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História

Quando está no sangue

História de: Dauro Marcos do Prado
Autor: Ana Paula
Publicado em: 18/06/2021

Sinopse

Dauro Marcos do Prado, nativo da região, narra sua história de vida, a infância na mata, os costumes locais e traz a perspectiva de sua comunidade sobre a Lei de Proteção Ambiental, contando impactos e oportunidades e como a associação que ele preside, a União dos Moradores da Juréia, apoia as pessoas que atende.

História completa

Projeto: Museu em Rede Realização: Instituto Peabirus, Realização Instituto Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de Dauro Marcos do Prado Entrevistado por Rozana Miziara Código: MRI_CB06 Transcrito por: Maria Lucia de Souza Silva Revisado por Marina Tunes P/1 - Oi Dauro, vou começar perguntando seu nome, e… Data de nascimento e local. R - Meu nome é Dauro Marcos do Prado, minha data de nascimento é 13 de julho de 1964 e moro em Iguape, é... P/1 - Nasceu aqui em Iguape? R - ...Nasci na Juréia, né? Que é Município de Iguape. P/1 - E seus pais nasceram aqui? R - Meus pais, meus avós, meus tataravós. P/1 - Todos já nasceram na região... R - Todos nasceram aqui na região. P/1 - Então você é descendente de índio? Qual é a sua descendência? R - Ah, uma mistura de índio com escravo, com os...espanhóis, esse negócio, essa história toda… P/1 - E você sabe de algum parente seu assim, de quem você lembra dos avós, bisavós, o que que eles eram? O que eles faziam aqui na região? R - Não, lembrar do que eram...Isso eu sei que eles eram, trabalhavam com agricultura, extrativismo e pesca, né? P/1 - Isto é seus avós, bisavós, quem? R - Meus avós e bisavós. P/1 - Eles trabalhavam com pesca aonde? Em qual região, assim, mais especificamente? R - Na região de Iguape aqui no mais da Juréia. No litoral Sul de São Paulo, que na...Juréia depois de Iguape, aqui indo para a Barra do Ribeira, Juréia e essa região aí. P/1 - E quando você já nasceu, sua família já morava aqui em Iguape? R - Já morava na Juréia. P/1 - Na Juréia? R - Na Juréia, aqui é o município de Iguape, que é um bairro, uma comunidade caiçara, é. P /1 - E você morou lá quanto tempo? R - Eu saí, eu vim conhecer a cidade, eu tinha 18 anos. P/1 - Você morou lá então até ter 18 anos? R - 18 anos. Só vim para a cidade porque falavam que tinham que ir ali fazer o alistamento, aí eu vim para a cidade. P/1 - Como é que era a Juréia naquela época que você nasceu? R - Como… P/1 - Como é que … R - Tinha… P/1 - Era sua comunidade? R - Minha comunidade tinha é...As pessoas que moravam, a maioria parente da gente, tio, vô, vó, os...E outras comunidades que moravam lá, né? É… Tinha várias comunidades, várias famílias e a gente vivia nessa, junto com essas comunidades trabalhando na pesca, na agricultura, no extrativismo, ia para a escola voltava para casa. P/1 - Como é que era a sua casa... R- Minha casa era feita de… P/1 - Quando você era pequeno? R - … Tábua, coberto de capim e o chão de uma parte da cozinha que era chão de barro no chão, chão batido e cercado de vara, o bambu, né? E a minha casa era com assoalho e parede de tábua. P/1 - Quantas pessoas moravam nesta casa? R - A gente era dez irmãos, meu pai e minha mãe. P/1 - E vocês ...Dormiam todo mundo juntos? Como é que era a divisão? R- Era, tinha um quarto da minha mãe, meu pai e uma sala grande que dormia todo mundo junto, tudo enfileirado, as crianças. [risos] P/1 - E como é que era conviver? Vocês brincavam juntos? Como é que era o cotidiano? R - É brincar na floresta, brincar no mato, brincar na cachoeira, brincar com...