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História de: Enilson Simões de Moura (Alemão)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

Em seu depoimento Enilson descreve a sua inserção no movimento sindical brasileiro, que inicia a se forjar em Divinópolis pela entrada precoce no mundo do trabalho e pela aproximação com os grandes clássicos da literatura marxista. Datam da infância as correrias com os grevistas, fugindo da polícia e, na vida adulta, não teve a mesma sorte, quando foi preso. De Minas Gerais viaja clandestinamente a São Paulo; já era tempo do golpe militar. Prepara-se para ingressar nas fábricas e organizar a militância junto aos trabalhadores e coloca em cena a história do movimento sindical da segunda metade do século XX, até os anos 2000. Pode-se dizer que as suas táticas se pautavam pela oposição. Não teme expor as contradições da estrutura e da ética sindical e as estratégias de resistência que concorriam para os direitos da classe trabalhadora, exigindo permanente atualização, para dar conta das profundas mudanças no mundo do trabalho. Reconhece que entre os legados está a mudança no estilo de liderança para mais democrática e a de viver em solidariedade, sem ser filantropo ou demagogo. Distingue que o sindicalismo o subtraiu da vivência familiar; que hoje seus filhos, já formados, são o que são graças à mãe deles.

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História completa

P/1- Para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento?

R- Enílson Simões de Moura, nascido em Divinópolis, Minas Gerais em 28 de julho de 1950.

P/1- Qual o nome dos seus pais?

R- Gerson Penha Simões de Moura e Arlinda Simões de Moura.

P/1- Você tem irmãos?

R- Sete irmãos.

P/1- O que que eles fazem?

R- Todos trabalharam também em empresas, em diversas empresas. Um conseguiu ser engenheiro, outro professor e está todo mundo trabalhando em fábricas, todas em Minas Gerais.

P/1- Você nasceu em Divinópolis, né, em Minas?
   
R- Divinópolis.

P/1- Você viveu lá até quando?

R- Vivi em Divinópolis até no fim da década de 1960, eu saí de Divinópolis em 1967, 1968,  fui servir ao exército em Belo Horizonte,  onde  passei a morar.

P/1- Bom, a gente não vai vir ainda pra São Paulo, tá? Você lembra de quando você era criança, como é que era a sua casa, o bairro onde você morava?

R- Era uma casa de ferroviário, uma casa de gente pobre, num bairro que não tinha infra-estrutura, não tinha calçamento na rua, não tinha telefone, não tinha esgoto, não tinha nada dessas coisas. Foi lá que passei a minha infância,  hoje é um bairro central, na época era um bairro de periferia da cidade,  e se  chamava Vila Belo Horizonte.

P/1- E como é que foi essa infância?

R- Trabalho, trabalho. Trabalho desde criança, trabalho desde os 11 anos de idade. Terminei o período escolar,  estudei na escola Grupo Escolar Joaquim Nabuco, em Divinópolis, quando saí do Grupo, comecei a trabalhar. Então fui estudar à noite e trabalhar de dia, trabalhar numa fábrica pra arreios  de cavalo, uma selaria. Fiquei trabalhando lá por um bom tempo e depois fui pra fundição. Divinópolis é uma cidade metalúrgica, uma cidade que basicamente era urbana e tinha muitas fundições especializadas em fazer panelas, pé de carteira, tampas de esgotos, essas coisas de fundição mais antiga, né?  Lá tinha, também, muitas siderúrgicas. Mas naquele período todo lá ninguém assinava carteira profissional, então todo esse período a gente trabalhou sem carteira profissional assinada, tanto quando criança  como  na adolescência. Só depois que eu fiz serviço militar, é que começou a ter carteira profissional assinada e tal.

P/1- Deixa eu voltar um pouco. Como é que foi o seu período da escola? Como é que foi a sua formação, como que era a escola?

R- Escola é uma escola. Era uma escola pública, sempre estudei em escola pública e depois no primário e depois.  Era um período interessante porque só continuava nas escolas públicas as pessoas mais ricas, as mais pobres tinham que pagar porque o ensino público tinha melhor qualidade, né?  A escola que a gente pagava era escola que eu estudava à noite, eram escolas ainda fracas,  mas foi lá que nós conseguimos estudar. Estudei no Colégio Leão XIII e depois Colégio São Tarcísio até terminar o segundo grau.

P/1- Você terminou o segundo grau e você fez algum curso depois?

R- Eu fiz o curso mais barato que tinha. Foi o curso técnico de contabilidade, uma coisa que eu nunca exerci, nunca trabalhei em escritório nenhum, mas não deu oportunidade de terminar o segundo grau foi assim, foi fazendo esse curso.

P/1- Dessa época da sua adolescência, juventude, infância, no período escolar tem algum fato assim que marcou que você lembra?

R- Quando estava...Teve, né? Digo, não por ser uma cidade industrial e ser também um centro rodoviário muito grande, lá tinham muitas greves,  tinham muitas greves de ferroviário. O meu pai fazia muitas greves, meu pai participava de todas as greves. Tinha sempre a polícia invadindo a cidade, tomando conta da cidade porque lá era um núcleo ferroviário muito importante. As oficinas da estrada de ferro,  onde  se fazia manutenção das locomotivas, dos vagões e tal, localizavam-se  em Divinópolis. Era um entroncamento grande, os trens que saiam de Belo Horizonte vindo pra São Paulo, paravam ali em Divinópolis. O transporte grande de passageiros e de carga, sobretudo, de passageiros, era feito por trem  naquele período. Então nós participávamos das correrias,  de vez em quando tinha que correr, mesmo sendo criança tinha  que sair correndo de polícia. E depois na juventude na década de 1960 teve o golpe militar e logo em seguida do golpe, alguns anos depois, eu não sei exatamente o ano,  eu comecei fazer contato  com o pessoal  da esquerda de Minas, com a Polop [Política Operária] de Minas. Nessa época eu participava de um grupo de jovens da igreja,  e apareceu lá algumas pessoas vinculadas à Polop. Há uma dissidência da Polop, a Polop já estava em várias dissidências, foi onde a gente começou  a militância.  E foi em função desse pessoal que logo  eu acabei mudando de Divinópolis pra Belo Horizonte. Comecei a minha militância mesmo em Belo Horizonte. Nesse um período  a militância consistia no que  a Polop chamava de Recuo Organizado e Provisório, ROP, onde os militantes deveriam se preparar para as tarefas da revolução. Tinha que ler muito.  Havia uma bibliografia pra ser lida,  gente começava lendo A Mãe do Gorki, depois lia História da Riqueza dos Homens, depois lia Materialismo Histórico da Marta Harnecker e depois lia Materialismo Dialético do Politzer e depois ia começar a ler as coisas do marxismo. Era um pouco isso, né?

P/1- E como que era a sua militância? Você começou a participar desse grupo, começou a ler, mas a militância e a sua atividade, o que que você fazia?

R- Pois é, na verdade  esse grupo queria que eu fosse fazer movimento estudantil e aí eu já comecei a minha primeira bronca,  porque eu não queria, eu não podia estudar,  eu não tinha condições financeiras pra eu estudar. Então lá em Belo Horizonte ocorreu um momento em que o que   fazíamos era organizar atos, trazer mais gente pra nossa organização. Era buscar nas fábricas,  eu basicamente buscava nas periferias e nas fábricas, embora o assistente do grupo insistia que eu tinha que fazer um vestibular  numa faculdade  e isso nunca acabou acontecendo.  Houve um período em que vários companheiros foram presos e  eu tive que sair de Belo Horizonte na clandestinidade. Vim para São Paulo, fiquei uns quatro anos clandestino. Alguns amigos e conhecidos tinham sido presos e tal.

P/1- Você lembra em que ano mais ou menos?

