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História

"Que Deus dê saúde e felicidade"

História de: Joaquim Timóteo Borges
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Da Bahia para São Paulo, Joaquim Timóteo Borges trabalhou na Fazenda Cruzeiro, no interior do estado. Durante dezessete anos ficou internado no Sanatório Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes, porque tinha hanseníase; lá, fez muitos amigos e ainda os visita. Por quatorze anos trabalhou com jardinagem na Prefeitura Municipal de São Paulo. Em meio a tantas dificuldades passadas, hoje Joaquim é muito grato pelo carinho e cuidado dos filhos e netos para com ele e sua esposa, sempre confiando e acreditando nos planos que Deus tem para ele e para toda a família.

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História completa

P/1 – Primeiro eu gostaria de agradecer a presença do senhor. Bom dia! Pra gente começar eu queria pedir pro senhor dizer pra gente seu nome, local e data de nascimento. 


R – A data do meu nascimento é 15 de abril de 1921. 

P/1 – E o nome completo, pra gente deixar registrado? 

R – Joaquim Timóteo Borges. 

P/1 – E o local de nascimento? 

R – Jacaraci, estado da Bahia. 

P/1 – O nome dos seus pais? 

R – José Timóteo Borges e Carolina Dias da Silva. 

P/1 – Eles eram da Bahia? 

R – Sim, natural da Bahia, e já são falecidos. 

P/1 – O que os seus pais faziam? 

R – Os meus pais eram fazendeiros, criavam gado, tinham plantação. 

P/1 – E como eram estas plantações? 

R – Plantação de milho, feijão, arroz, mandioca. Criação de gado, porco. 

P/1 – Como eram os costumes da sua família? 

R – Era trabalhar sempre de cedo a de noite. Cuidar das criações, amansar boi no carro. Naquele tempo não existia caminhão nem automóvel, só tinha carro de boi e andar a cavalo. 

P/1 – Como era a casa que o senhor morava? 

R – Era casa grande, mesmo. Casa de oito cômodos. 

P/1 – O senhor tem irmãos? Quantos? 

R – Tenho. O mais velho chama Otaviano, Ana, Flora, Joaquim – que sou eu –, Maria e Pierina. 

P/1 – São seis. Como era a infância do senhor com estes irmãos? 

R – Uma família muito unida. Trabalhava sempre para o progresso da vida. 

P/1 – E como era este trabalho? 

R – Era trabalho na roça com enxada, foice, machado. Cortar madeira para fazer cerca. 

P/1 – Desde criança o senhor já trabalhava com isto? 

R – Quando a gente é pequeno vai cuidar das criações e quando cresce um pouquinho meu pai dava a enxada pra gente trabalhar na roça com os camaradas. 

P/1 – E todos os irmãos ajudavam? Como era a rotina? 

R – Todos os irmãos. Era roça de plantação de milho, feijão, mandioca. 

P/1 – Quando o senhor era menino o senhor ia pra escola? 

R – Não, naquele tempo lá não existia escola. Eu aprendi um pouco por força de vontade. Nem escola primária eu conheci. 

P/1 – E como foi isto? 

R – Meu pai pagou um compadre dele para dar aulas para nós três, em casa. Depois não deu mais, aí a gente conseguiu aprender por força de vontade; cheguei na quarta série assim. Ia na casa de um padrinho meu que ensinava a gente de vez em quando, aí eu aprendi até a fazer contas, ler, escrever e contar. Mas foi deste jeitinho. Não tinha escola naquele tempo. 

P/1 – E como foi a sua vinda pra São Paulo? 

