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História

Quando a educação se transforma em ação

Sinopse

Filha de cearenses, nordestinos, conta sua trajetória na Vila Postal dos Correios e na Fundação Bradesco. Infância com a família presente, casa cheia. Entre muitas visitas. Reflexões sobre educação e sobre a Fundação Bradesco. De aluna para funcionária, Kátia narra como esse lugar foi uma mudança de vida para ela. Jornalista. Mais que escrever, transforma histórias. Relata impacto da educação que não é tão visível.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Kátia.

R – Boa tarde.

P/1 – Gostaria que você falasse seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Kátia Regina de Albuquerque. Nasci aqui em Brasília, no dia 15 de setembro de 1979.

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

R – Meu pai se chama Luis Vieira de Albuquerque, minha mãe Maria Amélia de Albuquerque. 

P/1 – E onde eles nasceram?

R – Os dois nasceram em Tianguá, uma cidade serrana do estado do Ceará.

P/1 – E quais as atividades dos seus pais?

R – Meu pai hoje é aposentado, ele trabalhava nos correios. Minha mãe é costureira, trabalha em casa como costureira.

P/1 – E os seus avós paternos, maternos, você os conheceu?

R – Conheci todos. O meu avô paterno era agricultor, minha avó dona de casa. E o meu avô materno trabalhava com couro, fazia cintos, sandálias em couro. Minha avó também dona de casa. 

P/1 – E irmãos, você tem?

R – Tenho uma irmã. um ano e quatro meses mais nova que eu.

P/1 – E seu estado civil?

R – Sou casada. Há um ano e cinco meses.

P/1 – Tem filhos?

R – Ainda não.

P/1 – E a sua infância, como, onde você viveu a sua infância?

R – Eu vivi a minha infância em Taguatinga, uma cidade próxima à Ceilândia. Cidade, eu nasci em Brasília mas já fui morar em Taguatinga. E vivi a minha infância nessa casa onde minha mãe mora até hoje, na verdade. Meus pais moram até hoje lá.

P/1 – E você viveu toda a sua infância lá?

R – Lá. 

P/1 – Na verdade eu saí de lá quando me casei.

P/1 – E como é que é essa casa?

R – Ah, é uma casa muito boa. Uma casa onde as crianças da rua sempre iam brincar. Minha mãe sempre trabalhou em casa, então ela acabava ficando em casa e as crianças, nossos coleguinhas de infância iam para a nossa casa brincar. De boneca, de escolinha que a gente gostava. Gostávamos de brincar também na porta de casa. De queimada, de bandeirinha, a gente gostava muito das brincadeiras. Então como todos os moradores da quadra que a gente morava eram funcionários dos Correios, os pais eram funcionários, então a gente chamava “Vila Postal dos Correios”. Então as pessoas eram muito próximas. Então as pessoas daquele conjunto todo se conheciam. Então os filhos dessas pessoas cresceram juntos. A gente tinha um contato muito grande. Até hoje nós temos contato, um contato muito próximo dessas pessoas. A gente estava sempre junto. As pessoas, as famílias se conheciam. Não é como hoje. Hoje a gente, pelo menos aqui em Brasília é assim, as pessoas não se conhecem. Os vizinhos são muito distantes. E a nossa infância foi muito diferente, a gente tinha muita proximidade com os coleguinhas, as crianças da nossa idade. A gente brincava muito e os pais eram muito amigos.

P/1 – De que mais que vocês brincavam?

R – Ai, a gente brincava de tanta coisa [risos]. É difícil de lembrar. Porque assim, tinha aquelas mais velhas que ajudavam a gente brincar, depois a gente foi crescendo, as menores foram vindo. As crianças, as brincadeiras eram de rua mesmo. Eram brincadeiras de roda, eram brincadeiras de competição, de pique-pega, pique-esconde, pique-ajuda. E aí é uma quadra com dez conjuntos e ali era nosso espaço. Então a gente brincava com tudo por aquele espaço. A gente andava de bicicleta também. Sempre no grupo, né? As meninas brincavam muito juntas de bicicleta. E a gente adorava brincar também de escolinha. Uma era professora, as outras, aquela brincadeira mesmo de menina. A gente gostava muito desse tipo de brincadeira. E na época meu pai trabalhava nos Correios e a gente acabava tendo algumas atividades da própria empresa. Então aquelas crianças conhecidas iam todas juntas. Uma vez a gente foi para o circo. Os coleguinhas todos foram para o circo. Tinha um ônibus dos Correios que buscava, a gente ia para o circo. A gente acabava tendo a oportunidade de algumas coisas por conta do serviço do meu pai. Então a gente podia sair. Como a gente não tinha carro, a gente veio ter carro há uns 10 anos atrás, só. Antes era assim: os Correios disponibilizava ônibus geralmente, para as famílias irem para o circo, para ir para um clube. Os Correios tinham clube. Então a gente saía muito junto por isso. Sem contar com a família que a gente se reunia muito. Se reúne até hoje muito. A minha casa é um lugar onde a minha família se reúne muito, e uma casa de uma tia e da minha avó. A gente se reúne muito. Então: "Ah, a tia está fazendo aniversário." Vamos lá nos reunir para almoçar juntos. "Ah, hoje a gente vai comemorar alguém mudou de casa, alguém conseguiu alguma coisa legal na vida. Vamos comemorar." então a minha família também gosta de se reunir muito, não é só nas festas de fim de ano. A gente se reúne sempre nas festas de fim de ano com a família, mas ao longo do ano nós temos muitas reuniões. Dia das Mães, tem que ir todos para a casa da avó. Como a gente não tem mais avô, meu avô já é falecido, então Dia dos Pais geralmente fica em casa com os nossos pais. Mas no Dia das Mães tem lugar cativo já. Então sempre a gente se reúne muito.

P/1 – E na sua infância como é que era o dia-a-dia? Você acordava, como é que era o seu dia-a-dia? Ia fazer o que? 

R – Na maioria das vezes, na maioria do tempo eu estudei à tarde. De manhã sempre era atividade da escola e televisão. Era basicamente o que a gente fazia. Ao longo do ano letivo ficava mais complicado brincar. A gente brincava só no final de semana. Minha mãe sempre estava em casa, às vezes ela saía para fazer um serviço fora, mas a maioria do tempo em casa com a gente. Então na verdade ela estava com a gente o tempo inteiro. Então a infância era isso. E a gente, eu lembro de ir muito em armarinho comprar linha, botão, zíper para ela [risos]. Porque ela costurava e ela corria muito, ela costurava muito. Ela tinha muitos clientes quando a gente era menor. Então a gente ia muito a armarinhos comprar para ela. E no comércio fazer alguma coisa. Depois a gente começou a ajudar já também nas atividades de casa. Tinha que ajudar porque ela tinha que costurar e não tinha como ter uma empregada. Isso nunca teve essa possibilidade. A gente sempre estava ajudando em casa. E minha casa sempre foi uma casa que acolheu muitos parentes. Minha casa, a casa dos meus pais - até é difícil falar que não é minha casa mais, tem pouco tempo que eu casei - mas a casa dos meus pais sempre tinha um primo que morava. Porque tinha vindo do Ceará, não tinha lugar para ficar: "Na casa do tio Luis - ou - na casa da tia Amélia." dependendo. E depois assim, há uns oito anos, eu acho, que ficamos só nós quatro em casa. A maioria do tempo sempre com parentes. Então sempre tinha parentes morando conosco. Ou uma tia. Uma vez o meu pai construiu junto com um primo da minha mãe, dois quartos para acolher uma família inteira. Então a gente ficou assim, de repente, chegaram oito pessoas a mais para morar com a gente. Então nós éramos em quatro, mais oito, e a gente foi lá se organizando. Tinha que ajudar. As pessoas estavam vindo morar em Brasília.

P/1 – E além das casas, como é que era? Tinha praças, a rua? Você lembra? Se a rua era de terra?

R – Foi bom você me falar. A rua era de terra. A rua era de terra a gente se sujava todo para brincar. Depois, muito tempo depois que a gente teve asfalto na rua. Então era de terra, a gente chegava em casa imundo mesmo das brincadeiras. E a gente tinha uma praça que hoje ela ainda existe, mas é uma praça abandonada. A gente gostava muito de brincar nessa praça também. Mas era uma praça pequena perto de casa. Brincava mesmo. As brincadeiras que a gente fazia na rua a gente fazia também algumas vezes nessa praça. Mas era assim, uma praça pequena. 

P/1 – E você tem alguma lembrança que te marcou desta época?

R – Da minha infância?

P/1 – É.

R – Olha, a gente, assim, nós, eu e minha irmã a gente tem duas primas que é a Flávia e a Fernanda. A gente é uma escadinha, né? Elas duas também estudaram aqui na escola. Eu terminei em um ano, a Flávia que é minha prima em outro, depois a minha irmã e por último a Fernanda que era a mais nova. Nós éramos assim, as primas que fazíamos tudo junto, tudo junto a gente fazia. Nós tínhamos uma proximidade muito grande. A lembrança da infância que eu tenho é basicamente essa proximidade principalmente com essas duas primas. As brincadeiras sempre foram muito comuns. Sempre fez muita coisa juntas. E com a minha irmã, porque a idade é muito próxima. A gente, ela é mais nova que eu só um ano e pouco. um ano e quatro meses se eu não me engano. Então assim, a gente brincava muito junto. Eu sempre fui meio aquela irmã protetora, que tinha que cuidar, que tinha que estar junto. Até meio boba com ela, muitas vezes. A gente sempre esteve muito junto. 

P/1 – Então Kátia, e quando que você começou a estudar?

R – Eu tinha 3 anos e meio. A minha mãe me colocou para estudar no Sesi. O Sesi tem o Brasil inteiro, né, então todo mundo conhece. E daí eu fui estudar no Sesi. E eu tinha uma tia nessa época que morava em casa, que ela morava desde que eu nasci. Então para ela assim, ela fala para mim até hoje, como ela sofreu porque eu estava indo para a escola. Que eu ia ficar só na escola. Para ela era uma dor maior do que, acho que, para a minha mãe. Porque ela tem até hoje um apego muito grande comigo. Eu fui para a escola com 3 anos e meio, então para ela era um absurdo uma criança com essa idade estar indo para a escola. Daí eu fui para o Sesi, fiquei lá um tempo. Depois fui para uma escola pequena e fiquei lá até a terceira série. Foi quando eu vim para cá na quarta série. Com 3 anos e meio eu fui para a escola a primeira vez. No maternal. 

P/1 – Como é que foi?

R – Eu tenho algumas lembranças do Sesi. Eu lembro que o nome da minha turma era Moranguinho [risos]. E aí com isso eu comecei, acho que isso acaba marcando. É uma coisa até que me marcou. Para mim tudo era com morango na minha infância, sabe? Para mim era a minha fruta predileta, para mim era o que eu mais queria. Uma vez a minha madrinha de batismo me deu uma Moranguinho, aí o nome, aí pronto. Para mim foi o máximo. Porque eu tinha uma boneca da fruta que eu mais gostava. Eu nem sei se eu conhecia morango. Eu nem sei se eu já tinha comido morango, na verdade [risos]. Mas para mim o nome da minha turma era Moranguinho, a primeira turma da escola. Então para mim era o que eu precisava, né, para ser tudo o que eu queria, tudo que eu gostava. Essa boneca até, nesses dias que eu estava procurando as coisas, tem até um formulário que pede o nome da boneca. Eu preenchi tudo na época, para mim foi assim o máximo. E... Me perdi. Me perdoa.

