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Quando Ajudar Significa Crescer

História de: Germana Augusta de Melo Moreira Lima Macena
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2009

Sinopse

Germana Macena nasceu em 1961 em João Pessoa. Passou infância e adolescência lá e certo tempo na praia. Conta que brincou muito e que sente saudade do franguinho que colocava para dormir na rede. Tornou-se funcionária do Banco do Brasil, foi para o interior, de lá seguiu para Brasília; foi acompanhando o marido, servidor da Embrapa. Pouco depois, teve a má sorte de ser envolvida por uma quadrilha da própria agência, sendo obrigada a assumir o prejuízo. Foi então para a Fundação BB, onde acredita ter recuperado o ânimo e a satisfação de ser bancária. Julga-se realizada naquilo que faz; agradece a chance de ter conhecido a realidade dos mais necessitados.

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História completa

Germana Augusta de Mello Moreira e Lima Macena. Nasci em João Pessoa, no dia 03 de agosto de 1961 e recebi esse nome mais do que completo. Meu pai, economista e contador. Minha mãe, dona de casa. Uma curiosidade: meu pai era primo-irmão de José Lins do Rego, o famoso escritor. Na minha infância, em João Pessoa, e particularmente no tempo em que morei em frente à praia – bairro Cabo Branco – brinquei muito, andei muito de bicicleta. Mas de boneca, nem tanto. Aí também uma curiosidade: eu preferia os bichinhos, algo que mexesse os olhinhos. Lembro do franguinho que eu enrolava num pano, colocava na rede e fazia dormir.

A primeira escola foi o Jardim de Infância. Tão bom que eu saí de lá inteiramente alfabetizada. Depois, meu pai me matriculou no Colégio João XXIII, o melhor de João Pessoa – naquela época e por muito tempo mais. Um colégio de freiras alemãs, combinando rigidez de procedimentos e qualidade de ensino. Tanto que sequer permitiu que eu entrasse para o equivalente à segunda série, por uma questão de idade. Isso trouxe-me – eu lembro bem – certo desestímulo, porque é como eu tive repetido o ano Mas, foi um colégio onde eu aprendi, cresci muito e onde jamais me senti infeliz ou presa, apesar de todas as normas. De lá, eu fui direto para a Federal de João Pessoa. Fui fazer Arquitetura. Sinceramente, até hoje não sei por que. Tudo apontava para a área de Saúde, de que eu sempre gostei. Acho que foi coisa da adolescência, vontade mesmo de contrariar. A verdade é que eu nunca estive muito satisfeita com o curso e acabei deixando, por sinal faltando pouco para terminar. Quer dizer, um desperdício ter feito, um desperdício ter largado.

Em 1982, aprovada em concurso, fui para o Banco do Brasil. Destinaram-me a agência de Mulungu, uma desconhecida cidade do interior da Paraiba, até que próxima de João Pessoa, mas uma cidadezinha de uma única rua, sem calçamento. Onde fiquei de sete a oito anos. Só que, por ocasião da minha posse, a agência ainda estava em construção e eu fui assumir em Guarabira, cidade um pouco maior, que era a chamada agência jurisdicionante. Cheguei nessa cidade para assumir. Era feriado!

 

Enfim, eu não me lembro de um serviço sério mesmo que eu tenha feito em Guarabira. Por Deus, que não.

 

Quando a agência ficou pronta, fui para Mulungu. Meus pais alugaram uma casinha para mim, ajeitaram bem bonitinha, até uma ajudante eu tinha, que também servia de companhia. 

 

… Abri a parte de cima da porta… Janelas abertas porque é muito quente… Liguei a televisão, que ficava na sala.  Quando eu olhei para trás, nas janelas, o que tinha de gente em cada janela, menino sentado na janela, gente na porta…

 

De Mulungu, vim direto para Brasília. Não foi transferência, vim acompanhando meu marido – já havia casado – que veio assumir na EMBRAPA. Vim para a Agência da 504 Norte, como Caixa. Uma agência importante e… Perigosa! Uma bateria de 40 Caixas. E lá, em pouco tempo, eu fui mais uma vítima de uma quadrilha de gente do próprio Banco, que desviava numerário. E o coitado do Caixa, completamente inocente, era obrigado a assumir o prejuízo, já que era o responsável pelo dinheiro. Aí, vivi o meu inferno astral, que se prolongou de forma ainda mais dramática porque eu perdi meu pai. Foi em meio a tudo isso que um parente da minha mãe e pessoa ligada à nossa família, ofereceu-me a oportunidade de trabalhar na Fundação Banco do Brasil. E foi quando, naquela compreensível tristeza e passando por toda aquela provação, eu me senti acolhida e vi retornar a alegria de ser bancária, de pertencer ao quadro funcional do Banco do Brasil.

Assim… Na condição de funcionária da Fundação, eu conheci, me envolvi, aprendi e cresci com os projetos sociais pelos quais passei: Homem do Campo; BB-Educar; BB-Comunidade; Escola Campeã… Em cada um deles, e em todos eles, os desafios, o comprometimento, as aventuras, os imprevistos. Quantas viagens, quanta realidade de vida a que eu não tinha acesso e não teria não fosse a oportunidade que me deu a Fundação, de levar os programas, o apoio, a esperança de algum progresso às populações desassistidas.

Então, pela trajetória que eu segui, pelos obstáculos que encontrei, pelo que a Fundação me ensinou e me proporcionou, eu posso considerar-me amplamente realizada naquilo que faço. E, como já disse ou dei a entender no decorrer desta entrevista, por circunstâncias, eu sempre tive do bom e do melhor. Faltava eu conhecer o outro lado, o lado de carências, de dificuldades, de impossibilidades, ou seja, a dura realidade que os projetos da Fundação me permitiram compreender e tentar melhorar.

 

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P - Germana, Germana, bom dia.

R - Bom dia.

P - Primeiro vou pedir pra você falar o seu nome completo...

R - Ok.

P - ...de novo...

R - Meu nome é Germana Augusta de Melo Moreira Lima Macena.

P - Local e data de nascimento.

R - João Pessoa. Eu nasci em João Pessoa, no dia 3 de agosto de 1961.

P - O nome dos seus pais.

R - Meu pai, Humberto Magalhães Moreira Lima. Minha mãe, Maria José de Melo Moreira Lima.

P - Qual a atividade profissional de seus pais?

R - Minha mãe era do lar, ela nunca trabalhou pra fora, nunca trabalhou fora, ela, bom... meu pai era, ele é falecido, ele faleceu em 92 e ele era economista. Trabalhava na Secretaria de Educação e também era contador.

P - Qual a origem da sua família? Ela tem uma origem fora, além da Paraíba?

R - Não, a origem da minha família é praticamente da Paraíba. O meu pai era de Pilar e também tinha família em São Miguel de Itaipu; depois, quando jovem, ele foi morar em João Pessoa. Mas ele é daquela família da usina. O pai dele, o pai do meu pai, José Lins Moreira Lima, ele era primo de José Lins do Rego; primo-irmão, porque era irmão, assim, pai... os pais dele casado com os pais... irmão de pai, irmão de mãe. Era assim... (risos) deixa eu começar de novo. Isso vai ser editado, né?

P - Vai. Você, tipo, eu entendo. Pai... o irmão...

R - O pai dele era casado com a irmã da mãe...

P - Entendi.

R - ... do meu avô. Então, era primo-irmão, que naquela época a gente chamava de primo-irmão lá no nordeste. E eles foram criados juntos, então isso é uma curiosidade, assim, na família, na origem da minha família. Tem essas coisas.

P - Tem irmãos?

R - Tenho um irmão só. Irmão mais velho.

P - Podia falar um pouquinho sobre ele?

R - O meu irmão é mais velho do que eu, três a quatro anos mais velho. Éramos só nós dois. Então ele tinha os amigos dele, eu tinha minhas amigas, a gente nunca brincou, assim, muito juntos, até porque ele era muito ciumento, ele tinha muito ciúme de mim. Então, tinha sempre aquelas briguinhas de irmãos e, por ele ser mais velho, eu também não acompanhei as brincadeiras dele muito.

P - Qual era a diferença de idade, Germana?

R - Quatro anos.

P - Você podia falar um pouquinho sobre a sua infância em João Pessoa?

R - A minha infância em João Pessoa, ela... brinquei muito. Teve uma época que a gente foi quando eu tinha dez anos, foi uma parte muito boa que eu lembro que a gente foi morar na praia. Numa casa de praia que ficava no bairro do Cabo Branco. E minha casa, essa casa, a gente foi só pra passar o veraneio. Foi a minha família – eu, meu pai, minha mãe, meu irmão, minha tia, meu tio e a filha, minha prima Giana, e mais outra tia que morava em Campina Grande, interior da Paraíba, com as duas filhas dela e o marido – então nós fomos pra passar somente o veraneio, veraneio é o quê? É dezembro e janeiro. Só que a casa era boa, o local era tão bom que meu pai resolveu ficar mais por um ano. Terminou ficando dois anos lá nessa casa. Então, essa é uma parte boa que eu lembro da minha infância, porque vizinho a essa casa tinha um edifício, se chamava edifício Borborema, ainda chama hoje. Ainda existe esse edifício lá, apesar de ser bem antigo. E como era um edifício, tinha muita gente, muita criança; então fiz muita amizade, tinha um pátio bom pra andar de bicicleta, sempre muitas amigas pra brincar de boneca. Então foi uma lembrança boa, além da praia, porque ficava quase em frente à praia. Então, foi uma coisa legal. Outra coisa que eu posso me lembrar, assim, das brincadeiras de infância, é que, assim, eu tinha boneca, ganhava boneca, ganhava brinquedo. Tudo, sem excesso, porque a minha família, assim, não tinha condições – eu tinha tudo, nunca me faltou nada, nada em casa – porém, assim, nada com excesso. Tudo era bem tranqüilo. E, mas eu não gostava muito de boneca. Minha mãe conta que eu sempre gostava de bichinho, coisa que mexesse os olhinhos. Então eu pegava gatinho, pegava gato, cachorro, o que passasse na minha frente eu pegava. E minha mãe não gostava de cachorro, nem gato, nem de criar nada em casa. Como eu não tinha isso, eu peguei, uma vez, um franguinho que tinha no quintal da minha casa. Eu peguei, enrolava o franguinho com um paninho, fazia como um lençol, enrolava o franguinho, ficava as perninhas do franguinho lá embaixo. (risos) Eu andava com esse franguinho pra cima e pra baixo na casa. Lá em casa tinha uma rede, porque casa de nordestino tem que ter rede, então eu balançava o franguinho, botava ele pra dormir. Então, assim, sempre eu gostei de brincar mais com bicho do que com boneca, do que com brinquedinho, então minha brincadeira, assim, mais prazerosa era com bichinhos.

P - E escola? Como é que era a escola nesse período?

R - A escola, eu comecei no jardim da infância, estudei no colégio de Maria Bronzeado. Maria Bronzeado era a dona do colégio, na época ele chamava Externato Epitácio Pessoa. E Maria Bronzeado, eu me lembro que era diretora, era muito brava, ela, muito... todo mundo tinha medo dela. Eu estudava lá no jardim de infância. E no jardim da infância eu aprendi, minha primeira professora foi dona Sônia, não sei como veio esse nome agora, mas estou lembrada. Dona Sônia foi minha professora do jardim da infância. E eu me lembro que, nessa época, era muito puxado o colégio, porque o jardim da infância não era, assim, pra pessoa sair, na minha época, tão alfabetizada como eu saí, completamente alfabetizada. Então lá, toda essa parte de coordenação motora era muito boa. Essa... ditado, ditado não só de palavras, mas de frases, somas, somas com mais de um número e algarismos romanos de um a 50. Então eu tenho até hoje as provinhas, guardo até hoje e quando eu terminei lá, meu pai me colocou, me levou pra o Instituto João XXIII, que na época era o melhor colégio de João Pessoa, e ficou por muitos e muitos anos sendo o melhor colégio de João Pessoa. Ele era um colégio de freiras alemãs. Irmã Carolina era a superiora, a madre superiora. Aí tinha irmã Carolina, irmã Clara, irmã Verônica, irmã Serafina, dona Edmar, irmã Paula... Então são todos nomes queridos, nomes que eu tenho, assim, saudades, daquela época. E quando o meu pai chegou no colégio pra me matricular, ele queria me colocar no primeiro ano B; lá não existia primeira, segunda, terceira. Era como se hoje fosse a segunda série do ensino fundamental. Por quê? Porque eu já sabia tudo da primeira série quando eu estudei no jardim de infância, porque lá era bem adiantado. E a irmã não deixou. Então, de certa forma, eu tive que repetir a primeira série, tudo que eu sabia eu repeti, desde a coordenação motora, aprender o ‘a’, desenhar o ‘a’, a desenhar as letras, os números. Aprendi tudo de novo. Isso quase que foi um desestímulo pra mim, porque eu não queria ir mais pra escola, assim, eu reclamava em casa: "Ah, eu não quero aprender isso tudo...”. Eu não queria mais ir pra escola, então isso é um desestímulo pra criança. Hoje, eu acho que hoje em dia, eles não fazem mais isso. Eles colocam a criança pela capacidade que ela tem, da série que ela pode estar. E, assim, nessa fase do João XXIII, passando a irmã Clara, a irmã Clara foi minha professora da primeira série. Eu me lembro que ela fazia: “Bengalinha, vamos aprender. Pauzinhos, pauzinhos, bolinha, bolinha,” eu achava isso horrível, horrível. Eu, que já sabia escrever frases, achava isso um saco. (risos)

P - Germana, durante esse período no João XXIII, você estudou lá até que série?

R - No João XXIII, eu estudei lá a vida toda. Só saí de lá... colégio de freiras alemãs, veja bem, eu saí de lá pra faculdade, pra UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Então, pra você ter uma idéia, era tão rigoroso, tão rigoroso, que eles sequer, as freiras sequer elas permitiram que eu fizesse uma provinha, um teste pra eu poder adiantar de turma, ir pra o primeiro ano B, ou seja, era o segundo... não era o segundo ano, que eu tive o segundo ano. Era a primeira série, que era dividida em duas. Então, pra você ver a rigidez, eu tinha que começar do começo porque eu tinha sete anos, e sete anos era a idade que eles admitiam no primeiro ano A. Aí, estudei com a irmã Clara na primeira série; irmã Virgínia na segunda série, uma freira linda, linda, bonita, tinha as bochechas rosadas, linda; no terceiro ano, no segundo ano, eu não me lembro; no quarto ano foi irmã... dona Edmar, dona Edmar, bem brava. E nessa época, eu acho que eu estudava já na quarta série, meu pai foi convidado pra ser o contador, contador da escola, o contador do João XXIII. Antigamente era um primo, antes dele era um parente da minha mãe que saiu e ele foi convidado pra ser o contador do João XXIII, o que não foi, assim, muito legal pra mim porque eu não podia fazer muita bagunça.

