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História

"Quando contam uma história bonita"

História de: Lalau (Lázaro Simões Neto)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/06/2008

Sinopse

Lalau, que não é Stanislaw, nem Nicolau, mas Lázaro, herdou o apelido já aos 30 anos de idade. Faz da Publicidade e Propaganda, curso que é formado, parte de sua Literatura, sempre voltada para o estímulo e busca pelo interesse das crianças. A “biblioteca pequenininha” do avô fora seu recanto nos encontros de família aos domingos. Dentre Jorge Amado, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Dostoievski e José de Alencar, suas vastas referências e o amigo, Zé Paulo Paes, deram-lhe “o caminho das pedras”.

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História completa

P/1 – Lalau, fiz uma enquete aqui com os vendedores da livraria, se você se chamava Stanislaw, Ladislaw ou Nicolau. Então queria que você falasse...

 

R – Ou nenhuma das anteriores.

 

P/1 – Ou nenhuma das anteriores. Você podia então falar o seu nome...

 

R – E o que é que deu?

 

P/1 – Deu Nicolau.

 

R – Erraram redondamente.

 

P/1 – Então você poderia falar o seu nome completo, data e o local de nascimento?

 

R – O meu nome completo é Lázaro Simões Neto. Nasci em sete de janeiro de 1954, no Cambuci, em São Paulo. O nome do meu avô, lógico, é Lázaro Simões Lalau foi um apelido que me deram há muitos anos. Acho que é bom também contar essa... Teve uma época... Eu sou publicitário, e trabalhei em uma agência, no fim dos anos 1970, comecinho dos anos 1980, chamada Gang, em Pinheiros. E naquela época eu colaborava para um jornal, para uma revista no sindicato dos não sei quem, não me lembro mais. E eu tinha uma página lá que eu fazia crônica sobre a cidade, a revista toda era sobre São Paulo. E eu sempre gostei muito de humor, coloco humor no meu trabalho também. E um amigo que leu uma das crônicas que eu fiz, que eu nem lembro mais qual, ele, exageradamente, me comparou ao Sérgio Porto. Estava maluco, completamente maluco. E com esse negócio de Lázaro, Lazinho também, que era outro apelido, ele falou: "Não, é Lalau", porque o Sérgio Porto era Stanislaw Ponte Preta né, tinha... E ficou. E esse apelido pegou e...

 

P/2 – Então não é um apelido na infância?

 

R – Não, não é de infância não, já tinha lá meus trintinha. Era Lazinho, Lazinho.

 

P/1 – E Lalau, você tem assim... Qual a recordação mais antiga da sua infância, da sua casa de infância? Como era o Cambuci naquela época?

 

R – Olha, a mais antiga eu mudei, eu estava até comentando com o rapaz que me trouxe aí, eu muito cedo fui morar em Santo Amaro, por causa de um emprego que meu pai arrumou lá. E naquela época − “Naquela época”, até parece que é uma época, uma era mesozóica. Faz pouco tempo − Santo Amaro ainda tinha muito de cidade de interior. Tinha prefeitura, passava boiada na rua que eu morava. Eu pescava na represa. Então essas são as primeiras recordações que eu tenho, devia ter 5, 6...

 

P/1 – Você via boiada passar?

 

R – Passava em frente de casa. Passava, pegava a Avenida João Dias e ia embora. Impressionante. Mas era assim, era bem bucólico, bem... Até hoje tem amigos meus que falam: "Ah, eu preciso ir até São Paulo". São Paulo é a Praça das Bandeiras. Porque naquela época tinha um ônibus só, que era Santo... Era, acho que vinha de Itapecerica, Taboão, sei lá. Taboão-São Paulo. Só que ele parava na Praça das Bandeiras, e ali era São Paulo. Era um grande barato ir para São Paulo. Eu com 14 anos é que vi, pela primeira vez, uma escada rolante, achei o máximo. Na praça, acho que, Júlio Prestes. Na Prestes Maia, Praça Prestes Maia, em que ia comprar o passe escolar. E eu fiquei horas, subia e descia, subia e descia.

 

P/2 – Quer dizer, em Santo Amaro não tinha escada rolante.

 

R – Não tinha escada rolante. E o cinema não tinha carpete. Eu fui no Windsor, Cine Windsor, na Ipiranga, não sei, São João, sei lá, e eu fiquei mais admirado com o carpete do que com o filme. “El Cid”, o filme, movimentadíssimo, mas o carpete me chamou muita atenção.

 

P/2 – Você tem irmãos, Lalau?

 

R – Não, não tenho, eu sou filho único. Os meus pais perderam cinco filhos. Uma série de problemas.

 

P/2 – E com quem você brincava nessa época lá em Santo Amaro? Como é que era a vida de criança?

 

R – Era na rua, era na rua, totalmente diferente de hoje. Hoje é esse confinamento em condomínio, essas... Era na rua. Vivia jogando futebol na rua, bolinha de gude. Esse tipo de coisa, esse tipo de brincadeira. Tinha muito mato, tinha muito passarinho. Pescava, eu pescava acho que três, quatro vezes por semana. Ou ia à represa, ou nas lagoas que tinham ali, onde tem o Transamérica, onde tem o Carrefour, era tudo ali.

 

P/1 – Eram lagoas?

 

R – Eram lagoas.

 

P/1 – E que peixe que dava?

 

R – Traíra, tinha muita traíra lá. Ali é um brejo danado, cara. Não sei como não afundou até hoje.

 

P/2 – E livros? Você já curtia ler quando era pequeno?

 

R – Eu gostava, eu gostava por influência do meu avô. Meu avô tinha uma biblioteca pequenininha na casa dele, e quando a gente se reunia lá domingo − aquele domingão da família − eu sempre dava uma escapadinha para ver. Mas naquela época não tinha a variedade e a quantidade de livros para criança como hoje. Hoje, pô, eu tenho um filho que vai fazer oito anos agora, ele tinha livro para morder, tinha livro para tomar banho, tinha livro para arrastar no chão. Naquela época não tinha. Eu lembro da biblioteca do meu avô que tinha Jorge Amado, tinha alguns volumes do Jorge Amado. Tinha uma coleção de Émile Zola. Olha, um moleque de dez anos folheando Émile Zola. E tinha “Thesouro da Juventude”, com "th". Tinha outro que eu achava ótimo, que era “O Mundo em Que Vivemos”. Então eu gostava muito de ir lá e ficar lendo essas coisas. Não tinha muita coisa, não tinha essa variedade. Eu lia Monteiro Lobato, lógico; Irmãos Grimm, e por aí.

