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História

Que se abram as cortinas!

História de: Iris Terra Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Iris relembra diversos momentos marcantes de sua vida: suas peripécias na infância, o seu amor por teatro, seu trabalho de anos como bancária, o seu casamento com o marido que amava e fala sobre os seis filhos. Por fim, relata seu amor por cinema e literatura e conta um pouco sobre o seu dia a dia morando com o marido.

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História completa

P/1 - Bem, vou lhe perguntar algumas coisas que eu já perguntei, mas o importante é que a gente grave. Vou começar perguntando seu nome, local de nascimento, nome dos seus pais e local de nascimento deles..

 

R - Tudo bem. Meu nome é Iris Terra Fernandes, filha de José Resende Terra e Maria Alves Caldeira Terra. Nasci em Lavras, fui para Belo Horizonte, de Belo Horizonte fui para o Rio, onde casei, tive quatro filhos. Fui para Natal, tive mais um filho, fui para Recife, tive mais um filho, depois vim para São Paulo, onde nasceram os meus oito netos.

 

P/1 - Então vamos voltar lá para trás. A senhora me disse, quando estávamos fazendo a ficha, que seu pai era negociante de café e a sua mãe era filha de fazendeiro. Então, me conta um pouquinho sobre isso. Ele era negociante de café, ele chegou a ser negociante de café por que? Qual era a origem da família dele?

 

R- A origem da família dele honestamente eu não sei dizer, só sei que quando eu nasci minha mãe tinha mais de 40 anos, [são] mais histórias que eu ouvi. Eu já era o rabo da família, né? Eu sei que ele faliu com a venda do Café, inclusive ele dizia que quem foi o culpado que fez ele perder tudo foi um ____. Depois ele se meteu em Curtume, também não deu certo, aí deixou que os filhos cuidassem de tudo.

 

P/1 - E a sua mãe, como era a família dela?

 

R - Era uma família muito rica. E por coincidência tinha muitas fazendas, inclusive uma das fazendas tinha o nome da fazenda do meu marido, do pai do meu marido, que era Maniçoba. Aí meu avô morreu, ela tinha dois irmãos médicos e uma irmã, então resolveram que, como meu avô ajudou muito o meu pai, minha mãe não tinha direito mais nenhum [as terras], então eles ficaram com tudo, entendeu? Saíram da cidade que moravam, foram morar em Lavras, porque os rapazes iam estudar no Instituto Gammon, em Lavras, e a filha estudava no colégio americano também na minha cidade.

Depois que todos os filhos se formaram, cada um levou sua vida, pois minha avó morreu, minha tia se casou com um ministro protestante.

 

P/1 - E aí a sua família ficou com mais dificuldades financeiras?

 

R - Mais dificuldades porque a minha mãe não herdou nada, né? E ela adorava os irmãos, ninguém podia falar mal da família dela. E, no entanto, ela era a filha predileta porque ela era a primeira.

 

P/1 - E a senhora me disse que tinha muitos irmãos, né? Então como é que era, assim, na casa? Quer dizer, a senhora morou muito tempo em Lavras...

 

R - Em Lavras... Depois mudamos para Belo Horizonte.

 

P/1 - Com quantos anos?

 

R - Eu fui para Belo Horizonte com mais ou menos uns 7, 8 anos. Aí fui estudar em Belo Horizonte no Grupo Escolar Pedro II, depois estudei no Colégio Sagrado Coração de Jesus, que inclusive foi no tempo da Guerra, era um colégio de freiras alemãs. E no currículo tinha alemão, estudo de alemão, que foi proibido. Aí eu comecei, fiz o curso ginasial, que [hoje] mudaram, porque na época era cinco anos. Quando eu formei, formaram duas turmas, de quarto e de quinto, aí a faculdade me mandou uma carta me convidando para fazer a faculdade em seguida. Eu não precisava de mais um ano ou dois, né? Eu comecei Química, depois desisti, porque eu queria trabalhar. Aí fui trabalhar, fui estudar na Cultura inglesa e Aliança Francesa. Aí nesse meio tempo o meu pai adoeceu. O médico aconselhou mudar para o Rio por causa da altura de Belo Horizonte. Então mudamos para o Rio, ele durou só mais um ano, mas já estávamos lá e resolvemos ficar. Aí eu fui trabalhar em um banco que era de uma família de Lavras. Trabalhei dez anos, aí conheci meu marido, me casei, tive os seis filhos.