É...Brincar todo mundo junto, assim, né? A brincadeira era subir em árvores, brincar de esconde esconde. [risos] De é...Pega-pega em árvores, sabe? Correr por cima das árvores um querendo pegar o outro, solta-se um galho assim, pula no outro galho, lá e outro vai atrás e tal. P/1 - Pega-pega na árvore? R - Na árvore. [risos] Era muito punk. [risos] P/1 - E seu pai ele trabalha com pesca? R- Meu pai trabalhava com pesca, agricultura e extrativismo também que tirava palmito, caixeta para vender. P/1 - Vocês ajudaram ele? R - Ajudava desde pequenininho… P/1 - Como é que era ? Vocês estudavam e ajudavam? R - ...Isso. Quando...meu pai… [Pausa]. [Ruídos]. R - ...Eu acompanhava meu pai desde a idade dos sete anos, assim, seis anos, aí ele ia para o mato e eu ia junto com ele para catar Timbopeba, Taquara que são...é… P/1 - Timbopeba? R - ...Timbopeba é para fazer o zibu, balaio, ou a rede para dormir, o cesto para carregar o peixe, né? A taquara para fazer as peneiras, então tudo o que se precisa para buscar na floresta, né? Então quando ele ia para a floresta pegar essas coisas eu ia junto com ele, aí fazia armadilha para pegar caça e a...É...Cortar um palanque para colocar rede, e fazer...Tirar um pau de canoa para fazer uma canoa para pescar, todas atividades…Ou ele escolhia um lugar para fazer uma roça, né? Então sempre acompanhava. Isso era, todo mundo fazia isso. Os filhos iam juntos com o pai. Quando chegava na idade da escola, que tinha uma escola lá, a gente ia para a escola das sete da manhã e voltava duas, três horas da tarde. P/1 - Como é que vocês iam para a escola? R - A pé, andando a pé. P/1 - Qual que era a distância? R - Eram oito quilômetros para ir e oito para voltar. Trilha na mata...Por dentro da mata. P/1 - Vocês iam numa turma de irmão e amigos… R - Isso. P/1 - Como é que era ? R - Turma de irmãos e primos e amigos. P/1 - Vocês iam juntos... R - Juntos. P/1 - Para a escola… R- ...Para a escola. P/1 - E como é que era na escola? R - A escola… P/1 - Como é que era a sua escola? R - ...A escola era um banco de madeira, né? Todo mundo sentado na fileira, uma lousa e o Santino, que era um professor também da comunidade e ficava passando história...seção conta História, Geografia, Português, Matemática, Estudos Sociais aí… [risos] P/1 - E aí você voltava e ajudava seu pai? R - Aí voltava, porque não tinha merenda escolar a gente levava marmita né? Fazia marmita de manhãzinha, minha mãe fazia, colocava uma para cada um, e a gente ia embora. Aí tinha hora do recreio, a gente almoçava e voltava para a aula quando terminava às 11:30, 12:00, a gente ia embora. Aí chegava em casa, deixava as coisas e ia cuidar da roça e tals essas coisas, quando precisava. Aí voltava para a casa, fazia as lições, aí no outro dia de manhã cedo voltava de novo para a escola. P/1 - E você ficou nessa vida quanto tempo? R - Eu fiquei aí nesse...Até terminar o ensino...É de quinta a oitava né? O ensino primário. P/ 1- E aí depois? R - Aí depois a gente foi crescendo, não tinha mais escola para você tocar o ensino primário...Ensino médio, né? Ficamos só...Trabalhando na roça na pesca… P/1 - Na pesca, você falou da roça, na pesca… R - Hum,hum… P/1 - Quando que você começou a trabalhar? R - [Pausa] P/1 - Junto com seu pai? R - Junto com meu pai, não antes… P/1 - Você falou assim “a gente ia pra roça...fazer isso na pesca…” R - ...Na pesca também, meu pai ia pescar, a gente ia junto, às vezes não ia puxar rede mas ia segurar o cesto né? Ia ver como é que ele colocava, ficava lá na praia esperando ele ir no mar e voltar, né? Ou ia, ficava sentado na canoa para ele fiando, soltando rede. P/1 - Era uma canoa? Como é que era? R - Canoa, canoa de um pau só, cavava, cavucar, o remo e o pessoal ia pescando. Meu pai trabalhava...Pescava tanto de rede quanto de tarrafa, né? Na canoa e colocava também rede estaqueada, esticava a rede, ficava outra no mar e deixava lá, aí a maré enchia, aí o peixe malhava e entrava...Ia visitar a rede, tirva o peixe. P/1 - Que peixe que dava? R - Tinha robalo, tainha, parati, pescada, cação, tinha vários peixes. P/1 - E aí ele vendia para comparar...Como é que era? R - Uma parte ia para a subsistência, para a gente comer, minha mãe salgava e deixava para esfumar em cima do fogo, para não estragar, outra parte ele levava...Salgava também e