P/1 – Você estava contando da sua primeira turma que você foi...

R – Pois é, então, aí lá no Sesi essa era a minha primeira turma. Eu lembro que a minha professora chamava Vera. E eu não sabia falar o nome dela direito. Até hoje minha mãe brinca: "Ah, você não sabia nem falar o nome da professora." Eu não lembro nem como é que eu falava, mas era tia Vera. E eu adorava. E a gente tinha uma casa de bonecas lá no Sesi. E assim, a professora deixar a gente na casa de bonecas era uma raridade. Então quando a gente ia era uma coisa de outro mundo. Era uma casa grande para a gente que era tudo pequenininho. Era uma casa enorme. A gente podia brincar de boneca. Era o lugar, era a casa, a boneca morava lá. Então para a gente era uma coisa de outro mundo, né? A lembrança grande que eu tenho do Sesi é essa, das brincadeiras. A tarde a gente tinha uma hora que, tinha um horário da tarde - que eu estudava a tarde lá - vários colchões na sala para a gente poder dormir. E hoje eu fico pensando: "Meu Deus, ia para a escola para chegar uma hora e dormir." Engraçado, né? Mas eu tenho essa imagem assim da professora colocando a gente para dormir na escola a tarde. Um horário lá ela colocava a gente para dormir. E hoje eu acho isso estranho. Acho assim fora da realidade. Eu ficava lá só um horário, não era creche. Ia lá só o período da tarde. Então nessa primeira escola a lembrança que eu tenho é das brincadeiras mesmo. Eu não tenho assim lembrança de nenhum coleguinha. Mais a professora mesmo. Do nome da professora, da imagem da professora. E dessa questão da casa de bonecas, que para mim era um encanto, na verdade.

P/1 – E como é que foi para você começar tão cedo?

R – A estudar?

P/1 – É. A ir para a escola.

R – Eu lembro que eu chorava muito na escola também, nos primeiros dias. Mas depois eu, foi bom porque eu fui criando uma independência. E minha mãe até hoje fala que foi o que me ajudou até ter muita responsabilidade, ter muita disciplina. Foi bom para mim na verdade. Eu acho que, claro que a criança sofre, com essa idade estar na escola. Mas eu acho que me ajudou e muito na minha trajetória como aluna mesmo, como estudante.

P/1 – E era comum, na época, as crianças irem cedo?

R – Era.

P/1 – Era.

R – As crianças assim de perto de nós ia. Iam pequenas para a escola. No maternal, né, que chama.

P/1 – E aí você ficou lá até quanto tempo?

R – Lá? Eu acho que eu fiquei até os 4 anos e meio, 5 anos, por aí. Daí fui para uma escola menor, mais perto de casa. Que acabou que foi ficando assim, não era paga mas lá foi ficando oneroso. Porque eles tinham que me lembrar todos os dias para a escola. Daí era complicado. Depois tinha uma condução que me levava mas ficava complicado. Era oneroso mesmo. Daí que eu fui para uma escola menor, mais próxima de casa. Lá eu fiz pré-escolar, e a primeira, a segunda e a terceira série. Foi quando eu tive a oportunidade de vir para a Fundação.

P/1 – E lá nessa escola que você fez, que é que você lembra dela?

R – Lá eu lembro muito do meu jardim da infância, porque quando eu estava na metade do meu segundo jardim, que eles chamavam, eu fui adiantada para o terceiro período. Terceiro jardim. Então no meio do ano eu mudei de sala. Para mim foi assim, minha professora disse para a minha mãe que eu: "Não, que precisava adiantar, que eu era uma boa aluna não podia ficar ali." Mas para mim foi muito difícil ter que sair da sala dos meus coleguinhas e ir para essa sala do pré-escolar. Estava lá as crianças já tudo escrevendo. Mas eu já sabia escrever, ler e escrever. Então eu não podia mais ficar naquela, foi o que eles disseram. E aí meus pais resolveram: "Então tá, vamos lá adiantar a Kátia." E eu lembro que foi na festa junina da escola, que eles conversaram com os meus pais. Eu tenho essa imagens assim. São flashs na verdade. Eu com 5 anos, ia fazer 5 anos, aí me colocaram lá no pré-escolar. No final do ano já tive formatura de pré-escolar. E eu lembro que na formatura, isso foi uma coisa que me marcou, que tinha, era missa de formatura. Foi até na igreja a formatura lá. E na hora que terminou tudo a gente foi tirar uma fotografia, eu com a professora. E na hora da volta, eu tinha deixado, eu tinha ganhado uma flor da professora. Quando eu voltei a rosa não estava mais no meu banco. Para mim aquilo foi uma dor, parecia assim que, nossa eu não tive cuidado com a flor que a professora me deu. Então assim, nossa eu achava aquilo, mas eu não podia ter feito isso, eu fiquei sem a flor. Eu fui chorosa para casa. Nossa, mas eu chorava, achava assim que eu não podia ter perdido aquela flor. Coisa de criança na verdade, né? Uma flor é, mas era o significado que a flor tinha. Porque a professora do pré-escolar tinha me dado. Foi uma coisa assim que me marcou muito. Daí a gente, depois em seguida eu fui para a primeira série. E lá nessa escola o que eu lembro mesmo é da terceira série. Foi o último ano que eu estive lá. Então uma professora que me ensinou muito. Professora Márcia, eu lembro muito dela. E eu era assim, uma aluna muito boa. Eu era aluna destaque em todos os bimestres, eles valorizavam muito essa questão nessa época. E eu tenho muito essa lembrança, de ajudar os coleguinhas a estudar. Que eles não aprendiam, tal, e eu ia ajudar a fazer a atividade, a ensinar. E aí essa é a grande sacada dessa escola. É o que eu mais lembro mesmo dessa escola.

P/1 – Como que era o nome da escola?

R – Domingos Sávio. 

P/2 – E era estadual, municipal?

R – É, é porque aqui não tem essa divisão: estadual, municipal. É escola pública, na verdade.

P1- Depois, você saiu de lá, então você fez o seu primeiro ano com 6 anos de idade?

R – Foi.

P/1 – A antiga primeira série.

R – Primeira série. 

P/1 – Que já virou antiga [risos].

R – É. Tudo está ficando antigo rápido, né? [risos]. Exatamente tinha 6 anos quando eu fiz.

P/1 – Como é que foi? Você lembra?

R – Então sempre era a mais nova da turma. E quase a mais alta, sempre. Então eu me sentia sempre um pouco diferente. Porque apesar de ser uma das mais novas eu era uma das maiores. E isso era estranho, porque eu era sempre quase a última da fila e ficava: "Mas eu sou a mais nova." Então assim, eu achava aquilo meio estranho. Mas tudo bem. Eu sempre, eu era uma criança assim que entendia bem que tinha que acontecer comigo, sabe? Eu não reclamava muito. "Ah, é assim? Então está bom. Faço como quiserem." Eu era muito, eu sou muito tranqüila em relação a isso. Então eu ia assim, eu me sentia assim às vezes um pouco constrangida. Cada vez que eu me coloco em uma situação assim de desafio, eu sei que é difícil, mas eu encaro. Eu não tenho muito medo. Então desde, acho que porque eu tive que encarar algumas coisas cedo para a minha idade. Talvez por isso, mas eu me sinto esquentar quando eu estou nervosa, quando eu tenho que encarar uma coisa nova. Mas fui encarando e fui dando certo, na verdade. 

P/1 – E lá você ficou até?

R – A terceira série.

P/1 – Até a terceira série. E depois? Você saiu de lá?

R – Porque nós conseguimos a vaga aqui na escola, para estudar aqui. 

P/1 – Como é que foi para conseguir essa vaga?

R – Porque sempre é muito difícil conseguir a vaga aqui. Mas surgiu uma oportunidade para mim e para a minha irmã no mesmo ano. Minha mãe tentou, pediu e deu certo na verdade.

P/1 – Sua mãe já vinha tentando?

R – Sim.

P/1 – Você na outra escola ela tentava aqui?

R – Sim, por quê? Essas minhas duas primas que eu falei primeiro, a Flávia e a Fernanda, já estudavam aqui. E aí a minha prima Flávia começou a estudar aqui em 1986, no ano que a escola inaugurou. Então era assim, era uma escola maravilhosa. Imagina e tudo, tem. Então a família inteira queria.

P/1 – Que é que você lembra dessa época que falavam da escola? Quando ela inaugurou.

R – Assim, a gente era muito pequena. Que eu devia estar na primeira série, que a Flávia estava no pré-escolar, que ela entrou no pré-escolar aqui. Então eu sempre lembro, eu lembro da minha tia falar que: "Era uma escola maravilhosa. Que a filha dela ganhava tudo na escola. Sempre tem muito isso, né? Aqui a minha filha tem uniforme de graça. Até a mochila recebe." Eu lembro dela falar isso para a minha mãe, a mochila, o tênis, tem natação. E minhas duas primas nadaram. Elas, na época tinha competição, a Fundação competia com outras escolas, então elas nadavam na escola. Era uma coisa assim que me encantava. E eu fiz natação na escola, mas já em uma época que não tinha as competições. Mas para mim era assim: "Meu Deus, tem uma piscina na escola que eu estudo, tem competição. Deve ser uma coisa maravilhosa." Então a gente vai, né, colocando esse sonho na cabeça e no coração mesmo. Criança, imaginar. Hoje a gente ver, as mães vêm: "Ah, meu filho quer tanto estudar aqui porque aqui tem piscina, ele é louco para estudar aqui porque ele vê que tem essa piscina maravilhosa." Tem muito isso até hoje. Eu lembro que eu ficava com isso na minha cabeça: "Nossa, aquela escola enorme." Porque a escola que eu estudava era uma escola pequena. Então aqui para mim era um mundo. A gente passava nessa porta para ir na casa da tia: "Nossa, que escola maravilhosa, ela é grande." Eu lembro que quando eu cheguei para estudar aqui a escola era imensa. Eu ficava olhando: "Meu Deus do céu, onde que eu fui parar. Eu vou ficar perdida." A impressão que eu tinha era que eu ia ficar perdida dentro da escola. Mas a gente se encontrou muito rápido.

P/2 – E você sabe qual era o critério de seleção naquela época?

R – Na verdade é o mesmo de hoje. Só que a escola era mais nova, só tinha 3 anos. Então sempre foi a questão da carência, a questão de morar próximo à escola. Então era um pouco difícil para a gente. Porque meu pai tinha carteira assinada. Então era mais complicado. Mas acabou que deu certo, né, a verdade. Mas o critério sempre foi esse. E cada ano que passa vai ficando mais difícil porque a escola vai tendo todas as turmas já completas. Na verdade para surgir uma vaga tem que ter uma transferência.  E hoje eu sei que surgiu uma vaga para mim na quarta série porque teve uma transferência. Eu acho que naquela época eu não tinha noção disso. Mas na época foi realmente coisa que foi muito importante para a minha família. Foi muito bom. Que eu e minha irmã conseguimos.

P/1 – E com relação a ensino, qual foi a diferença? Você chegou aqui na quarta série, as professoras, as matérias?

R – Foi muito tranqüilo para mim.

