Busca avançada



Criar

História

"Quando eu ando na rua, eles vêm, abraçam"

História de: Helen Lucinda Januário
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/04/2015

Sinopse

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, Helen fala sobre sua infância, sobre o racismo que conheceu na escola e sobre seu percurso profissional.  Com militância no movimento cultural negro, Helen descreve o trabalho que desenvolve em grupos de teatro. Ela recorda como ingressou no  projeto Andrezinho Cidadão, ligado ao Instituto Monsenhor Antunes e como funciona o projeto. Ela fala sobre o projeto cinematográfico para as crianças que foi apoiada pelo Criança Esperança, e sobre a importância desse apoio

Tags

História completa

Meu nome é Helen Lucinda Januário. Eu nasci em Santo André, no dia 6 de março de 1982. Meu pai é Paulo Roberto Januário e a minha mãe é Aparecida Paciente Januário. Meu pai ficava sempre trabalhando, mas hoje em dia uma pessoa engraçada, construiu as coisas dele, agora ele está mais tranquilo, aposentou, está mais tranquilo, uns dias fica na casa dele, outros dias vai passear, e fazendo as coisas que ele gosta. A minha mãe também, a minha mãe continua trabalhando, tem aquela firmeza de mãe, aquela coisa que mesmo eu com 33 anos, quando preciso, corro lá, aquela coisa, mas está bem também. Passa dificuldades de saúde, tem algumas dificuldades em relação à saúde da minha mãe, mas ela está firme aí também. Meu pai trabalhou na Eletropaulo, ele estava diretor, alguma coisa na Eletropaulo, aí ele se aposentou. Tenho uma irmã mais velha e um irmão mais novo. A gente brincou muito. É bem diferente da infância de hoje. A gente brincou muito, 12, 13 anos, subindo em árvore, essas coisas, brincando na rua.

O fundamental eu fiz numa escola mais distante. Minha mãe e meu pai sempre bem preocupados. Era uma escola padrão. Na época tinha esse negócio de escola padrão. Depois eu fui para o Américo Brasiliense, que é aqui no Centro para fazer magistério e tudo mais. Mas ser uma menina preta, de periferia, com cabelo crespo, dentro de escola, nunca é uma coisa tão confortável. Os próprios professores, eles não sabem lidar. Eles não sabem lidar com as diferenças, eles querem tratar todo mundo de forma igual. E nós não somos iguais, nós temos as nossas diferenças e têm que ser respeitadas. Então, depois de um tempo, quando a gente vai ganhando mais conhecimento, aí lembro eu falo: “Poxa vida, como eu sofri na escola”. Muito preconceito e tudo mais. Agora, depois de ter crescido e depois de já ter uma base, de saber me defender e tudo mais, aí a escola se tornou um ambiente agradável, mas isso foi na faculdade, magistério e faculdade, antes disso não. E é onde eu faço o corre pra que meus filhos não passem por isso.

O teatro eu faço desde os 11 anos. Tudo que era grupo de teatro quando iam passando nas salas, eu topava fazer. E aí fui fazendo, fiz fora. Em um determinado momento eu precisei parar, porque era sempre aos sábados, final de semana, e o meu irmão era muito grudado comigo, então eu ia ao teatro, passava a tarde toda no teatro, meu irmão passava a tarde toda chorando, porque eu não estava com ele. E meu pai com toda sensibilidade do mundo pediu pra eu sair do teatro pra poder ficar com ele. E eu fiquei fora, mas foram alguns meses, depois deu a oportunidade de novo, eu voltei. E a primeira peça, tudo, aí meu pai foi ver.  