 

P/1 – Ô Lalau, antes de entrar assim, na leitura, propriamente dita, e as histórias antes de você se alfabetizar? Tinha esse costume na sua casa de contar história? Quem contava?

 

R – Não tinha, não tinha. Em casa não tinha esse costume não, eu não lembro. Era mais meu avô mesmo que fazia esse... Quando a gente se encontrava assim ele puxava mais os netos para a leitura, para contar alguma história, um caso. Ele é do interior, era do interior, era de Botucatu, então tinha um monte de história para contar. História de saci, mula-sem-cabeça, principalmente essas de assombração, que eram as mais interessantes.

 

P/1 – Ah. Saci, assombração...

 

R – Mula-sem-cabeça...

 

P/2 – Devia ter muito saci lá em Santo Amaro...

 

R – Tinha, tinha bastante, tinha até com duas pernas. E tinha biblioteca. Eu lembro também que, aliás, mudou o nome da biblioteca, a Biblioteca Kennedy. Não sei se vocês conhecem ali a região. Logo que você entra na Avenida João Dias, indo em direção a Itapecerica e tal, tem uma baita biblioteca enorme, do lado direito assim. Então aquela biblioteca, também fui bastante lá quando era garoto. Eu estudei em escola municipal, que naquela época era outra coisa. Eu tinha uma professora de português, por exemplo, no ginásio, que a gente fazia análise sintática de “Os Lusíadas”, olha que maluquice. E redação todo dia.

 

P/1 – Análise sintática de “Os Lusíadas”?

 

R – Análise sintática dos... Nem me pergunte como é que a gente fazia, mas fazia. Porque tinha redação todo dia, e aquelas leituras de sempre: José de Alencar, Machado de Assis, aquela coisa toda. Dostoiévski, até Dostoiévski.

 

P/1 – Uma criança lendo um relato desse hoje, ela se espanta.

 

R – Completamente.

 

P/1 – Porque mudou a... Conta um pouquinho então que autores você... Isso tinha quantos anos?

 

R – Essa época eu devia ter uns nove, dez anos. Mas tem aquele livro que eu trouxe que você viu, que foi um prêmio por eu ter passado em primeiro lugar.

 

P/1 – Vamos começar. Mostra para a gente, mostra para a câmera.

 

R – Foi um prêmio que eu ganhei quando passei em primeiro lugar no primeiro ano primário. Olha que maravilha. Uma edição de “Pinóquio no País dos Brinquedos”. Tem até a dedicatória da professora: "Ao Lázaro, lembrança de sua professora. Dona Dirce. 1961".

 

P/2 – Mas Lalau, antes desse presente ou nessa época, existe uma leitura, assim, que te fisgou para o mundo da literatura?

 

R – Ah, Monteiro Lobato.

 

P/2 – Ou não, foi um processo, assim?

 

R – Não, Monteiro Lobato. Com certeza Monteiro Lobato. Porque eu, antes desse aqui, eu tinha esse de cabeceira.

 

P/1 – Qual é esse?

 

R – Esse é o “Dom Quixote das Crianças”, do Monteiro Lobato.

 

P/1 – E a introdução do Monteiro Lobato foi via escola ou na sua casa tinha?

 

R – Não, não. Em casa não tinha, não tinha essa coisa de livro, sabe? O livro não fazia parte da casa, infelizmente. Mas acho que foi mais na escola. Eu era muito curioso. Quando abriram a tal de biblioteca, eu fui lá mexer. E pronto, fui lá e fiquei conhecendo. Monteiro Lobato, Irmãos Grimm, aquele dos escoteiros, que é uma coisa...

 

P/1 – Conta o que é que... Isso é legal, isso é um capítulo à parte.

 

R – É esse aqui, ó. Esse também era outro de cabeceira, chama “Três Escoteiros em Férias no Rio Paraguai”, é uma série. Então tinha este, tinha “Três Escoteiros em Férias no Rio Tietê”, “Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná”, “Caçando e Pescando por Todo o Brasil”, esse eu não li. E o outro, que é uma edição esgotada aqui de 1900 e bolinha, chamado “Tragédias Caboclas”. Esse eu não tive a felicidade de...

 

P/1 – E o que é que os escoteiros faziam nesses livros?

 

R – Olha, eles acabavam com tudo. Eles matavam onça, matavam jacaré, caçavam passarinho. Faziam altas barbaridades, e eu achava... Eu não sei, não era isso que me atraía, me atraía era a aventura toda. Eles andavam nos barcos e tinham um tio bacana. E aparecia sucuri, aparecia jacaré, aparecia anta, bugio.

 

P/1 – E eles matavam tudo?

 

R – Eles matavam tudo.

 

P/2 – Totalmente incorretos.

 

R – Totalmente, politicamente...

 

P/2 – “As Caçadas de Pedrinho” também não...

 

R – Pois é. Mas acho que a época era essa. Tinha muito bicho. Sei lá como é que era que os caras pensavam. Mas eu acho que o que me atraía era a aventura. Eu tenho uma: o meu avô, ele tinha um afilhado em Três Lagoas, no Mato Grosso, e vira e mexe a gente ia para lá. O meu pai ia pescar com meu avô e meus tios e eu ia junto, era uma maravilha. Era assim, dias de viagem até chegar na fazenda, que era de Fusquinha, Aero Willys, aquela coisa toda. E tinha muito bicho. Muita, a natureza completamente livre ali. Era muito, muito legal. Mas eu gostava do raio do livro que os caras matavam tudo.

 

P/2 – A gente sempre pergunta para os escritores sobre leituras. Mas me interessa muito saber sobre a escrita. Você descobriu que sabia escrever, que gostava de escrever, muito cedo?

 

R – Eu acho que sim... Não, tenho certeza, foi sim. Eu falei dessa professora que dava uma redação toda aula, e ela começou a ler as minhas na classe e tal. Aí eu comecei a caprichar mais, comecei a me interessar mais, ler mais. Que para escrever tem que ler, não tem perdão. Então foi daí, foi daí mesmo. Aí acabei ganhando festival de música, sabe aquelas coisas? Virava peixinho da professora. Escrevia no jornalzinho da escola.

 

P/1 – E aí você escrevia o quê? Versos, orações?

 

R – Narrativa mesmo... "Minhas férias não sei onde", sabe? Umas coisinhas de escola.

 

P/2 – No Mato Grosso?

