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História

Quarto de século

História de: Jechonias Alves Peixinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2005

Sinopse

Jechonias passou a infância em Monte Santo, interior da Bahia. Trabalhou na lavoura e criação de vacas e cabras. Relata suas impressões sobre a cidade de quando imigrou para São Paulo. Seu primeiro trabalho foi como cobrador de ônibus. Posteriormente atuou como eletricista e rolador de motores na Servix Engenharia Ltda; ingressou na Lorenzetti em 1948.

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História completa

P - Para iniciar diga o seu nome, local de nascimento e a cidade onde nasceu.

R - Jechonias Alves Peixinho. A outra coisa o que era?

P - Cidade onde nasceu.

R - Monte Santo, estado da Bahia.

P - Quando nasceu?

R - Dia 27 de junho de 1919.

P - Qual era o nome dos seus pais?

R - Arnaldo de Souza Peixinho e Maria Alves Peixinho.

P - A cidade aonde nasceu, Monte Santo, fica em que região da Bahia?

R - Fica no centro-norte da Bahia, no sertão mesmo.

P - E é uma cidade pequena?

R - Pequena.

P - Passou toda a infância lá?

R - Passei, vim para cá com 20 anos e uns poucos meses. Morava na roça mas sempre ia às festas, lá sempre tem festa, fim de ano, Dia de Ano. Novembro tem festa de Todos os Santos, sempre nesses dias o pessoal ia para lá. Tem aquela igreja lá em cima do monte, tem umas capelinhas, vai subindo e passando por umas 25 capelas até chegar na igreja lá em cima no monte, mas é perigoso porque é pedra, perigoso até de cair, tem muita gente que cai, que escorrega.

P - Morava num sítio?

R - É.

P - Como era morar num sítio?

R - Sítio, vida de sítio é assim. Lá não tinha eletricidade, tinha que ser tudo no fifozinho, para cozinhar tinha que ser com lenha. A gente não tinha muito o que fazer, diversão não tinha mesmo, a gente trabalhava, tinha que trabalhar na roça atrás dos bichos, quando era tempo que faltava água tinha que ir dar água para os animais. Quando às vezes a gente ia passear nas outras fazendas a gente ia montado a cavalo. A vida de sertão é essa. Às vezes, assim domingo que a gente não trabalhava, ia para a casa dos vizinhos, conversava. Às vezes tinha alguma namorada, ficava por ali mesmo, bate-papo, mas não tinha distração, não tinha nada. Serviço de quem mora, não sei se vocês já moraram ou já passaram algum tempo no sítio, em roça, serviço de roça é sempre aquele mesmo, o camarada é, como diz, tem que trabalhar no cabo de enxada, quando não está trabalhando na enxada está cuidando dos animais. E assim foi a minha vida, não teve divertimento no sertão. Naquele tempo não tinha nada, era só trabalhar e passear na casa dos vizinhos.

P - Eram quantos irmãos em casa?

R - Nós estávamos, quando vim de lá já estava, o meu pai casou duas vezes. Do primeiro casamento tinha eu e uma irmã. Depois vim para cá, essa minha irmã já era casada, ela já faleceu. Da outra mulher acho que tinha uns quatro só, depois vieram mais sete. Esses, quando eu estava para cá nasceram lá, depois conheci todos. Tem oito que moram aqui agora, e os três mais ainda estão lá.

P - E quais eram as brincadeiras que faziam na infância, que tipo de brincadeira?

R - Brincadeira, a gente brincava de, aqueles negócios, lá tem umas bolinhas de gude, vocês conhecem? A gente brincava com aquilo. Outras vezes era jogando dominó, brincava com os ossinhos de gado, do boi e da vaca, tem uns ossinhos bonitinhos assim, a gente fazia brincadeira falando que era um curral, aqueles ossinhos ali dentro, isso quando era mais pequeno, era menor. Quando a gente foi crescendo fui deixando aquilo lá para os outros menores. Mas distração não tinha mesmo, não tinha missa, não tinha nada porque não tinha capela. Agora já tem capela lá, já melhorou bem.

P - E o seu pai plantava o quê?

R - Plantava feijão, milho, mandioca, o que dava lá era isso, melancia. Quando chovia bem, porque tem tempo que não chove mesmo, ainda não dá para plantar nada. O Nordeste é seco mesmo, todo mundo sabe. A vida do Nordeste é dura.

P - Pegou secas assim muito duras?

R - Peguei, peguei uma seca em 33 que faltou água para a gente lá e eu tinha que buscar água com duas léguas ou dois quilômetros, como queira, em lombo de jumento. Fazia uns, chamava barril, não sei qual era o nome certo, um do lado e do outro para por na cangalha e a gente ia buscar água para beber. Para os bichos às vezes tinha um poço que tinha água salgada mas eles bebiam assim mesmo. Foi um tempo, em 33 foi duro. Daí para cá vim embora, teve também outras secas, mas não passei lá, passei por aqui.

P - Chegou a estudar lá, fazer alguma escola?

R - Tinha escola mas era escola de professor do sertão mesmo, meu pai mesmo dava aula, aprendi um pouquinho com ele também, não tive assim um curso de primeira série até oitava, não tive. Sei um pouquinho mais com o meu esforço mesmo, mas escola mesmo quase nunca freqüentei, naquele tempo era difícil, agora já tem professor também.

P - Aonde seu pai nasceu?

R - Nasceu mesmo lá na fazenda que se chamava Fazenda Junco, vizinha da Fazenda de Ipueira, casou-se com a moça de Ipueira, que foi a minha mãe.

P - Ele trabalhava na roça ou tinha outra atividade?

R - Sempre na roça, depois é que começou a dar aula para as crianças de outras fazendas.Quando o tempo não estava para trabalhar, ia dar aula.Às vezes ele punha empregado para trabalhar na roça. Mas não tinha outras atividades, não tinha.