P - O seu pai trabalhava lá.

R - Apesar de ser um colégio de freiras bem rigoroso, assim, mas a gente fazia bagunça também. Mas era a bagunça, não era bagunça como hoje, a gente tem, assim, uma falta de respeito até pelos professores, pelos diretores. Era uma bagunça bem saudável. Então, assim, botar giz no ventilador de teto, colocar o apagador lá na parte de cima do quadro, a gente tinha professores baixinhos, e aí eles não conseguiam alcançar, então era tudo, essa bagunça aí. Conversar, gritar, fazer bagunça. E quando a irmã me pegava, era assim, era direto pra papai, embora ele não tenha tido muitas reclamações, não. Mas ela me chamava, dona Edmar principalmente: "Germana,” ela dizia: "Germana, por favor, você não pode, você tem que dar exemplo, o seu pai é daqui, a gente não pode contrariar muito seu pai, deixar dar esse desgosto a ele, que ele é uma pessoa que vive aqui conosco." Então, não foi muito legal essa do meu pai trabalhar lá no João XXIII. Bom, aí passou o primário, entrei no ginásio, era ginásio naquela época, e também lá mudança de professores, que até então eram freiras. No ginásio passou a ser professora, sem nenhum problema. Nunca fui criança, nunca dei trabalho em casa pra minha mãe. Até hoje ela fala disso, que ela nunca precisou me mandar estudar, nunca foi de olhar os meus deveres, porque ela via, não foi, assim, por falta de interesse da parte dela. Foi porque ela nunca precisou me chamar à atenção pra isso, pra fazer os deveres. Então eu nunca fui uma pessoa complicada, uma aluna complicada. Sempre... também não fui das melhores, fui normal.

P - Germana, como foi a adolescência lá no João XXIII?

R - Foi quando eu entrei já no científico.

P - E como foi estar em um colégio de freiras?

R - Sem problema nenhum. Pra ser sincera, eu nunca tive nenhum problema, assim, com relação a colégio de freira. Nós estudávamos lá, a minha turma foi uma turma que me acompanhou, é claro que tem as exceções, mas foi uma turma que me acompanhou desde o primeiro ano A até sair do colégio. Então, eu tive uma turma muito legal, até hoje eu me encontro com minhas colegas lá em João Pessoa. Agora mesmo eu estive na praia, no veraneio, colegas como o Cristiana Lucena, que a gente chama de “Quita”, Fatinha, Carmem Lucia, Candinha, Cândida Helena... Então essas pessoas, assim, me acompanham, me acompanharam desde o primário. Então, eu, acostumada com a rigidez do meu colégio. Por exemplo, o meu colégio tinha uma escada que era a mão e contramão; eram dois andares, tinha o térreo e mais dois andares, e a gente só podia andar se fosse na mão. Quer dizer, quem subia do lado direito, descer também do lado direito, porque eram muitas crianças e a irmã, pra controlar isso, além da rigidez da ordem, aquela ordem da madre superiora, aquela coisa alemã, então, se ela visse a gente descer ou subir do lado contrário, a gente tinha que, era castigo.

P - Como era o castigo?

R - O castigo era ficar sem recreio. Se fosse, um pouco, assim, como é que eu digo, desrespeitosa, era suspensa. Teve uma época que o uniforme da gente tinha um medalhão. E medalhão, era a coisa mais fácil de esquecer era um medalhão. Era uma corrente de metal com um medalhão que era o símbolo do colégio. Então, a coisa mais fácil pra uma criança é esquecer de botar o medalhão pra ir pra escola. Era uma peça, assim, completamente solta do uniforme. Então quem esquecesse o medalhão, sempre ficava uma freira na porta da escola pra controlar a entrada. Se ela visse que estava sem medalhão, ela mandava voltar. Não assistia aula. E também não adiantava ir a casa e pegar porque um chegava atrasado também e não era possível entrar. Saia, eu lembro que a gente ajoelhava no pátio da escola, a gente ajoelhava e ela ia medindo pra ver se estava muito curta. Então, aquela que tivesse qualquer coisa, aparecendo o joelho, ela rasgava, descosturava o abainhado, e a gente ia pra casa toda com a linha... que a gente ia crescendo e a saia ia subindo. Então, ia com a linha aparecendo, toda descosturada, e ia pra casa pra mãe fazer o abainhado. Então são essas coisas. Alemão, a gente estudou alemão da quinta à oitava série. Então era a língua estrangeira lá do João XXIII porque era um colégio de freiras alemãs. Então, até oitava série a gente estudou alemão e, do científico, a gente já não estudava mais alemão, estudava inglês. Pra poder fazer o vestibular tem que ter o inglês. Então, eu já era acostumada, desde criança, com essa rigidez; apesar de ela ser muito rígida, as freiras muito rígidas, muito disciplinadas, elas exigiam muita disciplina da gente, mas quem foi criada nesse ambiente não teve qualquer problema pra passar pra uma fase da adolescência. Então a gente gostava muito, eram freiras muito queridas, raras exceções. Tinha uma chata, uma que era mais assim com a gente, mas até a madre superiora, a irmã Carolina era uma pessoa muito querida, muito severa, porém, a gente a amava muito. Eu me lembro que ela sentava numa cadeira, às vezes, raras exceções, assim, quando não tinha aula, quando faltava um professor, uma professora adoecia, que era muito raro, até ela controlava também os professores. E ela sentava, assim, e a gente sentava no chão em volta. Sabe o que é uma vovó contando estória e as netas todas, assim, em volta? Aquilo pra gente era uma delícia. A gente curtia muito aquele momento. Então ela contava histórias de religião, que era um colégio de freiras, então a gente estudava religião; ela contava histórias da infância dela também, que isso era uma coisa, curiosidade enorme da gente, a vida dela na Alemanha, como ela saiu fugida lá da Alemanha de Hitler, que Hitler queria obrigá-las a lecionar, ou não lecionar, aquela época lá da guerra. Então, elas saíram fugidas de lá e vieram pra o Brasil. Eram da ordem franciscana. Então, voltando à minha adolescência, com relação ao colégio, muito pelo contrário, eu acho que ele foi muito legal até pra gente não ter outros tipos de problema. Nunca nos sentimos presas, assim, nunca foi trauma nenhum estudar num colégio desses.

P - Germana, a sua infância, adolescência, é muito marcada pela sua convivência no João XXIII. Mas, ao terminar o científico, você fez vestibular pra Federal da Paraíba.

R - Foi.

P - Como é que foi essa transição? De repente sair daquele ambiente, de uma escola tão rigorosa, você que guarda muitas lembranças, de repente chega em uma universidade onde o ambiente é bem... É outro, a liberdade de acesso, de horário, você tem outra situação. Como é que foi encarar isso aí?

R - É. Foi um pouco, assim, era bem diferente. Eu passei no vestibular em final de 79. Em 80... A minha matrícula até hoje eu sei: 80111040. É a minha matrícula do curso de arquitetura na Universidade Federal da Paraíba. Então, eu entrei lá, eu e mais duas colegas do João XXIII. Quer dizer que não fui sozinha. Eu fui com mais duas amigas, duas colegas.

P - Mesmo curso?

R - Mesmo curso, pra arquitetura. As outras foram pra odontologia, bioquímica, medicina, eu fui pra arquitetura. Na verdade, eu queria até falar que eu não sei porquê eu fiz arquitetura, porque na minha família sempre me deram força pra fazer odontologia e eu tinha capacidade pra fazer odontologia, eu tinha média pra fazer odontologia, eu poderia ter passado nesse curso. E eu acho que foi um pouco de “aborrescência”, eu contrariar o gosto da família, eu não sei. Isso é uma coisa que eu me arrependo, eu não digo lá não, mas eu digo aqui. (risos) Que eu me arrependo de não ter ido pra área de saúde. Não ter feito medicina, que eu adoro, não ter feito odontologia, não ter feito, sei lá, nutrição, enfermagem, alguma coisa dessa área de saúde. E fiz arquitetura. Foi uma coisa, assim, completamente sem, tinha nada a ver. Tanto não tinha nada ver que... aí eu entrei no curso de arquitetura, eu não tive problemas, assim, eu fui uma adolescente, eu tive minhas crises de adolescência... Nesses eram pontuais, por exemplo: eu não ter escutado conselho, orientação, podia ter feito... também não houve uma orientação, assim, muito cuidadosa. Era assim: "Ah, você vai fazer odontologia, faz isso...". Mais da parte das minhas tias, das minhas primas; minha mãe deixava, meu pai sempre deixou o que eu escolhesse. Eu preferia que eles tivessem opinado naquela época sobre o curso. Mas me deixaram muito solta, eu optei por arquitetura. Terminei não concluindo esse curso. Eu comecei o curso, comecei bem, turma nova, não era que eu não gostasse muito da minha turma, mas eu fiquei... é como você disse, depois de tantos anos com uma turma só, naquele ambiente, eu passei pra uma universidade e fiquei um pouco, eu me senti um peixe fora d´água. Eu me senti um pouco desambientada. Mas lá também, o pouco tempo que eu passei lá, passei três anos, fiz amizades lá também. A minha turma: Marília, Elísia, Socorro... muitas, assim, tinha muitas pessoas legais também. Inclusive eu passei até a ter mais amizade com as pessoas novas do que até com as meninas que eram do João XXIII. Bom, com três anos, eu já estava completamente inquieta. Eu passei a ser uma pessoa inquieta, uma aluna inquieta, não assim de comportamento, mas assim, no íntimo, eu estava insatisfeita. Eu não estava muito feliz com o curso

P - Isso já era por volta de 1981?

R - 80... Era. 81,82. Foi quando, assim, eu não sabia que não era, nunca me passou pela cabeça não terminar o curso, mas eu não tava, assim, me sentindo tão feliz. Também não tinha consciência de que era o curso que estava me incomodando um pouco. Aí surgiu, em 82, surgiu o concurso do Banco do Brasil. E no meio do ano, eu me lembro, nas férias do meio do ano, eu chamei a minha prima, quer dizer, não é prima, era amiga e eu chamo de prima. Era sobrinha do marido da minha tia, então chamei Maria Helena, uma amiga, pra estudar pra o concurso do Banco do Brasil. E ela topou também, porque ela queria passar no concurso. Nós estudamos nas férias do meio do ano, no meio de junho, de junho pra julho. Passamos um mês estudando pra este concurso. Ela, a gente dava conta mesmo das apostilas que a gente fazia, que a gente estudava, e fiz o concurso. Foi muito boa a prova, eu me lembro que eu fechei a prova de matemática, fui bem na prova de português, mas na prova de contabilidade ou de práticas bancárias eu não fui muito bem mas, enfim, no geral eu me saí muito bem e passei. A minha curiosidade foi que a minha prima, a Maria Helena, ela não passou, embora ela soubesse mais do que eu. A gente conhece, a gente sabe, ela sempre foi muito boa em matemática, mas ela ficou tão nervosa que não passou neste concurso, não deu tempo dela concluir a prova enquanto eu fiz a prova toda e ainda deu tempo de revisar. Por quê? Não que eu soubesse mais do que ela, não foi o caso. É porque eu sempre fui tranqüila em provas, então, esse lado assim, sempre me ajudou muito nas provas. E saí do curso de arquitetura e fui assumir no Banco. Então, eu não concluí, eu tranquei. Na verdade eu tranquei, depois, por muito tempo eu terminei abandonando. Fui trabalhar no interior, terminei abandonando o curso de arquitetura. Um curso bom que eu já estava fazendo há três anos. Veja bem, são duas coisas que eu me arrependo: uma, de ter escolhido o curso e outra de ter abandonado o curso. Porque quem faz três anos de arquitetura, com pouco a pessoa conclui e já tem um diploma superior. E não era um curso... na verdade não era que eu não gostasse do curso. Eu gostava do curso, mas eu gostava muito mais de outros, da área de saúde. Então, não era uma intolerância, assim, a ponto de me fazer abandonar o curso; foi irresponsabilidade, eu posso dizer assim. Foi irresponsabilidade mesmo.

P - O que significava, naquele momento, ser funcionária do Banco do Brasil?

R - Ah, naquele momento ainda era bom. Assim, a pessoa, entrar no Banco do Brasil, eu digo ainda era bom porque hoje o salário é muito pequeno pra quem chega. Então naquela época era muito bom. Eu brinco até com um colega meu que dizia assim: "Nossa A gente vai trabalhar no Banco do Brasil. Que bacana” “Então, era uma profissão respeitada. Naquela época, em 82, ainda tinha um bom salário principalmente pra quem entrava, era um salário inicial bom. Então, era um orgulho. Tanto é que foi o único emprego que meu pai me deixou assumir, foi o do Banco do Brasil. Porque ele sempre disse que a filha dele ia terminar o curso, que não era pra eu estar trabalhando, era pra eu estar estudando até terminar o curso e depois eu podia trabalhar, mas primeiro os estudos. Até que teve uma época, antes de eu trabalhar, antes de eu assumir o Banco do Brasil, teve uma época que a minha inquietação me fez, assim, procurar um emprego, pedia, porque ele tinha um cargo muito bom, ele era uma pessoa influente lá no governo do Estado da Paraíba, e ele conhecia muito, mas muito mesmo, qualquer pedido dele para o governador de Estado da Paraíba era atendido. E eu sabia que tinha vaga pra emprego na secretaria tal, na outra secretaria, eu sabia porque tinha um amigo nosso que falava pra gente, pra mim e pra minha mãe: "Olha, tem uma vaga assim, assim, assim.” E os salários eram ótimos, apesar de ser governo do estado. Mas, assim, eu não sei se foi porque era naquela época, mas era bom. Inclusive tinha um que era muito melhor do que o do Banco do Brasil, do que o salário do Banco do Brasil. Mas o meu pai... Olha, isso aqui são vagas que pra você assumir, só precisava do governador, da admissão do governador. E ele, o meu pai, sempre se recusou. Ele nunca deixou que eu trabalhasse, principalmente quando era pedido dele, ele não pedia pra família. Então, uma das coisas que eu mais admiro no meu pai, que ele deixou muito pra mim, isso foi uma lição de honestidade. Ele sempre foi uma pessoa muito honesta, sempre foi uma pessoa muito ética. E isso é uma coisa que ninguém... é primeira coisa que eu me lembro dele, assim, o que é que você mais se lembra do seu pai, como ele era? Ele era uma pessoa séria, uma pessoa muito honesta, uma pessoa ética. E fazia parte também das regras dele não pedir favores pra beneficiar filho ou filha, esposa, qualquer que seja. Então, eu nunca consegui trabalhar, apesar da minha vontade louca, eu acho que... Eu não sei se a vontade era de trabalhar ou de sair do curso um pouco, mas eu estava querendo trabalhar e ele nunca quis. Então trabalhar no Banco do Brasil foi o único; que ele sabia que eu ia pra o interior, eu ia ter dificuldades pra continuar o meu curso, porém ele permitiu que eu fosse.