 

R – No Mato Grosso, é. Sem matar nada.

 

P/3 – Mas tem essa figura da professora como uma influência mesmo?

 

R – Tenho, é muito forte, muito forte.

 

P/3 – Ela chegou a perceber?

 

R – Chegou.

 

P/3 – Que você escrevia bem?

 

R – Chegou. Pelo que eu me lembro, assim, mais ou menos, ela até dava umas...

 

P/3 – Fica um pouco isso de se destacar, mesmo, na turma.

 

R – É, até indicação de leitura. Eu lembro que uma vez ela... A classe leu não sei o quê, eu li “O Jogador”, de Dostoiévski. Como é que ela chamava-se? Dona Ivete, maravilhosa. E aí foi indo. Aí até a minha escolha profissional foi por aí também. Queria trabalhar com alguma coisa que eu escrevesse. Tinha jornalismo ou propaganda, no fim acabei indo para propaganda, porque eu gostava de desenhar também, acabei enveredando por propaganda. Redator há 30 e poucos anos.

 

P/1 – Ô, Lalau, mas antes de chegar nessa etapa da sua vida, de escolha profissional, você consegue sistematizar mais ou menos para a gente, assim, vamos dizer, uma linha do tempo, uma cronologia das suas leituras marcantes? Você começou com, a primeira marca foi Monteiro Lobato.

 

R – Isso.

 

P/1 – Você pode ir evoluindo na sua biografia baseado, um pouco, nessa leituras marcantes? Contando um pouco para a gente aquilo que te interessou, enfim.

 

R – É, comecei com Monteiro Lobato, Irmãos Grimm. Essas coisas também de “Thesouro da Juventude”, umas coisas mais abertas, sabe? Na literatura mesmo eu sempre gostei muito da literatura brasileira. Então teve uma época da minha vida, assim, que eu li a obra inteirinha do Lima Barreto. João do Rio também foi um cara que eu gostei muito, gosto muito. Machado, lógico. É difícil, é muita coisa, é difícil saber assim.

 

P/1 – Então Lalau, você falou que escolheu porque você gostava de escrever, e isso marcou inclusive na escolha da profissão. E aí você passou no vestibular, como é que foi isso? Você fez curso de publicidade?

 

R – É, eu fiz, comecei a trabalhar antes de entrar na faculdade. Arrumei já um estágio e comecei a trabalhar antes de entrar. Na verdade eu fiz faculdade porque na época corria aquela coisa que a profissão não era regulamentada − como até hoje não é −, então quem não tivesse diploma... Eu peguei, fiz vestibular e entrei numa faculdade, na Alcântara Machado, ali em São Judas. E passei os anos 1970 numa faculdade, imagina que coisa.

 

P/1 – Em que agências você trabalhou?

 

R – Trabalhei na Gang, na Norton, na Núcleo, na SGB, na Propeg, na Castelo Branco, na Delta, um monte.

 

P/1 – E Lalau, e quando é que aparece o seu primeiro livro?

 

R – Então, foi até fim dos anos 1970, comecinho de 1980, eu estava nessa agência Gang, e eles pegaram um trabalho para fazer da Hoetsch, que era Ciranda de Livros, que acho que deve existir até hoje. Eles montam biblioteca, não lembro mais como é que funciona. Eu não estava envolvido na campanha, mas o pessoal que estava fazendo ficava na mesa ao lado. Tinha um monte de livro que o pessoal do atendimento mexia, eu comecei a ver. E um me chamou a atenção, que foi um do Zé Paulo Paes, agora não lembro qual deles. Eu comecei a me interessar em fazer poesia. Porque antes eu, como te falei, fazia crônica, conto para uma revista, fazia teatro alternativo, aquelas coisas... E quando eu conheci a obra do Zé Paulo, deu um: "Pô, isso é legal, vou fazer alguma coisa por aí". E escrevi o “Bem-Te-Vi” nessa época. Inteirinho, rapidinho. Ele ficou na gaveta dez anos. E... Conto essa história? Como é que...

 

P/1 – Conta, claro.

 

R – Bom, uma vez eu fui no lançamento do Zé Paulo, “Olha o Bicho”, um livro maravilhoso dele.

 

P/1 – Com o Rubens Matuck.

 

R – Mas não tive peito de chegar nele e falar: "Escuta, posso mandar um trabalhinho para o senhor dar uma olhada?". Não tive coragem, eu sou meio tímido também. Tempos depois, estou lendo um jornal e uma pessoa em uma seção lá de leitor, perguntando o endereço do Zé Paulo Paes, que queria mandar uma correspondência. “Cara”, ele morava a cinco quadras da minha casa, olha que absurdo. Lá em Santo Amaro, morava lá. A dona Dora mora até hoje na mesma casa. Eu botei tudo no envelope, joguei em baixo da porta dele. Uma semana depois vem uma cartinha, e tinha um bilhete: "Gostei muito, tive a liberdade de mandar para a Companhia das Letras". "Ahn, o cara está louco." Aí eu nem respondi. Eu falei: "Não, eu vou...". Eu fiquei meio atordoado. Uma semana depois: "Acho que você não recebeu minha carta". Deu o telefone, eu liguei para ele e aí conversamos, ficamos amigos e tal. Depois a Lili, a Lilian me ligou e já estava pronto o livro, praticamente pronto. Não precisava nem mexer uma vírgula. Ele me deu toques, “faz assim, faz isso”. Imagina um cara desse tamanho te dando o caminho das pedras. Foi daí...

 

P/1 – E esse livro já foi ilustrado pela Laura?

 

R – Foi ilustrado pela Laura.

 

P/1 – Aí que você conhece a Laurabeatriz?

 

R – Foi, é. Foi a Companhia mesmo que escolheu a Laura. Aliás, eu fiquei conhecendo a Laura no dia do lançamento do livro (risos). Até então a gente não tinha conversado. Isso foi em 1994. Quer dizer, então o “Bem-Te-Vi” estava escrito desde 1982, 1981, na gaveta.

 

P/1 – Então aí teve algum impacto, esse lançamento? O que é que aconteceu, com o “Bem-Te-Vi” sendo lançado?

 

R – Olha, a coisa mais impactante que aconteceu no lançamento foi que me confundiram com o Fernando Morais. Porque eu tinha barba, tinha o cabelo, e ele ia lançar o “Chatô” no dia seguinte. Foi numa bienal, eu estava numa mesinha aqui e tinha aquela pilha de “Chatô”. Então as pessoas me confundiam com o Fernando Morais. Isso foi a coisa mais impactante, assim.

