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História

Quando "luto" é verbo

História de: Diva Moreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/10/2005

Sinopse

Diva enxerga na história de sua mãe, empregada doméstica, sua própria história, que, ao tratar das dificuldades, trata também das lutas para transpor os obstáculos a sua frente. Extrai dos livros e das dinâmicas sociais que presencia lições e práticas que visam mudanças profundas na sociedade, e é assim que milita para o movimento negro e para as minorias, em geral. Sua história de vida se traduz em resistência e superação dos empecilhos que lhe impuseram ao reduzi-la à sua cor de sua pele e sua classe social. Carinhosamente, apelida o movimento negro de ‘a menina de seus olhos’, tal é sua identificação com ele. Seus sonhos, hoje, são mais do que sonhos: são ideais.

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História completa

P/1 – Vamos começar. Eu queria que você me dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R – Olha, o meu nome é Diva Moreira. Eu nasci no interior de Minas Gerais, no norte de Minas, e fiz 59 anos na semana passada. Tenho muito orgulho da minha idade, da minha trajetória.

P/1 – E qual foi o dia da sua data de nascimento?

R – Dia oito de junho de 1946.

P/1 – E você passou sua infância morando nessa mesma cidade?

R – É, eu vivi quatro anos nesta cidade. Minha mãe era empregada doméstica e tinha um grande sonho. Eu sempre falo que, para falar da minha vida e de tudo o que eu fiz, eu tenho que falar da história da minha mãe (riso), que eu acho a dela mais impressionante do que a minha, pela base que ela não teve. Uma empregada doméstica, que tinha um grande sonho, que era o seguinte: “a minha filha, os meus filhos não vão passar pelo que eu estou passando na vida”, então ela pensava em ir para São Paulo, porque na época, no imaginário das pessoas pobres, São Paulo era um lugar de grande desenvolvimento, de grandes possibilidades, de oportunidades para os pobres. Família negra... Mas assim, ela também, ao mesmo tempo, visionária e com o pé no chão. E ela conhecia pessoas, parentes dos patrões dela em Bocaiúva, [por]que morava em Belo Horizonte. Então com... Eu tinha pouco mais de quatro anos quando a gente se mudou de Belo Horizonte, então, de lá para cá, com algum tempo que eu passei fora do país, eu vivi basicamente... A minha história está basicamente fundada, enraizada em Minas Gerais.

P/1 – Como é que foi a sua infância lá, tem alguma coisa marcante?

R – Olha, tem, que é a humilhação. Humilhação racial, a humilhação... Aquele estigma que era muito forte antigamente de ser filha fora de casamento. A minha mãe era viúva quando eu nasci, então isso era muito marcante. Havia aquela situação dos filhos legítimos, dos filhos ilegítimos, isso me marcou muito. E a minha mãe tinha muito pudor de falar sobre isso. Ao mesmo tempo, eu tinha um pai (riso) ao qual eu deveria visitar quando eu saía de Belo Horizonte para Bocaiúva, eu tinha que ir lá pedir a benção a ele, aquele pai que prometeu apoio quando eu estivesse na escola. Quando eu chegava a Belo Horizonte eu não tinha pai. Isso foi muito confuso para mim, sabe? Eu tenho pai ou não tenho pai? Acho que realmente é uma das coisas que mais me marcaram foi essa indefinição da figura paterna, da figura masculina na minha vida. E também eu lidei o tempo todo com essa ambiguidade. Por exemplo, agora eu estou falando porque é um depoimento histórico, mas eu não falo em todos os lugares. E eu estou programando, eu vou conversar com a minha mãe sobre isso (riso), porque ela está com... Vai fazer 90 anos, e eu não quero ficar escondendo isso para as pessoas. Mas tem um tanto de gente que conviveu comigo com aquela história de que eu não tinha pai, não tinha pai, e eu não vou reunir as pessoas e falar o seguinte (riso): “Gente, eu tenho um negócio para contar para vocês. Foi isso, isso e isso.” Porque eu também não tenho... Eu teria que fazer um acerto com ela, uma conversa com ela para que ela pudesse também aceitar isso plenamente. Eu acredito que sim. Mas quando a gente era nova, e a gente foi para Belo Horizonte... Uma família católica extremamente preconceituosa, extremamente conservadora, então esse era um tabu, não podia falar. Ela tinha que passar a imagem para todo mundo de que ela era viúva e de que eu tinha nascido antes de ela ter se tornado viúva. Então eu sempre lidei com essa coisa assim, de uma situação de legitimidade do nascimento, de não reconhecimento de um nascimento dentro dos padrões reconhecidos pela sociedade.

P/1 – E você morava só com sua mãe ou você morava com...

R – Não, ela era empregada doméstica, então eu nasci na casa de família, e só fui sair de casa de família com 17 anos de idade. Eu ajudava ela nas tarefas de doméstica, posso falar numa boa que eu também fui empregada doméstica, apesar de não viver aquilo, não era o meu salário. E eu tinha que estudar, então era aquela loucura, porque eu tinha que arrumar tempo para trabalhar também. Porque naquele momento da história social do país, as empregadas domésticas morriam de trabalhar. Eu via a situação da minha mãe, era aquela loucura, eu tinha que ajudá-la. Ela não queria que eu ajudasse muito para não prejudicar o meu estudo, porque o grande sonho dela, o grande projeto dela é que nós estudássemos.

