Busca avançada



Criar

História

Quando meus pais se conheceram

História de: Expedito Paulino dos Santos
Autor:
Publicado em: 11/12/2014

Sinopse

Expedito Paulino dos Santos nasceu na região de Matões, de parto natural, dentro da própria casa do casal Luiz Paulino do Nascimento e Maria Conceição dos Santos, em 13 de fevereiro de 1932. Aprendeu a agricultura pelas mãos do pai e a caça de animais silvestres com os tios. Na diversão, o futebol era uma atividade frequente e a posição de goleiro era a preferida. Cresceu frequentando festas de forró e trabalhando muito nas roças do pai. Em seu depoimento, ele conta sobre como era a vida no sertão nordestino da primeira metade do século XX, num período onde vigoravam o trabalho no campo e a questão da honra e da força como principal característica das relações humanas de então. 

Tags

História completa

Eu me chamo Expedito Paulino dos Santos. Nasci na região de Matões, de parto natural, em 13 de fevereiro de 1932. Aprendi a lidar com a lavoura pelas mãos e orientação do meu pai, Luiz Paulino do Nascimento, assim como a caça de animais silvestres com os meus tios. Eles trabalhavam em plantações, pesca e a caça. Eu alcancei a pescaria já meninote, pois nesse tempo não havia casa boa.

O meu pai tinha se casado com outra mulher. Ele conhecia a minha mãe, que era parente, mas não tinha muito... Com pouco tempo, um ou dois anos depois, a mulher dele morreu de parto. Ficou o filho, que ele criou e ficou um homem. Ele morava perto do Torrente. Era a casa dos pais dele. Sempre passava por ali. Certo dia ele resolveu: “Ela é minha prima, mas eu vou dizer uma prosa a ela”. Ele chegou conversando com a mãe dela e os irmãos. Ele era muito trabalhador e era tudo da família. Foi e soltou a prosa a ela. Perguntou se ela queria se casar com ele. Ela ficou em dúvida. Foi e falou ao povo dela - a mãe e os irmãos: “Se você quer? Tudo é da família”. E se casaram. Ele disse: “Vou fazer a minha casinha” e fez mesmo, bem ali, pertinho daqui. A casa dele era nessa estrada. Foram para frente. Morreram aí mesmo, já velhos.

 Nossa casa de palha. Na cozinha era cheio de casca, cabeça de siri - ele era pescador e caçador. Tinha rabo de tatu, de peba. Os três iam matando e colocando tudo para amostrar à família quando crescesse. Sou o caçula e ainda vi isso. Era tudo cheio de cabeça de camarão, rabo de peba. Eu o via caçar, agarrava de peba, como daqui e acolá para arrancar. A vida dele era assim. Quando não era nos pebas, era caçando jacu. Todo dia era um, dois e até três que ele trazia.

 

Nesse tempo, quase não tínhamos o direito de brincar, pois o tempo era ocupado para ajudá-lo. A nossa brincadeira era caçar de baladeira. Os mais velhos já pescavam de anzol, iam para as lagoas. Tinha muitas lagoas e eles iam pescar o caranguejo no mangue. Eu não era muito bom nisso. Eu era bom na baladeira. Aqui na frente tinha uma mata que era do finado Miguel Alves. Às vezes, juntávamos em dez rapazotes, cada qual com uma baladeira, para saber quem era o melhor. Atirava nos punarés. Eu era o mais novo. Balançávamos um cipozinho e corriam punarés para todos os lados. Eu era esperto na baladeira. Às vezes, saía daqui e ia à praia juntar as pedrinhas redondinhas para atirar. Era certeira. Acertando a primeira, já derrubava. Tinha uns que matava dois, coisinha pouca; outros matavam cinco e tinha os que eram bons. Eu matava até oito, dez, porque eu era melhor na baladeira, o mais ligeiro.

 Quando cresci um pouco, ia para as festas de forró. Era bom. Começava cedo, às seis horas. Brincava. Tinha sanfona e violão. Quem não aguentava, saía, ia tomar uma coisa ou outra. Todo forró era bom demais. Se não tivesse uma garota certa, tinha que fazer força para convencer outra. Eu era meio acanhado, mas era difícil voltar em branco. Eu sempre arrumava um par à noite na dança. Gostava de pisar o povo e arrumar. Tinha gente do Sardinha - acho que você não conhece e não sabe onde é. Era um lugar chamado Sardinha e lá eu arrumei uma que passei tempos no forró com ela.

