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História

"Que nada. Eu estou fazendo com Aratu! O cimento não presta!"

Sinopse

Nascido na Bahia. Casou-se e se mudou para Santos em São Paulo. Começou a trabalhar em uma serralheria. Arrumou emprego na Votorantim como carpinteiro. Trabalhou durante 30 anos na Votorantim.

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História completa

P1 - Então senhor Souza, vamos começar a entrevista? Eu queria que o senhor dissesse para a gente o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. 

 

R - Meu nome é Roosevelt de Sousa Cairo, nasci no dia sete de junho de 1939. Em Nilo Peçanha na Bahia.

 

P1 - E o nome dos seus pais?

 

R - Meu pai era José Euclides Gomes, e minha mão Maria de Sousa Cairo.

 

P1 - E o que faziam os seus pais? Seu pai, por exemplo?

 

R - Meu pai trabalhava mais, era...era tanta coisa. Às vezes ele era jornalista, era político, né? Ele tinha um cartório de imóveis, um cartório... uma pessoa queria vender um negócio. Então ele tinha também e trabalhava nisso.

 

P1 - Lá na Bahia?

 

R - Lá na Bahia. 

 

P1 - Mas o seu pai nasceu em Alagoas?

 

R - Era alagoano.

 

P1 - E político ele ocupou algum cargo?

 

R - Era vereador. Foi vereador.

 

P1 - A sua mãe fazia o quê?

 

R - Minha mãe trabalhava em casa.

 

P1 - O senhor tem irmão, senhor Sousa?

 

R - Tenho uma irmã. É professora.

 

P1 - E o senhor cresceu lá em  Nilo Peçanha?

 

R - É cresci lá.

 

P1 - E como é que era a cidade de  Nilo Peçanha.

 

R - Ah, era gostoso. Era pequena, né? Cidade pequena. Cidade pequena era gostoso. Era tipo beira-mar. E depois eu saí e vim para o sul da Bahia, né? Lá na zona cacaueira perto de Ilhéus. Aí foi que acabei de me criar e  peguei a trabalhar, né? E aí eu trabalhava de pedreiro.

 

P1 - Mas foi a família inteira nessa mudança ou só o senhor?

 

R - Não, porque uma parte morava cá, né? Uma parte. Muitos nasceram cá em Ipiaú. Na roça, né? Na fazenda do meu tio. Então depois. Então o meu pai viajava muito e ele gostava de tomar uns né, uns whisky, né? Então a gente não tinha paradeiro. Então a gente chegou e acharam melhor a gente ir para o Ipiaú, né? A gente ia para Salvador. Para Salvador. Ainda mais quando era tempo de eleição, né? Aí pronto. Aí viemos pra Ipiaú onde eu acabei de me fazer, né? 

 

P1 - E o senhor estudou em Ipiaú?

 

R - Em Nilo Peçanha.

 

P1 - Nilo Peçanha?

 

R - É.

 

P1 - E como é que era a escola que o senhor estudava?

 

R - Ah, naquele tempo, naquele tempo era puxado, né? Porque a gente estudava casa de ABC né? E depois tinha que botar aquele coisa e dizer _________________ ______________, né? Depois a cartilha, né? E por aí  ia até chegar no primeiro ano, segundo e terceiro. 

 

P1 - Então era bem puxada a escola?

 

R - Era. 

 

P1 - E Ipiaú, como é que era?

 

R - Ah, Ipiaú já é maior, é uma cidade maior, né? A zona de cacaueira, né?

 

P1 - E o senhor começou a trabalhar como pedreiro?

 

R - É. 

 

P1 - Não quis ser político?

 

R - Não. 

 

(risos)

 

P1 - Por que, senhor Sousa?

 

R - Não. Não gostava, não gostava. Tanto que lá na Bahia a gente sempre aumenta, né? Eu não sou. Eu digo que eu sou de 1939 por causa da idade, né? Mas o certo eu tenho 63 anos, né? Mas quem te gozava ia para aquele lugar. Então tinha festa onde eles pagavam tudo, né? Então a gente aumentava, né? Então a gente aumentava. E eu aumentei dois anos para votar, né?

 

P1 - Aumentou a idade para poder votar?

 

R - Aumentei. É. É para ir é no meio da fuzaca ali, né? 

 

P1 - Mas como é que era então essa fuzaca?

 

R - A gente ia para outra cidade. E aí ia sábado e voltava domingo, né? Então eles pagavam tudo, né?

 

P1 - Eles quem? 

 

R - Os políticos. Os políticos. Naquele tempo eles pagavam, né? 

 

P1 - E como é que ia? Ia de caminhão, ia de ônibus? 

 

R - Não, porque lá era beira mar a gente ia de lancha. Era uma lancha grande, né? Coberta, de motor que ia para aqueles, aqueles municípios,  né? Era gostoso. Era bom.

 

P1 - E aí o senhor começou a trabalhar como pedreiro por quê? O senhor gostava? Por que precisava?

 

R – Em Nilo Peçanha logo, então a gente tinha que aprender, né? Eu ia para a escola de manhã e de tarde a gente armava a tenda. Ia para a tenda, né? Então eu fazia calçamento, fazia aí. Então o meu mestre trabalhava na prefeitura. Então eu cheguei a ganhar cinco mil réis por semana.

 

P1 - E era muito dinheiro?

 

R - Ô, cinco mil réis por semana era legal, né? Aí depois ele foi ser oficial de justiça então a turma dele cada um ficou trabalhando, né? Ele arrumou outro serviço na prefeitura e ficou trabalhando, né? Aí nós viemos para cá em Ipiaú e então a gente fazia casa na fazenda, ia para a roça, né? Colher cacau, quebrar cacau. Então na roça a gente fazia de tudo, né? 

 

P1 - O senhor trabalhou então na colheita de cacau?

 

R - Trabalhei. 

 

P1 - Como é que era? 

 

R - Na colheita de cacau tem um (podão?) e uma vara, né? Então a gente vai, puxa assim e assim, né? O (podão?). Aí um vai com o cesto catando os cacaus, fazendo aquela (ruminha?). E aí depois vem outro atrás com um balaio maior, né? Aí para fazer a (ruma?) maior. Ali a gente põe folha de bananeira para tirar da caixa e jogar ali dentro. Agora no outro dia, então ali, porque ladeira à baixo, ali a gente põe umas folhas de cacau e cava um buraco ali. Então na bananeira então vai escorrendo um mel. Então aquele mel é uma delícia aquele mel.

 

P1 - Do cacau?

 

R - Do cacau é. Agora, já no outro dia ele está quente, quente e o que está ali, o resto que ficou ali é vinagre. Já vira vinagre.

 

P1 - Então no dia que tira dá para comer? 

 

R - É docinho, gostoso. Agora no outro dia já vira vinagre. Então a gente faz vinagre para o outro dia já. E ele fica fermentado o cacau. Quente. Parecendo que teve fogo ali. No outro dia que você vai pegar e levar para a estufa, né? 