P/1 – Foi?

R – Foi, muito tranqüilo. Eu estudava muito em casa. Minha mãe me colocava para estudar muito. A gente fazia muita caligrafia em casa, lia muita historinha. Então para mim foi muito tranqüilo, a gente, na verdade eu consegui continuar no mesmo ritmo que eu já tinha de estudo. Porque minha mãe exigia mais ainda. Porque "Ai, uma escola assim foi tão difícil", então acaba que o pai e a mãe ficam mais, né, com mais cuidado. Nossa, não pode ter problema. E eu lembro que eu entrei na quarta série, quando foi na quinta série - que existia recuperação semestral e final - eu lembro que na quinta série a professora tinha passado várias atividades. Tinha até um diário que a gente escrevia. E eu tinha ficado com dez de média no bimestre. E aí meu pai, eu nunca tinha ficado de recuperação e eles tinham colocado minha nota como dois. E eu teria que ir para a recuperação semestral. Nossa, aí meu pai chegou em casa me explicando: "Olha, filha, você vai ter que ir lá fazer a recuperação." Eu olhava para a cara dele apavorada [risos]. "Você ficou em língua portuguesa." Eu: "Pai, não tem como. Eu estou com dez, a professora está me devendo nota para o outro bimestre." Aí eu comecei chorar. Tudo para mim era chorar. Então isso foi uma coisa que, nossa. Aí eu vim aqui e trouxe as, eu falei: "Mas você tem as provas minha filha?" "Tenho as provas pai, vamos lá." Aí eu vim, na época o boletim era a mão, né? Então acaba que um registro sai errado. Então no registro estava dois em vez de dez. Aí, para mim aquilo foi uma dor no coração. Imagina fazer recuperação semestral. E eu imaginava assim: se eu fosse para a recuperação a reação do meu pai, principalmente do meu pai era me dar uma bronca. E ele foi me ajudar. "Olha, não se preocupe, você vai ter que fazer a recuperação semestral mas tudo vai dar certo." E eu: "Como assim recuperação semestral? Eu não posso fazer recuperação semestral, eu estou com dez em português, não pode estar acontecendo isso comigo." "Você tem as provas?" "Eu tenho." Eu tinha tudo, eu guardava tudo. Aí fui mostrar. Aí corrigiram a minha nota. Mas para mim foi assim, eu lembro da cena, de eu vim com o meu pai no setor de orientação da escola mostrar a prova, mostrar que eu tinha nota na língua portuguesa. Que eu não podia ter ficado com aquela nota mas foi uma coisa assim que me marcou muito. Eu ficava, e assim, porque até o final do terceiro ano do ensino médio eu nunca, não fiquei, nunca fiquei de recuperação. Não tinha essa experiência. Então para mim era muito complicado imaginar que eu estava de recuperação. Então foi uma coisa que me marcou muito no segundo ano que eu estava estudando aqui, na quinta série.

P/2 – Kátia, você falou assim: "Para mim foi tranqüilo," né, a passagem de uma escola para outra. Mas havia uma diferença? Tinham outros alunos? Porque você ______, mas...

R – Ah, sim..

P/2 – ...e os outros alunos que não eram tão bons alunos como você sentiam a diferença?

R – Você fala se eu senti a diferença?

P/2 – Não.

R – Eles?

P/2 – Se existia mesmo essa diferença da outra escola para a Fundação Bradesco?

R – Ah, tá, você fala em relação ao ensino?

P/2 – Ao ensino.

R – Ah, tem. Porque era a metodologia que era muito, era um pouco, não era muito era um pouco diferente. A metodologia de ensino. Mas eu procurava sempre estar me adaptando ao máximo que eu podia. Na verdade eu acho que eu sempre procurei ser assim, tudo na minha vida. Sempre achei assim: "Se eu cheguei aqui eu tenho que estar assim, vamos dizer assim, dançando conforme a música. Eu tenho que me adaptar à minha nova realidade." E eu sempre tive muita facilidade de ter novos colegas, novos amiguinhos assim, desde a minha infância. Então para mim não foi tão difícil por isso. E é claro que os coleguinhas ficavam perguntando como é que era na outra escola. Se você tinha aprendido aquilo. Algumas coisas já tinha até aprendido quando eu cheguei aqui. Outras eu tive, lógico a maioria, eu aprendi. Foram coisas novas para mim, na verdade. Mas foi uma coisa que eu levei assim, claro que o primeiro dia a professora vai apresentar você como aluna nova. Todo mundo uniformizado menos você. É muito estranho, você se sente meio diferente no início. Mas depois que você recebe seu uniforme você se ver igual aos outros, é excelente. Porque você se sente assim um da casa. Sou mais uma da casa, então não tenho nenhum problema. Não sou diferente de ninguém. Isso é bom. E assim, na outra escola a gente levava lanche, aqui a gente já tinha o lanche da escola. Tinha todas essas diferenças. E eu lembro assim que, como era bom. Porque aí minha mãe não tinha mais que se preocupar com isso, com a questão do lanche. Era tudo, tudo foi uma coisa boa para a gente, para a família inteira. 

P/1 – Que é que você se lembra desse horário da merenda? [risos].

R – Olha, eu lembro que era a única coisa que eu fazia de errado na escola: furar fila para lanchar [risos]. 

P/1 – [risos]

R – [risos]. Era a única coisa. Eu lembro que a gente tinha um trabalho de monitoria. Os próprios alunos eram monitores do intervalo. E uma vez um colega estava na monitoria me levou para o serviço de orientação. Foi a única vez que eu fui, por causa, justamente por causa da merenda. Porque eu furei fila. Era uma coisa assim, sabe assim? Coisa de criança e adolescente? "Ai, eu tenho que lanchar primeiro. Vou ficar aqui nessa fila?" Porque é uma fila enorme na hora do recreio. Era uma fila imensa. E foi assim, um dos motivos, o único motivo que me levou para a orientação. Precisou de orientação por causa da bendita fila do lanche. Que eu não resisti e furei a fila. E o colega me levou para lá.

P/1 – Mas isso foi logo que você entrou?

R – Eu devia estar na sétima série.

P/1 – Ah, já conhecia..

R – Já conhecia.

P/1 – ...já tinha o tempo para você conhecer o regulamento.

R – Já, já, isso foi realmente um vacilo meu.

P/1 – Tá.

R – Porque tem aqueles lanches que a gente prefere, né? Então: "Aí, mas eu não posso perder a oportunidade desse lanche. E eu não quero ficar na fila para não perder meu intervalo." Porque assim, quando eu estava nessa série a gente gostava de ficar passeando pelo pátio. Porque tinha a área externa e interna do pátio a gente sempre estava passeando por ali, andando, vendo os colegas, conversando. Perder tempo com a fila do lanche? 20 minutos? Para mim não podia isso acontecer. Então na verdade foi o que, foi meu vacilo na escola [risos].

P/1 – E diferença da escola com relação a comemorações, o que é que você sentia? Como é que foi isso?

R – Você fala porque aqui tem menos comemorações? Como é que você está falando?

P/1 – Não, então, eu queria entender como é que foi: você veio de outra escola para essa escola. Você falou um pouco das disciplinas. 

R – Hum, hum.

P/1 – E eu queria entender se tinha outras diferenças. Você falou do uniforme, da merenda. Das festas, como é que é? Aqui tinha mais? Tinha menos? Como é que era? Tinha mais criatividade para a preparação das festas? Você sentiu...

R – Ah, sim, como eu cheguei para a quarta série geralmente aqui na escola - minha irmã chegou para a segunda e eu cheguei para a quarta. A diferença que eu senti era por quê? Tinha duas quartas séries de manhã e eu fiquei em uma das quartas da tarde. E as turmas da manhã sempre tinham mais comemoração aqui na escola. Porque são os menores. E a gente ficou, tinham duas turmas de quarta série a tarde. E essas turmas acabavam que não tinham tanta atividade cultural por conta que estavam no turno da quinta a oitava. Na verdade meu turno, eu estava fora do meu turno na verdade. E no outro ano eu já fui para a quinta. Então eu lembro assim que a minha irmã tinha desfile de manhã, tinha outras atividades. E eu acabei que não peguei muito isso aqui na Fundação. Não tive muito essa atividades aqui na Fundação. Na outra escola a gente tinha festa junina, como aqui também tem. Essas atividades não mudaram muito não. Aqui assim, uma coisa que eu lembro muito é que a gente tinha, na época que eu estudava, eu tenho até hoje, a parte esportiva. Que na quinta série era a série de jogar handball. E eu lembro que a minha turma ganhou o torneio de handball das quintas séries. E era uma coisa que eu achei muito legal. Era uma atividade que motivava muito. E todo ano que tinha Copa, eu lembro que em um ano de Copa do Mundo a gente teve a mini copa que a gente fazia. Onde cada turma era, representava um país e a gente tinha que se caracterizar. E isso foi uma coisa muito legal. Então assim, na outra escola, como eu era menor tinha as atividades como aqui tinha. Mas só que eu cheguei aqui na verdade em uma quebra, eu acredito. Eu vejo assim hoje. Em uma quebra de segmento. Que apesar de estar ainda no segmento até a quarta série eu estava a tarde. Então o segmento era da quinta a oitava.  Não tinha, não eram muitas atividades. Tinha mas não era tanta quanto fosse de manhã. E aqui uma coisa que tinha que eu achava assim fantástica era que a orientadora educacional, na entrada, a gente fazia fila na época que eu estudava a tarde. A gente fazia fila no pátio da escola antes de ir para as salas. E a gente sempre tinha que aprender uma música. Eu lembro que a gente aprendeu cantar coração de estudante. A gente, ela distribuía os, as folhas com a letra para a gente poder cantar. E eram momentos muito legais. Porque a gente aprendia cantar várias músicas nessas, né, nessas atividades que ela fazia. Era sempre na entrada do turno.  A gente ia para a sala de aula mais tranqüilo. Já tinha cantado uma música todo mundo junto. Era uma coisa que eu achava muito legal, muito interessante. Uma coisa que é uma lembrança muito boa que eu tenho. Na época que eu fazia quinta série, a gente tinha esse momento assim, na entrada do turno a gente sempre cantava uma música. Para mim era muito interessante. Era uma atividade que enriquecia muito, eu acredito.

P/2 – E a questão da disciplina? Você falou que foi, furou a fila e foi...

R – Han, han. É, eu levei uma bronca da orientadora.

P/2 – Como era tratada a questão da disciplina na escola? Era mais rígida?

R – Muito mais do que é hoje, muito mais. Eu lembro quando eu comecei a estudar aqui, o uniforme era o mesmo desse. Mas a gente não podia ter o cabelo solto. Se prendesse o cabelo, o cabelo teria que ser preso e com amarrador azul ou branco. Com a camisa para dentro da calça. Várias regrinhas. Que a gente quando é aluno a gente reclama muito. Mas quando a gente vai para o mercado de trabalho a gente vê que tudo isso tem um sentido, na verdade. Porque para mim é muito tranqüilo encarar certas regras, certas normas, porque eu fui educada aqui dentro assim. Porque a gente tinha varias, nossa, muita coisa. E a Fundação Bradesco, pelo menos aqui no DF, ela tem essa fama, né, de ser muito rígida. Ser mais rígida que o colégio militar. Tem muito disso. [PAUSA] Então a gente tinha essa questão da rigidez muito forte. Tinha que ter muito cuidado. Quando a professora chegava na sala para dar boa tarde todos se levantavam. Só sentava quando o professor falava: "Podem sentar". Então era uma coisa assim bem certinha.