 

P/1 - A senhora conheceu o seu marido quando? E como?

 

 

R - Ah, eu o conheci num churrasco, [era] lindo (risos). Ele se apaixonou por mim na mesma hora, não sei como, ele era noivo de outra, da prima dele, me pediu em casamento no mesmo dia que me conheceu. (risos)

 

P/1 - Verdade?

 

R - Verdade. Eu achava que era uma gozação, né? Por que ia querer casar comigo? Tá louco, né? Aí nós acabamos casando, um nordestino com uma mineira. E foi lindo o namoro, gostoso, namorávamos na roda gigante, sabe?

 

P/1 - Isso já no Rio?

 

R - No Rio. Nos casamos numa igreja linda na lagoa que estava acabando de construir em Santa Margarida Maria. Aí moramos em Botafogo, depois compramos um apartamento no Leblon. Aí nesse meio tempo o meu filho, meu primeiro filho homem, tinha nascido, e o meu marido é jornalista, aí o Jânio Quadros saiu de cena, né? E o Jânio Quadros... Os rapazes da Marinha, todos que formavam, tinha uma viagem para a Europa, mas nesse ano o Jânio disse que eles iam para África e o meu marido iria também como jornalista acompanhando, mas nessa confusão toda achava que não ia, mas acabou indo, fez uma viagem pela África inteira, aí mandava reportagem de lá e eu fiquei sozinha com quatro crianças. Quando ele voltou, foi convidado para a Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte, ele foi, aí nós mudamos para lá, nasceu meu [outro] filho.

 

P/1 - E ele foi convidado por que? Como era na sua casa? Ele era jornalista, devia ter uma vida ativa, a senhora participava? Como era?

 

R - Participava com a mulher jornalista, minha amiga e dele. Eu nunca fui de ter muitas amigas, era mais com a família mesmo, eu tinha quatro filhos para criar. Eu fiquei um ano sozinha, né? Então, tinha que me virar sozinha. Aí fomos para Natal também, onde ele foi para ser secretário. Natal uma cidade pequena, você sabe, tudo é festa, festa no Palácio, minha casa cheia de gente, daí foi o que eu disse a você, comecei a fumar, me senti mal e disse “Vou começar a fumar”, né? Aí quando veio a Revolução, aliás, quando ele foi para lá, ele foi buscar dinheiro, porque não tinha dinheiro na Secretaria, ele foi conseguir dinheiro, encheu a burra e então voltou a trabalhar.

E como os estudantes eram muitos americanos, como sempre foram, né? Que tinha americano que servia, ele chamou os rapazes que estavam fazendo confusão na rua e disse “Olha, o dinheiro está aqui, nós precisamos de gente para trabalhar” e convidou-os para trabalhar com ele, e foram todos trabalhar com ele, fazer a alfabetização de adultos em 80 horas. É o Paulo Freire, né? Ele pegou o projeto do Paulo Freire e adaptou e fez. Era uma coisa muito rústica, foi difícil, mas ele conseguiu, aí veio a revolução. Aí nós saímos de Natal, ele foi ser jornalista em Recife pela Folha de São Paulo, a Folha convidou...

 

P/1 - E a revolução deu algum problema em casa?

 

R - Não, em casa não. Porque em Recife ele foi convidado para ser testemunho de acusação. Aí ele disse assim, “olha você liga para o Dom Hélder Câmara, para o Jordão Emerenciano, se eu não voltar”. Quando ele chegou lá, ele virou testemunha de defesa. Conhecia bem o que estava fazendo. Inclusive ele tinha uma carta do embaixador americano, e ele inclusive foi um dos últimos brasileiros a falar com Kennedy. Tem fotografias em casa. Aí então a Folha o convidou para vir para São Paulo. Para dirigir aqui serviços específicos, cadernos especiais. Ele trabalhou muito tempo na Folha.

 

P/1 - E aí a senhora veio para São Paulo com toda a família?

 

R - Vim para São Paulo com toda a família.