 

P1 - O senhor fazia esse trabalho também? Porque aí corta, né? O cacau?

 

R - Fazia. Quebra assim de banda, né? E aí a gente joga um fora e o outro e aí já sai a pivilha com o caroço ali aquele pedacinho. Então já tem as mulheres ali para catar, limpar.

 

P1 - Isso era um serviço das mulheres? 

 

R - É ali era mulher.

 

P1 - E o senhor trabalhou muito tempo nessa fazenda?

 

R - Ah, muito tempo, muito tempo. Até depois aí meu tio veio para a rua, né? 

 

P1 - Só um minutinho senhor Sousa.

 

(PAUSA)

 

P1 - Então esse trabalho aí as mulheres que fazem? Elas que separam?

 

R - É. Mulher que limpa. Aí já leva para a estufa. Mas leva para um cocho desse tamanho dividido no meio, né? Agora no outro dia joga ele de lá para cá. Para o outro cocho vazio para depois ir para a estufa ir botar fogo para secar o cacau.

 

P1 - Aí ele fica todo sequinho.

 

R - Aí já não fazia. Aí o estufeiro, aí isso era no pé, né? Para dar uma qualidade melhor, né? Então era aí pisando. É grande o lugar que seca, né? 

 

P1 - Então, como o senhor disse, o senhor ficou bastante tempo trabalhando nessa fazenda.

 

R - Ah é. Fiquei bastante tempo. Aí depois nós fomos para a cidade, mas sempre a gente vinha. Morando na cidade mas a gente vinha para a roça os homens, né? Porque tinha o meu tio que foi escola, né? E depois até eu casei. “Bom, então agora eu vou ver a minha vida.” Aí eu fiquei trabalhando na cidade de pedreiro, né? 

 

P1 - Isso em Ilhéus, não?

 

R - Em Ipiaú. É em Ipiaú.

 

P1 - Em Ipiaú também. Quer dizer, era a zona rural, tinha fazenda? 

 

R - É, 

 

P1 - Tá.

 

R - Então eu já disse assim: "Bom, de agora em diante eu casei e então eu vou viver a minha vida". Então arrumei casa, isso e aquilo e fui trabalhar, né? Depois falei para a mulher: "Eu vou para São Paulo". E ela falou: "Não, se for vai tudo". Eu tinha um molequinho, né? O mais velho. Então vamos embora. Vendemos o que tinha e nos mandamos. Aí fomos para Santos, né? Passeando em Santos e depois viemos para São Paulo. Fui morar na casa Cachoeirinha. Na Cachoeirinha eu trabalhei de pedreiro na Lodulfo, depois aí mudei e na Lodulfo fui trabalhar de serralheiro. Trabalhei na Ciban, trabalhei na Liceu de Arte. Ali naquele prédio da Paulista do SESI eu trabalhei ali, né? Dali.

 

P1 - O senhor ajudou a construir lá o prédio.

 

R - É. Serviço de alumínio. Então eu trabalhava na serralheria em serviço de alumínio. Serralheiro montador eu trabalhava. Dali eu trabalhei em outra firma e depois ela faliu. Aí tinha uma moça que trabalhava aqui. Era colega. Ela chamava a minha esposa de madrinha, né? Aí ela deu a dica, né? Aí Senhor Ângelo mandou me chamar. Nesse tempo o chefe era o Major lá. O Major Simões era o chefe. Aí Senhor Ângelo mandou me chamar e eu vim. Aí ficou naquele vira por causa do preço, né? Porque eu queria três contos. E não dava porque ele disse que tudo era aquela faixa, né? E aí por último ele disse que era certo. Aí lá vai e quando eu fui receber o meu dinheiro eles me pagaram dois contos 900 e 90, mas não chegou aos três contos. E aí pronto, né?

 

P1 - E aí o senhor ficou? 

 

R - Aí fiquei, né?

 

P1 - Mas eu queria voltar um pouquinho. Como é que o senhor conheceu a sua esposa, senhor Sousa?

 

R - Minha esposa foi um outro problema porque eu morava na roça. E aí montado, aí tinha uma namorada do meu primo e aí passamos lá. E aí a gente foi em uma chácara, em um sítio. Tinha laranja e ele dizia: "Mas isso é laranja de umbigo, né?". Aí eu trouxe uma laranja e dei para ela. Então daí foi que começou. Diz ela que a laranja estava azeda. Aí foi quando começou e quando eu vim aí eu deixei duas noivas na Bahia. E aí foi uma confusão danada depois.

 

P1 - Como assim? O senhor casou?

 

R - Eu deixei a minha esposa e mais outra, né? Mas só que em outra rua, né? Estava embaixo, né? E aí eu escrevia para as duas e ainda eu mandava as cartas para a farmácia que a gente comprava remédio. Então você dividia lá, né? E aí quando foi um dia não deu certo. Acho que trocaram as cartas, não sei. Ainda bem que a outra que era namorada, né? Mais nova. Ainda é a que mais sabia. E ela coitada ficou, né? 

 

P1 - Como é que o senhor conseguia ter duas noivas assim tão próximas?

 

R - Quando eu saí da casa dela eu disse: "A minha casa estava caindo embaixo.” Aí eu ia para a casa da outra, né? 

 

P1 - E aí o senhor casou lá mesmo então? 

 

R - E aí eu casei lá. 

 

P1 - E o senhor resolveu vir para São Paulo por quê?

 

R - É porque eu falei para ela que estava muito serviço, né? Eu falei: "Eu vou trabalhar e aí depois eu vinha buscar". E ela disse: "Não. Então vamos todo mundo". 

 

P1 - Claro, né? De repente o senhor arranjava outra noiva em São Paulo, já pensou?

 

R - E aí vendemos o que tinha. Colchão, isso e aquilo. Cristaleira. Naquele tempo era cristaleira que chamava, guarda-roupa. Tudo. Vendemos tudo.

 

P1 - Em que ano que foi isso? O senhor lembra senhor Souza?

 

R - Foi acho que 62 por aí.

 

P1 - O senhor foi primeiro para Santos por quê?