P - Germana, então você fez o concurso lá em João Pessoa e você veio assumir no interior.

R - No interior.

P - Qual era a cidade e como foi essa mudança pra você? Você foi sozinha?

R - Fui. É, foi interessante. No dia, eu fui à superintendência do Banco do Brasil pra levar minha... depois de ter feito toda a documentação, tudo. Aí eles me disseram que no dia 29, que eu podia assumir depois daquele dia, que era dia 28, eu poderia ir até no dia seguinte, assumir em Guarabira. Eu passei, no meu concurso eu passei pra Mulungu, interior da Paraíba, perto de Mari, entre Mari e Guarabira. E a agência maior, a agência jurisdicionante era Guarabira. Então, como Mulungu era classe I de Guarabira – Mulungu, Belém, Caiçara, eram cinco agências que estavam sendo inauguradas na época, em 82, final de 82 pra 83, e Mulungu ou Guarabira era a agência jurisdicionante de todas essas agências classe I – então como a minha agência de Mulungu ainda não estava pronta, eu fui assumir em Guarabira. E peguei um ônibus, tudo era muita novidade, que eu sempre fui, assim, tive carro, eu ia pra faculdade de carro, sempre morei com os meus pais; pegar um ônibus pra ir pra uma cidade do interior, sozinha, até isso foi novidade pra mim. Então, eu peguei esse ônibus, fui pra Guarabira, um ônibus da Guarabirense, cheguei lá no Banco, na porta do Banco, fechada. Era feriado na cidade. Tinha mais duas pessoas lá, então combinamos, era uma sexta-feira, se não me engano, então combinamos pra segunda-feira voltar. Então, o meu primeiro dia que, eu foi assumir, a agência estava fechada. Aí voltei na segunda-feira, assumi, mas lá foi muito animado. Foi muito legal, nessa época, nesse tempo que eu passei, esses meses que eu passei em Guarabira foi muito bom, porque todo mundo das agências de classe I que estavam inaugurando, todas as pessoas, a moçada toda estava lá em Guarabira. Então era uma turma grande, a agência ficou lotada. Não tinha mais cadeira pra sentar, não tinha mesa, não tinha nada. Então, foi muito legal porque ficou animado e não tinha, assim, muito serviço porque era muita gente, então cada um fazia um pouco. Começamos a arquivar documentos, desde arquivo até... enfim, eu não me lembro um serviço sério mesmo que eu tenha feito em Guarabira. Por deus que não.

P - E depois de lá, você foi transferida pra onde?

R - Mas lá em Guarabira, só voltando um pouquinho...

P - Não, pode falar à vontade.

R - A minha primeira experiência de morar fora foi essa em Guarabira, porque eu fiquei em uma república. Não dava pra eu ir e voltar pra João Pessoa toda hora, todo minuto, porque não tinha ônibus, assim, e era cansativo.

P - Qual era a distância, Germana, de João Pessoa a Guarabira?

R - Olha, eram uns 110 quilômetros, por aí, 110, 120 quilômetros. Era perto, mas assim, ter que acordar muito cedo, porque naquela época a gente tinha que entrar no Banco às 7 horas, então tinha que acordar muito cedo e chegava em casa tarde, então não era legal. E a gente ficou numa república. Montamos uma república, já existia lá uma menina, Ivanir, que morava, que trabalhava já em Guarabira, então ela concordou em ampliar lá o número de pessoas, então, formou uma turma de meninas muito legal. Muito legal. Então, essa minha experiência de morar fora foi muito legal porque eu não morei sozinha, morei com mais cinco ou seis meninas, eram duas, três, em cada quarto, cada um cuidava das suas coisas, à noite todo mundo se reunia na sala pra jogar baralho, jogar conversa fora, então era muito, foi muito bom. Eu achei muito legal essa primeira experiência de morar fora. Trabalho, a gente tinha uma empregada que cuidava do café da manhã da gente. A gente almoçava no Banco mesmo, tinha uma cantina lá no banco, pequenininha, mas a gente, até café da manhã, tinha tudo. Então, sem problema nenhum, todo final de semana, na sexta-feira, eu ia embora pra João Pessoa, pra casa, e voltava na segunda-feira de manhã. Então foi tranqüilo. Bom, animado, foi muito legal.

P - E essa experiência durou quanto tempo?

R - Durou uns três a quatro meses. Aí inaugurou, até inaugurar, marcar a inauguração da agência de Mulungu. Aí sim.

P - De lá você foi pra Mulungu.

R - Fui pra Mulungu, sendo que, quando fui pra Mulungu, quando eu passei no concurso do Banco, saiu lá meu nome e a agência e a cidade em que eu ia trabalhar. Eu nunca ouvi falar nesse nome e fica a 90 e poucos quilômetros de João Pessoa. Puxa, em cima de João Pessoa e eu nunca ouvi falar, ninguém nunca tinha ouvido falar nesse tal de Mulungu. Então era, que é isso, até o nome é feio.

P - Desconhecido.

R - Mas só pra explicar, Mulungu é o nome de uma árvore. Uma árvore leve, que tem a madeira super leve, que faz assim barcos, tamancos. Ela é uma madeira um pouco fofa, que flutua. Então, essa é a origem do nome. Mulungu. E quando eu passei no concurso do Banco, saiu esse nome, eu fiquei preocupada. E meu pai: "Não, não tem nada não. Sábado a gente vai.” “Como fica perto aqui”, que a gente viu no mapa, só tem no mapa da Paraíba, aquele mapa grande, nenhum mapa tem Mulungu. Então só naquele super, super da Paraíba. Aí eu, meu pai, minha mãe, a gente pegou o carro e foi fazer essa visita em Mulungu. Dia de sábado é sábado de feira, só tinha uma rua mesmo, era a rua principal. Todas as ruas eram sem calçamento, tudo. Mas sabe aquela cidade de uma rua só, praticamente? E eu cheguei em Mulungu, no fim de feira, 11 horas da manhã, estava acabando a feira. Uma sujeira, parece que tinha chovido, não sei, era horrível. Foi uma situação triste. O que eu via de folha de bananeira no chão, aquelas barracas feias de tomate, de verdura no chão, porco, galinha. Olha, no carro eu chorei. No carro, eu não quis saltar: “Volte Eu não quero assumir. Eu não quero esse emprego de... Eu não quero morar aqui.” E aperreada pra o meu pai voltar, até que meu pai voltou. A gente voltou até por um outro caminho, a estrada de Gurinhém pra piorar a situação, porque se ele tivesse voltado pelo mesmo caminho, tudo bem, mas voltamos por uma outra estrada que ia dar em outro município chamado Gurinhém. Eu abri, eu acho que umas seis porteiras pra chegar na pista. Então, assim, foi traumática a minha primeira visita a Mulungu. Eu não queria mais saber. Só que eu assumi em Guarabira. O tempo que eu fiquei em Guarabira, os três meses, quatro meses, me fez esquecer um pouco Mulungu. E aí, enquanto estava em Guarabira, o meu pai e minha mãe foram a Mulungu, alugaram uma casa, as casas lá não tinham banheiro dentro de casa, ele construiu um banheiro, o banheiro era lá em cima que tinha um buraco no chão, era lá no quintal, numa parte alta do quintal lá de casa, que era aquele buraquinho no chão. Então, ele nem me contou esse detalhe. Que ele alugou a casa, construiu um banheiro, tá, dentro de casa, preparou a casa, pintou, mobiliou. A casa era de um cimento vermelho. Cimento queimado, vermelho e mamãe levou a empregada, e elas fizeram aquela limpeza, enceraram a casa, passaram enceradeira na casa, a casa ficou um espelho, linda. O chão ficou a coisa mais linda do mundo. Ficou lindo o chão, bem brilhoso, tudo limpinho. Os móveis, o móvel era bem fraquinho, mas era, assim, novinho, uma coisa ou outra mamãe levou usada. Então, fez um enxovalzinho, a minha casa ficou bem bonitinha. Então, quando eu fui assumir em Mulungu, foi o primeiro dia que eu fui assumir, foi o dia que eu conheci a minha casa nova. E eu ia morar sozinha. Só que, como eu ia morar sozinha, sem experiência, nunca fiz nada, nunca lavei roupa, nunca fritei um ovo, assim, porque tudo em casa, tudo na mão. Apesar desse tempo que passei em Guarabira. Enfim, eu acho também do fato de eu ficar sozinha, dormir sozinha, mamãe teve um pouco de medo. E ela queria o maior conforto pra mim. E mandou empregada também pra mim. Então eu fiquei também com o mesmo conforto que eu tinha em casa, eu fiquei lá em Mulungu. Quando eu cheguei em Mulungu no primeiro dia, eu era assim, todo mundo, eu e mais quem fosse assumir lá em Mulungu, quem assumiu na época. Então, a gente andava na rua, era objeto de curiosidade. Todas as pessoas olhavam, porque a gente se vestia um pouco melhor, porque a gente trabalhava e por não ser dali também, todo mundo ficava curioso, saber quem era, o que estava passando. A minha casa, ela ficava um pouco no alto, ela ficava numa balaustrada. Subia uma escadinha, aí tinha umas cinco casas, aí descia uma escadinha, eu não sei, eu não sei se dá pra imaginar. Ficava em uma parte mais alta, minha casa. Enfim, ela tinha uma porta, não tinha jardim, não tinha nada, casa do interior é logo porta, rua, certo? Então, tinham três janelas, três janelões assim, três porém, compridos e altos, janelas altas, e uma porta. Então, eu chegava em casa, ligava a televisão e passava a noite assistindo televisão. No primeiro dia que eu cheguei, estava eu e Lurdes, era a empregada, e as janelas abertas porque lá é muito quente, na Paraíba é muito quente, no interior é mais quente ainda. Eu abri as janelas e abri, a porta era dividida em duas, eu abri a parte de cima da porta e liguei a televisão que ficava na sala. Não era muita gente que tinha televisão naquela época, e eu estava, assim, calma, assistindo minha televisão e escutei um barulhinho. Quando eu olhei pra trás, nas janelas, o que tinha de gente em cada janela, menino sentado na janela, gente na porta, olhando... eu me assustei: "Meu Deus, vão invadir a minha casa.” Eu corri: "Lurdes, fecha aqui,” e saí fechando janela, saí fechando porta, saí batendo porta e janela na cara do povo. Então, assim, eu fiquei em pânico: "Meu deus, o que é isso? Vão invadir a minha casa. O que é que eu faço agora?” Pronto, aí depois disso eu passei o resto da semana de porta trancada. Chegava em casa, rapidinho, entrava rápido, fechava a porta, fechava de chave. Fechava, não tinha quem me visse nessa cidade, eu não saía pra canto nenhum, pra canto nenhum. Quando fui pra casa, no final de semana, eu contei o episódio pra minha mãe: "Olha, mamãe, eu acho que queriam invadir a minha casa, que estavam pendurados, todo mundo sentado na minha janela, tinha mais de trinta pessoas.” Mamãe: "Germana, meu Deus do céu, que ignorância a sua. Eles estavam ali é pra assistir televisão, pra pegar carona na sua televisão. Não é assim por curiosidade, curiosidade todo mundo tem, também tenho um pouco disso, mas eles queriam é assistir televisão. Não faça isso." Mamãe acho que ficou horrorizada com a minha reação. Então, a partir da semana seguinte, eu não abri todas as janelas não, só uma. Abri uma janela, abri a porta e, assim, fui me acostumando. Até que eu comecei a fazer amizade lá na cidade, não só os clientes, mas as pessoas minhas vizinhas, Vera, que até hoje é minha amiga; Edicleide, uma menininha também, que naquela época uma menininha, hoje ela é mãe de família, mãe de três meninos. Então são pessoas, assim, que eu curti muito lá na cidade. Mas assim, a minha primeira reação com Mulungu foi a pior possível.

P - E você ficou quanto tempo lá, Germana, lá em Mulungu?

R - Eu fiquei de sete a oito anos em Mulungu.

P - E como que foi, então, a sua saída de Mulungu? Você ficou lá sete, oito anos, depois você foi para onde?

R - Antes de eu sair de Mulungu, eu conheci Fernando, meu marido. Bom, eu passei esse tempo todo, perdi minha matrícula porque o meu curso era diurno. Só pra essa história aí. O meu curso era diurno, então eu estudava, só tinha ônibus à uma hora de ida pra João Pessoa. Então, eu trabalhava, às vezes eu trabalhava dois expedientes e perdia o ônibus. Então, eu não tinha como estudar em João Pessoa no curso diurno, arquitetura, no curso de arquitetura. Foi por isso que eu também não concluí o curso. Por mais que eu quisesse, eu tinha que transferir pra João Pessoa e eu nunca consegui transferir. E fui pra... fiz vestibular pra Guarabira, praquela cidade que eu assumi, lá tinha uma faculdade, fiz vestibular pra letras lá. Passei e estudava, tinha um ônibus, Mulungu tinha um ônibus da prefeitura que levava os alunos pra Guarabira, pra estudar a noite. Então, numa dessas idas pra Guarabira, eu conheci Fernando, ele estudava em Areia, agronomia, estudava em Areia e ensinava em Mulungu. Então, teve uma vez que o carro de Mulungu não foi pegar os meninos que estudavam em Areia pra aula e ele pegou carona no nosso ônibus. Foi aí que a gente se conheceu, quer dizer, que eu conheci. Ele era de Mulungu, mas estudava em Areia e, também, a gente nunca se encontrou, não sabia nem quem era. Pronto, conheci, a gente começou a namorar e foi quando ele estava, ele já tinha terminado o curso, a gente já tinha casado, morava. Ele fazia pós-graduação em Areia e eu trabalhava em Mulungu. E aí ele fez um concurso pra Embrapa e passou neste concurso e foi pra assumir em Brasília. Então, foi por isso que a gente veio, aí foi quando eu consegui, depois de minhas milhões de tentativas de transferir, foi a única que deu certo, porque não foi bem uma transferência, eu tinha direito a acompanhar o marido por causa do trabalho dele. Então eu saí direto de Mulungu pra Brasília.

