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História

Quando dois universos se unem

História de: Ana Dragone Caltozatto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/07/2003

Sinopse

Singularidades que se fundem, as histórias de vida de Ana e Angelina transmutam-se em uma na medida em que as amigas de infância narram a vida a partir de um mesmo contexto. Descendentes de italianos, a mescla das culturas faz parte da trama que se desenrola na narrativa das duas amigas. Recordam-se das reuniões dos moradores do bairro do Brás como uma família, das idas ao cinema, dos amigos espanhóis, das festas, missas, das traquinagens de infância e, sobretudo, das mudanças ocorridas no bairro durante suas vivências e do trabalho na Associação Beneficente São Vito Mártir.

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História completa

P/1 – Bom dia.

 

R/1 – Bom dia.

 

P/2 – A gente vai pedir pra vocês, pra iniciar a entrevista, falarem nome completo, local e data de nascimento.

 

R/1 – Ana Dragone Catozatto, eu nasci no bairro do Brás, na Rua Fernandes Silva, 185. E nasci no ano de 1934.

 

P/1 – Que dia a senhora nasceu?

 

R/1 – Dia nove de março de 1934, dia de São José.

 

R/2 – Eu me chamo Angelina Centrone, nasci no Brás, Rua Assunção, 152.

 

P/1 – E o dia que nasceu?

 

R/2 – Dia três de dezembro de 1933.

 

P/2 – A gente queria pedir pra vocês contarem um pouco a vida de vocês, desde a infância. As coisas que lembram, a relação com os pais. Um pouco da história dos pais de vocês.

 

P/1 – E também queria saber se a casa onde vocês nasceram era próxima.

 

R/1 – Era, era perto.

 

R/2 – Dois quarteirões.

 

R/1 - É, duas quadras.

 

P/1 – Então vocês são amigas desde a infância?

 

R/1 – Desde a infância, desde a infância mesmo, fomos à escola juntas. Agora, os meus pais nasceram na Itália. Casaram e depois de um mês que eles casaram vieram para o Brasil.

 

P/1 – E por que eles vieram, dona Anita?

 

R/1 – Eles vieram tentar uma vida melhor, só que eles não vieram como imigrantes. Como imigrante, na época, o governo não pagava o retorno, a volta, caso não gostasse de ficar aqui, aí eles vieram com a passagem paga, que podiam voltar a hora que quisessem. Começaram a trabalhar aqui. Meu pai começou a trabalhar como verdureiro e a minha mãe trabalhou no Matarazzo. Aí o meu pai, depois de um tempo, veio um primo dele também da Itália e conseguiram abrir uma firma no Mercado Municipal. Essa firma durou enquanto meu pai viveu, 33 anos. Essa firma continua até hoje na mão do meu irmão.

 

P/1 – Como chama a firma?

 

R/1 – A firma era Donato Dragone.

 

P/1 – Donato Dragone? E do que era?

 

R/1 – Era de laranja. Vinha de Limeira, eles compravam dos pomares um ano antes e depois eles compravam... Conforme dava a safra era transportada pra cá. Era no Pari, na época, vinha de trem. Ali no Pari, na Santa Rosa, sabe? Vinha pelo trem, o transporte. Não tinha caminhão que nem hoje, né? Depois que começou a melhorar eles compraram caminhão, aí o transporte era de caminhão.

 

P/1 – Entendi. Quando eles vieram fazia um mês que eles tinham casado, a senhora falou, né? Então eles não tinham nenhum filho ainda?

 

R/1 – Não. Aí a minha mãe logo engravidou do meu irmão mais velho, e ela até saiu do trabalho, porque ela passava mal na gravidez. Ela saiu do trabalho e ficou só meu pai. Mas logo que eles chegaram... Eles não passaram fome, porque tinham um compadre que foi padrinho desse meu irmão primeiro que nasceu, ele levava... Porque ele já estava há mais tempo aqui, ele já estava melhor de vida, aí ele levava um pouco de alimento para o meu pai e a minha mãe. Porque a vida foi difícil, na chegada.

 

P/1 – E eles vieram direto para o Brás quando chegaram?

 

R/1 – Vieram direto para o Brás.

 

P/1 – A senhora sabe por que eles vieram morar nesse bairro?

 

R/1 – Porque os imigrantes italianos se localizavam tudo ali.

 

R/2 – Posso explicar? Eles desciam em Santos e de Santos eles tomavam o trem e paravam justamente na estação ali no Largo da Concórdia, todos, aí que desciam de trem, não tinha outro lugar pra estacionar. Então conforme eles estavam chegando já ficavam tudo aí pelo Brás.

 

P/1 – Nas margens do Brás?

 

R/2 – Todos. A maior parte foi tudo pra cá.

 

R/1 – Eles se comunicavam por escrito, né? Então, vinha primeiro uma turma, depois vinha a outra, vinha duas outras pessoas de uma família, depois vinha o resto, conforme iam trabalhando. Meu pai mandou buscar minha avó, depois a mãe dele e a minha tia, elas vieram depois, vieram de navio.

 

R/2 – Todo mundo vinha de navio antigamente, vinham todos de navio.

 

R/1 – A viagem era de navio, 15 dias. Era mais em conta, né? Eles dormiam embaixo, no porão. Não vinham de primeira, vinham de segunda. Depois, lá em Santos, tomavam o trem e desciam aí na Concórdia [Largo da Concórdia].

 

P/2 – E quando seus avós chegaram aqui eles trabalharam em alguma coisa?

 

R/1 – Eles trabalharam no Matarazzo. Quer dizer, nós morávamos na mesma rua, lá por onde nós passamos, na mesma rua.

 

P/1 – Eles trabalhavam em fábrica do que?

 

R/1 – Tecelagem.

 

P/1 – E o que eles faziam lá na fábrica de tecelagem?

 

R/1 – Tecido. Tecido, só tecido.

 

P/1 – Eles operavam máquinas?

 

R/1 – É, máquinas...

 

R/2 – Minha mãe estava com oito teares.

 

P/1 – Oito teares?

 

R/2 – Oito teares, a minha mãe.

 

P/1 – Ela sozinha?

 

R/2 – Sozinha ela dava conta, com teares. Trabalhou 40 anos lá.

 

P/1 – A senhora já era nascida?

 

R/2 – Minha mãe trabalhou 40 anos lá.

 

P/1 – E a senhora chegou a ir alguma vez com ela ou não?

 

R/2 – Não, eu ia lá... Meu avô cuidava da gente, ele me deixava na porta só pra ela ver a gente, dava de mamar, depois ela entrava.

 

P/1 – Ah, é? Levava?

 

R/2 – Ele levava a gente pra dar de mamar depois ela entrava pra trabalhar.

 

P/1 – Voltava para o trabalho e vocês voltavam pra casa?

 

R/2 – Ela ficou surda de tanto o barulho dos teares.

 

P/2 – A sua mãe também trabalhava?

 

R/1 – A minha mãe trabalhou muito pouco tempo, porque ela engravidou do meu irmão mais velho e aí a gravidez dela foi muito... Assim, tinha muita ânsia, vômito, então ela não pôde continuar o trabalho. Aí meu pai já começou a melhorar de situação, ela não foi mais. Aí foi um filho atrás do outro, minha mãe teve cinco filhos a cada nove meses cada um. Eu fui a quinta, depois de quatro anos nasci eu. Depois, quando eu tinha nove anos nasceu o meu irmão caçula, que também foi outro menino. Ela tentou pra ver se vinha outra menina e aí foi outro menino. Fiquei no meio de seis homens.

 

P/2 – E como é que foi? Como era a sua infância? Conta pra gente.

 

R/1 – Minha infância foi muito boa. A gente ia pra escola lá no Grupo Escolar Romão Puiggari, na Avenida Rangel Pestana.

 

P/1 – Esse que tem ainda, né?

 

R/1 – Isso! Estudei lá até o quarto ano, depois eu fui aprender costura porque na época tinha que saber costura. As mães, naquela época, tinham essa mania de que as filhas tinham que saber costura, fazer trabalhos manuais. Eu aprendi costura, depois fui pra um colégio de freiras, que é lá na Santa Rita. Deve ser no Pari, né? Santa Rita.

 

P/1 – Essa da costura onde que a senhora aprendeu?

 

R/1 – De costura era em casa de família. As costureiras pegavam as meninas pra começar. Era alta costura, o que eu aprendi foi a alta costura. Porque a gente começou com catar alfinetinho do chão, varrer, tirar alinhavos. Depois já chuleava, coisas assim. Até que, depois de alguns anos, aprender a já montar vestido. Depois eu fui fazer um curso lá na Escola Profissional ali na área onde tinha o trem, passava o trem. Lá eu fiz o curso de professora de modista. A prendi bordar à máquina, né? Nesse colégio de freira aprendi a fazer todos os trabalhos manuais. Fiquei ali até casar. Eu saí de lá quando eu tinha 33 anos, nesse colégio de freiras. E a gente, em fins de semanas, ia lá para o Parque das Indústrias, perto do Mercado Municipal. Ali era um Parque de diversões, era um tipo de recreio pra gente, alugava bicicletas...

 

P/1 – Isso quando criança?

 

R/1 – Quando criança.

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras?

 

R/1 – Ali a gente jogava peteca, jogava vôlei, a gente brincava de roda, pra fazer passa-passa. E também nas esquinas, à noite, quando era época de muito calor, tinham também as vendinhas, que na época dizia empório, uma venda, vai! O nome que se dava era venda, e ali vendia de tudo. Nessas vendas vendia de tudo, até sorvete. Na nossa esquina, ali na Fernandes Silva, tinha o Sr. Nicola que ele fazia o sorvete. Ele tinha lá um tipo de um freezer, mas era diferente, mais potente, sei lá! Ele fazia as fôrmas, fazia o sorvete. A gente via ele fazendo o sorvete! Depois ele jogava na máquina e a gente ficava esperando ali. Era 200 réis um sorvete, na época. Depois os pais da gente ficavam ali sentados na porta, ficavam todos conversando. Na época você podia ficar até tarde na rua, porque não era como agora, não tinha perigo nenhum. Na encruzilhada que há na Fernandes Silva com a Rua da Alfândega nós brincávamos ali de peteca, de jogar peteca, de lenço atrás, de passar o anelzinho, enquanto os nossos pais ficavam conversando.

 

P/1 – E as meninas brincavam com os meninos? Era tudo junto ou não?

 

R/1 – Era tudo junto. A gente brincava de pular corda, a gente pulava corda, brincava de amarelinha. Amarelinha, sabe? Você sabe amarelinha?

 

P/1 – Sei.

 

R/1 – Brincava de amarelinha.

 

R/2 – Demais! Era demais.

 

P/1 – De jogar a pedrinha e...

 

R/1 – De jogar casca de banana.

 

P/1 – Era com casca de banana?

 

R/1 – Casca de banana! Nós dobrávamos a banana e jogava... Porque a pedrinha corre, né? Mas a casca da banana não. A banana fica, a banana fica.

 

P/1 – Boa ideia!

 

R/1 – A gente brincava também daquela bolinha de gude.

 

P/1 – E como é que era o chão? Porque tinha que ser terra, né, para brincar de bolinha de gude?

 

R/1 – Não, era...

 

P/1 – Era cimentado?

 

R/1 – Era cimentado. Já naquela época era acimentado. E tinha uns buraquinhos onde era o registro da água, a gente abria e jogava bolinha de gude.

 

P/1 – Era a caçapa?

