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História

Quando a rua era a minha casa

História de: Jefferson Coelho de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/08/2007

Sinopse

Quando contou sua história ao Museu da Pessoa, em 2007, Jefferson Coelho de Oliveira estava prestes a ser pai e a completar 16 anos de idade. Sua trajetória, ainda curta, já era bem intensa. Ele havia passado por uma infância difícil, na Praia Grande, onde nasceu e decidiu, aos dez anos, fugir de casa para as ruas de São Paulo. Jefferson conta que atravessou momentos difíceis até aceitar a ajuda do Projeto Quixote, que o levou para um abrigo – foi ali, aliás, que conheceu a garota com quem teria seu primeiro filho. A novidade parecia tê-lo feito olhar para seu passado sob uma nova perspectiva. Já sem se considerar “moleque de rua”, ele sonhava ter dinheiro para, um dia, poder ajudar as crianças que enfrentam as mesmas dificuldades que ele nunca mais queria experimentar.

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História completa

Meu nome é Jefferson, nasci em 1991, moro em Praia Grande. Meu pai é pintor de quadros, artista plástico. Ele pinta quadro mesmo. Paisagem, Paris, palhaço. Minha madrasta pinta flores. Copo-de-leite, esses negócios. Negócio que só eles entendem. Eu não sou muito chegado, não. Não nasci com o espírito mesmo. Meu negócio é esporte. Meu sonho é ser bombeiro.

Estava em casa, meu irmãozinho estava para nascer, só que eu fui lá querendo enfeitar o berço dele, pequeno, queria enfeitar o berço dele. Coloquei umas bexigas, eu era gordinho, quebrei o berço todo dele com o meu peso. Aí eu fiquei com medo. Porque antigamente meu pai batia, agora ele não bate mais, não. Aí eu quebrei, fui pra rua.

Eu conheci os moleques que eram de São Paulo, da rua, eu fui para São Paulo. Primeiro lugar que eu cheguei lá foi um abrigo, que a polícia nos pegou em Embu-Guaçu, que nós subíamos de trem cargueiro mesmo. A gente ficou no cargueiro oito horas até chegar a São Paulo, por causa das paradas dele. Cheguei a Embu-Guaçu, a polícia nos pegou e me levou para um abrigo no centro de São Paulo. Aí já comecei a desenvolver. Fugi com um moleque e fui pra rua, pra Praça da Sé. Da rua, comecei a conhecer outros lugares que eu nunca vi na minha vida: Anhangabaú, República, Santa Cecília, o centro todo. Comecei a cheirar tíner, a fazer coisas que eu não gostaria de fazer.

Eu fui com dez anos pra rua. Cheirava tíner, mas nunca roubei. Eu já roubei uma vez na rua, mas nunca cheguei a roubar todo dia. Eu aprontei uma vez, umas três, quatro vezes na rua, mas nunca... Fui preso também.

Tinha o Professor Garrido, que ele tinha uma academia embaixo da ponte. Uma vez os moleques falaram: “Vamos lá na academia.” Falei: “Que academia é essa?” “De boxe.” E eu falei: “Vamos lá, sim.” Aí estava todo mundo loucão. Pegamos e fomos, fica lá no Anhangabaú mesmo. Fomos, tudo, ele falou: “Quem é você?” Eu falei: “Sou o Jefferson.” “Mora onde?” “Praia Grande.” E ele falou: “O que você está fazendo aqui?” Eu falei assim: “Estou fazendo, estou aqui, fugi de casa.” Ele falou: “E você gosta de esporte?” Eu falei: “Gosto.” “Vem aí aprender a lutar boxe.” Começamos a ficar na academia, dormia na academia, eu era o que dormia mais, que eu gostei do negócio. Começamos a ir pra torneios, esses negócios. Até hoje eu vou lá, lutar boxe.

No outro dia, o pessoal do Acolher foi me buscar, que antigamente era o Acolher. Agora é o Caps [Centro de Atenção Psicossocial]. Aí me buscou, foi para o abrigo, só que eu não fiquei no abrigo. Não consegui ficar no abrigo. Aí eu voltei pra rua. Eu vim para o abrigo do Projeto Quixote, depois que eles abriram. Eles falaram que iam abrir um abrigo, e o tempo passou rápido, e eles abriram. É um abrigo, tem médico, tem tudo lá. Tem coordenação, tem um educador. Os educadores de rua, né? Tem os educadores mesmo da casa, que tomam conta, passam a noite, 24 horas lá com a gente. Tem o educador que fica meio período. Lá é sossegado.

Conheci uma menina lá no abrigo. A Daniela. Aí começou, não sei o que deu nela, que ela começou a quebrar tudo. Logo quando eu cheguei, quando ela chegou. Eu não me dava bem com ela. “É, você vai sofrer na minha mão. Você arrumou pra sua cabeça.” Aí, já era, né? Eu comecei a ficar com ela, aconteceu uns grauzinhos lá, mas os “BOs” eu acho que estão resolvidos. Eu fiz um filho nela. Meu pai já está sabendo, todo mundo. A maioria da minha família já está sabendo. Está tudo bem, o resto. Para mim, né? Agora, para eles eu não sei.

Eu não sou moleque de falar na gíria, não. Tem muita gente que olha pra mim e fala assim: “Você não é de rua, não.” Muita gente. Mas eu já fui de rua, agora não sou, não. Porque antigamente eu era, né? Agora eu não me considero mais de rua, não. Antigamente, eu não queria saber da ajuda dos outros. Só queria ficar olhando para o alto.

Agora que eu estou com o “BOzinho”, eu estou me aprumando mais. Jamais eu quero ver um filho na rua, porque deve ser uma dor tão ruim. Agora que eu estou mais sossegado. Agora estou aliviado. Também, quando eu passo perto de um menino assim, ele está deitado no chão, não tenho nem o que falar. Já aperta o coração. Porque a mesma coisa que eles passaram eu já passei na vida. Coisas que eles já passaram, eu já passei. Na hora que eu vejo aquele molequinho embrulhado, só com uma camiseta, com a perninha assim, a camiseta passando por aqui... Não tem nem o que falar. Já passo até reto para não ficar muito triste.

Às vezes, eu já olho: “Aquele ali está de safadeza. Aquele ali está mais porque a mãe briga.” Bateu o olho na criança, você já sabe. Eu, se eu bater o olho, eu já sei por que está na rua. Parece que já vem na minha mente mesmo. “Aquele ali já deve estar porque aprontou alguma coisa.” Ou: “Aquele ali já apanhou em casa.” Quando vem com marca, um negócio assim. Aí eu vejo. A primeira coisa é bater, e isso aí na mente. Ou algum que sofre. Alguns que sofrem, como que eu posso falar? É abusado pelos pais, pelos irmãos. Pela própria mãe também, né? Que não é difícil, não. Alguns fogem para a rua.

Se eu pudesse tirar todos da rua, à força mesmo, eu tirava. Comprava uma chácara enorme. Montava uma cidadezinha só de moleque de rua. Que já foi moleque de rua. Piscina, cachoeira, tudo. Mas para tudo isso precisa de money (risos).

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