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História

Quem bem pinta a favela, é quem vive nela.

História de: Reginaldo Teixeira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Em seu relato, Reginaldo fala sobre as transformações assistidas pela Rocinha ao longo das últimas décadas e sobre o seu trabalho enquanto artista. Também fala sobre o turismo na região, sobre os estigmas e preconceitos contra a favela e seus habitantes e sobre intervenções policiais na região. 


 

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História completa

P/1 – Reginaldo, vou começar perguntando seu nome completo, onde você nasceu e a data.

 

R – Meu nome é Reginaldo Teixeira da Silva. Eu nasci em Minas Gerais e vim para cá com um ano de idade. Nasci no dia 27 de julho de 1985.

 

P/1 – Quando você veio para cá, você veio pra Rocinha ou veio pra outro lugar?

 

R – Eu já vim pra Rocinha.

 

P/1 – Veio com seus pais já?

 

R – Eu vim com a minha tia. Eu nasci com problema na perna. Lá não tinha retorno, como fazer a operação e vim pra cá com a minha tia. Aí acabei ficando e não voltando pra lá mais.

 

P/1 – Naquela época, claro que você era muito pequeno, você não lembra, mas, quando você era pequeno, como que era a Rocinha e o que mudou pra hoje?

 

R – Ah, aqui mudou muito. Ela não tinha saneamento básico. Água era muito difícil, tinha que carregar água no balde. Hoje, mudou praticamente tudo. Tinha barraco era de mangueira.

 

P/1 – E agora? Onde você mora agora? Você e quem? 

 

R – Agora sou eu e a pessoa com quem eu casei. Só nós dois.

 

P/1 – Você tem filhos?

 

R – Não. É muito cedo ainda pra ter filho [risos].

 

P/1 – A sua casa é sua, alugada? Como é que é?

 

R – É dela. A mãe dela que deu pra ela.

 

P/1 – E quando você veio morar com os seus tios?

 

R – Quando eu vim morar com a minha tia, era da minha tia. A casa era da minha tia.

 

P/1 – Eu queria perguntar um pouco, assim, da sua experiência pessoal. Como é que foi viver na Rocinha durante a formação dela, de esgoto chegando, de encanamento, aquele monte de coisa. Como é que foi viver nessa época? O que mudou na sua vida?

 

R – Ah, mudou, pra mim mudou muito. Eu tinha o objetivo desse projeto que teve. Eram 27 garotos. O rapaz me ensinou que tinha que ser exímio e mérito. Aí eu entrei nesse projeto. Quando não tinha nada para ganhar dinheiro, eu carregava bolsa no mercado. Aí eu conheci esse rapaz, que era o meu professor. Ele me ensinou a fazer pintura. Era uma escola que chamava Rumo Comando das Cores. Hoje acabou, mas aí é cada um por si. Os garotos agora é cada um por si.

 

P/1 – Como é que era? O que vocês aprendiam lá? Era desenhar? O que era?

 

R – Era desenhar, pintar... Tinha que ir para a escola. Não podia ficar fora da escola. Eu ia pra escola de manhã e de tarde eu pintava.

 

P/1 – E aí? Você ficou nessa escola e, quando acabou o projeto, você saiu da escola? Como é que foi a história?

 

R – Acabou o projeto e aí eu continuei lá na barraca. Acabou o projeto e hoje eu tenho a minha barraca e trabalho pra mim mesmo.

 

P/1 – E aí você parou de estudar naquela época? Ou você parou por outro motivo?

 

R – Não, eu só fiz até o primeiro. Eu tive que parar quando eu aprendi a fazer a pintura. Aí parei.

 

P/1 – Por que acabou o projeto? Você sabe por que acabou?

 

R – Acabou. Os garotos já tinham tudo aprendido também. Tem uns que seguiram o caminho do tráfico. Tem dois que morreram.

 

P/1 – E aí? Teve alguém que virou, como você, artista? Dos 27, quantos viraram?

 

R – De 27, tem uns sete.

 

P/1 – Que trabalham com isso?

 

R – Mas os outros… Os outros também não quiseram seguir, mas trabalham. Têm trabalho.

 

P/1 – O que foi pra você então? Esse projeto foi o que mudou a sua vida?