 

R/1 – É, é. A gente jogava a bolinha de gude ali. Às vezes tocava as campainhas das casas e fugia. A gente se juntava numa turma, né? E naquela época também o leiteiro entregava o leite, punha atrás da porta, sabe? Na rua. Colocava atrás da porta, na rua. Ninguém mexia. E quando era o dia da mentira, dia primeiro de abril, se juntava uma turma de mocinhas, mocinhos, e a gente ia pegando, pegava, tirava o leite como primeiro de abril, que a pessoa depois ia abrir a porta e não achava nem o leite e nem o pão.

 

R/2 – A gente tocava a campainha e falava “Fulano está te chamando, pra você ir lá.” Ela saía de casa, chegava lá e não era nada.

 

P/1 – Nossa, vocês eram traquinas, né?

 

R/1 – É, é, é!

 

P/2 – Essas brincadeiras todas antes da senhora ir ser interna na escola? A senhora foi interna, né?

 

R/1 – Como? Não, não, não, semi-interna, você ia de manhã e voltava de tarde.

 

P/2 – E como era a casa de vocês?

 

R/2 – Eu morava num tipo de um cortiço.

 

P/1 – Como era lá?

 

R/2 – Só na entrada moravam cinco ou seis famílias. Mas a minha casa era na frente, e os outros no fundo era tudo junto, cinco ou seis famílias. Eu só tinha entrada do cortiço, e era uma escadaria. Às vezes tinha que tomar banho na cozinha, porque o banheiro era fora. A gente tinha bacia pra tomar banho na bacia.

 

P/1 – Dentro da cozinha?

 

R/2 – Dentro da cozinha! E era só um quarto e sala. A gente dormia também tudo junto.

 

P/1 – E era seu pai, sua mãe e a senhora?

 

R/2 – E uma irmã. Tinha uma irmã, que já é falecida. Meu pai era carregador do mercado e a minha mãe trabalhava na Mariângela. Também não ganhava muito, então minha mãe era obrigada a sustentar a casa, porque meu pai ganhava pouco como carregador, não ganhava muito. Alguém chamava, aí ganhava. Se não chamava, não ganhava. E não era registrado, nada. Porque ele falava: “Dar dinheiro para o governo! Já não ganha nada e dar dinheiro para o governo?” E nunca ele pagou nada.

 

P/1 – A senhora sabe em que ano o seu pai chegou aqui?

 

R/2 – Não sei.

 

P/1 – Mais ou menos?

 

R/2 – Eu tenho marcado lá em casa.

 

P/1 – Mais ou menos... Não, não tem problema, só pra eu ter uma ideia.

 

R/2 – Minha mãe tinha falado que tinha onze anos quando chegou. Minha mãe não casou lá, minha mãe casou aqui. Ela tinha onze anos. Ela falava que eles iam embora de novo, iam ganhar dinheiro aqui na América e depois iam voltar, porque minha mãe deixou um terreno lá. Até hoje tem o terreno, mil metros quadrados.

 

P/2 – Mas a sua mãe era italiana?

 

R/2 – É.

 

P/2 – Seu pai também?

 

R/2 – Também. Meu pai foi pra guerra, tem as medalhas, tudo.

 

P/2 – E ele contava as histórias da guerra?

 

R/2 – Contava.

 

P/2 – Você não se lembra de alguma?

 

R/2 – Não, não lembro. Eu sei que ele ia ao cinema e só via filme de guerra no cinema, no Glória. Só o via assistir filme de guerra. Acho que ele queria ver, né? Eu tenho as fotos dele de guerra, tudo. Eu sei que ela sustentava a casa, se não era ela a gente não tinha o que comer. E eu fui empregada em casa de família porque não dava mesmo. Só fiz o primário, porque não dava...

 

P/1 – Nesse cortiço que a senhora está falando que moravam várias famílias, como é que vocês dividiam os espaços?

 

R/2 – Lá era tudo... Banheiro junto, tanque junto, fogão junto, tudo junto.

 

P/1 – Então na hora do almoço todo mundo almoçava junto?

 

R/2 – Não, cada um na sua casa. Dividia o banheiro...

 

P/1 – E a cozinha?

 

R/2 – A cozinha e o tanque era tudo junto.

 

P/1 – E a casa da senhora, a senhora se lembra, dona Anita?

 

R/1 – Eu nasci lá na Fernandes Silva mesmo, depois, quando eu era nenezinha, passei pra Rua da Alfândega, 209. Ali era uma casa de esquina, que até hoje está, uma casa de esquina. E a minha mãe também, depois que ela não trabalhava mais no Matarazzo, ela alugava quartos, porque a casa era grande. Então ela alugava quartos e dava almoço, dava refeição para as pessoas que alugavam. Ela lavava, passava, pra ajudar a pagar o aluguel. E ali eu vivi nessa casa até os doze anos. Depois – aí nessa época o meu pai já era comerciante no Mercado Municipal – meu pai conseguiu comprar essa casa da Fernandes Silva, e aí só meu pai que trabalhava. Nós todos estudávamos, era meia dúzia de filhos. Não era fácil. A minha mãe aprendeu a fazer aquela redinha de cabelo, sabe? Que usava quando colocava bobe, que amarrava a redinha no cabelo pra poder ir no secador? Minha mãe aprendeu a fazer essa rede. Minha mãe aprendeu a bordar filé. Sabe esses trabalhos de filé? Vocês conhecem?

 

P/1 – Não me lembro.

 

R/1 – Ela tecia, fazia a rede que nem rede de pescador, depois ia ao tear e bordava. Tirava o desenho de livros. Fazia cortinas... Cada cortina linda!

 

P/1 – Aí ela vendia?

 

R/1 – Ela vendia. Quer dizer, tinha pessoas que faziam o pedido, não fazia assim pra vender. A pessoa pedia, pegava o modelo e ela fazia isso. Ela também chegou a lavar roupa “pra fora”. Lava e a pessoa dava o sabão e dava a roupa, dava a roupa e o sabão. Aí a minha mãe economizava no sabão pra dar pra lavar a roupa da gente também. E ela passava e entregava tudo bonitinho. Depois começou a melhorar, meus irmãos já cresceram, também foram trabalhar. Meu pai depois conseguiu comprar uma casa, essa da Fernandes Silva, que eu morei 40 anos nela. Depois meu pai ficou muito doente, pegou aquela insuficiência renal crônica, né? Não podia pegar friagem. No Mercado Municipal era muito frio.

 

P/2 – Ah, era?

 

R/1 - Era muito frio o Mercado Municipal. Então ele chegava, tinha que sair cedo, de manhã, três e meia, quatro horas, pra mercadoria... Pegar fruta, né?

 

P/1 – Mas o Mercado não era aqui, né? No Brás?

 

R/1 – Era no Brás. Ali perto do Parque das Indústrias, que a gente falava na época.

 

P/1 – A senhora chegou a ir lá com ele?

 

R/1 – Cheguei! Eu levava almoço para o meu pai. Eu levava todos os dias quando eu chegava da escola. A minha mãe aprontava o almoço, amarrava com um guardanapo e eu levava todos os dias, porque como ele ficou doente, depois ele não podia comer qualquer coisa, lanche... Ele tinha que comer sem sal, então eu levava o almoço pra ele todos os dias, umas onze e meia eu ia levar o almoço, esperava ele almoçar e levava de volta a marmitinha dele. Todos os dias eu fazia isso.

 

P/1 – A senhora ia a pé, dona Ana?

 

R/1 – Eu ia a pé. Tinha uma ponte na época que atravessava o rio, agora não tem, eles canalizaram.

 

P/1 – Que rio que era?

 

R/1 – Era o Rio Tietê. Depois que teve muitas enchentes no Brás, depois canalizaram o rio, aí não tem mais enchente naquele pedaço. Agora fizeram um tipo de um viaduto que passa pra 25 de Março, aí mudou. Eu já era mocinha quando aconteceu isso. Foi assim.

 

P/2 – E a senhora lembra como era o Mercado, se ele mudou muito?

 

R/1 – O Mercado mudou, mudou muito. Agora está muito mais bonito. Mas na época era... Quer dizer, eu achava que na época era mais bonito, um negócio mais original. Agora já modificaram muita coisa, ficou mais moderno. Eu vou lá toda semana, passo lá na barraca que era do meu pai. Mas mudou muito. As barracas eram sempre cheias, sabe? Aquele pessoal amigo... Eram todos amigos! Agora já mudou, já tem muita fantasia. Sei lá, já não é igual. Um negócio mais... Sei lá. Não é uma coisa bonita como era antigamente. Mesmo as frutas e a arrumação das frutas, das barracas, o jeito como eram arrumadas, a casa de lanche... Tinha um barzinho que era bem perto da barraca do meu pai. Tinha um barzinho que vendia um café, um lanchinho. Agora já não... É mais moderno. Tem uma casa de lanche e até fizeram muita propaganda dessa casa de lanche que tem agora, do sanduíche, lá no Mercado Municipal. Está muito bonito agora. Sei lá, na época eu gostava mais. Talvez porque eu era criança, né? Eu achava aquilo muito mais bonito. Agora está muito moderno, mudou muito. Agora que também eles deram uma reforma, porque estava muito feio, muito desgastado. Eles deram uma boa reforma no Mercado.

 

P/1 – E além do Mercado tinha outros lugares na região que vendia verduras, essas coisas?

 

R/1 – Tinha a quitanda.

 

P/1 – Quitandas?

 

R/1 – E tinha muito verdureiro, na época. Tinha meu tio. Meu pai começou como verdureiro logo que chegou da Itália, e meu tio continuou, continuou até a morte dele. Ele era verdureiro. Uma vida inteira ele foi verdureiro e sustentou a família dele como verdureiro.

 

P/2 – Como é o trabalho do verdureiro?

 

R/1 – Verdureiro é um carrinho, né, que ele enchia de madrugada, umas quatro horas da manhã, quando ele ia ao Mercado da Verdura, que é perto do Mercado Municipal, na Pajé.

 

R/1 – Vocês foram ao outro mercado?

 

P/1 – Não, ainda não.

 

R/1 – Atravessando a rua é o Mercado da Verdura.

 

P/1 – E já existia também?

 

R/2 – Só verdura lá. Mas tem frutas, bastante frutas.

 

R/1 - Agora tem frutas.

 

R/2 – Mais verduras.

 

R/1 – E ali ele abastecia o carrinho dele, umas quatro horas da manhã. Ele dava a volta no quarteirão, duas, três quadras, depois parava na porta dele que é ali na Fernandes Silva, em frente à Associação. Ele parava ali e o pessoal da redondeza ia comprar fruta lá. Depois o que sobrava ele guardava em casa e o pessoal, quando queria alguma coisa, ia procurar ali. Agora, o carrinho ele guardava num barracão, porque tinha muito cortiço, na época. Agora não tem, mas na época tinha muito cortiço, muitos quintais, então eles pagavam a mensalidade e guardavam os carrinhos. Tinha muito verdureiro, na época.

 

P/1 – E vocês sabem por que tinham tantos verdureiros aqui no Brás? Era por causa do Mercado da Verdura? Eles pegavam lá...

 

R/1 – Porque às vezes eles não vendiam assim uma, duas peças, um pé de alface, vendiam muito por caixa. Então a pessoa se obrigava a ir ao verdureiro, pagava mais caro e comprava tudo do verdureiro, que eram aqueles...

 

R/2 – Compravam por caixa e vendiam por unidade.