R- Foi no início da década de 1970,  que eu vim pra São Paulo.  Fiquei na clandestinidade,  e  acabou essa história  de mexer com negócio de estudante. Fui continuar a minha vida normal que é trabalhar em fábrica e a partir das fábricas começamos a organizar os vários movimentos e  greves, né? No início da década de 1970 eu fiz greve dentro da Catterpillar, participei das campanhas salariais do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Era uma briga terrível, lá naquele sindicato, para ser da comissão de salários e eu consegui ser da comissão de salários. O sindicato nos afastava da produção durante o período da comissão de salário e quando acabava a estabilidade, acabava o salário e a gente foi demitido da Catterpillar. Mas lá já tinha construído um grupo que era uma célula da nossa organização. A organização já tinha  se dividido em várias. Nós tínhamos uma outra organização lá com o nome extremamente pretensioso chamado Fração Operária Comunista, FOC. Havia um pessoal do Rio.

P/1- Deixa eu só voltar um pouco porque a gente vai voltar nessa sua atividade sindical. Quando você veio pra São Paulo como é que foi a sua trajetória profissional, seu trabalho. Você começou a trabalhar onde, como foi isso?

R- Em São Paulo eu fiquei trabalhando no Bom Retiro, em várias fábricas de confecções, enquanto eu fazia um curso de inspetor de qualidade, que  fiz  na Santa Cecília. Tinha uma escola lá que formava torneiro, formava um monte de coisa. Então o pessoal da nossa organização dizia que era pra eu fazer o curso de inspeção de qualidade, porque era, justamente,  o que dava mobilidade dentro das fábricas, onde a gente podia circular e conversar mais com os trabalhadores,né? Então durante esse período eu fiquei me preparando, fiz esse curso  e a primeira fábrica que eu fui procurar emprego e consegui foi a Caterpillar. Foi por lá que começou a atividade sindical.

P/1- Agora continue então. Como é que foi a atividade sindical?

R- Então na atividade sindical a primeira ação foi a participação  na campanha salarial. O Joaquinzão (Joaquim dos Santos Andrades, Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo por 21 anos, de 1965 a 1986 e da Central Geral dos Trabalhadores ,CGT de 1986 a 1989)  era o presidente do sindicato.  O sindicato tinha no Joaquinzão uma pessoa mais progressista, porém todo mundo o tratava como um grande pelego, (gíria que ficou conhecida como os líderes sindicais que eram de confiança do governo e dos empresários),  mas era o mais progressista. Lá tinha um pessoal efetivamente de direita dentro do sindicato que era o vice-presidente. Então ele propôs nessa... Eu propus um aumento  acho  que de 200 %, alguma coisa assim,  nós tínhamos uma inflação de 40%  e eu propus um aumento de 200%.  Havia uma história, no nosso meio, que se devia exigir aumentos salariais elevados e mobilizar os trabalhadores e com isso, contribuir para que os trabalhadores formassem a sua consciência  etc etc e tal.  Não era bem isso não, mas acabou que nós fizemos isso. Por pouco não se conseguiu aprovar na assembléia, porque eu levei muita gente da minha fábrica, mas  não consegui aprovar os 200% . Mesmo até fazendo um discurso bom,  eu comecei a atacar  os dirigentes do sindicato também chamado de pelegos. Botei a assembléia contra mim e esse Malvezi (Orlando), que era o vice-presidente do sindicato,  propôs a minha expulsão do sindicato e da categoria. A assembleia aprovou iniciar o processo   da minha expulsão do sindicato.  Porém   eu já não ia ficar mais na Caterpillar, porque eu já tinha quase dois anos na empresa, já tinha organizado o que precisava organizar e eu iria para a indústria automobilística.  Assim fui  trabalhar na Volkswagen. Na época tinha muito emprego, era muito fácil conseguir emprego, então imediatamente eu comecei a trabalhar na Volkswagen.  Era o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e o Paulo Vidal   era o presidente. Havia lá um tal de Lulinha, que não é esse Lula, era pra ele  ser o futuro presidente e, era um sujeito que, de fato, impulsionava mais. Então acabou não fomos, quer dizer, aqui em São Paulo eu fiquei a gente se organizava na oposição sindical que era o nosso campo de militância. As reuniões nossas aqui sempre eram nos porões das igrejas. Nós nos reuníamos lá na Igreja de Santa Efigênia,  na Vergueiro. Na  igreja tinha a Pastoral Operária e a gente se reunia  lá e combinava  a oposição sindical e   as estratégias de agir nos sindicatos. Os sindicatos eram vistos como nossos inimigos, nós ficamos como um inimigo a ser combatido. Lá no ABC [ABC Paulista é uma área formada pela sigla de três cidades industriais da Região Metropolitana de São Paulo. São elas: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra ] nós começamos agir dentro do sindicato e a agir dentro das empresas. Eu trabalhava na Volks e  participei  da primeira greve interna que teve, acho que foi em 1977 me parece, a primeira greve interna dentro da Volkswagen. Antes disso, aliás, em 1977 teve um movimento que  o DIEESE contribui bastante, com informações muito importantes para nós,  o Banco Mundial tinha feito uma denúncia de que a inflação de 1970, 1971 havia sido manipulada. Então existia uma reposição que era devida aos trabalhadores  metalúrgicos de São Bernardo, essa era uma reposição de 34,1%. E aí começamos a fazer alguns movimentos pra isso que  consistia em fazer abaixo-assinado dentro das empresas e fomos forçando a diretoria do sindicato a convocar a assembléia e, acabou convocando, pra discutir essa reposição de 34,1 %. O Paulo Vidal que era o presidente do sindicato (dos metalúrgicos) ameaçava muito a todos nós,  dizendo que “vocês vão ser presos, vai pra ‘cana’” porque na verdade ele não queria. O Paulo Vidal  não queria que houvesse nada que passasse de certos limites, e então procurava conter. Mas São Bernardo tinha uma situação boa pra começar e  eclodir esses movimentos,  porque a maioria dos trabalhadores, 80%  dos trabalhadores, estavam em quatro empresas e eu estava numa delas que era a Volks, então teve a eleição no sindicato. Esse Lulinha morreu num acidente de automóvel, houve uma eleição lá no sindicato e o Paulo Vidal só saiu, puseram o Lula ( Luiz Inácio Lula da Silva) lá na presidência ( do Sindicato). E a chapa já foi uma chapa extremamente complicada e tinha umas pessoas lá da Volks, os diretores da Volks. Quando nós fizemos a greve de 1977 os diretores ficaram com a Volks contra os trabalhadores. Era um tal de Chacrinha, um tal de Gatão, um tal de Salvador e não sei o que. E aí o Lula já queria, o Lula já estava querendo mexer mais com o sindicato, a ter mais atividade sindical e ele queria excluir esses diretores. Aí nós fizemos uma assembléia e eu propus a expulsão dos diretores e a assembléia aprovou e eles foram expulsos. Esses diretores entregaram essas lideranças da greve de 1977 dentro da fábrica, entregaram pra direção da empresa.  É 1977  houve muita demissão e tal, mas eles não...Houve muita demissão e eles acabaram saindo do sindicato. Depois  foi em 1978 quando fizemos outra greve  na Volks, e eu já não fiquei mais na Volks, eu já estava fora da Volks e fui pra Villares. Ah, foi greve na Villares porque eu fiz greve na Villares. O Lula já tinha ido para Villares, a Villares era uma fábrica que o Lula trabalhava também, embora ele fosse afastado, ele estava na direção do sindicato e lá conseguimos segurar a greve por 30 dias.

P/1- Foi a greve de 1980 então.

R-  1980 ? Acho que foi.

P/1- Foi a greve de 41 dias.

R- É. Foi em 1979, foi...

P/1- Foi 15 dias.