R – A vinda pra São Paulo foi o seguinte: em 1950 eu vim pra São Paulo com a mulher e dois filhos. Chegando em São Paulo, passei pela imigração e fui para o interior, uma cidade chamada Martinópolis; lá ajustei em uma fazenda, com nome Fazenda Cruzeiro, cujo dono era Vicente (Ferravico?), e lá eu fiquei doente, então deixei a mulher e dois filhos na casa de uma irmã, que morava na mesma fazenda e vim pra São Paulo pra tratamento. Chegando em São Paulo, fui internado no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas, onde eu fiquei dez meses em tratamento. Quando eu recebi alta do Hospital das Clínicas era véspera do quarto centenário, aniversário de São Paulo. Naquele tempo Doutor Jânio Quadros era prefeito, estava ajustando gente pra trabalhar na prefeitura; eu passei em todos os exames e comecei a trabalhar como jardineiro. O primeiro serviço que eu fiz na prefeitura foi a reforma do gramado do Vale do Anhangabaú, que foi derrotado pela festa do quarto centenário. Continuei trabalhando na prefeitura durante quatorze anos. Depois que comecei a trabalhar, mandei vir a família do interior, a mulher e os dois filhos. Comprei um terreno em Osasco, fiz uma casa e continuei morando em Osasco e trabalhando em São Paulo no serviço de jardinagem, durante quatorze anos que eu trabalhei na prefeitura. Aí eu fiquei doente, me internaram no hospital, no sanatório Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes. Eu fiquei em tratamento lá muito tempo e, depois que recebi alta, vendi a casa de Osasco, comprei outra em Mogi e continuei morando lá. Depois, há oito anos, começou uma enfermidade nesta perna, eu fui internado no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera. Eu continuei lá e os médicos descobriram câncer no ferimento, que não sarava. Era obrigado a amputar a perna e passei a andar na cadeira de rodas, e continuei morando no mesmo município. Quatro meses atrás a minha esposa sofreu derrame, ainda está, virada pela mão dos outros na cama, alimentada por sonda. Eu nesta idade avançada ainda me sinto feliz porque com 89 anos de idade – pai de cinco filhos, avô de dez netos e treze bisnetos – ainda me acho feliz porque eu e a minha esposa, até a data presente, fomos muito bem cuidados pelos meus filhos e netos. Graças a Deus essa é a história minha em São Paulo. 

P/1 – Mas a gente ainda vai voltar um pouquinho. Por que o senhor veio pra cá em 1950? Até esta data como era? Como o senhor conheceu a sua esposa? 

R – A minha esposa cuidava da casa e dos filhos. 

P/1 – Mas como o senhor a conheceu? 

R – Por intermédio de uma madrinha que morava na cidade. A minha madrinha falou: “Tem umas moças pro mo de você escolher uma pra casar”. Era filha de um compadre dela. Aí encontremos lá, agradei de uma e casei com ela. 

P/1 – Mas foi na cidade? 

R – Ela morava na fazenda. 

P/1 – Era perto de onde o senhor morava? 

R – Eu morava na fazenda também, mas no município de Jacaraci. A cidade de Jacaraci. Então nós nos encontramos na cidade, na casa da minha madrinha, afeiçoamos cada um e aconteceu de casar e produzir família. Graças a Deus. 

P/1 – Como foi namoro? 

R – O namoro foi assim: duas, três vezes que a gente se viu e casou. Não tem este negócio de hoje que fica namorando muito tempo pra casar, não. 

P/1 – Mas antes dela o senhor tinha um grupo de amigos que o senhor saia? 

R – Tinha muitos amigos. 

P/1 – O que vocês costumavam fazer? 

R – Eu fui na fazenda do velho só duas vezes. Depois nós casamos. 

P/1 – Na infância, quais eram os seus passatempos preferidos, as brincadeiras? 

R – Não tinha brincadeira. Lá era só trabalhar e de noite dormir. 

P/1 – Seu Joaquim, tinha o costume de contar histórias a noite?

R – Às vezes tinha festa lá. Por acaso, uma festa de casamento, a gente ia, mas era uma vez ou outra, não era sempre. Não é que nem aqui que tem cinema, tem um tanto de divertimento. Lá não tinha isso. Lá é só trabalhar e... Só isso. 

P/1 – Como eram essas festas? Vinha todo mundo? 