 

P/2 – Vocês sabem dizer onde eles pegavam essas frutas? Se o plantio era feito aqui mesmo em São Paulo ou fora?

 

R/1 – Não, vinha do interior. As verduras vinham do interior. Agora, as frutas que meu pai vendia vinham de Limeira. Até hoje, até hoje continua a firma do meu pai e vem de Limeira. Só que hoje já está meu irmão, ele tem fazenda. Vêm da fazenda as frutas, também. Trabalham os meus sobrinhos. Meus sobrinhos são todos formados, mas eles continuam na firma. Eles ficam lá, fizeram faculdade, mas trabalham na firma e sustentam as famílias assim, continuando como o pai. Agora o meu irmão já está meio afastado, agora o meu irmão foi pra Limeira. Depois que meu pai faleceu meu irmão já foi pra Limeira, mora em Limeira. E um ou dois filhos nasceram aqui, agora o outro nasceu em Limeira e nunca mais voltou pra São Paulo, ficou já lá.

 

P/2 – Ficou por lá?

 

R/1 – Em Limeira.

 

P/1 – Dona Anita, como eram os seus pais? Seu pai e sua mãe?

 

R/1 – Como assim?

 

P/1 – De temperamento. Quem era a autoridade da família, quem dava as ordens?

 

R/1 – Eles eram bons pais, pais maravilhosos, mas eram muito enérgicos. Não era que nem agora, que os pais dão liberdade. Na época, quando nós estávamos chegando em casa, nove horas voltávamos do passeio; umas nove, nove e quinze, era marcado horário. Ele falava: “Nove, no máximo nove e quinze, aqui.” Então às vezes eu ia no cinema Glória, que era no Brás, e eu saía na metade do filme às vezes, porque tinha que chegar, porque meu pai era muito enérgico. Não tinha essa de dar desculpa. E com os irmãos também, eram cinco irmãos, mas tinha horário pra entrar em casa. Agora não, né? Agora é diferente. Na época, que nós estávamos chegando em casa... As meninas agora saem, então o tempo mudou muito. Tinha horário certinho. Que nem eu te contei, eles ficavam na porta conversando durante a semana e a gente ficava brincando na rua, nos olhos deles, não tinha essa de se afastar. Agora, cinema era depois que a gente já ficou mocinha, tudo. A gente ia muito ao Parque Shangai, ali no Glicério tinha o Parque Shangai, lá era o nosso passeio.

 

P/1 – O que acontecia lá?

 

R/1 – Lá tinham todos os divertimentos que tem em um parque, e o nosso passeio era ali. Todo Sábado, Domingo e feriado. A gente ia até a pé e voltava a pé, porque não tinha perigo nenhum. A gente ia livre, voltava... Naquela época a gente já chegava umas dez horas, porque eu já tinha mais de 18 anos, 19, por aí. Então a gente era tranquila, né? Ia a pé, ia numa turma e voltava sem perigo nenhum. Lá tinha todo divertimento. Tinha passeio, ficavam uns moços parados e a gente que dava a volta.

 

P/2 – A senhora tinha namorado?

 

R/1 – Não, eu não tinha namorado. Depois chegava ali um e mexia com a gente, a gente ficava batendo um papo, às vezes ele acompanhava a gente até em casa.

 

P/1 – Aí começava o flerte, assim? No passeio?

 

R/1 – Aí começava, à vezes. Eu até namorei um moço do Parque Shangai, mas foi coisa muito rápida. Agora, meu marido, conheci meu marido no Mercado. O meu marido ia pra escola à tarde... Não, eu acho que ele ia de manhã e à tarde ele trabalhava no Mercado. Trabalhava numa barraca em frente à do meu pai. Ele ficava sentado numa caixa de laranja, assim, de comprido. As pernas dele, eu olhava, eram curtinhas. Ele era menino, tinha 13, 14 anos, ele ficava lendo gibi. E eu ia levar almoço para o meu pai e eu olhava pra ele, eu achava ele bonitinho, né? E aí os anos se passaram e depois eu nunca mais fui levar almoço para o meu pai e perdi ele de vista. Aí, quando meu pai faleceu ele foi trabalhar, ajudar meu irmão na barraca do meu pai.

 

P/1 – Seu pai faleceu em que ano?

 

R/1 – Meu pai faleceu em 54. Aí nós pegamos aquela amizade, porque ele vinha sempre em casa, e ele namorava e eu namorava, nessa época. Eu tinha 22 anos. Ele desmanchou o namoro dele e eu desmanchei o meu, aí nós começamos a namorar. Eu me lembro que foi dia 13 de maio de 56, e no dia primeiro de maio de 57 – que era aniversário dele –, nós estávamos casando. E foi no Mercado Municipal que eu conheci ele quando menino, eu tenho as fotos dele quando menino, nessa época do Mercado, até, que ele trabalhava na barraca de frutas.

 

P/2 – Ele já tinha quantos anos quando vocês casaram?

 

R/1 – Eu era mais velha do que ele, eu tinha 23 anos. Eu completei em março, 23, e ele completou 22 dia primeiro de maio. Foi no dia do nosso casamento o dia do aniversário dele. Ele tinha 22 anos. Deu muito certo o casamento. Vivemos 33 anos muito bem, tivemos três filhos e ele faleceu no ano de 90.

 

P/1 – Dona Anita, a senhora estava contando do seu pai. E a sua mãe, como ela era? Também era como seu pai?

 

R/1 – A minha mãe era mais enérgica do que meu pai. Comigo, com meus irmãos não. Com meus irmãos era mais meu pai. Mas comigo a minha mãe era muito enérgica. Sabe, eu não podia ficar com as minhas amigas. Se eu queria dormir na casa de alguém eu não podia. Se eu queria dar um passeio com alguém ela não deixava. Não deixava mesmo! Assim, a gente ficava uma na casa da outra, eu ia pra casa dela, lá para a casa da Angelina, ia na casa da minha prima, Gina, tinha uma amiga que chamava Nena, também. Nós nos encontrávamos na hora do almoço, porque eu nunca trabalhei. Quando moça o meu pai nunca deixou eu trabalhar, porque eu tinha cinco irmãos e era a única filha, meu pai achava que eu não tinha que trabalhar. Então eu encontrava com as minhas amigas na hora do almoço, na casa delas. Quando eu chegava do colégio de freiras eu dava uma corridinha lá. Eu saía na hora do almoço, quando eu não ficava até à tardezinha. Então eu ia lá, encontrava com elas, tomava um cafezinho e elas iam trabalhar. Eu às vezes chorava, porque eu queria trabalhar. E com elas, né? Mas a minha mãe não deixava eu trabalhar, tinha que aprender costura. E ela era muito enérgica com isso. Tinha que aprender costura, tinha que aprender bordar. Aprendia a bordar à mão, bordar à máquina. E eu queria estudar... Assim, tinha uma ilusão de ser uma advogada, até hoje eu passei isso pra minha filha. Eu tenho uma filha advogada. Mas a mamãe não deixou naquela época, não, falava que não tinha necessidade de eu estudar. Quer dizer, a mentalidade dela chegava até aí, na época... Que eu não precisava estudar, porque eu não ia trabalhar por que eu tinha que estudar? E ficou aquilo, aquela vontade, um pouco de revolta, porque eu queria estudar. Daí eu procurei outras coisas, fui aprender a costurar.

 

P/2 – Quer dizer que no colégio de freiras não tinham aulas? Eram só aulas de costura?

 

R/1 – Só trabalhos manuais, só trabalhos manuais.

 

P/2 – Vocês não estudavam, não tinham alfabetização?

 

R/1 – Não, não. Eu só estudei até a sétima... Quer dizer, naquela época era o segundo ano do ginásio, segundo ano ginasial, na época.

 

P/1 – O ginasial depois do Romão Puiggari onde é que foi?

 

R/1 – Foi lá no Colégio Maria José.

 

P/1 – Aqui no Brás?

 

R – Não.

 

P/1 – É outro bairro?

 

R/1 – É, é.

 

P/1 – Que bairro era? A senhora lembra?

 

R/1 – Era no centro, não me lembro agora. O meu irmão caçula estudou lá. O ônibus vinha buscar em casa e levava. Não lembro da rua do Colégio Maria José.

 

P/1 – Então vinha um ônibus que trazia e levava?

 

R/1 – Isso.

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa pra vocês. A família de vocês era religiosa, ia à missa?

 

R/1 – Demais, demais! Todo Domingo ia à missa.

 

P/1 – Em qual igreja?

 

R/1 – Na São Vito.

 

P/1 – Na São Vito?

 

R/1 – Todo Domingo! A gente não podia deixar de ir à missa, senão a mãe ficava brava.

 

R/2 – E tinha a reza também, nós íamos na reza. Era às sete horas da noite.

 

P/1 – Na igreja?

 

R/2 – Na Igreja São Vito, a gente ia à reza.

 

P/1 – Que dia que era?

 

R/2 – Todas as noites, das sete às sete e meia.

 

R/1 - Na Semana Santa a gente ia direto.

 

P/2 – Como era a Semana Santa aqui?

 

R/1 – A gente ia todo dia, principalmente nas quartas e nas sextas. Tinha a via sacra, que tem as doze estações, e a gente tinha que rezar.

 

P/2 – Vocês faziam jejum?

 

R/1 – Não, só na sexta-feira, mais na sexta. E na quarta não podia comer carne.

 

P/1 – E tinha uma roupa especial ou não? Era normal?

 

R/1 – Não, tudo simples. Ia bastante gente. Quando a gente era criança, né Angelina? Depois, agora, quando estávamos moça, nós íamos arrumar o caixão do Jesus morto na Sexta-feira Santa, aqui na...

 

R/2 – Nós temos uma Nossa Senhora de pôr a roupa. Pra você entrar na igreja, veste uma roupa.

 

R/1 – Nossa Senhora das Dores.

 

R/2 – É preta, toda bordada, linda, linda! Não tem nenhuma igreja igual à nossa.

 

P/2 – Quem é que faz a roupa da Santa?

 

R/1 – Tem uma senhora que prepara.

 

P/2 – É sempre ela que faz?

 

R/1 – Sempre ela.

 

P/2 – Faz muitos anos que ela faz essa roupa?

 

R/1 – Faz, faz muitos anos que ela faz. Tem uma senhora que paga também, porque é muito cara, é muito cara! Tem uns quatro, cinco metros já, a Nossa Senhora. Dá uma chegada lá pra você ver. É linda, linda, linda! Ela vai na procissão de Sexta-feira Santa, vai o caixão que leva Jesus morto, vai atrás com um lenço aqui na mão assim, e tem um lenço. Aqui as lágrimas... E ela vai atrás do caixão. A gente ia na sexta-feira à tarde, porque na sexta à noite é que saía a procissão. Na sexta-feira à tarde tinha uma senhora que era amiga nossa, ela tinha essa devoção, que ela que comprava as rosas. E nós que colocávamos as rosas no caixão, a gente que arrumava tudo o caixão. Depois, às três horas tinha a missa. Quando era à tardezinha, às cinco e meia, seis horas, tinha a reza. Depois, às oito horas, saía a procissão.

 

R/2 – Muita gente, muita gente!

 

R/1 – Tinha a banda, também.

 

P/2 – Hoje ainda tem a banda ou não?

 

R/1 – Tem, tem. Tem essa procissão, mas já não é como antigamente. Uma procissão mais fraquinha. Na época era uma procissão muito comprida, muito bonita, tinha mais união.