levava para vender salgado, porque não tinha geladeira como hoje, e quando podia vender fresco… R- Quando pegava uma grande quantidade… R - Ele levava para vender fresco. P/1 - E aí você ficou ajudando seu pai até que idade? R - Até hoje, né? [risos] P/1 - Vocês trabalham juntos até hoje? R - Sim. [risos] Assim, hoje eu tenho minha família, moro na Barra da Ribeira, saída da Juréia. Eu fiquei na Juréia até uns 25 anos, na verdade, até 1992, porque quando foi em 1982, 1986 criaram a Estação Ecológica da Juréia e aí toda a atividade dessas comunidades proibiram, porque a Estação Ecológica não permite a presença humana. Aí eles proibiram as atividades, e aí eu fui obrigado a sair porque não dava mais para fazer essas coisas. Aí eu vim para Barra da Ribeira, comecei a trabalhar de pedreiro, servente de pedreiro, cuidar de jardim, cuidar de casa, continuo pescando alguma coisa, mas a minha luta hoje é por conta da organização social da comunidade… P/1- Pera aí, deixa eu só voltar um pouquinho. E seu pai continuou lá, o que ele fez… R - Meu pai virou funcionário público… P/1 - Quando vocês vieram à Estação… R - Isso. P/1 - Foi logo quando veio, virou Estação… R - É, na verdade assim.. P/1 - Ecologia? R - Começou primeiro pela (Locara?) Braz que iria construir uma usina atômica, né? Nessa época. P/1 - Em 1985? R - 1975. P/1 - 1975. R - Isso. Aí em 1975, em 1980, quando começaram a pensar em construir a usina, começaram a fazer uma terraplanagem, de estrada, chegamos à gestão. Aí cresceu o movimento ambientalista, começou a crescer… Onde nasceu a Pró Juréia, a S.O.S Mata Atlântica, então essas pessoas começaram a chegar lá tirar foto da gente e falou: “Oh, os caiçaras, estamos aqui para preservar, vamos preservar vocês, aqui vai ser um santuário ecológico, vamos cuidar das comunidades tradicionais, vamos tirar todos os veranistas e vamos tirar todos os latifundiários e vai ficar a terra para vocês". A gente ficava olhando assim sem saber o que era uma Estação Ecológica: “Não, é um santuário ecológico para preservação do meio ambiente e tals". Aí, de repente criaram uma lei, e aí de repente falou: “Oh, você não pode mais roçar, você não pode mais tirar taquara, você não pode mais tirar o palmito, você não pode mais caçar, você não pode mais pescar”, e acabou tudo. Aí falamos: “Como? Não era para nós? Vocês falaram que iam construir uma Estação Ecológica, né?”: "Não, mas é que a lei não permite mais porque Lei de Estação Ecológica não permite a presença humana, era só para conservação da natureza”, aí todo mundo caiu nesse engodo que era ser para comunidade e quando foi proibido, meu? Os caras ficaram em uma maluquice muito grande porque começamos a passar fome porque não tinha mais a roça, não tinha mais a mandioca, não tinha mais a banana, não tinha mais o peixe, não tinha mais nada né? Aí a gente começou então a se organizar por associação e criar uma União dos Moradores da Juréia… P/1 - Quem que criou? Você participou dessa criação? R - ...Eu participei. Eu, tem mais...Tem muita gente assim. Começou lá numa comunidade que é mais longe, porque eu… P/1 - Como que começou assim? Como você se mobilizou para isso? R - Então, eu fui ao primeiro movimento em 1986, quando meu pai fez uma roça no morro que o Estado foi lá e multou ele, 2 mil o terreno, na época meu pai ficou assim, a gente nem sabia o que era OTN [Obrigação do Tesouro Nacional], né que era uma quantidade, uma porcentagem em dinheiro que tinha que pagar, mas a gente falou: “Mas sempre a gente fez isso, nunca foi proibido”. “Não, mas não agora não pode, tá…." Meu pai quase foi preso, a gente recorreu a multa várias vezes até que a gente fez um atestado de pobreza e conseguiu então arquivar o processo. Daí para cá eu comecei vendo a comunidade que vivia do mutirão, vivia do fandangos, vivia da pesca, e todo mundo começando a passar fome eu falei: “Meu, isso não está certo”, aí a gente criou, começamos a fazer o primeiro movimento de