P - Não chegou a trabalhar em outra profissão lá, só na roça mesmo?

R - Só na roça.

P - Como era o cotidiano na roça? Acordava de manhã e o que fazia?

R - A gente acordava cedo que tem vaca para tirar leite, a gente ia para o curral, tirava leite das vacas, soltava, as vacas iam embora. E depois ia tirar leite de cabra, tirava leite das cabras, levava as cabras embora e ficavam os cabritinhos trancados. E depois a gente ia para a roça, aí ia plantar ou limpar a terra, a gente plantava feijão e milho, quando já estava grandinho precisava tirar aqueles matos e com a enxada, a gente chamava dar terra nos pés das plantas, mandioca. E assim, quando era tempo de, e a noite sabe como era? Tem que ter lua, ficava no terreiro assim com o pessoal conversando, sabe o terreiro? Não era terreiro de macumba, não, (riso) esse terreiro na fazenda usa muito, a pessoa fica ali, quando é tempo de lua às vezes é calor, fica assim batendo papo até meia-noite e depois vai embora, cada um vai embora para a sua casa, era divertido. E depois ia dormir, dormir numa rede, eu dormia em rede até quando vim para cá.

P - Outras famílias moravam na fazenda também?

R - Ah, muitas famílias, hoje tem mais casas do que na época em que eu morava, já está virando uma cidade.

P - Mas virou distrito de Monte Santo?

R - Já era município de Monte Santo.

P - Mas tem algum nome esse distrito?

R - Distrito de Monte Santo mesmo, pertence ao município de Monte Santo, já fizeram outra cidadezinha mas não passou, a cidade ainda chama-se Pedra Vermelha, já tem telefone lá e televisão também, já tem porque tem luz elétrica.Fica distante 12 quilômetros de onde morei, de onde nasci.

P - Essa fazenda era do seu pai?

R - Bom, cada um tinha a sua parte e cada um criava os animais, gado, criação, tinha o seu local, às vezes passava para outro e às vezes misturava com aquele dos outros e eles falavam: "Tem coisa sua aqui." A gente ia pegar e levava, quando era gado mesmo, gado não tinha lugar certo, ia para outros lados, ia em todo lugar. As fazendas são divididas agora, agora melhorou tudo porque naquele tempo não tinha reforma agrária.Agora está todo mundo com a fazenda cercada, quem tem alguma coisa, está cercada.

P - A cidade de Monte Santo é grande, pequena, como é?

R - É pequena, mas já tem, daquele tempo para cá, que vim para cá não tinha nada, não tinha luz, não tinha telefone, não tinha televisão, agora já tem tudo. Tem luz elétrica que vem da Cachoeira de Paulo Afonso, tem até em Pedra Vermelha também, que é 12 quilômetros de onde eu morava, uma cidadezinha também pequena, só tem lá movimento em dia de feira.

P - Como iam de onde moravam para a cidade?

R - Montado em jumento.

P - Em jumento?

R - Jumento, cavalo ou burro, quem não tinha ia num jumento mesmo, duas horas dá para ir a pé mesmo, o pessoal do sertão anda muito a pé, aqui em São Paulo é que a gente está acostumado a andar de ônibus e não quer saber de nada.

P - Por que o senhor veio para São Paulo e quando veio?

R - Vim para São Paulo porque todo mundo que chegava lá falava bem de São Paulo e eu disse: "Vou conhecer São Paulo também." E eu tinha um tio aqui e disse: "Vou para a casa do meu tio." Escrevi para ele antes de vir, e avisei que viria para cá. Ele sabia que eu já ia chegar, naquele mês eu ia chegar. Mas no dia em que desci na Estação Roosevelt perguntei lá: "Onde é que fica a Rua Gomes Cardim?" "É aqui pertinho." E foi me levar lá, não foi nem preciso pegar táxi, nem nada. Cheguei lá, nos apresentamos, conversamos, já conhecia ele, a mulher dele e filhos, tinha alguns filhos que não conhecia, mas fiquei conhecendo todos. Aí conhecei a trabalhar logo.

P - Em que ano foi isso?

R - Isso aí foi em 1939. Cheguei em novembro de 39.

P - Como veio?

R - Olha, é uma conversa longa. Saí de onde morava com um companheiro que veio me trazer e viemos a cavalo até uma cidade chamada Cançansão. É mais ou menos uns 50 quilômetros. Aí de Cançansão ele voltou com os animais e eu fiquei lá para pegar um caminhão para uma cidade chamada Queimadas, que é perto. Depois de Queimadas peguei o trem que veio para Salvador. Em Salvador fiquei sete dias na casa de uns conhecidos esperando o dia em que ia sair o navio. Depois de sete dias peguei o navio e desci no Rio de Janeiro. Ia descer em Santos, mas como eu sabia que ia demorar mais, desci no Rio de Janeiro e peguei o trem que vinha, naquele tempo, agora não sei se ainda tem o trem que vinha do Rio de Janeiro para São Paulo, até de noite, foi quando viajamos. Cheguei aqui na Estação Roosevelt eram umas 9 horas da manhã. Aí fui com o rapaz, perguntei lá para um camarada: "Ah, é aqui pertinho, conheço." E foi me levar lá. Dei uns trocados para ele. Não sabia bem o movimento da capital porque cidadezinha pequena não tinha carro, não tinha nada. Algum carrinho que tinha era importado porque nem fabricava carro no Brasil naquela época. Aí foi assim que aconteceu.

P - Como era São Paulo em 1939?

R - Era bem mais calmo do que hoje. São Paulo a gente andava na rua e não precisava ter preocupação como tem hoje. Hoje a gente sai e não sabe se volta, não é isso? Que acontece todo dia crime, toda espécie de crime: pai mata filho, filho mata pai, namorado mata namorada e se mata também, tem acontecido isso. Naquele tempo não tinha não, era difícil, a gente andava tranqüilo.