 

R/2 – Depois nós temos o São Cosme e São Damião. Também nós vestimos. É, nós vestimos eles.

 

R/1 – São italianos.

 

R/2 – É, são italianos.

 

P/1 – Mas ficam dentro da igreja?

 

R/1 – Da Igreja de São Vito. Foram os italianos que trouxeram essa imagem, foram nossos pais. Era uma capelinha, agora é um prédio de cinco andares.

 

R/2 – Eu tenho a foto da capela, se vocês precisarem.

 

P/1 – Ah, a senhora tem?

 

R/1 – A foto da capela de antigamente, muito bonita! Nós fizemos a primeira comunhão. Nós fizemos lá, a primeira comunhão.

 

P/1 – Vocês fizeram juntas, não?

 

R/2 – Não, eu fiquei doente quando a minha turma fez a primeira comunhão. Eu fiquei com catapora, não podia sair de casa. Depois eu fiz sozinha, no domingo.

 

P/1 – E a senhora se lembra da sua primeira comunhão?

 

R/1 – Lembro.

 

P/1 – Como é que era?

 

R/1 – Era assim uma turma muito grande que fazia catecismo no domingo à tarde. A gente ia no domingo à tarde, e tinha uma amiga, a Rosa, que ela dava catecismo pra gente. A gente fazia um tipo de exame pra ver como a gente estava. Os que passavam já marcava pra... Levava mais ou menos um ano, esse catecismo. E durava um ano, mais ou menos. E aí, quem sabia o catecismo todinho, que era um livrinho, passava, já marcava a primeira comunhão. E as que não passavam ficavam para o próximo ano. Era muito bonito, cada um fazia um vestido, cada um escolhia um vestido, um mais bonito do que o outro. Isso quem podia, e quem não podia era mais pobrezinho.

 

R/2 – A gente ia aos parentes, eles davam dinheiro pra gente. A gente ganhava dinheiro.

 

P/1 – Pra fazer o vestido?

 

R/2 – Não, não. Em vez de você dar um presentinho... No vestido de primeira comunhão, numa sacolinha que amarrava com uma fita na cintura a gente colocava o livro de missa e o terço, e ali eles colocavam dinheiro pra gente quando a gente ia vestidinha.

 

R/1 – A gente ia pedir a bênção, né? E eles davam dinheiro. A gente toda contente que saía com o dinheiro! (risos)

 

P/2 – E era quem que dava? Os parentes?

 

R/2 – Os parentes, amigos. Eles estavam contentes de ver a gente fazer a primeira comunhão, receber Jesus.

 

R/1 – Eu lembro, na época, que eu fui no mercado, fui lá mostrar para o meu pai – meu pai estava trabalhando –. Eu fui até o mercado mostrar meu vestido de primeira comunhão para o meu pai e os amigos dele me deram dinheiro.

 

R/2 – Eu também ganhei bastante dinheiro.                                          

 

R/1 – Os pracinhas! Na época eram os pracinhas!

 

P/1 – E o que vocês faziam com esse dinheiro depois que vocês ganhavam?

 

R/1 – Dava pra mãe comprar alguma coisa. Todo o dinheiro que a gente ganhava, na época, ia tudo pra mãe, ela que via o que era melhor. Comprava um sapato, comprava uma roupinha, era assim. A gente não gastava o dinheiro, todo o dinheiro que a gente ganhava de padrinho. Os padrinhos sempre, nos aniversários...

 

R/2 - Ajudava bastante.

 

P/2 – Nessa época já tiravam fotos de primeira comunhão?

 

R/1 – Tiravam! Eu tenho.

 

R/2 – Eu também tenho.

 

P/1 – E a Associação? Já existia essa Associação São Vito Mártir?

 

R/1 – Ah, já! Desde quando eles chegaram da Itália já tinha.

 

P/1 – E era pertinho da igreja?

 

R/1 – Antigamente era capela, né? A capela. Era atrás, tinha uma sala, um salão... Não era muito grande, mas dava para eles fazerem reunião.

 

R/2 – Cada vez mais foi entrando mais pessoas, entrando mais pessoas, daí o padre comprou “pegado” o terreno, derrubou e começou a fazer a Igreja maior, construção...

 

P/1 – Vocês lembram o nome desse padre que fez a Igreja?

 

R/1 – Foi o Padre João, Padre Cláudio... É, quem começou foi o Padre João.

 

R/2 – É, primeiro foi o Padre João.

 

R/1 - Padre João.

 

R/2 – Ele era novo.

 

P/1 – E no começo da Associação, o que se fazia lá? Porque hoje vocês têm uma creche, né? Bem maior.

 

R/1 – Naquela época tinha quermesse na rua, montavam as barracas na rua e à noite desmontava pra no fim de semana montar tudo de novo.

 

R/2 – Por causa dos armazéns.

 

R/1 – Por causa da zona cerealista, né? E a gente começou a fazer muitos jantares, sabe? Depois que construiu a igreja tinha muitos jantares.

 

R/2 – Pra construção da igreja. A gente trabalhava pra construção da Igreja.

 

R/1 – Depois que o prédio ficou pronto, nós fizemos um salão que é nosso, que é da Associação. O salão... Nós tínhamos uns três andares lá: o segundo, o terceiro e o quarto. Agora, o quarto andar nós doamos pra Igreja, que dá aula para as crianças, mas é tudo pago lá. É tudo pago. Nós ficamos com o segundo e com o terceiro andar, e no segundo nós fizemos uma cozinha muito grande, sabe? Do lado do salão. Construímos essa cozinha muito grande, fizemos banheiros e lá nós dávamos jantares pra 200 pessoas. Era muito trabalho.

 

R/2 – O salão não era muito grande do jeito que é agora. O quintal era pequeno e a gente lavava tudo no quintal, a gente não tinha a moça que lavasse.

 

R/1 – Éramos nós mesmas que lavávamos.

 

P/1 – Isso em que época, mais ou menos, que a gente está falando?

 

R/1 – Isso, quer ver, foi em 60, mais ou menos. Antes até, né Angelina?

 

R/2 – É, acho que é antes, acho que é em 45, 50.

 

R/1 – É, por aí.

 

P/2 – A Igreja foi construída em que ano? Vocês conseguiram terminá-la em que ano?

 

R/1 – É, nós terminamos, fomos fazendo as escadas – que era tudo no cimento grosso –, fizemos essa cozinha, arrumamos o quarto andar... Tinha uma fábrica de velas nesse quarto andar, aí nós tiramos essa pessoa. Reformamos... Esse quarto andar ficava pra reuniões, depois, e tinha época que teve corte e costura. Não deu certo. Tinha salão de arrumar cabelo, assim, um salãozinho. Também não deu certo.

 

R/2 – Agora tem escola.

 

R/1 – Agora tem uma escolinha, mas a escolinha é toda paga. Depois nós ganhamos esse terreno. Ganhamos esse terreno só nas pedrinhas no chão. Não tinha muro, não tinha nada, nós construímos o muro.

 

R/2 – Conforme ia fazendo as quermesses...

 

R/1 – É.

 

R/2 – O nosso presidente ia gastando, fazendo as salas para as crianças.

 

R/1 – Fizemos uma cobertura só nas barracas, depois já foi fazendo uma laje. Foi fazendo laje, depois fez as barraquinhas embaixo, já tudo como é agora. Em cima começou a construir a creche. Uma parede um mês, outra parede outro mês, e foi assim. Muitos anos de trabalho.

 

R/2 – Tudo dinheiro da quermesse.

 

R/1– Todo o dinheiro da quermesse ia pra essa creche.

 

P/2 – Vocês faziam quermesse todo final de semana?

 

R/1 – Não. A creche era uma vez por ano, em junho a quermesse. Nós estipulamos para a metade de julho, a abertura em maio. Dia 20 de maio começou a abertura, o final era na metade de julho.

 

P/1 – Foi estendendo?

 

R/1 – É, foi estendendo. Depois os jantares também a gente fazia. Uma vez por mês a gente fazia um jantar, na Semana Santa a gente fazia de peixe. Fora isso a gente fazia macarronada e ia construindo, até que chegou um dia que terminou a construção. Estava aí, nessa época, o Padre Zolin, aí nós inauguramos a creche. E tinha que ter 120 crianças, senão não podia abrir a creche. Nós conseguimos as 120 crianças.

 

R/2 – Até mais.

 

R/1 – Já faz alguns anos que a creche funciona. Agora, tudo o que nós trabalhamos vai tudo pra creche. Antigamente o que nós ganhávamos, também, a gente ia em asilos, ia em creches, fazia doações, também. Nós arrecadávamos alimentos na zona cerealista...

 

R/2 – Nós enchíamos caminhão!

 

R/1 – Caminhão! A gente ia em creche, levava um pouco pra uma creche, um pouco pra um asilo, sabe? Todos os anos no Natal. Agora não, agora é só pra nossa creche. E está a reforma, ainda, ainda não está um negócio muito perfeito. Agora estão reformando, depois de muitos anos precisou de uma reforma. Teve um senhor também, o senhor Andrea, ele está pagando uma reforma lá, agora.

 

R/2 – Ela viu.

 

R/1 – Você viu, né?

 

P/1 – Eu vi.

 

R/1 – Um senhor lá da zona cerealista é que está reformando todo o bairro do Brás. Ele fez uma arrecadação com quem podia ajudar e está reformando todos os prédios pra ficar um negócio mais bonito. Estava abandonado, o bairro. Então agora estão restaurando os prédios, e foi uma arrecadação que fizeram da zona cerealista. Agora esse Andrea, esse senhor, ele que está pagando toda a reforma lá do salão onde nós trabalhamos, onde é a quermesse, na parte de baixo.

 

P/2 – E é pública? Essa creche, os pais das crianças não pagam nada?

 

R/1 – Nada! É tudo, tudo do nosso trabalho! Eles entram de manhã, já tomam café, ganham café no lanche das dez horas; depois vem o almoço, tem um lanche de tarde, tem a janta, e vai tomado banho pra casa.

 

R/2 – Vai limpinho, já de pijama, é só chegar em casa...

 

R/1 – Tem a máquina de lavar roupa...

 

P/1 – Até que idade eles ficam lá?

 

R/1 – Até três anos. De zero a três.

 

P/1 – Dona Anita, eu ouvi a senhora falando bastante da zona cerealista. Como é que é? Por que chama de zona cerealista?

 

R/1 – Zona cerealista é que vende cereais. Armazéns... Agora uma parte está fechada, já faliram.

 

P/1 – Mas é antiga, essa zona?

 

R/1 – É, muito antiga! Eu lembro de quando eu nasci, de quando eu era criança que eu me lembro dessa zona cerealista. Mas era muito movimentada antigamente.

 

P/1 – Onde se concentrava a zona cerealista?

 

R/1 – Ali na Santa Rosa.

 

P/1 – Na Santa Rosa?

 

R/1 – Na Santa Rosa, perto do Mercado Municipal, perto do Parque das Indústrias, que hoje é a atual prefeitura, naquele pedaço. E lá tem todos os armazéns. O pessoal que tem mercadinho, as compras por atacado, é tudo ali. É tudo na zona cerealista. E são antigos, também, os imigrantes. Uma parte foi para o Mercado Municipal, outra parte para a zona cerealista. Quer dizer, os pais desse pessoal que estão agora já faleceram, é de pai pra filhos, e uma parte, a situação está muito mal, então já fecharam. Tem muitos armazéns fechados.

