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História

"Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?"

História de: Manuel dos Santos Paiva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/05/2019

Sinopse

A casa “triste, feinha” em seu país natal, era também o recanto para o pão caseiro, assado pela mãe e repartido entre toda a família. O bom vinho e o bom bacalhau das terras portuguesas são também lembrados por Manuel, que, ao migrar para o Brasil, tornou-se padeiro e, do fermento dos pães tirou também a energia para crescer e alcançar seus objetivos. Recorda-se das dificuldades de ser estrangeiro e das lágrimas que derramou ao sentir-se desamparado em seu desembarque, em Santos. Hoje, superadas as dificuldades, mantêm-se em movimento, frequentando a igreja Nossa Senhora Mãe de Deus, fazendo ginástica e dançando. Almeja uma vida longa ao lado da família e amigos.

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História completa

P/1 – Senhor Manuel, pra gente começar eu queria que o senhor falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Manuel dos Santos Paiva, 19 de março de 1929.

 

P/1- Nasceu onde?

 

R – Gildinho, freguesia de Real.

 

P/1 – Gildinho, freguesia de Real? Portugal?

 

R – Conselho de Castelo de Paiva.

 

P/1 – E o nome de seus pais, por favor.

 

R- Manuel de Paiva e Maria Rosa dos Santos.

 

P/1 – E o senhor chegou a conhecer seus avós ou não?

 

R – Conheci sim senhora, são esses que estão aí.

 

P/1 – Ah, é verdade! Inclusive seu avô que veio para o Brasil.

 

R – Esteve aqui em 1920, um vovô que está aí.

 

P/1 – O nome dele?

 

R – Antônio de Paiva.

 

P/1 – Antônio de Paiva! E o senhor sabe a história deles, de seus avós?

 

R – Mas meus avós de parte de mãe ou de parte de pai?

 

P/1 – Dos dois. Esse que veio para o Brasil era de parte de pai?

 

R – De mãe.

 

P/1 – De mãe? E ele veio para o Brasil por que, em 1920?

 

R – Ele veio aqui porque o Brasil sempre foi um país de fama em Portugal, quem viesse ao Brasil ia ganhar um dinheirinho a mais. É que em Portugal o Salazar segurava o dinheiro, então a turma falava “Vamos para São Paulo, vamos para o Rio de Janeiro, que é lá que se ganha. Fulano era pobre, foi lá e ganhou, e tem aqui uma casa em Portugal, bonita...” “É assim mesmo? Então vamos também.” O meu vovô veio pensando isso, ganhou um dinheirinho e foi embora.

 

P/1 – Pro Rio de Janeiro ou pra São Paulo?

 

R – Pra São Paulo. Então a minha avó ficou lá. Minha mãe e outra filha, tia minha, trabalhavam nas terras, na lavoura, plantação e criando as meninas. Duas meninas criando elas e meu avô trabalhando aqui – como ele fala –, em chácara, naquela época.

 

P/1 – Era agricultor?

 

R – Agricultor aqui na Pompéia. Ele mandava o dinheiro para a minha avó, pra modo ela comer e sustentar as filhas. Era um procurador nosso, vizinho, que recebia o dinheiro. Ele [o avô] ficou aqui uns aninhos. Foi lá, chegou, o dinheiro que ia mandando pra minha avó comer – e as filhas – estava todo lá.

 

P/1 – Com a pessoa que recebia? Ele não passava?

 

R – Estava todo lá o dinheirinho.

 

P/1 – Ah, estava guardado?

 

R – Estava guardado. Ela não usava, econômica. (risos) Tinha ovelhas, vaca de leite, galinhas de ovos. Comia os ovos das galinhas dela, tirava leite das vacas e coisa, e o dinheiro brasileiro a guardar. Quando ele chegou em Portugal, foi lá o compadre que tinha o dinheiro, estava lá todo guardadinho, aquela vida de muita economia.

 

P/1 – E o que eles fizeram com o dinheiro, o senhor sabe? Eles aplicaram, compraram alguma coisa?

 

R – O meu avô tinha lá amizade, como todo mundo tem. Alguns estiveram aqui em São Paulo, ou que estivesse junto com ele, antes ou depois: “Senhor Antônio Paiva, precisava de um ‘dinheirito’...”, e ele emprestava. A economia que fez no Brasil e a minha avó fez lá, juntando o dinheirinho, emprestavam aos amigos... Aí é uma história comprida. Ele, de noite, na cama, não dormia. Minha avó perguntava pra ele: “Antônio, não dormes por quê?” “Porque eu estou pensando no dinheiro que emprestei ao senhor Francisco e emprestei ao senhor Antônio e vou pra cama pensando naquele dinheirinho” (risos). E ele pensava que tinha o dinheiro, emprestavam, e as pessoas não pagavam juros, nem o próprio ____________.

 

P/1 – Isso quando ele voltou lá?

 

R – É.

 

P/1 – E do lado paterno, os seus avós, o senhor os conheceu?

 

R – Ah, eu conheci. O meu avô tinha umas terras, a minha avó tinha gado, ovelhas. O meu avô era negociante, era feirante. Comprava ovelhas e cabras em particular e vendia às feiras. A feira Freguesia do Ó, ia lá e vender, a feira na Lapa, ia vender lá na Lapa. E ia comprar gado, de porta em porta, em particular, e ia vender nas feiras; era o ganha pão, a maneira.

 

P/1 – Ele nunca veio ao Brasil, esse avô paterno?

 

R – Não, não.

 

P/1 - Ele ficou por lá?

 

R – Não, e a minha avozinha olhava as terras, porque ela não era muito de enxada, era de comprar gado e conversar, levar nas feiras, vender o gado e ganhar ou muito ou pouco: era a vida deles.

 

P/1 – E o senhor sabe como seu pai conheceu sua mãe?

 

R – Sei, sei...

 

P/1 – E como é que foi?

 

R – Como meu vovô de parte de meu pai, ele era negociante de gado, como eu estou te falando, né. Ele ia lá ao Gildinho comprar gado e conhecia as pessoas que estavam a comprar gado, comprar cenoura, comprar... E conhecia todo o mundo, daqui até a Freguesia ia até Santo Amaro, conhecia todo mundo. Ele fez conhecimento e amizade com meu outro avô. “Eu tenho lá um filho, Antônio Paiva, e ele está lá nas terras mais a mãe, solteiro. Eu conheço vocês aqui...”. Depois os dois eram Paivas. De um lado era Antônio Paiva e o outro era Alexandrino Paiva.

 

P/1 – Alexandrino?

 

R – É, Paiva. Os dois Paivas conversando... Um tinha o rapaz e o outro tinha a rapariga (risos).