R – Nas festas de casamento reunia todo mundo; o pai da noiva dava almoço ou janta pro pessoal. Ia na cidade, fazia o casamento, voltava e continuava a festa até o dia amanhecer. 

P/1 – Como foi a viagem para São Paulo? Como o senhor veio? 

R – Para mim foi uma viagem sofrida, porque eu fui para o interior trabalhar na roça como era lá na Bahia, plantar algodão, e depois eu fiquei doente, vim pra São Paulo, me internei no Hospital das Clínicas. A minha vida foi inteira em sofrimento. 

P/1 – Mas e a viagem? O senhor fez de trem? 

R – Foi boa. Eu vim bem. Logo que cheguei em São Paulo me internei no Hospital das Clínicas, fiquei dez meses em tratamento. Depois que eu recebi alta, entrei no serviço municipal da Prefeitura. O resto foi da festa do quarto centenário. Continuei quatorze anos trabalhando na prefeitura. 

P/1 – Mas o senhor veio para São Paulo por algum motivo. Por que o senhor resolveu vir para São Paulo? 

R – Do Norte eu vim pra cá, do estado da Bahia pra cá, passei pela imigração e fui direto pra Martinópolis, pra fazenda. 

P/1 – Mas por que o senhor quis vir? O senhor decidiu por qual motivo? 

R – Não, também lá que eu fiquei doente e fui fazer tratamento no Hospital das Clínicas. 

P/1 – Foi por isto que o senhor veio. Aí o senhor foi primeiro para essa cidade? Como foi isto? 

R – Da fazenda de Martinópolis eu deixei a mulher e dois filhos na casa da minha irmã que morava na mesma fazenda. E eu vim pra São Paulo. Cheguei aqui e fui internado no Hospital das Clínicas pelo Pronto Socorro. 

P/1 – E qual a diferença da fazenda aqui em São Paulo e da fazenda lá da Bahia? 

R – Muita diferença, aqui tem muitas máquinas pra trabalhar e lá era tudo no braço, não tinha trator, não tinha negócio de arado pra arar a terra. Tudo era na enxada, na mão. 

P/1 – E como foi mexer com estas máquinas? 

R – Chegando aqui aprende a trabalhar com as máquinas. 

P/1 – E os seus filhos, nasceram na Bahia? 

R – No estado da Bahia. No alto sertão. É bem longe de Salvador. 

P/1 – E como foi a paternidade? Como foi ter o primeiro filho? 

R – Meus pais eram bem de vida; tinha muito gado, muita criação, criação de porcos. Trabalhava na roça pra alimentar a criação. Bom pasto, bom gado. Cuidava de engordar porcos. A vida era assim: trabalhar muito e passear nada. Nada ele passeava. 

P/1 – Quando o senhor casou, como que foi? 

R – Quando eu casei continuei na mesma vida: trabalhando na roça. 

P/1 – Era na mesma fazenda. 

R – Na mesma fazenda. Depois que eu tinha dois filhos é que vim pra São Paulo. 

P/1 – Como foi ter seus filhos lá? 

R – Não, eu cheguei em São Paulo, passei pela imigração e fui para o interior trabalhar na roça. 

P/1 – E eram dois meninos? 

R – Era um casal. Um homem e uma mulher. Tinham dois e quatro anos quando eu vim pra cá. 

P/1 – Como é o nome deles? 

R – João Timóteo Borges e Maria de Lurdes Borges. 

P/1 – E este departamento de migração... Explica pra gente como funcionava. 

R – No Brás. Entrava o pessoal que vinha da Bahia em um dia, no outro eles mandavam para o interior, para as fazendas. 

P/1 – Eles direcionavam pra onde o senhor ia? 

R – A gente escolhia a fazenda que queria ir. Já conhecia, tinha algum parente lá, algum conhecido... Então você pedia: “Quero ir pra fazenda fulano de tal”. Foi assim que aconteceu comigo. Eu queria ir pra Fazenda Cruzeiro, onde já morava uma irmã minha. 