 

P/1 – E tinha alguma coisa de diferente que a gente não tem mais, que se vendia na zona cerealista? Frutas, comidas?

 

R/1 - Não, não. Era tudo separado.

 

P\1 – Fruta no Mercado...

 

R/1 – Não. Era arroz, feijão, só. Batata, cebola, alho...

 

P/1 – Era básica, assim, a alimentação.

 

R/1 – E na época, quando eu era criança, era só por atacado, só por saco. Hoje não, hoje tem os armazéns que vendem a varejo. Você vai lá, compra um quilo de lentilha, compra um quilo de ervilha... Você compra o que você quer, faz a compra por mês. Tem pessoas que não vão ao supermercado porque lá é bem mais em conta.

 

R/2 – E é fresquinho. Conforme chega ali, já vai para o supermercado também. O pessoal compra de lá para o supermercado.

 

P/1 – Eles abastecem os supermercados?

 

R/1 – Isso, isso. E vendem a varejo também hoje. Mas quando... Antigamente não. Antigamente não porque não tinha supermercado também. O primeiro supermercado que teve foi pegado à minha casa. O Super Bom, era pegado à minha casa.

 

P/1 – Foi o primeiro supermercado do bairro?

 

R/1 – Lá, sabe como é que funcionava? Lá a turma que trabalhava recebia um vale, e o vale era pra comprar no próprio supermercado, que era do Matarazzo. Comprava no Super Bom.

 

R/2 – Conforme comprava lá eles abatiam no ordenado.

 

R/1 – Então a turma que trabalhava, que precisava do dinheiro e não da mercadoria, vendia pra gente, pra quem queria fazer compras lá.

 

R/2 – Esses vales.

 

R/1 – Tinha de tudo! Era tudo do Matarazzo, tudo produto deles, até o tecido. Então eles vendiam pra gente o mesmo preço que ia descontar no ordenado deles. Eles eram descontados no salário, entende? Era o supermercado Super Bom. Só que você pegava tudo o que você queria, você ia pedindo, ia passando num... Não era que nem supermercado hoje, que você passa na roleta, que você passa no caixa. Lá não! Tinha uma pessoa que fazia a nota. Depois ficou... Depois foi melhorando. Teve uma época depois que o Matarazzo também faliu, foi fechado.

 

P/1 – Foi fechada a fábrica, também?

 

R/1 – Foi, foi fechada. Hoje em dia á a Madeirense. Como é que chama? É, tem um nome... A pessoa que comprou tudo aquilo reformou. Não pôde mexer nas paredes, foi só restaurado por fora e por dentro foi modificado. Lá dentro tem correio, tem restaurante, estacionamento, tem tudo lá dentro agora. Foi por parte.

 

R/2 – Era um quarteirão, o quarteirão todinho, nós passamos lá.

 

P/1 – Nessa época da infância de vocês quase todos os estabelecimentos comerciais eram da família Matarazzo, né? Eles tinham muito poder. Como é a relação das pessoas com a família Matarazzo aqui no bairro, como era? Eles eram religiosos, caridosos? Como era?

 

R/2 – Eles não moravam aqui, os Matarazzo, era na Paulista, a casa deles era lá na Paulista.

 

P/1 – Não se cruzavam?

 

R/1 – Não.

 

P/1 – Eles tinham um casarão na Paulista, não é isso?

 

R/1 – É.

 

P\2 - Eles não tinham atividades no bairro, não ajudavam?

 

R/1 – Nada, nada!

 

P/2 – Na igreja... Não faziam doação na igreja?

 

R/1 – Não, nada, nada, nada!

 

R/2 – A gente nem via eles, nem conhecia eles, nada. A minha mãe trabalhou lá nunca via eles, nada. 40 anos!

 

P/1 – Nunca viu um Matarazzo?

 

R/1 – Não, nunca!

 

R/2 - Eles não eram caridosos.

 

R/1 – Nunca fez caridade.

 

R/2 – Agora, foi a própria geração deles que foram tendo... Que foram consumindo tudo, entendeu? A nova geração, dos filhos, dos netos, dos bisnetos e eles mesmos que consumiram tudo, a nova geração que consumiu tudo. Geralmente é assim ,né? Muito luxo. Mas na época, quando a gente era criança, não era esse luxo que é agora. A gente se contentava com qualquer coisa, uma casa... Agora, progresso, mudou tudo. Então consome, uma família grande que nem era a Matarazzo, consumiram com o luxo.

 

P/2 – Fiquei curiosíssima, porque a casa da senhora, a senhora me disse que era bem grande.

 

R/1 – Era bem grande. A minha casa até hoje está lá. Eu ganhei ela como herança, essa casa onde eu morava, no 185, que era em frente ao Matarazzo. Ela é bem grande. Tem uma sala muito grande, deve ter uns sete metros por quatro, tem uma sala na frente, tem uma entrada separada, dois dormitórios também grandes, uma sala também muito grande, também sala de jantar que dava pra fazer dois ambientes e tinha uma cozinha. E tem a parte de baixo, que é essa casa... É um estilo... É mesmo uma casa muito antiga, que embaixo é um porão, mas o porão é alto. Era habitável, na época.

 

P/1 – O que funcionava lá no porão?

 

R/1 – Lá morava gente.

 

P/1 – Morava gente?

 

R/1 – Quando o meu pai comprou morava gente, morava uma família. Depois nós alugamos, alugamos para um salão.

 

P/1 – Enquanto vocês moravam lá?

 

R/1 – Enquanto morava lá. Enquanto meu pai viveu, enquanto eu era solteira, ficou vazio. A gente guardava nossas coisas, fazia as festinhas, sabe? Inclusive os batizados dos meus filhos foram lá, o da minha prima... Da família. O casamento da minha prima foi lá, o meu foi lá. Lá era uma salão de festas, vai. E a gente guardava nossas coisas. Era alto, não é muito baixo.

 

P/1 – Ainda está lá?

 

R/1 – Está lá ainda. Eu reformei, quando eu fiquei noiva nós reformamos, fizemos copa, cozinha... Porque tinha muito quintal no fundo. E nós tínhamos só uma cozinha pequena e o banheiro tinha que descer uma escadaria pra ir; era lá embaixo o banheiro, era fora e tinha um chuveiro. Na época que o meu pai comprou era chuveiro frio. Continua esse chuveiro frio.

 

P/1 – Vocês tomavam banho de água fria?

 

R/1 – A gente tomava banho de bacia. O banheiro era grande! Esquentava a água, punha na bacia, tomava banho de bacia. Agora, no verão, a gente tomava banho frio.

 

R/2 – A tina! Tinha uma tina. Minha mãe comprava a tina, aqueles barris grandes, cortava na metade e a gente tomava banho ali, porque não tinha bacia. A gente tomava banho ali.

 

R/1 – Depois, no meu noivado, a gente construiu... Fez copa, cozinha, banheiro e fez um quintal, um quintalzinho em cima; fez quarto de empregada, uma suíte, e onde tem o tanque, depois fizemos um lugarzinho, porque depois veio a máquina de lavar roupa.

 

P/2 – E o forno?

 

R/1 – E o forno. Embaixo eu tinha um forno à lenha. Lá nesse forno à lenha a gente fazia biscoito que é vendido nesse festa, nessa Associação. E nós tínhamos o forno. Mesmo quando eu morava no 209 tinha o forno, naquela época, quando eu era criança. Era só na minha casa que tinha esse forno. E o pessoal, a redondeza toda vinha enfornar lá, sabe? Era uma comunidade! Quando tinha um casamento, que nem nas bodas... Quando a minha mãe comprou um coração de Jesus, um quadro Coração de Jesus, fazia a inauguração do quadro, a consagração pra colocar o quadro. A consagração dizia... A gente chamava o padre pra benzer e fazia os biscoitos. Fizemos, na época, eu me lembro, 50 quilos, e todo o pessoal da redondeza vinha ajudar a fazer, e fazia nesse forno. Quando tinha uma festa, cada família que tinha alguma coisa pra comemorar, que era casamento, fazia esses biscoitos, e era tudo na minha casa. Era uma família, a gente era uma família, na época! Enfornava tudo nesse forno à lenha. Depois, quando a gente mudou para a Fernandes Silva, minha mãe mandou fazer esse forno também, mas já não era o que era no 209, lá na Rua da Alfândega, porque lá era casa térrea. Hoje é um sobrado, mas na época era uma casa térrea, tudo de janelas. Nossa, cada quarto! Era uma janela... Tudo pra rua, dava tudo pra rua. Era um terreno estreito, então era tudo pra rua. Tinha duas entradas e na entrada que era para o quintal que tinha o forno, ali ficava tudo aberto. Na entrada que dava na Rua da Alfândega tinha um buraquinho na porta, e minha mãe amarrava... Como eram seis filhos, então a gente fala: “Entrando e saindo, entrando e saindo.” Mesmo os vizinhos abriam e entravam sozinhos. Não tinha campainha, não tinha nada naquela época. Então a minha mãe amarrava um cordão no trinco, enfiava no buraquinho e fazia um nó que ficava pra fora. Então quem queria entrar puxava no cordãozinho, abria a porta e entrava. No meu tempo eram assim, as casas. A porta do quintal ficava sempre encostada, quem queria entrar pelo quintal entrava pelo quintal, quem queria entrar pela porta – que era Rua da Alfândega –, puxava o cordãozinho. Não tinha perigo nenhum.

 

P/1 – Vocês viajavam com os pais de vocês para algum lugar?

 

R/2 – Eu não.

 

P/1 – A senhora viajava?

 

R/1 – Eu viajei pra... Meus pais viajavam sempre pra... Eu fui... Meus pais viajavam sempre pra Poços de Caldas, quando era férias. A gente ia muito pra Limeira, porque o sócio do meu pai que morava em Limeira era meu padrinho, e ele era primo do meu pai, então a nossa viagem nas férias era pra Limeira. Eu ia todos os anos pra Limeira, e meus pais também iam pra Limeira. Agora, meus pais iam muito pra Poços de Caldas. Eles pegavam férias e iam os dois pra Poços de Caldas.

 

P/1 – Entendi. E pra Limeira a senhora era criança?

 

R – Era criança, era moça, mas ainda hoje eu vou pra Limeira.

 

P/1 – E vocês iam de quê, na época?

 

R/1 – Nós íamos de trem. Naquele tempo era de trem, não tinha ônibus que ia pra lá. Agora, o meu padrinho tinha carro. Era desses carros... Até o nome do carro dele... Era esses pequenininhos, tipo calhambeque, que tem a música do Roberto Carlos, e chamava Violeta. Era bordô. Quando meu padrinho vinha me buscar com a minha avó, a gente ia nessa Violeta, era o nome do carro dele. Calhambeque, né? Ele levava a gente, era estrada tudo de terra. Não era asfalto. Era uma estrada muito ruim. Uma vez eu me lembro que nós ficamos encalhados, porque era muita chuva, e veio a boiada tirar a gente.

 

P/1 – Veio o quê?

 

R/1 – A boiada, os bois. Puxava o carro, porque atolou, patinava, entendeu? Então os bois a gente chamava – falava a boiada –, tirava o carro do lugar. Depois veio a Jundiaí. Depois, mesmo quando eu casei era trem. A gente ia de trem, porque não tinha carro. Na época, né? A gente ia de trem, pegava o trem... Depois vieram os ônibus, depois... Quer dizer, quando a gente já tinha condução própria, tinha carro, então a gente ia de carro.