 

P/1 – E aí?

 

R – E aí toca organizar o casamento. Depois o meu avô, Antônio Paiva – que é esse que está aí – tinha o dinheiro, ofereceu logo ao futuro genro (25 contos?), naquela época, pra modo meu pai comprar carro e bois. Na época tinha carro puxado a boi.

 

P/1 – Já fez um bom pé de meia ali.

 

R – Já (risos) ________

 

P/1 – E quantos filhos nasceram desse casamento?

 

R – Treze filhos.

 

P/1 – Treze? Incluindo o senhor?

 

R – É, incluindo eu. Mas morreram bastante, uns pequeninos outros quando nasceram...

 

P/1 – E como era a casa de vocês lá na aldeia?

 

R – A casa era triste, mas a gente não conhecia outra, né. Era feinha e tal, e depois tinha a lareira, o forno que fazia pão. A fumaça que fazia pão, depois esquentava a lenha, pondo lenha no forno, e a fumaça andava aqui, coçando os olhos.

 

P/1 – Empesteava a casa, a fumaça?

 

R – É. E depois tinha a divisão: aqui pra dentro eram as camas... O forro cheio de fumaça, tudo preto.

 

P/1 – O senhor aprendeu a fazer pão quando pequeno já?

 

R – A gente via minha mãe amassar o pão com as mãos. As farinhas de milho e trigo, via-se amassar no tabuleiro, amassar o pão, e a gente via. Depois aquilo ia para uma masseira coberta com uma toalha e crescia o pão. Jogava o fermento. O fermento era um pouco de massa da outra semana, do pão que fazíamos na semana passada. Guardava uma bola de massa crua, guardava e cobria com sal, guardava pra modo não estragar, pois aquela bola de massa era o fermento da semana que vem. E aquele fermento, aquela massa velha da outra semana, amassava ali, tal e cobria com a toalha, e aquilo crescia. Enquanto estava esquentando o forno com a lenha, o pão já estava crescendo.

 

P/1 – Daí assava?

 

R – Estava crescendo e aí tirava, cortava em fatias de massa com uma coisa que chamávamos de escodela, de madeira. “Tam, tam, tam, tam”, e a massa... (cantarola uma estrofe), formava uma bola. Aquela bola colocava numa pá redonda... Numa tábua redonda, com um cabo, como se fosse um...

 

P/1 – Com um cabo da vassoura?

 

R – É, com um cabo de vassoura. E ia lá dentro do forno, “zap”. Ficava lá uma broa, duas, três, quatro, conforme a coisa.

 

P/1 – E o cheirinho?

 

R – O cheirinho gostoso igual aos salgadinhos de vocês aí. E dava para oito dias.

 

P/1 – Oito dias?

 

R – Oito dias. Todo mundo dizia: “mãe, quero mais pão”, mais um pedaço para cada filho. Era bastante, acabava logo.

 

P/1 – Muito bom.

 

P/2 – E o que mais o senhor comia nessa casa, senhor Manuel?

 

R – Sopa, caldo.

 

P/1 – Caldo verde?

 

R – Caldo verde com carne de porco. Tinham porcos, que matavam. Caldo verde... Mas tinha feijão e a couve, porque o caldo verde que eles falam em Portugal era só com a couve e a batatita esmagada. Esse caldo verde é mais um caldo forte com feijão, cozinhava feijão com carne de porco e a couve e aí comia. Arroz e macarrão era só o domingo. Conhecer o domingo que ia ter arroz com carne e o caldo, de domingo era diferenciado.

 

P/2 – Mas esse feijão é igual ao nosso feijão ou não?

 

R – É igual.

 

P/2 – Feijão roxinho assim...

 

R – Roxinho, feijão branco como tem aqui. Feijão branco... Fazia arroz, feijão branco no domingo. Na semana era o feijão amarelo.

 

P/1 – E como eram os almoços de domingo, reunia toda a família?

 

R – Reunia as famílias em cada casa, era o suficiente, um bando de filhos (risos), e cada vez tinha mais filhos. Se os pais fossem vivos iam lá almoçar, os avós moravam encostados da gente, comiam em nossa casa, comiam na casa da Neusa que reunia com os filhos, com a família.

 

P/1 – Senhor Manuel, e sempre um vinhozinho do Porto para acompanhar?

 

R – Do Porto... O vinho do Porto Alegre, o vinho da nossa uva, a gente fazia com o pé, pisava com o pé.

 

P/1 – Ah, vocês que produziam o vinho?

 

R – Tinha lá _________, tinha prensa e tudo, e tinham tonéis grandes e pequenos.

 

P/1 – Essa vila onde o senhor morava fica na região do Porto?

 

R – É, na região do Porto, ao pé do Douro, é onde é a região de vinho verde. Agora ela é a região de vinho maduro, próxima à Espanha já. É outro ________ a uva é de frente, o vinho deles é de frente. Agora, nós somos a região de vinho verde, e agora os salgadinhos que comemos... Se tomasse agora um vinho verde... (risos).

 

P/2 – Senhor Manuel, e no café da manhã, bebia-se café com leite como nós aqui ou... Como era?

 

R – Tinha café preto, como nós tomamos agora aqui. Colocava leite ou de vaca ou de cabra, o leite de cabra é mais forte.

 

P/2 – Mais gorduroso?

 

R – Mais gorduroso. O de vaca é mais fraco, um pouquinho. Mas ou de vaca ou de cabra, a gente colocava leite, porque café puro assim...

 

P/1 – Não descia?

 

R – As pessoas diziam que café puro não dormia bem à noite.

 

P/1 – Quais eram as brincadeiras de infância, seu Manuel, com seus irmãos, com os primos, os colegas?

 

R – A brincadeira, hoje, a brincadeira brasileira, é um carrinho que se compra, um automovelzinho, um menor, outro maior. Mas não havia dinheiro pra comprar um brinquedo que custasse um dinheiro. A gente, com uma tábua de cadeira, ou com aquela parte... Fazia umas rodas e fazia a bicicleta com uma roda na frente outra atrás. Um virador de madeira... Ia pro morro descer, uns quatro ou cinco colegas. A bicicleta ia, levávamos um tombo, sangrava a testa (risos). Por fim, a nossa mãe dava uma surra por cima.

 

P/1 – A sua família era enérgica?

 

R – Era sim.

 

P/1 – Do seu pai e sua mãe, quem era mais enérgico?