P - Mas tinha bonde? Como era?

R - Tinha bonde, era tempo do bonde. Andava mesmo de bonde, ônibus eram poucas empresas que tinham, empresas de ônibus eram poucas. Mas hoje é tudo empresa de ônibus, o bonde acabou. Mas sou do tempo do bonde ainda.

P - Da estação de trem até a casa do seu tio foi com esse amigo?

R - Fui. Era pertinho, uns dois quilômetros só, uns três quarteirões. Não era conhecido dele não, ele que foi me levar lá. Fui a pé, era pertinho. Não sei se vocês conhecem ali o Largo da Concórdia, conhecem não. Conhecem aquele lado lá? Não sei para que lado vocês moram. Antigamente chamava Estação do Norte, era o Largo da Concórdia, não era Largo da Concórdia, era Largo do Colombo, tinha um teatro que se chamava Colombo, Teatro Colombo. Então dali, da Gomes Cardim seguindo a Avenida Rangel Pestana, a segunda travessa já é a Gomes Cardim. Depois ali o Colombo, acabaram o Colombo e hoje só tem marreteiro lá, é cidade mas é só marreteiro.

P - Seu tio trabalhava com o quê aqui em São Paulo?

R - Ele era dono de uma pensão, tinha pensão, até a idade em que morreu tinha ainda pensão, ficou para a viúva. Mas ela também já faleceu, já foi todo mundo embora.

P - Chegando, como foram os seus primeiros dias?

R - O primeiro dia fiquei, sabe como é, fiquei me informando de alguma coisa. Meu tio foi me explicando e depois tinha uns companheiros lá que trabalhavam de cobrador de ônibus e fui falar com alguns deles para saber se conseguia uma vaga lá na empresa. Naquele tempo a gente precisava usar boné com número, o cobrador, não era ônibus, tinha bonde e tinha ônibus, não era esses ônibus que hoje em dia o camarada fica sentado ali só passando o troco. Tinha até um relojinho para marcar quantos passageiros tinha e dava uma fichinha ainda mais, a gente ia para lá e para cá, era sempre em pé. Quando às vezes acontecia que o passageiro não tinha troco a gente ficava enfezado, aí dava uma briga danada. E depois às vezes o camarada esquecia de pôr a ficha na hora da saída numa caixinha que tinha, a gente precisava correr atrás dele para pegar a ficha, era sacrifício. Agora está moleza, só que estão matando muito cobrador também por aí agora.

P - Em que empresa o senhor trabalhava?

R - Empresa de Ônibus Tesouro-São Bento, acho que é essa mesma, Largo Tesouro- São Bento. Ela fazia só aquela, ela saía do Largo do Tesouro, que é ali na São Paulo antiga, vinha ali pela Rua do Gasômetro, saía na Rangel Pestana, entrava na Gomes Cardim, Maria Marcolina, saía no Largo Silva Telles, que era a garagem, ia, pegava a Rua João Teodoro, saía na Estação da Luz, pegava ali a Rua do Triunfo e ia fazer ponto no Largo São Bento, naquele tempo. Agora não tem mais isso para lá, acabou tudo. Naquele tempo era assim, era mais gostoso.

P - Quanto tempo trabalhou nessa empresa?

R - Um ano e três meses, aproximadamente.

P - Gostava? Como era?

R - Ah, não gostava não, ficava nervoso porque tinha muita encrenca com passageiro porque passageiro não queria, às vezes não tem troco, passageiro não quer perder o troco, o cobrador às vezes não quer dar, não quer perder também. Então era aquele negócio. Mas nunca discuti.Quando não tinha dinheiro pagava do meu bolso, não queria confusão. Mas ficava nervoso. Eu disse: "Olha, se não arranjar outro emprego vou acabar brigando aqui, vou largar isso." E aí foi quando arranjei nessa empresa Servix Engenharia Limitada serviço de eletricidade, então logo arranjei e fiquei seis anos e pouco, como falei. Nessa época fui para a Bahia, fiquei lá nove meses, pensei que não voltava mais, mas tive que voltar. Isso foi já em 48, fui em janeiro e voltei em setembro.

P - Saiu da empresa de ônibus e entrou na Servix?

R - É isso.

P - O que fazia na Servix?

R - Na Servix fazia serviço de eletricidade, encanamento, fazer lajes, assim, tinha que pôr encanamento, aquelas caixinhas que vai caixinha de luz. Quando está no acabamento, às vezes tem caixinha que fica fora, então tem que cortar a parede e puxar naquele conduíte para ficar no lugarzinho certo. Então era mais ou menos essas coisas que a gente fazia. Depois, quando estava pronto, a gente ia passar os fios de eletricidade, puxar, em dois, três às vezes, um só não dava para fazer, tinha que ser sempre dois. Depois, quando terminava, assim, ia colocar os interruptores, aquelas coisas, serviço lá era isso aí.

P - Aonde era essa empresa?

R - O escritório era na Rua Bráulio Gomes, travessa da Sete de Abril, na Praça José Gaspar, parece, ali pertinho. E o local de trabalho era em várias firmas, tinha vários locais porque eram construções, sempre pegava de um lado para outro. Na Nove de Julho trabalhei numa construção que era, naquele tempo era do IAPTEC, IAPI, aquelas coisas, hoje não tem mais, é INPS agora, INSS. Depois trabalhei nesse, ali na Rua Caio Prado, no Banco do Estado, aquela praça que tem ali, banco alto perto do Martinelli. Dali também saí, quando saí dali fui para a Lorenzetti onde trabalhava o meu primo. Saí dali e fui para a Bahia primeiro, depois voltei, fiquei aí e depois é que entrei na Lorenzetti.

P - Ficou nove meses na Bahia?

R - Fiquei nove meses, de janeiro a setembro.