 

P/1 – E vocês estavam contando quando a gente veio pra cá dos cinemas, que vocês iam aos cinemas. Cine Real, Cine Glória...

 

R/1 – Cine Glória, o Cine Glória tinha seriado. Toda segunda-feira passava um seriado.

 

P/1 – Como era isso?

 

R/1 – A gente ia numa turma, ia todo o pessoal, toda a juventude lá do Brás ia. De segunda-feira estava todo o pessoal, toda a juventude do Brás estava no Cine Glória. Iam todas as pessoas, então a gente acompanhava esse seriado. Tinha um pedaço por semana, cada segunda. Quer dizer...

 

R/2 – Tipo novela, né?

 

R/1 – Que nem a novela hoje em dia, era no Cine Glória. Passava um filme depois e passava esse seriado. A gente acompanhava... Quer dizer, você não deixava de ir, senão você perdia...

 

P/2 – Perdia a sequência?

 

R/1 – É, isso.

 

P/1 – Entendi.

 

R/1 – Então a turma se reunia toda ali. E era uma brincadeira, tinha lanterninha, tinha baleiro... Você encontrava o que você queria: pipoca, balas. Às vezes a gente fazia muita bagunça, o lanterninha vinha brigar.

 

R/2 – Namorava pra cima e pra baixo.

 

R/1 – A gente namorava, né? Ia nesse cinema...

 

P/2 – E o grupo de amigos de vocês, nessa época, eram todos filhos de italianos?

 

R/1 – Todos.

 

R/2 – A maior parte.

 

R/1 – Eram todos italianos.

 

R/2 – Tinham espanhóis também. Tinham espanhóis. Eu morava ali na Fernandes Silva, no meio de duas famílias espanholas, uma era Ângela Trigueiro, a família Trigueiro, e no outro era o seu Severino, que era encanador. Ele era filho de italianos, os pais dele eram italianos. Agora, ele casou com uma espanhola, dona Ângela, e nós vivemos muitos anos. Eu entendia tudo o que eles falavam e eles entendiam tudo o que a gente falava. Eles falavam tudo em espanhol e a gente entendia tudo. Quer dizer, depois acabou acostumando. Eles entendiam o barês. O barês é um dialeto, não é a língua italiana mesmo, é muito diferente, é difícil de se entender, barês.

 

P/1 – Era tranquila a relação com os espanhóis?

 

R/1 – Muito tranquila, muito boa, famílias muito boas. Não tinha que nem agora, sabe, isso de: “Você quer ser mais do que eu”. Um ajudava o outro. Faziam as comidas... Mesmo eu com a Angelina, tudo o que eu fazia eu ligava pra ela e falava: “Angelina! Desce!”

 

R/2 – Porque eu era sozinha, então ela fazia as coisas e me chamava.

 

R/1 – Tudo o que eu fazia em casa eu falava pra ela: “Angelina! Desce!” Que a minha menina, né, as minhas filhas iam lá levar pra ela: “Desce que a Rosângela vai levar um negócio pra você.” Aí ela descia. Mesmo os espanhóis, eu fazia as coisas e eu dava para os meus vizinhos. Era uma amizade muito boa em todo o bairro. Não eram só os vizinhos próximos, era o bairro todinho. Era uma família. Agora modificou muito, muito, está muito diferente.

 

P/2 – E todo mundo falava italiano?

 

R/1 – Falava.

 

P/2 – Como é que vocês aprenderam português?

 

R/1 – Na escola.

 

R/2 – A minha mãe, ela faleceu com 93 anos falando italiano. Quer dizer, ela não falava nem português, nem italiano, era uma mistura. Ela misturava, uma frase em italiano, uma frase em português. Agora, meu pai não. Meu pai falava muito bem o português. Porque minha mãe era analfabeta, trabalhou desde cedinho, ela tinha as terras dela na Itália, e que trabalhava nas terras deles, eles eram muito ricos, mas trabalhavam na terra deles, e ela deixou a escola pra lá. E as irmãs dela não, as irmãs dela estudaram. Estudaram! Aprenderam a ler e escrever. Agora, meu pai não. Meu pai lia o jornal todinho, e gostava de contar anedotas em português, ele aprendia. Meu pai tinha muita amizade com os feirantes, então ele aprendia a se comunicar, aprendia mais fácil. Depois ele lia o jornal, então ele tinha mais facilidade pra aprender. Ele aprendeu, sabia ler e escrever, o meu pai, em português. Agora, a minha mãe não. E eu, quando eu cresci, que eu ia pra escola – porque na escola eles perguntavam que nacionalidade o pai era –, eu escrevia que o meu pai era brasileiro. Nem sabia que o meu pai era italiano. Eu fui saber quando eu fiquei mocinha, porque quando eu era pequena, na escola, que eles perguntavam, eu não sabia que meu pai era... Porque meu pai não tinha nem sotaque italiano. Agora, a minha mãe morreu falando... Ela misturava, às vezes você nem entendia o que ela falava.

 

P/2 – Você chegou à escola falando praticamente italiano também, né?

 

R/1 – Nós, filhas de italianos, tivemos dificuldades de aprender, até hoje. Porque eu, como a minha mãe morou a vida inteira comigo, mesmo depois de casada... Minha mãe viveu uma vida inteira comigo, então a pronúncia dela, os nomes das verduras, de tudo, ela falava em italiano. E você ouve. Depois, quando eu comecei a fazer as compras – porque quem fazia as compras era minha mãe, que ia ao mercado –, aí que eu fui aprendendo os nomes das verduras. Que nem "mostarda", depois que eu fui ver que era mostarda. O brócolis... Quer dizer, a gente tinha uma dificuldade, porque em casa só se conversava italiano. E quando você ia pra escola você bagunçava, bagunçava porque na escola você aprendia uma coisa e em casa era outra. E mesmo agora, a gente ainda... Quando você vai conversar, assim, que nem está conversando hoje, você ainda para e vai pensando pra falar. Mas quando a gente está entre a família sai o italiano. Agora, quando eu fui pra Itália, também não me atrapalhei em nada, porque eu entendia tudo e sabia falar tudo. Eu sei ler em italiano, não sei escrever porque eu não tive paciência de juntar. Mas, agora, pra ler é mais fácil, porque a pronúncia do barês é o escrito, então não tem... Quem sabe falar, quem entende, sabe ler. Então foi fácil de aprender. Acho que mais difícil foi aprender português, os filhos de italianos.

 

P/2 – E os avós da senhora, antes de virem pra cá eles trabalhavam em quê, na Itália?

 

R/1 – Tudo na lavoura, porque eles tinham as terras deles. Minha mãe tinha as terras, os sete filhos, e eles trabalhavam nas terras deles. E aquilo cada vez aumentava mais, porque era tudo entre eles.

 

R/2 – A minha mãe deixou lá mil metros quadrados. Na hora que eu fui, em 95, pensando que eu ia pegar alguma coisa... Ela falava que ia voltar e não voltou mais. Onze anos, depois de noventa anos ela chegou lá, já pegaram. Minha mãe trabalhava na azeitona, tinham as terras deles.

 

P/1 – Como é que chama a região?

 

R/1 – Bari. Quer dizer, eles são bareses, né? Essa turma que é da Associação é tudo dos Polianeses, de Polignano mesmo. É cidadezinha pequena, mas continua autêntica como era. Não pode modificar, é muito bonita. Não tem explicação. É tudo de pedra, é muito bonita. Essa turma que veio são os Polianeses, a associação é dos Polianeses, a Igreja São Vito.

 

P/1 – Veio quase a cidade inteira para o Brasil, não foi? Foi uma grande leva de...

 

R/1 – Veio, e a minha mãe continuou chamando. Depois, eu já era casada, veio uma sobrinha da minha mãe casada, e ela aprendeu a profissão de cortar o cabelo, fazer a unha, ela abriu um salão. Depois a minha mãe mandou chamar outro irmão dela, já não se deu bem, foi embora, está muito bem hoje, na Itália. E essa sobrinha dela continuou aqui. Tinha uns que viam e que gostavam, tinha outros que ficavam uns anos e voltavam. Vinham, eles vinham de curiosidade, às vezes, vinham para experimentar. Tinham uns que não se davam bem e voltavam. Essa minha prima voltou, hoje ela está muito bem na Itália, muito bem mesmo. E a que veio, que ficou no Brasil, também, muito bem. Quer dizer, ela é falecida agora, mas ficou muito bem aqui, com propriedades, muito bem.

 

P/2 – E a São Víto, era também o centro da região?

 

R/1 – Região.

 

P/2 – E essa imagem que tem aqui?

 

R/1 – Apareceu no mar. É a procissão lá, dia de São Vito nós fazemos a procissão aqui. Lá é pelo mar, é em barcos.

 

P/1 – Por quê? Qual a história dele?

 

R/1 – É de Bari, ele apareceu no mar, então a procissão é no mar. O meu primo, o filho da Gina, essa minha prima que ia vir, ela trouxe uma fita da peça. Eles foram, meu genro, minha filha, queriam conhecer a festa de São Vito, eu não fui por causa da quermesse, porque eu não podia largar o meu lugar, não tinha outra pessoa pra me substituir. E eu não fui pra Itália, mas minha filha, meu genro e meus netos foram e assistiram essa festa. Eles têm toda a filmagem da festa, muito bonita, muito bonita mesmo, tudo pelo mar.

 

P/2 – A imagem foi encontrada pelos pescadores?

 

R/1 – É, foi encontrado. Agora, os turcos falavam que era deles, o São Vito, mas era da Itália mesmo, era dos bareses, dos polignanos.

 

P/2 – Foi achado nessa região?

 

R/1 – Foi achado nessa região.

 

P/2 – E essa imagem que tem aqui na Igreja de São Vito foi trazida?

 

R/1 – Foi trazida de lá.

 

P/2 – Como?

 

R/1 – É original.

 

R/2 – Está marcado, depois a gente dá a data.

 

R/1 - Nós temos fotos, tudo, do São Vito. Nós temos desde quando começou.

 

P/1 – Vocês sabem quem trouxe essa imagem?

 

R/1 – Olha, eu não sei direito. Foi contada muitas vezes essa história, mas a gente... São tantas histórias, né? Se tivesse vindo a minha prima, a Gina, ela saberia explicar melhor, porque o marido dela é italiano.

 

P/1 – O Lucas?

 

R/1 – É, o Lucas. Ele é quem dá as entrevistas ali naqueles...

 

R/2 – Ele não estava hoje.

 

R/1 – Amanhã você pode ir pra lá...

 

P/1 – Eu sei quem é. Mas ele veio depois, né?

 

R/1 – Isso.

 

P/1 – Eu conheci um senhor que é um pouco calvo...

 

R/1 – Isso, ele é marido da minha prima, Gina. Ele sabe tudo, tudo, tudo!

 

P/2 – Mas quando os pais da senhora chegaram aqui já tinha a imagem?

 

R/1 – Já!

 

P/2 – Em que ano eles chegaram, os pais de vocês?

 

R/1 – A minha mãe tinha onze anos.

 

R/2 – A minha tinha 21.

 

P/2 – Então foi no comecinho?

 

R/1 – A minha mãe morreu agora, em 98. Não, em 94. Ela morreu com 98 anos. O meu pai era 1900 e a minha mãe era de 1904, ela veio com 21 anos.

 

P/1 – Década de 20. Ela chegou em 1925?

 

R/1 – Isso.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho pra história do Brás. Queria perguntar: vocês lembram do carnaval do Brás?