Foi na Volks, eu estava na Volks e 1980 foi na Villares, as duas maiores greves foram da Villares e da Ford. Todo mundo já havia voltado a trabalhar e nós não voltamos a trabalhar, não. Aí em 1981 teve greve de novo, mas  já não foi mais dentro das empresas. A Fiesp tinha soltado uma circular pra botar os grevistas na rua e aí a polícia dava conta, 1981 foi isso.  Aí começou  1981, 1982 teve greve de novo. Acho que a última foi em 1982   a última greve grande. Acho que foi em 1982 quando a gente já se reunia no estádio na Vila Euclides. E 1981 foram 15 dias de greve me parece. Eu fui preso todos os dias, eles me prendiam de manhã e soltavam à tarde.

P/1- Foi em 1981 isso?

R- É.

P/1- Mas em 1981 teve a eleição do sindicato?

R- Teve eleição de novo,  e  nós fizemos uma chapa, eu resolvi fazer uma chapa porque nós perdemos de 30 votos contra um. A gente também não tinha experiência em eleição, a gente achava que eleição era uma coisa limpa e nunca foi. Eleição de sindicato nunca foi coisa limpa, sempre tem muita bandalheira, muita sujeira, inclusive lá em São Bernardo, todos os sindicatos. É uma coisa ruim que tem na estrutura sindical brasileira: é o próprio sindicato que comanda a sua eleição, faz o que quer,  só sai do sindicato quem quer, não é? Então nós montamos  a chapa que eu encabeçava e era candidato a presidente e tinha lá o Osmar, o Batista, que era do Pc do B, que era da minha chapa. Éramos nós. Na verdade é o seguinte: era a turma dos stalinistas contra a turma dos trotskistas. Eu estava na turma dos stalinistas; os trotskistas estavam com o Lula, ficaram na chapa com o Lula, porque eu já estava no PT [Partido dos Trabalhadores], eu já não gostava do PT, muito não. Ajudei a fazer um pouco o PT na época. Nesse período, ainda de 1980, nós fizemos um congresso  nos metalúrgicos em São Bernardo e eu morava lá  num barraco. Foi nesse barraco  que nós escrevemos um papel pra propor a formação da CUT e levamos esse documento,  para o congresso dos metalúrgicos. O congresso foi no Guarujá,   na colônia de férias do Banespa, dos trabalhadores do Banespa. Até foi um deputado aqui de Bragança, o Nabi Chedid, que  ajudou a  gente a arrumar essa colônia. O Lula ficou lá e conversou com ele, aí eu fui com o Lula pra  ajudar a conseguir a colônia,  e ele cedeu,  e nós  fizemos o congresso. No final do congresso havia uma discussão: o Lula queria que os trabalhadores se organizassem nacionalmente para construir um banco, Banco dos Trabalhadores, que era uma idéia  do João Paulo Pires um sindicalista de Minas Gerais, de João Molevade. Estabeleceu-se o debate: se fazia um banco ou se fazia a central sindical. O Lula teria 10 minutos e eu teria 10 minutos, cada um iria defender a sua proposta. Eu  defenderia a proposta de fazer a CUT [Central Única dos Trabalhadores] e o Lula a de fazer um banco. Nós votamos e o Lula perdeu. No dia seguinte, isso foi num domingo, eu trabalhava na Villares [Aços Villares S.A], saiu em todos os jornais e, na hora do almoço veio  um punhado de jornalistas na Villares. Nós saímos pra tomar cachaça e tal, e os jornalistas queriam saber da CUT, “o que que era a CUT”. Eu fiquei dando entrevistas o tempo todo, o que era a CUT, como é que era a CUT, o que  eu pensava da CUT, foi a primeira vez que a CUT saiu na mídia, foi quando nós propusemos esse negócio de CUT. Bom, então saiu a ideia da CUT e o congresso  de São Bernardo aprovou fazer a CUT   e assim começou. A gente tinha que andar e viajar um pouco mais, fazer o negócio da CUT, mas não tinha muita gente. Trabalhava e o sindicato também não levou isso muito à sério não, porque na verdade o sindicato estava mais em torno da proposta do Lula de fazer o banco, mas também morreu. Lula nunca mais falou nisso daí não. Depois teve um congresso estadual dos metalúrgicos,  em Lins, onde ao invés do negócio de CUT o Ageu (Ageu Egídio dos Santos) que era o presidente   da federação dos metalúrgicos, pelego grande mesmo, pelego bem ruim mesmo, ele propôs   formar o partido de trabalhadores. O Benedito Marsílio, que era um metalúrgico de São Bernardo do Campo, era mais de Santo André, que era mais politizado, topou e então o Lula ficou meio desconfiado, mas  acabou topando também. Deu-se nesse congresso a aprovação da fundação do partido.  Eu fiquei um pouco distante, porque eu achava que tinha um problema muito grave. Os partidos na época, quer dizer, a experiência que nós tínhamos tido, também haviamos  estudado um pouco sobre isso,  a experiência que o Brasil viveu em 1964 foi muito ruim, onde os sindicatos ficaram inteiramente instrumentalizados pela aliança do PTB com o PCB, dessa chamada aliança “PT do comunista”, que tomou conta de todos os sindicatos. Os trabalhadores faziam greve sem saber porquê. Eram aquelas greves preparadas fora das fábricas, greves só na base dos “piquetão” e eu achava que greve tinha que ser preparada dentro da empresa e tinha que ser decidida dentro da empresa, né. Então nunca gostei muito desse negócio de botar partido dentro dos sindicatos. Aí nós começamos. Um pessoal  trabalhou mais com o negócio de CUT, mas  teve problemas. Começou a ter problemas porque nós criamos a impossibilidade de continuar convivendo  com a turma do Lula,  em São Bernardo do Campo, que foi trabalhar o partido. O Lula fez uma chapa pra concorrer com uma chapa que eu tinha feito, e botou um monte de dirigente que ninguém conhecia, porque não participavam de greve. Eu não tenho o maior problema de dizer: o Meneguelli, por exemplo, (Jair Meneguelli)  encabeçou a chapa. O Meneguelli não participava de greve nenhuma. Trabalhava na Ford, foi a única empresa da vida dele, nunca perdeu o emprego, nunca teve nenhum problema  na Ford. E é esse pessoal que está aí   que ficou aí, o Giba (Gilberto José de Souza), essa turma toda  que ficou na cola do Lula. Eles ganharam a eleição, mas antes disso, ainda, teve algumas coisas interessantes. Nós temos o Congresso Nacional dos Metalúrgicos, em Poços de Caldas, onde nós aprovamos a questão da anistia. Teve mais problemas porque os dirigentes pretendiam aprovar a anistia com restrição, era uma restrição que a ARENA [Aliança Renovadora Nacional] queria na época,  porque tinha que ter anistia, mas não podia ser anistia pra todo mundo: “aqueles acusados de crime de sangue não podiam ser beneficiados pela anistia”. Aí nós queríamos a anistia ampla, geral e irrestrita. Isso terminou em pancadaria, quebradeira, mas   no congresso, em Poços de Caldas, nós aprovamos a anistia ampla, geral e irrestrita também contra uma parte grande. Isso nós aprovamos no grito, na pancada mesmo. Quem conduziu essa pancadaria foi o Scott, lembra dele? O Scott lá de Santo André? Ele que conduziu essa votação em Poços de Caldas. Esses foram os episódios mais importantes desse período, a eleição nós perdemos e depois começou as Conclat [Conferência Nacional da Classe dos Trabalhadores], né? A primeira Conclat foi um esforço muito grande, de todo mundo que fez. Eu participei desse esforço  para tentar uma central unitária, e não foi possível. Nós conversamos a noite toda, discutimos a noite toda até as cinco da manhã e se concluiu que haveria uma chapa única,  uma direção única,  uma central única, tudo direitinho. Depois quando retomou os trabalhos às oito horas da manhã o Lula chegou e falou que não havia unidade “porra” nenhuma, e  ele não aceitava que o Joaquinzão ficasse na direção porque a Igreja impunha condição. A militância da Igreja era muito forte e impunha como condição que ficasse a pessoa  que encabeçava a oposição, que era o Valdemar Rossi.  Os sindicalistas não aceitaram e  terminou em pancadaria e não saindo Central Única, coisa nenhuma e fomos preparar a segunda Conclat.