P/1 – E qual foi a primeira impressão de São Paulo quando o senhor chegou com a esposa e os dois filhos? 

R – Em São Paulo, aquele tempo não tinha o sufoco que tem hoje. Não tinha nem a metade dos carros e do pessoal que tem hoje. Eu cansei de ver no Largo da Concórdia bêbado de pinga deitado na calçada com um relógio no braço, ninguém mexia com ele; agora os assaltantes estão assaltando bancos, invadindo a delegacia pra soltar os presos. Está uma derrota muito grande em vista daquele tempo. 

P/1 – E o que o senhor achou da cidade? 

R – Naquele tempo tinha o lampião de gás, não tinha iluminação pública na rua, então os empregados da Prefeitura todo dia, às seis horas da tarde, penduravam um lampião em cada esquina e amanhã, às seis horas da manhã, recolhiam. E o lixo da cidade era recolhido em carroça, com burros. Quando entrou Jânio Quadros ele aposentou os burros e mandou vir caminhão basculante, caminhão de lixo, estas coisas. O progresso de São Paulo foi feito por Jânio Quadros. O Hospital do Servidor foi ele que fez quando era governo. Quando era prefeito fez o Hospital lá da Prefeitura, lá na... Esqueci o nome da rua. Eu sei que ele progrediu São Paulo muito, quando ele foi prefeito e governo, o Jânio Quadros. Para mim foi o maior político de São Paulo. 

P/1 – E o senhor falou que trabalhou com jardinagem. Como era mexer com as plantas? 

R – Fazer praças e plantar flores, plantar grama. Tudo isto é que é serviço de jardim. 

P/1 – E o senhor falou do primeiro serviço. Teve algum que chamou mais atenção? 

R – O encarregado às vezes chamava a atenção: “É, você não fez o serviço direito, faz assim”. Ensinava a gente a fazer, e eu aprendi. Fiquei quatorze anos na Prefeitura. 

P/1 – Fazendo sempre o mesmo serviço? 

R – É, todo serviço de jardim na Prefeitura. 

P/1 – O senhor falou que teve cinco filhos. 

R – Cinco filhos, dez netos e treze bisnetos. 

P/1 – O senhor veio para São Paulo com os dois mais velhos. Conta quando vieram os outros três. 

R – Continuou. De dois em dois anos nascia um. 

P/1 – E qual o nome dos três mais novos? 

R – O mais novo tem cinquenta anos. 

P/1 – Cinquenta anos. 

R – José Timóteo Borges Neto. 

P/1 – Faltam mais dois. 

R – Alaíde Alves Borges, Sonia Alves Borges e o último José Timóteo Borges Neto. 

P/1 – E como era a casa do senhor com toda essa moçada? 

R – Eram cinco cômodos, três quartos, sala e cozinha. 

P/1 – E onde ficava? 

R – No bairro de Osasco. Agora eu moro em Mogi das Cruzes. No término dos 14 anos do serviço na Prefeitura, que eu fui internado lá em Mogi das Cruzes em um sanatório, chamava Santo Ângelo, hoje é Hospital Doutor Arnaldo. Aí vendi a casa de Osasco e mudei pra lá. Fiquei muito tempo lá em tratamento, vendi em Osasco e comprei lá. Estou morando lá agora. 

P/1 – Nesta época o senhor morava sozinho. Quando o senhor foi internado o senhor foi sozinho? 

R – Fui sozinho. A mulher ficou morando em Osasco com os filhos. E então, eu fiquei lá em tratamento, de vez em quando eu pegava uma licença pra vir em casa e voltava. Quando eu recebi alta eu vendi a casa e levei a mulher pra Mogi. 

P/1 – Quanto tempo o senhor ficou lá? 

R – Dezessete anos. 

P/1 – Como era este lugar? 

R – O tratamento lá era para hanseníase. Naquele tempo só entrava maiores de dezoito anos, porque o pessoal tinha medo da doença. Eu continuei o tratamento; de vez em quando pegava uma licença e ia pra casa. Só depois que recebi alta é que trouxe a mulher. 

