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História

"Quando casou, ainda brincava de boneca"

História de: Maria Aparecida de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2019

Sinopse

Maria Aparecida de Oliveira fala sobre sua ascendência italiana e espanhola. Conta sobre a trajetória dos avós imigrantes em São Paulo, como seus avós paternos se conheceram e casaram. Lembra da convivência entre a família e da triste morte do pai. E também traz lembranças das fábricas de tecido de Socorocaba, cidade onde nasceu e cresceu.

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História completa

P – Por favor, seu nome, data e local de nascimento.

 

R – Maria Aparecida de Oliveira, nasci em 23 de abril de 1942, Sorocaba, São Paulo.

 

P – Qual é a sua atividade hoje?

 

R – Sou aposentada como diretora de escola. Sou formada em Pedagogia.

 

P – Quem é imigrante na sua família?

 

R – Os meus avós paternos e maternos.

 

P – Vieram de onde?

 

R – A minha avó paterna veio de Trieste, na Itália, e o meu avô também, só que eu não sei de onde. Eles se conheceram aqui no Brasil e se casaram.

 

P – Eles vieram pela Imigração?

 

R – Vieram.

 

P – Sozinhos ou com as famílias?

 

R – Não, a minha avó veio com uma irmã dela, que foi casada com um dos parentes daquele coronel Ataliba Leonel. A irmã dela, chamava-se Maria Tonetti, e a minha avó Constantina Tonetti, veio menina, tinha lá os seus treze ou quatorze anos, então essa irmã da minha avó, conheceu o meu avô e fizeram o casamento. Minha avó ainda brincava de boneca, quando casou.

 

P – Era casamento arranjado?

 

R – É... conheceram o meu avô, que ele veio sozinho, largou pai, mãe, irmãos, tudo lá na Itália, inclusive terras, que ele deixou lá, fazenda, e veio embora sozinho.

 

P – Por que ele deixou, a senhora sabe?

 

R – Porque ele quis tentar a vida aqui. Ele tinha fazenda de oliveiras lá na Itália, e ele deixou irmãos tomando conta da parte dele, veio embora, e nunca mais ligou pra nada...

 

P – Ele não estava com problemas de dinheiro?

 

R – Não, não, quis vir embora. Então, essa minha avó tia, irmã da minha avó, ela conheceu o meu avô, que era o Giuseppe Camiccia, e fizeram o casamento. E abrasileiraram o nome dos filhos. Eu fiquei muito louca da vida com isso, porque tirou toda a beleza do nome. Minha avó era muito criança ainda, mas faziam o casamento assim naquela época. Ela tinha treze anos. Meu avô chegava do trabalho e ela estava brincando. (risos)

 

P – E os maternos?

 

R – Os maternos, foi assim. Meu avô José Cabrera, veio da Catalunha, na Espanha. Não sei o da minha avó. Sei que a minha bisavó veio grávida da minha avó. Ela acabou de chegar aqui, a minha avó nasceu, ficou aqui sete anos, voltou pra Espanha, aí depois, quando estava acho que com treze anos, voltou pra cá de novo, aí o meu avô era primo, assim meio distante, e se casaram. Também se casaram, com menos de quinze anos.

 

P – Agora, as histórias desses começos de vida aqui, a senhora deve saber através dos seus pais.

 

R – Eu sei que eles vieram, tipo assim, os meus avós paternos, eles vieram para o Brasil, da Imigração eles tiveram destino para Cerqueira César. Foram para a lavoura e lá ficaram por muito tempo, meu pai, meus tios nasceram “tudo lá”, depois eles saíram da lavoura e vieram para Sorocaba, onde eu nasci, para trabalhar na indústria têxtil. Porque aí, meu avô tinha falecido, minha avó ficou sozinha com uma “trempa” de filhos, então ela se viu perdida lá na lavoura, filhos já moços...

 

P – Qual era a indústria têxtil?

 

R – Era a antiga fábrica de Fiação e Tecelagem Santa Maria, que hoje pertence à Santa Adélia. É isso mesmo. Eles foram trabalhar na fiação, na tecelagem...

 

P – Tinha mais fábricas de tecidos em Sorocaba?

 

R – Tinha. Hoje não tem mais nada, viu? Tinha a Nossa Senhora do Carmo, tinha a Cia Nacional de Estamparia, tinha a Votorantim, a Fábrica Santo Antonio, tinha muitas fábricas de tecidos. Mas como a família do meu pai se instalou na região dos Pinheiros, em Sorocaba...

 

P – Como assim, Pinheiros?