Lembro que o conjunto musical era o Chico Margarida, o Antero, o Manuel Arcanjo no São Pedro. Tinha um que se chamava Caninana. Esse era o melhor tocador.

Sabe qual festa que foi ruim para mim? Foi na Maré, do João de Góes. Tinha uma casa que fazia festa de santo todo ano. No mês de junho - quase todo santo tinha uma festinha lá. Eu sempre ia, mas eu era azarado. Quando eu ia, todo tipo de gente tinha uma besteira comigo. Certa vez, foram todos os meninos e o papai não deixou. Eu ainda era novo, mas o papai não me deixou ir para essa festa, de jeito nenhum. Quando chegou às oito ou nove horas chegou o Daniel do Pecém: “Cadê os meninos?” “Não estão”, e ele disse: “Eu ia lhe chamar para ir à festa no Góes”. Eu disse: “Não. Só tá o velho.” “Deixa ele ir!”, “Não, ele não vai. Hoje ele não vai com os irmãos”. Ele disse: “Por que?” “Hoje ele não vai porque eu não deixei e nem deixo”. Os outros foram para outro canto e o João de Góes é que ele não vai” “Por que?”, “Quando ele vai pra lá, ficam cheio de fuxico com ele”, “Compadre, deixe ele para eu não ir sozinho”, “Não”. O velho inventou que não tinha dinheiro, mas eu sempre tinha um dinheirinho. Não era todo tempo. O pai disse: “Hoje ele não vai. Está liso e não vai”. O velho tirou dez mil réis. Nesse tempo, dez mil réis era muito dinheiro. E disse: “Eu dou o dinheiro para ele ir”. O velho deixou, mas disse: “Mas tenha cuidado com o menino”. Ele falou: “Ele vai comigo, não tem nada”. Dá até vergonha de dizer isso, mas já que o senhor está perguntando. Então, eu fui. Cheguei lá, o homem era doido para ir ao jogo. Ele era jogador. Ele foi e, no caminho, lá na Maré, ele disse: “Expedito, chegando lá eu vou jogar e tu vais para a festa”, “Rapaz, eu não vou estar perto de você?”. Ele disse: “Vai sim. Mas se vierem os caras que têm marcação com você, é só dizer. Vamos entrar”. Chegamos e a festa já tinha pegado. Ele disse: “Pode entrar”, e ele entrou comigo. Isso eu me lembro demais. Ele disse: “Se os homens estiverem aí, você aponta”. Eu disse: “Sim”. Eu tinha dito que iria ficar de olho. Quando eu fui passando por eles, eu o cutuquei. Ele disse: “Está certo. Você entra que eu vou para o jogo. Qualquer coisa, avise-me.” “Está certo”. Quando eu entrei, dois caras saltaram de lado: “Hoje você não brinca aqui”. “Rapaz, deixe de besteira. Vamos brincar aqui”. Ele disse: “Aqui não é lugar para você”, pois eles eram da banda de lá. Eles acirraram e eu saí afastando. Fui para um canto, para ficar guardado. Danaram logo a zoar e correr para o terreiro. Disseram:  “Quem é?” “São dois que estão de besteira com o Expedito”. Ele saiu e, quando chegou, abriu. As ‘negas’ já tinham saído e eu estava encantoado. Ele disse “Expedito, como é que estas? Ferido?” “Até agora, não”. O padrinho empurrou-os e disse: “Agora é comigo. Vocês não buliram, não fizeram nada até agora.” Ele era ruim. Colocou o restante dentro da casa, eles abriram e não vieram mais para a festa. Eu fique na sala e os dois não vieram mais. Eles saíram e não me feriram. Eu me encantoei.