P/1 – E como eram estes momentos de alta, quando o senhor ia pra casa? 

R – Tinha tantas horas para ir em casa e voltar. 

P/1 – E como era chegar em casa com todo mundo ali? 

R – O movimento de casa era o mesmo de sempre porque ninguém tinha medo da doença. O pessoal de fora tinha medo da doença, mas o pessoal de casa, até hoje – eu fui internado lá em 1966 – nunca separei a cama e a minha mulher é de saúde até hoje. Há quatro meses ela sofreu um derrame e está prostrada na cama, virada pela mão dos outros e sustentada por sonda; mas está sendo muito bem tratada, graças a Deus. 

P/1 – E como foi a notícia do primeiro neto? 

R – Os primeiros netos é como se diz, tem mais carinho com os netos do que com os próprios filhos. Acho que todos eles são assim, os avós dão mais carinho para os netos do que para os próprios filhos. 

P/1 – E a notícia dos bisnetos? 

R – É carinho também, porque é um pedaço da gente mesmo. Então, quando nascia um a gente ia lá; fazia uma festinha. A cada dia de aniversário a gente faz um bolinho para agradar a criança. E assim vai vivendo. 

P/1 – E além do trabalho com jardinagem o senhor trabalhou com mais alguma coisa? 

R – Tem uma parte que eu esqueci de falar. Há oito anos, que eu sofri esta enfermidade na perna, internei no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, e os médicos descobriram câncer no ferimento e tive que amputar a perna. Foi quando eu amputei a perna e passei a andar na cadeira de rodas. 

P/1 – O senhor contou que trabalhou quatorze anos na Prefeitura. Isto foi de 1954 a 1968, mais ou menos? 

R – Me internei no sanatório em 16 de maio de 1966. 

P/1 – E o senhor ficou lá por dezessete anos. Quando o senhor saiu de lá como que foi? 

R – Cada fim de semana os médicos davam licença para ir em casa e voltar. 

P/1 – E quando o senhor saiu definitivamente de lá, como foi? 

R – Eu saí de lá em 1984. Voltei pra casa e continuei morando lá. Vendi a casa em Osasco e levei a família para lá. 

P/1 – O senhor voltou a trabalhar? 

R – Eu aposentei, não precisou mais trabalhar. E andando em cadeira de rodas como ia trabalhar? 

P/1 – E o convívio no sanatório? Moravam muitas pessoas lá? 

R – Quando eu fui pra lá tinha umas três mil pessoas. 

P/1 – Como era o dia-a-dia? 

R – O dia-a-dia era tomar remédio, almoçar, jantar e dormir. Tinha um cinema lá também; passava filme. Eu só ia quando era filme de Tarzan, quando era outros filmes engraçados. Mas filmezinho ruim eu não ia. A entrada era 500 réis; falava naquele tempo 500 réis, hoje são 50 centavos. 

P/1 – O senhor lembra de algum amigo que fez lá? 

R – Não, ali a pessoa passava o tempo lendo, escrevendo, fazendo algum servicinho. Eu cuidava do serviço de alimentação do pessoal. Era um salão grande; cabiam 200 pessoas pra lotar. E tinha outro menor que tinha setenta, do lado das mulheres, porque tinha homem e mulher internado lá. Havia o pavilhão das mulheres e o pavilhão dos homens. Lá tinha jogo de bola, a turma se divertia; todo domingo tinha jogo de bola lá dentro. Antigamente tinha muito preconceito da doença, depois foi legitimado que não tinha problema, que a doença não é “pegativa”. Agora, maldito aquele que pega, não solta mais. 

P/1 – E o senhor ouvia música lá? 

R – Ouvia música, tinha rádio, tinha televisão. 

P/1 – Que tipo de música o senhor ouvia? 

R – Eu gostava da música caipira, moda de viola. 