 

R – O meu avô Antônio Paiva, que está aí, só olhava: “Manuel, (assobio)...” (risos). As ovelhas ou as cabras estavam avançando na horta do vizinho, a comer suas coisas: “Seu Antônio, o seu neto vai ficar brincando pezinho na água e as ovelhas a comer a minha horta toda”. Aí voltava, contava as ovelhas, eram umas cinco ou sei ovelhas, montava e a Câmara fazia um auto, meu avô tinha que pagar a multa. Eram aquelas brigas, porque comiam o milho, então aí era assim, não havia dinheiro pra modo comprar carrinho bonitinho, eram brincadeiras que nós fabricávamos. Nós mesmos fazíamos, e nós mesmos acabávamos com elas. E o avô assobiava, o vizinho reclamava que as ovelhas estavam a comer a horta e nosso avô “fiiiiii”: “Hoje nós vamos conversar.” Só estas palavras...

 

P/1 – E aí já era suficiente?

 

R – Dava lá uma dor na barriga (risos). Sabia que quando chegasse lá, era um cabo de vassoura ou a cinta, a correia da cinta.

 

P/1 – O senhor apanhava de cinta?

 

R – O cabo de vassoura ou a cinta. Nós chorávamos, mas era pra nós prestarmos atenção pra amanhã não ficar a brincar com pezinho na água e as ovelhas a comer o milho ou a horta do vizinho, ou comer as nossas hortas também, as ovelhas ou as cabras ou as vacas. Então havia respeito, aquele respeito. Um assobio que Antônio Paiva nos dava... Era um fio de bigode que valia muito respeito, e havia aquele ambiente.

 

P/1 – E vocês eram uma família religiosa?

 

R – Católica, né. A gente não conhecia outra igreja senão a Católica.

 

P/1 – E eram praticantes?

 

R – Íamos à missa de vez em quando, não era muitas vezes, mas... E era assim a vida.

 

P/1 – E tinha uma roupinha especial para ir à missa ou não?

 

R – Não, não tinha não.

 

P/1 – Era roupa normal?

 

R – A roupinha é __________ que eu (risos). Histórias... Para ir fazer a primeira comunhão, uma vizinha que tem filhos já aqui no Brasil, emprestava-me umas calcinhas e uns chinelinhos de um filho dela quase igual a mim, emprestava as roupinhas para fazer a primeira comunhão amanhã, com a roupinha emprestada. Porque a roupa de meus pais era pra eu poder guardar as ovelhas e as cabras e as vacas lá, pra passar por dentro do mato. Rasgava aqui, rasgava ali, e era a vida.

 

P/1 – Então não tinha uma roupinha melhor pra fazer e pegava emprestado, é isso?

 

R – A vizinha emprestava a roupa do filho que servia e a gente ia todo contente com roupa emprestada. Mas era vida boa, brincando de bicicleta de madeirinha, brincamos com os outros... Dançar dancinhas, depois ia nos bailes dançar.

 

P/1 – Já na juventude, no começo da juventude?

 

R – Depois de 20 anos pra cima, aí era dançar, ir a este baile, naquele...

 

P/1 – O senhor ia para o Porto ou não?

 

R – Íamos ao Porto e também íamos em festas no Porto, região do Porto, são umas festas faladas, como aqui... Então era isso que a gente passava a vida, mas era uma vida boa. Hoje, os anos, as costas... É pior do que as bicicletas de madeira __________.

 

P/1 – Seu Manuel, antes da gente contar a história da sua vinda para o Brasil, eu queria que o senhor dessa uma descrição panorâmica da sua aldeia. Como é que ela era: grande, pequena, muitas casas?

 

R – Era pequena, uns 50 moradores, mais ou menos.

 

P/1 – Bem pequena, então?

 

R – Pequena. Isso era o Gildinho. A Freguesia de Real, por exemplo, a Freguesia do Ó, que falamos, é grande, pega a vila Brasilândia, a vila Bancária, então era uma coisa comparante.

 

P/1 – Pra estudar o senhor teve que sair da aldeia ou não?

 

R – Não, não, lá tinha escola, havia escola perto.

 

P/1 – Em Gildinho mesmo?

 

R – Não, não. Era, por exemplo, Gildinho era aqui e íamos à escola na Freguesia do Ó, a pé. Íamos a pé.

 

P/1 – Era longe?

R – Era sempre uma hora a caminhar ou mais, mas era um bando de moleques a brincar com aquilo, meninos e meninas com a pasta com aquilo...  Mas era bom.

 

P/1 – E como era na escola, a educação era muito severa?

 

R – Ah, ali a professora estava lá escrevendo no quadro e vinha os _________ que estavam sentados à mesa a escrever vinha ver a lição feita e isso e aquilo.

 

P/2 – Desculpe, eu não entendi. Quem vinha verificar se vocês tinham feito a lição?

 

R – A professora vinha examinar os meninos, a lição que estava escrevendo, se estava certa ou errada. Se os meninos falasse alguma coisa, tinha uma palmatória de madeira e dava nas mãos, a madeira, ficava coçando nas mãos.

 

P/1 - O senhor levou muita palmada ou não?

 

R - Não, eu era bonzinho (risos).

 

P/1 – Com essa cara... O senhor tem cara que aprontou muito com aquela professora.

 

R – Outras vezes que a gente não queria bater com a palmatória, ela puxava o aluno para abrir a mão. “Pam”, saia coçando... Agora, era assim, havia respeito. A professora “psiu”, a escola virava um silêncio.

 

P/1 – E na sua casa, quando é que surgiu a ideia de vir para o Brasil?

 

R – Eu já falei, mas torno a repetir. Eu trabalhava de empregado em casa de lavradores. Como éramos bastante irmãos, as nossas terrinhas eram poucas, a gente ia servir, como se fala.

 

P/1 – Pro exército?

 

R – Não, servir era eu ir trabalhar em sua casa...

 

P/1 – Ah, empregado?

 

R – É, empregado. Outro irmão meu trabalhava na sua, outro patrão... A ganhar a comidinha e ganhar uns trocaditos para modo comprar umas calcinhas, senão nas festas do ano que vem não se tinha.

 

(Troca de fita)

 

P/1 – Aí o senhor estava contado que tinha que trabalhar como empregado.

