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Quando vou rezar, peço licença à natureza

História de: Maria dos Prazeres Campos dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Maria dos Prazeres Campos dos Santos é natural de Caucaia-CE. Principal liderança da comunidade quilombola Sítio do Cercadão, faz do seu dia a dia uma luta em torno da permanência e da melhoria na qualidade de vida dos seus moradores. Sua narrativa conta dos enfrentamentos que viveu ainda na infância, quando ajudou a destruir cercas colocadas à força por fazendeiros interessados na região, além da convivência com um cotidiano de trabalho e escassez de oportunidades. Elas fala dos aprendizados e, principalmente, da esperança na melhoria das condições educacionais da sua região: “não vamos diminuir a expectativa por um dia melhor.”

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História completa

Eu me chamo Maria dos Prazeres Campos dos Santos. Sou a terceira filha do casal de agricultores José Gomes dos Santos e Maria de Lurdes Campos. Nasci em 07 de Janeiro de 1966 em Caucaia-CE, região metropolitana de Fortaleza. A minha mãe era a parteira da comunidade. Hoje, ela tem 83 anos.

A minha casa da infância tinha móveis. As camas eram feitas de vara. Colocava uns paus enfiados, uma vara encima e as folhas de junco, uma planta que dá à beira d’água - que ficava quentinha e confortável. Assim era o colchão. Quando era na época do inverno, que ficava tudo molhado, o piso era a folha - não tinha piso, era só o barro batido. Colocávamos aquelas folhas para podermos ficar com um pouco mais de conforto. Naquela época, todo mundo brincava junto, não tinha essa coisa de que o menino não pode brincar. Todo menino brincava de casa, de boneco e as meninas brincavam de brincadeira dos meninos. Era todo mundo junto. Sempre moramos perto, uns dos outros. Sempre foi assim, porque tem muita terra. Mas o ponto é esse: uns casam, mas as casas vão ficando sempre aqui, juntas. Brincávamos de barro e cajueiro, não era dentro de casa não. Era nos cajueiros, debaixo das árvores

Nem todo mundo tinha o café, tampouco a farinha. Poucos tinham. Mas nós aqui sempre tivemos espírito de coletividade quando estava faltando na casa do outro. Por exemplo, se eu tinha dois quilos de arroz e o outro tinha dois quilos de farinha, trocávamos: “Tu fica com a farinha que eu fico com o arroz.” E assim vivia todo mundo nessa coletividade. Quando alguém não tinha, juntávamos o que se tinha. Isso ainda existe hoje. Era essa troca de alimento para ficar todo mundo por igual.

Até hoje, em cada quintal, tem um cultivo de ervas: chá, lambedor. Por exemplo, uma gripe. Antigamente, não existia esse negócio de pneumonia. Se uma pessoa pegasse uma pneumonia dizia logo que estava para morrer. Com os remédios caseiros já se cortava logo a gripe. Não se tinha essas doenças de hoje. 

A primeira escola que eu estudei não era uma escola, mas uma casa em que uma senhora nos ensinava. Era particular. Dávamos alguma coisa, não era nem em dinheiro, era em troca de alimento. Era o tempo da palmatória. Ou aprendia ou desaprendia, que o momento era aquele. Todos iam para a casa dessa mulher, só era uma professora. Depois foi que surgiu a escola do Icaraí, que deu para acomodar o bairro todo. Aí fomos para lá. Toda vida eu gostei de história, porque era mais fácil para memorizar. Nas outras matérias eu nunca fui boa. Mas quando mudamos de escola teve aquele choque. Era só a família, estudávamos todos na mesma escola dessa senhora. Quando fomos para a escola teve aquela divisão e sentimos a diferença. Não ia arengando, já tinha outro processo. Aí foi mudando o sentido da história, a modernidade. Foi para um outro lado.

Aos 18 anos, quando cursava o ensino fundamental, tive de parar de estudar para ajudar a minha mãe. Tinha um trabalho de fazer cadeira em casa. Era um trabalho de palhinha, que se fazia em casa. . A mulher vinha com o caminhão e deixava as cadeiras. Ela marcava oito dias para pegar. Em oito dias já tínhamos que entregar essas cadeiras feitas. Já vinham os buraquinhos furados, só para colocar aquela trança de palhinha. Tinha uma pessoa que ficava responsável para repassar o pagamento, que deixava no lugar. Nessa época era minha mãe que ficava com a encomenda das cadeiras. Ela distribuía para quem quisesse fazer na comunidade.

Por isso, tinha que parar de estudar para fazer, senão ia andar todo mundo nu. Tinha que comprar alguma roupa, alguma coisa, pois com o dinheiro dos pais só dava para comer. E não fui só eu. Quase todo mundo parou, mas graças a Deus, tive a oportunidade de concluir o ensino médio em 2002 e, em 2011, passei a estudar pedagogia.

Em 2003, quando a minha tia, líder da nossa comunidade faleceu, eu disse: "Não vamos deixar morrer. Tem que continuar o trabalho dela, que por sinal foi uma guerreira!". Passaram dois anos e eu fiz uma reunião. "Vamos reerguer, porque não é para deixar fechar as portas daqui. Está muito apagado". Reunimos a comunidade e levantamos a associação, que estava parada. A primeira associação, que tinha quase 40 anos, havia sido reconhecida pela Fundação Cultural Palmares. Tivemos que organizar outra diretoria, fazer outra reconstituição. Essa nova associação está com quatro anos.