 

R - Porque a gente tinha uma conhecida, né? Ela tinha uma conhecida lá em Santos. Aí fomos para Santos e depois mudamos para o Guarujá onde tinha outra conhecida. Aí quando foi um dia a gente disse: "Ah". Aí tinha uma conhecida dela daqui que era quase que uma irmã, né? Na Cachoeirinha. Aí a gente veio, né? Então ela disse que arrumava um lugar para a gente. Uma casa para alugar. Aí ela arrumou um quarto e cozinha. Aí eu me lembro até hoje, foi dia sete de setembro que viemos de Santos. Estava ruim com a Parada, né? Estava muito ruim para atravessar. Aí pronto, não deu outra. Aí depois eu, quando foi o dia de eu sair da casa que era alugada, aí tinha um cara com um pano, né? Vendendo o terreno. Aí perguntou: "Moço". Aí perguntou se tinha problema, né? Ele fazer a propaganda. E eu disse: "Não, por mim não. Não é minha a casa". "Ah, não é não?". "Não". Mas nesse tempo, tinha um litro de leite que eu ia comprar com a garrafa. Aí disse: "Venha cá, o senhor não quer o terreno?". "Eu quero lá terreno? Eu estou aqui a passeio". Aí eu fui comprar o leite. E quando eu voltei, ele tornou a insistir: "Ah, vai lá sem compromisso. Vai lá ver lá". Aí eu vim aqui em Lozane paulista, Lozane eu gostei, né? Aí eu fui acertar e era 200 mil réis de entrada. E eu digo: "Ah, não dá não". Ficava em 16 contos. Aí a gente parcelou, né? A última você paga uma entrada do terreno. Então está certo. Foi indo, eu fui fazendo devagarzinho, fazendo, fazendo. Sábado e domingo eu não trabalhava de sábado, né? Aí foi onde eu construí, né? Aí eu associei com outro. Aí eu fiquei com a esquina, ficou uma metade para mim e eu fiquei com a esquina porque não era bobo, né? Aí lá vai, lá vai e quando foi um dia o cara me chamou. Tinha uma outra rua: "Você não quer trocar? Tem dois cômodos, quarto, cozinha e banheiro. Você não quer trocar pelo terreno?". Aí eu fui ver o terreno. A gente falou: "Ô Fabio, vamos fazer negócio". Aí a gente chegou: "Que negócio é esse aí?". "Você volta 10 conto". "Ah, vou pensar". Ele disse que ia pensar, né? Aí foi até um conterrâneo da gente. Aí passou, passou e um dia ele veio: "Opa, está fechado negócio". "O quê?". Aí eu já tinha chamado um pedreiro, tinha feito um orçamento mais ou menos. E eu não ia fazer um quarto e cozinha. Aí eu cheguei e: "Só dá por 14 conto". "Então está certo". Aí ele me deu a metade e a metade eu fui comprando material e sábado e domingo. Sábado e domingo trabalhando, né? 

 

P1 - O senhor fez sozinho a sua casa?

 

R - É, sozinho. Eu e meu cunhado. Aí faz de sábado e domingo, né? Comprava um pouco de material para não comprar fiado, né? Aí nisso surgiu. Aí eu trabalhava de serralheiro, né? Aí a menina aqui deu a dica e mandaram me chamar, né? Mandaram me chamar e aí eu vim aqui e acertamos, né? Aí eu peguei a trabalhar.

 

P1 - E o senhor entrou aqui na Votorantim com que função, Senhor Souza?

 

R - Eu entrei como carpinteiro.

 

P1 - Carpinteiro?

 

R - Porque não pegava serralheiro.

 

P1 - O Senhor mexia?

 

R - Então eu trabalhava, fazia caixa. Naqueles tempos eu fazia muita caixa para mandar pro Norte, de coisas. Mercadoria, né? O pessoal pedia de peça, né? E então fazia a caixa, a embalagem, né? Eu fazia.

 

P1 - Aqui na Votorantim?

 

R - É aqui e lá embaixo tem serra.

 

P1 - O que é que punha dentro dessas caixas?

 

R - Tem a serra. 

 

P1 - O senhor sabe o que é que ia dentro dessas caixas?

 

R - É sábia o tipo de lâmpada, né? Peça. Tudo. Tudo era pedido aqui, né? Aqui era a sessão de compras aqui. Era da Atlas, Barra Mansa e Mineira aqui. Aqui era a sessão de compras. Era um balcão com aquelas portas vai-vem.

 

P1 - Aqui nesse auditório?

 

R - É nesse andar. Era. E o salão era lá no sexto andar. Na parte de lá que tinha as cadeiras, porque tiraram as cadeiras dali, né? As cadeiras que abriam e fechavam, né? 

 

P1 - Então o pessoal fazia compras aqui, aí o senhor fazia as caixas.

 

R - É fazia as caixas.

 

P1 - Para poder mandar para outro lugar.

 

R - É para mandar.

 

P1 - E isso logo quando o senhor entrou em 76?

 

R - É. Eu tinha lá um outro quarto que eu botava madeira, né? Saia muita madeira. Era muita coisa que saia de tudo quanto era lugar.

 

P1 - E o senhor nunca tinha trabalhado como carpinteiro ou já tinha trabalhado?

 

R - Não, é que eu sou. Mas serralheiro, eu nunca trabalhei de serralheiro. Eu trabalhava de pedreiro, mas tinha um serralheiro aí eu chegava e o chefe lá dizia: "Mostra à ele como é que faz um 45 aqui Cairo.” Chamava Cario lá, né? Aí eu botava o esquadro, riscava, cerrava, passava a limpo. "Aí, está vendo você? Não é nada disso". Aí quando eles acabavam o serviço ele chegou e disse assim para mim: "Quando você sair daí me procure". Morava no Parque D. Pedro. Aí eu pedi para a firma, né? Na Landulfo fazer um acordo para eu acabar a casa e isso e aqui e eles fizeram acordo, né? E é tanto que ele chegou para mim e disse assim: "Olha, os 40% você vem devolver". E eu fui e devolvi. O homem disse: "Mas você veio mesmo?". E eu disse: "Foi trato, né?". E então o dinheiro tanto que fui para casa. E aí eu fui lá procurar o rapaz, o Elio. Chegou lá ele já arrumou uma ferramentinha, serra, isso, alicate de arrebite, isso e aquilo. Então a ferramentinha amanhã ou segunda-feira você vem aqui. Aí segunda-feira eu fui e aí: "Vamos tomar café". Tomei café mais ele. E aí fomos para Bicafé na. Eu sei que é de trem, mas a perua vinha pegar, né? Aí fomos. Cheguei lá, fiquei lá e ele disse: "Olha o rapaz aí". E já fui entrar de serralheiro montador oficial. E já fui trabalhar mais ele. 

 

P1 - E aqui também o senhor aprendeu logo?

 

R - É. Aí depois saímos, trabalhamos e ele falou assim: "Vamos sair, vamos trabalhar na...” Esqueci o nome da firma. Fomos trabalhar em outra firma. E aí nós apartamos, eu fui para um lugar e ele foi para outro. Se aí eu fiz um teste nessa firma e passei e fui fazer exame. Quando chego lá, aí o pessoal disse que tinha que operar de varizes. "Ih, caramba. E agora?". Aí fui no sindicato metalúrgico e aí marcaram. Aí eu fui lá com a minha perua, né? E no outro dia cedo o médico chegou e marcou a mesca, mesca é um pano. E fui logo tirando. E o meu pé estava bom, né? Aí fiquei, fiquei e fiquei dois meses. E falei: "Caramba, e agora se a firma não me pegar mais?". Aí tá bom e vou lá. Aí foi lá, passei no médico, o médico assinou. "Vai lá". Aí fui lá na firma e o cara: "Segunda-feira você começa". Foi muita sorte, né?