P/1 – E o que é que você acha que influenciou para mudar? Assim, hoje ter menos rigidez.

R – Eu acho que os tempos na verdade mudaram. Eu encaro assim, quando eu comecei trabalhar aqui, na verdade, essa rigidez estava começando a diminuir. Eu achava um pouco estranho no início. Nossa, eu ficava; "Meu Deus, a gente vai se perder com esses alunos. Porque tem que ser na..." Como eu tinha crescido assim eu achava que tinha que ser linha dura. Para mim tinha que ser dessa maneira. Acredito que a gente tem, acho que o ideal é o equilíbrio que tem que ser encontrado. Porque tem coisas que não precisa ser exigidas e outras tem que ser exigidas. Os meninos hoje, até hoje, da escola sofrem muito porque a gente manda fazer barba, manda cortar cabelo. Eles reclamam. Mas se eles vão trabalhar... Chega no estágio, quando chega com, começa, você faz 16 anos tem que ir para o estágio. O cabelo lá tem que estar curto com a barba feita. Aí eles chegam para a gente: "Agora eu entendi porque é que vocês me fazem cortar o cabelo e fazer a barba." Então na verdade eu acho que tem que existir é o porquê é que tem essa regra; o que é quem vai te beneficiar essa regra. Talvez na minha época a gente não tinha muito essa explicação: "Faça e pronto." hoje eu acredito que as coisas mudam e para melhor. E a gente tem sempre procurar, a gente sempre procura explicar o porquê é que a gente pede tal coisa ou aquela coisa. Tem que explicar. Eu acho que a gente tem que saber por que é que a gente faz isso. Nem que seja daqui cinco anos, dez anos vai me beneficiar, em que? Eu entendo, né? Uma coisa que quando eu fui classificada para trabalhar na organização me perguntaram o que é que eu tinha aprendido com a Fundação. E uma coisa que eu disse foi, é o que eu vou dizer sempre: "Eu aprendi a ser uma pessoa disciplinada." Por conta dessas regrinhas que pareciam coisas bobas, coisas sem fundamento mas que na verdade tem uma razão de ser e de existir. Hoje me ajuda muito. Hoje eu sei o porquê, das coisas. Hoje eu sei por que é que eu tenho que ter cuidado com algumas coisas que eu devo fazer isso ou não fazer aquilo. Então essas regrinhas me ajudaram muito. Claro que cada um assim, tem uma criação na família. Então eu acho que isso impacta de uma maneira ou de outra, dependendo de como a família até encara também isso dentro de casa. Como é que a família coloca isso também. Meu pai também sempre foi muito exigente. Então para mim era o que tinha que ser, para mim era uma coisa tranqüila. Meu pai me ensinou desde pequena que era assim. Eu cheguei aqui era também. Claro que com umas coisas assim que às vezes a gente não entendia muito, mas era para fazer, vamos fazer.

P/1 – Na sua época de estudante você colocou que para você era fácil se adaptar na sua casa também tinha uma exigência de comportamento. E para as crianças, você lembra como é que era?

R – Ah, para alguns era muito difícil. Para alguns eles brigavam. Eu lembro que a gente não podia amarrar o casaco na cintura. E eu tinha uma, a gente fazia aula de práticas agrícolas na época. A gente cuidava da horta, do pomar, a gente ajudava, né, nessa área. E eu lembro que uma inspetora de alunos pediu para uma colega tirar o casaco. Ela fez um escândalo com a inspetora: "Mas eu não vou tirar nada, eu vou ficar do jeito que eu quero!" Então assim, para mim jamais eu ia responder à uma pessoa da escola. Eu fazia o que me mandasse na hora mas para as pessoas era muito difícil. Eu lembro que nessa vez ela começou brigar com a inspetora "E que eu não vou tirar, e não quero saber. Eu quero ver quem é você para me fazer tirar esse casaco." Então muitas pessoas desafiavam mesmo. Como os alunos desafiam até hoje. Mas eu lembro que na minha época os alunos desafiavam. A gente fazia na quinta e na sexta. Eu acho que foi na sexta série que isso aconteceu. E ela falou: "Eu não vou tirar. Quem é você para me exigir?" Então tinha algumas coisas assim que os alunos enfrentavam mesmo. Tinha alguns alunos que sim, tinha alguns que não. Mas era cada um mesmo no seu pensamento. 

P/2 – E o que acontecia em um caso desse assim?

R – Ah, olha, geralmente não ficava só na... Porque assim, o inspetor claro que tinha esse papel de estar chamando a atenção tudo. Mas nesses excessos geralmente ia para a orientação. E vinha as advertências. A gente tinha aquela coisa do livro preto. "Ah, vai assinar o livro preto." Nossa, eu ficava apavorada. Essa vez que eu furei a fila eu fiquei?: "Pronto, vou para o livro preto. Estou perdida. Meu pai vai saber que eu vou para o livro preto." E eu ficava: "Meu Deus, meu pai e minha mãe vai saber que eu fui para o livro preto, que é que vai ser de mim?" Então tudo era isso. "Ah, vai para o livro preto." Eu lembro assim das pessoas irem na sala dizer isso. Eu lembro das inspetoras irem na sala olhar se a gente estava com a meia da escola. Porque ganhava tudo então tinha que estar tudo certinho. Eu lembro que tinha um jeito certo de amarrar, de colocar o cadarço no tênis. Não podia ser cruzado, tinha que dar a volta em cada buraquinho direitinho. Tinha que estar com a meia da escola. A borracha tinha que estar limpinha do tênis. Então assim, quantas vezes eu vinha com outro tênis, chegava na porta da escola colocava o da escola, para não ter perigo. Porque hoje não, hoje a escola está em uma área bem urbana, né? Tem casa para tudo que é lugar, está tudo asfaltado. Mas na época que eu estudava aqui não, era muita poeira. Muito mais. Hoje ainda tem um pouco. Mas era muito mais. Era muita poeira. Quando chovia então, era muito complicado. Então a gente tinha todo esse cuidado, né? Imagina sujar o tênis. Tinha muito cuidado com isso. Porque as inspetoras olhava. Elas iam na sala olhar. Se a meinha era da escola ou se tinha ido com uma meia que não era do uniforme. E ai daquele que estivesse sem uniforme. Ó, era complicado. Saía da sala para a orientadora.

P/2 – Você falou assim: 'Meu pai vai ficar sabendo." Como é, a escola comunicava o pai? Como era feita essa comunicação?

R – Chamava o pai, ou ligava para o pai para avisar que tinha acontecido. Ou mandava o pai vim buscar porque estava sem uniforme. Assim.

P/1 – E você falou das aulas de horta. Quais era as atividades?

R – A gente vinha, a gente tinha o horário da horta no horário de aula e a gente vinha também uma vez por semana pela manhã. Eu lembro que a gente tinha até uma camiseta vermelha da Fundação. A gente achava o máximo. O professor fazia na verdade um rodízio entre os alunos. Então assim, a melhor atividade era regar a horta. Todo mundo queria ir regar a horta ou lavar a casinha agrícola que tinha, onde ficavam os equipamentos. Então o dia que você conseguia aquilo era o máximo. Porque ou você tinha que rastelar, passar o rastelo nos canteiros, ou catar as ervas daninhas que você sujava toda a sua mão. Então eram várias atividades, ou ir para o pomar também e rastelar lá o mato. Tinha todas essas atividades. Ele “rodiziava”: "Ah, hoje você vai ficar nesse grupo." ele dividia a gente nas atividades. Era isso que a gente fazia. E também a gente, eu lembro que voltando ao morango, uma vez eu ganhei uma muda de morango. Que a gente plantava morango na escola [risos]. Aí eu levei o morango lá para casa, cuidava do morango em casa. Então eu tinha essa atividade também de ter as mudinhas. Que a gente podia levar as mudas para casa, cuidar da muda lá. Ele ia ensinando na sala como fazer. Então tinha esse trabalho de cuidar também das plantas. De plantar. De estar ajudando lá no plantio. Era uma atividade bem interessante. 

P1-Tinha, não tem mais?

R – Hoje em dia é um pouco diferente. Porque não existe mais essa, esse componente curricular: Práticas Agrícolas. Hoje a gente tem um projeto na escola que chama Projeto Sementes. Que os alunos vem e ajudam. Mas aí é um extracurricular. Não está dentro do currículo. 

P/1 – E além da atividade horta quais outras atividades vocês tinham? De artes, tinha?

R – É, a gente tinha uma, na sétima e na oitava série, a gente tinha aula de Práticas Integradas para o Lar, as meninas. E os meninos faziam Práticas Industriais. Daí a gente aprendia um monte de coisa. Tinha aquele álbum de puericultura para fazer. A gente aprendia a cozinhar. Então eram umas atividades bem legais. Alguns trabalhos de artes mesmo que a gente tinha que fazer nessa aula. Então era assim: foi sétima e oitava série, foram duas séries onde a gente fez muito trabalho prático. Então aonde a gente se reunia na casa dos colegas para fazer trabalho. A gente fazia peça teatral na sala. Então foram dois anos muito intensos de trabalhos assim muito interessantes. A gente às vezes reencontra alguns colegas, e a gente sempre relembra que tinha que se reunir para montar peça, se reunir para poder montar um trabalho para apresentar. Eu lembro que uma vez eu fiz um papel de um general. Me arrumaram uma roupa toda verde assim, de general. Foi muito, eram atividades muito interessantes. A gente fazia com muito prazer. Então já tinha aquele grupo cativo. Aquelas meninas ali, aquele grupo [risos] ninguém tirava a gente daquele grupo. Então a gente tinha um grupo muito conciso mesmo. Era muito coeso mesmo. Éramos assim cinco ou seis que a gente sempre fazia os trabalhos juntas. Porque era o grupo que fazia bem o trabalho. A gente gostava de trabalhar junto. 

P/1 – Culinária?

R – Tinha culinária também.

P/1 – O que é que vocês aprendiam?

R – Ah, fazia brigadeiro, docinho de côco. A gente aprendia mais essas coisas boas de fazer. [risos] E a gente aprendia também a cuidar do bebê nessa parte de puericultura. Naquela época tinha muito isso nas aulas de Práticas Integradas para o Lar. E era basicamente isso mesmo. Uma vez a gente também fez um trabalho sobre moda. O que é que combina com o que? Então para a gente era o máximo. Com 12, 13 anos para a gente era o máximo fazer esse tipo de trabalho. Nossa. Era aprender o que queria, na verdade.

P/1 – E os meninos?

R – Era Práticas Industriais. Então eles trabalhavam com marcenaria, eles tinham um pirógrafo na escola que eles faziam, escreviam, faziam detalhes na madeira. Era uma coisa bem legal.

P/1 – Isso dentro do horário?

R – Era, era uma aula. Acontecia justamente na sala que a gente está.

P/1 – E qual matéria que você mais gostava?

R – Eu sempre gostei muito de Língua Portuguesa e Geografia. Sempre gostei muito, sempre me dei muito bem. Principalmente Língua Portuguesa, sempre gostei das regrinhas, do que é que vai, do que é que não pode. Sempre gostei muito. Apesar de nem sempre achar tão fácil, mas eu me encantava. Me encanto até hoje. Gosto muito. 