 

R – É, foi o que mudou a minha vida e que me dá tudo hoje. Através da pintura é que eu sobrevivo.

 

P/1 – Ah, então conta o que você faz. Você pinta… Você expõe onde? Aqui dentro? Ou fora?

 

R – Ah, eu exponho lá em cima. Acho que vocês passaram lá em cima, na barraca.

 

P/1 – Ainda não. Ainda não.

 

R – Eu exponho lá em cima, na barraca, onde os turistas param para ver o artesão. É uma calçada e têm as barracas todas armadas. Eles param lá, que é a Favela Tour, a Jeep Tour, a Indiana. Vêm várias empresas de turismo.

 

P/1 – Reginaldo, e, fora esses trabalhos, você faz trabalho também de guia, né? Como é que é?

 

R – É. Fora esse trabalho aí, que eu passo meu telefone, que nem esse, tem um amigo que eu conheci... A amiga dele que veio por uma empresa de turismo. Aí eu falei pra ela: “Se você quiser vir conhecer dentro da comunidade, eu posso andar contigo aí”. Eu passei o telefone pra ela, ela me ligou, aí veio e conheci mais uma.

 

P/1 – Mas por conta própria assim, né?

 

R – É, por conta própria. Foi rápido. Eu passo o telefone pra pessoa, depois me liga e aí vamos embora pra conhecer a maior favela que tem. Porque a empresa só mostra um pedaço da favela pra eles. Vê as pessoas lá embaixo, fala que aqui na comunidade é perigoso. Mas, quando as pessoas chegam aqui dentro, veem que é diferente.

 

P/1 – Aí você não quis se vincular a nenhuma agência. Está fazendo porque você gosta mesmo de mostrar.

 

R – O que eu mostro aqui, lá embaixo... Até as pessoas do hotel passam medo pros turistas. Falam que é perigoso e tudo na comunidade. Mas, quando eles chegam aqui dentro e começam a andar, e os moradores os cumprimentam… As crianças ficam: “Money, money”, ficam tudo cumprimentando. Eles veem outras coisas. É diferente. As empresas que vêm só mostram um pedaço da comunidade pra eles. Eu já mostro tudo. Eu já começo a andar do alto do morro e vou até lá embaixo. E também tem uns amigos meus que moram aqui e também são guias de turismo.

 

P/1 – E quanto tempo você leva pra fazer? Assim, tipo, dura um dia?

 

R – Eu comecei com oito horas nesse projeto. Agora eu estou com 24.

 

P/1 – É bastante tempo, né? Deixa eu te perguntar: como é que é... Eu sei que mudou muito, mas como é que é a relação, assim, com os vizinhos, com a comunidade? Como é que é esse tipo de coisa? Porque é muito mais próximo do que na cidade, que não seja comunidade.

 

R – É, pra mim aqui não é. Pra mim agora a Rocinha está virando um bairro, não mais uma favela, que já chegou saneamento básico, hospital. Tem tudo. Pra mim, é uma cidade dentro de uma cidade. Tem bancos. Aqui você não precisa sair para fazer nada. Vamos supor que eu pague uma conta. Tem a Caixa Econômica pra pagar a conta, tem o banco do Bradesco. Então, pra mim, é uma cidade dentro de uma cidade.

 

P/1 – Por exemplo, quando você era pequeno, você começou muito cedo esse projeto de pintar e tal. Você tinha alguns sonhos, de pequeno? Você lembra disso?

 

R – Ah, eu nem imaginava que eu ia saber pintar porque, antigamente, a escola era pra eu arrumar um dinheiro. Tinha que ir para a porta do mercado, aqui nas Sendas. Ficava na porta do mercado. Eu nunca imaginava que eu ia chegar a pintar.

 

P/1 – O que você gosta de pintar? Assim, o que você pinta normalmente?

 

R – Ah, eu pinto mais as favelas e as paisagens.

 

P/1 – Tipo o entorno, assim, os morros e tal?

 

R – Os morros com o Cristo, com o Pão de Açúcar.

 

P/1 – Reginaldo, qual é o problema que existe dentro ainda da Rocinha, de habitação? O que tem de problema aqui pra você? Assim, nas casas... O que falta nas casas, nas ruas? O que está faltando, que você acha?