 A partir de 2010, enquanto líder comunitária, pude viabilizar a entrada de alguns programas governamentais para a formação e profissionalização dos jovens da comunidade Sítio do Cercadão do Decetas. Aqui na comunidade eu fui atrás e trouxe o PRONATEC [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego], que já formou uma turma de almoxarife. Agora estamos com duas turmas: uma de porteiro / vigia e a outra de serviço ambiental. Em agosto, vamos iniciar um curso de pedreiro e acabamento em cerâmica. O que estou podendo fazer é isso: capacitando o jovem. Vou atrás do que eu posso fazer.

Desde criança, participei da luta pela permanência da comunidade quilombola Sítio do Cercadão frente ao interesse de fazendeiros. Isso porque na década de 1970 os fazendeiros resolveram mexer conosco, pois aqui ninguém tinha documento da terra. Eles mexeram, queriam tomar e nos tirar daqui. Eles cercavam durante o dia, mas durante a noite arrancávamos tudo e queimávamos. Nessa época tinha o Moraes, uma pessoa rica, que morava em Icaraí, que deu um apoio pra nós. Ele comprava gasolina. Ele viu todo o nosso procedimento, aquela luta e tentou nos ajudar - entre aspas, porque em troca disso ele ficou com um monte de terra, dando o papel de usucapião. Era para termos uma área reservada para nós, esse pedaço que temos hoje, mas ele tomou. Icaraí era daqui e ele tomou quase tudo. Mas, graças a Deus, estamos em paz, com o pouco que temos .

A minha mãe falava que quando eu era pequena, eu era meio doida. Aí, ela me levava para essas coisas. A mulher disse que não precisava me levar para o Centro, porque quando eu alcançasse a idade adulta eu ia saber o que fazer. Mas eu não falava. Até os sete anos ela me trancava dentro de casa, mas eu não dava nem uma palavra com ninguém. Só dizia: "sim", "não". Ela seguiu me levando e a mulher dizia: "Não se preocupe que quando ela tiver a cabeça formada, ela vai saber e entender o que que ela quer, o que ela vai fazer". Sempre foi assim. Eu via coisas, falava com os mortos. Eu vivia trancada dentro do quarto. Muita gente nem acredita quando eu falo isso. A minha mãe está viva para contar. Ela não deixava eu sair: "Ah, tu com as suas doidices! Fica aqui!", porque ela via eu falando com os mortos (risos). 

Sempre que vou rezar nas pessoas eu peço licença à natureza, porque eu rezo com folha. Peço que naquele momento Deus me ilumine, para que eu possa servir de instrumento de cura para aquela pessoa. Eu levo uma palavra ou um chá, alguma coisa assim. Sempre as pessoas voltam agradecendo, dizendo que melhorou, que ficou bem. Mas isso já vem de muitos anos, vai passando de geração. Desde os sete anos de idade sete anos que eu via a minha mãe rezar, benzer as pessoas. Ela ia me ensinando essas rezas: "Você vai aprender porque quando eu morrer você ficar". A primeira vez que rezei foi para o meu irmão embriagado. Ele chegou embriagado dizendo que estava com uma dor. Ele pediu: "Faz uma reza em mim porque eu estou doente. Estou com uma dor muito grande." Ele já faleceu também. Aí eu rezei e, segundo ele, passou a dor. Eu não sei, porque ele estava embriagado. Só sei que quem me procura sempre volta para agradecer. Com sete anos eu já benzia as crianças pequenas. Hoje estou com 48 anos e ainda, graças a Deus - porque isso depende muito da fé de cada um. 

Eu me casei com um primo. Eu era dona de casa. Eu nunca saí para trabalhar fora. Sempre trabalhei em casa mesmo. Ele era pedreiro e o meu pai não queria - ele dizia que os filhos nasceriam aleijados, por ser da união entre primos. Eu tinha medo do que ele falava, mas graças a Deus eu tive um filho, uma maravilha. O meu primeiro marido, que era meu primo, era muito violento. Ele batia em mim, corria atrás de faca, mas eu não perdia feio. Eu metia o pau também (risos). Chegou o ponto de não dar mais certo e cada qual foi viver a sua vida. Mas ele sempre me ameaçava: "Se você arrumar outro eu mato". "Mata nada! Só se o outro for mais mole do que você". Fiquei um ano e seis meses casada. Passei um ano sem compromisso e casei-me de novo. Com esse já tem 25 anos e tenho quatro filhos dele.

Vejo que a nossa comunidade vai ter uma mudança com respeito à moradia. Eles vão melhorar a qualidade de vida. Sempre vejo aqui com a qualidade de vida melhor. Eu luto para isso, mas eu sei que eu não vou viver aqui para sempre. Coloco na cabeça das pessoas essa expectativa de ter uma vida melhor. Todo último dia do mês tem reunião e eu sempre bato nessa tecla: "Não vamos diminuir a expectativa por um dia melhor." Vejo aqui um futuro bom, se Deus quiser. Em vista do que já foi antes, quando era tudo de palha, passou para de taipa, já está de alvenaria e um dia vai melhorar, pelo menos a aparência das casas. Que as pessoas estejam empregadas, porque tem muito desemprego aqui também.

 





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