P/1 – E professor, você tem algum professor que te marcou desta época?

R – Tem a professora de Práticas Comerciais. Não vou nem lembrar o nome dela. Mas ela eu lembro que era uma pessoa assim que a gente, ela proporcionava muitos trabalhos legais. Foi...

P/1 – Práticas...

R – Práticas Comerciais.

P/1 – ...Comerciais? Como é que era essa aula?

R – É aonde a gente aprendia, podia ser até uma aula bem maçante, mas ela fazia a aula ser muito criativa. Então assim, é a parte mesmo que eu vou aprender até preencher um, de preencher um cheque a preencher uma nota fiscal, a como ter uma empresa, a montar um produto. A gente tinha que montar um produto, fazer propaganda de um produto. Então eram atividades bem interessantes. 

P/1 – Isso em qual série?

R – Oitava. A gente teve que inventar um produto, fazer a propaganda dele em um dos trabalhos. Então era o máximo. Foi muito interessante essa aula.

P/1 – Ainda existe?

R – Não. É outro que já saiu do currículo faz algum tempo. A legislação vai mudando muito. Então não tem mais essa aula. Bem legal. Era na oitava série. 

P/1 – É nessa disciplina que vocês aprendiam, iam em supermercado?

R – Também. Exatamente. Como fazer as contas, a parte da economia mesmo, de uma maneira mais do cotidiano. Mais cotidiana mesmo. 

P/1 – E aqui na região, você conheceu a escola desde quando ela começou em 80 e...

R – E seis.

P/1 – 1986. Como é que foi? Ela interferiu muito na região aqui?

R – Muito, completamente. 

P/1 – Como é que foi essa interferência. 

R – A região cresceu muito com a escola. Porque uma coisa que a gente observa é que a família cresce muito. Não financeiramente. Mas como pessoas mesmo. Como família em relação aos valores. Os valores mudam muito quando tem alunos na escola dentro da família. A Fundação se preocupa muito com essa questão de formar o cidadão. E eu acho que isso é que é o grande barato. Porque além do ensino que a gente procura ter todo esse cuidado da qualidade, tudo, tem essa questão da cidadania. Então a família é outra. A gente percebe assim, de famílias inteiras que estudam aqui, às vezes tem três, quatro filhos que moram aqui na parte posterior da escola. Que são setores de chácaras bem carentes em que a gente percebe que a família está até mais limpa. A família já vem mais limpa para a escola. Que quando vinha aqui atrás da vaga muitas vezes estava assim bem sujinha. E a situação socioeconômica não mudou. Mas a família passou a ter cuidados básicos que qualquer família independente de ser pobre ou rica tem que ter, deve ter. Para ter saúde mesmo. Então a gente percebe muito isso. A escola, passou a ter mais ponto de comércio que não tinha. Tem, passou a ter mais casas nessa parte posterior da escola. As casas mais próximas, tem muita casa ao redor. Tem muita, não é, como se fosse o bairro para as outras cidades, né? Tem outros bairros dentro de Ceilândia hoje. Então a cidade cresceu muito também em número de habitantes nesse tempo para cá, desses últimos 20 anos. Muito mesmo. 

P/1 – Em 1986 aqui ao redor era uma região mais rural?

R – Não era bem rural, só que era mais simples. Não tinha, se vocês observarem as fotos não tinha toda essa construção aqui nas laterais da escola, no fundo da escola. Não tinha nada. Era terreno baldio, sem nada. Só tinha as casas da frente da escola. Então casas bem mais simples. Que na época era cidade satélite mais pobre mesmo do Distrito Federal. Depois disso foram criadas várias outras cidades.

P/1 – E na sua época de estudante como é que era a relação com a comunidade?

R – Hum.

P/1 – Já existia cursos que a comunidade participava? Como é que foi isso na sua época de estudante?

R – Olha, eu comecei a perceber que existia esses cursos depois de um tempo. Não sei, quando a gente é mais criança a gente não percebe tudo o que acontece. Para a gente, para mim pelo menos a escola era muito grande. Então você não via bem as atividades. Mas eu lembro assim bem que já tinha o curso de datilografia, e esse curso eu acho que tem desde que a escola funcionou, começou a funcionar. Então assim, a comunidade estava sempre em contato com a escola. Quer seja, não só atrás, né, pedindo vaga para os filhos mas também se profissionalizando. Então depois passou a ter esses outros cursos. Comecei a perceber os outros cursos de culinária, cursos de informática, depois do tempo depois que veio o computador. Mas a comunidade sempre esteve muito na escola, muito mesmo.

P/1 – Como é que é lá? É uma escola aberta para a comunidade?

R – A gente procura...

P/1 – Como é que elas interagem assim, abrem cursos para as pessoas se inscreverem? Como que divulga?

R – É, a gente divulga assim: a gente procura colocar cartazes nos comércios locais. Aonde a gente tem, as pessoas tem acesso mesmo às informações da escola. Então tem supermercados perto da escola, a própria agência do Bradesco que fica no centro da cidade. Os pais de alunos que acabam, que conhece o vizinho. "Ah, tem um vizinho que tem vontade de fazer” então assim, é uma divulgação que flui com muita facilidade. Porque as pessoas se conhecem e elas se comunicam muito em relação a isso. "Ah, tem um curso na Fundação Bradesco de salgadeira, vamos lá fazer." Ou então: "Você não quer fazer? Você precisa se profissionalizar." E esses cursos dão um bom retorno para as famílias. A gente começa a perceber que tem um retorno muito interessante para as famílias. Porque as pessoas começam a ter, a saber o que fazer para ganhar dinheiro, né? Que é o que é a dificuldade hoje. Às vezes não tem uma profissão porque não tem qualificação mesmo. E os cursos da escola proporcionam muito isso para as famílias.

P/1 – E, voltando um pouquinho. E a sua adolescência? Independente da escola, como é que foi?

R – Bom, minha adolescência fora da escola, eu sempre tive muitos amigos. E eu sempre fui muito de dentro da igreja, da igreja católica. Então com 13 anos eu entrei no grupo jovem da paróquia. Então eram os meus amigos. Foi quando eu deixei um pouco aqueles colegas da rua, da onde eu morava para conhecer pessoas novas na igreja. Então assim, eram as pessoas que eu ia para o cinema, sábado à tarde a gente ia, pegava um ônibus perto de casa e ia para o cinema. Ou andar no shopping sem nenhum centavo mesmo, era só para passear [risos]. Quantas vezes a gente fazia isso. E bater papo, a gente gostava muito de se reunir para conversar. E lá em casa, como na infância as pessoas sempre foram muito na minha casa. Então é assim, os meus amigos até hoje chamam a minha mãe da tia Amélia e o tio Luis. Essa é a relação dos meus amigos, então eram os meus amigos. 

[Pausa]

P/1 – Você falou que ia no shopping.

R – Sim. E acabou que eu comecei a me envolver muito com as questões da igreja. Isso mesmo. E daí em dois anos que estava no grupo jovem eu assumi a coordenação de uma das equipes do grupo jovem. O grupo jovem era dividido em várias equipes e eu assumi uma das equipes. Então eu participava da coordenação do grupo. Daí eu acredito que daí vem a questão da minha liderança mesmo.  Na adolescência eu já tinha muita atividade, já tinha muito o que fazer na igreja. Eu estudava aqui a noite, no meu antigo, o antigo segundo grau. Então durante o dia eu sempre estava resolvendo alguma coisa do grupo jovem. A gente sempre tinha alguma coisa para resolver. A gente trabalhava com evangelização de porta em porta nas casas das famílias das quadras que a gente morava. Então a gente tinha muita atividade. E como eu trabalhava na equipe de liturgia onde preparava as missas, e o nosso grupo tinha missa todo domingo. Então tinha muito trabalho para fazer. E eu acabei assumindo essa questão de liderança mesmo. E eu acredito que eu fiquei madura antes do tempo. Eu tive que assumir algumas responsabilidades antes do tempo mesmo. Mas eu acho que não foi ruim. Eu aprendi muito com isso. Eu acho que eu trouxe isso para o meu trabalho, eu trouxe isso para a escola, trouxe para a minha faculdade. Trouxe isso para tudo que eu passei a fazer. E uma coisa que foi muito importante para mim nessa época da, do grupo jovem, foi quando um amigo nosso se ordenou padre em uma cidade do Goiás. E eu organizei a viagem. Eu tinha 16 anos e eu organizei uma caravana de dois ônibus. Foi assim a prova final. Foi bem complicado. Porque as pessoas brigavam, as coisas não estavam como elas queriam algumas vezes. Mas eu aprendi muito com isso. Porque a gente organizou. Tinha que pegar a relação, receber dinheiro das pessoas. E assim, meu pai e minha mãe estavam por trás disso. Mas muito mais eu. Eles na verdade me ajudavam eu era a responsável pela atividade. E depois disso a gente foi trabalhar mais com a evangelização mesmo. Com trabalho de evangelização. A gente deu alguns cursos para as pessoas, de formação. Minha adolescência foi muito envolvida com essa questão mesmo desse trabalho social dentro da igreja. Foi uma coisa bem forte para mim. Fora da escola eu era muito a Kátia da igreja mesmo. A Kátia tinha que resolver as coisas, que tinha que organizar um evento daqui e dali. A gente fazia, fazíamos festas também; uma vez a gente fez, estava até encontrando um documentos esses dias eu achei uma, um convite de uma festa dos anos 60 que a gente fez. Então foi super divertido. Minha mãe fez vestido para metade das meninas da festa. A gente organizou assim, era aniversário do grupo jovem de dez anos nessa época. A gente fez uma festa para comemorar. Foi super divertido. Nós nos reunimos várias vezes nas casas dos colegas para ensaiarmos as músicas, para no dia poder estar lá tudo pronto para dançar. Minha adolescência foi basicamente essa questão desses amigos do grupo jovem da igreja mesmo.

P/1 – E da escola?

R – E da escola. Mas assim, muitas pessoas na escola assim, fora daqui tinham muito contato com os colegas da escola fora daqui. Eu acabava tinha o contato da escola na escola, fora da escola era realmente lá o pessoal do grupo jovem. Porque a gente tinha muita atividade mesmo. 

P/1 – E você se lembra da sua formatura?

R – Daqui?

P/1 – É, da sua, da oitava série?

R – A gente não tinha formatura da oitava série aqui.  Na verdade a comemoração ficou mesmo para do técnico em administração. Então na oitava série a gente, na verdade a gente tinha uma cerimônia oficial e tudo. Foi uma coisa, uma passagem mesmo da tarde para a noite. Que era aquela: "Nossa, vamos estudar a noite." E a outra formatura?

P/1 – Não, e aí você terminou a oitava série...

R – Foi.

P/1 – E foi para...

R – Para a noite.

P/1 – ...para fazer o segundo grau. 

R – Foi.

P/1 – O antigo colegial.

R – O antigo colegial, o antigo segundo grau, atual ensino médio.

P/1 – [risos]

R – [risos]

P/1 – E como é que foi para você essa passagem?