 

P/1 – Vinham com o livro para você autografar?

 

R – Não, perguntavam o preço. Eu vendi uns três ou quatro. Aliás, ele está me devendo uma comissãozinha aí. Não, mas foi legal. Foi, porque o livro logo em seguida foi adotado, foi adotado muito rapidamente. Começou aí, já encomendaram outros. Em seguida eu fiz o “Girassóis” e o “Fora da Gaiola”, aí foi indo.

 

P/1 – Quer dizer, a escolha da temática da natureza, dos animais, foi uma coisa mais por parte da editora, de apostar nessa linha, ou você bateu um pouco?

 

R – Não, ela já acontecia naturalmente. A gente forçou a barra depois de certo tempo, mas em todos... Os primeiros livros sempre têm um toque de bicho ou de uma coisa em relação à natureza. O que marcou mesmo a nossa trajetória em prol disso foi o “Brasileirinho”, essa série do “Brasileirinho”. Que é uma ideia da Laura, da Laura com a Ângela, a irmã dela.

 

P/1 – Mas, ô, Lalau, por exemplo, você conheceu a Laura no lançamento do “Bem-Te-Vi”?

 

R – Do “Bem-Te-Vi”.

 

P/1 – Quer dizer, hoje em dia vocês têm o que, 15 livros juntos?

 

R – Acho que sim, deve ser por aí. Ou mais.

 

P/1 – Como é que criou essa amizade, essa relação?

 

R – Não sei. Olha, a história é engraçada também. A Laura também foi publicitária. Nós chegamos a trabalhar na mesma agência em épocas diferentes. Eu comecei querendo ser diretor de arte e ela sendo redatora. A gente inverteu. Então já tem esse roteiro, acho que já estava pronto faz um tempinho. E rolou uma afinidade legal...

 

P/2 – Mas como publicitários vocês não se conheceram, só mesmo quando...

 

R – Não, não. Incrível. Tenho uma amiga que é madrinha de uma das filhas da Laura, e trabalhamos juntos por anos. E agora, há pouco tempo que eu fiquei sabendo disso.

 

P/2 – Mas como é que foi isso? Porque não é muito comum, realmente, um escritor ficar com uma parceria assim como você fez com a Laura. Isso como é que foi? Vocês passaram a se encontrar?

 

R – Acho que isso aconteceu naturalmente. Não teve, foi acontecendo. Quando a gente viu já tinha meia dúzia, dez livros juntos, e criando projetos juntos.

 

P/4 – Lalau, e o que é que vem antes? Como é que é esse processo criativo a quatro mãos? Esse casamento, assim, de propósitos, e a criação do texto, a tradução do texto em imagens? O diálogo da imagem com o texto, como que é?

 

R – É, nos primeiros livros a gente era bem separado: eu fazia o texto, mandava para ela. Depois de um tempo a gente começou a conversar mais, elaborar mais, projetar mais o que a gente vai fazer.

 

P/2 – Você passou a dar palpite na ilustração?

 

R – Dou. Ela também dá no texto, muda toda hora, muda o bicho. Mas é legal, tanto que a gente está querendo fazer... Tem um projeto nosso também que é ao contrário, para ver o que é que dá: ela me manda a ilustração, e eu... Para sentir um pouco como é que dá.

 

P/1 – Já que você trouxe, mostra para a gente aí o “Bem-Te-Vi”.

 

R – “O Bem-Te-Vi”. Então, esses três volumes...

 

P/1 – Como o Lalau é organizado, ele tem todos os seus livros...

 

R – É, estão todos...

 

P/1 – ...Novinhos.

 

R – Esse é o “Bem-Te-Vi”, que foi o primeiro. Depois esses dois foram lançados juntos: o “Fora da Gaiola” e o “Girassóis”. Este já é bem cheio de bichos, só fala de passarinho.

 

P/2 – Você gostava de bichos quando era pequeno?

 

R – Sempre gostei.

 

P/2 – Tinha cachorro, gato?

 

R – Não. Não tinha bicho preso em casa, não. Gostava de bicho solto. Como eu te falei, a gente ia para Mato Grosso, mesmo onde eu morava, tinha muito, era bem...

 

P/2 – Até hoje é assim, você não tem?

 

R – Não.

 

P/1 – Lalau, você falou assim, que é do “Brasileirinho”. Vocês fizeram uma série. Isso como é que surgiu, foi uma ideia da Laura?

 

R – Foi uma ideia da Laura, de fazer sobre os bichos, os brasileiros em extinção, que era uma lista enorme. E: "Vamos fazer?" "Vamos". Não tem muita... As coisas, assim... Que nem, eu fui ver uma vez uma entrevista do Mario Vargas Llosa, um puta de um monstro sagrado, e alguém perguntou: "Mas como é que você começa a escrever?", ele falou: "Não sei". Então tem algumas vezes que a gente não sabe. 

 

P/4 – Agora, a Laura tem uma motivação forte assim, um engajamento, ela é ambientalista...

 

R – Ela tem.

 

P/4 – E ela é uma ambientalista de carteirinha.

 

R – Ela é.

 

P/4 – E, de qualquer forma, isso deve também pautar um pouco, né, a parceria de vocês.

 

R – É. Até de vez em quando eu chego para ela: "Laura, eu gosto muito de bicho, mas vamos fazer outra coisa".

 

P/1 – Então mudando o foco, outra paixão sua − que inclusive virou livro − foi o futebol.

 

R – Foi o futebol.

 

P/1 – Você jogava bola quando criança?

 

R – Jogava. Jogava, meu pai foi jogador.

 

P/1 – O seu pai?

 

R – O meu pai foi.

 

P/1 – Fala um pouquinho disso.

 

R – Jogou no Juventus, na Portuguesa, Portuguesa Santista. Chegou a ir ao Corinthians, mas aí eu atrapalhei a jogada. Porque ele me teve com 22 anos. Aí teve que parar naquela época.

 

P/1 – E ele jogava de quê?

 

R – Ele era atacante. Era diferente de hoje. Hoje tem ala, tem não sei o quê. Ele era atacante. Eu também jogava no ataque.

 

P/1 – E você chegou a treinar no Corinthians?

 

R – Não, no São Paulo.

 

P/1 – Ah, melhor.

 

P/3 – Você é são paulino?

 

R – Não, era um problema.

 

P/3 – Qual que era o time?