P - Trabalhou lá?

R - Trabalhei um pouco na roça.(risos) Mas não gostei muito, não, já não estava mais acostumado, passei seis anos e pouco nessa vidinha aqui, lá já não dava mais, estava tudo estranho, diferente. Aí vim embora.

P - Era solteiro ainda nessa época?

R - Era solteiro, casei em 61. Fui lá em 48, estava com oito anos aqui, oito anos e uns meses. Fiquei lá nove meses, quando voltei trabalhei mais seis anos e pouco, voltei lá outra vez para passear, 54, por aí. Fui em 48 e voltei em setembro, em 44, em 54 fui lá passear e voltei outra vez. Aí começou, mudei para a firma, essa firma eu já trabalhava em 48, ia de férias e voltava, fui umas quatro vezes antes de casar, depois que casei fui duas vezes com a minha esposa. Uma vez ela estava grávida e outra vez com um garoto de 15 anos.

P - Voltando um pouquinho... Como arrumou esse emprego na Servix, quem...

R - Foi um colega, através de um colega da pensão, não conhecia ele não, era sergipano, trabalhava lá. Pedi e ele arrumou para mim lá, era sempre através de outros.

P - Era a pensão onde morou que era do seu tio?

R - Isso.

P - Sempre morou lá?

R - Sim, sempre morei lá.

P - Até casar?

R - Até casar não, porque depois era na Gomes Cardim, depois mudou para a Maria Marcolina. Aí fiquei com ele uma temporada, depois saí, fui morar num quarto com uns colegas também, mais tarde fui sempre mudando. No Brás fiquei uns 20 e tantos anos, morei perto da Augusta Teles, que já falei, Casimiro de Abreu, que também é ali, alguns meses. Depois fui embora, fui morar na Moóca. Tinha esse meu primo que me arrumou serviço lá na Lorenzetti, ele foi buscar os pais na Bahia, então fui morar com eles ali na Moóca, chamava-se naquele tempo a Ilha do Sapo porque enchia muito ali, não sei se ainda enche. Fiquei morando na Rua Suzano Brandão, morei lá uma porção de tempo. Depois mudei para perto do Museu do Ipiranga, foi quando voltei para o Brás, para a rua Costa Valente, onde morava a minha mulher. Aí de lá fiquei no quarto até casar, eu e mais outros colegas. Quando casei fui morar na Rua Gonçalves Dias, fiquei lá um tempo, depois fui morar na Vila Maria, fiquei mais uns seis meses. Depois compramos um apartamento em Jaçanã, onde estou morando, foi em 1970. Hoje é 96, tem 26 anos que moro lá.

P - Quando era solteiro, na época em que ocomeçou a trabalhar na Lorenzetti, o que fazia, que divertimentos, qual o seu lazer aqui em São Paulo?

R - Ia ao cinema, que hoje não tem mais cinema em bairro, só na televisão ou no Centro. Ia ao cinema, às vezes a gente costumava sair, ir nas cidadezinhas vizinhas, Mogi das Cruzes, com os colegas, a gente ia para conhecer alguma coisa. Mas o divertimento mesmo era o cinema, naquele tempo era o cinema. Quem gostava de baile ia no baile também. Mas não é que fosse assim viciado no baile, carnaval a gente também ia, viciava um pouco, brincava um pouco, mas carnaval até hoje não gosto muito, até hoje não gosto. E às vezes a gente jogava dominó, jogava cartas, passava o tempo e no outro dia já é muita loucura, era dia de trabalhar, trabalhava de manhã à noite, já não dava tempo. Saía cedo, chegava à noite, cansado, não tem mais nada para fazer, tem que passar as horinhas ali para dormir e no outro dia cedo continuar a vida.

P - Ia ao cinema ali no Brás mesmo?

R - No Brás.Tinha muitos cinemas no Brás.

P - O senhor se lembra de algum?

R - Lembro, tinha o cinema Colombo, tinha o cinema Oberdan, até pegou fogo uma vez, agora é loja de tecidos. Aquele pessoal da José Paulino mudou tudo para o Brás, agora só tem loja lá, do norte tem muita gente lá morando, com firmas abertas, principalmente de roupas. Ali hoje tudo ficou diferente. Tinha o cinema Brastirama, tinha o Rex e o Universo, tudo ali pertinho da Avenida Celso Garcia. Às vezes ia na cidade, cine Metro, tinha outros cinemas que nem sei se existem mais. No Largo do Paissandú, tinha um cinema que era, acho que era cine Paissandú mesmo, acho que ainda existe, nem que seja com outro nome, mas existe. Cine Ópera, não sei se ainda existe também, faz tempo que não vou ao cinema, faz tantos anos, desde que mudei para o Jaçanã.Tinha um cinema em Jaçanã, acabou, não tem mais nada. Tinha um na Voluntários da Pátria, agora ainda tem qualquer coisa de cinema lá, é tipo de um shopping, mas tinha cinema lá dentro. Mas tenho ido ao cinema, às vezes assisto na televisão, mas não gosto. Gosto mais de um jornal, notícia assim quando é tempo de política para saber quem ganhou, quem perdeu.

P - Para trabalhar na Servix fez algum curso, teve algum aprendizado?

R - Não. Comecei a fazer o curso mas depois deixei.Comecei já como instalador mesmo, depois é que passei para enrolamento de motor. Instalador, quer dizer, instalações elétricas, depois é que passei para enrolamento de motores.

P - Fez algum curso?

R - Não, aprendi lá mesmo, eles ensinavam a gente. Todo o tempo que estive lá nunca estudei fora. Alguma coisa que aprendi foi lá.

P - Disse que depois entrou na Lorenzetti. Quando foi isso? O que fazia lá?