 

P/1 - E como é que foi essa chegada aqui? A senhora estranhou a cidade?

 

R - Eu já conhecia São Paulo, né? Que, aliás, eu sempre gostei muito de arte e na segunda Bienal eu vim a São Paulo ver. Uau, quantos anos tem isso... Eu era solteira. Eu gosto São Paulo. São Paulo tem tudo né? Aí viemos para São Paulo, meus filhos continuaram a estudar, se formaram, se casaram, meu marido trabalhou na Abril, depois então foi que ele criou o programa Telecurso na Globo, trabalhou 14 anos, resolveu sair, fazer a vida dele, aí criou uma firma de planejamento de educação, onde ainda trabalha e está indo muito bem.

 

P/1 - Como é a atividade dessa firma? A senhora me falou que era sócia. Tem alguma participação ativa na firma? Como é que é?

 

R - Eu tenho uma parte que eu ajudo, uma parte de computador, difícil. Mas a maior parte, a cabeça, é do meu marido e da família, são as cabeças principais que estão dando um resultado maravilhoso.

 

P/1 - Agora eu vou pegar um pouco mais pessoalmente, tá? A senhora é uma pessoa muito rica, mesmo que quer dizer...

 

R - Que bom, porque eu sei que não... (risos)

 

P/1 - Vinha nas bienais, me contou um pouco dos trabalhos, trabalhou em bancos, começou a fazer a faculdade, né? Eu queria que a senhora me falasse um pouco disso. E como foi depois deixar isso, criar os filhos...

 

R - Olha, eu gostava muito de teatro. E por sinal, foi muito engraçado o dia que eu fui para escola de teatro, eu me encontrei com a Beatriz Segall, que era Beatriz Toledo, que era da Aliança Francesa. E ela disse “Vamos fazer um curso de teatro, vamos fazer um teste?” e eu disse “Vamos, vamos lá!”. E nós duas fizemos o teste e passamos no Serviço Nacional de Teatro que hoje é Conselho Nacional de Teatro, acho que é isso. Aí começamos a fazer o curso lá, quando terminamos ela foi para Europa e eu fiquei, aí nós fizemos umas peças de amadores, meu marido foi ver, né? Riu o diabo, né? Uma gozação terrível em cima de mim, que nós fizemos uma peça que se chamava “A 2.500 metros” e foi essa peça que revelou a Fernanda Montenegro, mas não na minha vez, era... Qual o nome dela? Ela sempre fazia essa peça e eu fiz uma pontinha nessa peça, aí nessa mesma época a Beatriz Segall casou, aí sumimos.

Por acaso, quando eu voltei para São Paulo, me encontrei com ela, mas ela não estava mexendo com teatro ainda não, aí depois ela acabou de criar os filhos e voltou para o teatro, né? E eu continuei dona de casa, meu marido me proibiu de mexer com teatro.

 

P/1 - Ah é?

 

R - Ele não quis mais (risos). Disse que para casar com ele tinha que sair do teatro, deixar o teatro.

 

P/1 - Quando você fez essa peça já era casada, né?

 

R - Não. Solteira. E aí depois casada não mexi mais com o teatro e o que eu fazia quando era solteira era teatro de fantoche para as crianças. Tinha uma igreja lá no Rio na Praça Nossa Senhora da Paz, que estava em construção por sinal nessa época, a gente fazia cenário, escrevia as peças, fazia os bonecos e apresentava para as crianças do catecismo. Depois era gostoso, a gente saia de lá, ia para casa do Lúcio Cardoso, sabe quem é Lúcio Cardoso, né? Escritor que morreu.

A gente tinha coral de música, era muito gostoso, aquele povo todo gostava de teatro, né? Inclusive, você conhece o Sérgio Viotti? Ele também era da turma. Nós criamos um grupo nessa época, chamava Teatro 48. Ensaiávamos peças e acabou não levando a lugar nenhum. Aí depois conheci meu marido e acabou-se teatro.

 

P/1 - E por que a senhora topou assim a proibição?

 

R - Porque eu gostei dele, me proibiu, tudo bem, vamos criar nossos filhos (risos). E criei meus filhos com ele.