P/1- Nós quem participava dessa reunião para a preparação da Conclat? Que vocês ficaram em reunião até de madrugada. Quem que participava?

R- Era um grupo de sindicalistas vinculados, quase todos,  a setores da esquerda, o Pessoal do “Partidão” [ Partido Comunista Brasileiro, PCB] que trabalhava pela unidade sindical, era o Arnaldo Gonçalves, o João Negrão do Rio de Janeiro, o João Carlos de Araújo, o Antonio Carlos Batista, também  do Rio de Janeiro, o João Pires, de João Molevade, o Hugo Perez nessa época ele era diretor dos sindicatos dos eletricitários aqui de São Paulo e eu também participava, o Lula participava, o pessoal de Santo André, o Marsílio (Benedito Marsílio), a Contag [Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura], o José Francisco da Contag.  Nesse período eu tinha feito uma boa relação com o José Francisco porque eu fui ajudá-lo numas greves em Pernambuco, acabei sendo preso lá também pela Polícia Federal, fiquei preso  em Recife, fiquei preso  em Vitória de Santo Antão, onde faz a Pitú (cachaça).  Nesse período, um pouco antes, a gente tinha sedimentado um pouco essa unidade. Teve o Congresso Nacional dos Trabalhadores da Indústria lá no Rio de Janeiro, no Pavilhão de São Cristóvão. O Ari Campista era o presidente da Cnti [Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria], e ele chamou o Geisel (Presidente da República, de março de 1975 a março de 1979) pra abrir o congresso de manhã. Eu não gostei muito e ataquei o Geisel,  e foi um “bololo” grande  e pancadaria também e tal. Acabou e o Ari Campista pegou o pessoal dele e levou  pra o quartel do exército e os dirigentes sindicais levaram para o exército e nós ficamos sozinhos no pavilhão do subsolo e discutimos o congresso que a gente queria, mas não valia nada também. O Geisel teve que sair de lá meio  que às pressas também e não sei o que e tal. Foi outro episódio também importante  o encontro nacional da CNTI. Mas lá não se decidiu nada importante. Esses fatos eram só para ir ajudando a mobilizar mais gente, mais sindicalistas, que achavam que o movimento sindical tinha que cumprir um outro papel nessa questão da redemocratização. Acabou a gente fazendo isso,   eu tive um período de boa convivência em São Bernardo com o Lula, nesse período da greve. O pessoal  de São Bernardo, os diretores do sindicato, não confiavam em ninguém que fosse de esquerda. Eles achavam que todo mundo era estudante infiltrado. Então foram comigo  em Divinópolis, o Lula foi, nós capotamos, quase morremos no caminho. Capotamos o carro eu e o Lula,  esse Lula que é presidente aí. Capotamos um carro na Fernão Dias, estava eu, ele, acho que o Djalma Mota Lins também estava no carro. Tinha mais uma outra pessoa que eu não lembro quem era. Nós capotamos e quase  morre todo mundo. Capotamos uma Brasília do sindicato e fomos lá para Divinópolis. Mas o Lula já estava fazendo o discurso do PT e eu já estava ficando um pouco distante. Ficamos presos juntos, eu fiquei preso naquela greve que o Lula foi preso  também, né?

P/1- 1980.

R- Fui um dos últimos a ser preso, eu não queria ser preso. Entrava nas assembleias e saia escondido, mas acabaram me prendendo,  no Paço Municipal em São Bernardo, cercaram o carro que eu estava. Estava dentro do carro comigo o Fernando de Moraes (jornalista escritor, biografo), e o Quércia (Orestes Quércia, político brasileiro); o Quércia era senador do MDB [Movimento Democrático Brasileiro], então esse pessoal do MDB estava tudo por lá. Aí um cara bateu no vidro e o Quércia, idiota, abriu o vidro, o cara quebrou uma bomba de gás lacrimogêneo dentro do carro e o motorista teve que sair correndo porque os caras vieram com metralhadora e o Montoro (Franco Montoro, político brasileiro) chegou, parou e tirou o... Aí entramos no gabinete lá da prefeitura que a gente usava um pouco a prefeitura. O Tito Costa era prefeito e dava uma boa ajuda pra gente, fomos e ficamos lá no gabinete dele, mas aí não teve jeito, dali eu sai preso. O Teotônio Vilela (político brasileiro) estava por lá também, ele falou com o Ministro da Justiça “que era um absurdo”, o ministro da justiça era o (Ibrahim) Abi-Ackel, falou assim: “olha, vocês fiquem   quietos aí porque senão eu vou prender todos que estão aí. Entrega logo esse Alemão porque ele já deu trabalho demais” e não sei o que e tal, tal, tal. Fiquei 30 e poucos dias presos com o Lula. Depois teve esse processo da Lei de Segurança Nacional aqueles negócios todos, mas acabou que não deu nada, né? E eu e o Lula nós tivemos as maiores penas: ele foi condenado a três anos e meio e eu também fui condenado a três anos e meio. Acabou, a gente não cumpriu isso. Teve um dia que ele se apresentou pra ser preso e eu não quis me apresentar também “pô, não precisa gostar de ser preso,  ser preso, pô, carnaval, eu vou querer ser preso em carnaval?” Aí fiquei pescando. Tomei cachaça lá no Guarapiranga. Mas acabou, à tarde foi uma turma de amigos lá e falou: “você tem que se entregar que eles vão soltar, mas enquanto você não se entregar eles não soltam os outros.” Como estava todo mundo preso acabei me entregando também. Cheguei dez horas da noite aí no Deops [Departamento de Ordem Pública e Social]  o Romeu Tuma  era o chefe do Deops. Aí ficamos preso lá e  no outro dia soltaram e não cumprimos mais. Teria  outro julgamento, eu não entendo dessas coisas, mas passou o período. Parece que nós seriamos julgado na outra justiça, entretanto,  passou o tempo, prescreveu e ninguém foi preso e ficou por isso mesmo. A gente estava no período da redemocratização, já no governo Figueiredo, essas coisas todas já foram no último governo militar,  coincidiu com esse período onde  não havia mais possibilidade de deixar ninguém preso, da forma que deixaram.

P/1- Você ficou no ABC até 1984, mais ou menos, né?

R- É.

P/1- E como é que foi assim dessa trajetória como que foi esse processo até chegar a SDS [Social Democracia Sindical], como que é isso?

R- Bom, aí teve a outra Conclat que formou a CUT e aí eu já não estava mais ligado lá ao povo do ABC, ligado ao pessoal do PT e ao sindicato lá no ABC. Eu já tinha formado, eu vim trabalhar aqui na Ceagesp [Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo] e acabou que organizei um sindicato lá, Sindicato de Empregados Centrais de Abastecimento de Alimentos do Estado de São Paulo.

P/1- 1986 né?