 

P1 - E aqui na Votorantim não teve teste. O senhor só foi pela dica que teve?

 

R - Ah, hoje é fácil entrar aqui. Antigamente não era fácil não. 

 

P1 - Ah é? Como é que era, Senhor Souza?

 

R - Antigamente tinha que levar três cartas de firma, né? Três cartas de forma que você já trabalhou. Ir na delegacia e trazer o coisa de antecedência. Para entrar aqui era assim. Não era fácil não. Firma boa, né? Melhor do que essa eu acho que não existe. 

 

P1 - Quer dizer, o senhor teve a dica, o senhor veio, fez a ficha, mandaram lhe chamar.

 

R - Mandaram me chamar. E a moça falou para eles e aí mandaram me chamar. 

 

P1 - Aí o senhor teve que fazer tudo isso?

 

R - É. Aí fui lá no departamento pessoal, aí me deram o documento, né? Aí veio isso tudo. Aí eu fui tirar, isso  levou mais de 15 dias para sair, né? Aí vim e aí pegou, né?

 

P1 - E era mais do que o que o senhor ganhava antes?

 

R - Então, eram os três contos. Porque os três contos e aí veio na carteira 2 contos 900 e 99. Mas daí foi bom. Trabalha e logo tem um aumento, né? E naquele tempo que sempre subia, aí eles davam, né? E no fim do ano eles dão, né? O doutor. Naquele tempo era bom porque era. Olha, quando eu entrei aqui eu entrei no dia 18 de novembro, 18 de novembro na Votorantim. E aí falaram logo: "Olha, você está entrando agora e caixinha só recebe quem tem um ano". E eu falei: "Ah, tudo bem". Aí recebi dois meses do 13º, né? E aí daqui a pouco me procuraram. Aí é Souza, né? Aí eu fui para o senhor Ângelo e eu fui lá em cima. E eu  falou: "Ai, meu filho, vai lá em cima, né?". Passa lá na sala da secretária do Dr. José. Aí eu fui e cheguei lá e era um envelope, né? "Está aí ó meu coração".E aí era dinheiro, né? E não era mixaria não. Aí pagou o Dr. Antônio, né? Dois envelopes, o Dr. Antônio e o Dr. José. Aí mandou passar na sala do Dr. Clóvis, na secretária. Aí peguei outro envelope. Aliás na do Dr. Ermínio que dava, né? Aí eu passei na casa do Dr. Antônio  “Oh Ave Maria, que natal bom". Comprei presente para o moleque, nossa. Eram quatro já que eu tinha moleques, né? E aí pronto. Aí pronto. Confiança, né? Eu entro lá e pergunto o que é que tem que fazer e aí eles mostram no banheiro deles, tem que passar do quarto, entrava sozinho.

 

P1 - Então senhor Souza, o senhor como carpinteiro depois o senhor passou a trabalhar na casa da família do Dr.?

 

R - Eu ia lá fazer manutenção.

 

P1 - Como é que foi isso? Um dia chamaram o senhor para fazer?

 

R - Não, mas era para ir. Então já era certo. Então aí ligava: "Estourou um cano". Porque a gente aqui não fazia só isso. Fazia trabalho de eletricista mas o que estava na carteira era aquilo, né? Era carpinteiro. Mas fazia eletricista. Faltava um eletricista e eu ia substituir um eletricista. Então ligavam para o chefe, né? Pastor Angelo. “Meu filho vai, vai.” E aí a perua levava, né? E aí lá se passasse da hora a gente almoçava, né? E se passava da hora da noite a gente ganhava hora extra, né? Porque naquele tempo eles não pagavam hora extra. A gente trabalhava fazendo hora extra, e quando era terça-feira eles pagavam da semana passada, né? Então era tanto que a gente nem marmita levava e trazia, né? Porque antigamente tinha lanchonete, mas a lanchonete cobrava o mesmo preço da rua essa lanchonete.

 

P1 - Aqui no prédio?

 

R - É, é. Era grande a lanchonete mas eles cobravam. E era dele mesmo daqui da Votorantim. Então sempre a gente estava com dinheiro, né? Sempre a gente estava com dinheiro. E lá a gente almoçava lá não pagava também, né?

 

P1 - E lá fazia qualquer tipo de serviço que precisava? 

 

R - Fazia, fazia. É de eletricista, qualquer coisa fazia. 

 

P1 - E era só na casa de...

 

R - Olha, era na casa do Dr. José, Dr. Antônio, Dr.Ermínio, Dr. Clóvis, Dr. Zé Neto. E a gente só não ia na casa dos filhos dos filhos. E Zé Roberto. Zé Roberto. Esse a gente fazia manutenção. Então já ficou certo da gente fazer manutenção. Então qualquer problema, vazamento, isso aquilo então a gente sempre ia.

 

P1 - Então era o senhor e mais alguém também? Tinha muitas pessoas que iam?

 

R - É, mas sempre era mais eu, né? Mais eu. E ninguém me substituia. Mas quando eu saia outro de férias eu tirava as férias dele. De eletricista, né? Encanador. Tinha um encanador mas sempre, né? E daí vai.

 

P1 - E nesse tempo que o senhor ia lá, o senhor também trabalhava aqui?

 

R - É.

 

P1 - Também sempre nessa parte de manutenção. 

 

R - De manutenção.

 

P1 - O senhor falou de um chefe Ângelo, é isso?

 

R - É. Senhor Ângelo. Morreu ele. Era bom, viu? Às vezes eu estava em casa com uma massa porque eu fazia de domingo sábado e domingo. Eu estava lá com uma massa pra mim rebocando parede. Daqui a pouco eles chegaram: "Ei meu filho, tem um vazamento". Uma vez mesmo eu estou lá umas três horas na lamaceira, né? E aí senhor Ângelo chega. "Meu filho, a lanchonete está alagada". Porque tem duas caixas d'água. Então a bóia soltou. E aí pronto. A água sumiu. E então as pessoas então ligam para lá e manda fechar a água da rua, né? Aí ele mandou e eu: "Bora, né?". Agora para pegar essa bóia aí. Porque tudo fechado, é de domingo. Mas conseguimos pegar a bóia, a bóia dele e aí coloquei a bóia que era logo na bocona ai, né? E aí pronto. Resolveu o problema. E às vezes também a bomba entra ar. E entrava aqui oito horas. Levava eu e outro. Era eu e mais dois. A gente batia a noite toda pelejando porque tinha que soltar a água e botar água pra cima. Para de manhã quando os homens chegarem ter água, né? Batia ali e batia a noite todo. Então eles ficavam e ia no outro dia às cinco horas, cinco e meia. Os outros não. Não agüentavam e iam embora, né? Eu não. Eu ficava. 

 

P1 - Onde era essa lanchonete que o senhor está falando?

 

R - A lanchonete era lá no fundo. No fundo. Não tem a sala do Barro, o correio ali? Então é para lá.