R - Entrei na Lorenzetti parece que foi no dia 9 de setembro de 48, sim, foi 48. Comecei como instalador lá dentro, fazendo serviço de eletricidade mas depois passei para enrolamento de motores elétricos. E foi o que fiz até quando me aposentei lá.

P - Quando entrou o que fazia, como era o seu trabalho?.

R - Fazia serviço de eletricidade, trabalhava em eletricidade fazendo encanamento com esses conduítes em parede para fazer instalação, puxar o fio depois que estivesse pronto para fazer a ligação. Depois fui passando para bobinas, fazer as bobinas, não enrolava motor, fazia bobina, enrolava assim numa máquina e fazia bobina para colocar nos motores. Eram umas bobinas de fios que a gente vai colocando no canal, motor tem canal chamado arranhoso. Depois passei para enrolamento e foi onde fiquei firme até quando saí, tem até aquela fotografiazinha ali.

P - Esses motores eram usados para quê?

R - Eram usados para firmas, fábricas e para bomba de poço também foi usado muito, compravam do Paraná, da Bahia, iam comprar da Bahia. Depois o próprio dono que administrava faleceu, aí acabaram também com aqueles serviços de motores, já não existem. Agora tem os filhos que tomam conta, tem os genros, que são engenheiros. Agora já não sei mais o que fazem lá porque faz 22 anos que saí.

P - O que a Lorenzetti faz lá?

R - Lá eles fazem parafusos, fazem essas peças de tomadas, interruptores, chuveiros, torneiras elétricas, agora fazem, naquele tempo era diferente de hoje. Agora fazem duchas também, naquele tempo não tinha ducha. Fazem válvulas para descarga e essas peças que a Light usa para trabalhar, agora não é mais Light, é Eletropaulo, para trabalhar para colocar nos postes, aqueles isoladores que eles chamam. Tinha uma sessão lá que se fazia aquilo, chamava-se porcelana. Agora já mudou de lá, não existe mais, mudou para Santa Catarina, parece. Mas não trabalhava lá não.

P - Era uma empresa grande?

R - Era grande.

P - Quantos funcionários?

R - Tinha mais de 1.200 empregados, mais ou menos, porque eles também trabalhavam, fabricavam e também faziam a, como se diz, davam assistência também porque às vezes as peças estragavam e eles tinham uma sessão só para consertar bombas, motores, chuveiros, torneiras, ferros. Fabricava ferro também, ferros elétricos ainda fabrica, deve fabricar ainda. Não estou bem certo porque faz muitos anos que nem vejo mais os colegas, já devem estar aposentados todos.

P - E os motores que faziam continuam sendo feitos hoje?

R - Não, acabou, não fazem mais, extinguiram aquilo lá, ficou em extinção. Fabricam outras coisas, mas motores para bombas, tudo, não fabricam mais.

P - Como era o seu cotidiano na Lorenzetti?

R - Lá dentro da fábrica?

P - É, começa contando, por exemplo, o senhor acordava, onde era a Lorenzetti....

R - Morava no Brás, pegava a Rua Dr. Almeida Lima, passava pela fábrica Alpargatas, saía na Rua da Moóca, aí pegava a Avenida Presidente Wilson, eu ia a pé porque não tinha condução. Era uma meia hora mais ou menos na Avenida Presidente Wilson, aí quando chegava antes da hora, que entrava às 7 horas, tinha que chegar um pouquinho antes. Aí chegava lá na sessão e ia fazer o serviço, trabalhar. Quando era meio dia a gente saía para almoçar, tinha uma hora de almoço, 11 horas, saía 11 horas e entrava meio- dia. Aí ia até às 5 horas. Aí terminava e ia para casa, fazia o mesmo caminho para casa. Chegava, jantava, tomava banho e jantava, batia o papo ali e depois já ia dormir porque no dia seguinte tinha que levantar novamente, 5 horas, 5 e meia mais ou menos tinha que levantar. Tomar café e ir embora.

P - Na fábrica tinha refeitório?

R - Tinha. Na fábrica tinha refeitório, antes não tinha, mas depois fizeram refeitório. Mas eu sempre levava marmita, preferia a minha comida do que a comida deles.

P - O senhor mesmo fazia a comida?

R - Na pensão, pegava na pensão. Lá o horário de serviço era trabalhar, agora na hora do almoço a gente ia almoçar também pouco tempo, meia hora de almoço já descansava um pouquinho já era hora de entrar no serviço outra vez. Não podia, não tinha distração nenhuma, não podia fazer nada, não dava tempo também, às vezes ler algum jornal, alguma coisinha, era só mais ou menos isso.

P - Trabalhava em que seção?

R - Seção de motores elétricos.

P - Sofreu algum acidente?

R - Graças a Deus, não.

P - Mas na sua seção algumas pessoas sofreram acidente?

R - Sofreu, tinha muitos que trabalhavam no torno e no torno era mais perigoso, torneiro mecânico que às vezes não pode trabalhar com roupa com manga comprida porque às vezes descuida, enrola e ali vai ser acidentado. Alguns foram acidentados, mas na minha seção mesmo, não.

P - O trabalho que fazia não era de risco?

R - Não, não era.

P - Pode explicar como era esse trabalho? Não conhecemos nada.

R - O motor é o seguinte: chamava-se estator, é a carcaça, estator e carcaça é a mesma coisa.Vinha da fundição, chegava lá na firma e eles iam passar no torno para tornear, que ele ficava na ordem de colocar aquela chapa. Fazia uma chapa lá dentro e ia colocando dentro daquela chapa, até ir fazendo. Aquilo era calculado pelo engenheiro, ele calculava quanto podia ir, quanto precisava ser, motor para tantos HP, tantos ampères. Então ele calculava e o empacotador empacotava aquilo lá e ficava preso. Então, depois passava no torno também para deixar em ordem porque tinha os canais que precisava abrir, tinha o limador que limava os canais, aquelas ranhuras, que chama, para poder colocar a bobina, os fios, um de cada vez, colocava de um lado, depois passava, mudava para o outro lado. Às vezes tinha duas bobinas, outros tinham seis, outros tinha 18, dependendo da rotação que precisava: seis pólos, quatro pólos, dois pólos. Dois pólos seriam 3.500 rotações por minuto, seis pólos já seriam 1.800, quatro pólos era menos, 1.400, por aí, que aqui já tinha 50 ciclos, 60 ciclos. Era mais ou menos essa situação. Estive 25 anos nesse trabalho.