eu...De ir para São Paulo para falar com, na época com o Franco Montoro, né? A gente começou, organizou um ônibus aqui em Iguape e foi para São Paulo. Franco Montoro, todo mundo recebeu a gente... P/1 - Quem? Você era liderança? R - A gente. Eu mais… P/1 - Quem estava nesse ônibus? R- Eu mais um primo meu, e mais um vereador aqui de Iguape, dois vereadores de Iguape e as comunidades da Juréia, tinha mais umas 48 pessoas. P/1 - Representando as várias… R - Representando várias comunidades. E aí fomos até o Palácio dos Bandeirantes, conversamos com um assessor do Franco Montoro: “Esse é o primeiro passo que vocês tiveram, vamos ter outras conversas, tá…” Aí a gente voltou para a nossa terra, né? Para nossas comunidades. E aí eles é...Falando para nós que assim, muita gente para, mas botando medo: “Mas não pode fazer negócio desse, porque eles vão jogar bomba no ônibus, porque vão fazer não sei o que...” E muitas pessoas se mobilizaram neste momento… R - Aí a gente fez uma, aí eu comecei indo de comunidade em comunidade falar: “Oh, pessoal, precisamos nos organizar para a gente conseguir manter a nossa cultura, nossa tradição, o nosso modo de vida” né? Porque a gente vivia tudo em harmonia, em comunidade, matava uma caça você dividia em pedaço, um pedaço para o vizinho, pra outro vizinho, outro vizinho. Você pegava uma quantidade de peixe… R - ...Você partia para o vizinho.... R - Então, um vizinho dividindo com vizinho suas farinhas, o arroz, o cara não tinha arroz, emprestava do outro, não tinha café... Era uma comunidade que vivia interagindo uma com a outra… E aí começamos a fazer esse movimento e aí entraram outras pessoas no movimento e começamos, vamos montar uma associação para ter uma pessoa de personalidade jurídica que vai lutar pelos direitos das comunidades. Aí criamos a União dos Moradores da Juréia em 1989. Que era uma...Foi uma associação que congregava todas as comunidades da Juréia. Para que? Qual era o objetivo? Como a Estação Ecológica não permitia a presença humana e já estava sacramentada a Lei, a gente queria mudar a Lei, né? Para uma outra unidade de conservação, de uso sustentável, onde a comunidade pudesse ficar conservando o meio ambiente e melhorando de vida. Mas essa luta faz 20 anos, né? Que está fazendo e agora, em 2004, a gente conseguiu dois deputados que tivessem a coragem de enfrentar os ambientalistas, a gente entrou com o primeiro Projeto de Lei da Juréia, aí criou um mosaico da Juréia… P/1 - Entrou quando? R - 2004. P/1 - Qual deputado? R - Zico Prado e Hamilton Pereira, né? Mas nessa discussão… P/1 - Qual partido que é? R - PT [Partido dos Trabalhadores]. E nessa discussão, como o Estado, o Estado não queria nem pensar em falar em mudar a lei, né? Porque foram as pessoas que criaram a Juréia, né? E parece que são donos disso pelo Capobianco, Mario Mantovani, é… Zé Pedro Oliveira Costa, Fausto Pino de Campos, tem um monte, tem neguin que apareceu lá na década de 1980 dizendo que iam salvar a comunidade, de repente, criaram uma lei que ainda proíbe e espantou todas as comunidades de seu local de origem, muitas das comunidades tradicionais vieram para as favelas, vieram para as periferias das cidades tanto de Peruíbe quanto de Iguape. Muitos de seus filhos entraram no mundo das drogas, muitos já morreram, outros estão presos, né? Perdendo todos os seus conhecimentos, mas então, a gente entrou com Projeto de Lei da Juréia para mudar a lei para que todas as comunidades sejam contempladas dentro de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, sim? E com isso nessa negociação com o governo o José Goldemberg, na época que era o Secretário do Meio Ambiente, chamou o Zé Pedro que é um dos autores da criação da Juréia, para discutir com a gente essa questão do mosaico. E aí o cara criou uma ideia do Despraiado, que é uma comunidade… P/1 - Criou o que? R - Uma Reserva Sustentável do Despraiado e uma Reserva Sustentável na Barra do Una, né? Que a