P/1 – E vocês jogavam cartas, dominó? 

R – A gente se divertia lá, jogava baralho, jogava dominó, pra passar o tempo. Naquele tempo tinha muita gente, depois que tomaram conhecimento que a doença não é “pegativa”, hoje o hospital lá não é sanatório, é Hospital Doutor Arnaldo; interna qualquer tipo de doença e tem ala reservada para os aidéticos. O restante dos doentes que ainda mora lá dentro – tem gente lá com setenta anos, com cem anos – é uma vidinha que a turma trata de colônia dos hansenianos. 

P/1 – Daquele tempo que o senhor morou lá, ainda tem gente que mora? 

R – Tem. Ainda tem gente. 

P/1 – O senhor voltou lá? 

R – Eu sempre vou lá passear; rever os amigos que moram lá. Tem amigo meu que mora lá há mais de setenta anos. 

P/1 – Como é quando o senhor vai lá? 

R – Eu fico pensando assim: “Como eu fiquei tanto tempo aqui e agora estou voltando em uma cadeira de rodas?”. Eu vou lá, meu genro me leva, que eu vou rever os amigos em uma cadeira de rodas. Depois ele me põe no carro e leva pra casa. 

P/1 – E como era o espaço? Eram várias casas? 

R – Tem muitas casas. Tem rua, o nome das ruas, tem cinema, tem tudo lá. Agora o cinema não funciona mais porque não tem mais o tanto de gente que tinha antigamente; o cinema não funciona mais, mas o prédio do cinema está lá. 

P/1 – Era como se fosse uma cidade. 

R – É, Santo Ângelo, a cidade de Santo Ângelo virou Hospital Doutor Arnaldo. 

P/1 – O senhor lembra de algum amigo especial que o senhor fez lá? 

R – Vou rever os amigos de vez em quando. Eles vão na minha casa, a gente joga dominó. 

P/1 – Tem algum nome? 

R – Eu sinto muito que a mulher está de cama; faz quatro meses que ela só se alimenta com sonda. Agora, com a idade avançada que tenho, com tanto sofrimento na minha vida, ainda me sinto feliz porque eu e minha esposa somos muito bem cuidados pelos filhos e netos. Graças a Deus. 

P/1 – Eles moram em Mogi também? 

R – Tem uma que mora em Mogi, dois moram em Osasco, a outra mora em Campo Limpo Paulista, perto de Jundiaí. E o primeiro filho Deus levou; morreu primeiro, só ficaram quatro: três mulheres e um homem. 

P/1 – Como que aconteceu? Faz tempo que ele faleceu? 

R – O João faz oito anos que faleceu; ele faleceu no fim do ano, no outro ano eu amputei a perna. Ele faleceu dia 30 de setembro de 2000 e eu amputei a perna dia 2 de agosto de 2001. 

P/1 – Quantos anos ele tinha? 

R – Cinquenta e quatro anos. 

P/1 – E ele tinha filhos? 

R – Tinha filhos e neto. 

P/1 – E os seus filhos fazem o quê? 

R – O que faleceu trabalhava de motorista de praça e a mulher dele é funcionária pública. 

P/1 – E a Maria? 

R – A Maria de Lurdes tem a aposentadoria do marido que faleceu. Ela vive da aposentadoria do marido e cuida de nós também. 

P/1 – E os outros filhos, o que eles fizeram? 

R – Todos são aposentados. O genro que mora pertinho é aposentado. O caçula, que está com 50 anos, trabalha na Cidade Universitária, é funcionário lá da Cidade Universitária. 

P/1 – E a sua relação com os netos e bisnetos? O senhor gosta de contar histórias para eles? 

R – Conto história do tempo antigo. Eles estão na escola agora, estão estudando. É nova época agora, não é como naquele tempo que eu fui criado. 

P/1 – O que o senhor gosta de contar para eles? 