 

R – Eu sou corintiano. Mas era um problema, eu não fui para a frente também, primeiro porque eu não tinha muita paciência de treinar, esse tipo de coisa assim. Eu gostava de jogar na várzea com os amigos. E eu nasci de óculos, ao contrário do Herbert Vianna, eu nasci de óculos, sou míope. E naquela época, quando eu fui para o São Paulo, eu não tinha lente, não tinha cirurgia, não tinha nada. Eu, quando estava chegando perto do Morumbi, tirava os óculos para acostumar, mas aí... Até que um cara lá percebeu que eu dava uma fechadinha. Percebeu e eu confessei. Confessei, aí tive que parar. Mas graças a Deus, aí fui jogar com meus amigos na várzea, mais divertido.

 

P/1 – Ô Lalau, lê um poema do seu livro de futebol.

 

R – Ele foi lançado na fatídica Copa de 2006. Ó, tem este aqui, que o João, meu filho, fazia uma escolinha de esporte no clube. Um dia ele me ligou no escritório todo eufórico: "Pai, fiz um gol". Pô, isso é importante demais na vida de um homem. É o primeiro sutiã do cara. Fazer um gol. Aí eu fiz "O Primeiro Gol":

 

"Na torcida, reis, anjos, duendes e fadas.

A rede, estrelas de mãos-dadas.

O gramado, chocolate granulado de brigadeiro.

Um super-herói mascarado era o goleiro.

As traves, imensas espaçonaves.

Nos meus pés raios, trovões e cometas.

Corri entre milhões de planetas.

Gingando, brincando, sorrindo, indo, indo, lindo.

E chutei para dentro do gol a bola, a Lua e o Sol.

Golaço."

 

E é bem a cabeça do João, ele é todo cheio de espaçonaves, de heróis, de aliens. E tem outro aqui também que é... Eu acho muito legal, que é o "Pobre Dedão", que é um fato verídico que aconteceu comigo. Aqui. A ilustração da Laura, que maravilha.

 

"Pobre dedão,

Um acidente ridículo, triste acontecido.

Meu dedão, pobre dedão

Por um triciclo foi atropelado.

Ficou roxo, dolorido, todo inchado.

Meu dedão, pobre de mim.

Como jogar futebol com ele assim?

Se eu chuto, ui.

Se eu corro, ai.

Se eu piso, ui.

Se eu jogo, dói.

Meu dedão, meu dedãozinho

Fique logo bonzinho.

Meu herói."

 

 

P/2 – Você acha, Lalau, que as crianças gostam mais de poesias do que de prosa?

 

R – Eu não sei, eu sei que a poesia atrai bastante. Eu acho que a brincadeira com a palavra, como o Zé Paulo sempre falava, acho que isso atrai a criança. A surpresa de uma rima, uma coisa diferente. Acho que isso atrai.

 

P/2 – É curioso, porque as editoras, elas não investem muito em poesia adulta, mas em poesia infantil, elas se animam mais.

 

R – Legal, ótimo, né, Claudio. Dou o maior apoio, o maior apoio.

 

P/1 – E, Lalau, você começa na poesia, faz vários livros de poesia, e aí você faz uma primeira experiência em prosa; é isso?

 

R – É, tem duas. Tem “O Caçador de Palavras”, e a série do papagaio, “Diário de um Papagaio”, que eu também não sei por que é que fiz, mas ficou legal.

 

P/1 – Deu aquele negócio que dá no Vargas Llosa e...

 

R – É, na verdade eu tive mais experiência com prosa do que com poesia. Mesmo na leitura, mesmo em atividade assim, como na revista, ou no trabalho. Eu acho que o trabalho também influenciou muito a chegar a essa coisa, o curto e o grosso. Ajudou bastante, e na verdade, “O Caçador de Palavras” também era uma coisa que estava numa gaveta faz tempo. Só dei uma ajeitada nele. “O Diário de um Papagaio” não, já foi uma coisa que Cosac pediu. Foi uma...

 

P/2 – Fala um pouco mais sobre esses dois livros.

 

R – Qual? O...

 

P/2 – Essas duas experiências em prosa.

 

R – O Caçador é este aqui. Saiu pela Scipione. Esse já estava, como eu falei, há um tempinho na gaveta. Tinha uns estudos de fazer uma coisa com a palavra. Uma história em que a palavra fosse o grande personagem. A história é de um garoto que a professora pede para ele, para a classe, para cada um escolher uma palavra para levar na aula e lá falar sobre a palavra que escolheu. Só que a palavra que ele escolhe, ela vai trocando de significado e de forma durante o dia. Então ela começa sendo mortadela, depois ela vira mosca e sai voando. Vira um peixe e mergulha. E ele passa a caçar essa palavra até o fim. E tem um trecho aqui que eu acho muito legal: "O menino descobriu...", "o menino não perdeu...", "as palavras são muito legais, e fazem bem para a nossa vida. Se quisermos falar alguma coisa para uma pessoa, usamos palavras doces, palavras alegres, palavras gostosas. Podemos pegar algumas delas e inventar uma piada para alguém rir. Podemos fazer versos e, com palavras de sons parecidos, criar rimas. O menino descobriu também que as palavras têm cor, como a palavra céu, que é azul; têm luz, como a palavra estrela, que é brilhante; têm forma, como a palavra lua, que é redonda". No fim, quando a molecada vai entregar a palavra, um deles diz assim: "Eu tinha a palavra música, mas ela entrou no meu ouvido e não saiu mais". Por isso é que ele não fez a lição. "A minha era a palavra leite, e o meu gatinho bebeu", "eu ia trazer a palavra oxigênio, só que, sem querer, respirei perto dela." Então também acho que foi uma forma de brincar com a palavra que eu fiz este aqui. No caso do “Diário de um Papagaio”, não, era um... Foi um livro que envolveu muita pesquisa, que é uma leitura muito simples. Eu acho muito simples o Diário, mas ele é muito rico em informação. Então acho que tinha que ser uma prosa mesmo. É a história de um papagaio que se perde do bando, e ele indo atrás do bando dele, passa por um trecho da Mata Atlântica e vai mostrando o que tem lá. A fauna, a flora, os projetos de conservação. Até que ele encontra o bando e tem um final feliz. Então acho que esse tipo de trabalho, a poesia, eu acho que ia ficar um pouco cansativo, meio forçado.

 

P/4 – Você tem um livro muito bacana também sobre cores.

 

R – Tenho. Esse é muito legal.