R – Olha, no início foi bem difícil, viu? Para me manter acordada na sala. Era uma questão fisiológica mesmo. Para me manter acordada até as onze. Para mim era muito complicado. Mas a gente se acostumou. Mas era muito complicado. Chegava na última aula a gente estava, eu estava assim sofrendo já para ir para casa porque eu estava, era sono mesmo. A gente tinha vontade de dormir. E durante o dia eu tinha, eu fazia inglês. A gente tem uma escola, várias escolas, em cada cidade satélite tem uma escola pública de inglês, de línguas na verdade. Tem espanhol, francês e inglês. E eu fazia inglês. Sete e meia da manhã. Então para mim era terrível, porque eu tinha que acordar muito... Foram cinco anos, da sétima série até o final do terceiro, ensino médio lá fazendo inglês cedo. Meu horário era sempre esse. Porque era, a gente ia avançando e a turma ia ficando sempre nesse horário. Então era meio sofrido, mas... estudar a noite era muito interessante. Você ficava em casa o dia inteiro. Quando não tinha inglês, dia do inglês, você ficava em casa o dia inteiro. Tinha como estudar muito. Dava mais tempo. Mas aí você vai chegando na adolescência, você tem assim, nossa você tem que ler um monte de livro. E às vezes eu ficava: "Meu Deus, tenho que estudar, tenho que estudar." Eu sempre estudei muito, mas eu era assim o tipo da aluna que gostava mais de prestar atenção na aula para ter que estudar menos para a prova. Até que eu sempre me dava bem, sempre fui feliz nisso.

P/1 – Qual o curso que você fez?

R – Na graduação? Ou no...

P/1 – Na...

R – Técnico em administração. No ensino médio, que era o que a gente tinha.

P/1 – E por que você escolheu administração?

R – Pois é, tem uma história. A verdade a gente na oitava série a orientadora profissional fez um teste vocacional. Como se fosse um teste vocacional conosco. Daí no final da oitava série a gente tinha que fazer a opção que curso nós íamos fazer. E eu fiz a opção por técnico em administração porque eu achava que eu não tinha jeito para ser professora. Que eu imaginava que ia ter que aprender a fazer um monte de dobradura, ia ter que fazer um monte de trabalho manual. E eu não tenho a menor habilidade no trabalho manual. E por isso eu fiz a opção pelo técnico em administração. E na última reunião de pais, meu pai veio, a orientadora conversou com ele. Falou: "Olha, o teste da Kátia está aqui, tem tudo a ver com magistério. Ela não tem perfil de fazer administração." Daí ele: "Olha, mas ela quer e tal. Mas eu vou conversar com ela." E eu lembro que eu tinha uma amiga que estudava na mesma sala que eu e que também fez técnico, a opção para técnico em administração. E naquele ano a gente teve a oportunidade de viajar para a casa e uma tia. Então eles não me encontraram durante as férias. Só que essa minha amiga foi encontrada e trocaram ela para o magistério. Ela chorava a primeira semana inteira de aula. Até que hoje assim, ela percebeu que realmente a vida dela realmente é a área de educação. E eu demorei a perceber um pouco, né? Fiz lá os meus 3 anos técnico em administração. Consegui fugir da escola para poder fazer o magistério. E acabei fazendo técnico em administração. Mas eu tinha pavor de pensar que eu ia ter que fazer aquelas dobraduras, fazer aqueles trabalhos manuais. Eu achava que eu não ia dar conta. Então eu: "Não, eu vou fazer técnico em administração, é isso que eu quero e pronto." Mas, não foi ruim, foi bom. Aprendi muito, o curso é um curso muito amplo. Tem um pouco de economia, um pouco de contabilidade, um pouco da própria administração. Você aprende um pouco de tudo. Foi muito bom para mim, foi importante para mim. Sempre fugindo do lado da educação, mas acabei que...

P/1 – E você foi uma criança que gostava de brincar de dar aulas...

R – Hum, hum.

P/1 – Depois a orientadora falou que sua vocação seria para fazer o...

R – Magistério.

P/1 – ...você escolheu administração. O que é que nos estudos influenciou para a sua carreira?

R – Você fala...

P/1 – Durante os seus estudos? Que é que você acha que influenciou para a escolha da sua carreira?

R – Olha, é tão complicado dizer isso porque eu fui fazer um curso, estou atuando em uma área que não tem muito a ver com o que eu estudei, na verdade, né? A minha vida inteira eu falava que ia fazer Comunicação Social, a vida inteira eu dizia que queria ser jornalista. Só que eu sempre falava que eu queria ser jornalista para fazer os trabalhos dos bastidores. Eu sempre tive um encanto assim, eu lembro que quando eu era criança, adolescente, eu falava para a minha mãe: "Imagina o que é que esse pessoal fez para poder ter esse programa feito? Eu quero estar lá, fazendo os bastidores para ver como é que é. Deve ser muito legal." então eu sempre tive isso. E eu fiz uma coisa que eu tinha paixão, na verdade, que era a questão do Jornalismo. E eu sempre falava isso: "Nossa, você tem uma cara bonitinha. Você pode até aparecer na tv." E eu: "Não quero." Eu lembro que uma vez o professor me colocou lá para fazer um programa de TV, e eu: "Pelo amor de Deus." Decorar aquele tanto de coisa para falar em frente das câmeras tudo se apaga na minha memória. Então eu sabia que não era aquilo que eu queria. E daí o curso técnico que é de administração existem uma gama de áreas. E eu tinha certeza mais uma vez que eu não queria nada na área de exatas. No técnico de administração eu tive certeza disso. A gente tinha pouca física, pouca química, porque na verdade é um curso mais, onde você vai ter a formação mais técnica. Então as disciplinas assim quando tinha física eu ficava: "Ai meu Deus." Tanto que eu sou péssima nas áreas, na exatas eu sou assim terrível. Eu sempre tinha nota, prestava atenção, mas eu tinha que estudar muito mais para dar conta. Então assim, fiquei pensando: "Ah, eu gosto de português eu vou e dar bem também na Comunicação Social. Não é possível que não dou conta. Eu quero tanto fazer esse curso." e eu fiz realmente porque eu queria. Então a Comunicação Social foi realmente uma influência do que eu via na minha infância e na minha adolescência na tv. Mas eu tinha certeza que eu não queria aparecer na frente das câmeras. É engraçado porque a maioria das minhas colegas o negócio era a televisão. Era estar lá fazendo as reportagens para todo mundo ver a carinha. Mas para mim não era isso. Não era isso que eu queria. Eu sabia que eu queria era ver aquele produto está acontecendo ali, mas saber que eu estava ali por trás fazendo a coisa acontecer. E hoje aqui na escola eu vejo que meu trabalho é mais ou menos esse. Eu fico muito nos bastidores. Quer dizer, a escola está bonita por quê? Eu tive alguma responsabilidade para a escola está bonita, porque eu orientei que era para fazer daquele jeito. Porque eu orientei para o trabalho ser assim. Então tudo na escola que acontece, como eu sou na área administrativa então as coisas realmente... Está ali a sala bonita para receber os alunos, a gente fez a reforma na sala A ou na sala B. Então sempre tive muito, eu tenho muita responsabilidade dentro dessas atividades. Então de qualquer maneira eu acho que eu estou hoje em um lugar que eu precisava estar. É assim, todo mundo sabe o quanto eu trabalho mas eu estou aqui. Eu não tenho problema de estar nos bastidores. Eu gosto de estar. Eu gosto de ver o produto ali final e eu ter tido uma parcela de contribuição, na verdade.

 [Pausa]

 

P/1 – E o que é que significou a escola que você fez, a sua formação que você teve na Fundação Bradesco para a sua formação e atuação profissional?

R – Como eu falei antes, eu acho que a questão da disciplina, da responsabilidade, a questão da formação do cidadão que a Fundação se preocupa tanto. É um jeito que isso tenha sido o grande diferencial para a Kátia no mercado de trabalho, hoje. Eu vejo que isso me ajudou a ter tranquilidade para lidar com várias coisas, que talvez se eu tivesse ficado em uma outra escola eu não teria tido essa tranquilidade. Porque com os projetos e com os trabalhos que a gente fazia na escola a gente acabava aprendendo muita coisa para a vida mesmo. E o curso técnico que é a administração proporciona, proporcionou para mim isso. Que a gente acabava tendo uma empresa que a gente tinha que ser o presidente, ou o coordenador, diretor. A gente tinha uma disciplina, chamava Escritório Modelo. A gente fazia até na sala que dava o curso de Datilografia. Lá a gente dividia os setores da empresa. A gente se (rodiziava?) para cada um passar pelos setores. Então isso ajudava muito. O curso ajudou muito em relação a isso. E a questão mesmo das regrinhas que a gente falou antes. Que às vezes pareciam tão assim, até inúteis, para muitos alunos, mas é o que faz o grande diferencial. É o que a gente vê mesmo assim, muita gente com um bom emprego hoje, trabalhou na escola, porque ver uma facilidade. Hoje a gente ver os alunos da Fundação fazendo estágio, e as empresas querendo os alunos da Fundação porque sabem que não vai ter que formar o estagiário nisso. Porque ele já vem pronto. Vai ensinar o trabalho. Mas essa questão de bons modos, de um comportamento tranqüilo para o mercado de trabalho ele já vai com 16 anos tranqüilo. Porque ele sabe o que ele tem que fazer.

P/1 – Como você fica sabendo disso?

R – O retorno que a gente tem das próprias empresas. Porque como a gente trabalha com o CIEE, que é uma empresa intermediária, eles já pedem: "Ó, a, por exemplo, o Ministério, tal Ministério quer o pessoal da Fundação Bradesco porque já gosta do jeito que o pessoal da Fundação chega." porque eles já sabem. O aluno chega para a gente e fala:"Olha, lá o lugar que eu trabalho, no banco que eu trabalho eles estão querendo estagiário daqui da escola porque gostam do nosso perfil." Já chegou assim, gerente da Caixa Econômica vir aqui na escola conversar com a diretora: "Olha, indica para o Ciee alunos daqui porque eu quero mais três daqui. Porque eu estou perdendo dois que são ótimos. Estão terminando o ensino médio agora, eu preciso de alunos da Fundação. Porque eu preciso continuar com o bom trabalho que está tendo com os meus estagiários." então é aí que você vê a razão, como é interessante essa questão que às vezes parece que a gente não tem razão. Daí que a gente consegue incutir nos alunos de hoje: "Olha, por que é que é importante você fazer isso ou aquilo. Porque vai ser importante para você." Porque quando os meninos chegam com 16 anos, o que eles querem é estagiar. Eles querem ter o dinheirinho deles. Isso é uma coisa certa. Hoje principalmente. Na minha época nem tanto. Mas hoje é uma coisa que eles querem muito estagiar.

P/1 – E o seu curso de segundo grau, foram quantos anos?

R – Três. 

P/1 – Três?

R – Hum, hum..

P/1 – E a formatura como é que foi?