P - Você tinha comentado comigo que, naquelas fotos ali, tinha fotos suas de que você já tinha passado por aqui antes, em visita a Brasília, a passeio, se eu não me engano.

R - A passeio, com meu pai.

P - Mas como é sair do interior da Paraíba, de Mulungu, e vir morar numa cidade completamente nova, como é que você se sentiu quando chegou a Brasília, qual foi a grande diferença?

R - É, de todas as minhas mudanças, assim, mudança de colégio pra faculdade, mudança de ambiente, mudança pra outra cidade, pra Guarabira, pra Mulungu, a única que foi sofrida mesmo foi a mudança pra Brasília. Então eu posso dizer que foi, assim, foi uma barra que eu passei.

P - Por que Germana?

R - Porque, em primeiro lugar, eu nunca me distanciei da minha família, tá, então eu sempre tive o apoio da minha família, sempre que eu precisei, eu estava ali perto, é muito perto de João Pessoa. Eu já morava no interior, em outra cidade, mas todo final de semana eu estava lá e a qualquer horinha, era só pegar o carro e ir pra João Pessoa, então, nunca tive dificuldades. E João Pessoa era uma cidade tranqüila, apesar de ser capital, mas é uma cidade tranqüila, boa de se morar, é pequena com relação às outras cidades. E, em segundo lugar, o ambiente de trabalho meu era gente tudo de casa, era como se fosse, assim, parente, pessoas queridas, pessoas que não tinham problema, todo mundo se ajudava, então era bom. E, de repente, eu saí pra Brasília. Saí pra Brasília, eu, meu marido e minha filha; eu levei também a babá, era uma menina do interior que cuidava dela, de Priscila. Então, pra morar aqui em Brasília sozinha, sem conhecer a cidade, sem conhecer as pessoas, sem ter com quem contar muito... eu tinha uma tia aqui em Brasília, mas eu não tinha, assim... é irmã da minha mãe, era irmã da minha mãe, mas é diferente da sua mãe, das outras pessoas lá. Eu tinha como contar, mas ao mesmo tempo era distante. Ela morava lá no Cruzeiro, eu não tinha muito contato. Também tem essa coisa, assim, de não querer incomodar as pessoas. Então, eu tinha que me virar sozinha.

P - Você morou onde aqui em Brasília?

R - Eu morei na 710/711 Norte, numa comercial. Morei em cima de uma padaria. O meu apartamento ficava em cima de uma padaria. Foi o primeiro apartamento que eu morei. E era na Asa Norte, de qualquer maneira era perto do Banco onde eu ia assumir, onde eu assumi, na 504 Norte. E ali perto da W3 também. Só que eu não tinha noção nenhuma do que era Brasília; eu não sabia se eu estava indo pra o início da Asa Norte, pra o final da Asa Norte. Era assim, pra eu dirigir aqui em Brasília, foi um pouco sofrido. Então tudo isso, não teve, assim, uma coisa boa pra eu contar na minha chegada. Uma coisa assim que facilitasse a minha vida. Passei a morar sozinha, não tinha vizinhos, não tinha aquelas minhas referências, estava longe da família. Eu deixava minha filha, eu trabalhava dois expedientes, deixava minha filha só, com um ano e oito meses, na mão de uma pessoa que eu trouxe lá de Mulungu, porém ela sempre ficava, ela nunca ficava só. Essa menina, tanto é que depois deu muito trabalho, essa menina. Era sempre uma questão, eu sempre ia trabalhar com medo, de deixar a Priscila sozinha. Apartamento, eu sempre morei em casa, fui morar em apartamento. Eu me lembro que na época, as minhas coisas, assim, não eram muito boas lá em Mulungu, então eu optei em não trazer nada de lá. Eu trouxe, tinha um amigo nosso lá de Mulungu que ele tinha um caminhão, um conhecido nosso. E ele trouxe, a gente contratou ele pra trazer a mudança da gente. A minha mudança foi a minha cama, o berço de Priscila, o fogão, a geladeira e o carro. Tudo em cima do caminhão. O meu carro, na época, era um Voyage, então veio tudo em cima do caminhão. Não trouxe sofá, não trouxe absolutamente nada. Porque era tudo assim, era móvel que tinha sido da minha tia, mesa que tinha sido da outra. Como eu morava lá e estava querendo morar em João Pessoa, nunca tinha me preocupado em comprar, assim, móveis bons, porque estava até comprando as coisas, o material pra construir uma casa em João Pessoa, porque eu tinha comprado um terreno lá. Então, aqui foi que eu comprei tudo. Comprei, até, sem noção nenhuma, comprei uma mesa grande, comprei um sofá grande, tudo pra um apartamento que era desse tamanhinho, bem pequenininho.

P - Agora, Germana, lá em Mulungu você estava em uma agência, trabalhando em uma agência da cidade, e em Brasília? Como que foi essa mudança de cotidiano, qual era o trabalho que você começou a fazer lá na 504 Norte.

R - Quando eu morava, quando eu trabalhava em Mulungu, Mulungu era uma agência pequena e eu era caixa. Raramente trabalhávamos eu e uma colega minha, dois caixas. Então, basicamente, era uma agência com um caixa só. Quando eu conhecia os meus velhinhos, que iam lá pra receber o carnê do fundo rural: "Dona Germana, eu vim aqui trocar minha carneirinha.” (risos) Então dona Germana atendia. Eu conhecia os meus velhinhos todos, a clientela lá de Mulungu. Eu vim pra cá, eu vim, aí trabalhei no caixa, na 504 Norte, me colocaram logo no caixa. A bateria, pra você ter uma idéia, tinha umas 40 pessoas, tinha uns 40 caixas. E, bom, pelo menos era animado, ficar ali com tanta gente, mas era gente difícil, gente muito apressada, gente muito exigente – clientes que eu estou falando. Bom, minha experiência de caixa já era grande, já tinha bastante experiência, todo esse tempo em Mulungu, e eu fui trabalhar no caixa, nesta bateria imensa. Trabalhava, com o tempo, começou a passar a ter cartão, saque rápido com o cartão. Não tinha auto-atendimento ainda, mas tinha um caixa ou dois só pra cartão e como eu já tinha experiência e tudo, eu já... não com cartão, mas, assim, eu era boa de caixa, era rápida, não era muito devagar, então eu ficava mais no caixa do cartão. E fazia muito, trabalhava o dia inteiro fazendo só pagamento. Era muito dinheiro que passava na minha mão. Até que um dia... Aí trabalhei muitos meses, muitos meses, assim, foi um ano que eu passei nessa agência. Depois de... acho que já no final, quando eu fui fechar o caixa, deu uma diferença, porque diferença todo o caixa dá, quase todo dia, diferença de centavos, porque, por mais controle que a gente faça, ainda dá uma diferença, um centavinho aqui, um centavinho ali, às vezes, é um erro de autenticação. E, geralmente, caixa só de pagamento não dá essas diferenças grandes. E eu, no final do caixa, no final do expediente, quando eu fechei o caixa, meu caixa deu uma diferença de 500 mil.

P - Quanto isso significava na época? Muito dinheiro?

R - Você lembra que, naquela época, era um cintado da maior nota que existia de 50, acho que era cruzeiros, cruzados, eu não me recordo. Isso era o quê?

P - Que ano?

P - 1991.

R - Foi quando eu vim pra cá. Foi em 90, eu vim pra cá em 90.

P - Foi cruzado novo, depois cruzeiro.

R - Acho que foi no cruzeiro.

P - Cruzeiro, com o Collor.

R - Com o Collor. Lembra que naquela época, a gente não... o dinheiro estava preso, estava retido nas contas de poupança, essas coisas, e era fácil comprar carro naquela época porque ninguém tinha dinheiro, então preço de carro baixou e tudo. Mas eu me lembro que esse cintado, essa diferença valia um Fiat Uno naquela época. Era pesado. E eu trabalhava com volumes, como eu era caixa de pagamentos, nossa senhora, eu trabalhava com muito dinheiro, só desses cintados, durante esse dia, tinha passado pela minha mão muitos e muitos cintados. Então eu trabalhava muito, com muito dinheiro.

P - Mas como é que foi a...

R - Minha reação foi, assim, eu fiquei tranqüila, nossa... Aí Zezé, que era supervisora da bateria: “Zezé, eu estou com diferença aqui.” Daí o Zezé: "Ah”, todos os meus colegas, "Ah, 500 mil, isso não é diferença não, Germana.” Aí ninguém prestava atenção, não existia uma diferença dessa de 500 mil. Diferença de 50, dois, alguma coisa assim, mas de 500.000? Ninguém levou a sério, nem eu mesma, estava até tranqüila, podia ter sido algum repasse errado da tesouraria pra mim ou alguma requisição da tesouraria que eu não autentiquei. Bom, enfim, eu sei que a gente refez o pagamento e continuou com essa diferença; verificamos tudo e já foi um pavor, aquele pavor me tomando, e eu já ficando apavorada, em pânico já, e Zezé também, todo mundo já foi chegando ali perto de mim. Quem ainda estava, que já estava bastante tarde, então quem ainda estava fechando o caixa, tinha atrasado, aí ficando, então, fechei o caixa com a diferença que foi detectada de 500 mil. Eu não sei se na época era 500 mil ou que era, eu sei que era esse volume, essa diferença enorme. Então eu já tinha sofrido toda essa adaptação em Brasília. Quando eu estava começando a me adaptar com a cidade nova, uma cidade grande, uma cidade esquisita –porque Brasília é uma cidade diferente de todas as outras; o trânsito é diferente, as ruas são diferentes, a falta de esquina é diferente, a falta de um comércio é diferente, você vê comércios na entrequadra. Você não vê pessoas amigas, pessoas que são referências, é muito diferente – e aconteceu isso. Isso pra mim foi um transtorno. Eu sofri, eu sofri tanto que ninguém faz idéia do meu sofrimento. E eu saí, fui pra casa, chorei a noite inteira, chorei a noite inteira. No outro dia, aí começou, foi um horror, um horror, um inferno pra mim. Mas não foi um inferno. Eu que fiz esse inferno, era na minha cabeça esse inferno, como é que eu podia dar uma diferença dessa? Então, eu não admitia ter cometido um erro daquele. E eu me lembro que, no outro dia, veio seu Neraldo, que era o gerente de administração, era o gerente, logo abaixo do gerente geral da agência. Então, ele era uma pessoa muito boa, um senhor, seu Neraldo. “Germaninha," ele chegou pra mim e falou: "Germaninha. Eu não disse pra você ter cuidado, Germaninha? Que aqui tem quadrilha, Germaninha?” Eu disse: "Seu Neraldo, eu não pensei que quadrilha fosse... eu pensei que quadrilha fosse assalto, assalto a banco, essas coisas. Eu não pensei que quadrilha fosse os meus colegas.” Porque depois eu fiquei sabendo que era a agência que mais tinha rolo no Brasil inteiro, essa 504 norte. Eu fui uma das vítimas. Ali a gente contava nos dedos quem não tinha sido vítima. Vítima... era roubo de baú, roubo de baú inteiro, saía com baú na mão. Baú era onde gente trazia o dinheiro da tesouraria pra o caixa. Era um baú, um baú de metal, um baú de lona, naquela época era mais baú de metal. Era rolo na compensação, então era muito pesado, a situação lá era muito pesada. Mas eu não compreendi. Quando ele disse que eu tivesse cuidado, ele podia ter sido mais claro. Bom, enfim, eu sofri muito. Na época, o gerente, eu pedi muito pra o gerente me ajudar a apurar isso. O gerente era Juarez, uma das pessoas que eu prefiro não lembrar, mas já lembrei. Era uma pessoa terrível. Não é só minha opinião, aonde ele passou também teve muita coisa, chata. Então, aí nessa época, eu passei mais um tempo, sofri muito, chamei até auditor, não era auditor que vinha atrás de mim não, porque quando tem uma diferença grande, eles abrem um processo e eles procuram saber da vida da gente, como a gente foi, as finanças da gente. E eu sempre fui uma pessoa, principalmente naquela época, sempre tive minha poupança, todo dinheiro que entrava na minha conta era do salário, meu marido trabalhava, vivia muito humildemente. Então, a recomendação dos meus colegas foi a melhor possível, então, eles até me elogiaram: "Germana, eu não sabia que você era tão querida." Então, foi legal. Tá, uma coisa que a gente sempre tem que tirar alguma coisa boa; mesmo numa situação ruim, você consegue salvar alguma coisa de bom. Então, o fato desse reconhecimento foi uma coisa legal também. E eu paguei essa diferença em vários meses. Foi provado que não foi erro meu, que não foi culpa minha, assim, eu vi inclusive. Não foi nada anotado na minha ficha, por isso mesmo... Porque se fosse detectada alguma coisa assim, alguma má-fé, algum problema, irresponsabilidade, tinha sido anotado, mas graças a Deus, nunca foi anotado isso. Mas só que... aí eu li, eu li mesmo o laudo lá. Só que como o dinheiro, o numerário, na época, como o numerário estava sob a responsabilidade da funcionária, então ela vai ter que... porque a pessoa que sumiu com esse dinheiro, ninguém nunca apareceu. E, agora, em 2005, só pra fechar essa história desagradável, que foi muito sofrido pra mim. Eu passei um mês chorando, um mês inteiro chorando, todo dia eu chorava, com medo, eu chorava mais, assim, com medo que alguém pensasse... o meu medo não era por causa do dinheiro, nunca senti um centavo do que saiu da minha conta. Deus me ajudou, porque nunca eu senti falta, é como se nada tivesse acontecido. Esse dinheiro nunca me fez falta. Mas, o que eu sentia, eu tinha muito medo que alguém pensasse que tinha sido eu. Porque isso acontecia muito nos caixas, não era difícil, não era raro fazer, forjar uma diferença de caixa, quando na verdade, o próprio caixa, isso é comum, infelizmente, isso acontece. E naquela agência de muito rolo, então tinha muito medo que alguém pensasse, duvidasse da minha honestidade. Eu acho que o meu maior sofrimento foi esse. Eu acho que, nas minhas vidas passadas, eu devo ter sofrido muito, devo ter sido alguma ladra, alguma coisa assim. (tosse)

P - Quer dar uma parada, Germana, pra tomar uma água?

R - Deixa eu ver, se melhorou, somente pra fechar essa história. E agora, em 2002, o meu marido foi levar o carro na oficina...

P - 2002 ou 2005?