 

P1 - E era grande, o senhor estava falando? Conta um pouquinho dessa lanchonete.

 

R - Hein?

 

P1 - Conta um pouquinho dessa lanchonete para a gente.

 

R - Ah, a lanchonete, a comida era boa, né? Mas era o preço da rua. O preço era da rua. Eu não sei que era dos chefes, né? Porque o homem não sabia nada disso, né? Então era problema lá do chefe lá. Tinha os balcões, um em cada ponta. Ali onde as meninas trabalhavam as cadeiras, né? Então eram quatro balcões assim. Um aqui, mas outro ali e então era quatro, mas o espaço era grande. E depois tinha as cadeiras onde quem levasse marmita almoçava, né? Tinha a coisa de esquentar marmita também. A comida era boa da lanchonete. Limpinha, era feita ali mesmo, né? Ainda tem gente, a menina do elevador mesmo da diretoria trabalhou na lanchonete. Marinéia.

 

P1 - Qual foi o problema pior que o senhor teve que resolver?

 

R - Ã?

 

P1 - O problema pior que o senhor teve que resolver.

 

R - Ah, o problema pior era quando faltava água, viu?

 

P1 - E faltava muita água?

 

R - É. Quando entrava ar ao no fim eu resolvi. E eu descobri. Então o cano que saia da bomba que ia para a caixa, então estava todo furado. A gente esqueceu e quando viu estava todo podre, né? E aí eu troquei da caixa para a bomba. E aí pronto. E aí eles mandaram também o que pedisse de material eles iam lá e compravam. O chefe comprava. Aí mandaram buscar lá no Jaguaré uma britadeira, né? E era um cimento brusco danado. Aí eu e mais outro encanador fizemos.

 

P1 - O senhor que mexeu com a britadeira?

 

R - Eu e mais um outro. Aí era de noite, porque a gente esperava e não quebrava a parede de dia. Então esperava quando o homem saísse então para fazer serviço de quebrar. Então a gente trabalhava de noite. 10 horas, era das 8 às 10. Então aí era hora extra, né? E aí fomos levando.

 

P2 - Esse prédio aqui é antigo, né? E como é que foi feita a manutenção desse prédio?

 

R - Ah, na manutenção, porque antes eles fizeram reforçaram, né? Reforçaram com vigas e eu não vi. Quando mudaram porque era em outro lugar. Eu também não alcancei. Mas se vê quando a gente vai tirar o forro, se vê que ele foi reforçado, viu? E tinha tudo parede nesses andares que agora. Antigamente era tudo parede. Então foram tiradas todas as paredes. Tiramos da sala da Valéria, porque a sala da Valéria eram três salas. E então de noite a gente ia e para forrar, forrava todas as mesas para tirar aquelas paredes de noite, né? E no outro dia está limpo, né? Então ficava a gente e os caras para fazer limpeza, né? 

 

P2 - E ele está em ordem esse prédio ainda?

 

R - Ã?

 

P2 - Ele está em ordem, está todo?

 

R - Está. Mas é porque eu acho que os filhos dele não gostam daqui não. O Dr. Antônio parar, né? Ele não fica aqui o filho dele. O filho dele fica lá na _________________. 

 

P2 - E o senhor gosta desse prédio?

 

R - O Dr. Antônio? Ah, o Dr. Antônio não sai daqui não. Não saio. 

 

P2 - Por que é que o senhor acha que ele gosta desse prédio?

 

R - Ah, ele ama eu não sei, viu? Eu não sei. Eu sei que uma vez era para sair CBA e aí eu acho que então foi um jeito da Votorantim sair. E eu disse que não sai daqui. Ah, se não fosse ele, se não fosse ele não tinha mais não. Muita gente estava na rua porque mudava para outra cidade, né? Porque quando a agência Votorantim mudou para Sorocaba, né? A parte. Muita gente foi embora. A gente ficou no CBA. Olha aí, até entrou na rua. 

 

P2 - E dessa turma antiga de quando o senhor entrou, quem é que está ainda?

 

R - Aqui? Dessa turma aqui? Só tem eu, Fianco e Epaminondas da turma antiga. O mais velho. 

 

P2 - E mudou muito daquela época para hoje?

 

R - O prédio?

 

P2 - A vida, o trabalho?

 

R - Olha, os patrões. Os patrão é bom. Mas sempre já viu né? Olha a diretoria da mineira a senhora vê o PL, a participação, a Mineira dá um salário. Mas é um problema de diretoria. Agora vai dizer: "Foi o Doutor". Não, que o Dr.? Foi um problema de diretoria, né? Então aqui já é menos. Já é menos. Então a CBA já é menos. É tudo um dono só, né? E já é menos. Mas é porque o diretor e vamos dizer que: "Ah, é o homem lá é esse, é aquele".  O problema já é outra diretoria e então já muda, né? Então a gente mesmo assim 400, 430, né? Então foi 860. E se a pessoa ganha 2000, então é 2000,  a Mineira, CBA é mais justamente por causa de funcionário que é mais, né? É mais funcionário. Não dá para comparar a Mineira com a CBA, né?

 

P1 - Mas no trabalho ficou mais fácil ou mais difícil hoje em dia da época que o senhor entrou para cá?

 

R - Olha, o trabalho ficou mais fácil.

 

P1 - Por que ficou mais fácil. 

 

R - Mais fácil porque, olha, porque a parte de encanador mesmo foi trocado todos os canos de ferro para cano de plástico. Mas sempre tem problema, e são uns problemas feios. Para a gente fazer emenda é ruim. Porque sempre, porque quanto tem o banheiro então os canos passam assim de uma e meia. Então vai e tem três boxes. Então o primeiro, segundo, terceiro e quarto. Mas em vez de quebrar lá no princípio ou aqui no fim não, quebra aqui no meio. E então para fazer essa emenda aqui não é moleza não, né? Não é moleza não. E o outro é aquele para fechar água. Agora não porque depois a gente tem como espalhar, né? Onde quebra a gente bota um registro, né? Porque antigamente a gente precisava esperar, né? Todo mundo sair para fechar a água geral para fazer o serviço. Agora não. Então a gente fala Barros: “é mesmo, vamos botar um registro.” Então daqui para baixo então não precisa. Então a gente fecha aqui e pronto. E nesses banheiros aqui mesmo têm, né? Se tiver problema para baixo, então a gente vê aqui. No terceiro, no sétimo, do lado de lá no sete tem um porque os banheiros é estuque tem a laje o estuque, né? Então tem sempre e então a gente abre e fecha a água ali, né? Mas não é mole. Quando quebra algum cano no estuque, quando quebra. É bom porque ali a gente está vendo ali aberto, né? Mais um calor e precisa colocar ventilador para ir trabalhar. Não, o serviço ficou melhor agora, né? Ficou melhor porque vai  de encarregado, né? E antigamente era mais gente. Era mais gente na parte da  manutenção, né?

 

P1 - E antes do senhor trabalhar na Votorantim, o senhor já conhecia a Votorantim?