P - Trabalhava em pé?

R - Às vezes trabalhava em pé, às vezes trabalhava sentado. Quando era motor menor a gente sentava e fazia. Quando era motor grande teria que fazer em pé, numa bancada grande. Tinhas umas placas, o motor colocava ali dentro, ia colocando e virando ele assim. Depois o motor saí e aí ele ia para a montagem, fazia os rotores para colocar, depois punha as carcaças, as laterais, que chamava, para fechar o motor. Aí fazia uma experiência para ver se estava bom, se não estava em curto-circuito, dava aquela ligação na luz elétrica e assim era o nosso tempo lá, assim foi.

P - Sabe porque se chama enrolador?

R - Deram esse nome de enrolador, não sei a origem porque o motor vai enrolando naquelas bobinas e vai fazendo, então dá o nome de enrolador.No meu tempo era enrolador, agora não sei se já mudaram, se tem outro nome agora não sei, porque até quando estive lá era enrolador de motores elétricos.

P - O senhor foi sempre enrolador de motores?

R - Sempre enrolei só motores, gente nunca enrolei. (risos)

P - E o senhor tinha assim uma proteção, algum equipamento para usar, luvas?

R - Não, não tinha isso, só usava capa. É uma capa assim grande que eles exigiam que a gente usasse.

P - Era dado pela empresa?

R - Era, mas tinha que pagar, tudo pago.

P - Que tipo de benefícios a Lorenzetti lhe dava naquela época?

R - Ah, naquele tempo não tinha nada, não tinha vale-transporte, não tinha cesta básica, não existia nada disso, não dava mesmo, nem festa de fim de ano. Davam 13º porque era lei, porque se não, nem isso dariam.

P - O senhor se aposentou em 74?

R - Em 74, em janeiro de 74.

P - Depois continuou com alguma atividade?

R - De trabalhar, não. Não fazia nada porque estava doente da coluna também, ainda não podia fazer muita força, por isso que me aposentei mais depressa. Fiz um acordo mais ou menos, e saí. Mas, daí para cá, agora já tenho algumas atividades. Vou na 3ª Idade, em grupos de 3ª Idade a gente faz passeios, já fui em Campos do Jordão, Aparecida do Norte, teve outros lugares que fui, deixa ver aonde é que foi, foi aqui mesmo na Capital, no Horto. Esses passeiozinhos aí, vou fazer ginástica também, nos próprios grupos faz ginástica, tinha coral, agora parece que o coral também fracassou. Agora não tem coral mas tem sempre as reuniões.Tem segunda, tem terça, tem quarta, todos os dias que queira ir fazer ginástica. E tem os passeios, tem um grupo lá que faz passeios, outro dia foi para Porto Seguro, agora parece que vão para o Rio de Janeiro mas não vou para esses passeios longe. Não, porque custam muito dinheiro para passar quatro dias, cinco dias na cidade. Eles foram em Santa Catarina, ficaram uma semana lá, tem que prevenir, pagaram em parcelas mas assim mesmo é puxado, tem que pagar hotel, tudo.

P - Aonde fica esse grupo que freqüenta?

R - Em Jaçanã mesmo. Tem um que é na Igreja Santa Terezinha, em Jaçanã, na Avenida Guapira, não sei se vocês conhecem por lá, acho que não conhecem porque nunca foram para lá. Podiam passar lá em casa um dia para tomar um café, tem o endereço tudo aí.

P - Como ficou sabendo desse grupo?

R - Ah, porque ia sempre na missa na igreja e aí comentaram que tinha reunião lá no salão e comecei a ir. Depois no Jaçanã lá tinha um centro de saúde que agora o Maluf passou para o PAS, tinha um salão grande que era da prefeitura, então a turma fazia lá, então passei para lá. E tem um no Edu Chaves também, que vou também, foi o primeiro que fui, lá passei por psicólogas, depois fui fazer terapia já no grupo mesmo. Então estou lá até hoje, mas estou querendo sair que já não dá muito tempo fazer um, dois, três e estou fazendo também esse negócio de reunião de neuróticos e estou também fazendo natação, hoje mesmo tem que fazer natação, 4 horas tem que ir pra lá se vocês me soltarem antes. (risos)

P - Não se preocupe, mas diga. Na época da Lorenzetti participou de alguma greve?

R - Ah, participei.

P - Pode contar?.

R - Fiquei 32 dias de greve, não entrava, ninguém entrava, entrava alguns, eles falam fura-greve, mas o sindicato fazia aquelas reuniões, fazia ali no sindicato mesmo. Mas aconteceu uma vez que eu estava fazendo greve lá na sede do sindicato, a sede do sindicato é na Rua do Carmo. Aí a polícia fechou com os camaradas lá dentro e dessa vez escapei. Era no tempo do governo Carvalho Pinto. Mas eu ia a outras reuniões também, ali na Rua Bresser, tinha qualquer coisa da prefeitura, nem me lembro mais o que é que era, e a turma se juntava lá para fazer greve, para ficar protestando lá. Aí fiquei 32 dias, foi a única greve que participei, fiquei 32 dias de greve.

P - O senhor lembra o motivo dessa greve?

R - Era para aumento, conseguir aumento.

P - O senhor falou que tem problema na coluna. Sabe se foi por causa de ter ficado em pé?