R- É mais ou menos essa data aí. E a partir desse sindicato eu ajudei a organizar as outras centrais,  aí fizemos a CGT, o Joaquinzão era o presidente que era Central Geral dos Trabalhadores. Essa CGT  depois, no primeiro congresso dela, ela rachou e fez duas CGT. Essa do Joaquinzão  eu  era o vice-presidente e ficou uma CGT do Magri (Antônio Rogério Magri, líder sindical) ,  que estava o Medeiros ( Luís Antônio Medeiros, do Sindicato dos Metalúrgicos).  Essa  turma  foi de um pessoal mais vinculado ao Collor( Fernando Collor de Melo), que já era uma ação dos americanos. Já tinha muita coisa a ver com os americanos que entravam nesse negócio e aderiu e que contribuía muito com isso para financiar essa história, ajudaram a financiar, eu não cheguei a participar dessa CGT do Magri não.  Eu fiquei na CGT do Joaquinzão, mas aí esse negócio mandava também, aquilo ali era uma bobagem,  aquilo não era uma central, era um estado de espírito, que não tinha central, não tinha estratégia, não tinha programa, não tinha absolutamente nada. E nós  não iamos dar mesmo. Na época também eu era militante lá do MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro,  foi uma organização política marxista que participou da luta armada contra a ditadura militar brasileira] e na época o MR-8 era honesto, gostava mais de assaltar banco, fazer outras coisas. Depois começou a assaltar dinheiro público e  eu larguei esse negócio pra lá,  quando saiu o Zarattini (Carlos Zarattini), saiu o Franklin (Franklin Martins) saiu esse pessoal, também sai eu. Não fiquei militando em nenhum grupo de esquerda. Não quis saber mais dessa história não. Então eu ajudei a formar a Força Sindical. Basicamente toda aquela preparação da Força Sindical nasceu  no meu sindicato, preparação dos documentos e toda a gente se reunia por lá.

P/1- Da Ceagesp?

R- É. Eu tinha amizade com o Kandir, o Antonio Kandir (economista, professor universitário)  e propus  para o Medeiros, ele estava na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos,  que o Kandir fosse contratado para escrever a estratégia da Central pra gente. Então ele escreveu  um calhamaço, um livro, esqueci o nome do livro, uma proposta não sei de que era ‘uma proposta para o Brasil e tal” que era um negócio muito interessante porque já nos situava dentro dessas coisas que  estava acontecendo no mundo. Eu tinha ido uma vez no leste europeu e realmente achei aquilo lá muito ruim, aqueles países comunistas achei um atraso muito grande, precisavam evoluir e o povo visivelmente contrariado com aquilo. Foi na época da Glasnost e o povo não queria saber daquele negócio de comunismo mesmo, de jeito nenhum, o povo de lá da Tchecoslováquia, da Alemanha Oriental,  aí tinha a Perestroika  depois e  aquilo estava acabando. Estava acabando o muro de Berlim e o mundo estava se transformando, era um outro mundo, não era mais este mundo. Não tinha mais esse negócio de comunismo versus capitalismo. Vou ter que atender aqui, pode ser?

[pausa]

P/1- Aí então, quer dizer, o mundo já era outro, já havia caído o muro de Berlim. Nós já vivíamos outra. Eu achava que o movimento sindical tinha que viver uma outra expectativa, tinha outros desafios. O grande desafio que nós tínhamos, no meu entendimento, era ver de que maneira os trabalhadores podiam ter uma participação qualificada  naquele processo de transformação que o mundo estava vivendo. Eu não acreditava nesse negócio do Fukuyama (Francis Fukuyama) autor do  “Fim da História”  mas, achava que nós tínhamos, de fato, que o mundo, que nós viveríamos numa sociedade de mercado mesmo, e  tínhamos que buscar e fazer com que os trabalhadores tivessem uma participação qualificada nisso. Eu pensava que nada daquilo que a gente tinha aprendido lá pra trás de teoria que orientava a nossa prática, que orientava a atividade sindical aquilo tinha que, necessariamente, passar de fato, por uma reciclagem no movimento sindical. Isso seria uma coisa muito difícil, como está sendo muito difícil, porque o movimento sindical ele é extremamente conservador e reacionário, a maioria dos sindicatos brasileiros são dominados só pela esquerda reacionária e conservadora ou pela direita reacionária e conservadora. São assim que os sindicatos se colocam diante desses desafios e é isso exatamente uma das razões pelas quais os trabalhadores brasileiros tem pago um preço elevado por essas tentativas de ajustes, que já teve aí na economia. Então nós quando ajudamos a formar a Força Sindical nós pensamos que deveria ser uma entidade pra isso, deveria ser uma central sindical pra isso, porque não podia a CUT, na minha opinião, não seria em hipótese alguma capaz de cumprir este papel porque a CUT era uma organização de trotskista, stalinista, leninista, Padre Nervoso e esse povo todo ali que não tinha mesmo possibilidade de compreender. Só vieram a compreender que o mundo era outro depois que o Lula ganhou a eleição. Eles, agora, teriam que responder aos desafios, esses desafios sobre os quais estou falando, então aí começaram a entender, que tinham que mudar também a prática sindical. Até hoje a CUT não mudou muito não, ainda continua sendo uma organização reacionária do meu ponto de vista. A Força Sindical acabou sendo porque ela tinha uma concepção que era interessante, a questão da parceria entre o capital e trabalho pra buscar o desenvolvimento, mas essa linha da parceria  e da promiscuidade era uma linha muito tênue e a Força Sindical  acabou optando pela promiscuidade, por ter uma relação promíscua com o empresariado. Quer dizer, nos últimos tempos que eu fiquei por lá o Paulinho (Paulinho da Força) estava fazendo uma greve que era uma greve do pessoal da Fiesp, que  pediu para que ele fizesse uma greve contra a greve dos petroleiros. Acho que foi uma das únicas vezes na história do Brasil,  isso está marcado, foi publicado na mídia, que houve uma greve de trabalhadores contra a greve de outros trabalhadores, quer dizer, a Força Sindical se propunha a ser utilizada, como se propõe até hoje, a ser utilizada a partir de interesses daquele povo ali da Avenida Paulista. Então eu falei: “pô, aí também não dá, né?” Não era essa Central, também não servia mais pra nada, foi então que  eu resolvi parar e não fazer mais Central, não mexer mais com isso. CGT tinha virado...Tinha esse negócio de CGT essa que tinha ... CUT, não existia. Teve a que ficou mais conhecida como a CGT do Pegado, também sem proposta, é uma central que  não conseguiu  elaborar uma proposta. Tem muita gente boa nisso tudo, Força Sindical tem muita gente boa, na CUT tem muita gente boa, tem muitos bons dirigentes, mas como organização eu entendo que isso fracassou, a CGT fracassou, as duas. A outra então lá do MR-8 é um absurdo, pra mim aquilo é a vulgarização das centrais sindicais. Uma central sindical pode mentir à vontade, fala que tem dois mil sindicatos e não sei o que, mais ou menos como falava: “quantas estrelas tem no firmamento?” “Ah, tem 10.412. Dúvida? Conta.” Na central sindical é mais ou menos isso. “Quantos sindicatos vocês tem na sua central?” “Ah, 400, 500, 800.” Tem nada, né? Você tem central aí que tem só um sindicato. Então começou haver uma vulgarização das centrais sindicais no Brasil, essa é a verdade. Quer dizer, então hoje você tem 10 sindicatos que, sei lá, quantas centrais sindicais têm assento nas mesas de negociações? Isso não é bom, sabe? Isso não é bom pra ninguém. Não é bom nem para o movimento sindical, não é bom para o governo que não tem toda a razoável, não é bom para os trabalhadores, não é bom pra ninguém. E aí nós formamos. Eu achei que um dos problemas que nós tínhamos no movimento sindical era que nós não tínhamos uma ideologia. O movimento sindical com o golpe de 64 uma das coisas que ele perdeu foi a referência ideológica mesmo, deixou de ter ideologia. A ideologia foi suprimida a ideologia do nosso meio e precisava voltar a ter ideologia, precisava reivindicar em determinados campos ideológicos. Com exceção da CUT que era uma central de esquerda, mas ali dominados por vários grupos diferentes de esquerda,  um “pau” terrível, um debate estéril, que não conduz a nada o debate interno da CUT. Com exceção deles que a CUT fazia curso e se organizou como central sindical, apesar desses problemas ela construiu uma relação internacional muito importante, sobretudo, com os países europeus onde também já tinham uma experiência sindical igualmente importante, por isso, ela com as centrais lá da Alemanha, Itália e França a CUT, de fato,  conseguiu ter estrutura, conseguiu ter recursos,  ter meios e se constituiu como central. Mas fora isso mais ninguém conseguiu. A Força Sindical foi um bom projeto de central, que foi enterrado  pela  promiscuidade na relação com o empresariado e com os governos. A relação com o governo Collor, na época, foi uma relação  extremamente promíscua, seriamente imoral, muita corrupção para tudo que é lado. Nós saímos de lá e  começamos trabalhar um pouco aquele negócio. Buscamos alguns companheiros e falamos: “olha, precisamos ter uma coisa com mais ... que a gente atribua alguma importância na questão da ideologia” e então optamos por fazer uma central social-democrata. Criamos a Associação Nacional dos Sindicatos Sociais Democratas porque eu não tinha a pretensão de fazer uma outra central, de ajudar, de trabalhar e construir mais central sindical. . Mas acabou, pelo jeito a ideia era fundir com a CGT, essa CGT  do Pegado e  ninguém quis.  E não quis porque na época estava começando a distribuir esse negócio de recurso de qualificação e todo mundo queria ter a sua centralzinha pra ir lá pra pegar um pouco de recurso de qualificação, né? E acabou a gente transformando em central, Social Democracia Sindical. Nós chegamos a produzir alguma coisa  importante e, em que nós pudéssemos compreender, exatamente, o que que estava  acontecendo no mundo essa questão da globalização, a questão da competitividade, competitividade entre as nações, entre as empresas, e o trabalhador ser mais competitivo também. Um mundo totalmente diferente que se apresentou pra nós depois dos fins da década de 1990, nos anos 2000 e tal. Então eram outros desafios realmente, né? E escrevemos um pouco sobre essa questão. Vimos um pouco o grande problema no Brasil que era a questão da economia informal. Não vivíamos mais aquela situação onde a vantagem comparativa importante que o Brasil tinha era a mão-de-obra abundante e barata e isso não precisava mais. Nós vimos que não ia ter emprego pra todo mundo nunca mais no Brasil, que havia um número imenso de trabalhadores que estava e ficariam definitivamente nessa economia informal. Então é preciso buscar uma forma de que esse trabalhador da economia informal, inclusive os desafios expostos estavam em  buscar uma forma de que esses trabalhadores, da economia informal, tivessem um mínimo de amparo do Estado, porque não tinham. E era a maioria,  nós éramos 20 e pouco milhões, 22 milhões de trabalhadores com carteira assinada e quase 40 milhões  na economia informal. A maioria dos trabalhadores brasileiros não tem sindicato, não tem Ministério do Trabalho, não tem lei. Não tem nada para essa maioria dos trabalhadores. Então esse é naturalmente o principal dever, quer dizer, o principal esforço de qualquer dirigente sindical, de qualquer central sindical  que deve  estar voltado para este segmento, porque é destituído de qualquer tipo de proteção. Aí começamos a trabalhar nisso um pouco. A SDS, a Social Democracia Sindical trabalhou nisso um pouco e nós produzimos um negócio chamado Simplesmente “Trabalhador” que depois foi evoluindo, evoluindo, evoluindo, até virar um pouco aí esse negócio que o congresso acabou aprovando agora que é esse estatuto do Simples, o estatuto da pequena empresa e não sei o que e tal, que é um negócio que permite que o trabalhador se organize como empresa  e possa vender o seu trabalho, vender o produto do seu trabalho. Então trabalhamos muito nisso e trabalhamos também numa outra proposta de organização sindical brasileira, uma outra estrutura sindical brasileira. Nós pensamos que essa estrutura aí é uma estrutura que reproduz a “desinteligência”. O movimento sindical brasileiro é uma estrutura é uma coisa que é um pouco vinculada a este Estado brasileiro que é um Estado, na minha opinião, um Estado dominado pelas corporações públicas e privadas,  um Estado que reproduz permanentemente a corrupção,  um Estado que não serve a sociedade brasileira, um estado que não é capaz de ser provedor disso que a sociedade precisa, que é segurança pública, isso que os trabalhadores precisam: educação pública de qualidade, saúde pública de qualidade. O Estado não é capaz disso. É um Estado que é inimigo da economia formal e um Estado que tem que ser mudado, tem que ser profundamente transformado e tem que mudar também junto a estrutura sindical brasileira,  que é uma estrutura que é parte desse Estado e reproduz um pouco o que tem nesse Estado. A maioria dos sindicatos são absolutamente inúteis, não servem aos trabalhadores. Só servem para sobreviver da contribuição sindical obrigatória, compulsória e morre se morrer essa contribuição. Por isso que brigo para se acabar com essa contribuição, porque eu queria que esses sindicatos morressem, porque nós não vamos ficar sem sindicato, certamente terão sindicatos muito melhor que surgirão a partir dessa nova situação que nós vivemos. A Constituinte de 1988 piorou isso porque deu mais atribuições para os sindicatos, deu mais formas, permitiu que os sindicatos tivessem mais contribuições compulsórias. Deu mais direitos sem dar mais deveres também para os sindicatos. Os sindicatos passaram também a ser livres de fiscalização do Estado etc. A partir da Constituição de 1988, o que é positivo, mas também ficaram livres para cobrar o que quisessem dos trabalhadores e não sei o que. Os sindicatos começam a fazer fortunas e virou uma esculhambação que nós temos aí hoje, é esse movimento sindical brasileiro. Nós devemos ter aí uns dez por cento que se aproveita, o resto é inútil, são instituições inúteis.