Meu pai só deixou trabalhar depois dos 18. Eu tentei antes, coisa de adolescente, saí no bairro, aí todo bazar que eu via, mercadinho, eu perguntava se estava precisando de alguém. E meu irmão, ele sempre foi muito grudado, inclusive meu irmão foi de chupeta e fralda atrás de mim. Cheguei, levei uma superbronca, porque não poderia, não é pra você procurar emprego, aquela coisa toda. Aí depois dos 18, dentro já do Magistério, eu consegui entrar numa escolinha, e trabalhei uns dez, 12 anos como professora. Quando eu mudei pra essa escola do Centro, o meu irmão também mudou, minha mãe colocou nós dois. Só que o horário do meu irmão era de manhã e o meu era à tarde. E aí minha mãe fez isso durante uma semana, de levar meu irmão de manhã pra escola, buscava meu irmão, na sequência me levava pra escola, que tinha um intervalo de quase uma hora e meia, e depois ela vinha me buscar. Então minha mãe tinha que vir para o Centro quatro vezes de carro pra fazer isso. E aí um belo dia ela falou: “Olha, mudei seu horário pra de manhã, porque não dá pra fazer isso” “Mãe, mas eu não queria ir de manhã”. Ela falou: “Não, vai ser bom, é Magistério. É Magistério”. Eu comecei de manhã. Entrei no período da manhã, a passei a conhecer o Magistério, fui me identificando, e não teria outro lugar pra mim. Me identifiquei com o Magistério, muito. Hoje eu agradeço a minha mãe, mas eu fui, na verdade, pra mudar de horário, pra facilitar. Eu fiz Artes Cênicas, mas eu não peguei o DRT. Mas eu fiz de Artes Cênicas. E agora eu estou na dúvida se eu presto vestibular até o final de semana, ou se eu deixo para o próximo semestre pra entrar em Serviço Social. Eu estou só nessa dúvida agora. Essa faculdade fica aqui em Santo André também, uma faculdade à distância. Porque todo o corre que eu fiz antes com faculdade, de sair do serviço e ficar todos os dias em aulas presenciais, hoje em dia não dá mais. Eu tenho dois filhos, não dá pra eu pegar essa rotina. Está bem corrido agora. Hoje em dia já tem a faculdade à distância, que eu vou testar. Eu acho que vai ser válido.

O meu ex-companheiro é músico, ele é rap, faz uma musicalização muito boa, com banda e tudo. Dentro do movimento negro, ele é bem conhecido. E acabei conhecendo nesse processo que eu ia, fazia as poesias, essas coisas todas, ele frequentava também, e acabava que a gente morava ali no mesmo bairro de depois de um tempo a gente passou a namorar e tudo mais. E disso a gente teve uma relação de dez anos. E vai fazer dois anos, perto do final do ano vai fazer dez anos, e a gente acabou, resolveu finalizar, a gente finalizou, mas a gente acredita na educação com as crianças, numa educação libertária e tudo mais. Primeiro veio o Ayan, hoje ele está com sete anos, eu brinco, falo que ele é um “nerdezinho”, todo de “oclinhos”, estuda piano. Depois nasceu a Luanda.

Em um momento eu optei e trabalhei num abrigo em São Paulo. Trabalhei alguns anos num abrigo em São Paulo, que aí você passa a ter contato com a realidade. Não adianta dizer que não, mas você passa a ter contato um pouco com a realidade mesmo. Crianças que tinham, e que tem até hoje, uma infância muito diferente da que eu tive. Depois do abrigo, porque eu saí do abrigo, conhecendo projetos daqui, conheci primeiro um projeto em São Bernardo parecido com o nosso, mas eles são organizados pela militância, não têm vínculo com Prefeitura e nada disso. E dentro do Andrezinho entrei como educadora, porque também poderia exercer como arte-educadora, que os educadores também trabalham com isso. Eu fui indicada por uma amiga que trabalha na saúde. Entrei e fiquei quase cinco anos como educadora. A gente trabalha com abordagem de rua. Então, por exemplo, eu conhecia as crianças do abrigo, eu passei a conhecer crianças na rua, que é um processo, antes de ir para o abrigo, normalmente, acabam passando pela rua. Nem todas, mas algumas acabam passando pela rua. Porque você pensa que toda miséria está dentro do abrigo, mas o buraco é mais fundo. E indo pra rua, fazendo vínculo com as crianças, desde as que ficam no farol com malabares, crianças que dormem mesmo em situação de rua, então mesmo em situação de drogadição e tudo mais. Então é feita uma conversa, você consegue vínculo depois de um tempo com elas, elas não aceitam muito facilmente. Agora quando eu ando na rua, se vêm eles, eles vêm, abraçam. Então se eu estou no Centro, normalmente eu estou abraçada com quatro, cinco. E é isso, é enxergar as diferenças. Eles são vistos e não vistos, na verdade, são praticamente invisíveis, e você chegar até um deles e falar o nome deles, você já tem outro tipo de olhar, é alguém me viu aqui, alguém que me percebeu aqui, alguém que para, tem a escuta. Pra ser educador de rua precisa ter sim uma sensibilidade. Você precisa saber com quem você está mexendo, porque só o fato de estarem na rua e são crianças, eles já estão com todos os direitos violados. Mas, em relação à valorização, bastante das meninas, dá pra perceber sim a diferença. Só que também é uma coisa que a gente tem que ir com muita calma, porque mesmo sendo cinco anos trabalhando temas com eles e com elas, a gente perde muito, porque a drogadição é muito forte também. Então é sempre uma calma, sempre um jeitinho de chegar. Sempre assim.