 

R – Aí um primo meu, e compadre hoje, era empregado como eu por lá, e havia lá um senhor – que ainda é vivo e que é muito nosso amigo –, estava aqui em São Paulo, tinha partes em padarias. Ele ia em Portugal todos os anos, tinha os pais vivos e a família e ele ia lá todos os anos. Então... “Seu Avelino, aqui em Portugal não há trabalho, trabalha-se muito em casa, como lavrador, e ganha-se pouquinho e eu queria ir para São Paulo.” “Tá bem, eu arrumo, eu arrumo.” E ele precisava de empregados pra modo de trabalhar nas padarias. Em vez de pegar empregados brasileiros aqui, ou, que fosse, um português, ele ia lá e trazia de lá. Trazia de lá, chegava aqui, punha como empregados a trabalhar. Um mês, dois, três, um ano, dois três como empregados, devagarzinho colocava como sócios, 20% nas padarias, ou 10%, conforme o capital que tinha. Ia lá o ano que vem lá em Portugal e trazia mais. “Seu Avelino aqui em Portugal, lá trabalha pros outros...” “Então vai, vai... Tem dinheiro, teu pai, para pagar as passagens?” “O pai não tem eu também não tenho”. E ele pagava as passagens. Às vezes chegavam aqui ao Brasil, trabalhavam pra eles uns meses, ou um ano, sei lá, para pagar a dívida. Então esse meu primo veio com o senhor Avelino. Passado uns meses ou um ano, eu não sei quanto tempo foi – escrevia pra mim, eu escrevia pra ele –, falou: “Estou aqui em São Paulo, dono de padaria já” “O quê? Era pobre como eu, era empregado, lavrador, e agora, no Brasil, é dono de...” (risos).

 

P/1 – Dono de padaria!

 

R – Dono de padaria, não. “Eu estou aqui a fazer nada. Será possível? O primo, pobre como eu, da enxada, e em São Paulo é dono de padaria!”. Aí eu tinha lá um patrão que eu trabalhava, contava-lhe o caso quando estava na casa dele, ele falava: “Olha, tu não fica pensando em nós lavradores, tu, enquanto és novo... A gente quer trabalhar também na enxada. Quando tu ficas como teu pai, abaixadinho na enxada, a gente não te quer mais. Então procura um emprego aqui em Portugal ou vai a São Paulo, não conta com a gente”. Patrão bom, se fosse outro fazia força pra gente continuar lá a trabalhar a vida inteira. Ele nos dava mais conselhos, então eu fui lá no meu tio e falei: “Tio, assim que vier a carta do primo do Brasil, é dono de padaria, eu aqui não tenho padaria nenhuma, o senhor também não tem, nem os outros filhos não tinham padaria nenhuma em Portugal”. Aí meteu-se isso na minha cabeça e o patrão ajudando a fazer força. Eu escrevi pra ele pra mandar a carta de chamada, pra ele pedir aqui. Porque era impossível, ele era empregado do campo e logo era dono de padaria no Brasil, como é que pode? Cismei em vir pra cá.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha?

 

R – Tinha uns 28 anos.

 

P/1 – E como a sua família recebia essa ideia?

 

R – A minha mãe achava que isso era mentira. Então eu escrevi pra ele que queria vir pra São Paulo também. Ele era dono de padaria e eu não tinha nada lá. Ele escrevia-me e me falou: “vá para a escola”, e eu não tinha aprendido quase nada na escola. “Vá pra escola, aprenda a ler e tire o diploma”. A quarta classe... O governo português não deixava sair de lá para o Brasil ou onde quisesse se não tivesse o diploma.

 

P/2 – Não podia sair de Portugal, é isso?

 

R – Não, não.

 

P/2 – Tinha que ter a quarta série.

 

P/1 – Quem estava no governo, nessa época?

 

R – Era o Salazar.

 

P/1 – Era o Salazar?

 

R – Era o Salazar. Então eu, com 28 anos ________ ia virar criança de novo. Falei com o patrão de onde eu trabalhava, contei o caso, mostrei a carta de meu primo de São Paulo, que eu precisava tirar a quarta classe senão o Salazar não me deixava sair de Portugal. Eu fui lá conversar com a vizinha, que era professora minha, contei o caso – a dona ________ –, mostrei a carta. Foi em dezembro, mais ou menos. Eu falei que queria ir pra São Paulo, que meu primo era dono de padaria, “eu aqui não estou fazendo nada, a carta está aqui, mas eu tenho que aprender a ler pra modo conseguir o diploma”. E ela falou “Olha, em janeiro são as matrículas...” – como aqui eu não sei que mês são as matrículas... – “Em janeiro são as matrículas, venha fazer a matrícula para vir pra escola”. Eu ia à escola, mas os exames eram em junho, no meio do ano. Em janeiro fazia a matrícula, e logo à frente, em junho, eram os exames. Eu achava que o prazo era curto. Ela falou “você não vai perder nada, faz a matricula, eu te coloco ao pé de um aluno adiantado, de um aluno que está bom, ele vai te dando umas dicas. Assim, enquanto eu vou ver outros alunos na escola, ele está do teu lado e tu vai copiando ele, vai fazendo força. Daqui a uns dois meses eu já te falo, pode continuar até junho que vai passar”, aí eu me animei. O meu amigo sabido, adiantado, Mário, do meu lado, ajudando. Passaram mais umas e ela falou “há futuro, pode escrever a seu primo, prepare a carta de chamada que vais para o Brasil, que eu vou te garantir os exames, em junho”. O professor Fernando de Campos Salles e a Dona Domitila – que era a professora que trabalhava também – é que iam aprovar os exames, e então começamos a conversar com o professor Fernando, a Dona Domitila, sabe ____________. E o diploma, eu trouxe ele ou não trouxe, o diploma saiu e a carta chamada foi... Eu, cinco meses após empregado por esse meu primo, já me trouxe. Arrumei um dinheiro, comprei uma carroça e um burro e ia entregando o pão nas portas.

 

P/1 – De casa em casa?

 

R – De casa em casa.

 

P/1 – Em que ano o senhor saiu lá de Portugal?

 

R – Em 59.

 

P/1 – O senhor estava com quantos anos?

 

R – 29 anos. Aprendi a ler com 28 anos. Saí de Portugal velho, e graças a Deus.

 

P/1 – O senhor veio de navio pra cá? Como foi a viagem de navio?

 

R – Foi bom, tinha bailes pra dançar. Eu queria mesmo dançar. Italianas, italianonas sentadas naquelas cadeiras, aqueles pernões, a dançar com elas (risos).

 

P/1 – Se divertiu, hein?

 

R – Me diverti, namorava... ‘Eta’ mulherada brava (risos). Aquela farra.

 

P/1 – Senhor Manuel, tinha divisão de classe nesse navio? Primeira, segunda, terceira classe?

 

R – Ah, tinha sim.

 

P/1 – E o senhor veio de que classe?

 

R - Eu agora não sei qual classe que foi não, não lembro se foi em primeira ou segunda. Acho que na primeira classe era as italianas que vinham com dinheiro, os italianos (risos). E então as brincadeiras, os bailes, o cinema, tudo isso.

 

P/1 – Dentro do navio tinha cinema?

 

R – Tem, tem, tem...

 

P/1 – O senhor se lembra de algum filme que o senhor tenha assistido?

 

R – Não, não me lembro não.