 

P/1 - E como é que foi? A senhora veio estudar Química aqui, né?

 

R - Não, isso foi no Rio... No Rio não, em Belo Horizonte.

 

P/1 - E depois então, quando é que foi que a senhora veio para cá?

 

R - Eu vim quando meu pai passou mal e o médico recomendou ir para o Rio.

 

P/1 - Aí a senhora foi com a toda família para o Rio?

 

R - Aí a minha família toda [foi] para o Rio. Aí eu fui trabalhar no banco, trabalhei 10 anos.

 

P/1 - Quanto tempo depois disso a senhora casou?

 

R - Olha, eu casei 2 anos antes de sair do banco.

 

P/1 - Ah, foi durante esse período no banco?

 

R - Sim. Aí eu resolvi que não dava mais... Ou eu criava filho ou eu ia trabalhar. Em 10 anos eu tive seis filhos, tinha que cuidar da casa, tinha que cuidar das coisas, né? E o meu marido viajando. Ah, foi uma vida bonita, gostosa...

 

P/1 - E quando vieram para São Paulo, eu já lhe perguntei isso, a senhora veio morar no Brooklin?

 

R - No Brooklin, morei um ano no Brooklin, e como lá um ladrão tentou arrebentar a janela no banheiro, nós corremos procurar alugar uma casa bem segura. Aí encontramos essa em Capote Valente que é toda gradeada. Um ano depois fomos morar nessa casa.

 

P/1 - E aí todos os filhos foram [criados] aqui?

 

R - Estudaram aqui.

 

P/1 - E como era a educação dos seus filhos? A senhora queria que eles fizessem alguma coisa especialmente?

 

R - Não. Sempre deixei que cada um escolhesse a sua coisa. Inclusive até roupa e sapato eu saia com eles para comprar e deixava cada um escolher. Quando eu via que estava passando da conta, aí eu chamava [e dizia]: “Você não acha aquele mais bonito?”, dava palpite, mas eles sempre tiveram autoridade para escolher. Mas eles acham hoje que nós éramos muito repressivos, mas não éramos. Pode ser o pai um pouco, porque o pai é bem forte, bem sério com eles, sabe. Espero ter criado bem meus filhos, ter dado uma boa educação para eles, são todos casados. Não ficou... Como dizem no nordeste: “Ninguém ficou no caritó” (risos).

 

P/1 - Certo. E aí a senhora a senhora me falou que tinha netos também, né? A senhora tem alguma relação com eles, como é que é?

R - Relação normal, porque do princípio, quando eles nasceram, da Toninha, principalmente, eu tomava muito conta da criança para ela, porque ela trabalhava bem longe, mas aí quando eu tive uma úlcera no duodeno, no meu estomago, eu tive que operar de repente. Aí o meu marido proibiu que eu tomasse conta de qualquer neto. Olha, eu gosto de todos, me dou bem com todos, tomo conta de muitos hoje, inclusive.

 

P/1 - Durante esse período da sua vida que a senhora me falou, qual é a coisa que a senhora mais gostava de fazer, já depois de casada, além de tomar conta da casa, tinha alguma [outra] atividade?

 

R - Ir ao cinema. Adoro cinema, mais do que teatro. Eu vejo muito pouco teatro. A última vez nesses anos que eu vi teatro foi em Recife, um muito bonito, que é “Liberdade, liberdade’. Passaram em Recife. Eu vi um aqui, como que é que chama... Que é com Fagundes... Aquele do narigudo, da Rochelle, como é que chama?

 

P/1 - Eu sei qual é...

 

R - Adorei, viu. Eu vi também um teatro com Sérgio Viotti, o Teatro do Absurdo, gostei também. São poucos que eu estou me lembrando... O que eu poderia te contar mais?

 

P/1 - Quer dizer, a sua atividade predileta era ir ao cinema? E leitura, a senhora gostava?

 

R - Eu sou, como se diz... Rato de biblioteca! Adoro ir numa livraria.

 

P/1 - E a senhora lia almanaques?

 

R - Eu já li há muito tempo.

 

P/1 - E a senhora tem alguma lembrança específica?