 

R - Não, não conhecia.

 

P1 - Nunca tinha ouvido falar?

 

R - Não.

 

P1 - E o primeiro dia de trabalho seu aqui o senhor lembra?

 

R - Ah eu lembro. Me mostraram a minha sessão, né? Me deram a chave: “e aí aqui sua ferramenta e depois o senhor vê o que é que precisa, né?” E aí no dia seguinte eu dei a lista do que é que precisava, né? E aí já foi comprar ferramenta, isso e aquilo.

 

P1 - Onde ficava a sua sessão?

 

R - Fica lá na garagem. Justamente no pátio do diretor, né? Tem uma sala. Tem um banheiro, a minha sala e a outra sala do garagista. Lá ninguém abusa, ninguém.

 

P1 - Então hoje tem menos funcionários nessa sua sessão? 

 

R - É, na manutenção tem menos.

 

P1 - Já chegou a ter quanto? O senhor lembra?

 

R - Menina, tinha vez que pintor tinha uns cinco pintores, três eletricistas, três encanadores. E por aí. Dois carpinteiros. Três carpinteiros já teve. E agora diminuiu.

 

P1 - Quantos tem hoje?

 

R – Ah! Agora tem um eletricista. Telefone eram dois e agora só é um, né? Eletricista tem um só.

 

P1 - Quando precisa alguma coisa mais complicada contrata alguém de fora?

 

R - Ah é. Porque antigamente não tinha esse negócio de pegar gente de fora. Tinha que fazer ali. E agora não, eles contratam, eles chamam uma firma para fazer o serviço mais pesado. Então melhorou, né? 

 

P1 - E quando o senhor começou a trabalhar aqui o senhor passou a conhecer a Votorantim? A saber das outras empresas? 

 

R - É, é.

 

P1 - O senhor foi em alguma outra unidade?

 

R - É porque aqui já ficava quase tudo. Aqui fica Ibar, Barra Mansa, Atlas. Ficava tudo da empresa aqui. 

 

P1 - O senhor chegou a ir em alguma outra unidade?

 

R - Não, não. Eu ia no Jaguaré. No Jaguaré eu ia. No Jaguaré. Tinha uma fábrica que tecido o depósito na Lapa, né? Às vezes a gente ia fazer coisa, serviço lá.

 

P1 - Como é que era lá o depósito?

 

R - Lá tinha vestiário, tinha banheiro e um salãozão, né? Onde ficava o tecido, né? Aqueles tipos de tecido. Então lá era o depósito. Tinha aqui na Barra Funda também tinha a gráfica, né? Tinha a gráfica.

 

P1 - O senhor também foi na gráfica?

 

R - Ia, sempre ia fazer serviço lá.

 

P1 - No depósito de tecido, o que é que o senhor fez lá?

 

R - Não, a gente ia fazer manutenção, ia arrumar prateleiras, né? Prateleiras, banheiro, trocava descarga, reparo, né? 

 

P1 - Na gráfica?

 

R - Na gráfica também ia fazer serviço lá na gráfica. 

 

P1 - E no Jaguaré, como é que era?

 

R - No Jaguaré, no Jaguaré eu ia pouco. No Jaguaré tinha uma esteira onde o cimento descia para carregar os carros, né? Os caminhões. Mas acabou, né? Tinha oficina lá em Jaguaré.

 

P1 - E o senhor também fazia manutenção lá?

 

R - É. Às vezes eu ia lá também, né? Mas lá eu ia poucas vezes que eu ia. Ia mais quando a gente saia da casa dos homens que tinha que passar lá, né? E aí a gente chegava lá.

 

P1 - A primeira vez que o senhor foi na casa de um dos diretores o senhor ficou nervoso ou foi normal?

 

R - Ah, não fiquei não.

 

P1 - Não ficou?

 

R - Não. Não porque os motoristas, eu ia todo dia porque o motorista vinha trazer ele, né? É, todos vinham, né? Todos eles tinham motorista. Então chegava lá, entregava isso, isso e isso. Aí eu fazia o serviço.

 

P1 - Mas da primeira vez não ficou nem um pouquinho nervo?

 

R - Não, porque não eu só não. E porque não foi logo também. Não foi logo assim. 

 

P1 - E os diretores depois verificavam lá o seu serviço para ver se estava bom?

 

R – Não, não.

 

P1 - Não?

 

R - Não, o diretor não. Olha, eles ligavam para o chefe, ligavam para o diretor. E aí a empregada ligava lá: "Precisa disso aqui, né?". Então a gente já levava o material. A gente já levava o dinheiro, né? Tinha que levar o dinheiro para comprar o material. Porque não ia adivinhar, né? Agora na casa do Senhor José Neto porque tinha um motorista dele lá que alguém falou que a comida fez mal, né? Então a mulher aí, então não tem mais comida para ninguém. Então tinha perua ia, e ficava o motorista lá e a partir de lá a gente ia almoçar, né? E aí quando foi um dia tinha um eletricista, coitado que disse que estava chovendo, né?Chegava a estar tremendo. E a empregada chegou e disse: "Eu vou fazer um prato e você come dentro do banheiro". Aí ele foi. Aí um dia, aí ela falou para mim: "O senhor quer almoçar?". Era dobradinha, né? E aí eu digo: "Ah, eu não quero não. Para depois ir no banheiro eu não vou". "Não, o senhor come aqui mesmo e isso e aquilo". Aí puseram e eu comi, né? E aí pegou a comida para mim. Mas eu dou razão o cara foi dizer que a comida fez mal para ele, né? Mas é boa a firma, viu? Pode fazer a prestação, porque é certo.

 

P1 - O que é que o senhor acha assim. O senhor que conviveu um pouquinho na casa da família, o que é que o senhor acha que é mais importante que a família passa para os seus funcionários, para os funcionários da Votorantim?

 

R - Como?

 

P1 - O que. Coisas da família que eles passam assim, os valores que a família tem e que eles passam para os funcionários da Votorantim. O que é que o senhor acha?

 

R - Ah, sei lá. Porque lá a mulher do Dr. Antônio, quando a gente chegava lá a gente sempre chegava 11 hora, 11 e meia, né? Porque a gente almoça 11 horas, né? Então 11 e meia a gente já tinha almoçado. E ela mandava a empregada perguntar. Sentamos e dissemos: "Já almoçamos". "Então dê café para eles". Isso eu vou te falar, viu?

 

P1 - Então isso é um respeito que eles têm? E isso é assim também na Votorantim?

 

R - Ah, é. Não tem esse negócio de a empregada ia lá e mostrava o serviço. Não ficava ali em cima, né? Então também não era todo mundo que ia, né? Não era todo mundo. Eu mesmo nunca, graças à Deus.

 

P1 - Nunca teve queixa?

 

R - Não.

 

P1 - Ninguém nunca reclamou de um serviço? Sempre fez direitinho?