R - Acho que... esse problema na minha coluna...levei uma queda de um cavalo lá na Bahia e comecei a sentir alguma coisa e trabalhar muito tempo assim sentado, às vezes fazendo assim de cabeça para baixo e aquilo foi complicando mais, até a cervical também doía muito. Aí não estava agüentando mais, já tinha tempo para aposentar, não era tempo integral mas proporcional, digo: vou aposentar. Às vezes você não podia nem trabalhar direito, é melhor ir embora e deixar a turma aí, pensa que a gente está encostado porque está sem vontade de fazer o serviço, então vou embora. Aí combinei bem lá com o pessoal e saí.

P - Participava de sindicato?

R - Entrei no sindicato em janeiro de 53. Ia sempre às reuniões lá nosso sindicato quando tinha reuniões para organizar as greves, quando era tempo de eleição saía para as firmas para conseguir votos dos metalúrgicos que eram sindicalizados e participei algumas vezes também. Mas não gostava também não, porque chegava na firma às vezes o patrão não gostava, começava a chamar as pessoas, começava a demorar, era chato mesmo. Eles nem me chamavam mais porque também não ia mesmo. Mas participei algumas vezes.

P - Chegou a participar de alguma diretoria do sindicato?

R - Não, da diretoria nunca participei. Na seção em que eu trabalhava me puseram lá como encarregado, assim, mas não tinha muita gente, eram umas poucas pessoas que trabalhavam lá naquela época, era uma seção menor, tinha umas três maiores, mais eram as menores que faziam as bobinas.Tinha uma máquina que cortava os papéis para colocar no motor porque você tem que forrar o canal porque senão fica no ferro. Então tinha uma tela de oleado e mais um papelão por cima, um papelão grosso, cortava na medida do canal, no comprimento e na altura, sempre naquele serviço ali, era pouca coisa ali, não tinha muita responsabilidade, tinha que fazer serviço direito, todo mundo tinha que ter uma responsabilidade, tinha que ser responsável pelo que faz. Mas era mais ou menos isso.

P - O senhor participa da Federação dos Aposentados?

R - Participo.

P - Como é?

R - Lá é o seguinte: a gente paga uma mensalidade, atualmente agora é 1 real por mês que a gente paga e eles fazem viagens, quer dizer, tem colônia de férias em Santos, mas precisa ser por sorteio. Fazem lá uma ficha, tem tantas pessoas, depende de quem é sorteado. Quem não é sorteado não vai, em tempo de férias então é pior porque vai todo mundo querer ir. Então nunca fui. Vou em alguma reunião que eles faz lá às vezes para aprovar o que eles fizeram durante o ano, a despesa, essas coisas assim, os gastos que tiveram e aí a gente vai para participar. Mas agora sou aposentado também, nem ligo muito. Vou às vezes porque tem médico também, vou às vezes para consultar.

P - Ah, eles têm médico?

R - Lá tem médico, tem consultas, tem psiquiatra também, tem dermatologista, tem urologista, tem ginecologista, tem clínico geral, faz os exames lá também, exame de sangue, esses exames gerais, ultrassom, mas só que os exames como endoscopia, esse que põe o canal aqui na garganta para ver se tem gastrite, já fiz aquilo sete vezes, está doido. Estava fazendo lá mas depois eles mandam para o laboratório o sangue, as fezes, a urina, por exemplo, eles colhem lá e mandam para o laboratório, o laboratório que faz o exame, analisa, depois eles mandam o resultado para o sindicato.A gente procura lá no dia, mais ou menos eles marcam os dias e a gente vai, pega e passa pelo médico, se está bom, se precisa fazer alguma coisa.

P - Com quem mora hoje?

R - Moro eu e a minha mulher, sozinhos nós dois. Meu filho casou. Moramos num conjunto, é conjunto de prédios, são nove prédios, tem muita gente, é conjunto fechado, tem muita gente.

P - Como conheceu sua esposa?

R - É assim, eu morava num... naquele tempo morava no Ipiranga, numa pensão aí. Aconteceu que conheci um rapaz da outra pensão do meu tio, quando comecei, a primeira vez que cheguei em São Paulo e conheci ele. E coincidiu que ele foi trabalhar lá porque tinha uns concunhados dele que trabalhavam lá, ele era tecelão, mas depois parece que a tecelagem fracassou e eles conseguiram colocar ele lá. Então encontrei com ele, já conhecia, aí foi quando perguntei aonde ele morava, com quem morava. Ele disse que morava com quatro pessoas que chamavam dona Celeste, que era minha conhecida porque ela esteve na pensão do meu tio e pôs uma pensãozinha também. Então ele falou com eles lá e arranjaram um lugar para eu morar até com ele no mesmo quarto. Aí ela morava lá também. De lá foi que aconteceu o namoro lá.

P - Quer dizer, a sua esposa morava no Ipiranga?

R - Não, no Brás.

P - Ah, no Brás.

R - Eu morava no Ipiranga e fui morar no Brás, justamente na casa em que ela morava que era a pensão que o irmão dela já era casado com a filha da mulher, a dona da pensão, que eu conhecia, que trabalhou com o meu tio. Fiquei lá e daí começou e aí casamos.

P - Vocês namoraram quantos anos?

R - Um ano e seis meses, mais ou menos.

P - Ela é de São Paulo?

R - Ela é de Cruzeiro, estado de São Paulo. Ela dava aula em São Paulo mesmo, Capital.

P - E vocês casaram onde?

R - Aparecida do Norte.

P - Ah, é, conte como foi.