gente queria para todas as comunidades. Que são 23 comunidades da Juréia, e ele falou: “Não, porque não pode para todos, porque tem que ser só para essas duas porque tem…” “Mas porque não pode?”: “ Não, porque tem forças ocultas que não deixam”. “Mas quem são essas pessoas, que a gente quer conversar?” Porque eles não deixavam, mas quem eram as forças ocultas era ele próprio, entendeu? Era essa Mata Atlântica, Fábio Feldmann, Matripoli, esses caras que estão no poder até hoje, manipulam o governo até hoje, e assim, estão dentro da Secretaria do Meio Ambiente, né? Quando entra um secretário, eles vão em cima e falam: “Oh, não pode, não pode fazer isso”, é a política do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] de 20 não, de 25 anos que está aí nessa política de meio ambiente… P/1 - E agora, qual é a relação que vocês têm, que mudou com o Ministério do meio Ambiente? R - Então, com o Ministério do Meio Ambiente a gente teve uma boa relação, né? Mas só que o Ministério do Meio Ambiente não tem uma intervenção no Estado, quem manda no Estado é o Governo do Estado de São Paulo. Até poderia ter essa questão de uma intervenção maior do Governo Federal, mas não teve até hoje. Eu faço parte de uma comissão nacional de povos de comunidades tradicionais, que representa as comunidades caiçaras nessa comissão, eu levei essa discussão para dentro do Ministério do Meio Ambiente, é… O apoio que eles tem dado para a gente o próprio ministério, é a questão do recurso para fazer estudos das unidades de conservação né? Para fazer um projeto de capacitação para essas comunidades na questão de gestão do plano de manejo da Juréia, a gente conseguiu recurso é… Demos acesso à Procuradoria Geral da República... Ministérios Públicos Federais, é...essas situações. P/1 - Fala uma coisa, as comunidades tradicionais assim, que você fala que acabaram vindo para a cidade… R - Hum. P/1 - Mas existem ainda, eles ocupam algumas áreas? R - Então, os poucos que restam estão lá… P/1 - Quais áreas estão ocupadas? R - Todas… P/1 - Deles ainda? R - Todas… P/1 - A comunidade então continua lá? R - Então, falo para você. Comunidade tinha... a vizinhança lá tinha 23 famílias, hoje tem oito. Tinha outra que tinha 15, hoje tem quatro, outra que tinha 20, hoje tem cinco. Então, assim, diminuiu muito. P/1 - E quais são essas comunidades que permanecem assim, fala quais são elas? R - Despraiado é uma… P/1 - O que é? Tem quem lá nos Despraiado? R - O Despraiado tem 70 famílias… P/1 - Mas eles vivem do que? É fanda...o que é ? Assim... R - Vivem da agricultura e do pouco turismo, né? Hoje. P/1 - E pesca? R - E a pesca. Aí tem a praia do Una, que uma parte é funcionária da própria Secretaria do Meio Ambiente e que tem um pouco de agricultura e pesca. Tem Grajaúna, que é a mesma situação, Rio Verde, que tem duas famílias onde também vive um aposentado e os filhos trabalham de pesca, e Aguapeú, que tem seis famílias, né? Barra do Una que tem 104 famílias, que aí já tem uma questão mais heterogênea de comunidades tradicionais e não tradicionais, Despraiado também tem essa questão, e Itinguçu, que é Cachoeira do Paraíso, que tem um pouco de agricultores e extrativistas, e que vive um pouco do turismo também é… Barro Branco, Tocaia, Guarauzinho, é...Praia da Juréia, Cachoeira do Guilherme. São essas comunidades que ainda estão dentro da Juréia, né? Mas se for ver todas as comunidades caiçaras que estão no litoral do Norte do Paraná até o Sul do Rio de Janeiro, há algumas restrições nesta área do litoral que dificultam a atividade dessas comunidades, né? Porque eles precisam da floresta, precisam do mar. Para a sua subsistência, para melhorar sua qualidade de vida e para dar continuidade aos seus conhecimentos, saberes culturais, que estão sendo perdidos porque se ele não leva seu filho à floresta para poder ver como que se faz uma canoa, seu filho não vai aprender mais. Na época de cortar um cipó, época de tirar um taquara, e a