P/1- Deixa eu só voltar. Então você saiu da Força Sindical em que ano, mais ou menos?

R- 1990... Isso é ruim, viu.

P/1- Não; tudo bem. A partir desse grupo que saiu da Força.

R- Foi quando teve uma eleição que o Medeiros foi candidato a vereador a governador, que eu achei o absurdo do absurdo. Ele queria ser presidente da república eu falei: “você está louco rapaz?” Foi a eleição do Fernando Henrique, não foi?

P/1- Em 1994?

R- Foi em 1994 então foi isso, 1994.

P/1- Então vocês conformaram então a SDS.

R- Formamos a SDS.

P/1- Daí esses estudos?

R- É.

P/1- Dessa atividade de conformação da SDS, dessas atividades de militância sindical, militância política,  que fato que marcou nessa trajetória que você destacaria?

R- Não sei o que você está...Nós fizemos.

P/1- Alguma coisa que assim que “poxa, isso...” Te marcou.

R- Acho que nada muito significativo não.

P/1- Porque preso você foi um monte de vezes, né? [risos]

R- É, fizemos várias greves,  ajudamos a fazer várias greves nesse período. Ajudamos a organizar uma parte  de trabalhadores rurais que  não queriam vinculação com o MST, nós criamos um negócio  chamado Mast, que era o Movimento dos Agricultores Sem Terra e ajudei a fazer algumas ocupações de terra também  no Pontal e trabalhamos um pouco com o índio  ajudando a mexer um pouco  lá nos Carajás. Nós ajudamos ali, um pouco, na formalização fazer  com que os trabalhadores tivessem meios.  Os índios eram isso,  viviam  fazendo os  seus artesanatos , mas extremamente explorados e ajudando-os a se organizarem a fazer cooperativas de índios. Passamos a ter muita briga, sobretudo com o Ministério Público do Trabalho,  que eu acho um órgão absolutamente inútil, dá muito tempo de do trabalhador,  pra ver se fecha e acaba logo com esse negócio, o Ministério Público do Trabalho. Foi mais embate nesse terreno  político, ideológico que nós tivemos. Nada que fosse muito significativo do ponto de vista  das grandes ações. Participamos das coisas conjuntas  com as outras centrais,  das mobilizações, das passeatas, essas coisas. Nada muito importante não, muito significativo não. Esse tempo,  o que eu acho que foi significativo é que quando o Lula ganhou a eleição eles fizeram um fórum, que, aliás, não deixaram a gente participar,  era um fórum para discutir a reforma sindical e trabalhista e acabou que participou um companheiro nosso  como convidado.

