semente que a gente plantou. Agora, meu grande sonho é ter a minha própria galeria, comprar uma casa de leilões na Gabriel, uma propriedade pra deixar para os meus filhos.

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