P/1 – Você tinha outras irmãs, outros irmãos?

R – Eu tinha um irmão que ela também teve depois que ficou viúva. Esse irmão foi morar na casa de uma família, em outra cidade do norte de Minas. A minha irmã morava com a minha avó e o meu avô maternos, somente eu que morei o tempo todo com ela.

P/1 – 17 anos você morou... Até 17 anos...

R – Até os... Em casa de família.

P/1 – Você frequentava a escola?

R – Frequentava a escola. Isso aí ela engolia cada bucha... Porque nesta casa eles queriam que eu fosse babá dos bebês que estavam nascendo na família, e eles achavam, eu me lembro assim, como se fosse hoje: “Não, negro não precisa estudar, até o quarto ano está bom.” Então eles não queriam que eu estudasse depois da quarta série primária. E a minha mãe não, ela fazia todo o serviço para que eu tivesse o tempo para estudar. Então foi uma sobrecarga muito grande para ela. Mas valeu a pena para nós duas.

P/1 – _________

R – Hum, hum.

P – E aos 17 anos o que é que você fez? Como é que foi essa decisão?

R – Aos 17 anos eu já estava super desgastada de morar na casa deles, porque teve de tudo nesse período. Teve abuso sexual, sabe? Tentativa, pelo menos tentativa de abuso sexual. Porque era uma pensão, a gente morava em uma pensão, e rolava de tudo, eu já estava extremamente desgastada. Uma adolescente sem liberdade, sem independência... A gente foi morar em um lugar cedido, porque a minha mãe, o único lugar que ela poderia morar, naquele período, era em uma favela, e ela comprou um barraco em uma favela. Aí uma outra pessoa desta pensão falou o seguinte: “De jeito nenhum. Você está com uma filha moça!” Você vê há quantos anos atrás o preconceito... Isto é o quê? Há mais de 40 anos atrás o preconceito fortíssimo contra a população favelada, né? E os níveis de violência nem se comparam aos de hoje. Aí essa senhora falou assim: “De jeito nenhum! Você vai ter que vender aquele barraco, você vai ter que se virar, mas você não vai levá-la para um barracão.” Aí ela conhecia essa senhora que estava com um barracão vazio, então a gente morou lá. Depois eu fui... Eu já tinha... Estava começando a trabalhar, ganhava um dinheirinho e tal, e a gente foi morar em um barracão nosso, com independência pela primeira vez. Quer ver? Eu acho que eu tinha... Eu já tinha mais de 20 anos. Mais de 20? É, em torno disso quando eu fui. Mas era assim, aluguel. Mas, de qualquer jeito, foi a primeira vez que a gente teve casa própria, digamos.

P/1 – Você se lembra do dia?

R – Hum, mas é tudo muito ambíguo a vida da gente, é cheia de coisas que ao mesmo tempo [que] te fascinam, humilham, sobretudo uma família negra, muito pobre. Porque depois que a gente saiu desse lugar cedido – porque a dona do barracão voltou, a gente teve que sair – eu fui morar em um cortiço. E aquilo para mim era uma morte, morar em um cortiço. Eu vivia no meio de classe média, a maioria era branca, todo mundo morava bem. Naquela época não tinha nem apartamento, quase todo mundo morava em casa. Então eu tinha assim, a maior vergonha das pessoas saberem do lugar onde eu morava, que era muito degradado. Era muito feio, o lugar, muito pobre, muito precário. Era um banheiro coletivo, um tanque coletivo, dava muita briga também neste lugar para ver quem é que ia usar primeiro (riso). Tinha que acordar mais cedo para ter menos gente ocupando os mesmos espaços coletivos. Foi um período, também, ao mesmo tempo: “ai, que bom que a gente está em um espaço que é nosso”, mas ao mesmo tempo tinha esse lado que me constrangia muito pelo fato de eu, naquele momento... Deixa eu ver se eu estava... Não, eu não estava na universidade, mas eu já tinha me formado no ginásio, e eu era de movimento jovem ligado à igreja católica, então toda a minha entourage, todos os meus amigos e amigas eram de classe média. Eu morria de vergonha de morar neste lugar. Isso foi assim até algo em torno de que? 20 anos, até os 20 anos.

P/1 – E você falou do movimento jovem. Quando é que você entra em contato com o movimento jovem?