 

R/1 – Ah, sim! Maravilhoso! Era tudo na rua, em todo o bairro. E lá na Rangel Pestana, na Avenida Rangel Pestana, era que era passeio mesmo.

 

R/2 – E a gente ia no Palmeiras à tarde.

 

P/1 – Onde era?

 

R/1 – Na época era no Anhangabaú, onde é o Viaduto do Chá. Era lá embaixo o Palmeiras, meu pai me levava lá.

 

P/1 – Para o Carnaval?

 

R/1 – Para o Carnaval.

 

P/1 – Lá era um clube?

 

R/1 – Era um clube do Palmeiras.

 

R/2 – Mas a festa mesmo do Carnaval era tudo na rua. Não era no salão, era tudo nas ruas. O pessoal se vestia de mulher, os homens.

 

R/1 – E a gente de homem. Antigamente não usava calça comprida, Nós não usávamos calça comprida, então no carnaval nós trocávamos.

 

R/2 – Pintura, Nossa Senhora! Nem no carnaval meu pai gostava que eu usasse pintura. Meu pai falava que a mulher que usava pintura tinha que ser uma palhaça, porque quem se pintava era palhaço, ele dizia. Então eu nunca me pintei na frente do meu pai.

 

P/1 – E vocês saíam andando pelas ruas?

 

R/1 – Andava pelas ruas, era passeio. Na Avenida Rangel Pestana ficavam os homens parados, uma turma, e as mulheres que andavam. Ou as mulheres ficavam paradas e os homens que andavam. E passava o desfile, passava toda aquela gente fantasiada, os cabos, passavam cabos.

 

P/1 – O corso, não era o corso?

 

R/1 – Era, isso. Naquela época usava muito o lança perfume. Negócio de cheirar, não tinha isso.

 

R/2 – Um ano eu sei que passou na [Rua do] Gasômetro um corso, uns caminhões... E era um abacaxi, conforme abria o abacaxi, a moça saía. Era tão lindo! Mas o abacaxi... Você precisava ver.

 

R/1 – Carros alegóricos lindos!

 

R/2 – As músicas de antigamente eram muito mais gostosas do que agora.

 

P/2 – Mas as marchinhas eram em português ou eram músicas italianas?

 

R/2 – Era em português. Não, não, tudo português.

 

R/1 – Não, não, eram marchinhas portuguesas. Lindas! Eram lindas!

 

P/1 – Tinha um alto falante que ficava tocando ou vocês cantavam?

 

R/1 – Tinha, tinha. Tinha assim, que nem se tivesse um armazém. A gente formava um grupo ali... Entendeu? Fazia uns clubes, uns salõezinhos. A gente se divertia assim. E colocavam um disco. Naquele tempo tinha vitrola, era disco, e a gente dançava, levava serpentinas, confetes, e eram todos amigos.

 

P/1 – E além dessa troca, dos homens colocarem roupas de mulher e vice-versa, do que mais vocês se fantasiavam para o carnaval?

 

R/1 – Todas as fantasias. Odalisca... Todas as fantasias. A gente mesmo fazia as fantasias. Eu e meu irmão caçula... Eu me lembro que eu fiz uma fantasia de zorro pra ele e a gente ia nesses salõezinhos que eu te falei. Mesmo nas redondezas do Brás tinha armazéns vazios, então a gente armava um bailinho mesmo sem ser carnaval. Você lembra quando a gente ia lá na Américo Brasiliense? Então, a gente ia lá dar bailinho de sábado, porque os pais da gente não deixavam a gente ir em salão. Não tinha isso, então a gente armava o bailinho. Era tudo familiar, era tudo um negócio muito familiar.

 

P/2 – Vocês lembram se o carnaval era tradição na região dos pais de vocês na Itália ou foi uma coisa incorporada no Brasil? Eles trouxeram de lá a coisa do carnaval ou foi aqui? Vocês não sabem?

 

R/1 – Não, acho que era festa brasileira.

 

P/2 – Festa brasileira. Mas qual era festa mais famosa no bairro, nessa época?

 

R/1 – A festa de São Vito. Eu me lembro desde pequena. Na época era uma festa da igreja e eles enfeitavam todas as ruas como lá na Itália, hoje. Vou trazer as fotos pra você ver. Eram umas festas muito bonitas, era diferente, era a tradicional italiana mesmo. Eles colocavam os enfeites, tudo de madeira, e era tudo pintado de branco, tudo cheio de luzes. Tudo pintado de branco e tudo com luzes, tudo arcos, assim, que passavam de uma calçada pra outra. E tinha mais ou menos alguns metros separando uma da outra. Mas em todas as ruas: lá perto da Igreja... Em todas! Toda aquela redondeza tinha esses enfeites, e de manhã passava, quando era o dia da quermesse, de domingo, de sábado, passava a banda, já cedinho. Cedinho acordava o pessoal com a banda.

 

P/1 – O que a banda tocava?

 

R/1 – A banda tocava músicas brasileiras, tudo! As marchinhas de Carnaval... Passava pra acordar, ali, e soltava fogos. E à noite tinha festa. Tinha leilão, tinha muito leilão, na época. Era todo o pessoal da zona cerealista e o pessoal do... Quem ajudou muito a Igreja de São Vito, na época, foi o Mercado Municipal Central, que é hoje... E a zona cerealista. Eles formavam lista pra soltar os fogos, e os fogos eram uma maravilha. Era uma coisa linda. Era lá onde é a prefeitura hoje, eram soltos os fogos, né? Do lado.

 

R/2 – Num bonito jardim, que era livre. A pessoa parava lá com seus caminhões e soltava os fogos.

 

R/1 – Quando era meia noite, onze horas, onze e meia, já começavam a dar o sinal para o pessoal que ia soltar os fogos, o pessoal saía da quermesse e já ia pra lá. Mas quem pagava tudo isso eram os comerciantes do Mercado Municipal e da Zona Cerealista, que faziam uma santo na procissão de São Vito, faziam um leilão de quem ia carregar, sabe? Quem carregava o São Vito na procissão tinha que dar dinheiro, era um leilão. Quem dava mais... E aí davam o dinheiro e espetavam um alfinete na fita de São Vito, sabe? Quem tinha mais oferecia mais pra carregar e pra sustentar.

 

P/1 – E por onde ia a procissão?

 

R/1 – A procissão era nas ruas do bairro, nas mais próximas da Igreja.

 

P/2 – O santo não passava nas casas?

 

R/1 – Não. Às vezes, quando tinha uma pessoa doente, a pessoa pedia, pagava... Ou não, quem não tinha parava e ficava em frente a casa. Então a pessoa doente às vezes ficava na janela e parava nas casas, assim. Era muito bonito.

 

P/1 – Como é que era o calçamento das ruas antigamente? Não era de asfalto como é hoje, né?

 

R/1 – Não, não, era tijolo.

 

P/1 – Tijolos? Paralelepípedos?

 

R/1 – Isso, isso. E a calçada era calçada mesmo, eu já lembro calçada. Depois... Eu era mocinha quando asfaltaram. Mas ali no Parque Dom, Pedro onde é o viaduto hoje, ali era, eu lembro. Montanhas de terra vermelha. Eu me lembro ainda que era tudo montanha. Eu ia brincar, subia naquelas montanhas de terra. Era tudo montanhas de terra vermelha aonde é a prefeitura hoje. Depois, com o tempo, eles fizeram um jardim que depois foi tirado por causa da construção do Palácio e da construção do viaduto, lá tinha um jardim e tinha uma estátua de um homem semeando. Uma estátua muito grande. Justamente está na Rua 25 de Março, está naquela praça.

 

P/1 – Mudaram pra lá?

 

R/1 – Foi mudado depois que foi feito esse viaduto, a Erundina até queria tirar esse viaduto. Foi quebrado depois foi reconstruído de novo. O meu avô também falava que ele tinha que acender os lampiões de gás.

 

R/2 – Eu já não me lembro dessa parte.

 

R/1 - Meu vô contava que era lampião de gás, ele tinha que acender.

 

P/1 – Ele que era o acendedor?

 

R/1 – Tinha um que acendia em cada rua.

 

P/2 – É? Em cada rua tinha um?

 

R/1 – Era lampião de gás, e nisso tinha um morador que acendia os lampiões. Depois passou pra uma elétrica, mas não era a de mercúrio que nem é hoje, era uma luz mesmo. A gente punha luz e as crianças quebravam.

 

P/2 – E mudou alguma coisa na convivência com o bairro, esse fato de ter luz à noite, de estarem mais claras, as ruas? Os pais deixavam sair ou chegar um pouco mais tarde por causa da luz? Mudou alguma coisa ou não?

 

R/1 – Não, não mudou nada. Continuou a mesma coisa, porque... Quer dizer, depois piorou, porque já ficou muito perigoso, já começou... Quer dizer, eu, quando mocinha, mocinha eu não me lembro de droga, mas quando começou meus filhos é que eu me lembro que começou essas drogas, que foi mais perigo. Então a iluminação...  Agora, a reforma que estão fazendo no Brás, é sobre isso que estão reformando, estão pondo a iluminação. Você não passou lá à noite? Você viu? Você não viu a reforma? Agora está muito bonita, a reforma, tudo com iluminação. Em todas as sacadas eles puseram iluminação. Esse Andrea, que eu falei pra você.

 

P/1 - Ah, eu sei, se eu não me engano... Será que não foi o avô dele ou o pai dele que trouxe a imagem de São Vito para o Brasil? É Andrea, não é? Que tem loja de importação/exportação? Se eu não me engano foi o avô dele que trouxe a imagem, o Padre Enes falou, então acho que foi. E o bonde, vocês lembram do bonde?

 

R/1 – O bonde, eu gostava do bonde!

 

P/1 – É? Por que a senhora gostava?

 

R/1 – A gente passeava de bonde!

 

R/2 – Eu ia até a Penha, voltava.

 

R/1 - Eu ia para o Parque São Jorge. Pegava um bonde lá na Avenida, era um passeio. Você ia de bonde e ele voltava, você não precisava descer. Ele dava a volta e você voltava com ele.

 

R/2 - Ia na Mooca, Praça da Sé, Praça Clóvis...

 

R/1 – A gente ia de bonde na Praça Clóvis, depois dava aquela viradinha...

 

P/1 – E aonde vocês tomavam o bonde?

 

R/1 – Na avenida.

 

P/1 – Qual era?

 

R/1 – Na Rangel Pestana, em frente à Rua Nossa Senhora Anacleto. Era lá, naquela esquina da Avenida com a Nossa Senhora Anacleto que era o ponto do bonde.

 

R/2 – Eu tomava aí e ia até a Rua Juventus, lá na Mooca, minha tia morava lá.

 

P/1 – Ia passear? E tinha que dar sinal para ele parar?

 

R/1 – Tinha, tinha uma cordinha, tinha uma cordinha. Você puxava e dava o sinal, aí ele parava e você descia. E o cobrador também. O cobrador, cada passagem que ele cobrava ele dava o sinalzinho e ia marcando quantas passagens, porque no ônibus tinha roleta, né? Mas na época ele puxava o cordãozinho.

 

P/1 – E ia virando o número?

 

R/1 – Isso, isso.

 

P/1 – Tinham dois tipos de bonde, né?

 

R/1 – Tinha o camarote, que era fechado, e o bonde que era totalmente aberto, com bancos de um lado e do outro.

 

P/1 – E qual era melhor de passear?