R - 2005, agora em 2005. Esse ano que passou. Foi levar o carro na oficina e lá encontrou com um antigo funcionário, que ele era gerente de alguma coisa lá, gerente de expediente, lá na 504 Norte, da época que eu trabalhava, da época que eu tive essa diferença. Então, ele lembrou de mim: "Você lembra de Germana?” "Lembro. Estava chegando há pouco tempo quando ela me procurou, me pedindo ajuda, pedindo se eu conhecia algum auditor, porque queria que alguém a ajudasse a investigar pra desvendar esse caso aí. E eu sei quem foi, eu descobri depois quem foi.” E ele falou o nome da pessoa, falou o nome pra o meu marido. E era um nome, assim, que na época a gente tinha levantado essa suspeita, mas não era só essa pessoa. E pronto. Então, foi um dos dias que eu comemorei, porque você ficar esse tempo, esses anos todinhos sofrendo porque... primeiro, por que um colega faz isso com um colega, como é que uma pessoa faz isso com um colega? Jamais ia fazer isso com ninguém, com ninguém. Imagina um colega, então, uma pessoa que está ali do meu lado, sorrindo, me ajudando, conversando comigo, ser capaz de trair, isso não passava pela minha cabeça. E depois aquela curiosidade. Quando eu soube, me deu um alívio e eu acabei, foi aí que eu fechei esse assunto pra sempre, assim, esse assunto não é mais sofrimento, embora eu conte isso ainda, que foi um trauma, mas ele deixou de ser sofrimento pra mim, quando soube quem tinha sido. Pronto.

P - Quer tomar uma água?

P - Fazer uma pausazinha?

R - Quero.

P - Germana, depois desse trauma passado na 504 Norte, como é que foi a chegada na Fundação Banco do Brasil? Foi um convite, foi uma oportunidade de transferência, como é que aconteceu essa ida pra Fundação?

R - Tá. Na Fundação, tinha um chefe de divisão que é chamado de José Honório. José Honório da Silva. José Honório, ele é parente da minha mãe, a família dele é de João Pessoa. Então, na verdade, ele é uma pessoa que tem muita participação na minha vida. Honório. Uma pessoa que me ajudou muito, eu agradeço muito, muito, muito por ele ter feito tanta coisa, por ele ter me ajudado tanto. Então, foi ele que me ajudou na transferência de Mulungu pra Brasília, me colocando na Asa Norte, que ficava num lugar mais fácil pra mim, facilitou a minha vida por isso. E depois de ter dado essa diferença de caixa, acho que com três meses depois ou quatro meses, foi um período muito difícil, eu fui de férias, a primeira vez que eu tirava férias, que eu voltava pra João Pessoa. E a gente estava na casa. Mamãe tem uma casa, papai tem uma casa lá de veraneio, uma casa de praia, e meu pai teve um aneurisma de aorta. Então foi hospitalizado, operou, passou mais 30 dias no hospital, e eu lá, e eu prorrogando as minhas férias e ele faleceu. Então, foi depois daquele sofrimento, daquele trauma da diferença de caixa, eu fui pra casa, e aí o meu pai querido, que eu gostava muito dele, muito mesmo, foi muito difícil aceitar a morte do meu pai. Tanto é que, depois, eu não queria mais voltar pra João Pessoa. Nem minha mãe, nem minhas tias, ninguém me fazia assim... não tinha vontade, não que eu não gostasse deles, é porque eu gostava muito de meu pai. Então foi outro sofrimento, outro sofrimento pra mim. E, quando voltei, depois da missa de sétimo dia de meu pai, eu voltei pra agência, voltei pra Brasília pra trabalhar. Honório, acho que ele via tanto sofrimento meu, tanto na agência quanto pessoal, ter perdido meu pai. Ele era chefe de divisão lá na Fundação e me convidou: "Germana, você quer trabalhar na Fundação? Olha, é um pouco menos do que você ganha como caixa na 504 Norte, mas é uma comissão, e você fica em disponibilidade, você sai do Banco pra poder trabalhar, você fica à disposição da Fundação, quadro externo.” E eu não pensei duas vezes. Eu não pensei duas vezes, na hora que ele me chamou: “Germana você quer?” “Quero.” "Não quer pensar não?" "De jeito nenhum. Eu quero trabalhar na Fundação Banco do Brasil". Também eu não conhecia a Fundação; sabia que ele trabalhava lá na Fundação, mas não sabia bem o que era, que trabalhava com projetos sociais. Então a Fundação pra mim, assim, foi quando a minha vida ficou boa, voltou a ser boa. Então, eu acho que é por isso que eu tenho tanto amor à Fundação, porque ela me acolheu. Eu sou grata a ela por ela ter me devolvido a alegria de trabalhar na minha profissão, a alegria de voltar a ser bancária, funcionária do Banco do Brasil, da Fundação Banco do Brasil. Então, foi algo especial pra mim, chegar na Fundação Banco do Brasil. Foi uma acolhida maravilhosa.

P - Germana, você chegou na Fundação Banco do Brasil no início da década de 90, governo Collor. E a Fundação vai passar por uma situação complicada no final de 92. A sua chegada na Fundação até esse momento, você pode considerar uma certa crise que a Fundação vai passar, como é que foi o seu sentimento? Porque nós temos, a sua chegada, esse agradecimento que você faz à Fundação, mas depois vai ter aquela repercussão da Fundação negativa na mídia. Como é que você encarou?

R - Eu já estava o quê? Eu já estava há alguns meses trabalhando na Fundação, eu acho que eu já trabalhava quando isso aconteceu, foi na época que o Lafaiete Coutinho era presidente do Banco do Brasil e presidente da Fundação Banco do Brasil também. Ele acumulava os dois cargos porque era presidente do Banco e era presidente da Fundação. E na época ele estava naquele jogo político pra evitar o impeachment de Collor. E usou... como a Fundação era fácil, trabalhava com projetos sociais, e os deputados, eles tinham as suas regiões, eles começaram a fazer pedido e o Lafaiete foi encaminhando os pedidos políticos lá pra Fundação. Era pedido de ambulância, pedido de construção de hospital, de escola... enfim, eram várias coisas que beneficiavam os municípios desses deputados. E isso na troca de votos pra evitar o impeachment. Quando chegasse na votação, não fosse... livrasse Collor do impeachment. Tinha um grupo, um grupo especial que fazia esse tipo de atendimento e, por incrível que pareça, eu fazia parte do GEA. O GEA, a gente deu esse nome.

P - GEA.

R - GEA.

P - O que era o GEA? Conta pra mim isso.

R - Era a gerência de atendimento... eu não sei, era um atendimento especial, esse GEA. Eu sei que o grupo chamava GEA. E eu acompanhava os projetos. Naquela época eu não tinha, assim, uma comissão, eu não era analista, não analisava projeto, mas eu acompanhava, ajudava. Eu me lembro que tinha umas cores, quando era um pedido, prioridade das prioridades era vermelho, depois passava pra laranja, depois amarelo e, infelizmente, teve esses pedidos de deputado.

P - Qual era a cor dos pedidos?

R - Eu já gostava, eu já tinha um carinho muito especial, hã...?

P - Qual a cor dos pedidos dos deputados?

R - Não, essas cores eram todas de pedidos de deputados...

P - Vermelho, laranja...

R - Vermelho, laranja, então ia assim, era degradé. (risos) Essa época eu já gostava muito da Fundação e já tinha um carinho todo especial, e ninguém da equipe era a favor do que estava acontecendo. Eu digo que ninguém, ninguém mesmo. Ninguém era a favor, todo mundo estava, assim, revoltado com aquela situação. Era uma equipe muito grande, poucos ficaram de fora, mas essa Gerência de Operações, era mais a gerência que tratava desses projetos de ambulância, de educação, essas coisas. CITEC ficou, na época não era CITEC, era outra que tratava de outros projetos de pesquisa, isso aí ficou fora, porque não tinha pedido de pesquisa, era mais pedido rápido. E houve uma revolta, nossa, todo mundo gostava, achava lindo o trabalho que a Fundação fazia pras comunidades, tudo, e era revoltante uma situação daquela. Até que, um belo dia, saiu na mídia, na Folha de São Paulo, essa denúncia. Então, foi alguém, lá de dentro que tinha dossiê, montou algumas provas, alguns documentos e passou isso pra imprensa. Na época, foi logo pra Folha de São Paulo, quer dizer, quem não leu, foi um escândalo. Então teve uma intervenção lá na Fundação. Eu me lembro que o diretor executivo - não era o presidente, hoje é presidente - o diretor executivo era o Tarcísio. E a Fundação foi invadida, a gente trabalhava lá no Camargo Correa, a Fundação foi invadida por repórteres da Globo, de outras emissoras, eu me lembro da Globo porque é a única que está aqui ainda. E eu fiquei, eu estava lá na sala, a gente trabalhava em outro andar, eu fui pra sala da diretoria, no andar da diretoria, e era gente correndo pra lá e pra cá. Foi uma situação horrível. E eles querendo pegar declaração de Tarcísio, de outros funcionários, e eu me recordo desse dia que eu estava no corredor, vários funcionários do corredor, e Tarcísio saindo e outros diretores, e os repórteres atrás, correndo atrás dele, querendo pegar depoimento. Foi horrível, foi muito chato, não foi legal. Agora, com relação ao meu sentimento, eu acho que ficou bem claro, naquela época, que não eram os funcionários, não era a Fundação com seus funcionários que agiram daquela forma, que agiam daquela forma. A gente estava ali pra fazer os trabalhos, a gente sabia, eu acho que é por isso que teve essa resposta, essa denúncia. Que essa denúncia, certamente ela saiu lá de dentro. Foi um chega mesmo naquela situação. E eu não senti, assim, eu não senti vergonha porque eu sabia que não eram os funcionários da Fundação que estavam apoiando aquilo ali. Era uma coisa de outro prédio, de alguém que trabalhava em outro prédio, que não sabia dos projetos da Fundação, que não sabia do significado da Fundação. Que era o presidente, a diretoria do Banco do Brasil; o presidente, Zé Bezerra, na época, não era a gente que trabalhava ali, o diretor, os dirigentes mesmo, chefes de divisão. Então, aí Fundação foi... parou o atendimento para o público, parou de receber propostas por um ano e assumiu o novo diretor, que foi o Tarcísio. O Tarcísio não, desculpa, o Maurício Teixeira. Então assumiu, nessa época que a Fundação ficou parada, parou o atendimento pro público, assumiu o Maurício Teixeira, uma pessoa muito bacana, uma pessoa muito responsável, muito calma, muito competente. Então ele conseguiu deixar a Fundação, novamente, em uma boa situação perante o público. Eu acredito que o trabalho dele foi muito bom naquele tempo que ele passou na Fundação.

P - Germana, no período da intervenção, qual foi a mudança no cotidiano, na rotina de trabalho?

R - A rotina de trabalho foi, assim, é lógico que ficamos apreensivos com o destino da Fundação. Puxa, era a primeira vez que a Fundação estava passando por aquela situação. Eu, apesar de ser nova ali na Fundação, mas eu já tinha noção da situação, como a Fundação estava. Então, a gente se preocupava com o destino da Fundação: será que a Fundação vai fechar, será que a Fundação vai acabar? Porque foi uma coisa muito séria o que fizeram com a Fundação. Foi muito séria mesmo. Usou uma entidade pública, que usa recursos públicos pra essa finalidade. Compra de votos e tudo ligado à Presidência da República. Então foi muito séria. Então a Fundação passou esse tempo todinho sob a auditoria, então a gente sempre tinha que responder. Eu mesma nunca fui chamada pra responder nada, assim, falar como era, como não era, o que foi que eu fiz, o que foi que eu não fiz. Acho que a minha função era mais, assim, auxiliar, então eu não tinha uma comissão, assim, importante, de fazer uma análise, de deferir nada. E a Fundação trabalhou, enquanto, nessa época que estava sob auditoria, a Fundação foi, continuou o seu trabalho de acompanhamento dos projetos. Não recebia projetos, porém, acompanhava aqueles que estavam em andamento. Então foi um ano bem tranqüilo, apesar de estar todo mundo apreensivo, mas deu pra levar tranqüilamente.

P - Germana, após o comando do Maurício Teixeira na Fundação, um comando de transição, ele assume a Fundação num período de intervenção. Em 93, vocês têm uma situação, onde vocês estão paralisados, tentando reajustar, alinhar as peças da Fundação. E 94, há uma retomada de projetos, vocês têm o CNEC, o Projeto Bandas, ou seja, parece que em 94, a Fundação começa a ter uma nova atuação, parece que ela volta com força. Como é que foi isso? Neste período aí de retomada, você chegou já a mexer com algum desses projetos?

R - Já. Já. Eu acompanhei algumas coisas, assim, do Projeto Bandas e acompanhei também o programa CNEC, que foi um programa importante pra revitalizar as escolas cnecistas. Eu me lembro que muitas pessoas falaram, que muitas pessoas haviam sido alunos da rede de escolas da rede cnecista. Tipo, o presidente, um dos presidentes do Banco, diretor, então era muita gente querendo resgatar aquela época boa das escolas cnecistas. Por isso que foi essa proposta lá da Fundação, não me recordo quem foi que levou esse projeto, mas eu me lembro, eu conheci o Felipe Thiago, que era o presidente da CNEC, foi uma pessoa muito importante desde a história da CENEC, e ele esteve lá na Fundação várias vezes pra fechar esse projeto. Este projeto eu não fiz, não cheguei a fazer análise, isso era mais o Ricardo Braune com o Chicão, Josi, mas eu peguei uma parte do acompanhamento dele. Inclusive, um teve um fato curioso é que, no falecimento, depois o Dr. Felipe Thiago, ele faleceu, eu fui a única lá da Fundação que fui ao enterro dele, aqui em Brasília, no cemitério lá da Boa...

P - Campo da Esperança.

R - Campo da Esperança.

P - Germana, como fica a sua atuação na Fundação após este período? Por onde é que você vai passar, que caminhos você vai tomar?