R – Movimento jovem? Olha, primeiro eu fui do movimento estudantil, então eu tenho a uma história de movimento social bem jovenzinha, porque fui para... Já era ditadura. A ditadura entrou em 64, em 64 eu acho que eu já tinha me formado no ginásio. Aí a gente já fazia parte, já tinha se formado no ginásio, porque em 67 eu estava na universidade. Então a gente, quando eu estava no ginásio ainda, nós fazíamos parte de movimento estudantil, e questionando as regras da escola. Sabe aquela coisa assim, de subversão, de você não aceitar a autoridade? Eu me recordo que não podia entrar de calça comprida, sabe? (riso). As mulheres tinham que usar saia ou vestido, e a gente usava calça comprida. Tinha que desfilar no Sete de Setembro: “Que história é essa de Dia da Pátria? O Brasil não é independente coisa nenhuma, a gente não vai desfilar.” E a gente não desfilava. Então começou aí no Colégio Estadual de Minas Gerais, que era uma escola pública e muito progressista, muito progressista. De lá saíram várias pessoas que se tornaram expoentes em várias áreas. No jornalismo, na Academia. Era realmente um tempo muito rico. Discutiam-se, naquele momento histórico, as políticas de reformas sociais , de reformas de base do João Goulart, então havia debate sobre nacionalismo. Se a gente devia comprar coisas brasileiras mesmo que fosse de má qualidade ao invés de comprar coisas importadas de melhor qualidade, tudo isso perpassava os debates em sala de aula. Então a minha primeira experiência é realmente no ginásio, em grêmio estudantil, movimento estudantil. Depois eu me mudei para o bairro da Serra. Eu não morava no Bairro da Serra, mas eu fui para uma área do bairro perto do convento dos Dominicanos. Lá foi uma experiência ‘super ultra’ rica. A primeira vez que eu ouvi falar em Marx, marxismo foi na igreja católica. Todo o debate no sentido de apoiar a Reforma Agrária, apoiar as lutas sindicais, apoiar o regime Goulart naquilo que ele tinha de progressista, tudo isso acontecia ali no convento dos Dominicanos. Até que teve o golpe militar. O convento foi invadido na véspera, na véspera do golpe militar o convento foi invadido. Aí ficou tudo mais difícil para todos nós.

P/1 – O que é que você fez? Qual que foi a reação, assim? Você estava super envolvida com...

R – É, estava, estava. Mas foi aquela frustração. A gente era muito jovem, ainda. Em 64 eu tinha 18 anos. A gente sabia que tinha acontecido um golpe militar, essa consciência a gente tinha, mas eu, pessoalmente, não sofri durante aquele primeiro momento, porque o tipo de inserção que a gente tinha em movimento jovem não era alguma coisa vista pelo regime militar como perigoso, como muito subversivo, que merecesse gastar prisão para a gente (riso). Ou seja, tinha muito mais gente que na verdade foi preso antes. Depois eu me tornei membro do Partido Comunista Brasileiro.

P/1 – Quando?

R – Isso em 68. Ou seja, quatro anos depois do golpe eu fui para o Para o Partido Comunista.

P/1 – Quer dizer, como é que foi essa entrada?

R – Ah, como foi? Foi muito interessante, porque eu conheci a pessoa que depois se tornou meu companheiro durante alguns anos, que era do Partido Comunista. E era muito engraçado, porque ele achava que não combinava ser católica, ser cristã, e [que] tinha que acabar com aquilo. Eles eram muito intolerantes em relação à espiritualidade, à religiosidade, e eu falava: “Não, eu não abro mão. É uma tradição rica para mim, querida, para mim. Eu aprendi. Eu tenho um carinho muito grande pela igreja católica. Foi lá que eu aprendi a ter essa visão humanística. Foi a igreja que me ensinou ter compaixão pelo ser humano.” E eu ficava com um pé lá, um pé na igreja católica e um pé no Partido Comunista (riso). Depois eles pararam de encher a minha paciência e de achar que eu seria uma ótima militante apenas se eu fosse atéia. E aí foi também uma experiência extremamente rica, eu tenho, também, uma gratidão muito grande por ter sido parte do Partido Comunista Brasileiro, foi realmente um aprendizado extremamente valioso na minha vida, no sentido de ter um instrumento, um método de análise, de interpretação da realidade brasileira, de entender toda essa dinâmica de classe: os conflitos, as possibilidades de aliança, até onde a gente pode, digamos, ter uma interlocução com a chamada burguesia nacional naquele período (riso), até onde não dá para compor, para ser aliado e tal. Então foi lá que eu tive uma militância em movimento sindical. Mexia com jornal sindical, nesse período, mexia com movimento de bairro, continuava com movimento jovem, ligado à igreja católica, apesar de estar no Partido Comunista. Então é desse período a minha participação continuada no movimento jovem, no movimento sindical e no movimento de bairro... Porque aí eu fui morar realmente na minha casa. Construí um barraco em um terreno que eu comprei. Isso eu tinha 20 anos... Tinha mais de 20 anos quando eu passei para lá. Foi o quê? Em 70? Ah, 24 anos quando eu pus o pé pela primeira vez na minha casa. Aí foi festa, não teve nenhuma ambiguidade (risos), não teve assim, nenhuma dúvida. Foi festa, foi uma maravilha, a despeito das dificuldades. Porque não tinha água, não tinha condução perto, não tinha calçamento, não tinha luz. Mas era a glória. Era a maior alegria, mesmo. Então eu fiz parte, durante um bom período, de movimento de bairro. Depois, então... Depois, isto foi em... Ah, eu formei em 1970 em Jornalismo. Em 1972 eu fiz o curso de mestrado em Ciência Política.

P/1 – Só um minutinho. Mas e a escolha pelo Jornalismo?

R – A escolha? Eu acho que é muito aquilo que está na cabeça de um tanto de jovens, sabe? Aquela coisa muito excitante, de viajar, de entrevistar personalidades, de ficar rodando por esse mundo afora, de fazer Jornalismo investigativo. Eu acho que foi... Eu também sempre gostei muito de me comunicar, gostava muito de mexer com as palavras, sempre com essa paixão pelo verbo. Então Jornalismo, quando eu fiz esses testes psicotécnicos, deu assim que eu tinha um domínio verbal muito grande, que eu poderia... Entre carreiras na área que dominassem a palavra, o Jornalismo seria uma. Foi por isso que eu fui fazer Jornalismo. E aí eu fui para a Ciência Política porque eu queria fazer Jornalismo Político, queria fazer um Jornalismo mais sólido, não ficar com matérias banais, sensacionalistas. Fazer um jornalismo assim, de formação, de opinião, entende? Foi por isso que eu fui para Ciência Política. Mas aí eu nunca voltei para o Jornalismo, acabei sendo uma ovelha desgarrada, nunca voltei.

