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História

Quando você não tem memória, você não tem história

História de: Renata Bernardes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Coordenadora do Projeto Agenda 21, de Santa Teresa, da organização Viva Santa. Atuou para a desapropriação e transformação do Casarão em imóvel de uso público. Trabalha para integração dos moradores das comunidade e dos bairros. Cultura é o setor onde há realmente integração entre diferentes classes sociais.

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História completa

P/1- Qual o seu nome completo?

 

R - Meu nome é Renata Bernardes.

 

P/1- Local e data de nascimento?

 

R - Eu nasci no dia 8 de dezembro de 1950, no Rio de Janeiro. 

 

P/1- Renata, você poderia falar um pouco da sua formação profissional e da sua relação com o Morro dos Prazeres?

 

R – Eu sou jornalista de profissão. Trabalhei em jornal, trabalhei em assessoria de imprensa, e atualmente estou coordenando o projeto Agenda 21 local de Santa Teresa, da organização Viva Santa. O meu elo aqui com o Casarão é que em 1995 eu criei esta que agora é uma organização, mas que na época era um movimento, e no momento em que o bairro estava muito por baixo um pouco antes do que se chamou aqui de Guerra dos Prazeres. Era um movimento de pessoas, moradoras do bairro, com a idéia de levantar o astral do bairro, e logo depois que a gente criou esse movimento, _____ a minha casa, estourou a questão da  Guerra dos Prazeres, chamada e a gente começou a atuar em várias áreas. O primeiro ano que a gente atuou em Santa Teresa, a gente fez várias prospecções, tentou fazer um diagnóstico mesmo do bairro. Uma das primeiras coisas que a gente fez, foi uma reunião com o pessoal dos Prazeres, do Escondidinho e da Secretaria da Habitação, que ia começar o favela–bairro na época. Aí a gente chegou na reunião no SEAT (Fabricante de Automóveis), conversamos, e depois o pessoal dos Prazeres falou com a gente, conversamos sobre esse Casarão, que estava fechado há muito tempo, muitos anos, que não sabiam quem era o proprietário. E aí, no nosso grupo, nesse grupo recém-formado do Viva Santa, tinha uma pessoa que também é advogada, o Marcelo Sharrel e nós começamos a procurar saber quem era o proprietário e tentar ver se a gente levantava qual era a origem e como estava a situação  naquela época, do Casarão, e propor na Secretaria de Habitação que o favela–bairro incorporasse o Casarão ao projeto, o que não estava previsto ainda na época. E aí o Marcelo, como advogado, procurou saber, e a gente conseguiu levantar os dados, quem eram os proprietários, onde estavam morando fora do Brasil e quem eram os procuradores aqui. Levamos esse material, essas informações para o Sérgio Magalhães, na época Secretário da Habitação, e ele disse que de posse desses documentos, dessas informações, ficaria mais fácil, que ele ia levar para a Prefeitura para desapropriar o Casarão e aqui construir, reformar e fazer um Centro Cultural. E depois, num segundo momento o Casarão tinha sido comprado,  estava até começando a obra, ou no meio dela – não me lembro mais -  também a gente tinha um projeto para a casa. Tinha idéia de um projeto. A gente veio aqui conversar com a Associação dos Moradores na época. A gente tinha contato aqui com o Paulão da Associação. O projeto chamava-se Objeto dos Prazeres porque uma das idéias do projeto era trazer um bonde, um bonde de carga, coisas que as pessoas jogam fora e que não é lixo: objetos, móveis, eletrodomésticos, e fazer aqui – era 1995, 1996 ainda – e fazer aqui uma... Com os artistas de Santa Teresa, fazer uma oficina de reciclagem com arte, que seriam os Objetos dos Prazeres. E nós também do Viva Santa, nessa época criamos esse Arte de Portas Abertas, que hoje está acontecendo aqui. Acho que é a primeira vez, ou segunda que o Casarão está participando. Nós agora não estamos mais à frente do projeto. O projeto tornou-se independente a partir da décima edição, mas nós produzimos, criamos, tivemos a idéia, fizemos esse projeto desde a primeira edição. Hoje eu estou muito feliz de estar aqui e ver o Casarão, que a gente teve uma história com ele, porque levantamos muitos dados, e o Arte de Portas Abertas, que também a gente deu vida a esse projeto, estão juntos hoje aqui no Casarão. 

 

P/1 - Renata, você poderia falar um pouco, já que você conhece bem a organização da Teresa, essa relação da comunidade com o bairro de Santa Teresa?

 