R – Bom, no início de 1996, quando a gente estava começando o terceiro ano, começamos aquela história: "Vamos fazer uma formatura, tem que ser uma formatura legal e tudo." Aí nós contratamos uma empresa. Aquilo era uma loucura para a Fundação. Porque a gente nunca, acho que nunca tinha tido uma festa grande assim. Eram festas mais simples, as pessoas se organizavam em um ambiente mais simples. Mas nós fomos lá. Com a cara e com a coragem. Pedimos para a orientadora e para a direção. Aí a gente tinha uma orientadora que acompanhava a Comissão de Formatura nas reuniões. Nos ajudavam. "Tem que arrecadar dinheiro hoje, vamos arrecadar." A gente vendia uma rifa para ajudar. Então era assim uma mobilização. E eu era representante de turma no terceiro ano e era da Comissão de Formatura. Então tinham dois papéis assim grandes na sala de aula. E eu tinha que lá conversar, às vezes tinha que brigar com os meninos para eles prestarem atenção. Que eles tinham que pagar a formatura, tinham que definir quem é que entrava, quem não entrava. Então foi outro momento muito interessante para essa questão do trabalho como líder no ambiente que eu estava. E daí a gente fez essa formatura do jeito que a gente sempre sonhou. A colação de grau foi aqui na escola, na época tinha que ser. Hoje em dia a gente já faz fora porque realmente não comporta a quantidade de formandos. Mas a gente fez a nossa colação de grau aqui, em uma noite bem chuvosa assim [risos]. Foi bem complicado, mas fizemos nossa colação aqui. A nossa missa. Teve o culto evangélico, teve, e teve o baile de formatura em um clube. Foi o máximo. Nossa para a gente foi fantástico assim, fazer a formatura do segundo grau. E para muitos amigos nossos aquela foi a única formatura que ele teve. Tem gente que nunca cursou uma faculdade. Tem dez anos, vão fazer dez anos que eu me formei aqui na escola, e eu tenho colegas que às vezes a gente se comunica, nunca teve a oportunidade de começar uma faculdade. Então foi a festa de formatura de muitos até hoje.

P/1 – Muitas alegrias?

R – Muitas alegrias, brigamos bastante. Algumas pessoas da Comissão fizeram algumas besteiras, sumiram com algum dinheiro mas... Tudo deu certo no final. 

P/1 – E você Kátia, que gostou tanto de estudar aqui, como é que foi acabar a sua fase estudantil aqui na...

R – Olha, eu lembro que a gente tinha - essa tradição foi quebrada há alguns anos atrás - mas existia uma tradição aqui na Fundação de Ceilândia que assim, no último dia de aula a gente tinha que ir para um balão. Um retorno que tem perto da escola. Todo mundo atravessava para lá para se reunir junto. A gente fazia um grande círculo. Rezava junto, chorava junto, gritava, ficava alegre porque estava terminando a escola e triste porque estava saindo e aí acabou a escola, né? A escola que muitos ficaram doze anos, desde o pré-escolar aqui. E era assim, nossa, a gente chorava porque ia sair da escola. Como era difícil você ficar longe daqui. Porque eu não sei se em toda escola acontece isso. Porque a experiência que eu tenho é essa, é daqui. Mas é um lugar que as pessoas se apegam muito, é aqui é como se fosse a segunda casa das pessoas. Era como se fosse a nossa segunda casa. Sair da escola era muito complicado para a maioria dos alunos. Era perder um referencial para a maioria dos alunos. Então de repente a gente se via sem essa segunda casa, acabou a escola. Ai, e agora? E a sensação de terminar o segundo grau, na época para mim era o segundo grau, era muito complicado eu falava: "E agora? Tenho 17 anos, eu só consigo emprego com 18, né? Posso só tirar carteira com 18 anos. Tenho que prestar vestibular. E se eu não passar no vestibular o que é que vai ser de mim. É um momento de uma quebra muito grande. Para mim foi um momento muito assim: e agora o que é que vai acontecer comigo. E eu não consegui passar no vestibular de cara, no primeiro semestre. Eu não consegui passar assim que eu terminei. Eu tive que fazer um cursinho pré-vestibular. E logo eu sou que tinha sido selecionada entre os 12 melhores alunos da escola para trabalhar na organização. Daí eu ficava: “Meu Deus, trabalhar em um banco, nunca trabalhei na minha vida.” Porque para a gente vir para a fundação eu nunca pensei que tivesse a possibilidade, na minha época nem pensava. Nossa, vim para a Fundação. Os alunos, os ex-alunos que tinham na escola eram professoras. A maioria dos alunos do técnico em administração ia para os bancos. Até por causa do curso. Aí eu ficava: "Meu Deus, o que é que vai ser." Acabou a escola, estou eu lá fazendo o meu cursinho, estava trabalhando na secretaria da igreja, que foi o meu primeiro emprego. E esperando o que é que acontecia. O salário do meu trabalho lá era todo, exatamente o valor da mensalidade do cursinho que eu fazia. Então o dinheiro ia todo para lá. E fazendo cursinho. Daí surgiu a oportunidade de vim trabalhar na escola. Me chamaram um dia para vim fazer entrevista. Eu : "Na escola? Interessante, vou voltar para a escola, um lugar que eu passei oito anos estudando." Aceitei na hora. Falei: "Acho que vai ser melhor do que banco." Que eu ficava com aquela impressão, que eu lembrava do curso técnico em administração. "Eu vou ter que trabalhar com dinheiro das pessoas. Como é que vai ser isso? Eu acho que vai ser meio pesado. Eu acho que vai ser bom ir para a escola." E era para trabalhar na secretaria da escola. Eu ficava: “Tá bom.”Só que isso foi em maio, se não me engano. Só que eu tinha 17 anos, eles não me chamavam. Nunca. Nem iam chamar, né? Não tinha idade para trabalhar ainda. E no dia do meu aniversário me chamaram para começar a trabalhar. Então foi um presente de 18 anos. Comecei a trabalhar na escola. Aí dia 01/10/1997 eu comecei a trabalhar aqui.

P/1 – E continuou estudando?

R – Daí o que aconteceu? Quando foi em agosto eu passei no vestibular da Universidade Católica. Eu falei: "Como é que eu vou pagar?" Fundação Bradesco me chama para trabalhar. Aí se tem uma esperança. Nós fomos fazer a matrícula, eu e o meu pai. Que eu era menor, então tinha que ir o pai ou a mãe junto para assinar. Eu: "Pai, eu vou pegar todas as disciplinas." "Minha filha, como é que nós vamos pagar?" Eu falei: "Nós vamos, eu vou começar a trabalhar pai. Acredita em mim, nós vamos começar. Vai dar tudo certo." Eu lembro que ele pagou em agosto, em agosto mesmo conseguiu uma bolsa de 50%. Daí já melhorou. Eu tinha aula de segunda a sexta, assim. E Comunicação Social era um dos cursos mais caros na época da Católica. Por conta dos laboratórios, aquela coisa toda. Então era um curso caro. Quando foi em setembro eu já paguei com desconto. Foi melhorando, a vida foi melhorando [risos]. Já era menos a mensalidade. E em outubro eu comecei trabalhar. Meu salarinho ia todo para a Católica, quase assim. Quase todo ía. Porque eu tive que, logo eu tive que tirar carteira de motorista, tive que aprender dirigir meio , né, no susto. Porque para eu sair da Católica e estar aqui no horário de trabalho, que eu estudava de manhã na Católica, e aqui deu exatamente que a vaga era para trabalhar tarde e noite. Que eu fiquei pensando: "Ainda vou estudar na Católica de manhã não vai ter oportunidade de eu trabalhar em lugar nenhum. Que a maioria dos colegas eram todos desempregados porque o pai pagava, estudava de manhã como é que vai trabalhar? E eu era assim, quando eu comecei trabalhar acho que eu era a única que tinha emprego. Eu tinha que estar aqui uma hora da tarde. Então eu tive que aprender a dirigir. Meu pai já tinha um carro, e esse carro ficou praticamente comigo. Que eu tinha que ir para a faculdade de carro. Juntei algumas amigas para dividir a gasolina o mais rápido possível. Umas colegas que moravam perto. Quando chegava em casa era o tempo de tomar banho, almoçar quando dava tempo e vim trabalhar. Meu pai chegava do trabalho me trazia. Que ele trabalhava só até meio-dia, meio-dia e meia. Ele chegava e já me trazia para trabalhar. Ou eu vinha de ônibus, como desse para fazer. Eu fiquei cinco anos na Católica lá estudando. Banquei minha faculdade toda. 

P/1 – Como é que foi o seu primeiro dia de trabalho aqui?

R – Primeira coisa que eu fiz aqui foi arquivar documento. Eu lembro como se fosse hoje perfeitamente [risos]. A gente tinha uma outra secretária na escola, e na época a diretora era a professora Eliane. Ela, eu lembro dela me perguntar se eu já conhecia a escola. Aí eu: "Ah, já conheço." "Então nem preciso caminhar na escola com você, né?" Eu falei: "Não, não tem necessidade porque eu já conheço a escola inteira." Daí já fui trabalhar, já fui fazer um trabalho. Porque estava em aberta a vaga acho que desde maio. Então tinha muito trabalho atrasado. Tinha documentação de aluno para arquivar nos prontuários dos alunos assim de meses. Daí eu fui arquivar a documentação. O primeiro trabalho que eu fiz foi arquivar documento. Então foi, ah, tudo novo, né? Vamos fazer. E eu lembro que na primeira semana de trabalho a gente ia distribuir senhas para as famílias justamente para as vagas da educação infantil. E aí a escola adquiriu um carimbo, aquele datador que vai mudando, na verdade não era datador, era numerador. Que ia mudando os números. E ninguém na secretaria sabia mexer com aquele numerador, muito menos eu. Mas eu tive que aprender. Nossa para mim foi assim, o grande primeiro desafio da escola. [risos]. Trabalhar, e ele não funcionava da maneira correta. E estava dando dez horas da noite e eu não dava conta. E tinha que carimbar a tal das senhas lá, porque no outro dia de manhã tinha que entregar essas senhas. Eu lembro que eu cheguei em casa e chorava. Eu falei: "Meu Deus eu não vou dar conta, é muito complicado, é muito difícil." Mas era uma coisa a mais que eu tinha que aprender. E assim fui aprendendo várias outras coisas. A gente tinha que datilografar na máquina manual os históricos dos certificados, o diploma dos alunos. Não queira saber o que era aquilo. A secretária olhava assim, uma besteirinha que você errasse ela já mandava você fazer tudo de novo. Ai, olha, era uma coisa meio sofrida. Mas aí eu peguei uma habilidade muito rápida depois com a máquina de escrever. Mas era bem difícil. Eu tinha feito o curso de datilografia, minha sorte foi essa [risos]. Daí eu conseguia trabalhar com os históricos. Mas era assim alguns espaços pequenos para poder fazer os históricos. Aí depois chegou o computador, o sistema, tudo ficou melhor. Mas eu peguei a parte difícil [risos].

P/1 – E você entrou aqui trabalhando na secretaria?

R – Na secretaria. Eu era escriturária.

P/1 – Escriturária.

R – Na verdade como se fosse uma auxiliar da secretária da escola. A gente trabalhava ali. Porque o escriturário pode ser auxiliar na biblioteca, pode ser auxiliar na biblioteca ou na secretaria. Aí eu fui para a secretaria. 

P/1 – E quanto tempo que durou essa sua insegurança assim, até você tendo aquele sentimento ir se acomodando, é?

R – De que eu sabia do trabalho, de que eu faria...

P/1 – Você lembra?