 

R/1 – Eu gostava do aberto.

 

R/2 – Eu gostava mais do aberto.

 

R/1 – A gente via as paisagens, o pessoal que ficava nas...

 

R/2 – Ficava em pé, também.

 

P/2 – Tinha diferença de preço?

 

R/1– Não, a mesma coisa. Era muito baratinho, era de graça, quase.

 

P/2 – A senhora lembra se tinham outros transportes e quais eram, além do bonde? As pessoas se locomoviam como? Se tinha carroça...

 

R/1 – Tinha carroça! Quando a gente era criança tinha muita carroça!

 

R/2 – A gente nunca andou de carroça.

 

R/1 - Eu, que me lembre, nunca andei de carroça.

 

R/2 – Nem eu.

 

R/1 - Mas era um transporte, carroça. Pra quem trabalhava e pra quem ia fazer compras, ia de carroça. Isso quando eu era criança, quando eu tinha uns cinco, seis anos, eu me lembro perfeitamente que tinha carroça. Inclusive aquele... Tipo verdureiro, que eu falei, tinha a carroça também. Ele passava, parava e vendia batata, vendia laranja.

 

P/2 – O leite e o pão também eram de carrocinha?

 

R/1 – Era de carroça, que entregava. Ele colocava nas portas, do lado de fora, na rua, no degrau da rua. Colocava ali, ninguém mexia.

 

P/1 – E de onde vinha esse leite? Porque tem uma empresa de leite aqui famosa, a Paulista. Era de lá?

 

R/1 – A Paulista. Era de lá, e era de litro.

 

P/1 – De garrafa?

 

R/1 – Era de garrafa, depois vendia. Também tinha a leiteria, chamava leiteria. Na esquina onde eu morava tinha uma leiteria. Vendia doces para as crianças, esses docinhos de criança, e vendia o leite e o pão... Agora, o pão eles mandavam buscar na padaria, não era fabricado ali. O leite era entregue ali, e você, quando queria ir comprar na leiteria, eles vendiam até meio litro, você levava a caneca. Eu ia comprar assim. Sem ser aquele que a minha mãe comprava, eu ia com a caneca e a senhora, dona Maria, ela me virava meio litro de leite. E ficava outro meio litro na garrafa pra poder outra pessoa... Tinha todas as medidas, e a gente levava a caneca, pra gente eles viravam na caneca.

 

P/1 – Dona Anita, quando eu estive lá na Associação, a senhora estava falando das filas de pão na época da Segunda Guerra.

 

R/1 – Aí a gente levantava... As padarias trabalhavam de madrugada, e eu morava ali no 209, ali na Alfândega. Eu tinha menos de doze anos e eu levantava às quatro da manhã, às quatro e meia, e a gente se unia numa turma. A gente ia até a Bela Vista buscar pão, porque a família era grande.

 

R/2 – E às vezes não tinha pão, a gente tinha macarrão em casa, então a gente deixava o macarrão na água, amassava ele e fazia o pão.

 

R/1 – O meu pai comprava aquele macarrão de estrelinha, comprava de saco, porque nós éramos em muitos em casa, éramos seis filhos. Tinha minha mãe, meu pai e tinha as famílias também, que moravam junto. À noite meu pai comprava aqueles caldeirões grandes, punha o macarrão de molho – já tinha a medida certa, né? –, e no dia seguinte fazia o pão. O macarrão desmanchava e fazia o pão, era uma delícia, uma delícia, o pão! E fazia as "panhotilha", a gente falava as "panhotilha". Em casa tinha forno, como eu já falei, e o pessoal ia enfornar tudo ali em casa, fazer o pão. Às vezes, quando a gente ficava nas filas de madrugada, nas padarias, a gente vendia, dava um filão por pessoa. Então às vezes ficava uma pessoa na rua esperando, a gente ficava na fila, pegava um filão e deixava com a pessoa, guardando o pão. A gente voltava pra fila e pegava mais um pão. A gente organizava, uma ficava segurando os pães pra gente voltar pra fila e pegar mais pão, porque eles davam pouco, davam um filão pra cada pessoa, porque não tinha pãezinhos. Era filão mesmo, era bengala, filão. A gente falava filão.

 

P/1 – E tinha blecaute na época da Guerra?

 

R/1 – Tinha, tinha blecaute. Me lembro, ali em casa – eu morava na 209, nessa época – era tudo janelas que davam pra rua, e a veneziana era para o lado de dentro... Sempre ficavam pra rua, então tinha que ficar tudo fechado. Punha uns panos pretos na janela, porque não podia ver a claridade. Passavam os aviões, o meu pai fechava todas as venezianas para o lado de dentro, punha uns panos pretos, em volta da lâmpada também punha uns panos pretos, e a gente ficava tudo ali encolhidinho, porque a gente ouvia os aviões passarem e não podia falar nas esquinas. Não podia ter ninguém nas ruas quando passava... Tudo dentro das casas.

 

P/1 – E como é que eles avisavam na hora que tinha que entrar?

 

R/1 – Avisavam pelo rádio: “Tal hora vai ter blecaute.”, avisavam pelo rádio. As firmas, tudo, fechavam antes. Quem trabalhava como o meu pai, que trabalhava no mercado, vinha antes de escurecer. Todo mundo se recolhia antes de escurecer, porque as ruas ficavam todas escuras. Não podia ter claridade nenhuma, nem do vão da porta, nada! Ficava tudo escuro!

 

P/1 – Vocês lembram da época da construção do metrô aqui, quando começou a ser construído? A desapropriação do terreno...

 

R/1 – Eu me lembro mais ou menos que desapropriaram. Tinham muitas casas que foram desapropriadas, muitas pessoas se aborreceram. Pessoas que eram imigrantes, que tinham conseguido comprar suas casinhas, teve muita briga. Eles desvalorizaram muito.

 

R/2 – Os pais de um colega meu que tinha lá Ladeira Porto Geral, que fizeram lá, e tem uma vila estreitinha... Não tem uma vila estreitinha lá na Ladeira? Tinha uma casa ali. Justamente também aquela senhora precisou sair de lá, porque lá era saída de emergência.

 

P/1 – Lá é estação Dom Pedro, né?

 

R/2 – Não, Santa Ifigênia. E elas precisaram sair. Pra mulher sair... Ela custou pra sair. Assim que saiu ela acabou de falecer, ela custou pra fazer aquela casa. Saiu, assim que acabou de sair de casa... Ele recebeu (850 reais?). A mulher acabou morrendo.

 

P/1 – Você acha que melhorou a vida no bairro, com a chegada do metrô?

 

R/1 – Com a chegada do metrô melhorou muito, bastante. A única coisa é...

 

R/2 - Pra nós não serve.

 

R/1- É muito longe de lá até aqui.

 

R/2 – No Parque Dom Pedro tem muito assalto.

 

R/1 – A melhora do transporte é ótima, mas tem que ter policiamento, tem que ter policiamento. Minha filha já foi assaltada duas, três vezes ali no Parque D. Pedro. Minha outra menina que trabalha na Paulista, na época ela trabalhava na Liberdade, ela também foi assaltada. E eu também fui assaltada, ali próximo da 25 de Março.

 

R/2 – Minha colega que veio sábado falou que foi assaltada, o cara abaixou a calça dela, ia estuprar ela. Vinha vindo gente e ele fugiu.

 

R/1 – O único perigo é esse, o roubo, né? Agora, se não fosse isso, é um transporte maravilhoso. É rápido, é muito rápido, muito bom.

 

P/2 – Vocês ainda moram aqui no bairro?

 

R/2 – Eu moro.

 

R/1 – Ela mora. Eu, faz 15 anos que eu saí do Brás, fui pra Vila Guilherme. Eu morava numa casa muito grande, aí fiquei sozinha, os filhos casaram, fiquei viúva, minha mãe faleceu faz três anos e agora eu moro na Voluntários. Comprei um apartamentinho pequeno ali, moro ali, mas eu fico sempre no Brás, porque eu tenho as amigas que moram no Brás, tenho a minha prima, a Gina, e eu fico na casa dela. Eu vou de domingo, de tarde, minha filha vem me pega e me leva pra minha casa. Quando é na terça-feira de manhã eu pego o ônibus e venho embora, até no almoço de sexta-feira.

 

P/1 – E como é pra vocês se encontrarem, as pessoas de infância, na Associação São Vito, pra fazer comidas dos almoços de sexta-feira?

 

R/1 – Toda terça-feira já começa.

 

P/1 – Reúne todo mundo?

 

R/1 – Tem horário já estipulado, e nós nos encontramos todas lá, ficamos até à noite. Às vezes, tem dias que a gente termina mais cedo, mas é muito difícil. Nós fazemos, às vezes, uma comidinha, uma janta. Nós jantamos. Umas já vão pra casa porque têm que preparar comida pra família, outras têm que ir lá no Pari buscar verdura que é mais barato, traz em caixa...

 

P/1 – Vocês trabalham todas voluntariamente?

 

R/1 – Todas voluntariamente. Agora, na creche tem as funcionárias, aí já é tudo pago. Mesmo a minha nora, ela é ajudante de cozinha, ela trabalha lá na creche. Agora, o marido da Gina, que é o trabalho dele, ele que abre ali, ele que fecha, é o trabalho dele. A Gina já é voluntária, nós somos todas voluntárias. Tem alguns que são pagos pelo trabalho deles. Agora, as mulheres são todas voluntárias.

 

P/1 – E quando vocês se reúnem lá, as senhoras, vocês têm recordações, conversam sobre o passado?

 

R/1 – Tem, tem, muitas! Demais!

 

P/1 – Se vocês pudessem, tivessem o poder de mudar o bairro, o que vocês mudariam para o futuro, daqui a 50 anos?

 

R/1 – A coisa que a gente mudaria é que se transformasse no que era, que ficavam os italianos todos lá... Porque veio muita gente do norte, e fizeram pensões... Nos casarões fizeram pensões. Vem muita gente do norte, e estragaram, simplesmente estragaram o Brás, sabe?

 

R/2 – Uma casa eles alugam pra cinco, seis famílias, fica aquele...

 

R/1 – Uma casa grande às vezes é feito pensão, às vezes é muita família. E o contato pessoal é completamente diferente do nosso. As nossas tradições, a nossa formação, que é o principal, uma formação muito boa, a educação. É completamente diferente o modo de vida, não combina com a gente. Uma vida muito diferente. Então o pessoal que tem algum dinheiro a mais, que já fez fortuna, procura sair de lá. Foi assim que as pessoas foram saindo do Brás, por causa do modo de vida desse pessoal que veio do norte.

 

P/1 – A senhora lembra quando foi que começaram a vir os migrantes do norte? Em que época?

 

R/1 – Os migrantes do norte? Olha, mais ou menos eu acho que foi em 60, por aí já começaram a chegar. Começaram em 60, mais ou menos. Eu já era casada há uns três anos e me lembro que começaram a vir, e já começou a modificar. O pessoal que estava bem já foi saindo, já foram alugadas essas casas por esse pessoal, já foi se modificando. Mas tem o pessoal que continua lá, tem o pessoal que não saiu de jeito nenhum, que continua ainda lá, desde então. Os italianos que continuam lá, tem muitos ainda.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que vocês gostariam de acrescentar na entrevista?

 

P/2 – Alguma coisa que vocês gostariam de registrar, que constasse na entrevista?

 

P/1 – Então a gente gostaria de agradecer muito a participação de vocês.

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