 

R – É que agora está uma polêmica das pessoas que estão aqui também dentro da comunidade. Tem umas que estão querendo tirar os garis comunitários. Eles que varrem, pegam o lixo… Se tirar, vai piorar. Em vez de tentar melhorar pra comunidade, vai piorar mais ainda. Eles estão querendo tirar os garis comunitários.

 

P/1 – Eles não são da Prefeitura? Eles trabalham na comunidade?

 

R – É, eles trabalham dentro da comunidade através da Associação. Eles são os garis comunitários. Agora está uma polêmica pra tirar eles. Várias pessoas que vão perder o emprego...

 

P/1 – E vai entrar quem no lugar deles? Vai entrar a Prefeitura?

 

R – Aí não sei quem vai entrar no lugar deles. Se é a Prefeitura ou se vai ter outro projeto a não ser o Gari Comunitário. E não sei qual outro é que vai entrar.

 

P/1 – E, fora isso, você acha que, como já chegou luz, já chegou tudo, você acha que o problema da habitação, das casas está resolvido? Ou você acha que ainda tem coisas pra melhorar?

 

R – Agora também a obra do parque está demorando muito, porque as pessoas vão ganhar apartamento. As pessoas que moram na área de risco vão ganhar apartamento. Está mudando tudo.

 

P/1 – E na sua casa, em que você mora, você acha que poderia melhorar?

 

R – Melhorar, assim [risos], eu me sinto bem dentro da minha casa.

 

P/1 – Eu queria te perguntar, Reginaldo, você deve ter passado algum momento na sua vida em que sofreu algum preconceito, discriminação por morar em favela. Teve algum momento em que você passou por isso?

 

R – Já passei. Teve uma vez que eu fui até entregar um quadro pra um hotel, que a turista pediu pra eu deixar na recepção. Eu fui passar na porta do hotel e o segurança que estava do lado de fora perguntou pra mim aonde que eu ia. Só que ele me tratou mal e eu tratei um pouco mal ele também porque ele me deu uma resposta. Aí eu dei outra resposta mal pra ele: “Eu não tenho nada pra falar contigo, mas é pra eu ir lá na recepção”. Aí ele falou: “Você não vai entrar.” Aí foi onde eu me senti maltratado. E a turista chegou e criou uma confusão.

 

P/1 – Você acha que tem muito… Morar em favela tem muita discriminação ainda?

 

R – Tem muita discriminação.

 

P/1 – E com autoridade, com polícia e tal? Ainda também tem muito ou melhorou?

 

R – Tem muita discriminação, não como… Quando tem operação na favela e você fala que é trabalhador, polícia chega, te pede a identidade. Você tem que falar rápido o nome da tua mãe, o nome do teu pai. Se você gaguejar, eles ficam te batendo. Isso mesmo aconteceu comigo. A última vez… A última operação que teve foi até lá na barraca; Eu lá, fui pra dentro... Teve os tiroteios, eu corri pra dentro do bar, chegou o policial e me pediu a minha identidade. Aí pediu, porque eu estava nervoso... Os tiros... E me perguntou o nome do meu pai e o nome da minha mãe. Tudo rápido. Aí eu gaguejei na hora, e ele foi e me deu um pescoção no meu pescoço. Aí foi onde eu me senti discriminado também.

 

P/1 – E essas operações têm bastante… Tem muitas vezes ou tem menos agora?

 

R – Estava menos, que foi uma coisa surpresa também. Porque o dia em que eles vieram aqui, pegaram todo mundo desprevenido porque foi no horário de escola. Não passava pela cabeça de ninguém que ia acontecer aquilo, o que eles fizeram na última operação que teve aqui.

 

P/1 – E problema de violência, como está agora? Na sua opinião, na comunidade, tanto a violência de tráfico quanto a violência policial, como está agora?

 

R – Para mim, dentro da comunidade a gente tem problema só quando tem polícia. Quando não tem polícia, a comunidade está tranquila.

 

P/1 – Você já participou de algum movimento de reivindicar melhorias ou de movimento pra melhorar alguma coisa? Você participou de alguma coisa?

 

R – Não.

 

P/1 – Você não teve vontade nunca ou acha que não é a sua praia?

 

R – Ah, eu tive vontade, mas nunca tive a oportunidade. Aqui pra lá tem, mas só no Vidigal, que é “Nós do Morro”. Aí se você tiver que ir pra lá, tem que pagar duas conduções todo dia.