P/1- O Fórum Nacional do Trabalho?

R- É. Não deixaram a gente participar  porque a gente era oposição ao Lula, então não podia participar. Acabou a gente não participando efetivamente. Mas só nós que tínhamos proposta, nossos companheiros apresentaram a proposta, e acabou discutindo a nossa proposta e  foi sabotado pela maioria dos sindicatos,  que também não querem a reforma sindical. A nossa proposta  mudava completamente a face do sindicalismo brasileiro. E hoje (2007) nós estamos trabalhando num processo  que deve resultar, até o fim de maio, da unificação de, pelo menos, de umas três centrais sindicais aí: a CGT [Central Geral dos Trabalhadores], a CAT [ Central de Apoio ao Trabalhador ] e a SDS [Social Democracia Sindical] deve fundir e fazer uma central só, acho que UGT [ União Geral dos Trabalhadores] que deve chamar também, mas aí eu paro, chega, chega. [risos]

P/1- Eu vou mudar um pouco a tônica agora. Você tinha colocado o seguinte: que na década de 1970, você tinha ouvido falar do DIEESE, né?

R- É.

P/1- Você já tinha uma idéia do DIEESE quando você ouviu falar?

R- Tinha. Conheci lá o Bareli (Walter Barelli), que foi o primeiro técnico responsável pelo DIEESE, eu frequentava. O DIEESE [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos] era no Sindicato dos Marceneiros ali atrás da Rua do Carmo, esqueci o nome daquela rua,  funcionava  no Sindicato dos Marceneiros num andar do sindicato, bem apertadinho, mas funcionava lá. Acho que as principais pessoas eram o técnico responsável pelo DIEESE e o César Concone, que era uma pessoa extraordinária, nem sei por onde ele anda , o cara era muito bom, eu gostava muito dele. E eles sem dúvida, quer dizer, os sindicatos mais progressistas que não queriam ficar naquele, que  queria obter o índice oficial buscava  no DIEESE.   DIEESE era um núcleo de inteligência que vivia no nosso meio, aliás, é o único grupo de inteligência que havia no meio do movimento sindical brasileiro. Era o que nós fomos capazes de construir de inteligência no movimento sindical foi o DIEESE. Mais do que isso nós não fomos capazes de construir. E o DIEESE foi extremamente importante pra nós durante todo esse período. Por exemplo, era o índice que nós confiávamos porque  houve aquela manipulação da inflação de 1971, a gente não confiava mais em índices oficiais, muito embora depois muitos outros institutos também passaram a oferecer seus índices,  mas o índice do DIEESE era um índice que os trabalhadores confiavam. Em 1978, e 1979 o DIEESE também nos assessorou lá naqueles grandes movimentos do ABC.

P/1- Como que era essa assessoria do DIEESE em 1970?

R- Mais no terreno econômico mesmo, mais nas formulações. Como eu te disse, o DIEESE era a nossa inteligência. Então as empresas todas estavam bem organizadas, bem assessoradas do ponto de vista de ter inteligência, de ter economistas, de ter todas essas coisas. Então nas negociações “meio por cento pra cá, meio por cento pra lá” e aí compensava em outra reivindicação precisava de ter alguém e era o DIEESE, era quem nos orientava em cada momento, né? “Aí pode aceitar, aí se você aceitar você vai ter tal prejuízo” e tal. Então sem o DIEESE a gente não encaminharia não, eu tenho certeza que a gente não encaminharia como chegamos a caminhar. Depois os sindicatos começaram tanto a perceber a importância do DIEESE que começaram a contratar núcleos do DIEESE dentro dos sindicatos maiores. Os sindicatos que tinham mais poder econômico como tem hoje as sucursais, representando o DIEESE dentro do sindicato. O DIEESE sofreu pressão até do próprio movimento sindical. Houve um dirigente, Paulinho, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo pressionou porque ele não gostava muito dos índices do DIEESE, porque ele gostava muito do governo e o DIEESE estava dando uns índices que não batiam muito com os índices do governo.  Ele queria pressionar o DIEESE para   mudar a metodologia e ameaçou de parar de pagar o DIEESE, se  não mudasse a metodologia para fazer uns índices mais parecidos com os índices do governo. O DIEESE resistiu bravamente. Na época eu, quer dizer, num sindicato pequeno “de maneira alguma o DIEESE vai mudar a metodologia pra servir ao governo.” O DIEESE nunca fez isso, o DIEESE nunca mudou, o DIEESE nunca produziu nenhum trabalho, nenhuma pesquisa cujo resultado não estivesse única e exclusivamente a serviço da organização dos trabalhadores. E o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo pressionou no sentido contrário e era um sindicato importante porque contribuía com muito dinheiro e então se julgou no direito de pressionar para o DIEESE mudar a metodologia. Foi um período difícil que o DIEESE passou, muito difícil, talvez o mais difícil da história do DIEESE. O Barelli foi preso também, mas isso era bobagem. O período mais difícil onde o DIEESE sofreu uma espécie de chantagem, feita a partir do próprio movimento sindical nesse período. Eu não sei exatamente o ano que foi não, mas esse o Sergio, o Serginho.

P/1- Sergio Mendonça.

R- O Sergio Mendonça conhece bem essa história.

P/1- Então foi mais ou menos em 1990, quando o Barelli estava pra sair.

R- Já tinha saído, o Bareili não estava mais lá não.

P/1- Só mais uma questãozinha. Dos trabalhos assim do DIEESE tem algum assim que você destacaria além da assessoria que você teve contato?

R-  A pesquisa que fazem com o Seade [Centro de Referência Nacional na Produção e Disseminação de Análises e Estatísticas Socioeconômicas e Demográficas]  também sempre foi uma pesquisa muito importante,  pesquisa de emprego. Isso sempre foi muito importante porque quando a gente tem que trabalhar com estratégia a gente tem que conhecer isso: o mercado ou ele está comprando ou está vendendo mão-de-obra. Então a gente tem que saber disso e o DIEESE é um instrumento através do qual nós sabemos se o mercado é comprador ou vendedor de mão-de-obra, por isso que eu acho que essas pesquisas e as pesquisas de indicador econômico são os dois trabalhos mais importantes do DIEESE. Acho que o DIEESE também a partir de um certo tempo, não só ele, tem sido um instrumento, vamos dizer assim, que o DIEESE tem demonstrado na prática que compreende que para os trabalhadores existe hoje o desafio de responder, de participar, de responder a estes desafios colocados pelo processo de modernização, de globalização. Então de que maneira nós vamos participar disso? De que maneira os trabalhadores participam desse processo buscando resultados pra si enquanto classe social. O DIEESE tem sido também um instrumento disso. Quando ele organizou a participação dos trabalhadores no PBQP, do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade, ele assessorou os trabalhadores, ele foi parte disso e isso foi muito importante. Acho que o DIEESE agora vai ter que fazer uma, quer dizer, um bocado de gente pensava “olha, acabou a inflação e o DIEESE agora não tem muita importância mais”, pelo contrário, a resposta desse desafio, quer dizer, esses 50 anos do DIEESE foi de importância fundamental exatamente por sempre representar o núcleo de inteligência, que tem dentro do movimento sindical brasileiro. Acho que pra frente os desafios ainda serão maiores, porque nós não teremos mais uma legislação tão engessada quanto é hoje como o capital está flexibilizado os trabalho também será flexibilizado e pra isso nós devemos estar muito mais preparados. Acho que o DIEESE terá uma importância maior ainda daqui pra frente do que teve no passado, nessa nova fase de relação capital e trabalho onde haverá maior liberdade de negociação, onde os sindicatos serão chamados a negociar o contrato coletivo de trabalho, onde a contratação coletiva terá peso significativo entre nós e o DIEESE terá um papel muito importante.