 

R – Sorocaba é cortada pelo meio, assim, pelo rio Sorocaba. Do lado de cá, quando você atravessa a ponte, chama-se Além Ponte. Você vai para a Árvore Grande, e outros lugares, e do lado de cá, é a região dos Pinheiros, onde a família do meu pai se instalou, e ali tinha a Fiação e Tecelagem Santa Maria, que hoje pertence à Santa Adélia lá em Tatuí, que Sorocaba não tem mais nada. Ficou só uma parte do escritório lá, pra atender a antigos funcionários na questão de tempo de serviço, tudo. Então, todos os meus tios, meu pai, minha mãe, todos foram trabalhar na fábrica. Quando a minha mãe se casou, ela conheceu meu pai lá.

 

P – Mas a senhora mudou de Sorocaba, só saltando um pedaço...

 

P – Eu, sim. A minha família acabou assim se diluindo lá. Que da família do meu pai já morreram todos. Só ficaram os netos dos imigrantes, meus primos, a maioria está lá em Sorocaba.

 

P – E como foi que a senhora se mudou?

 

R – Eu me mudei pra Pirituba porque... A princípio, saí de Sorocaba que meu marido veio transferido, que ele era servidor público, para São Paulo, e fomos morar em Osasco. Que minha mãe, nessas alturas, já estava morando lá. Depois de Osasco, demos uma volta e fomos para Itapevi, que eu era professora, precisava lecionar, comecei minha carreira lá. Aí depois, eu me efetivei e fui vindo pra cá. Como meu marido trabalhava em São Paulo, de Itapevi viemos pra São Paulo. Compramos casa.... em Pirituba. Estamos lá desde 1976. Pirituba é São Paulo. É o vigésimo terceiro distrito da capital.

 

P – Agora, voltando à imigração, na sua casa de menina falavam que língua?

 

R – Olha, era um tal de portunhano e portunhol, o portunhano era mais suave. Que meus tios falavam muito pouco... não cultivaram a língua italiana. Mas do lado da minha mãe... Era assim. Ela falava um espanhol misturado com português, e a minha mãe trouxe muito do sotaque do espanhol, falava português, mas misturava muito, e a gente aprendeu alguma coisa. De italiano, capisco niente. Mas em espanhol a gente se vira bem.

 

P – E a tradição de comportamentos em casa era mais de espanhol ou mais italiano?

 

R – Era mais pro espanhol, porque a minha convivência foi mais com a espanholada. A italianada morreu muito cedo. Minha avó morreu cedo, meu pai morreu cedo, meu pai morreu com trinta e cinco anos. Uma lástima. O dia que peguei o atestado de óbito dele, não faz muito tempo, que eu estava mexendo numa papelada lá, inhnnnnnn! Olha, eu nunca tinha chorado pelo meu pai, que quando ele morreu eu era tão pequiniinha, que não fez diferença. Sempre senti muita vontade de chamar meu pai, mas não sentia nada por ele. O dia que eu peguei essa certidão de óbito, que eu olhei a idade dele… (choro). Eu tive um baque, eu chorei aquele dia, porque eu tenho um filho de trinta e sete anos inhnnnnnn, eu falei “meus Deus! Mais novo que meu filho!” Não conseguia imaginar… (choro).

 

P – Ele morreu de quê?

 

R – Nessa altura da vida dele, ele trabalhava como oleiro, já não estava mais na fábrica. E ele saiu de uma fornada de tijolos, que estava no forno pra queimar, ficou a noite inteira. De madrugada, ele saiu. E com o corpo muito quente, tomou um chuvisqueiro. Dali ele teve uma pneumonia, e a senhora imagine, há cinquenta e dois anos atrás! Era pra morrer mesmo. Morreu. Não teve jeito. E a minha mãe ficou viúva com vinte e seis anos, com dois filhos, aí depois ela se casou com um brasileiro, caboclo mesmo, de índio mesmo, daí que eu tenho mais três irmãos.

 

P – Nunca a senhora morou em São Paulo?

 

R – Não, criança não. Eu vim morar pra cá em 1973, já por força de necessidade de trabalho mesmo, porque eu já lecionava, meu marido trabalhava aqui, e aí fixamos residência em São Paulo. Vim morar na Rua Pedro Bonilha, número 55, no Piqueri.

 

P – E está lá até hoje?

 

R – Não, comprei uma casa no Parque Maria Domitila em Pirituba, quer dizer, tudo é Pirituba, faz parte da mesma circunscrição. Então eu saí do Piqueri e fui pro Maria Domitila.

 

P – Muito obrigada pela entrevista.

 

P – Foi um prazer, porque acho que tem que ter uma memória assim, de família.

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