lua nova, que lua que tira, qual a fruta que arca... P/1 - Qual é a época de tirar? R - Madeira? P/1- É. R - Sempre na lua minguante. P /1 - Por que? R - Porque a seiva da madeira desceu, está tudo embaixo da raiz, então você pode cortar que a madeira não racha e o bicho não come, né? Na lua cheia toda seiva da árvore está no corpo dela, ela está toda ali cheia de água, e, quando você corta, as fibras explodem, então se ela está muito cheia ela racha a madeira. Quando racha a madeira e tem muita seiva, o bicho vai para tomar o suco, para comer, começa a perfurar a madeira, então a madeira apodrece mais rápido. P/1 - Você aprendeu isso quando era pequeno? R - Quando eu era pequeno. P/1 - Não foi alguém que ensinou que era… R - Não… P/1 - Assim, sustentável? R - Não. Meu pai que falava: “Oh, você tem que cortar isso na minguante porque a madeira está seca.“ Ele não falava da seiva, mas falava da água que tinha na madeira, do vinho que tinha na madeira. Isso para outras espécies tanto para taquara quanto para o cipó, para palha, para várias coisas. P/1 - E que festas que você lembra que tinham na região que aconteciam quando você era pequeno? P/1 - Tinham várias festas. Tinha a festa de São Miguel Arcanjo que é o Padroeiro do Centro Espírita que a gente é, comemorava a festa no dia dele, que é no dia 29 de Setembro… P/1 - Como era a comemoração? R - Era reza, muita reza né? Batizado, faziam uma alvorada, alvorada que é folia de bandeiras, folia de reis, né? E tinha muito Pai Nosso, cantando, tinha várias coisas assim. Várias orações feitas. Eles começavam às 8:00h e aí até às 10:00h, aí parava, almoçava e depois das 2:00h iam até às 4:00, aí começava às 7:00h e ía até às 8:00h, né? De um tempo para cá eles começaram também a fazer fandangos, porque antigamente não faziam fandangos. Porque a reza era só… P/1 - O que era fandangos? R- Fandangos era um conjunto de músicas e danças que têm nas comunidades. Então a pessoa toca alguns instrumentos musicais, a rabeca, a rabiola, e o pandeiro, a timba, e a música que eles inventam na comunidade e tocam para o pessoal dançar. Aí tem a dança…. P/1 - Você sabe alguma música? R- Não, não sei. [risos] P/1 - Aí tem a dança que você falou... R - Aí tem a dança que é o pesadinho, né? Que vão dançando, entrelaçados o homem e uma mulher, tem o anu, tem o batido, tem o balanço, tem o recortado, tem o bailado que é dançado junto. Tem várias músicas, muita coisa. P/1 - E cada música tem uma dança? R - Cada música tem uma dança. P/1 - E você aprendeu a dançar? R - Eu danço alguma coisa. [risos] P/1 - É, quais que você dança? R - Eu danço “passadinho”, e danço… P/1 - “Passadinho” é esse que você falou, né? R - Isso. É um homem, uma mulher, e aí o homem vem em contrário a mulher e vai dançando tecendo. P/1 - E a outra? R - A outra que eu danço é o bailado que você dança junto, né? Tipo forró. R - Tipo fandango. P/1 - E qual a outra? R - Aí tem o balanço mas eu não sei muito.[risos] P/1 - Como é o balanço? R - O balanço também é homem, mulher, homem e mulher, tanto você dança tanto você bate o pé. Que é o sapateado com tamanco. P/1 - E você cresceu com essas... R - Com isso. Desde pequenininho. [risos] P/1 - E ainda hoje re...é… R - A gente faz. A gente continua fazendo mutirões para cá, tem mutirão de roça de mandioca: "Vamos fazer uma roça de mandioca! ''Vamos!” A gente faz a roça, à noite tem o fandango, que é a contrapartida que a gente dá para comunidade, comida e dança, música. Essas coisas. Aí no começo você faz uma alvorada, né? Que é uma...Tipo uma alforria agradecendo o santo, agradecendo o dia e falando que vai fazer a noite de fandango, né? Aí de manhã quando termina você faz o São Gonçalo, também agradecendo São Gonçalo por ele ter feito a roda e ajudar na agricultura e agradecendo também pela, porque a noite foi boa foi uma noite com dança harmoniosa com a comunidade. P/1 - Qual a origem dessas danças? Você disse assim, que é, falou no começo