 

P/4 – É muito legal. Livros de que gosto mais. Fala um pouquinho dele para a gente.

 

R – É, este aqui surgiu assim. Tem muito livro com o mesmo tema. Muita coisa que... De cores tem um caminhão, se for lá fora, vê um monte. E, mais uma vez, eu tentei pegar e abordar de outra forma. Mostrar de uma forma mais, mais surpreendente, mais bem-humorada. Não ficar só naquela coisa meio... Acho que eles são muito didáticos, os que tem por aí. Então, por exemplo, você pegar... Até o verde eu fiz cor, até o verde eu fiz para ele. “Dourados”, por exemplo:

 

"Coroa de princesa, anel de noivado.

Quem nesse mundo não tem

Um sonho dourado?

Quem não sonha com um tesouro no quintal?

Quem não delira com pôr do sol?

Pendurado no varal

Ouro da riqueza é cor.

E se vale tanto o ouro

Só pode ser a cor do amor.

Está na tumba do Faraó,

Nos grãos de milho,

No brilho da Serra Pelada,

Nos olhos do avarento,

Na terra escavada,

Na bijuteria barata,

Que o namorado pobre

Dá para a namorada.

Uma montanha de sorvete,

Um cavalo alado,

Quem nesse mundo não tem um sonho dourado?"

 

É um jeito legal de falar da cor.

 

P/1 – Eu fiquei pensando no seu público. Você é um autor que vai atrás do público? Você vai à escolas?

 

R – Bastante. Eu e a Laura vamos bastante.

 

P/1 – Como é que surgiu essa coisa de... Desde o primeiro livro?

 

R – Desde o “Bem-Te-Vi”. Desde... Eu não me lembro, assim, detalhes, qual foi a primeira vez, mas foi daí. Ele foi rapidamente adotado. Aí começou, acho que vai em cadeia isso: adota um, daqui a pouco você lança outro, ele é adotado. A escola te chama e vai indo, vai indo, vai indo.

 

P/2 – Então é sempre convite das escolas? Normalmente é convite?

 

R – É, normalmente é convite.

 

P/2 – Você já estava em casa com um livro que fosse adotado.

 

P/4 – Como é que é a sua relação com esse leitor mirim? O que é que ele te... Esse contato com o seu leitor te trás de bacana, para você enriquecer na hora de escrever? Você pensa nesse leitor? Como é que é essa...

 

R – Ah, penso. É, primeiro que eu sempre faço o possível... Não, naturalmente eu passo para eles que, para escrever, para fazer esse tipo de trabalho, basta ter vontade e ler. Não precisa ser... Ninguém é um super-homem, sabe? Eu sou um cidadão comum. Eles fazem perguntas assim: "Pô, você come? Você almoça?". É. Então aí você começa a falar: "Eu gosto de pizza, chocolate e pipoca. E gosto mesmo. Eu sou corintiano". Então eu acho que essa coisa da relação... Eu vou na escola do meu filho, pô, os moleques só faltam tirar a roupa. Mas como amigo. Ao mesmo tempo que sabem quem eu sou, eu tenho livro, tal, mas eu sou amigo. Então eu tento passar isso e tento também passar isso aqui.

 

P/4 – Você tem um jeito de escrever que dá vontade de a gente escrever também. Eu achei muito curioso quando você disse que você leu o Zé Paulo Pais e ficou com vontade de escrever, porque quando a gente lê a sua poesia, ela parece que foi tão fácil que dá vontade de a gente escrever.

 

R – Ah, que bom.

 

P/1 – Lalau, conta umas historinhas assim, de escola, de retornos do seu público. Igual você falou, eles te perguntaram o que você come?

 

R – É: "O que você come?". Ah, tem muita coisa.

 

P/2 – Eles perguntaram sobre... De onde você tira essas ideias?

 

R – É: "De onde você tira essas ideias?". Eu tenho um caderninho em que eu anoto as coisas, eu faço uma brincadeira: "Isso ninguém vai adivinhar, é o meu grande segredo". Eu tenho um caderninho horrível, um caderninho azul. Comprei numa papelaria de bairro. E ali eu anoto mesmo algumas coisas. Então eles acham o máximo.

 

P/3 – Você tem algum desses retornos que o aluno te mostrou, assim, que o leitor mirim foi fisgado mesmo, como você foi lá atrás? Te deu uma satisfação especial do tipo: "Consegui atingir esse leitor"?

 

R – Ah, sim, só a forma como eles demonstram isso, de criticar o que você faz. Que nem numa escola que eu fui, o livro das cores, um menino estava muito bravo comigo porque no vermelho eu nem citei o Papai Noel. Então isso que é legal, pô, o cara parou para pensar. Ele foi além do que só ler e fechar o livro. E muitos outros. Eu tenho um poema do amor que está num desses pequenos aí. Teve uma menininha que também questionou como é que o sorvete pode representar o amor. Eu não sabia explicar. Eu não sei, eu sei que eu amo sorvete. Talvez seja por causa disso. Não, mas essa coisa de eles pensarem mais e além do que você escreveu, acho que isso já é o grande barato. Mas ninguém compreende...

 

P/1 – Mas Lalau, você falou do amor, eu até queria registrar, porque eu presenciei uma história que foi marcante para mim...

 

R – Ah é, você...

 

P/1 – ...E que foi num Festival de Poesia da Escola da Vila. A Escola da Vila, de dois em dois anos, faz um Festival de Poesia, inclusive; é no ginásio da escola. Vão umas 400 pessoas para ver 40, 50 alunos que se inscrevem para ler poemas. E apareceu um menino com Síndrome de Down para ler, declamar. Na verdade, a categoria era Declamação, o poema “Amor”, do Lalau e da Laurabeatriz. É uma entidade só.

 

R – É Chitãozinho e Xororó.

 

P/1 – Não é Lalau, é Lalau e Laurabeatriz, uma coisa só. E foi incrível, porque ele começava a falar o poema e aí ele esquecia. E ele saía do palco, aí voltava. E ele continuava, e a professora dava uma força. Eu sei que o público foi criando uma torcida de ele conseguir terminar, que realmente ele terminou. E foi uma ovação. Umas pessoas entraram no palco, abraçaram o menino. Gerado por um poema. Foi um negócio muito tocante.

 

R – Eu estou tentando achar aqui.

 

P/1 – Ah é, podia lê-lo.

 

R – Está aqui no “Girassóis”. Este aqui:

"É parecido com um campo florido,

Tem sabor de pudim de caramelo

Com casquinha de açúcar queimado

E cobertura de marshmallow."