R - Nessa época, eu trabalhava fazendo acompanhamento de projetos com o Chicão e com o Josi. Eu via, passava, assim, eu via muitos projetos bacanas. Eu cheguei a acompanhar um projeto pra construção do hospital da rede Sarah Kubitschek lá em São Luís, no Maranhão. Então era um monstro, do mesmo jeito que tem uma estrutura aqui muito grande do Sarah Kubitschek, do hospital, lá em São Luís também. Era um hospital que tinha creche, que tinha toda essa coisa, assim, além do hospital. Então foi um projeto de milhões e milhões. Além de ser um projeto que beneficiou o Nordeste inteiro, porque o atendimento era muito centralizado aqui, então passou um pouco pra atender aquela região do Nordeste e Norte. E projetos importantes, programa CNEC, Projeto Bandas; depois surgiu, com a chegada do João Pinto Rabelo, foi uma mudança muito importante lá pra Fundação porque ele inovou, a Fundação passou a ter mais programas de iniciativa, foi feita uma parceria com a FENABB do AABB Comunidade, que eu trabalhei muito tempo com este projeto; depois o Homem do Campo também, eu viajei muito pra o interior, cada funcionário fazia um, dois estados, eu fiz o Estado de Pernambuco, Paraíba, São Paulo, Maranhão, interior. Então era sempre, assim, no interior onde a gente passava por certos apertos. Ia pra cidade no interior da Paraíba onde não tinha água. Aí uma vez, eu cheguei num hotel, o hotel sem água, não tinha água nenhuma, então eu ensopei, eu peguei uma toalha de rosto, porque não podia ser nem de banho porque não tinha água pra isso, ensopei a toalha com água mineral e tomei banho, banho de gato, como se diz e, assim, dormia no calor, faltava energia, muriçoca. Então foi, assim, foi muito aperto. Mas esse programa, o Homem do Campo, foi um programa muito bom; poderia ter sido melhor se a gente tivesse aquela experiência de programas que a gente tem hoje, mas, de certa forma, ele foi muito importante porque a gente aprendeu muito com ele, até pra corrigir muita coisa nos próximos programas que a Fundação implantou. Então ele serviu de experiência, foi uma base muito boa. Foi a primeira vez que a gente saiu da Fundação, que até então o atendimento da Fundação era limitado ali às quatro paredes da Fundação. A gente não tinha contato com os beneficiários, a gente não tinha contato com, raramente a gente ligava e conversava com as pessoas. Então era mais, assim, por conta das agências. E a gente não via o resultado, a gente não via a situação, sequer como é que estava antes, que merecia um projeto apoiado pela Fundação. Então, a partir deste projeto Homem do Campo que a gente saiu pra o mundo, conhecer a situação, a realidade das comunidades que a gente podia apoiar, que a gente podia ajudar e foi aí que essa grande... por isso que eu acho um passo muito à frente, foi com esse programa, onde a gente pode constatar muita coisa desse Brasil afora.

P - Germana, o programa Homem do Campo, como você falou, levou a muitas viagens. Essas viagens normalmente eram em duplas. E você teve alguma dupla especial? Alguma dessas viagens que realmente marcou, algum parceiro que realmente você falou, “esse aí foi especial”, ou por alguma situação que você passou?

R - Eu fui, no Estado de São Paulo eu fiz com a Regina, no Estado de Pernambuco eu fiz com a Estrela, no Estado da Paraíba e do Maranhão eu fiz com a Lurdes – que eu chamava ela De Lurdes. Então Lurdes, eu destacaria, não assim, as outras viagens foram ótimas também, mas a especial foi com a minha colega Lurdes. Ela é uma pessoa muito séria, assim, sisuda, mas ela ajuda as pessoas, ela tem um coração tão bom. Eu me lembro que eu tive, nesse interior da Paraíba, um calor muito grande, falta de água, eu me lembro que eu tive um problema de intestino, alguma coisa. Eu acho que eu desidratei na Paraíba – e é meu estado E ela corria, ela fazia chá, ela cuidava de mim. Então foi uma pessoa, assim,especial. Além de ser boa, não se apertava com nada. A situação que a gente... Para cada interior que a gente ia, para cada corrida diferente, onde a gente dormia, não tinha a muito, tinha noite que a gente não tinha onde dormir e a gente preferia ir para outra cidade. Então a gente passou em Pirituba, no interior, outro interior da Paraíba. A gente passou a noite em claro, fazendo, elaborando o projeto junto com o prefeito e a equipe dele, para no outro dia viajar para outra cidade. Também ali não tinha hotel, foi por isso que a gente quis trabalhar à noite, que não tinha onde ficar mesmo. Bom, viajei para o interior do Maranhão também com ela. Então, foi uma companheira, assim, ótima, que não se apertava com nenhuma situação assim, como eu também não me apertava. Não achava ruim nada. Para mim era tudo experiência. Era uma aventura. Então encarei essas viagens, esses maus momentos, assim, de desconforto, como uma aventura. Então terminou sendo bom e a gente termina com coisa boa para contar.

P - Depois de 98, ‘Homem do campo’, essa passagem, essa mudança no perfil de atuação da Fundação, assim chamada reestruturação, você chegou a atuar no projeto ‘Escola Campeã’?

R - No projeto ‘Escola Campeã’. Eu já trabalhava, quando o João Pinto Rabelo saiu da Fundação, assumiu a Heloísa Helena, com mais inovações ainda. Então se a gente já estava antes começando com alguns programas, aí foi na gestão da Heloísa Helena, foi que começou mesmo a atuação da Fundação com programas próprios, programas específicos da própria Fundação. Então parou, quase que totalmente, o atendimento de balcão, que a gente chamava na época. A gente recebia projetos, propostas, e a gente apoiava financeiramente. Então, esse apoio financeiro, a causa da Fundação ser conhecida como, apoiando financeiramente projetos, a Fundação passou a ter uma cara nova, com projetos novos, com projetos próprios. Então, a Fundação oferecendo à comunidade projetos que beneficiasse a população, que beneficiava, que dava mais visibilidade para a Fundação.

P - Em quais projetos você atuou, a partir da chegada da Heloísa Helena?

R - Eu trabalhei nos principais projetos. Foi, desde o início, foi no programa ‘AABB comunidade’, foi no ‘BB Educar’, o ‘BB Educar’ eu não trabalhei com ele no acompanhamento. Eu trouxe o ‘BB Educar’ do Banco para a Fundação. Então eu fui no banco, fiz a nota, eu elaborei a nota junto com pessoal lá do Banco, que era a Valéria, a Socorro, o Alaír, na época ficava com o Fadanelli, o gerente de lá era o Fadanelli. Então a minha participação que eu considero, assim, importante foi ter participado dessa passagem do gerenciamento do ‘BB Educar’, do Banco para a Fundação.

P - E porque que houve essa transferência de gerenciamento?

R - Porque o ‘BB Educar’ era um programa importante. Era um projeto, um programa social que não cabia e ia crescendo, a demanda era grande e não cabia no Banco ter um projeto social, quando na verdade já existia a Fundação, que era o braço social do Banco. Então o Banco tinha mais expertise para gerenciar esse projeto, o Banco não, a Fundação. A Fundação já tinha ...

P - Know-How.

R - ...Todo o Know-How para gerenciar, para receber esse programa. Então foi a partir da Fundação que o programa teve um boom, o programa ‘BB Educar’, ele cresceu muito quando foi para a Fundação. A Fundação que deu condições de ampliação do ‘BB Educar’. Agora, outro projeto que eu trabalhei foi o ‘AABB Comunidade’, trabalhei desde o começo, e quando já estava bem instalada porque tem uma coisa, eu trabalho em um programa e eu me sinto um pouco mãe do programa. Eu não vou dizer a dona porque é muita pretensão, mas eu me sinto, assim, um pouco responsável por ele. Então para me tirar dali, tem que me arrancar dali, do projeto. Então foi exatamente o que aconteceu. Na época, quem começou com este programa, ‘Escola Campeã’, foi a Viviane. Foi lá no Banco... Lá na Fundação atrás de apoio financeiro e conversou com Heloísa e a Heloísa já não estava mais dando aquele apoio financeiro nos projetos, a Fundação já não estava apoiando. Ela tinha que participar do projeto. Então a Heloisa disse que podia participar do projeto, a Fundação, sendo que a Fundação tinha que fazer uma parceria institucional aí. Uma parceria estratégica. Então a Fundação foi instituidor também do programa ‘Escola Campeã’, que é esse programa de gestão municipal e escolar que depois se chamou programa ‘Escola Campeã’. E quem elaborou o primeiro termo, o termo de aliança estratégica foi o Arthur. Então, o Arthur foi que participou de todo o comecinho do programa ‘Escola Campeã’. só que o Arthur quis sair, quis ficar somente com o projeto de cultura, o Projeto Memória que ele já conduzia e a Dulce disse, a Dulce já na época era a minha diretora, e ela disse: "Germana, quem vai ficar com o projeto ‘Escola Campeã’ é você." então foi uma semana de mal com a Dulce, não queria mais nem conversa com ela, mal falava com ela, emburrada, de cara feia, por quê? Por duas razões: uma, que ela ia me tirar do projeto do programa ‘AABB Comunidade’, que eu amava, adorava, maior carinho. Até hoje eu tenho o maior carinho por ele; e em segundo lugar, esse programa ‘Escola Campeã’, ele já estava assim... já não chegou lá na Fundação, ele não era bem visto lá na Fundação pelos colegas. Era, assim, todo mundo sabia que a gente... o papel da gente era apoiar financeiramente, então eu ia ter uma resistência muito grande da parte do outro parceiro e eu já sabia onde é que eu estava me metendo. Então foi por essa razão que não foi uma passagem, assim, muito alegre. (risos) não foi muito legal. Mas eu conduzi o programa ‘Escola Campeã’, passei a conhecer os meus outros parceiros, os outros parceiros da Fundação, aliás, as pessoas de lá, a Tatiana, a Lucia Fávero, a equipe de coordenadores que era lá em Belo Horizonte. Então eu viajava muito a Belo Horizonte. Então, praticamente, nos quatro anos, nos três anos, três primeiros anos, eu trabalhei sozinha nesse programa. A Dulce me apoiava, mas ela me apoiava como diretora da área, diretora da EDUCA. Eu era a analista que levava tudo, convênio, negociação, tudo à frente. No último ano, a Cristiane, ela trabalhou comigo, ela veio para o setor trabalhar com a Dulce, e veio comigo para o ‘Escola Campeã’. Trabalhou, me ajudou bastante, depois até o finalzinho, ela continuou no ‘escola campeã’, que foi no último ano, foi em 94, no final de 94. O ‘Escola Campeã’, ele durou, foi de 91 até 94 – 2001 a 2004 –. Então foram quatro anos com esse projeto piloto. A gente começou com 52 municípios, 54, depois perdeu... logo no começo perdeu dois..

P - Você falou que ele começou com a Heloísa Helena?

R - Heloísa Helena. Quem levou o ‘Escola Campeã’...

P - Ela entra em 2000.

R - Não. (estalo de língua) Não... que 91. O programa ‘Escola Campeã’ durou de 2001 a 2004.

P - E durante esse período, você ficou atuando.

R - Durou esses quatro anos. Então desde... eu comecei de 2001, bem no comecinho mesmo, que o Arthur só introduziu o programa lá na Fundação e eu comecei de 2001 até 2003. Então, 2003, chegou a Cristiane, para trabalhar lá na EDUCA e trabalhou comigo neste último ano do programa ‘Escola Campeã’. Este programa, eu viajava muito para Belo Horizonte, para todo o Brasil a gente fazia os encontros regionais, então foi muito bom. Eu conheci muitos lugares do Brasil, foi muito bacana. Cada um mais bonito do que o outro. E aí, no último ano, já em 2004, foi o ano que a gente... a Fundação já estava começando a pensar no programa ‘Inclusão Digital’. Já é na gestão do...

P - Jacques Pena.

R - Do Jacques Pena. E foi quando, também, coincidiu com a política do governo federal de inclusão digital. Então era uma coisa de momento, que todo mundo estava preocupado com a exclusão digital, os países aí, avançando, avançando em tecnologia e a gente sabe que, quem não acompanhar, quem não acompanhar, assim, tecnologicamente, fica mais distante ainda, aumenta mais ainda a exclusão social. Então, a gente foi para... eu fui para, participei, aí eu digo para você que este programa ‘Inclusão Digital’, ele nasceu... Ele nasceu lá na Fundação, ele é exclusivo da Fundação, sem parceria, não foi projeto vindo de fora e eu participei desde o comecinho. Eu participei desde do momento de pensar o programa, eu e o Zizo, nós passamos três meses na salinha da biblioteca pensando esse programa. Então foi todo estruturado lá dentro da Fundação e hoje já está, assim, com dois anos, esse é o segundo ano de programa. E eu estou com ele desde então.

P - Fala um pouquinho deste programa para a gente.

R - Esse programa é um programa que a gente já tinha ouvido falar, a gente, para estruturar esse programa, a gente pesquisou muito. Zizo, como tinha muita experiência, já tinha trabalhado em outros projetos de inclusão digital, sabia muita coisa e, mesmo assim, a gente pesquisou e viu que ela tinha muito Telecentro que se colocava na cidade, para a pessoa simplesmente ter acesso e aquilo ali, muitas vezes, virava uma escola de informática. Bom, não é isso o que a Fundação pretende, não era isso que a Fundação queria. A Fundação sempre é voltada para o lado social, sempre é voltada para a inclusão social. E inclusão digital era pouco para a Fundação. A Fundação queria ir mais longe. Então o que fazer? Então começamos a nos preocupar como elaborar um programa em que, ao mesmo tempo, suprisse essa atividade; que ao mesmo tempo trabalhasse com a questão da exclusão digital e, ao mesmo tempo, promovesse algum desenvolvimento da comunidade, da sociedade, das pessoas excluídas, como fazer isso? Que a Fundação não ia querer uma escola de informática. Então foi um mês, mais ou menos, dois meses que a gente ficou tentando, todo o cuidado para escolher a capacitação. Nossa capacitação. Qual é diferença? A diferença é que a capacitação dos educadores sociais que estão à frente da estação digital, das estações digitais, eles são capacitados não em informática, não em uma parte mais avançada da informática e sim em cidadania, em como fazer este atendimento, como atender as pessoas para o que realmente elas precisam. Se é um pescador, se é uma comunidade de pescador, como melhorar o trabalho dele, o trabalho daquele grupo, de artesãos, de donas-de-casa, melhorar a educação do município, então tudo isso foi pensado dessa forma. Como melhorar o desenvolvimento daquela comunidade por meio da informação, por meio daqueles equipamentos, por meio da informática. Então esse é o programa Inclusão Digital da Fundação Banco do Brasil.

P - Germana, estação digital espalhou estações digitais pelo Brasil inteiro. E muitos idosos acessando a Internet, aprendendo a pegar no mouse, no teclado. Como é que você se sente vendo isto acontecer?