 

R - De almanaques... De almanaque mesmo de farmácia, eu me lembro das cartas que a gente... Umas cartas, como é que se diz... Eram umas cartas que tinham uma figura e você completava, é quase como um quebra-cabeça humano. De almanaque me lembro disso.

 

P/1 - E isso em que época?

 

R - Ah, eu não sei dizer. Muitos anos atrás.

 

P/1 - E esse hábito de ler e tudo mais... Foi na sua casa que adquiriu [esse costume]?

 

R - Eu acho que sim, porque eu me lembro que eu tinha sete anos e minha irmã, como eu era a décima, ela traduzia Shakespeare para mim e minha irmã menor. Eu comecei com sete anos a gostar de Shakespeare, isso leva a muita coisa, né? Você começa a gostar de coisas boas, e é por isso que eu quis também dar a meus filhos coisas boas... Ensinar a gostar de teatro, de música, de cinema... Tanto que hoje todos eles gostam. Mais a mulheres, os meninos são mais arredios para essas coisas.

 

P/1 - Quer dizer, na sua casa de infância tinha esse costume. Todo mundo lia...

 

R - Que eu me lembro bem, essa minha irmã é que lia muito. Ela traduzia muito Romeu e Julieta para mim. Eu lembro muito de Romeu e Julieta, eu tinha 7 anos e ela traduzia Shakespeare para mim. É lindo, né? Você passa a querer mais coisas...

 

P/1 - E da sua casa de Infância, quais lembranças que a senhora tem? A imagem mais forte?

 

R - A mais forte [lembrança] que eu tenho é de balançar em folha de bananeira e subir em Jabuticabeira (risos). Inclusive, eu brincando com a bananeira, eu sei que eu era tão pequena, eu estava balançando a bananeira, eu sei que estava tão alto, em cima do muro, ela partiu, eu caí com a cara no chão (risos). Me esfolei toda, aí me botaram uma pomada, todo mundo mexia comigo porque eu estava com o rosto machucado.

Também lá, me botaram o apelido... Eu era muito levada, viu? Subia em poste, fazia o diabo. Nós estávamos brincando, então xinguei meu irmão de um nome feio. A minha mãe me bateu tanto na boca, que me apelidaram [de] Galinha d'Angola (risos), de tanto que eu apanhei por brigar com ele e falar nome feio. Mas foi bom, tive uma bela meninice.

 

P/1 - Era muito diferente a educação das meninas e dos meninos nessa época?

 

R - Você sabe que para mim era tudo tão natural que eu não via diferença. A minha casa tinha homem e mulher, né? Acima de mim tinha dois homens e abaixo tinha uma mulher. Eu me dava muito com os dois perto de mim.

 

P/1 - Mas os seus pais não selecionavam, assim?

 

R – Não. Minha mãe era uma mulher mais severa... Mas diziam que quando ela ficou mais velha, ficou mais tranquila, porque era bem brava. Tanto que eu sou a favor da educação que não seja rígida. Meu pai e minha mãe não me exigiam nada, não sei se eles estavam velhos... Eu sabia o que era certo, o que era errado, não me lembro de alguém ter me prendido, ter me castigado. Nada disso.

 

P/1 - E hoje, qual é a sua principal ocupação? Como é que é? Como a senhora vive assim, atualmente?

 

R - Eu leio.

 

P/1 - A senhora mora com seu marido, né?

 

R - Com meu marido. Eu leio e vejo o vídeo.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Ele tem quase dois mil vídeos. Devolvo quando eu quero. Quando eu quero um filme vou lá tiro e vejo ou vou buscar outro, ou compramos outros...

 

P/1 - E que tipo de filme a senhora prefere?

 

R - Eu gosto de filme que mexe com a gente, sabe? Eu vi um filme bonito outro dia. Como era o nome do filme... É tanto filme que eu vejo lá... Não sei se vocês viram, eu gostei, um com o Richard Dreyfuss, eu gostei muito. Eu vi um há pouco tempo também... Olha, adorei Bagdad Café. Adorei a Sociedade dos Poetas Mortos. Gostei muito do Campo dos Sonhos. Tem tanto tipo... Lá em casa tem suspense, tem policial, tem aventura, drama, comédia, música... Eu vi um interessante outro dia... Como foi? Deixa-me me lembrar o nome... Filme estranho... Ah não me lembro...