P/1 – Em que momento da sua vida surgiu a vontade de ter uma ação social? De ter, de mudar? Você estava estudando; como você resolveu montar, empreender, socialmente?

R – Olha, é engraçado, né? Porque quando a gente fala assim, em promover mudanças, é isso tudo, né?

P – É.

R – É lógico, quando você está no movimento estudantil, no movimento de bairro. E o tempo todo, porque, como eu vinha do Partido Comunista e da igreja católica, o tempo todo naquele sentido de construir consciência, de formar as pessoas para a política, construção de uma visão crítica da realidade. Então, sabe, eu não vejo assim, rupturas, vejo assim, que a coisa vai só, é um processo que vai se aprimorando, que vai se consolidando, vai ficando mais matizado, mais refinado. Mas é o mesmo processo, sabe? Então...

P/1 – Não teve um momento então que você teve um estalo...

R – Não, teve. Ah, teve. Eu costumo até falar, porque como eu sou uma pessoa que lê a Bíblia, eu falo assim: “Ah, eu tive o meu momento em que eu estava... Não estava andando na estrada de Damasco (riso), porque eu não moro no Oriente Médio, mas eu estava andando pelas estradas de Belo Horizonte quando caí do cavalo” (risos). Fazendo uma comparação com São Paulo, porque eu estava andando pela estrada de Damasco, ela tem aquela... Aquela luz, assim. Aí é que eu vou chegando perto da Ashoka, porque, veja bem, eu me dei conta... Ah, e tem outra fase na minha vida que eu acho superinteressante também, que foi quando eu comecei a atuar na defesa dos direitos humanos dos pacientes psiquiátricos. Eu fui uma das primeiras pessoas em Belo Horizonte – e no estado – a levantar a bandeira da luta em defesa dos pacientes internados em hospitais psiquiátricos.

P/1 – Como surgiu isso? Qual foi o primeiro contato?

R – Pois é. Como foi o primeiro contato? Eu estava lendo um livro. Aí eu já estava trabalhando direitinho, ganhando salário decente, profissionalizada. Eu estava lendo um livro chamado “Manicômios, Prisões e Conventos”, sobre instituições totais, do Erving Goffman. E aí eu fiquei tão impressionada com o livro; tão impressionada... E na minha instituição, que é a Fundação João Pinheiro, nós estávamos fazendo uma proposta para o estado de Minas Gerais de criar uma fundação hospitalar do estado de Minas Gerais para gerenciar, para acompanhar, para fazer compras conjuntas e etc, etc. toda a rede hospitalar do estado, porque cada uma trabalhava isoladamente... Para dar um pouco de consistência, de política da saúde do estado. Então fazia parte da fundação hospitalar, os hospitais, os manicômios, os hospitais psiquiátricos. Foi o gancho através do qual eu acabei lendo o livro e falando assim: “Não, a gente tem que estudar mais sobre isso.” Eu fiz uma proposta e a fundação aceitou, de pesquisa mais aprofundada sobre os hospitais psiquiátricos. Foi financiada, essa pesquisa, e lá fui eu, parar nos manicômios e nos hospitais psiquiátricos. Foi outra experiência riquíssima, riquíssima. Eu, lá no meio dos doidinhos, passando o dia inteirinho lá com eles e elas, né? (risos). E assim, vivenciando história. As descobertas que a gente fez da quantidade de gente internada que não tinha loucura coisa nenhuma, mas por razões assim, de ordem familiar... E aí foi criando, gerando tanto atrito... Às vezes a pessoa, a família tinha um plano de deserdar em elo frágil dela. Criava uma situação de conflito tal que acabava elegendo aquela pessoa da família como louco: internava. Quando você... Eu não sei como é a situação hoje, mas naquela ocasião, quando você se tornava um interno em hospital psiquiátrico, você não tinha mais autonomia, você perdia seus direitos civis e se tornava uma pessoa tutelada. Não, tutela é para criança: uma pessoa com curador. Você perdia o seu direito de cidadania, e tinha alguém que exercia uma curatela sobre você. Então eu encontrei muita gente ótima, sabe? Que se você conhecesse aí fora, você jamais iria chamar de louco. E que estava ali dentro assim, por dez, 20, 30, 40 anos. Chocante, a situação. Então a gente fez muito escândalo, naquela época, de tal maneira que o estado acabou tendo que mudar as políticas de assistência. Deu muito escândalo pela imprensa. Nós convidamos para participar desse processo um grande psiquiatra italiano que estava fazendo a reforma dos manicômios dos hospitais psiquiátricos na Itália, ele esteve conosco. Aquilo dava um impacto extraordinário na mídia. A gente tinha problema com diretor de hospital que não queria que a gente entrasse nos hospitais. Ou então podia entrar mas não podia fotografar. Então foi um período extremamente rico, também, em que a gente levou para a opinião pública, colocou na ordem do dia o estado de abuso, de desrespeito de direitos, o estado de abandono em que se encontravam os pacientes psiquiátricos. E... Pode perguntar?