R - Olha, é bom. É muito bom saber que isso acontece não só nessa, na parte de inclusão digital. O que para ele significa? Uma pessoa mais idosa que acha que nada vai aprender, que nada vai servir daquilo que ele aprende daqui para frente. De repente, ela vai... e não é fácil levar pessoas idosas para uma estação digital, mas quando se consegue o resultado é muito gratificante. Então ela vê que é possível aprender mais coisas, que aquilo ali ela pode usar, nem que seja, assim, para lazer, mas o educador social, ele sempre vai mostrar alguma coisa de útil ali que aquela máquina, aquela informação pode trazer para a vida daquela pessoa mais idosa. Então ela vai se sentir capaz. Isto é muito bom. É um prazer trabalhar na Fundação, assim como no programa Inclusão digital, assim como é um prazer trabalhar em qualquer projeto da Fundação. Você vê o ‘BB Educar’, você vê o depoimento de várias pessoas, você fica emocionada quando escuta aquilo, quando vê aquilo. Porque, realmente, é aquilo que acontece, você sair da escuridão, de não enxergar, não saber ler, não enxergar as palavras, não enxergar os sinais, o que é que aquilo está mostrando, está significando e você abrir o mundo para esta pessoa. Então a inclusão digital, pra mim também, é assim. Você ensina as pessoas a usar aquela máquina, a saber buscar a informação para, aí sim, você fazer a inclusão digital. É você trabalhar para o seu benefício, o benefício daquela comunidade, o que é que aquela informação traz para você. A satisfação é esta.

P - Então nestes últimos dois anos, você continua atuando na estação digital. Mais alguma atuação? Algum outro programa...

R - Trabalhei em 2005, o ano inteiro, ao mesmo tempo em que estava trabalhando no Inclusão Digital, eu trabalhei na sistematização do programa Escola Campeã. Agora só com a Fundação, sem parceria de outras instituições. Então, 2005 foi um ano importante, muito importante para um dos melhores programas da Fundação Banco do Brasil. Eu até arrisco um pouco a dizer que ele um programa, o programa mais importante, que mais impacto ele pode trazer para a sociedade, para a comunidade, tá? Porque é um programa de educação, de gestão da educação, onde o objetivo dele é a melhoria do ensino, do ensino básico, do ensino fundamental. Você vê aí a educação, o ensino fundamental, a educação pública no Brasil, ele não anda muito bom. A qualidade deixa muito a desejar. Tem passado por vários, tem caído a qualidade do ensino público, tem caído a cada ano. Isso é uma coisa preocupante. Você vê quem estuda em faculdade pública, federal, são alunos de colégios caríssimos, de colégios bons, que preparam os alunos para o vestibular, preparam os alunos bem, não só para o vestibular, mas também para a vida. E o ensino público, as pessoas, os alunos do ensino público não tem condições de concorrer com esses alunos do ensino privado, das escolas particulares. E o que é que está virando isso? Mais gente excluída, mais pessoas excluídas, evasão aí, o índice alto de evasão, de repetência e não pela incapacidade dos alunos. Não é pela incapacidade dos alunos. É simplesmente por uma má gestão, problema de professores, então por isso é que eu digo que esse programa de gestão da educação é o programa mais importante que a Fundação tem nas mãos. Porque ele vai mudar, ele é capaz de mudar a cara do Brasil mesmo. Porque é pela educação que um país se constrói.

P - Germana, você teve uma participação também no projeto ‘quilombolas’, você chegou a visitar uns quilombos...

R - É. No programa Inclusão Digital, nós apoiamos um pedido, uma proposta, para um quilombo. Bom, é o primeiro quilombo a receber um telecentro, uma estação digital.

P - Conta um pouquinho essa história para a gente. Como é que foi?

R - O coordenador lá de Teresina, que é uma pessoa muito atuante, o Júnior, atuante demais, ele trabalha, faz um dos melhores trabalhos nas estações digitais, porque ele atende um grupo que ninguém quer atender. Que ninguém... que são meninos de rua, são meninos de gangue. Então é difícil, é até perigoso você trabalhar com estas pessoas, mas ele enfrenta e ele trabalha, trabalha muito bem. Bom, ele apresentou essa proposta lá para a Fundação e eu achei legal. Levei para a diretoria, a diretoria ficou meio assim, mas... outra, em um estado que já tínhamos muitas, muitas estações no estado do Piauí, quer dizer, não muitas em relação aos outros estados, mas assim, já chegou a cota daquele ano. Mas eu queria bom colocar mais um, que era o Mimbó, que era no município de Amarante, no estado do Piauí. E aí viabilizamos esta estação digital para lá e eu fui fazer uma visita, eu e minha colega do BB Educar, a Regina, que ela também queria levar o BB Educar. Inclusive, ela abriu três vagas no CFA, Curso de Formação de Alfabetizadores em um município próximo à Amarante e estas três pessoas, que iam fazer o curso de educadores sociais do Inclusão Digital, eles fizeram depois o curso de alfabetização, de formação para alfabetizadores. Então a gente casou o BB Educar com a Inclusão Digital. Eles iam atuar como educadores sociais e alfabetizadores, porque lá é altíssimo o índice de analfabetismo, muito grande, as pessoas não tinham ocupação, não tem comércio, o comércio lá se limita a uma venda, uma coisa assim, barzinho. E a gente foi lá visitar, eu e a Regina, foi lá visitar este quilombo. (PAUSA)

P - Continuando a entrevista da Germana. Germana, a sua experiência no quilombo do Mimbó.

R - Bem, no quilombo do Mimbó, eu fui fazer uma visita, depois que nós aprovamos lá na Fundação. A gente viabilizou que ia ter uma estação digital e eu fui para o Mimbó com a minha colega, a Regina, que ela é do ‘BB Educar’ porque ia ter um ‘BB Educar’ lá também. E chegamos em Teresina à noite, viajamos no dia seguinte que Mimbó fica a 140 quilômetros de Teresina, alugamos um carro e eu fui dirigindo. Eu dirigindo o carro até lá, que já é uma novidade para mim, eu, nessas estradas, assim, que eu não conheço, estar dirigindo. Então fui eu, Regina e o júnior. Chegamos lá, tinha chovido. Então estava assim, não tem um calçamento lá nesse quilombo, é barro, é poça dágua, mas aí foi legal. As pessoas bacanas nos receberam. Curiosas também, me fizeram lembrar quando eu cheguei em Mulungu, que as pessoas, chega gente de fora, as pessoas ficam juntos, já começa a juntar gente ali perto, perto da gente. Mas foi interessante, interessante porque eu estava muito ansiosa para conhecer um quilombo, eu nunca, eu só ouvia falar, eu não sabia como era um quilombo, mas é uma comunidade como outra comunidade, assim, qualquer de negros. Você... só vê negros lá, raramente vê uma pessoa...

P - Com a pele...

R - ...Morena, uma pele um pouco mais clara. Bom, mas isso aí, assim, tem uma escola lá. O que eu achei interessante é saber a história desse quilombo. Então, o quanto as pessoas gostam de contar a história, então lá eu até levei um pouco da experiência das oficinas do projeto Memória e tentei aplicar lá e foi até legal porque eu consegui o depoimento de uma pessoa que era mais velha, que morava lá desde a época, os pais fundaram o quilombo, ou os avós e os pais estavam lá desde o quilombo, então ela participou daquela época. Mas eu voltei, eu lá no Mimbó, eu voltei a um pouco à época que eu fui trabalhar no interior, lá em Mulungu. Sendo que Mulungu era uma cidade, tudo. Mas, assim, a precariedade. E eu me lembro que eu comentei com a Regina e cheguei comentando lá na Fundação, como a Fundação é importante para aquele quilombo, como a Fundação é importante para aquela comunidade, sem brincadeira nenhuma. A Fundação estava levando para lá, era um espaço sofisticado, mas por trás daquela sofisticação, o que ele estava levando, o que a Fundação estava levando era simplesmente o mundo. Porque esqueça aquele aparelho sofisticado, esqueça aquele computador novo, aqueles no-breaks, aquela impressora, esqueça tudo. Porque para a gente não importa aquela máquina, o que importa é o que aquela máquina vai proporcionar para aquela comunidade. Então a gente estava vendo como ia mudar com um projeto, um simples projeto da Fundação, como vai fazer diferença para aquela comunidade. E a gente comentou muito isso na Fundação. Como era importante o programa AABB Comunidade, BB Educar, ali para as pessoas que não sabiam nada, não sabiam escrever uma carta, não sabiam ler nada. Como, apenas dois programas naquele quilombo, vai fazer a diferença. E a gente está acompanhando, desde o começo, fui lá, fiz um diagnóstico, fiz um levantamento, porque eu tenho certeza que daqui a um ano, dois anos, aquilo ali vai estar um pouco diferente. Nem que seja assim, eu não falo nem na... não vou encontrar rua, calçada, não vou encontrar casa nova, mas eu vou, eu tenho certeza que eu vou encontrar as pessoas diferentes daquela época que eu conversei. Então, isso é que dá satisfação de trabalhar na Fundação. Eu estava falando daquele projeto Escola Campeã, que agora é o programa de gestão que a Fundação tem essa tecnologia social, ela fez a sistematização e ela guarda esta tecnologia social. Eu não sei ainda o destino desse programa, se eles vão implantar em algum município ou se não. Mas, engraçado que eu estava conversando com o Fadanelli e eu me peguei dizendo, assim, depois comecei a pensar no que eu tinha dito: "Puxa vida, se eu tirasse na loteria, eu ia eu implantar este programa." quer dizer, que eu trabalho, pensando no que eu falei, se eu tirasse na loteria, eu ia implantar este programa de gestão, porque ele é um dos mais importantes, ele pode fazer muita diferença. Ele não é simplesmente uma ambulância que se compra, uma escola que se reforma. Ele reforma a pessoa, entendeu? Ele vai, ele dá formação para as pessoas. As pessoas mudam a situação, mas as pessoas têm que mudar, tem que sair daquela situação precária, tem que ter educação. Então eu vejo esse programa, que é uma coisa, assim, mais... ele vai na raiz dos problemas. Porque que o BB Educar existe? Porque tem gente que não sabe ler e escrever. Como é que hoje em dia, que tem escola para todo mundo, tem crianças na quinta série, tem crianças na oitava série, que a gente viu, analfabetas? Eu mesma já tive, a empregada, a menina que eu levei de Mulungu para Brasília, ela estudava na 3ª série, ela não sabia um ‘A’. Ela não sabia escrever o nome. Como é que pode, passar da primeira, da segunda, da terceira e ir para a quarta? Então essa, quando a gente fez o Escola Campeã, esse é o retrato da escola pública.

P - Germana, você poderia comentar um pouquinho mais sobre o Escola Campeã, já que a Fundação sistematizou, se tornou uma tecnologia social a ser aplicada nas escolas, então como que é este programa?

R - É um programa de gestão dos dirigentes da educação do município. Dos dirigentes da educação. Pode ser até estado ou não. Então, ele acontece, desde a secretaria da educação, a gestão, a capacitação para a equipe da secretaria, uma equipe que vai trabalhar com o programa, para implantar o programa, normatizando a secretaria de educação. Porque, muitas vezes, o que foi que a gente encontrou também, os municípios, eles sequer eram um sistema de educação. Eles eram vinculados, subordinados ao estado. Então ele não tinha a autonomia de fazer a educação no município. Então uma coisa que, um avanço muito grande foi o programa, foi o sistema, o município ter o seu próprio sistema de educação. As normas da educação, elas não estavam elaboradas, não estavam bem elaboradas, quando tinha não estavam bem elaboradas. É igual a Fundação não ter estatuto, não ter regimento interno, não ter suas normas. Então o programa, ele ajuda a normatizar também, a pôr em ordem. O programa também, ele prevê a autonomia das escolas, as escolas serem mais autônomas, tanto na parte pedagógica como na parte administrativa e financeira. Então, por exemplo, a autonomia pedagógica: se eu, enquanto secretaria, eu começo a impor daquela escola, daquela diretora, um método de ensino que ela não acredita, ela junto com os professores, no final do ano ela não vai me mostrar, ela pode não me mostrar um bom resultado, porque não era um método que ela acreditava ser o melhor para aquela escola. E ela, por não ser autônoma, ele não era responsável pelo resultado daquela escola. Então, o resultado é esse, mas por quê? esse aí é o método, a secretaria da educação me impôs. Então, este tipo, uma vez implantada as autonomias das escolas, o dirigente escolar, o diretor da escola, ele era responsável pelo resultado da escola. Então, cuidou-se da evasão dos alunos, cuidou-se da freqüência dos professores, isso tudo faz parte da gestão, tanto da secretaria e nessa parte dos professores, a gestão dos diretores das escolas. A gente via que metade do ano, o professor faltava, metade do ano o professor dava aula.. Não nessa ordem. Mas ele faltava muito. De um mês, ele faltava 15 dias. Onde, seus filhos em uma escola particular, eles ficam quinze dias de um mês em casa? Porque que toda, a criança, porque que toda criança que é alfabetizada na primeira série da escola particular, ela sai, termina o primeiro ano sabendo ler e escrever? E por que a criança da escola pública não consegue, não sai? Então não é um problema da criança, não é um problema da idade, é um problema, simplesmente, da má qualidade do ensino. E isso tudo é do professor. Quem escolhe o professor para estar ali na primeira série, quem é que controla a freqüência do professor, quem é que controla a qualidade da aula desse professor. Então tudo isso se resume na gestão. A gestão, quando a gente diz, não são aquelas preocupações de secretaria, nem preocupação da secretaria de escola. Não é isso. A gestão é ela saber, desde os alunos até os professores, a qualidade do ensino, a freqüência dos alunos, do professor para que, no fim, o desempenho do aluno seja o melhor possível. Então quando a gente começa, começou fazer o programa, a primeira coisa foi uma avaliação desse desempenho do aluno no primeiro ano do programa. E foi feito a avaliação também do aluno no último ano, para a gente ver se houve alguma melhora na aplicação desse programa. E houve, realmente. Foi provado que houve uma melhora, apesar de várias coisas que a gente, na sistematização, a gente mudou. Várias coisas que, por ser um projeto piloto, a gente teve a chance de corrigi-lo no final.

P - Germana, muita vivência na Fundação, muita coisa se passou, você passou uma boa parte da década de 90, e já entrou depois trabalhando, envolvida em vários projetos da Fundação. Qual que foi a fase mais marcante que você viveu na Fundação Banco do Brasil?