 

"Pode ser também quando alguém

Cuida de um neném.

Ou, talvez, quando contam uma história bonita

Mais uma vez.

Tem cheiro de sabonete,

Tem gosto de sorvete,

É como um brinquedo,

É como um segredo.

Tem que ser grande,

Maior que o mar.

Tem que ser lindo,

De fazer chorar."

 

P/4 – Seu filho tem quantos anos, Lalau? O João?

 

R – Ele faz oito sábado.

 

P/4 – Quer dizer que você escreveu para criança antes de ser pai.

 

R – Antes de ser pai.

 

P/4 – E você tinha convivência com criança, antes disso?

 

R – Não, não tinha muita não.

 

P/4 – E hoje que ele tem oito anos, que ele está em uma idade que a linguagem já está florescendo mais...

 

R – É muito legal.

 

P/4 – ...Eu imagino que ele seja um bom parceiro seu, de criação.

 

R – Muito legal. O João é muito legal. Vê tudo antes, ganha os livros antes, critica antes. É um cara que aprendeu a ler muito cedo. Com três anos ele já estava lendo. Escreve muito bem também. É meu filho. Canhoto, bate de esquerda, três dedos.

 

P/1 – Lalau, nós estamos caminhando para o fim da entrevista, e eu queria que você contasse, nem era eu que deveria fazer essa pergunta, mas eu vou fazer: eu queria que você contasse sobre o seu projeto do livro verde “Boniteza Silvestre”.

 

R – O que é que você queria que eu falasse?

 

P/1 – Que você contasse desse livro, que é o seu último.

 

R – É o último, é.

 

P/2 – Último não, mais recente.

 

R – O mais recente.

 

P/1 – É verdade, desculpe.

 

R – Acho que eu até já falei para a Renata que, pô, foi uma honra muito grande participar do projeto. Acho que também é daquelas coisas que mexem mesmo, que agradam demais. O livro e além do livro. Então ele ser verde, ter uma preocupação a mais. Poxa, eu acho que é um baita exemplo ter participado disso, para mim foi uma honra muito grande, foi muito legal. Acho que o resultado também foi legal, não dá para dizer que não foi, não. Porque eu fiz com muito prazer.

 

P/1 – Mas para quem não conhece... Porque aqui todo mundo conhece e já leu o livro. Mas o que é que é esse livro? Fala um poema. Porque são animais ameaçados de extinção, também, não é?

 

R – Também são ameaçados de extinção, mas eles são mais a causa da extinção: é a caça predatória. A caça, o tráfico de animais, que é uma coisa absurda. Quando eu tive contato com os números, então, falei: "Nossa, que é isso?". Então também é um motivo a mais para a gente fazer, para a gente se dedicar e ir em frente. Foi um prazer mesmo fazer.

 

P/1 – Gente, vamos fazer então uma última rodada. Quem quiser fazer uma pergunta para o Lalau para a gente...

 

P/2 – Eu quero fazer uma pergunta que está desde o começo aqui. Eu notava, principalmente na década de 1970, 1980, que havia muitas histórias para... Infanto-juvenis com moral no fim. Talvez seja uma coisa, assim, da origem das fábulas. Como é que você vê essa opção? Tem alguns autores que ainda continuam com as histórias que sempre têm uma moral, sempre têm esse objetivo edificante...

 

R – Eu nunca tive esse objetivo. O meu objetivo sempre foi divertir, emocionar e ajudar no hábito da leitura. Em construir, fazer a criança adquirir o hábito de leitura. Não tenho nada contra quem faça o moral da história, mas eu nunca me preocupei com isso. Eu sempre me preocupei em fazer com que a criança se emocione nem que seja por um segundo. Sempre foi isso. Ela tira as conclusões dela. Sabe, elas são muito mais sábias do que a gente pode...

 

P/3 – Lalau, a nossa Tatiana Belinky diz que escrever poesia para criança tem que ter três ingredientes, que são: ritmo, rima e humor. Você concorda com isso?

 

R – Concordo, concordo. Como não? E coloco a surpresa.

 

P/3 – Tem que ser surpreendente.

 

R – Eu acho que tem que ser surpreendente. Acho que aí − eu estava falando antes −, a profissão influenciou muito nisso. Porque você fazer um texto publicitário, você tem que prender o cara, fazer o cara se surpreender e comprar aquela porcaria que você está anunciando (risos). Então essa busca da surpresa na palavra sempre foi uma coisa que eu carrego, que eu carreguei. E eu acho que esse é um ingrediente legal, quando você... Eu tenho um livro, posso ler um pouquinho?

 

P/1 – Pode.

 

P/2 – Por favor.

 

R – Que é o “Quem É Quem?” Que é o do macaco, este aqui. E que eu inverto muita coisa, sabe? A ordem natural das coisas eu inverto. E aí que vem, aí que causa surpresa e pega no breu da criança. Então deixa eu pegar um aqui. O último:

 

“Quem Parece o quê?”

“Hiena parece risada.

Joaninha parece catapora.

Vulcão, um chafariz.

Garoa parece seda.

Algodão parece neve.

Melado, verniz.

Coruja parece óculos.

Buzina parece pato.

Umbigo, vintém.

Vaga-lume parece lâmpada.

Fumaça parece tosse.

Ameba, ninguém.”

 

 

“Quem Deveria Ser o Quê?”

“Andorinha deveria ser avião.

Pipa deveria ser borboleta.

Golfinho, jangada.

Quintal deveria ser praia.

Primo deveria ser vizinho.

Vizinha, namorada.

Cidade deveria ser sítio.

Bandido deveria ser mocinho.

Nordeste, molhado.

Panda deveria ser eterno.

Cinema deveria ser grátis.

Hoje, feriado.”

 

 

 

P/3 – Lalau, alguma criança já te mostrou alguma coisa que tenha escrito?

 

R – Já, mostram.

 

P/3 – Tem alguma coisa que foi marcante?

 

R – Teve uma vez eu fui a uma escola, não lembro qual, acho que Colégio Magnum, e os caras queriam que eu fizesse uma oficina. Pena, eu não conhecia o Zé ainda, que é o rei de mandar bem nessa área aí. Então eu fiz lá um... Dava umas palavras e a molecada escrevia. E qual que era a palavra? “Chuva”, a palavra “chuva”. Fazer qualquer coisa com a palavra chuva. Aí veio uma menininha, uma pequenininha, com um papelzinho. Estava assim: "A chuva cai, e o rio vai". É a pomba do Picasso, né, cara? É a pomba. Porra.