O Criança Esperança eu peguei pouco, na verdade, porque isso quem fazia ainda é uma amiga pessoal minha, a Carla, e também um rapaz, o André, apelido Pirata. Eles faziam muito isso. E nesse desenvolver de início, eles faziam no bairro Jardim Santo André. Essa participação toda da escrita, da formatação, essas coisas, eu não participei. Os educadores mantinham o fluxo na rua e eles faziam isso, não chegavam a ser contratados como educadores junto com a gente. Acabou que a Carla foi pra outro lugar, o Pirata fazia toda a parte de edição e tudo mais, promovia atividade com eles na comunidade. Depois que eles saíram, entramos eu e o Edgar. Nós fizemos um pouco. E foi pouco tempo também. Na verdade, a gente deu uma sequência em uma escola, que é perto de uma comunidade onde a maioria das crianças mora. É na Vila João Ramalho. Mas tem uma rua, que a gente diz que é uma rua bem conhecida, que é a Rua Pôr do sol, uma rua bem complicada essa. Tem muita necessidade e tem uma área verde muito grande, muitos eucaliptos, e eles dizem que é da Marinha, e a Marinha diz que é da Prefeitura, então quando acontecem coisas lá, você não sabe quem chama, e por fim eles se resolvem dentro. Então é bem complicada a situação. A gente fazia numa escola, próximo a esse local. E eu ajudava no desenvolver das atividades, a gente passava alguns documentários também, desenvolvia algumas atividades com eles. Tinha um negócio que as crianças pediam bastante, era, por exemplo, de segurar a câmera. E a gente mostrava como manusear a câmera, então isso pra eles foi bem importante. Aquilo de filmar o amiguinho, depois a gente mostrava. Foi isso. Depois de um tempo, eu estava grávida neste momento, depois de um tempo eu passei a não ir pra lugares tão distantes, porque eu tive uma gravidez de risco da Luanda, então me poupei bastante, me pouparam bastante também e eu saí, não acompanhei. Então acabei acompanhando pouco tempo. Foi o mais próximo que eu cheguei.

Os próprios equipamentos já facilitaram bastante. Facilitaram e trouxeram a criançada pra conhecer. Mas tem aquela coisa, ao mesmo tempo que eles se interessam, uns querem se aprofundar no conhecimento, alguma coisa assim, era uma escola aberta, com a quadra bem grande, uma área verde também, eles brincavam aqui, conversavam um pouco aqui, mas ao mesmo tempo saíam correndo, porque estava caindo uma pipa. Então eles ficavam sempre mesclando. Por isso que a gente até passou a fazer atividades dentro de algumas salas. E a gente não sabia se afastava mais ou não, porque eles já ficam nas salas a semana toda, de sábado você aparece com uma atividade dentro da sala de aula. Então eles acabavam brincando muito. Mas aproximou sim. Aproximou principalmente nesse momento de um filmar o outro, de eles aprenderem a manusear. Isso foi o que chamou mais atenção. Nessa de trabalhar com vídeo, de manusear e tudo mais, mas principalmente dentro dos temas que a gente via dentro do trabalho mesmo.

Eu acho que pela minha participação, eu não consegui resgatar muito disso, porque foram poucas semanas, e não consegui. O que eu posso dizer é que quando a gente fazia, a nossa salinha enchia. A crianças estavam... Elas eram muito curiosas pra saber como tava acontecendo, e depois se ver ali na telinha do computador, ou no datashow, de alguma forma. Agora, os resultados mesmo, não. E até porque muitos a gente perdeu o vínculo. Lembro até de um garoto que ele estava bem... Ele participava muito mesmo, ia à sede do programa perguntar qual era o próximo dia e tudo mais, mas a gente acabou perdendo o vínculo, acabou se mudando com a família pra outra cidade. Esse trabalho também traz muito improviso também. É tudo muito imprevisível nesse trabalho. Você conhece aqui, mas como não é uma sala de aula, na sala de aula você chega, o aluno está todos os dias, na rua não. Na rua você não sabe. Inclusive você marca coisas com eles: “Olha, amanhã então dez horas eu estou aqui nesse ponto”. Você chega lá, não está mais, você vai ver a criança daqui duas semanas. Então na rua é muito disso, não é nada tão certo. Eles estão andando, dependendo do que acontece, eles somem, depois eles voltam, ou ficam muito tempo no mesmo lugar. Dentro do programa a gente trabalha com oficinas. Tem a oficina de teatro, que está acontecendo, a gente tem também o nosso grupo de teatro dentro do projeto, que são os educadores mesmo, a gente montou um esquete, na verdade, pra apresentar em alguns lugares com prevenção do trabalho infantil. E a gente tem também oficina de artesanato, de musicalização também, um cine debate, falta por um nomezinho, mas uma espécie de um cine debate também.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+