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – Eu também não era muito de cinema.

 

P/1 – O senhor preferia um bailinho? (risos)

 

R – Eu queria era...

 

P/1 – Só mais uma coisinha do navio: como é que o senhor conseguiu dinheiro pra passagem?

 

R – Eu já tinha uma economia, e minha irmã mais nova arrumou-me o que faltava. O meu primo falou: “Eu não tenho dinheiro para te pagar a passagem para o Brasil, porque eu comprei a padaria e estou a dever”, então eu tive que me virar, arrumei o dinheirinho. Com o que tinha... A minha irmã arrumou-me com um patrão nosso que emprestou pra ela, e ela emprestou pra mim. A mala que trouxe as roupas era uma mala grande. Eu não tinha dinheiro pra modo de comprar uma mala nova. A loja que vendia malas... A minha irmã desmanchou a roupa dela toda no quarto e deu uma mala dela pra eu não gastar mais uns centavos com a mala.

 

P/1 – E ela te ajudou, essa irmã?

 

R – Ajudou. Me deu uma mala, arrumou o dinheiro com a vizinha, e o que tinha e eu paguei a passagem: dois mil e 724 escudos, paguei lá no porto.

 

P/1 – De que porto o senhor saiu?

 

R – Em Lisboa. O navio encostou em Lisboa, porque o do Porto é pequeno, é só de encostar navios pequenos, como navios de carga.

 

P/2 – E o nome do navio, o senhor se lembra?

 

R – Lembro sim, é o Corrientes, argentino.

 

P/2 – O senhor chegou em que porto aqui? Em Santos?

 

R – Em Santos.

 

P/2 – Senhor Manuel, quando o senhor chegou em Santos, que impressão o senhor teve do Brasil, assim que chegou, assim que desceu do navio? O que chamou mais atenção do senhor?

 

R – Em cima do navio, olha pra baixo, todo mundo olhando pra baixo. Cumprimentando os de cima, os de baixo, uns contentes. E eu de cima do navio – eu já falei isso há tempos –, não via o primo, não via ninguém. Não estavam me esperando, não tinha ninguém. Aquela tristeza, todo mundo descendo, todo mundo a descer. A minha namorada do navio desceu, chegou embaixo, o marido dela estava esperando, abraçando e beijando (risos). Hoje é minha vizinha, eu não sabia que ela ia ser vizinha minha. Ela no navio comigo, pulando e se divertindo, e depois desceu do navio, o marido abraçando e beijando (risos), e agora é minha vizinha, do lado de lá. Mas sem vergonhas do maridinho...  Aí eu continuei lá em cima do navio pra ver se aparecia o primo, e não o via. Chegou a hora que os guinchos começaram a tirar as malas do porão, e aí dão ordens para os últimos passageiros descerem. Eu desci, cheguei embaixo: cadê o primo? Não tem primo, não tem primo. E agora, aqui no Brasil... Não tem primo, não tem conhecidos. Eu não tinha como tirar as malas pra pagar a alfândega, porque ali precisa pagar. Os passageiros pagam ali, né. Não tinha cruzeiro, não tinha cruzado, só tinha escudo. Um senhor é que falou pra mim: “Vai a esse guichê e troca escudo pelo dinheiro brasileiro” – não sei quanto é que foi – “Veja aí os números passando, aquela roda passando. Quando vir o teu número do passaporte a passar, aproxima-te e pagas pelo que trazes na mala”. No navio a gente declarou o que trazia, já, então eles estavam sabendo, mas quiseram mais respostas minhas. Eu falei mais ou menos o que trazia lá, então paguei a taxa. Mas como eu não tinha muito dinheiro e não tinha família, até que favoreceu-me. Só que quando puseram as malas na calçada, fora, eu olhei pra fora e já estava escuro. Aí eu comecei a chorar. Chegar ao Brasil, a uma terra estranha, não tinha família, não tinha dinheiro do país e agora de noite, né... Apareceu-me um senhor para modo de eu entregar a mala, a mala grande, a pequena vinha comigo, e eu confiando muito no brasileiro, no Brasil. Como em Portugal, arrisquei a muita coisa, deixei o endereço aqui de São Paulo, que trazia comigo aqui na carta, ele anotou e ficou com minha mala, minhas coisas, minhas roupas e, passado uns oito ou 15 dias apareceu aqui aonde eu estava mais o primo, entregando a mala e cobrando a taxa, porque em Santos eu não tinha dinheiro_________ custa tanto, eu paguei a taxa na alfândega para a alfândega jogar as malas na calçada, depois que se virasse. O primo pagou a taxa e graças a Deus a mala foi aberta e não faltava nada, graças a Deus. Se fosse hoje, né (risos).

 

P/1 – Mas como é que o senhor foi de Santos para São Paulo? O seu primo foi lá ou não?

 

R – Não foi.

 

P/1 – O senhor teve que dormir em Santos?

 

R – Não. O senhor é que falou “Olha, pega aqui o bonde número tanto” – os bondes que se usava – “O bonde que passa aí, número tanto”. Escreveu no papel, “pega o bonde e paga não sei quanto” – era um dinheiro pequeno – “e vai descer numa rodoviária. O bonde leva até lá, a rodoviária onde tem os ônibus que levam à São Paulo.” Aí eu entrei no bonde... Era bonde?

 

P/2 – Era bonde sim, em Santos.

 

P/1 - Aí o senhor veio de ônibus?

 

R – Cheguei à rodoviária, rodoviária São Paulo, entrei num ônibus, subi a serra de Santos. Tudo era escuro, uma escuridão, e cheguei aqui no ponto final, era na João Mendes, era aonde os ônibus de Santos encostavam, naquela época. Terminou com os passageiros a descer, e agora um senhor, passageiro, falou: “O senhor agora vai descer em São Paulo e pegar um táxi. É só dar o endereço que ele vai te levar, e ele vai te perguntar: “‘Conhece esta rua?’ Fala que conhece (risos). O brasileiro, se vê que não conhece, vai te levar lá para Freguesia do Ó e vai apresentar uma conta alta pra pagar. É lá pela Pompéia, pela Barra Funda. Se perguntar se é essa rua, fala que acha que sim, ‘andamos, acho que é esta’”. A Santa Marina era uma ponte de madeira. Naquela época, não tinha a ponte da Freguesia nem outras pontes, era tudo de madeira, então, a Avenida Santa Marina... Dei o endereço que eu tinha em Portugal, cheguei à padaria. O meu primo estava a dormir, já no segundo andar, a padaria embaixo. Os sócios fizeram-me lanche de pernil. Gostoso pernil, oh diacho, tomei um guaraná...

 

P/1 – O senhor já conhecia o guaraná?