P/1- Bom, eu posso entender que isso seria o futuro, né?

P/2- Durante a sua fala o senhor falou de como que o DIEESE e importante para o universo do trabalho, obviamente que ele foi criado para ser a inteligência do movimento sindical. O senhor acredita que de alguma o DIEESE é importante para a sociedade? Ele extrapola o mundo sindical?

R- Ele a partir de um certo período nesse No primeiro momento do DIEESE, no primeiro período de história do DIEESE havia muitos preconceitos contra o DIEESE, sobretudo preconceitos que vinham do meio acadêmico, de outros institutos de pesquisas, dos meios empresariais, dos meios políticos. Havia um preconceito grande porque ninguém podia admitir que os trabalhadores tinham alguma inteligência. Como eu disse o DIEESE é a nossa inteligência. Depois com a democratização do país o DIEESE ficou o mais conhecido e vários setores da sociedade passaram a utilizar e a se beneficiar dessa inteligência que o DIEESE significa. Acho que hoje, sem dúvida, o DIEESE rompeu aquele círculo estreito de servir alguns sindicatos e hoje ele é uma organização que está mais a serviço da sociedade brasileira, na medida em que ele contribui efetivamente para os trabalhadores.

P/1- Você colocou a questão da importância do DIEESE no futuro. Que desafios você colocaria para o DIEESE que você indicaria?

R- Eu acho que na questão da forma de remuneração do trabalho, não será uma forma tal como nós conhecemos hoje mais. Ela terá muito a ver com os resultados de cada empresa, de cada setor de economia, isso, por exemplo. Fazer com que os trabalhadores possam efetivamente ter uma participação e que eles tragam benefícios financeiros na participação do resultado dessa empresa, participação de lucros, por exemplo. Eu acho que isso o DIEESE vai ter que se desdobrar pra nos conduzir a isso. Não só na questão da remuneração do trabalho, mas também na questão de que cada um daqueles direitos significa um custo, cada um daquilo que está lá na CLT significa um custo, nós sabemos disso. E nós, o que acontece? Nós vamos discutir num certo momento Fundo de Garantia que é um custo, isso tudo faz parte do custo Brasil, do custo do produto brasileiro. Nós vamos discutir o salário família, vamos discutir todos os nossos direitos, que terão de ser discutidos e serão discutidos muito provavelmente agora já esse ano. No próximo ano nós vamos estar discutindo a questão da reforma trabalhista, dessa reforma sindical que eu falava e também da reforma trabalhista. Eu acho que isso deve resultar na contratação coletiva. Então o papel do DIEESE será importantíssimo, nisso de nos ajudar a entender quais são os limites econômicos de uma negociação para cada setor da economia de mercado. Uma coisa é discutir na indústria, outra coisa é discutir na agricultura, outra coisa é discutir lá nos serviços, lá no setor do sistema financeiro. Isso eu acho que o DIEESE vai ter que se desdobrar para nos assessorar nesses desafios.

P/1- Eu vou mudar agora de novo a tônica. Eu vou voltar um pouquinho sobre você. Você é casado?

R- Casado. Separado, mas casado. [risos]

P/1- E como é a situação assim com seus filhos, você tem filhos?

R- Tenho dois filhos.

P/1- Nome, idade, o que fazem?

R- O meu filho formou-se. Eu tenho um filho Hermano, chama Hermano de Moura, formou-se em Direito na UNIBAN e está aí, está trabalhando. Aprendeu a trabalhar também desde criança, trabalha desde criança, desde cedo, também trabalha com informática e está trabalhando. A minha filha formou-se em Jornalismo na Universidade Metodista.

P/1- Nome?

R- Luanda. Luanda de Moura. Formou-se em Jornalismo e faz História também na USP, está terminando História na USP e está trabalhando também.

P/1- E como é, você conseguiu combinar legal a atividade sindical e família?

R- Não. A família fica num prejuízo muito grande. A família fica num prejuízo muito grande. O que os meus filhos são eles devem a mãe deles.

P/1- Dessa sua atividade, dessa sua trajetória, que lições que você poderia dizer assim que você tirou dessa sua trajetória?

R- Desculpe.

P/1- Lições da trajetória sindical, de militância.

P/2- De toda a sua vivência que você teve assim, quais as experiências máximas que você tira disso pra você como indivíduo?

P/1- Você faria tudo de novo?

R- Eu acho que a gente com o tempo a gente vai substituindo um pouco aquela impetuosidade. O que eu tinha? Eu tinha nojo da ditadura. Acho que por isso a gente vai aprendendo a valorizar a democracia, muito. E uma das coisas que eu esqueci, que havia conosco: todos nós éramos um pouco autoritários, bastante autoritários. Todos nós que militamos um pouco na luta contra a ditadura nós aprendemos, nós vivemos um período de autoritarismo e nos transformamos também em pessoas autoritárias, sabe? Acho que hoje com a democracia a gente vai virando, vamos dizer, a gente vai ganhando mais qualidades, por exemplo, ser mais tolerante. E uma questão que desde aquela época nós aprendemos a viver, foi a solidariedade; ser solidários sem ser filantrópico, sem ser demagogo, ser solidário porque a solidariedade passa a ser uma característica que é tão natural como é natural respirar, acho que isso que é importante.

P/1- Como é que você avalia assim a importância desse projeto Memória DIEESE. O que você achou de participar?

R- Eu acho que o DIEESE precisa, por exemplo, precisa ter a memória preservada. A história do DIEESE é a história da coerência, da coerência que o DIEESE teve ao longo de toda a sua existência, de não se deixar levar por nenhuma onda de nenhum momento. Ele tinha um compromisso e ele cumpriu o seu compromisso, ele vem cumprindo o seu compromisso que é um compromisso de não substituir os trabalhadores, mas ser essa assessoria que os trabalhadores precisou e precisava. Essa inteligência que é o nome mais adequado, que os trabalhadores precisavam para enfrentar esses desafios desses 50 anos.

P/1- O que você achou de ter participado desse projeto contando um pouquinho da sua história?

R- Eu acho que é uma, vamos deixar a modéstia de lado, eu acho que é uma grandeza para todos nós sermos convidados a participar disso.

P/1- Obrigado.

P/2- Obrigado.

R- Obrigado.

--- FIM DA ENTREVISTA ---

Glossário:

CLT – Consolidação das Leis do Trabalho
PBQP - Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade
CGT – Confederação Geral do Trabalho
CAT – Central Autônoma dos Trabalhadores
SDS – Social Democracia Sindical
MAST – Movimento dos Agricultores Sem Terra
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra
FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
SEADE – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados
CUT – Central Única dos Trabalhadores

Perestroika – foi uma das políticas introduzidas na União Soviética por Mikhail Gorbachev, em 1985. A palavra perestroika, que literalmente significa reconstrução, ganhou a conotação de 'reestruturação econômica'. Gorbachev percebeu que a economia da União Soviética estava a falhar e sentiu que o sistema socialista, apesar de não ter de ser substituído, certamente necessitava de uma reforma, e isto seria levado a cabo pelo processo da perestroika.

Glasnost – foi uma medida política implantada na União Soviética durante o governo de Mikhail Gorbachev. A Glasnost contribuiu em grande parte para a intensificação de um clima de instabilidade causado por agitações nacionalistas, conflitos étnicos e regionais e insatisfação econômica, sendo um dos fatores causadores da ruína da URSS.

CEAGESP – Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo
MR-8 – Movimento Revolucionário 8 de outubro
MDB – Movimento Democrático Brasileiro
CONCLAT – Conferência Nacional da Classe Trabalhadora
PTB – Partido Trabalhista Brasileiro
PCB – Partido Comunista Brasileiro
PC do B – Partido Comunista do Brasil
POLOP - Política Operária foi uma organização brasileira de esquerda, contraria à linha do PCB e que lutou contra o regime militar de 1964.

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