 

P/1 – Entendi. Então o maior problema pra você é chegar até o movimento.

 

R – É, chegar até o movimento.

 

P/1 – Mas, se você fosse, o que você queria pedir?

 

R – Se eu chegasse, eu ia querer lazer. Tem aquele negócio de afroreggae, que eu acho legal e aqui não tem. Aqui dentro da comunidade não tem. Não sei como, que está tendo tudo agora com o movimento que está tendo dentro da comunidade… O Centro Esportivo da Rocinha. Pra mim, eu acho que eles vão trazer pra cá esse movimento do afroreggae.

 

P/1 – Mas o movimento cultural que tem mais na Rocinha, fora o que você faz, sem ser a pintura… O que tem de forte aqui de movimento cultural? Gente que dança e que canta? O que tem forte aqui?

 

R – Forte?

 

P/1 – Assim, bem marcante. Porque você disse que o afroreggae não tem. Não chegou ainda. Mas tem gente, como você, que pinta, por exemplo, que é uma coisa. O que mais que tem? Tem muitos músicos? O que tem?

 

R – Ah, tem muitos músicos. Tem as pessoas do samba, uns grupos de pagode. Eu acho até que eles fizeram uma participação na novela. O grupo de pagode chama Pura Amizade.

 

P/1 – E o Carnaval? O Carnaval tem uma escola, não tem?

 

R – É. A escola é Acadêmicos da Rocinha.

 

P/1 – Você participa dela? Ou não?

 

R – Não, porque as pessoas aqui dentro da comunidade não são muito dedicadas ao Carnaval. Por isto é que eu acho que a escola está no grupo de acesso: porque as pessoas da comunidade não se dedicam muito ao Carnaval que nem a Mangueira. Se tiver um negócio na escola de samba, é só a escola, é só o samba. Aqui já é tudo misturado. É samba, é forró, é tudo misturado. Então as pessoas não se dedicam muito à escola de samba.

 

P/1 – Perguntar, na sua cabeça, sem nenhuma resposta certa, o que significa alguém falar pra você: “Todo mundo tem direito à moradia. Todo mundo tem direito a um lugar digno”? O que é pra você isso? O que isso significa na sua cabeça? 

 

R – Pra mim, significa que a pessoa tem que lutar também pra ter uma moradia, pra ficar bem na vida. Tem que lutar pra você ter alguma coisa na vida.

 

P/1 – Qual é o seu sonho pessoal pra Rocinha? O que você gostaria de ver nela no futuro?

 

R – Não, porque eu já estou vendo o hospital que chegou e ninguém imaginava que ia chegar. São 24 horas de hospital. E está chegando. Pouco a pouco, está acontecendo.

 

P/1 – Você não tem mais nada, assim? Um grande sonho de ver... Ou você acha que aos poucos você consegue?

 

R – Ah, aos poucos vai conseguindo.

 

P/1 – Você acha que uma pessoa sozinha, assim, como você ou uma pessoa de um movimento social, tem como mudar a realidade? Ela consegue mudar fazendo uma luta ou você acha que é muito difícil?

 

R – É muito difícil a pessoa lutar sozinha. Tem que ter o movimento para incentivar a pessoa também. Não adianta você estar sozinho e não ter um incentivo de outra pessoa. Tocar o projeto aí pra frente...

 

P/1 – E aí você gostaria, então, de ter outra oportunidade de participar de mais movimentos?

 

R – Ah, gostaria!

 

P/1 – Reginaldo, basicamente é isso. A gente quer agradecer e queria te convidar também pra um dia, quando você for a São Paulo ou a gente vier pra cá, você contar a sua história para o Museu. Contar com mais calma, desde a infância, pra gente entender melhor. Obrigado por você participar com a gente.

 

R – Eu que agradeço. Eu nem sabia que vocês iam vir aqui hoje. Eu estava até dormindo, porque eu tinha ido pro baile funk com os turistas ontem. Aí estava até dormindo, e ele me ligou. Muito obrigado por ter esta oportunidade de estar falando da minha história de vida.

 

P/1 – A gente agradece mesmo. Obrigado mesmo.



FIM DA ENTREVISTA

 

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