 

P/1 - Então todo dia a senhora vê um vídeo?

 

R - Geralmente eu vejo vídeo e jornais. Na hora de política é hora de ver vídeo, né? Não vejo política (risos).

 

P/1 - A senhora não gosta?

 

R - Não, na hora de política, nós botamos um vídeo.

 

P/1 - Interessante, mesmo seu marido sendo ativo...

 

R - Sim, eu e marido na hora de política vemos vídeo.

 

P/1 - E por algum motivo especial? Por que estava cansado?

 

R - Não. Eu acho que ninguém vê, todo mundo desliga a televisão, né? E aí o que você faz? Você vê vídeo. Você tem vídeo, vai ver vídeo. Vai fazer o que nessa hora, né? Ver babaquice sendo falada ninguém vai, né? (risos). Eu sabia em que ia votar, já tinha resolvido, então não via mais ninguém.

 

P/1 - Agora a senhora repensando na sua vida desde criança até agora, o que que a senhora acha que mais se transformou? Tem alguma coisa?

 

R - Você vai achar meio idiota a minha resposta, mas é o destino, eu acho que as coisas são tabeladas e você vai [seguindo] para isso. Com o meu casamento, se eu não tivesse ido a uma festa com uma amiga que me convidou, que eu não queria ir, eu nunca teria o conhecido, eu andava para um lado e olhava para o outro... Por isso que acho muito que tudo é destino, você tem o livre arbítrio, naturalmente, mas você vai para o destino que você acha que é seu! Mas adoraria ser piloto de avião, adoraria cantar, mas eu não sei cantar, não sei dirigir avião... (risos)

 

P/1 - Mas a senhora gostaria de ter continuado no teatro, por exemplo?

 

R - Hoje eu acho que não. Embora eu dissesse que eu dava para o teatro. Hoje eu acho que estou cansada, que é muito cansativo aquilo todo dia, todo dia, sabe?

 

P/1 - Se hoje a senhora pudesse, dentro da sua história, transformar alguma coisa na sua vida, transformaria o que?

 

R - Nada, [deixaria] tudo do mesmo jeito.

 

P/1 - Que bom.

 

R - Não mudaria nada. Tenho os filhos que quero, que aliás não são meus, são emprestados, né? São pessoas inteligentes, [porque] eu sou coruja, são todos trabalhadores.

 

P/1 - E a senhora? Qual é o seu maior sonho? A senhora tem um sonho ainda que ainda não realizou?

 

R - Um sonho que ainda não conseguir realizar é [ir para] Paris. Já fui a Nova York, mas não fui a Paris, porque quero ir com o meu marido e ele nunca tem tempo.

 

P/1 - Ele nunca tem tempo?

 

R - Nunca tem tempo. Ele conhece o mundo inteiro, quando ele podia viajar, eu não podia porque que tinha criança. Agora eu posso viajar com ele e ele não pode sair. Mas ainda vamos, vamos curtir juntos.

 

P/1 - A gente está fazendo um vídeo, o que a senhora gostaria de deixar registrado no vídeo para as outras gerações, como uma mensagem da sua experiência?

 

R - Que sejam sempre eles mesmos. É muito bom a gente ser a gente mesmo.

 

P/1 - Que que significa isso?

 

R - Que muitas vezes você se rotula parecido com alguém, pega o nome de alguém, mas seja sempre você mesmo. Você tem muita coisa boa lá dentro. E enxergar vida, muita gente olha para dentro e não enxerga... Olha para rua tem sol, tem flores, mas ninguém olha. Isso vale a pena.

 

P/1 - Uma última pergunta para senhora, você acha importante que um pouco da sua vida tenha sido registrada? Se acha importante, por que?

 

R - Eu não acho importante, porque que minha vida é uma vida como outra qualquer. Eu sou como você, como ela, todos somos gente, né?

 

P/1 - Mas agora que foi registrada, você acha que deveria ser feito alguma coisa especial? Serviria para alguma coisa?

 

R - Não sei, honestamente eu não sei.

 

P/1 - Tá bom.

 

R - Tá bom? Estou muito chata, né?

 

P/1 - Não, imagina (risos).

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