R – Eu aconselho eles pra estudar, fazer faculdade, pra seguir carreira, porque hoje em dia quem não tem faculdade não ganha nem para as despesas de casa. A neta que casou em agosto é professora, mora lá perto, na mesma cidade, Mogi das Cruzes. Este meu neto que me trouxe aqui trabalha em uma companhia inglesa, chama ___, ele é funcionário lá há muito tempo, trabalha em serviço de computação. 

P/1 – E os menores, o que o senhor gosta de contar para eles? 

R – Eu conto como fui criado antigamente, não tinha negócio de brinquedo, nós fazíamos brinquedo com a própria mão. (risos) 

P/1 – Que brinquedos o senhor fazia? 

R – Eu fazia carrinho igual ao carro de boi, o brinquedo era este. As mulheres faziam as bonequinhas de pano. Não tinha fábrica de brinquedo que nem tem aqui. Aí faziam as bonequinhas, as mães ensinavam a fazer a roupinha da boneca e assim elas aprendiam a costurar também. 

P/1 – Carrinhos, que o senhor falou, como eram feitos? 

R – As mães das crianças ensinavam a fazer a boneca e faziam as roupinhas das bonecas; neste meio tempo as crianças começavam a aprender a costurar. Eu tenho uma irmã que mora em Santa Bárbara que faz roupa, camisa, calça; ela faz tudo, costura na máquina. 

P/1 – E os carrinhos, como são? 

R – Cortava os pedacinhos de pau e fazia igual faz o carro de boi. Aí puxava com um cordão. 

P/1 – Isso tudo lá na fazenda. Então tinha brincadeira também. 

R – Aquele tempo era muito diferente de hoje. Hoje, até lá onde fui criado, eu pensava que nunca vi negócio de luz elétrica, estas coisas, hoje em dia tem tudo; tem hospital, alojamento para o pessoal na cidade, tem banco que não tinha aquele tempo, tem luz elétrica nas fazendas. 

P/1 – O senhor voltou lá? 

R – Não, tenho uma irmã que mora lá. Então ela telefonou pra mim, mandou o telefone dela, eu liguei para ela, ela liga pra gente. 

P/1 – E o senhor não voltou pra lá. 

R – Eu fui lá em 1965. 

P/1 – Como que foi? 

R – Em 1965 não tinha tanta coisa como tem hoje. 

P/1 – Mas estava diferente. 

R – Já estava diferente. Tinha a estrada de rodagem pra vários lugares, no tempo que eu vim pra cá não tinha. Hoje já tem hospital na cidade, que não tinha hospital, hoje tem. Tem banco do Brasil. As pessoas se aposentam lá, tem fundo rural; minha irmã é aposentada pelo fundo rural. Ela tem luz elétrica em casa, tem televisão, com dinheiro da aposentadoria. 

P/1 – E o senhor sente muita falta? 

R – Eu tenho muita vontade de ir lá, mas agora do jeito que estou, na cadeira de rodas, dá pra ir, mas eu não tenho aquele prazer que tinha antes, que eu podia andar nas casas de um e de outro. Agora tem que dar só meia e voltar. Porque tem um ônibus de São Paulo pra lá, todo dia corre pra lá; tem lugar para deficiente. Não tem graça pra viajar. Um lugar que eu conhecia fazendas em vários lugares e agora não posso ir em todas. Só pra chegar, agradar a minha irmã e voltar. Pouco interessa. 

P/1 – Tem alguma coisa que o senhor sente falta de lá? 

R – Só sinto falta dos meus parentes, conhecidos, como a minha irmã. Agora tem uma lá na Bahia, uma em Santa Bárbara e tem uma em Rondônia. 

P/1 – Mas da vida na fazenda o senhor não sente nada especial? 

R – Todos estes foram nascidos e criados na fazenda. A minha irmã mora na cidade, trabalha de costura, agora não trabalha mais, aposentou. A outra que mora em Rondônia não sei o que ela está fazendo, porque faz tempo que ligo pra lá e não consigo ligação; não sei se mudou o número de telefone, qualquer coisa, deve ser. A da Bahia mandou o número do telefone; eu escrevi pra ela uma carta e ela mandou o telefone de lá. Tem um neto dela que mora aqui em São Bernardo. 