 

P/4 – Haikai.

 

R – Olha que coisa mais... Então eles fazem, fazem coisas maravilhosas assim.

 

P/3 – Lalau, teve alguma sugestão de alguma criança: "Faz isso", que você incorporou?

 

R – Não, não teve. Teve uma vez um que pediu sobre o amor, mas já tinha feito. Mas não tem não. Até agora, não.

 

P/4 – Lalau, como é que é essa aura de escritor? Como é que você sente essa aura de escritor?

 

R – Essa é difícil. Eu acho um barato, acho legal. Acho que é mesmo...

 

P/4 – Porque de certa forma, sendo escritor, ainda mais você trabalhando com público infanto-juvenil, você está imaginando a todo momento que você está sendo lido. É uma energia sua que está dissipada, espalhada por aí, que está se conectando com muita gente por meio do texto, de uma forma mais mágica. Isso deve te retornar alguma coisa boa.

 

R – Ah, sim. E por ser mágica a gente fica meio sem saber. Sem saber onde é que está o truque.

 

P/1 – E Lalau, já que a gente, mais ou menos, fez uma passagem pela sua leitura e depois por alguns de seus livros, quais são seus projetos futuros? Que livro que você vai lançar futuramente?

 

R – Então, nós estamos com dois. Um na Peirópolis, que é o “Japonesinhos”, aproveitando... Um livro em homenagem aos 100 anos da imigração, com animais do Japão. Animais endêmicos lá do Japão. Não estamos abordando se estão sendo caçados, trucidados; só mostrando. E o outro é o “Sobrevoos”, que é um livro sobre aves. As aves mostrando o ponto de vista das aves nos seus ambientes. Então, por exemplo, tem a harpia na floresta, o tico-tico na favela. O martim-pescador no mangue. E assim vai.

 

P/1 – Você tem algum (do?) Japonesinho para ler para a gente, inédito?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Opa.

 

R – Eu trouxe dois aqui.

 

P/3 – E você teve que pesquisar esses animais?

 

R – Tive que pesquisar.

 

P/3 – Como é essa pesquisa?

 

R – Google, ué.

 

P/3 – Foi na Associação Japão-Brasil...

 

R – Nós fomos lá, mas complicadíssimo, porque não tem nada em português, muito complicado. Aí foi tudo no Google mesmo. Em inglês a gente conseguiu algumas coisas. Fizemos uma seleção de 11 animais, que já mudou. A Laura já achou uma baleia maravilhosa lá, já tiramos um passarinho. Então tenho carpas... Eu não me lembro quais são os animais. Tem carpa, nós temos um urso que é muito interessante, que tem uma meia-lua. Tem um cachorro raccoon, porque tem uma cara de guaxinim... Eu não lembro direito.

 

P/1 – Macaco.

 

R – É, tem aquele macaco, o macaco das neves.

“Carpas”:

“Nadam altivas,

Vagarosamente,

Majestoso ritual.

Joias vivas

Eternamente,

Tesouro oriental.

Surpreendentes e belas,

Submersas aquarelas.”

 

Tem a “Salamandra Gigante do Japão”:

“Alessandra! Presente.

Cassandra! Presente.

Leandra! Presente.

Sandra! Presente.

Muito bem,

Ninguém ausente

Na aula da professora salamandra.”

 

 

 

Do Sobrevoos, eu trouxe aqui o “Tico-Tico e a Favela”. É sempre na primeira, é sempre a ave que está falando.

“De cima parece colcha de retalho,

Um telhado costurado

No telhado do vizinho.

De frente é igual roupa de espantalho,

Paredes coloridas,

Juntadas em desalinho.

Gosto mesmo é das pipas no céu,

Naves mambembes,

Passarinhos de papel.

E as crianças?

Sempre elas

Jogam futebol no barranco,

Machucam as canelas.

Correm, cantam,

Fazem ciranda nas ruelas,

Inventam brinquedos de lata,

Dormem à luz de velas.

Enfrentam com candura,

Esperança e sorriso

Todas as mazelas.”

 

E tem o “Acauã e a Caatinga”. Acauã é um tipo de falcão.

“O sol destas bandas, não sei ao certo,

É maior, é mais forte,

Ou fica mais perto.

É certo, porém, que pouco chove,

Mas quando a chuva vem,

A vida ganha uma alegria,

Que até comove.

Já na noite anterior,

Mandacaru dá flor

No meio da aguaceira.

Na terra molhada,

Sapo-cururu canta,

Enche de folha a aroeira.

A grama rala se levanta,

Sai voando a passarada,

E lá vou eu caçar serpente,

Que aqui tem à beça.

E logo inventam um repente,

Que assim começa:

‘Cadê tu, ararinha-azul?

Que saudade, cadê tu?’.”

 

P/4 – Ah, muito bom.

 

R – E tem “A Harpia e a Floresta”, “O Beija-Flor e o Jardim”, e assim vai.

 

P/1 – Então, Lalau, estamos chegando ao fim. Eu queria... Uma última pergunta que a gente sempre faz é: O que você achou de dar o seu depoimento para o Museu da Pessoa, no projeto...

 

R – Achei ótimo. Não precisei cantar, você estava falando que eu ia cantar. Achei maravilhoso. Achei muito legal, porque a gente não tem muita oportunidade. Uma das coisas que às vezes eu converso com outros caras que escrevem: a literatura infantil cada vez mais está ocupando espaço. Você vê que as bienais têm mais, cada ano que passa tem mais uma metragem para o livro infantil. As livrarias, as editoras, alguma abrindo braços. Por exemplo, o “Sobrevoos” é a primeira incursão no segmento infantil da Manole. Então estão procurando. Só que eu acho que está faltando mais exposição para o título, para o autor. Eu acho que tinha que ter mais crítica, mais resenhas, mais exposição, principalmente para falar com os pais. Eu acho que isso é superimportante. Pô, a gente está metendo o dedo na educação do filho, ele precisa me conhecer, ele precisa conhecer o meu trabalho. Precisa conhecer o Cláudio, precisa conhecer você. E eu acho que essa coisa, esse canal não está rolando muito, não. Então eu acho muito legal que o museu está fazendo esse trabalho, esse projeto.

 

P/1 – Bem, então, Lalau, a gente quer agradecer a sua participação.

 

R – Eu que agradeço.

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