P/1 – Eu ia te perguntar: foi aí que você entrou em contato com a Ashoka?

R – Pois é, eu chego perto, estou chegando perto. Esse foi um período muito bonito. A minha tese de mestrado, inclusive, é em torno dessa questão. Eu tenho um livro publicado chamado “Psiquiatria, Controle e Repressão Social”.  E aí eu continuava envolvida com as coisas, indignada com este país, imaginando que a gente poderia realmente viver em um país tão diferente, um país em que o seu povo pudesse ter uma vida descente, uma vida digna, uma vida realmente plena, vivendo em um estado pleno de cidadania. E eu estava lendo de novo, um livro caiu na minha mão... Eu tenho uma relação também muito gostosa com os livros. Eu costumo falar que eu não consigo falar sobre a minha vida sem pincelar e sem falar da história dos meus livros (riso). Um dia eu estava lendo um livro de Florestan Fernandes: “A Integração dos Negros na Sociedade de Classes”, e neste livro ele falava assim: que a população negra, na fase pós-abolição, teve muita dificuldade de constituir entidades, organizações sólidas, as organizações começavam e paravam, não tinham continuidade, as entidades. E não faltavam recursos financeiros, recursos humanos, faltava sede própria. Aí eu me dei conta de que eu tinha mais de 40 anos e que eu tinha tido... Como é? Inserções, e lutado em várias áreas no país, dado a minha contribuição. Eu esqueci de falar que eu participei do movimento feminista, também. E eu pensei: “Poxa, eu que desde menor de idade estou aqui nesse país buscando construir uma vida melhor para o seu povo e ainda não fiz nada para o meu próprio povo, a população negra.” E, com base neste livro eu pensei: “Mas quem sabe a gente constrói uma entidade diferente, que possa ter continuidade, uma entidade sólida e tal...” Foi aí que eu fui procurar outras pessoas negras para criarem, comigo, a Casa Dandara, cujo subtítulo era: “Projeto de Cidadania do Povo Negro”.  E isso foi em 1988. Eu me tornei fellow no ano seguinte, em 89. E em 88 tem a Constituição Brasileira, aí eu falo assim: “Não, chega de trabalhar em órgão público. Eu estou cansada disso, quero fazer uma coisa diferente.” Larguei um emprego de 13 anos, um ótimo salário, eu larguei tudo. E sabe quando você dá um salto, assim? “Não, vou mexer com movimento social, mexer com movimento negro. Eu não fiz nada pelo meu povo, me sinto mal nesta situação, agora vou me dedicar a isso.” E foi aquela loucura, sem dinheiro para nada. Porque o dinheiro acaba logo. E passando muita dificuldade, com família... (riso) Agora, não me pergunte quem me falou pela primeira vez da Ashoka (risos), porque eu não me lembro. Não tenho, realmente, essa memória. Eu só sei que fazia parte, estava à frente da Ashoka, a Cindy Lessa, por quem eu tenho muito carinho. Ela foi visitar-nos em Belo Horizonte para conhecer o trabalho. Ficou muito encantada, porque a novidade que realmente impressionou a Ashoka e que fez a Ashoka me escolher foi que eu queria enfrentar o seguinte desafio: como chegar às pessoas negras da base? Não queria falar para meia dúzia de pessoas negras como eu, porque era exatamente meia dúzia. Pessoas negras que tinham feito universidade, que eram profissionalizadas, que tinham tido a chance que eu tive: coisa mais rara do mundo. Eu pensava: “Não, quem precisa desta palavra, quem tem que se organizar é o pessoal da base, é o povo negro pobre.” Mas como falar da questão da negritude, da identidade racial? Como falar de política? Porque ao lutar contra o racismo, a gente está trabalhando com o tema de relações de poder. Nós vamos trabalhar com um tema eminentemente político. Como abordar a questão política para a população pobre? Eu pensei em combinar expressões culturais com a política. Isso deu muito certo, foi muito interessante. Porque a gente fazia assim, era um dia de estudo. As pessoas chegavam lá de manhã e ficavam até o final da tarde. A gente não tinha sede, era a escola do bairro onde eu morava, e era muito interessante as pessoas vinham de longe, e tinha uma palestra. A gente chamava gente assim: “chiquérrima para falar com o pessoal.” Tipo assim, valorizar as pessoas. Eram professores universitários, e a gente conseguiu levar gente do Rio de Janeiro em Belo Horizonte. De onde mais? Foi assim, Joãozinho 30 foi falar para a gente, Jaime Pinsky, que é editor, que é professor. Eu acho que o Jaime Pinsky, se não me engano, é de São Paulo. É da Editora Contexto, sabe? Nós levamos o professor Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro... Ou seja, tipo assim: “Ó, nós somos muito bacanas, vamos fazer um trabalho para elevar a autoestima.” Então tudo tem que ser bem feito, tudo tem que ser muito bem pensado para valorizar as pessoas nos mínimos detalhes. A gente cuidava desde a limpeza do lugar, a mesinha aonde as pessoas iriam falar, com toalha, com flores... Ou seja, valorização da pessoa, criar um ambiente em que as pessoas se sentissem bem. Então tinha palestra depois o debate, e como a gente sabia que para muitas pessoas falar em público era algo muito difícil, então tinha os trabalhos de grupo. Porque a gente pensava assim: nos grupos as pessoas vão se abrir mais, elas vão ficar mais a vontade para poder falar e exercer o direito à fala, poder se expressar. É um passo fundamental na construção da cidadania, então tinha isso. E tinha também a festa, e sempre depois do almoço tinha... Ah, aí rolou de tudo. Tinha dança, grupo vocal, capoeira. Tinha, em Minas é muito comum, Congado, então as várias formas de expressões culturais de origem africanas eram apresentadas ali. As pessoas... Foi assim, um processo de aprendizado muito gostoso, porque foi de uma forma leve, combinando cidadania, construção da consciência crítica, construção da identidade racial, com o lazer, com o lúdico, com alegria, com a festa, com a celebração. E neste primeiro momento as pessoas choravam muito. Aqueles eram momentos que propiciaram às pessoas tirarem de dentro delas toda aquela humilhação racial que estava ali, entupindo a garganta. Muitas pessoas falavam o seguinte: “Olha, isso aqui é um nó que estava na minha garganta e que eu nunca tinha tido oportunidade de falar.” Elas falavam muito a respeito disso: “Só de eu tirar esse fardo dos meus ombros, só de eu poder estar aqui com vocês e ser compreendida... Porque quando eu falar que eu estou sendo discriminada, uma pessoa, branca, em geral, fala: ‘Não, você está exagerando. O que é isso, não tem racismo no Brasil.’ Mas quando eu falo aqui, eu sei que vocês passam pela mesma situação, que vocês vão acolher o meu lamento, o meu sofrimento, a minha fala. Vocês vão me escutar, vão me entender.” Então era incrível, eram verdadeiras terapias de grupo que aconteciam nos dias de estudo. Muito impressionante. E a gente fez outras, havia vários projetos, também, com criança. E foi interessante porque vários projetos foram sugeridos no próprio momento de estudo. “Ah, faz falta isso, faz falta aquilo.” E a gente ia aumentando mais.