 

R - Às vezes quando eu já estava querendo ir embora e é hora deles virem, às vezes eu dava uma escondidinha. Mas às vezes eles diziam: "Não, vamos aqui". E eu vinha mais ele. Mais o Dr. Antônio. Aí ele ia perguntando quantos filhos eu tinha, e meu aniversário. 

 

P1 - Então ele tinha confiança no senhor?

 

R - Tem. Eles quando têm confiança tem mesmo.

 

P1 - O senhor várias vezes então fez isso com o Dr. Antônio?

 

R - Ah, diversas vezes eu estava lá para vir embora e ele trazia.

 

P1 - E ele trazia o senhor?

 

P2 - E esse pessoal que trabalhou com o senhor desde o início. Como é que o pessoal convive aqui na empresa? Se vocês se encontram fora daqui da empresa. Vocês só se vêm aqui, tem um grupo de amigos. Como é que é isso?

 

R - Ah, eu saio daqui, vou para casa e pronto. Aí não vejo ninguém. Vou para casa e aí pronto. Só aqui mesmo.

 

P2 - E as festas? E as festas que têm aqui?

 

R - Ah, festa aqui quando era aqui na sete de abril nós não íamos não, viu? Porque aqui tem uns caras, dona, que eu vou te falar. Quando é durante o dia fala coisa que a senhora não fez, então eu deixei de ir. Agora essa que fizeram aqui no Hotel Fazenda, ainda tem gente que fala. Tem gente que fala mal ainda. 

 

P1 - Fala mal da festa?

 

R - Da festa. E nunca fiz uma festa dessa. Ou era aqui naquele restaurante, aqui na sete de Abril, né? Mas tem muita gente que até os próprios funcionários dizem que a senhora bebeu demais, que a senhora levou para casa na bolsa. Ninguém leva nem bolsa. Dizem que levou um bocado na bolsa. Agora lá não. Lá é bom, viu?

 

P1 - Mas o senhor que recebeu, o que é que o senhor contou para mim, o que é que o senhor recebeu a pouco tempo?

 

R  - Eu recebi a medalha.

 

P1 - Medalha.

 

R - Eu tenho duas medalhas.

 

P1 - Como é que são essas medalhas? Conta para gente. Então, conta para a gente por que é o senhor recebeu.

 

R - Eu recebi o mês passado aqui. Foi aqui mesmo. O Dr. Antônio. Eu tenho a foto dele me abraçando na foto. A medalha agradecendo, né? Os tempos, o que a gente faz pela Votorantim, isso e aquilo.

 

P1 - E são duas. Então primeira foi por quê?

 

R - A primeira foi de 10 anos. A segunda foi porque não tinham dado da de 20. Agora vai fazer 30. Agora não sei se vai dar. Mas é bonita a medalha. E ainda deu uma cartinha. Agora me deu o envelope semana passada da fotografia, né? Eu e ele dando a medalha, né? 

 

P1 - E o senhor ficou emocionado quando recebeu a medalha?

 

R - Não, eu estou acostumado. Ele passa lá às vezes segura a porta para ele, ele bate no meu ombro, bate na minha barriga, né? E fala: "É cerveja". E não é nada porque eu não tomo cerveja não. Ah, e ele me chama de Souza. Falar Souza ele sabe, né? 

 

P1 - E Senhor Souza, o senhor acha que assim, a Votorantim é muito importante para o Brasil?

 

R - Uma empresa dessa? Ô se é. É o homem mais rico daqui do Brasil é ele mesmo. Não tem outro não. 

 

P1 - E por que é que ela é importante para o Brasil?

 

R - É porque emprega muita gente. Muita e muita gente, né? E ele, quando chegava a ir embora ele sente. Ele sente. Só muito para mandar embora ele precisa e ele vai aguentando, aguentando e só quando não tem jeito. Agora vai investir não sei quanto, né? Daqui até.

 

P1 - E o senhor acha importante esse trabalho que a gente está fazendo sobre a memória da Votorantim?

 

R - Ah, é bom, né? Para dar uma lembrança, né?

 

P1 - E um causo? Um causo que tenha acontecido. Não contou nenhuma história para a gente.

 

R - História, história. Mas só história de trabalho só.

 

(PAUSA)

 

R - E eles já, já galinha e eu não gosto. Essas galinhas aí eu não sou chegado. Então olha, domingo eu comi feijão de corada com jabá. Eu tenho a minha comida.

 

P1 - Isso é saudade da comida lá da sua terra?

 

R - Da Bahia, é?

 

P1 - O senhor voltou lá na sua cidade?

 

R - Não. Agora depois que a minha mãe morreu, estou com três anos que não vou lá.

 

P1 - Mas depois já trabalhando na Votorantim o senhor voltou lá?

 

R - Ah, eu ia lá todo ano. Quando a minha mãe estava viva eu ia lá todo ano.

 

P1 - E o pessoal lá achava bacana o senhor trabalhar na Votorantim?

 

R - Ah acha. E eles falavam: "Olha o empregado do homem mais rico. Mais rico, né?". E aí temos uns, conhecidos meus que disseram: "Está vendo? Olha aí. Ele trabalha lá com o Antônio Ermínio. E todo mundo conhece lá na sua cidade? É porque eles têm, né? Eles têm em Salvador também. Eles têm em todo o lugar. Cimento mesmo. Em Salvador tem um cimento Aracruz deles. E tem uma fábrica de metalúrgica também.

 

P1 - Então, e o senhor estava falando um causo aí do trabalho. Conta um para a gente. Não aconteceu nada engraçado ou alguma coisa que tenho marcado?

 

R - Não. Engraçado? Tem não?

 

P1 - Nem triste então? Já que não tem engraçado?

 

R - Não. Também triste não tem não porque a gente trabalha e a gente ia fazer um serviço em dois três ia brincando ali, né? E faz o serviço, né? Mas também.

 

P1 - O senhor ensinou muita gente aqui, Senhor Souza?

 

R - Quando eu trabalhava de pedreiro eu ensinava. Eu falava para o cara e ele: "Ah, rapaz, que nada. Eu estou aqui em uma boa, eu faço a massa e boto aí para você, né?". E eu digo: "Rapaz, mas amanhã você vai ganhar mais, rapaz". E tem uns dois que aprenderam, né? Aprenderam sempre de me ver. E aí: "Está vendo, rapaz". 

 

P1 - E tem um segredo para fazer a massa?

 

R - É. Tem. Porque a massa tem que fazer de um dia para o outro. Porque lá eles. Porque eles carregavam porque na firma a Betoneira faz e então eles já tinham passado por cimento lá em cima. E aí quem levantou o cimento sobe no guincho. E aí quando ele vai pôr no lugar onde eles preparam para colocar o cimento, né? Porque já vem com cal e areia. Aí é que eles vão botar o cimento. E aí eles ficavam lá em uma boa, né? Ah, e tinha uns que iam, né? E tinham outros que: "Ah!". E teve uns que aprenderam. Eu tenho um cunhado meu que era sapateiro e hoje ele é pedreiro. Pedreiro.