 

R – Não, não. Conhecia o vinho de Portugal.

 

P/1 – Foi a primeira vez que o senhor tomou um guaraná?

 

R – Era.

 

P/1 – O que o senhor achou?

 

R – Gostoso. O lanche de pernil também era gostoso, igual esse lanchinho vosso, também. Estou fazendo propaganda. O que falta aí é o vinho. Então deram-me o lanchinho, subi as escadas, levaram-me ao quarto onde eu ia dormir, aonde o meu primo já estava a dormir, em uma das camas, assim, pegada. Toca a conversar... Amanhã, às duas horas da madrugada ele se levantou para ajudar a fazer o pão. Máquinas brasileiras com rolos _________ pegar pão. E a vida foi esta.

 

P/2 – E o senhor ficou trabalhando na padaria do seu primo?

 

R – Aí ele era solteiro, eu era solteiro. Trabalhava no balcão e entregando pão. Ao fim de cinco meses ele comprou-me a freguesia do pão com a carroça e o burro para entregar pão, e eu ganhei muito dinheiro com isso. Tinha uma freguesia boa, amizade que eu fazia. A dona de casa, quando ia vencer a continha amanhã ou depois eu falava: “vai vencer o pagamento no domingo ou a semana que vem, eu vou oferecer uma rosca”. Eu animava, oferecia ______rosca. Conhece rosca de padaria?

 

P/1 – Claro.

 

R – Aparecia “Olha o padeiro”, levava uma rosca e dava de presente. Me pagavam, e aquela freguesa falava com uma vizinha, uma comadre, uma parenta. “Pega pão aqui desse padeiro que ele é gente boa, o pão é gostoso, ele dá uma rosca”.

 

P/1- Quer dizer que o senhor percorria o bairro de charrete?

 

R – É.

 

P/1 – Como é que era o bairro, naquele momento?

 

R – Era a Freguesia do Ó.

 

P/1 – As ruas eram asfaltadas já ou não?

 

R – A Avenida Itaberaba era asfaltada, a [Rua] Parapuã não era asfaltada, as travessas eram rua de barro a escorrer para cá, para acolá.

 

P/1 – E luz, tinha ou não, no bairro?

 

R – A Itaberaba e a Parapuã tinha já. As travessas não, era tudo escuro.

 

P/1 – As travessas não.

 

R – Era tudo de barro, escorria pra cá, escorria pra acolá.

 

P/1 – O senhor não se perdeu nenhuma vez? No começo, quando o senhor não conhecia direito?

 

R – Não, porque o que vendeu a freguesia pra mim... O vendedor ficava com o comprador oito dias ou quinze ensinando os fregueses, apresentava os fregueses dele e: “Agora é esse senhor que vai ficar. Esse senhor é nessa rua...”, eu anotava o nome da rua, acabava de fazer a freguesia, chegava à Vila Palmeiras, encostava a carroça e ia ver as ruas pessoalmente. Começava a entregar pão cedo. Às duas, três horas eu estava lá na rua a entregar pão, quase de noite. No relógio de luz colocava os pãezinhos...

 

P/2 – Às duas ou três horas da manhã que o senhor entregava o pão?

 

R – É, é.

 

P/2 – Então o senhor acordava a essa hora?

 

(Troca de fita)

 

P/2 – Então, senhor Manuel, como era o seu dia? O senhor disse que entregava pão às duas ou três horas da manhã. Então, como é que é, o senhor acordava essa hora ou nem tinha ido dormir ainda?

 

R – O meu primo ia dormir cedo e eu ia dormir também, e às duas horas levantava. Ele ia entregar pão nos bares e eu ia pegar a carroça e o animal.

 

P/1 – E o senhor ia dormir a que horas?

 

R – Pois quando era 11 horas, meio dia, acabava de entregar o pão na Brasilândia, nas últimas ruas, e vinha, pois, para casa, pagar o pão à padaria que me vendia o pão, nas várias padarias que eu comprava, pagar o pão e pôr o animal a comer. Ia descansar, ia visitar amigos, e quando era oito horas, mais ou menos, ia dormir.

 

P/2 – E nessa ocasião, o que o senhor comia? Como foi encontrar essa comida brasileira, aqui? Tinha arroz com feijão todo dia, aqui?

 

R – Tinha, pois é, a comida brasileira era essa mesma. Não era fora que eu comia, comia na mesma padaria do meu primo. A partir desta data ele falou “bom, a partir de hoje tu estás-me a dever 50 contos, pagas os juros, pagas a pensão e moras na mesma casa e comes na mesma mesa, pronto.” Tenho um livro aí que eu, em pouquinho tempo, paguei lá a freguesia de pão, trouxe aí a caderneta preta, quando eu tinha...

 

P/1 – Depois a gente vê a caderneta. O senhor pagou a freguesia em pouco tempo, então?

 

R – Quando eu tinha um conto ou 50, cruzeiro ou cruzado, eu guardava para ir logo, amortizar. Eu tenho esse livro até hoje.

 

P/1 – Ah, depois a gente quer ver. E senhor Manuel, o senhor estranhou a comida brasileira?

 

R – Não, não estranhava. O vinho não era o vinho verde do Douro, do Porto, mas passava.

 

P/2 – Mas o que o senhor estranhou? O que era muito diferente de Portugal para cá? Em Portugal a gente se cumprimenta assim, dando dois beijinhos?

 

R – Em Portugal, até hoje, ainda no ano passado, íamos eu e mais ela caminhando numa rua, estavam uns pedreiros indo trabalhar, construindo uma casa e a gente não cumprimentou, passamos do lado, ele já trabalhava fazendo as massas. Íamos a uns metros na frente, eles ficaram para trás. E eles responderam para mim e pra ela: “Bom dia, senhores”. Aí eu olhei pra trás e cumprimentei “Bom dia”. E é o que falta aqui, a gente passa pelas pessoas com a cara abaixada. Se é conhecido fala bom dia ou boa tarde, se não é...

 

P/1 – E lá, mesmo se não é conhecido...

 

R – Se cumprimenta. Os pedreiros não deram aquela bronca? Os pedreiros estavam lá fazendo as massas e virando pedras, não precisavam me cumprimentar. Eles não sabiam quem era, eu ia lá?

 

P/1 – E o senhor sentiu isso, na época, aqui?

 

R – Eu senti que o ambiente de lá era “bom dia” ou “boa tarde” pra quem eu conheço ou não conheço, ou que seja preto ou que seja branco, ou que seja rico ou que seja pobre. Bom dia, boa tarde, pra quem esteja trabalhando ou não. “Bom dia ou boa tarde” e a pessoa recebe a resposta “Bom dia, senhor”, quando não conhece é Joaquim ou é Manuel. Dar a resposta “Bom dia, senhor”, ou “senhora”. Também se aqui fosse se fazer isso (risos), estava a toda hora “bom dia, bom dia, bom dia”. Não fazia outra coisa, né?