P/1 – E teve alguma coisa que foi muito importante para que esse projeto se concretizasse? Teve algum fato marcante, assim, que você... Porque você trabalhava, depois você passou, deixou de trabalhar e...

R – É, eu parei de trabalhar e fiquei no movimento social.

P/1 – Teve algum momento que emplacou? Porque o começo deve ter sido super difícil para emplacar, ou não? Como é que foi esse começo da implantação?

R – Olha, tem aquele comecinho lá... Primeiro ponto na história que foi difícil: eu me lembro assim, de chegar na casa das pessoas negras e falar: “Ah, sabe o que é que é? A gente está querendo criar uma entidade negra, fazer um trabalho assim, trabalho assado...” Eu sentia que as pessoas, assim, sabe? (riso) Não queriam falar, não aceitavam serem negras. Eu sentia que eu estava falando de corda em casa de enforcado. Eu ficava muito mal, porque eu estava tocando na ferida de algumas pessoas. Então foi assim esse primeiro início, foi muito difícil você ver que as pessoas que para você, objetivamente, externamente, eram negras, ao você tocar isso com elas, elas não aceitavam, tinham uma enorme dificuldade. Era um sofrimento a questão do próprio reconhecimento como afrodescendente no nosso país. No que o nosso trabalho foi adquirindo visibilidade... E eu sempre tive um bom contato com a imprensa pelo fato de ter vindo do jornalismo. Eu tinha ali a minha rede das pessoas que me conheciam, então eu sempre tive uma visibilidade muito grande na imprensa, em Belo Horizonte. O tempo todo. E, claro, eu escrevia para jornal de forma voluntária, posso escrever até hoje, é porque eu não tenho tempo, mas eu era uma das articulistas voluntárias do jornal mais importante de Minas Gerais: O Estado de Minas. Eu tinha uma visibilidade grande, e a partir daí as pessoas começavam a nos procurar. Então esse trabalho inicial, de ficar procurando, não teve mais necessidade, não precisou – graças a Deus –, porque as pessoas vinham até nós através da divulgação que tinha, e umas iam falando com as outras. Muita gente apareceu a partir desta rede de contatos informal que foi se criando pelas próprias pessoas que participavam da entidade.  

P/1 – Você era do movimento social desde menina?

R – Desde menina, é. Olha, eu entrei para o colégio estadual eu tinha... Acho que eu tinha 13 anos quando entrei para o colégio estadual, e aí a gente já começou.

P/1 – Você foi indo de um em um...

R – É, e nunca larguei.

P/1 – Nunca largou.

R – É.

P/1 – Eu queria perguntar para você: o que é que mudou na sua vida pessoal depois que você resolveu sair do trabalho e trabalhar... Quer dizer, trabalhar no próprio movimento?

R – Sei.

P/1 – Na atividade social, o que é que mudou?