R - Olha. Eu acho que é fundamental, eu acho que tem que se recuperar uma coisa que era como era antes, que as pessoas circulavam nas favelas, não havia essa divisão tão grande. Isso é uma coisa muito mais recente. Esse projeto que eu estou coordenando agora que é do Viva Santa, é a Agenda 21 Local de Santa Teresa, que é uma....Essa agenda 21 é um documento que saiu da Rio 92, e ela contém um desenvolvimento em nível global, do país e até local. Santa Teresa vai ser o primeiro bairro a ter uma Agenda 21 local. E é um plano, um planejamento participativo do futuro de Santa Teresa, do futuro sustentado, o futuro que se quer para o bairro, quer dizer, um futuro que desenvolva, mas  ao mesmo tempo preserve as coisas boas que o bairro tem e que nos foram legados. Então, desde o início que começamos a fazer esse projeto – ele está sendo financiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente – a nossa grande preocupação é que essa agenda  seja uma agenda realmente de todo o bairro,  dos segmentos, das comunidades, porque normalmente quem tem voz são as pessoas do asfalto. A gente está fazendo um trabalho, desde o início – além de pesquisas, que vamos ter pesquisas domiciliares  - a gente está reunindo cada setor de Santa Teresa, para ouvir quais são as prioridades, quais são os temas  do desenvolvimento de Santa Teresa que interferem mais em sua vida, na sua atividade. A gente já esteve com o pessoal da Cultura, e teve gente das comunidades de Cultura, das escolas também. A última que nós tivemos foi dos jovens e eu fiquei muito feliz também, porque a gente se chama 30 lideranças, lideranças formais e informais. Nessa das 30 lideranças, 14 jovens eram das comunidades. E que estavam lá, sentados também, discutindo e tal. E a próxima, que vai ser agora em julho, vai ser uma oficina - que a gente está chamando, da agenda 21 - para lideranças das comunidades. Eu acho que a preocupação é fundamental, não é uma preocupação só minha. Eu acho que não há nem um tipo de desenvolvimento nem de futuro possível  para o bairro, se o bairro não se vir como um bairro integrado. Essa frase que a gente costuma ouvir muito assim: ”Santa Teresa é cercado de favelas” é mentira. Não é assim. As favelas não cercam Santa Teresa. Isso é um conceito absolutamente errado. As favelas fazem parte de Santa Teresa. Algumas sim, outras não. E agora com essas pesquisas que a gente está fazendo por causa do projeto, a gente descobre, por exemplo, que muitas das favelas que a gente acha que são de Santa Teresa, geograficamente elas começam em outro bairro. Então, elas já são de outro bairro. Mas Prazeres e da Coroa, são daqui. Eu acho que é fundamental todo tipo de ação e eu acho que esse Casarão, desde a época que a gente fez esse levantamento da situação dele para tentar integrá-lo ao favela–bairro, esse Casarão é muito emblemático, porque ele fica exatamente nessa fronteira do asfalto com a favela. A gente teve esse sonho nessa época, em 1995, 1996 – não me lembro exatamente - porque a gente viu a possibilidade de esse Casarão ser um ponto de integração. Eu fico super feliz, fico até emocionada de ver que ele está funcionando assim, dessa maneira. Nem tantos anos depois. Então quer dizer que dependeu realmente de quê? De as pessoas levantarem, dependeu da Prefeitura ter essa vontade de fazer. E até houve um episódio muito engraçado, não sei se posso contar - nessa época que a gente estava com essa idéia de fazer esse projeto aqui do Objeto dos Prazeres - tem outros aqui, mas enfim, na época era um projeto. A gente veio conversar com o Paulão e o pessoal da Associação e aí a gente falou como era o projeto. Eles ouviram  e ... Quem estava junto também era o diretor na época do Viva Santa, que até hoje o Viva Santa ______. A empregada dele era daqui dos Prazeres, a Nina, que até ela se mudou daqui, a filha dela trabalhou na minha casa e aí a gente fez os contatos. Eles ouviram, ouviram  e um deles falou: “Seu Pedro, esse negócio de arte é muito legal, mas isso é coisa de boiola [risos].”  Eu acho engraçado também porque ... “A gente precisa mesmo é de computador.”  O Pedro falou: “Vocês têm toda razão. Mercado de trabalho é computador, mas nada que a arte também não possa integrar e ajudar nessa integração”. Então esse também é um motivo de eu ver que esse Casarão está sendo usado. Não sei se tem aula de computador aqui, mas se tiver ótimo, eu acho o máximo. Mas, saber que o pessoal está aqui, o pessoal do Morro dos Prazeres, o pessoal do Portas Abertas aqui, e que está havendo essa integração através da cultura, porque eu acho que no Brasil a cultura é o único campo em que há integração. O único setor, o único campo, a única área em que realmente há uma integração de classe sociais, entre pobre e rico, entre favela e asfalto é na área da cultura. Eu acho que é por aí. Por isso que esse projeto Viva Santa até agora, o Artes de Portas Abertas, o festival sempre tinha esse gancho da cultura. Agora a gente está tocando uma agenda que também pega a cultura , mas...

 

P/1- Deixa eu fazer uma pergunta simples para você. Você sabe por que esse nome Morro dos Prazeres?

 

R - Eu não sei exatamente, mas quando eu estava subindo hoje aqui, olhando a vista, digo: “Deve ser por causa dessa vista.” Porque com essa vista, quem construiu por exemplo essa casa aqui na época – não sei se o morro devia ter esse nome – deve ter  chegado aqui, quem chegou primeiro olhou essa vista e disse:” Nossa. Isso aqui é um prazer.”  Deve ser por isso. Eu não sei, mas eu invento [risos]. Por que é? Você sabe?

 

P/1- A última pergunta que eu gostaria de fazer é perguntar a você, Renata, o que você achou de ter participado desta entrevista e contribuído para o projeto de memória do Morro dos Prazeres?

 

R – Eu acho super válido. Muito bacana. Me deu o maior prazer .Também é uma coisa que em outras circunstâncias, em outras ocasiões – não vem ao caso – tentei fazer em outros bairros. Eu acho que a memória é muito importante não só para a história, para se levantar a história, mas para a autoestima das pessoas. Eu acho que quando você não tem memória, você não tem história, você não tem autoestima. Eu acho que só tem para as famílias importantes, os reis, as dinastias, porque eles têm toda uma história. Por que só os reis? Acho que todo mundo tem história.Toda comunidade, toda pessoa, toda cidade. E recuperar isso, e ter isso registrado, acho que é fundamental para a cidade e para as pessoas dessas comunidades. Isso é muito importante. 

 

P/1- Está ótimo. Muito obrigado.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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