 

 

P/1 – (risos) Entre os seus clientes o senhor tinha clientes preferenciais, que o senhor parava, batia um papo, tomava um café, entrava na casa?

 

R – É, tinha amizade que oferecia um cafezinho ao padeiro. “Padeiro, toma um cafezinho”, oferecia um cafezinho. Eu dava uma rosca, tomava um cafezinho. Era aquela amizade, mas não podia demorar, porque estavam outros fregueses a esperar o pão àquela hora.

 

P/1 – Seu Manuel, tinham outros imigrantes portugueses ou de outras nacionalidades no bairro?

 

R – Tinha, tinha. A vender pão como eu, com uma carroça e um burro, fazendo concorrência a mim e eu fazendo a eles.

 

P/1 – Ah é?

 

R – Havia, também. E padaria ele também tinha uma, em frente havia outra que era de conhecidos também de Portugal.

 

P/1 – E sempre de Portugal, os padeiros?

 

R – Naquela época tinha brasileiro no meio já, empregado brasileiro.

 

P/1 – Assim, um alemão dono de padaria não tinha? Só português ou brasileiro?

 

R – Outra gente aí, tinha espanhol, né.

 

P/1 – Lá no bairro?

 

R – Tinha espanhol, tinha italiano, mas fazendo pão, fazendo concorrência, não.

 

P/1 – Não?

 

R – Naquela época os portugueses que eram os donos das padarias.

P/1 – E como era o convívio com essas pessoas de outros lugares? Como o senhor falou, com os espanhóis, com os italianos, como é que vocês conviviam?

 

R – Convivíamos... A gente tratando bem os outros, eles tratam a gente bem também.

 

P/2 – Senhor Manuel, aos domingos a padaria fechava?

 

R – Não, não.

 

P/2 – Funcionava direto?

 

R – Funcionava direto.

 

P/2 – Mas o senhor não achou nenhum clube de dança, onde o senhor ia dar seus passinhos?

 

R – Eu ia dançar um pouquinho na noite... Porque deitava cedo, de madrugada precisava entregar pão. Mas era em bailinho de famílias, nunca fui de ir em salão de baile, essas coisas assim. Tinha medo, até.

 

P/1 – E a Dona Maria, como apareceu na vida do senhor?

 

R – Pergunta para ela.

 

P/1 – Não, o senhor que tem que contar.

 

R – Eu já contei.

 

P/1 – Só pra gente deixar registrado, vamos... O senhor a conhecia lá de Portugal?

 

R – Não, foi a fotografia é que mostrou ela, e eu mostrei a minha também.

 

P/1 – Você sabe dessa história?

 

P/2 – Eles casaram por procuração. Ela estava em Portugal, ela mandou a fotografia, o senhor mandou a fotografia. O senhor já contou essa história da outra vez.

 

R – Agora, acontece que quando eu fui à casa do Consulado de Portugal dar andamento da carta chamada para ela, como se fosse uma pessoa estranha, as moças lá do consulado de Portugal admiravam-se: “Senhor Manuel, mas casar com uma moça que o senhor não conhece, nunca viu? Como é que pode, senhor Manuel? (risos). O senhor precisa pensar um pouco. E ela sentada na máquina de escrever, eu ia falando, ela ia escrevendo. “Precisa pensar um pouco nesse casamento, cuidado! Se vocês não se gostam, como é que fica depois?”, mas ela escreveu e a carta foi, a procuração foi, ela veio e está aí.

 

P/1 – E dessa época o senhor não morava mais com seu primo, em cima da padaria, já tinha um lugar separado? Onde que era?

 

R – Já, já. Eu tinha padaria quando solteiro, já.

 

P/1 – Ah, o senhor já montou já.

 

R – Quando solteiro eu já tinha a padaria, tinha casas compradas, já. E eu não fiquei aqui de braço cruzado. E após os anos passando, 30 anos passados já, eu vinha pensando que o meu primo tinha padaria em São Paulo, eu também precisava ter, e tive. Aprendi a fazer pão três anos após, e com o dinheiro da freguesia de pão e mais um pouco já comprei uma padaria, eu e mais outro português. Eu vendi aquela e comprei um bar, e do bar comprei uma padaria e depois casei e fui empurrando. Havia casas a vender, eu comprava a prazo, para pagar em prestações. Colocava lá inquilinos e os inquilinos, o aluguel que pagavam para mim, pagava a prestação e me sobrava ainda.

 

P/1 – Qual que era o nome da sua primeira padaria?

 

R – Não me lembro o nome dela, era em Santo Estevão, eu acho que era Padaria Santo Estevão, no Tatuapé.

 

P/1 – Aí o senhor saiu para outro bairro, então?

 

R – Lá era um bairro de muito estrangeiro, muito espanhol, e tinha muito portuguesa lá, naquela época. Praça Silvio Romero, era por ali. E eu ia dançar em festa de São João e São Pedro, fogueira de lá do Tatuapé. Eu estava lá dançando com elas, que elas eram as minhas freguesas de pão, e eu ia dançar de noite, convidavam o padeiro (risos). “Hoje vai haver a festa de São Pedro aqui embaixo, vamos dançar?”, eu dizia “Vamos lá.”. A fogueirinha... Era época boa. E hoje?

 

P/1 – E hoje senhor Manuel, vocês saem, o senhor e sua esposa, hoje?

 

R – A gente sai, outras vezes não sai.

 

P/1 – Vocês fazem parte de um grupo no bairro, né? Um grupo de terceira idade, não é isso? Como é que chama o grupo?

 

R – Como é que chama lá?

 

(Voz ao fundo) – Casa da Cultura, que chama “A Vida é Bela”.

 

P/1 – A Vida é Bela?

 

R – A Vida é Bela.

 

P/1 – Como foi essa experiência de participar de uma atividade...

 

R – As vizinhas nossas que participam nos levaram para lá. Lá temos um professor de ginástica, aos sábados (risos). Ginástica, tem ginástica lá. E sextas-feiras, 50 velhotas a dançar. Ainda nós fomos hoje lá, ensaiar. Vai haver agora as festas de São Pedro, ensaiar a velhada a dançar umas com as outras.

 

P/1 – É quadrilha ou não?

 

R – É quadrilha, mulher com mulher, uma é mulher e a outra é homem.