R – Olha, mudou muito. Porque é o seguinte: se eu tivesse continuado no meu trabalho, eu seria uma pessoa assim, normal (riso). Normal. Já teria me aposentado, teria terminado de construir minha casa – que eu não terminei até hoje –, teria aquela vida estável. Teria seguro de saúde, sabe? (risos) Tudo organizadinho, tudo nos trinques. Seguro de vida, pecúlio, tudo arrumadinho. Agora, eu tendo aprofundado o meu compromisso social, o meu compromisso pela erradicação do racismo, erradicação da pobreza, erradicação do sofrimento humano, que daí decorre tudo isso. Eu sou uma pessoa muito mais feliz, seguramente. E me acho melhor. Eu prefiro ter tido essa vida de muito mais instabilidade financeira... Instabilidade tipo assim: “Meu Deus, quando terminar essa bolsa como é que vai ser para eu sobreviver e ser arrimo de família?” Eu moro em uma casa – eu também acho isso super bonito – com três gerações: meu tio, que foi morar com a gente, a minha mãe e a minha filha. E a geração intermediária, que sou eu e meu irmão separado, está morando conosco agora. São três gerações que convivem super, hiper, bem. Somos uma família extremamente divertida. Eu acho que no que eu fiquei totalmente por conta do movimento social, eu me tornei também uma referência. Hoje eu sou uma referência neste país, falo isso sem menor vaidade. Não se trata disto, mas é um negócio muito impressionante, porque às vezes eu vou a um estado onde eu acho que eu não conheço ninguém... O ano passado aconteceu isso comigo. Eu fui ao Amapá. Tipo assim, não conheço ninguém no Amapá (risos). No que eu cheguei no Amapá, tinha gente que me conhecia por causa do movimento negro. Então a visibilidade da gente, a imagem da gente como fazendo um trabalho que é... E o trabalho da Casa Dandara também gerou frutos. Em Minas foi criada outra entidade também com esse nome de Casa: Casa Congai, que fazia um trabalho cultural combinando política com o cultural, também. Eu, hoje, me tornei uma espécie... Às vezes as pessoas brincam comigo: “Você é um ícone do movimento negro.” Com uma vivência internacional, também. O fato de eu ter ficado exclusivamente por conta do movimento social me alavancou, me lançou para uma atuação regional. Já participei de encontros no Cone Sul para discutir a questão da discriminação racial e do racismo na América do Sul. E uma inserção também, sobretudo nos Estados Unidos da América. Então eu tenho uma visibilidade externa como uma interlocutora respeitada dos movimentos de consciência negra neste país. E o fato de eu não ter vindo apenas do movimento negro e ter tido inserção em várias outras áreas me dão também uma visão, uma perspectiva para além do movimento negro. Por exemplo, eu, herdeira que sou da igreja católica e do movimento comunista, jamais defenderia cotas nas universidades apenas para negros. Eu defendo cotas nas universidades baseadas em raça e classe também, porque eu venho de toda uma visão, toda uma sensibilidade com a questão social, com a desigualdade de classe no país, que se mescla – eu tenho certeza disso –, com a questão racial. Mas, de qualquer jeito, as defesas que eu faço, os argumentos que eu apresento no campo da luta antirracismo traz toda esta bagagem. Eu, em geral, quando defendo a população negra, que é, digamos, a menina dos meus olhos, eu falo; de onde eu vim, é o meu povo. Eu não consigo deixar de lado outras dimensões da desigualdade que existem no país. Então eu combino a luta contra o racismo com a luta contra a pobreza. Ao defender cotas nas universidades, eu defendo cotas para as pessoas brancas pobres, e eu acho que pessoas (riso) pretas ricas não devem merecer as cotas nas universidades. Hoje, toda o meu pensamento sobre relações raciais no Brasil, sobre a luta contra o racismo no Brasil, tudo isso herdou... Tudo o que eu penso hoje é tributário de toda essa história que eu tenho convivendo com população branca, população pobre, população favelada ao longo da minha vida. Eu não consigo fazer defesa de um segmento, por mais relevante que seja (riso), da população brasileira sem tentar fazer as ligações e as conexões, e as interfaces com outros segmentos também da população brasileira.

P/1 – Deixa eu fazer mais uma pergunta: teve algum momento que você viu uma mudança, que você reconheceu a mudança social que você estava praticando? Você olhou falou assim: “por isso que eu faço o que eu faço”?