quando vocês comemoram o arcanjo que era espírita. R - É, sobre arcanjo… P/1 - Como é que é? Espírita, católico como é essa… R - ...Não. É, espirita é espírita né? Que a gente acompanha a religião do Kardec, kardecista. P/1 - E essa do arcanjo é espírita? R - É espírita de Allan Kardec, assim que a gente acompanha... P/1 - E os fandangos, essa, outras? R - Aí disse então, tem um pouco essa questão do santo e tals, que é meio que veio mais da comunidade Tavarana, né? Que são uma família que moram, que moravam na Cachoeira do Guilherme, que era um líder espiritual que era o senhor Sátiro que o pai dele sempre é… Assim, comemorou essa época, essa data de São Miguel Arcanjo, esse padroeiro que era do centro espírita de São Miguel Arcanjo. P/1 - Mas fandangos, todas essas danças não têm a ver com religião? R - Não. Não têm porque você faz fandango sem reza, né? Tem toda uma questão da religiosidade porque você fala do santo para tocar um São Gonçalo, você tem que falar do santo, pedir para ele ajudar na questão da agricultura, da roça que foi feita é, para tomar conta do fandango daquela noite ali e tal. É tem um pouco a ver com essa questão da religiosidade, da comemoração. Aí tem a festa de São João, que a gente faz que faz uma fogueira grande e tal, aí meia-noite a gente tira toda a lenha, espalha a brasa, tira os chinelos do pé e passa por cima da fogueira em cruz. P/1 - E não queima? R - Não, não queima. P/1 - Como é que passa? R - Primeiro, uma pessoa passa com uma vela acesa, né? Faz um pedido para São João para tomar conta da fogueira, das pessoas e passa em cruz, aí todo mundo pode passar a não ser que você pise em uma pedra ou em alguma outra, outro objeto que não seja a brasa, e aí queima, né? Mas os demais, é só o calor que sobe e você passa em cruz. P/1 - Você passa? R - Eu já passo várias vezes. [risos] P/1 - E hoje é...O que você mora aqui na cidade? R - Não, eu moro na Juréia na Barra do Ribeira. P/1 - Na Juréia? R - É. P/1 - Você casou? R - Eu casei, moro lá. P/1 - Com quantos anos você casou? R - 25. P/1 - Como você conheceu sua mulher? R - Conheci nesses fandangos aí [risos]. Da Juréia. P/1 - Como foi? Você lembra como você conheceu? R - Não. Não lembro, mas foi em uma festas dessas que eu a conheci, é eu casei lá, tenho dois filhos, tenho um casal, o Marcos que tem 18 anos, e a Mariana que está com seis. [risos] P/1 - E você faz o que? Qual a atividade que você faz hoje? R - Oh, eu trabalho como monitor ambiental quando tem grupo para eu fazer, guiar, né? Monitorar… P/1 - Mas vinculado a quem? É um organismo? R - Oi? P/1 - Vinculado a quem? Faz parte do que? R - Não, o pessoal é, a gente fez, montou uma Associação de Monitores Ambientais, mas hoje ela não está muito ativa, né? A gente está mais...E tem a União dos Moradores que eu faço parte, sou o presidente hoje da União dos Moradores da Juréia, que trabalha pelos direitos das comunidades da Juréia, mas não só da Juréia, hoje a gente trabalha no Parque da Serra do Mar, que pega do Pedro de Toledo até Ubatuba, trabalha com o pessoal de Jacupiranga, morro ali no Bairro do Turvo. Cananéia, é...Semana passada eu estive em São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba fazendo uma palestra ,falando para as comunidades da Lei da Mata Atlântica, onde tem uns artigos que facilitam os moradores a usarem a lenha a usarem a madeira, tem lá uns quesitos que fala que podem tirar 15 metros de lenha por ano, 20 metros de madeira para uso na sua propriedade por dois anos, três anos, então a gente sempre vai fazer esse trabalho na comunidade e tentando organizar essas comunidades caiçaras porque eu tenho um pouco dessa, esse papel de fazer isso, né? Por conta da comissão nacional eu tenho que levar para as comunidades quais são as, os bens que podem estar facilitando a vida deles, o que tem que pode facilitar a vida deles, então, uma das coisas que eu tenho feito é a questão da união, a gente tem que se unir para ter um