R - O pessoal que foi daqui de São Paulo, os meus convidados, fomos a Cruzeiro e eles convidaram eles de lá, aí nós viemos para Aparecida. Depois do casamento nós voltamos para Cruzeiro outra vez. Aí teve, não teve festa, foi só para os convidados ali, pessoas conhecidas, teve lá uns sanduíches, essas coisinhas lá qualquer, uns salgadinhos, umas bebidas. Depois fomos embora para o Rio. Viajamos no mesmo dia para o Rio de Janeiro. Aí ficamos lá uns quatro dias, depois voltamos a Cruzeiro, que é meio de Cruzeiro ao Rio, é a mesma distância de Cruzeiro a São Paulo. Aí fomos a São Lourenço e ficamos lá mais uma semana. Depois voltamos para Cruzeiro e viemos para casa e aí já começamos a trabalhar. Acabou a graça. (riso)

P - Aí vocês tiveram um filho, é isso?

R - Depois de quatro anos nasceu esse menino, minha mulher não engravidava, foi preciso fazer um tratamento e depois nasceu o meu filho, chama-se Luís Roberto. Ficou conosco, freqüentou escola federal, depois foi para a Fatec.Ficou três anos estudando lá, depois saiu, ficou trabalhando num escritório de projetos, ele e a esposa dele.Porque a esposa estudava na mesma escola federal, depois foram trabalhar juntos na mesma firma. Aí quando casaram montaram uma firma, eles e mais um sócio e está até hoje ainda com escritório. O escritório é lá na Rua Tupi, perto do Pacaembu, e ele mora na mesma rua do escritório agora. Ele trabalhava em outro escritório e mudou-se para a rua em que mora, Rua Tupi.

P - Quantos anos ele tem?

R - Ele nasceu em 65, está com 31 anos agora, fez em março, 31 anos.

P - O senhor já tem netos?

R - Ainda não. Casou com uma nissei, não sei se ela que não quer ou ele que não quer também, está dando um tempo, acho que é isso, estão querendo firmar para poder. É bom que venha logo um netinho para animar a gente. Minha casa é eu e minha mulher, só. E vizinho, hoje em dia vizinho vai pouco em casa e a gente vai pouco em casa de vizinho. A gente vai mais na casa dos irmãos dela, um mora em Santana, outro mora no Itaim-Bibi e os outros moram lá em Cruzeiro. Tinha um que morava em São José dos Campos, mas já faleceu.

P - Sabe a origem do seu nome, seu Jechonias?

R - Meu nome é bíblico, nome bíblico, é nome de judeu. (riso) Bíblico já sabe, vem de lá. Não sei se sou parente de judeu, não, acho que vem de lá do português.

P - E o Peixinho?

R - O Peixinho é justamente isso também. Acontece que o Peixinho, que já era do meu pai, dos meus avós, não sei onde foram buscar isso daí.

P - Mas sabe a origem?

R - Não sei qual a origem do Peixinho. Tem outros Peixinhos que já encontrei por aqui, até tem um médico que encontrei com ele num posto de saúde do Sesi, chama-se Milton Peixinho, mas não sei se é meu parente ou não.Também não procurei saber. Acho que não é, não. É raro Peixinho, mas coincidiu esse aí. Acho que deve trabalhar nas Clínicas ou já aposentou, não sei. Até outro dia fui consultar um médico lá do sindicato, falei meu nome Peixinho. Ele disse assim: "Ah, parente do dr. Peixinho?" "Não, conheci um médico que era ortopedista chamado Peixinho." "Eu me tratei com ele", o médico falou, e perguntou se era meu parente. Não sei se é meu parente, acho que não é não, deve ser outro Peixinho que apareceu por aí. Hoje está cheio de Peixinho porque vieram de lá da Bahia para cá.

P - Para encerrar, gostaria de lhe perguntar se mudaria a sua trajetória de vida, se faria alguma mudança na sua vida se pudesse voltar atrás?

R - Mudaria muita coisa. Não queria muita coisa não, porque tudo na vida passa. Queria ter pelo menos uma certa cultura, uma certa educação que não tive, de escolaridade. Porque a gente tendo um estudo melhor faz coisas melhores, tem empregos melhores, tem uma vida mais digna. E gostaria nesse caso de estudar, ser uma pessoa que soubesse ler e escrever, falar bem o português e até entrar na política se fosse possível. (riso)

P - Gosta de política?

R - Não, não gosto, mas se fosse o caso arriscava, arriscaria a primeira vez, porque a primeira vez é difícil, tem muitos que apanham mas insistem naquilo e às vezes vencem. Mas nunca fiz parte de política não. Gostaria de ser mais ou menos isso. A vida do sertão é boa mas não gostaria de viver mais naquela vida não. Trabalhar só se fosse mandar, tivesse uma fazenda lá aí seria bom, do contrário, até hoje não dá para voltar mais. Agora não sei, para voltar atrás, voltar à juventude hoje é difícil porque ninguém volta mais.Tem que ir agora daqui para o fim, só. Acredito que daqui para a frente não tenho mais nada. Só essas coisinhas mesmo aí: freqüentar 3ª Idade, natação e acabou a vida. E um dia ir na casa de um conhecido, de um parente, poder fazer uma viajinha, de vez em quando a gente, no tempo em que o meu sogro era vivo, a gente sempre ia a Cruzeiro, passava as férias lá, mas já faleceram todos, faleceram os dois, meu sogro e a minha sogra faleceram, agora está desligado. A gente vai lá porque tem um irmão da minha mulher que mora lá ainda. Demora muito em ir lá também, tinha outro que morava em São José dos Campos, foi esse que morreu, a esposa dele ainda mora lá em São José. É mais ou menos isso.

P - Gostaria de falar mais alguma coisa?

R - Não, acho que falei até demais. Falei tudo que sei, tudo o que se passou comigo, mais ou menos tudo, tudo não, mas alguma coisa já deu para falar.

P - Está legal. Então agradecemos a sua presença e seu depoimento.

R - Eu é que agradeço. A entrevista foi boa para mim, satisfação de conhecer mais gente, pessoas, tudo isso faz parte da vida da gente.

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