 

P1 - Aprendeu com o senhor, não?

 

R - É. Comigo. Eu fazia a casa e deixava ele fazendo, né? Só que ele tinha medo de vir andando, né? Ah, uma vez aqui na Faria Lima tem um centro só médico ali. E então nós estávamos fazendo as colunas. Então o nosso negócio era subir o guincho. Ia subindo e então para descer era aquilo, sabe? Então entreguei hoje de tarde. E quando foi de manhã os caras iam descer para arrumar para outro lugar para  gente ir. Mas quando chegou mais ou menos do oitavo para baixo, aí o guincho desceu o balancinho. Um ficou dependurado e o outro desceu lá para fora. Morreu na hora. Eu trabalhava de pedreiro também com um cara, não sei, porque quando faz, faz aquele para não cair massa, né? E ele fez de um jeito um andaime lá me cima atrapalhado. E eu sei que esse andaime caiu e também morreu. O outro caiu com um pedaço de carne da cabeça até embaixo. E aí esse é triste, né? Esses são tristes. E eu já vi uns três, quatro. 

 

P1 - E o cimento da Votorantim? É bom mesmo?

 

R - É bom. O cimento é bom. Seca logo. É porque tem um preparo, né? E quando, ah, e tem um diretor aqui, eu me esqueci o nome dele, sexto andar do cimento, ele gostava de mim para caramba. Então: “Sua casa?”  eu dizia: "Que nada. Eu estou fazendo com Aratu! O cimento não presta!".(riso) 

 

P1 - Mas era brincadeira sua?

 

R - Era brincadeira. É porque ele brincava comigo, né? Era tanto que aos outros ele dava um corte e à mim ele mandava escolher. "Escolhe três aí Souza". E aí todo ano, né? E escolhia porque vinha brinde, né? De tecido por causa da fábrica e eu escolhi o melhor.

 

P1 - Ah, isso da fábrica de tecidos. Então eles davam?

 

R - Tinha muito brinde, né? Porque fim de cano eles davam brinde também. Então eu pegava muito. Tinha muita exceção. E a turma não gostava muito de mim. Então eu descia e: "Ô, você está pedindo por aí, né?". E o pessoal descia, ele descia com o pacote e isso e aquilo. E aí ficava aquela inveja, né? Inveja porque aí tem um monte de olho grande. Isso tem. E aí falavam que eu ia pedir, que eu saia pedindo. Mas não. Os caras gostavam de mim e me davam, né? Me chamavam e eu ia lá fazer o serviço. Ou então quebrava uma cadeira e eu ia trocar a roda, né? Uma mesa, gaveta. A chave, perdeu a chave, a chave quebrou. E tudo isso eu fazia, né? O Dr. uma vez mesmo, a gaveta dele, eu sei o segredo da gaveta dele, puxa e ela não sai. Então estava apavorado e então ligou para o Barros, então o Barros: “e aí para arrumar não, o Souza é o Souza. E aí eu fui, cheguei da rua e corri lá. Aí o Dr.: “preciso da gaveta para tirar a gaveta.” E aí eu tirei os pinhos lá, puxei e aí meteu a mão lá e tirou o pacote. E não sei o que é que estava na gaveta. Eu sei que ele deu até um suspiro. Era coisa importante, né? E daí eu torneio a botar no lugar e eu saí e fui embora. Às vezes ele vem: "Vamos ali tomar uma cerveja". E eu falo: "Mas eu não tomo cerveja não". Aí bota uma 50, né? Eles são muito bons. Dr. José também. Deus lhe chame.

 

P1 - Como é que era o Dr. José?

 

R - O Doutor José, se fosse na sala dele fazer o negócio, aí ele botava no bolso. Ele gostava muito da caixinha ele. O Dr. José era legal para caramba o Dr. José. 

 

P1 - Ele se preocupava bem com os funcionários?

 

R - Ah sim, sim. O que era o mais diferente assim era o Zé Neto. Mas a natureza dele que era assim, meio o tipo dele, né? Mas ele não é má pessoa. Uma vez mesmo deu um buraco “assim” onde a jogava água para a casa dele lá no Morumbi. E as bombas. Mas eu não sei o que é que houve que eu estava na casa do Dr. Emílio. Aí me telefonaram que era para eu ir na casa dele porque a casa da bomba alagou. Ei. E estava o poço cheio, e botou tudo lá embaixo. E aí disse que já tinha desligado, né? Quando eu cheguei cá, rapaz eu mandei chamar outra pessoa e agora? E aí eu mandei pedir uma bomba já uma bomba grande. E foi quando a gente rodeou ali e ficamos a noite toda. Tiramos a água, viemos aqui no outro dia cedo. Viemos aqui na Florêncio de Abreu, compramos outra bomba nova, colocamos, né? E sempre assistência nossa estava ali. O carro estava ali para o que a gente quisesse, né? Precisasse de qualquer coisa pra ir jantar, almoçar e o carro estava ali de prontidão. E a gente fazia o serviço e quando acabava se mandava. 

 

P1 - Senhor Souza, o que é que o senhor achou de dar entrevista para a gente?

 

R - É bom, né? Daquela outra vez tinha muita gente, né? Muita gente ali. E quando dá cinco e meia primeiro que sai sou eu. 

 

P1 - Ih, hoje não vai ser. 

 

R - Ih, hoje olha está vendo já é seis e tanto. Está seis e tanto já olha. E depois a condução fica ruim.

 

P1 - Ah, mas é importante, né? O senhor se aposenta agora dia 31 de dezembro?

 

R - Já aposentei em julho. E aí eu vou ficar até dezembro só.

 

P1 - E aí depois?

 

R - Mas aí tem gente esse Fianco. Olha, tem o Arlindo que fica lá no sete e que também é velho aqui. O João Barbeiro fica mas ele não é mais funcionário, não é mais registrado. Tem o Senhor Arlindo, Fianco, Epaminondas e eu dessa turma. Fora os diretores, né? Mas dessa turma aí só somos nós quatro. 

 

P1 - Se o senhor tivesse que deixar uma mensagem para a Votorantim, o que é que o senhor vai dizer no seu último dia de trabalho aqui?

 

R - Ah, eu vou agradecer o homem. Eu quero ir lá e agradecer a ele. (choro)

 

P1 - Mas senhor Souza, vai ainda aproveitar um pouco a vida, né? E seu Souza, está com filhos já todos trabalhando, né? Então. Tem os netos também, né?

 

R - Tenho uma de sete anos. Tenho uma menina de três e tenho uma menina de um mês. E tem a outra nora que vai ganhar o ano vem.

 

P1 - É. E tem um a caminho, né? Como é que chama a pequenininha?

 

R - É Isabela.

 

P1 - Isabela. E aí vai ser um pouco avô?

 

R - É.

 

P1 - Então está bom Senhor Souza. Muito obrigada por ter dado entrevista para a gente.

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