grupo forte, para começar a criar visibilidade como os quilombolas e como os indígenas, para poder ter um marco legal para lutar pelos direitos dessas, deles, de acesso ao território. Porque assim, uma comunidade sem território é uma comunidade sem identidade, tem que ter o território tem que ter a terra. P/1 - Oh, Dauro nessa sua trajetória rica aí de vida, qual foi o fato que mais te marcou assim, uma lembrança que você fala: “Isso”? R - Que mais me marcou? P/1 - Uma das coisas, não precisa ser a mais… [risos] R - [Risos]. P/1 - Tem tantas, você tem uma trajetória tão rica. R - É, o que me fez assim, eu continuar fazendo isso foi quando eu encontrei um senhorzinho, chama-se Pedro Ramos, do Conselho Nacional do Seringueiro. Eu falei, eu estava em uma reunião lá em Brasília, na verdade em Luziânia, ali em Goiás, em Goiânia eu estava cansado já, sabe? De tanto discutir essas questões dos territórios, como é que faz para manter a comunidade, as pessoas, a gente não é muito atendido, né? A gente sempre é rebatido falando: “Não, mas não dá, não pode, tem que ver com fulano de tal, vê com ele lá, não é”. Eu falei: “Senhor Pedro, eu já estou cansado”, ele falou: “Meu filho, eu estou aqui nessa luta, eu já estou com 73 anos, entendeu? E eu já pensei nisso que nem você pensou. De sair dessa luta, mas já está na veia, quando está no sangue você não consegue sair mais”. Então foi uma coisa que marcou bastante, que não dá para parar mesmo que eu queira, eu não consigo mais parar de lutar pelos direitos dessas comunidades e de manter essas comunidades nos seus territórios com essa cultura rica que tem esse povo brasileiro. P/1 - Qual é o seu maior sonho hoje? R- Meu maior sonho hoje é mudar a Lei da Juréia, né? Que eu possa definitivamente falar: “Oh, criamos uma reserva sustentável, as comunidades têm lá o seu, a sua, o seu título, né? De direito real ,de uso para cuidar da terra e continuar com a sua cultura”. Acho que esse é o primeiro passo, é o meu grande sonho, e voltar para lá e continuar com minha família lá. P/1 - O que você acha da iniciativa desse projeto e dar seu depoimento de um projeto como esse que vai contar a história das regiões a partir da história de vida dos moradores e vai ter uma divulgação ampla pela internet? R - Eu acho isso importantíssimo para as comunidades, porque você começa a criar um marco, você começa dar visibilidade para a história que é sua, entendeu? Porque às vezes você não tem a oportunidade de contar isso para quem de fato tem que ver, né? E vocês, acho que no meio da comunicação, hoje vocês conseguem botar isso para todo mundo ver o que acontece nesse nosso país e o que fazem com as comunidades tradicionais. E aí cria a Unidade de Conservação, proíbe as nossas atividades econômicas, o seu meio de vida porque o meio de vida dessa comunidade, o modo de vida é que faz conservar esse meio ambiente não tem ninguém para preservar mais o meio ambiente dessas comunidades que conhecem como a palma da sua mão, né? Eles nascem da mesma forma que nasce um guapuruvu, uma árvore, então nascem juntos, crescem juntos acho que o conhecimento está aí, e sem essa comunidade não tem nada preservado nesse país, né? Então acho que assim, é importantíssimo que vocês divulguem isso para que as pessoas vejam o que precisa ser feito para essas comunidades manterem essas comunidades e seus territórios é importantíssimo para a história desse país, né? Para a cultura brasileira e para a conservação do meio ambiente, e são esses povos que preservam esse meio ambiente, tanto os quilombolas, indígenas, os caiçaras, os ribeirinhos, os conso...Os seringueiros, as quebradeiras de coco, são elas que mantêm essa atividade ativa. E preservar o meio ambiente porque eles dependem desse recurso para o seu meio de vida [risos]. P/1 - Tá ok. obrigada! R - De nada, obrigado vocês. [risos] P/1 - Muito bom. --------FIM DA ENTREVISTA------------
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