R - Olha, a fase mais marcante, assim, com relação à trabalho mesmo, de atuação, de crescimento, crescimento profissional, como pessoa, eu acho que foi quando a Dulce me fez a raiva (risos), fez a raiva de colocar no meu colo o programa Escola Campeã. Então essa foi uma das fases mais importantes que eu passei na Fundação Banco do Brasil. Ela me deu autonomia, que antes a gente não tinha. Até eu ir trabalhar com a Dulce, a gente não tinha - não falo eu, falo de todos os outros colegas também - a gerência era bem centralizadora, muito centralizadora. São pessoas queridas, são pessoas ótimas, mas, assim, eu tenho esta consciência. E quando eu fui trabalhar com a Dulce era outra cabeça, era outra visão e era uma coisa nova, era um momento novo. A gente começou a trabalhar, surgiu uma nova diretoria que foi a EDUCA. Então era novo, essa situação era nova, tanto para os funcionários como para a própria diretora, a Dulce. Então, tanto a gente precisava dela como ela precisava da gente e às vezes ela não tinha muita experiência nos projetos operacionais, dessa área operacional, que ela era da área de comunicação, então foi uma época de muito crescimento da gente. E ela foi uma pessoa muito legal, assim, era bem metódica, mas, assim, foi muito legal porque ela deu muita autonomia e a gente, com isso a gente cresceu muito. Eu, particularmente, cresci muito nessa época. E o programa Escola Campeã, que é um programa difícil, muito difícil de acompanhar porque o relacionamento com o outro parceiro também foi uma coisa difícil, que eu quase que assumi totalmente porque ninguém queria.

P - É difícil?

R - É difícil porque se criou, assim, um jogo de vaidade. Era o Instituto Ayrton Senna, que tinha todas as portas abertas porque tem um nome muito forte, tem um nome mundialmente conhecido, e que tinha o outro instituidor, o Banco do Brasil, a Fundação Banco do Brasil, que as pessoas não conheciam muito, era pouco divulgado, os trabalhos da Fundação Banco do Brasil e por ter este nome ‘Banco do Brasil’, no nome da Fundação, ele significa recursos financeiros, significa dinheiro. Então a gente não passava de um...

P - Financiador.

R - ... Financiador. Então a luta destes quatro anos foi levar uma imagem de instituidor do programa junto, em parceria, com o Instituto Ayrton Senna, e não como o financiador. Mas eles não se preocupavam muito com esta parte, eles tratavam a gente um pouco como financiador. Não era como instituidor. Então a dificuldade de relacionamento foi muito grande. Eu não conto a minha dificuldade de relacionamento com a equipe técnica de lá, não, isso aí não teve problema nenhum. Mas da cúpula para a cúpula, entendeu? Então era meio difícil e a gente estava na linha de frente, assim, no fogo que vinha todo para gente. (risos)

P - Germana, você poderia falar para a gente um pouquinho das pessoas que vivem, e vivenciaram em outros momentos também, a Fundação Banco do Brasil, com você?

R - Olha, eu tenho, primeiro, uma pessoa, assim, muito importante na minha vida e muito importante por ter me levado lá para a Fundação, por ter me ajudado com tanta coisa da minha vida, não só na Fundação, mas em uns momentos aí, assim, delicados da minha vida, importantes, que foi o Honório. Então essa pessoa, assim, é super importante. Foi chefe de divisão lá na Fundação, fez parte da Fundação, do início da Fundação Banco do Brasil ele trabalhava no antigo FIPEC. Então é uma pessoa que eu tenho a maior admiração como pessoa, como ser humano e como profissional. Pessoa muito séria, foi um ótimo profissional, fez a Fundação se tornar, ajudou a Fundação a se tornar uma coisa, assim, tão importante. Aí tem os outros amigos. Eu vou relacionar não nessa ordem, mas assim, teve Chicão, que eu trabalhei com ele, na época ele me ensinou bastante. Naquela época não tinha computador, a gente trabalhava na máquina de escrever então eram várias expedientes que a gente fazia cobrança para as agências e eu o datilografava com dois dedos, que até hoje eu só datilografo com dois dedos, digito com dois dedos, bem rápido, mas, só com dois. E eu passava esse expediente para Chicão, para Chicão assinar, ele usava uma caneta, até hoje ele usa caneta vermelha. E essa caneta ele riscava o expediente todo. “Não, faz diferente. Troca o seis por meia dúzia” (risos) mandava eu refazer todo. E aí, esse borrão vermelho foi diminuindo, diminuindo, mas nunca acabou. Seu se eu for levar hoje qualquer nota técnica, qualquer expediente para Chicão, Chicão certamente vai riscar de vermelho, que ele é muito exigente. Bom, então Chicão é uma pessoa, assim, que eu conto. Maria Helena não é só uma colega. Eu tenho certeza, assim, como é que eu vejo que são, assim, amigos, além de ser colegas? São as pessoas que, na hora da necessidade, elas podem apoiar a gente, ajudam a gente. Então Maria Helena é uma, não é só colega, é amiga de muitos anos de Fundação. A gente já riu muito juntas, a gente fazia os lanches da gente, na hora do expediente, a gente saía 15 minutos para lanchar,15 minutos que duravam 20, meia hora. E ela voltava toda serelepe do lanche, toda se sacudindo. Eu: “Não Maria Helena. Não pode entrar na sala toda alegre não. A gente já está chegando atrasada, mais você chegando toda contente vai chamar a atenção. Olha a cara que faz para entrar na sala”. Aí a gente entrava na sala com essa cara, assim, de peixe morto. Eu a ensinava, ela aprendeu muito comigo essas coisas. Mas ela é uma amigona. Até hoje é uma, , eu converso com ela, apesar de a gente está trabalhando em diretorias diferentes, ela é super ocupada e também eu viajando muito, mas a gente sabe que pode contar uma com a outra, assim, muito. Outra pessoa que eu gosto muito, mas muito, muito, muito mesmo é o Jeovan. Inclusive, eu fiz questão de entrevistá-lo. Jeovan é uma pessoa, assim, maravilhosa. Tenho certeza como todo mundo gosta dele na Fundação eu sou mais uma a gostar dele também. Ele é uma pessoa amiga, ele é uma pessoa, nunca se negou a me ajudar, ajudar a ninguém, uma pessoa prestativa, uma pessoa prestativa. Então eu sei que em qualquer situação, em qualquer dificuldade eu tenho certeza como ele pode estar fora de Brasília, estar aonde for, ele nos ajuda. Então eu tenho o maior carinho por ele. E eu também não posso esquecer que foi o Arthur. Era eu, Maria Helena e Arthur. Os três, o trio. Então Arthur também é uma pessoa muito querida. Ele trabalhou comigo, ele era do Projeto Memória, me deu essa herança do Escola Campeã, me ajudou muito. Quando eu tinha qualquer problema, até fora da Fundação, ele me ajudava. Uma vez eu tive um cálculo, uma crise de cálculo renal, ele me levou para o hospital. Uma vez a bateria do meu carro falhou lá na UnB, fui fazer faculdade, ele foi lá me ajudar também. Então são pessoas, essas pessoas são pessoas que, se eu tiver alguma dificuldade, eu sei que eu posso contar. São pessoas queridas, além de várias outras pessoas, o Zizo, o Fadanelli, tanta, tanta gente. Gente que não está mais lá. A Cris, que é uma amigona. A Cris foi trabalhar lá na EDUCA, é uma pessoa mais responsável, uma pessoa que eu mais confiei no serviço de olhos fechados, foi a Cristiane. E, por coincidência, ela é o mesmo nome da minha amiga de colégio, Cristiane Lucena. Chamo ela Cristiane Lucena, às vezes. Então Cris é uma pessoa responsável que eu passo, de olhos fechados qualquer coisa, confio a ela qualquer coisa. Isso é o que eu acho bacana de uma pessoa, assim, amizade é confiança, é carinho, é tudo. E ela foi para, infelizmente, ela deixou a gente e foi para governo, a para a unidade governo no Banco, mas hoje nós mantemos a mesma amizade, só não trabalhamos juntas, mas eu sou amiga dela do mesmo jeito. Então, Eu gosto muito dela.

P - Germana, como você avalia a sua trajetória na Fundação Banco do Brasil?

R - Olha, eu passei, eu digo a você que, estes anos todos que eu trabalhei na Fundação, 80% foi só alegria, foi só realização. Como eu estava dizendo que eu me peguei dizendo que, se eu tirasse na loteria, eu ia implantar o programa Escola Campeã, um programa de gestão, como eu implantaria outros programas. Isso quer dizer que, quando a gente diz: "Ah, se eu tirasse na loteria, eu comprava uma casa ou eu viajava pelo mundo, eu fazia isso e aquilo outro”. A gente sempre diz o que gostaria de fazer ou que tem sonho, o que sonha fazer e eu me peguei sonhando a coisa que eu faço. Então eu posso considerar que eu sou uma pessoa realizada naquilo que eu faço. Eu trabalho com que eu gosto a ponto de se eu tirasse na loteria, eu ia fazer a mesma coisa que eu faço hoje, só que com o meu dinheiro. Então, assim, embora eu não esteja fazendo com o meu dinheiro, mas a gente que está ali, pelo menos a gente que está ali há mais tempo, é como se a gente estivesse trabalhando com o dinheiro da gente. A gente tem o cuidado, a gente tem o cuidado de não ter problema político, escolhas políticas, sem merecimento. A gente sempre escolhe as comunidades, sempre a tendência é aprovar os projetos que, realmente, a comunidade está precisando. Fica com raiva, chateado, briga com todo o mundo que não tem este cuidado. Então eu sou, assim, leonina, sou meio esquentada. Eu o brigo com as outras pessoas que não tem a responsabilidade que a gente tem, que a Fundação merece que tenha. Então eu digo que minha trajetória da Fundação, até um contraste com outros lugares eu passei, assim, passei pouco tempo mas aconteceu tanta coisa ruim. Foi uma trajetória, assim, de realizações. Eu gostei muito, eu cresci muito. Cresci como profissional, cresci como pessoa, conheci muitas pessoas que, assim, me ensinaram muita coisa. Então foi muito bom.

P - O que você aprendeu com a Fundação?

R - Eu aprendi com a Fundação a conhecer a realidade de muita gente diferente da minha realidade. Nunca foi uma pessoa rica, nunca foi uma pessoa, assim, sempre fui uma pessoa humilde, sempre foi uma pessoa que tem. Mas eu tive a oportunidade de conhecer realidades diferentes da minha. Apesar de, eu sempre tive casa própria, eu sempre morei em lugares bons, sempre estudei no melhor colégio, estudei na faculdade, na Federal da Paraíba, estudei na UnB. Então sempre teve do bom e do melhor. Dentro das minhas possibilidades, mas essa não é a realidade do Brasil afora. Então, eu não conhecia este outro lado até ir trabalhar na Fundação. Então, me deparei, principalmente quando a gente começou a viajar no projeto Homem do Campo. Por isso que eu digo que ele é um dos principais para mim por ele ter dado, assim, ele abriu as portas para Fundação conhecer, lá na ponta, como é que as coisas estão acontecendo. Então conhecer a realidade, conhecer as pessoas, para mim foi uma coisa, assim, muito importante.

P - Você traduzia a sua trajetória na Fundação Banco do Brasil em algumas palavras?

R - Eu acho que, que eu posso falar? É tanta coisa da Fundação, sei lá, a Fundação é a esperança para muita gente. Você veja o caso de Mimbó, que eu que fui lá antes de acontecer qualquer coisa, antes de ter uma estação digital, antes de ter um outro programa, lá ver. E eu vi nos olhos das pessoas como brilhavam, como elas esperavam alguma coisa, assim, da Fundação. Alguma ajuda. Uma senhora disse lá: "A gente está cansado de tanta promessa. Tanta gente, tanto deputado, tanto político vem aqui, traz a televisão, traz rádio, traz a imprensa e nunca sai daqui com mil promessas e não sai nada” Enquanto que a Fundação só não instalou a estação digital porque ainda estão construindo, a própria comunidade está levantando as paredes. Levantou já as paredes da estação digital. “Mas assim, vocês vieram com a coisa já feita, não com uma promessa, vocês vieram para cá com algo já concreto”. Então eu digo para você, a Fundação não é uma promessa, ela leva a realidade, ela leva já alguma coisa concreta. Não fica na promessa. Então a Fundação é esperança, a Fundação é realização para muitas pessoas, para muitas comunidades.

P - Está chegando a parte final da nossa entrevista e eu gostaria de perguntar para você qual foi a importância, ou qual a importância desse trabalho de registrar a memória da Fundação Banco do Brasil?

R - Olha, eu até hoje não entendo o que a Fundação passou estes anos todos sem este trabalho. Ele é tão importante, ele é muito importante, como a própria vida da gente. Então todo mundo tem uma história, todo mundo tem uma vida e essa vida fica na memória da gente, fica na lembrança da gente e fica também em algum registro, fica em uma fotografia, fica em um documento e a Fundação não tinha isto organizado. Então, até para a própria existência da Fundação, este programa, este projeto é importante. Porque ela vai manter a Fundação, desde a sua criação e até daqui para frente, também no futuro, inclusive a gente está cuidando para que nada fique sem os registros importantes. Então resgatar isso, foi importante até para os funcionários, tanto os que já passaram por lá e para as pessoas que ainda estão lá. Porque a gente revendo um pouco o que foi a Fundação, a gente percebe a importância dela, até para perceber a importância da Fundação, para a gente funcionário como para as comunidades também. A gente é que está atropelado ali naquele dia a dia, passando um dia atrás do outro, vai passando um programa atrás do outro, mas quando a gente pára e revê essa trajetória da Fundação, mesclando com a nossa trajetória, a gente vê como ela é grande, como ela é importante para a comunidade e para a vida da gente também. Então, eu até antes de trabalhar, de participar dessas oficinas de projetos, eu não tinha me dado conta do significado da Fundação para mim, o significado da Fundação para a minha vida. Então foi, assim, por isso que eu tenho esse agradecimento, eu sabia que eu tinha um carinho muito grande pela Fundação, que eu gosto de trabalhar na Fundação, mas eu não sabia porque. E aí quando a gente volta, quando a gente vê a trajetória da gente, o momento que eu entrei na Fundação, eu vi como ela foi um bálsamo para mim, para minha a vida naquele momento. Então do mesmo jeito, eu acredito que do mesmo jeito que ela me fez assim tão feliz, eu acho que fez feliz a muitas pessoas por aí afora. Por esse Brasil afora. É importante.

P - O que você achou de ter participado desta entrevista?

R - Olha, não. Foi muito boa, eu fiquei tranqüila. Eu sei que eu tinha muita coisa, assim, que eu podia ter contado, que eu podia ter falado, mas de repente, não dá para a gente contar, assim, quinze anos. Não dá para a gente contar 15,16 anos em uma hora, duas horas (risos). Mas eu achei muito legal que eu me lembrei de fatos, me lembrei de pessoas que foram importantes para mim da Fundação, lembrei de projetos, de programas. Eu achei legal. Muito bacana.

P - Germana, em nome da Fundação Banco do Brasil e do Instituto Museu da Pessoa, a gente agradece a sua participação. Obrigado pela entrevista.

R - Eu é que agradeço. Obrigada.

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