 

P/2 – Por que tem pouco homem nesse grupo, é mesmo? (risos)

 

R – Mulherada. E essa é a vida após o seminário. Lá no seminário a gente frequentava a igreja, e frequentamos a que é ao pé da nossa casa. O senhor Bispo, o Dom Eugênico, com a amizade que tinha com a gente, tinha lá uma área, um terreno, e nas vésperas de Natal ia haver festinhas lá no seminário. Então o mato era feio, e pediram para eu arrumar um homem que cobrasse baratinho para modo de cortar o mato. Aí não acha o homem barato, cortei eu. Eu falei “Senhor Bispo, o mato fui eu mesmo que cortei, só que precisava manter a picareta, arranjar o mato e arrancar.” “Oh, meu irmão, arranca e cava.” “E eu vou a plantar horta, vou colocar galinhas e vou plantar vinha.” “Meu irmão, fazes o que quiseres.” E eu estou lá, com uvas e vinho, galinhas e galos. A rádio Nove de Julho veio agora para lá, a chamar a rádio Nove de Julho, gravando as galinhas a cantar e os galos “qui, qui, qui”, tudo brincadeira para todo o Brasil, e eu brincando também.

 

P/1 – Como é que chama essa igreja?

 

R – Nossa Senhora Mãe de Deus, era no seminário mesmo.

 

P/1 – Vocês tiveram filhos? Quantos filhos?

 

R – Tivemos um.

 

P/1 – Um filho? Qual é o nome dele?

 

R – Manuel, também.

 

P/1 – Quantos anos ele tem hoje?

 

P/1 – 35.

 

R – E eu tenho um netinho. A gente tem lá um netinho, correndo.

 

P/1 – E o senhor não faz uns carrinhos com roda de madeira pra ele?

 

R – Não. É como eu falei, ele não quer carrinho feito de roda de madeira, querem comprado. O pai compra um carrinho hoje, já compra outro amanhã, enche de carrinhos. E a vida hoje é isso.

 

P/2 – E as festas, senhor Manuel? O Natal o senhor comemora?

 

R – Comemoramos, comemos o bacalhau à moda de lá e vinho brasileiro mesmo.

 

P/2 – Dá uma receita boa de bacalhau pra gente, vai? Quem cozinha, o senhor cozinha ou a Dona Maria do Céu?

 

R – É ela que cozinha.

 

P/1 – Mas o senhor sabe a receita?

 

R – A receita vai o peixe, corta aos pedaços, coloca na água uns dias antes, pra modo perder a salmoura, e bota ele a cozinhar na panela, em pedaços; coloca a batata dentro, tira a casca da batata e racha a batata ao meio; cozinha a batata e o bacalhau e, por exemplo, couve e cozinha aquela misturada toda.

 

P/2 – Tudo junto: couve, bacalhau e batata?

 

P/1 – A couve é folha inteira ou é cortada?

 

R – Quebra ao meio, quebra ao meio e cozinha toda.

 

P/2 – Com azeite?

 

R – Tira as batatas e bacalhau, uma posta, põe azeite português ou brasileiro, o que tiver, põe em cima e toca a comer. E o vinho à beira, ou brasileiro ou português. O gosto, se for bacalhau do Porto, que aqui há uma espécie de bacalhoada que finge ser bacalhau do Porto, e não é não, o gosto é outro. O nosso bacalhau é o do Porto, que se acha nos supermercados, no mercado da Lapa. Só que ele custa 25 e 28 reais, é caro, né?

 

P/2 – É caro. O quilo, né?

 

R – O quilo. A bacalhoada brasileira custa dez, 12 e finge que é bacalhau, mas o gosto é outro.

 

P/2 – E o que se come de sobremesa? Alguma coisa coroada, não tem alguma coisa que a fava vai dentro do bolo, não tem essa tradição em Portugal? Bolo Rei, o senhor não come o Bolo Rei?

 

R – Não. É isso, e agora?

 

P/1 – E agora eu queria saber assim: o senhor teve as padarias. Hoje o senhor está aposentado, não está mais trabalhando, então?

 

R – Eu tenho lá a vinha no seminário, tenho as galinhas, tenho as couves, tenho a igreja, tenho os seminaristas, tem o Bispo, tenho a [Casa da] Cultura para poder dançar e fazer exercício. Mato o tempo assim.

 

P/1 – E seu filho, que profissão tem?

 

R – A Light. Se você não estiver pagando a conta ele manda cortar.

 

P/1 – É ele, então? (risos).

 

R – Ele vê as contas como é que estão, se estão pagas, se vai pagar...

 

P/1 – Senhor Manuel, o que o senhor achou de dar esse depoimento pra gente?

 

R – Este, agora? Como é que chamam... O apagão. Olha, eu falo a realidade, eu falo a realidade, e eu não gosto e gosto, entendeu? Porque a molecada nova, os nossos filhos e netos são muito folgados. É uma luz acesa, duas, três, se tiver quatro lâmpadas, são quatro que estão acesas aonde uma só servia. Tomam banho para almoçar, tomam banho para jantar, enfiam-se no banheiro por duas horas, gastam água e luz. Vem a conta de luz alta. Não pode pagar? A conta veio alta? Meu filho manda cortar. O Fernando Henrique inventou uma que eu escutava, há um ano e pouco, que precisava fazer economia até no banheiro, precisava usar meio metro de papel higiênico, não sei se vocês escutaram ele recomendando. Meio metro de papel higiênico. Aí é que ia começar a economia, pelo papel higiênico. Eu escutava essa história. E agora eu acho que a nossa molecada, o filho casado, o netinho, pequenino, os seus filhos, os vossos filhos, não gostam de tomar banho a correr, não gostam de ver poucas lâmpadas, mas isto até é uma escola de economia. Meu filho não fala agora que as contas de luz estão abaixando. Se estão abaixando as contas de luz, o dinheiro sobra no seu bolso, e isso é bom. Nossa molecada brasileira precisa aprender um regime como nós tivemos, os vossos pais e os meus. Eu penso isso ainda, isso está gravado aí, mas o Henriquinho não vai achar ruim, entendeu? Não vai achar ruim.

 

P/1 – Eu queria só uma última pergunta: o senhor teria algum sonho que gostaria de realizar?

 

R – Eu tenho um sonho de durar muitos anos, pra modo gozar a minha família e ver meu netinho crescer, e ver vocês vivos, e eu também, ir a Portugal ver a minha família que ficou lá.

 

P/1 – O senhor voltou alguma vez para lá depois que veio pra cá ou não?

 

R – Já, várias vezes. Ainda no ano passado estivemos lá.

 

P/1 – Está bom seu Manuel, a gente queria agradecer muitíssimo a sua entrevista. Obrigada.

 

R – Aí eu vou ganhar uma fita ou não?

 

P/2 – Depois a gente pode ver...

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