O futebol era uma atividade frequente e a posição de goleiro era a minha preferida. O Raimundo Alves, que era da banda musical, fez um campo e todos os domingos tinha jogo. Era um tocando numa trave e na outra, para animar o tempo todo. Eu joguei. Não jogava ruim, mas o pai e a mãe não queria de jeito nenhum. Eles não aceitavam. Íamos escondidos. Certa vez, esse Raimundo, que era um homem forte, grande, alto, o dono. Ele inventou um timezinho, não era jogo sério. Fomos jogar contra, e eu pegava no gol. Aí, eu disse: “Esse eu lasco cedo”, eu até errei. Aí, ele foi chutar uma falta. Eu não tinha medo e disse: “Pode mandar”. Quando ele botou a bola de lá pra cá, eu caí pela força da bola. Mas eu fiz isso por boniteza, para ter mais vaias. Eu abaixei, peguei a bola de uma vez mas eu caí. Os meus pais correram, era bem ali. Quando acabou-se o jogo já estava o boato que diz que eu levei uma bola e que o Raimundo estava me matando. Eu disse: “Não, eu caí para fazer boniteza, mas a bola eu encaixei, não foi gol. Caí porque eu quis”, “Não jogue mais...”. Não me deixaram ir mais para o jogo. Eu era rapaz. Nesse tempo, quando os pais diziam uma coisa, tínhamos que cumprir. Quando vivia com os meus pais eu levei uma lapada só. Daí, não careceu mais. Hoje, um menininho desse tamanho já faz o que quer e nem faz conta de pai nem de mãe. No meu tempo, obedecíamos aos pais.

 

Não me adaptei aos estudos nem aos castigos impostos pela professora. Fugi da escola ainda bem jovem. Eu passei dois anos na escola. Os meus pais me colocaram. A escola era da prefeitura. Lembro-me que eram quatro moças numa casa. O pai delas era o Afonso e a mãe Sena. A escola era na Maré. Era longe. O pai disse: “Vamos colocar os meninos para estudar”, que era eu e uma irmã. Eu fiquei meio mole e disse: “Vamos.” O máximo que eu passei na escola foram dois anos. Eu não aprendi nadinha. Eu era meio rude, ruim. Depois, me arrependi. Eu ia para escola mas, às vezes, eu não chegava. Hoje, achamos ruim, mas os meninos são mais errados do que nós. Eu ia para escola, mas tinha dias que eu não chegava lá. No caminho eu voltava, fazia hora. Perguntavam: “Estudou?” “Estudei”, mas não tinha ido. Eu ficava escondido, fazendo hora e ia para casa. Eles pensavam que eu ia para a escola, mas não iam descobrir. Pensavam que eu ia todos os dias. Eu não gostava porque eu não sabia como era. Nesse tempo, íamos ao meio-dia, depois do almoço. Eu ia e estudava. Não tinha merenda, não tinha nada. Do jeito que eu ia, eu voltava. Mas as meninas não eram muito abusadas. O menino é sem vergonha, não faz conta do tempo. Eu aprendi a ler, a escrever, mas hoje isso não serve, pois as leituras não eram como as de hoje. Tínhamos que estudar a carta do ABC todinha. Tinha de guardar a tabuada. Depois, passava para a cartilha. Eu li até o primeiro ano. A carta de ABC, a cartilha e o primeiro livro. Hoje, os meninos não estudam porque não querem. Hoje é melhor: tem carro que deixa no colégio e tem tudo para eles estudarem. Tem muitos que não aprendem nada. Eu me arrependi, mas o que eu aprendi, ainda serve. Eu faço qualquer coisa.

Conheci a minha esposa trabalhando. Eu tinha um amigo que casou com uma irmã dela. Falaram para eu ir trabalhar lá. Eu fui cortar cana que achou no corte. Passava na carnaúba e tomava umas garapas. Elas iam fazer o almoço. Certo dia ela ia para lá. E eu também. Eu morava por ali. Ela veio e eu disse: “Eu vou para lá também”. Ela era bem novinha, estava começando a se enfeitar. No começo, o namoro era escondido, porque ela era nova. Mas todo dia eu ia para lá. Ficávamos conversando, como namorados, e eles ficaram sabendo. O pai dela nos respeitou. Ficávamos no parapeito até a hora de eu ir embora. Quando eu pedi para casar, comecei a fazer uma casinha distante, numa baixa que se chama Estrada da Mata, um formigueiro doido, rapaz. Eu fiz, arrumei as madeiras sem ninguém saber. Tinha um vaqueiro que morava lá e que, certo dia, disse: “Tu vais casar?”, eu disse: “Não” “E aquelas madeiras?” “Que madeiras?” Eu estava colocando escondido. Ele disse: “Tu pensas que não tem fé?”. Ele era meu compadre. Eu disse: “Sim, eu estou montando”. Fiz a casinha e passei 32 anos lá. Após o casamento, dediquei-me ao comercio do excedente do campo, além de produtos como a rapadura e a farinha. Aposentei-me em 1992, quando fiz 60 anos de idade.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+