P/1 – Eu queria saber o que para o senhor é o mais importante de todo este percurso da tua vida. O que o senhor considera mais importante? 

R – Hoje o mais importante pra mim é que meus filhos todos cuidem de mim, filhos e netos. Cuidem de mim e da minha esposa. O mais importante pra mim hoje é isto, porque eu não posso trabalhar, não posso andar; vou a um lugar levado por alguém. Eles estão aí pra me levar pra onde eu quiser ir. Meu neto –este que me trouxe aqui é neto – mora lá perto de mim, na mesma cidade, e a irmã dele é professora. 

P/1 – Como é o seu dia-a-dia hoje? 

R – Meu dia-a-dia hoje é só ligar para os meus filhos, para os netos, almoçar, jantar, tomar os remédios na hora certa pra pressão. O velho tem alta pressão. A vida é esta. Só vai a algum lugar se alguém levar. Não saindo de casa tem que ficar em casa mesmo, do quarto pra cozinha, da cozinha pra sala, sai na garagem e volta pra dentro. Não tem pra onde ir. A rua lá é muita descida, não dá pra andar de cadeira de rodas, só levado por alguém. 

P/1 – Você falou que tem algumas visitas que vão à sua casa. 

R – Os vizinhos vão sempre à minha casa. Tem uma moça que trabalha na cozinha, lava roupa. Tem enfermeira das sete às sete, da manhã à noite pra olhar a minha velha. Tem cama hospitalar lá em casa; quarto está reservado só pra ela. Meu sentimento maior é este aí, ver a pessoa que a gente mais estima alimentada por sonda. Enfermeiro dia e noite em casa. O médico cada quinze dias vai, vai a terapêutica, vai a Mônica. É tanta gente que vai em casa. A terapêutica vai cinco dias por semana fazer terapia nela; faz quatro meses que ela não melhora nada. 

P/1 – Quais são os sonhos do senhor hoje? 

R – Meu sonho é pedir a Deus saúde pra ela, que Deus tire ela deste leito de dor, eu peço todo dia. Que Deus tire ela do leito de dor, de um jeito ou de outro, sendo feita a vontade dele e não a minha; a minha seria dela sarar e voltar ao normal como era antes, mas Deus sabe o que faz e nós não sabemos o que diz. Não é verdade? 

P/1 – E como foi o senhor vir contar a sua história pra gente? 

R – O meu neto que me trouxe, falou que a rádio dava entrevista para as pessoas contar a sua história, então eu cheguei pra isto. 

P/1 – E o senhor gostou. Tem mais alguma coisa que queria falar, que o senhor está lembrando agora? 

R – Isto que eu já falei. Acho que já chega. Se eu for contar a minha vida de quando eu era criança até hoje, o dia inteiro não dá. 

P/1 – Mas tem alguma história interessante que está faltando que o senhor está lembrando?

R – Eu sofri muito. Sofri ataque epilético, sofri febre tifoide, sofri maleita. Tudo isso foi sofrimento e enfrentamos tudo isso para hoje eu achar nesta situação, na cadeira de rodas, a mulher na cama. E alta, como eu falo? Com a idade avançada. Só espera o dia que Deus chama. 

P/1 – Por outro lado tem toda esta família dando uma força. 

R – Eu só tenho a satisfação de que eu e a minha esposa somos muito bem cuidados pelos filhos e netos. Graças a Deus não falta medicamento, não falta tratamento para nós. 

P/1 – O Museu da Pessoa agradece a presença do senhor. Vamos lá fora ver as fotos. 

R – Eu agradeço a entrevista de vocês, agradeço meu neto que me trouxe aqui e todos os outros que ficaram em casa. Que Deus dê saúde e felicidade. E espero a Deus, que Deus sabe o que faz com a minha esposa, tirar ela deste leito de dor.

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