R – Ah, pois é. “Por isso que eu faço o que eu faço...”. Olha, a gente estava falando hoje de manhã, que, a despeito de tantos de nós... Você deve ter se... Não sei se você estava lá ou se você estava aqui entrevistando pessoas, mas foi colocado até pelo Bill, não é? Somos tantos pelo mundo afora... Não são apenas os fellows da Ashoka, mas voluntários por este mundo de Deus aí, Lutando por uma sociedade justa, fraterna, igualitária, plural, sadia, bonita, estudada, etc. E por que é que os índices, os indicadores sociais são tão... Apresentam ainda tão fortemente o seu contrário? Ou seja, a desigualdade, a pobreza, a injustiça, a privação de direitos? A minha pergunta para o Bill, hoje, foi no sentido de que nós precisamos pensar este nosso trabalho como empreendedor social a partir de uma perspectiva que inclua o empresariado – tudo bem, o terceiro setor inclui também o Estado – pensando na questão da democratização do estado via democratização da representação política, porque senão os nossos impactos vão ser muito reduzidos. Eu acho assim, desde o momento em que eu comecei a atuar... Vamos pegar, fazer um corte mais próximo em termos da minha vida: uma mulher de 59 anos. Vamos fazer o corte aqui que foi o movimento negro para cá. Eu já vi várias mudanças, mudanças no que diz respeito à legislação. À legislação, a Constituição de 88 nós podemos falar que incorporou direitos culturais. A Constituição reconhece o caráter múltiplo da população brasileira, da cultura brasileira, fala em preservar o que... Sabe, todas essas matrizes culturais. Defende os interesses das populações quilombolas... Então quando você vê avanços no que diz respeito à esfera, ao marco legal, ah, sem dúvida, não é? Mais recentemente nós tivemos a sanção da lei que muda a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional para a inclusão da história da população negra no currículo escolar. São mudanças significativas, significativas. Eu não descarto porque não tem o menor sentido. Nós estamos no contexto histórico, só não muda quando você está na eternidade, né? (riso). E tudo aquilo que é histórico está mudando, está se movendo. Agora este... Está faltando esse ‘clicão’ aí. Tipo assim: “Nó, que maravilha, que maravilha, que mudança drástica. Poxa, os indicadores sociais modificaram de uma forma extraordinária durante o período da minha vida.” Eu falo com você que eu seria hipócrita, eu seria... Estaria enxergando mal a realidade brasileira. Eu acho a sociedade brasileira extremamente conservadora, extremamente autoritária, hierárquica, e temos que trabalhar muito mais para a gente ver mudanças de impactos mais significativos acontecerem. É claro que tem havido, eu não vou negar. Como eu te falei, nós estamos vivendo no contexto histórico, tudo que é histórico modifica. E você vê vários sinais positivos de mudança. Agora, eu, como tendo apostado muito, por exemplo, no governo Lula... não apostei muito, mas apostei, de alguma forma. Eu jamais imaginava que o governo fosse manter as políticas e os compromissos com a globalização neoliberal e que estaria assolando os nossos países. Eu acho que, para dar esse salto mais significativo, você tem que ter uma combinação, aportes de outros setores que inclusive criam obstáculos para nós, que somos empreendedores sociais. O Bill hoje falou várias vezes de nós, “nós”, sociedade civil. Nós, cidadãos e cidadãs que se organizam. Está certo, a gente está se organizando. Isso é um fenômeno que sempre aconteceu, né? É claro que mais hoje e menos alguns anos atrás, essa consciência cidadã da participação é claro que vem aumentando. Mas os obstáculos que impedem, inclusive, um crescimento e uma participação maior da sociedade brasileira, ainda se mantêm. Se mantém, por exemplo, a pobreza. Eu me lembro na época que a gente fazia esses dias de estudo lá em Belo Horizonte, tinha gente que falava para a gente que não ia porque não tinha dinheiro de condução, então gente passou a prover dinheiro de condução. Em uma população extremamente carente de recursos de poder, e recursos elementares, como dinheiro de condução, a constituição da cidadania, a constituição de uma sociedade civil forte é ainda um grande desafio no Brasil.

P/1 – Diva, para terminar: qual é o seu maior sonho?

R – O meu maior sonho? Ah, o meu maior sonho... Às vezes as pessoas falam assim comigo: “Ah não, a gente vai morrer sem ver nada disso que a gente sonhou acontecer.” (riso) Eu falo assim: “Não, que é que é isso.” Eu gosto de dar sempre o exemplo da Rosa Parks, nos Estados Unidos, que foi obrigada a sentar na parte de trás do ônibus. Ela não quis, e o ônibus foi parar em uma delegacia de polícia. Ela está viva. Eu falo assim: “Está vendo. Olha, se a Rosa Parks, ao longo da vida dela, conseguiu ver tantas mudanças nos Estados Unidos, seguramente a gente vai ter.” Olha, o meu maior sonho é... Eu tenho aquilo também que o Darcy Ribeiro chamava de “pequenas utopias”. Uma pequena utopia que eu tenho é ver as nossas crianças em escolas de tempo integral. Gente, o que é que é isso? Escolas de tempo integral. É inimaginável que uma pessoa como eu possa ter esse sonho tão pequenininho (riso). Mas no Brasil isso já seria uma revolução. Se as nossas crianças estivessem em horário integral, bem acolhidas, amadas, em espaços bonitos, floridos, sabe? E é o que eu gostaria de ver também. A nossa população favelada podendo garantir seus direitos civis básicos, a gente vivendo sem violência, sem repressão, sem racismo e de uma forma positiva, a gente vivendo com a cidadania, com igualdade, com direitos iguais, sem discriminação entre negros e brancos, sem discriminação com a população idosa, com os indígenas, com os homossexuais. É este mundo de fraternidade, de igualdade, de justiça com o qual eu sonho. E Oxalá, é claro que a gente também (não?) vai ficar naquele egoísmo: “Quero ver isso antes de eu morrer.” Eu já estou vendo isso, graças a Deus.

P/1 – E o que é que você acha da gente estar registrando essas histórias?

R – Eu acho super bonito, super importante. Tem que ser registrado mesmo. Eu acho que a nossa juventude não tem muito conhecimento. Existe assim, uma espécie de ruptura histórica, não é? As pessoas jovens costumam achar que não têm referenciais. Essas histórias não são contadas, falta uma maior divulgação. Quem constrói história nos livros didáticos são as elites. Os grandes heróis, os grandes homens, em geral são os grandes homens. E a história da sociedade brasileira, a história da base é construída por pessoas como nós. Esta história tem que ser registrada, tem que ser contada. A história, a memória oral, eu acho isso da maior importância. Muito legal, vocês estão de parabéns.

P/1 – Obrigada.

R – De nada.

P/1 – Muito obrigada pela sua entrevista. Linda.

R – De nada, foi um prazer.

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