R – Olha, eu acho que assim, no primeiro ano foi mais complicado porque tudo era muito novo. Porque eu tinha a impressão, às vezes no intervalo os alunos da noite, principalmente, que eu tinha acabado de sair da noite, né? Eu saí em 1996, 1997 comecei trabalhar. Eu ficava olhando: "Como é diferente olhar daqui de dentro." Era muito diferente [risos]. Que você como aluna você tem outra visão. Você acha que a secretaria não tem trabalho, você acha que todo mundo está ali, a gente não sabe para que é que as pessoas estão ali, na verdade. Estão ali. Para quê? A gente não tem noção a quantidade de demanda que existe em uma escola. Eu ficava: "Gente do céu, mas eu era injusta, eu não tinha noção." Quantas vezes eu precisava de uma declaração e queria a declaração para o mesmo dia, e ficava brava quando a declaração não estava pronta na hora que eu chegava na secretaria. Não reclamava para elas, mas eu ficava pensando: "Poxa, mas por que é que não faz uma declaração para mim agora? Tem que fazer o pedido para depois ficar pronto? Que é que custava me entregar agora essa declaração." Então essas coisas que a gente vai tendo essa outra visão. E aí foi mudando mesmo a minha visão da Fundação Bradesco. De aluna para uma funcionária. E era muito interessante. Porque eu fiquei dentro da escola. E eu vejo assim, os colegas vem aqui hoje: "Nossa, de entrar aqui me dá palpitação." E eu: "Que é isso, eu não sinto a menor falta." [risos]. E eles: "É, claro , né, Kátia você teve a sorte de ficar aqui. Você não teve que ir para o banco ou não teve que tomar rumo aí na vida com outra coisa." Então assim, as pessoas sentem muita falta. A minha irmã quando vem aqui ela fica: "Nossa, fico tão feliz quando eu venho aqui, sinto tanta saudade da escola." E é um sentimento que eu não precisei ter. Porque quando eu ia começar ter saudade eu voltei, estou aqui até hoje, oito anos de novo. Já são 16 anos na escola. Então já é um tempo, né? Eu tinha 9 anos quando eu comecei estudar aqui. Então já é um tempo grande que eu estou. E muito feliz. Nossa, nunca pensei quanto ia ser bom para mim, quanto que eu ia crescer. E daí essa insegurança passou assim nesse primeiro ano. Daí a diretora começou a querer me passar os outros trabalhos de secretaria, eu fui começando a aprender outros trabalhos. Porque a gente tinha tudo muito divididinho. "Você é responsável por tal turno, por tal atividade." Depois eu fui começando a aprender mais, mais tarde assim a parte do pessoal mesmo, dos funcionários. Documentação mais legal da escola. E aí foi criando mesmo a confiança e tendo a oportunidade de aprender muito. Eu digo que eu tive muitas oportunidades e que eu tive assim a sabedoria de aproveitar essas oportunidades. Isso me ajudou a aprender muito. Então assim, com dois anos que eu estava aqui eu já sabia praticamente as rotinas todas da secretaria. Com muita tranqüilidade. Eu já conseguia ver assim, às vezes a pessoa não era, não estava ali porque estava na janta, ou trabalhava um outro horário. Eu conseguia ajudar, já conseguia ver a secretaria como um todo já.

P/1 – E depois dessa função?

R – Daí eu fui, passei a ser chefe de seção. Na verdade foi uma promoção por mérito que eu recebi. Que para eu ser chefe de seção eu teria que ir para um outro setor da escola. Só que a diretora da época queria que eu ficasse na secretaria auxiliando realmente o trabalho da secretaria. E eu continuei fazendo assim, claro que com mais responsabilidade porque eu tinha uma chefia, né? Mas eu continuava ali com as, como as escriturárias. Ajudando um pouco mais, tinha mais responsabilidades, mas como as escriturárias mesmo da secretaria. Mas tinha outras demandas. A responsabilidade foi aumentando. Quando foi em 2002 eu tive a oportunidade de ser promovida a secretária. E antes disso a Fundação me pagou um curso de secretária. Para ser secretária escolar. Então eu tive essa oportunidade em que no horário de trabalho eu ia fazer o curso. Daí eu fiquei lá seis meses fazendo um curso de secretária escolar. Onde eu - aí eu aprendi a teoria que eu sabia só na prática. Algumas coisinhas que ficavam só na prática a gente vai vendo a legislação, que na secretaria tem muita lei. Você aprende muito a questão da legislação mesmo da escola. E fui aprendendo. E no curso eu tive a oportunidade de ver a teoria mesmo.

P/1 – Esse curso foi aonde?

 

(Fim do CD 01)

 

R – ...mesmo.

P/1 – Esse curso foi aonde?

R – Foi um curso que a Secretaria de Educação promoveu junto com o Sindicato das Escolas Particulares, foi aqui em Taguatinga mesmo. Aqui próximo. Daí a gente ia para lá fazer os cursos duas vezes por semana a tarde. Então era no meu horário de trabalho. Daí eu ia fazer o curso. Foi quando eu tive a oportunidade de ser promovida a secretária da escola. Daí eu tinha certeza que não tinha mais como eu crescer na escola. Por quê? Eu estava fazendo Comunicação Social. Que é que eu ia poder fazer aqui? No banco não tem marketing aqui em Brasília. Só em São Paulo. Eu não tinha a menor pretensão de ir embora para São Paulo. Eu falei: "É, chegou a minha reta final, né? Vamos aqui aproveitar fazer tudo que eu puder como secretária da escola, porque não vai passar disso." Na minha cabeça não tinha condição. Principalmente chegar ao que eu cheguei. Porque eu dei um pulo muito grande. Eu falo que foi assim uma oportunidade que poucas pessoas têm na vida. Que na verdade para você passar a ser assistente de Direção você tem que ser pelo menos orientadora da escola. E de repente, olha você está sendo convidada para ser assistente de Direção da escola. E você não tinha muito tempo para pensar. Dona Ana veio, conversou comigo em uma manhã, a gente conversou. E é um desafio, vamos lá encará-lo. Quando fevereiro de 2004, na verdade a Direção trocou toda de uma vez, da escola. A Léia era assistente administrativo passou a diretora. A Tânia que era orientadora do ensino médio passou a ser assistente pedagógica. Daí eu que era secretária passei a ser assistente administrativo. E aí, claro que muitas das pessoas que estavam assim em outras chefias foram passando. Uma passou para o meu lugar. Então foi, foi uma loucura a escola. Teve uma mudança assim bem grande, de uma vez só.

P/2 – E foi provocada por que, assim?

R – Porque a nossa diretora, Ana Lúcia, na época - hoje ela é diretora até de Osasco II, da escola de Osasco II - ela foi transferida para lá. E a assistente pedagógica tinha pedido desligamento. Então os cargos ficaram, só a Leia que estava ali no lugarzinho dela. Que é a diretoria hoje. Estava lá como assistente administrativa. Daí por isso essa mudança toda. Foi a hora da Léia ser diretora, a Tânia veio para assistente e eu fui para lá. A chefe do almoxarifado foi para ser secretária. E a gente contratou um ex-aluno para o lugar da chefe do almoxarifado. E uma outra pessoa para o lugar da Tânia, que era orientadora. Então de repente teve muita gente nova em cargos novos, né, na escola.

P/1 – E você se formou?

R – Em 2002. Quando eu assumi como secretária eu me formei na graduação em Jornalismo.

P/1 – Como é que foi a sua faculdade de Jornalismo?

R – Uma correria na verdade. Porque as pessoas geralmente não tinham um emprego a tarde e a noite. Depois do meio do curso começaram a estagiar, lógico. Mas eu era uma das poucas que tinha um trabalho. Então eu não tinha muito tempo para, como elas tinham. Eu tinha que estudar em casa e no final de semana mesmo. E assim, as minhas amigas que a gente se reunia para fazer trabalho de pesquisa a gente tinha que fazer no final de semana porque a Kátia não podia fazer durante a semana. Não tinha condição. E eu sempre procurava fazer todas as matérias. Em algum semestre ou outro, quando eu perdi a bolsa, quando acabou, teve um problema com a filantropia na Católica que eu perdi a bolsa, acabei atrasando um pouco o curso. Aí tinha uma manhã ou duas vagas onde eu encaixava ali para estudar. Então era uma correria. Que eu tinha que trabalhar. Geralmente os colegas não trabalhavam, então eles tinham mais tempo. Professor da universidade ele entende pouco que você tem que trabalhar. Ele quer que você seja um estudante da graduação. Você é um universitário, ponto, para eles. Então eu tinha assim, alguns momentos eu brigava com o professor que ele tinha que me entender que eu tinha que trabalhar para pagar a faculdade. Ele olhava para mim assim: "Mas você é universitária." Eu falei: "E tem que pagar a faculdade. Infelizmente ou felizmente é assim minha realidade. Ou então eu paro a faculdade aqui que meu pai e minha mãe infelizmente, coitados, não podem fazer nada. Eu que ajudo em casa. Porque ainda tenho que ajudar em casa com o meu salário além de pagar isso aqui." Então a gente às vezes tinha umas brigas. Eu lembro que para a minha monografia eu fui uma das últimas a apresentar a monografia porque eu não conseguia terminar porque a professora não admitia que eu não pudesse me reunir o tanto que ela queria. Era a maior briga. Ela brigava. "Você tem que largar esse emprego." Eu olhava para a cara dela eu: "Então eu largo o emprego e largo a faculdade. Porque uma coisa leva à outra." Para mim foi uma correria assim. Mas foi um curso ao mesmo tempo muito prazeroso. Porque quando chegou nas aulas práticas aí é muito bom, né? Nossa, o curso fica excelente. Você aprende muita coisa. Eu tive a oportunidade de ser editora geral do Jornal Laboratório, do curso. Em uma das matérias. E foi assim forçado pelo professor. Ele falava: "Kátia, você tem tanto talento. Tem que ser." Ele me colocou na berlinda na frente da turma inteira. E eu virava; "Meu professor, eu tenho que estar a uma hora da tarde no meu trabalho. Eu não tenho condição de assumir nada nesse jornal. Eu vou ser uma redatora, está ótimo. Eu escrevo a minha matéria." "Não, Kátia, eu quero você como a coordenadora desse jornal. Você vai ser a editora chefe." Eu ficava olhando para a cara dele e eu: "Professor, por favor." E ele: "Não é gente? Kátia mesmo. A Kátia Albuquerque vai ser a editora." Nossa, mas eu quase fiquei louca. Mas foi uma experiência fantástica. Porque você aprende muito, né? Foi mais uma oportunidade de liderança que eu tive na faculdade também. E sem contar os outros trabalhos que a gente tinha que fazer. Tinham muitos trabalhos assim, bem criativos para fazer. As disciplinas também, muitas matérias interessantes. Em que você pode levar para um monte de coisa na vida também. Então foi assim, foi muito bom apesar da correria. Que tinham momentos que eu não tinha oportunidade de estar tão afinada. Porque eu não tinha como ficar lá o dia inteiro estudando, como muitos colegas tinham oportunidade. 

P/1 – E aquele seu sonho de trabalhar nos bastidores? Como é que você veio trazendo isso na sua vida, na sua...?

R – Hum, hum. Olha, eu acho que na minha adolescência eu já comecei a ver isso. E na faculdade também. A gente, nos trabalhos assim, por exemplo, a editora geral do jornal é realmente o trabalho de bastidor que ela faz. É de estar ali colhendo as informações para nas matérias com os redatores, com os outros editores das outras editorias que a gente tinha no jornal. E isso me dava muito prazer. Ali eu tive certeza que era isso que eu queria mesmo. Esse trabalho mesmo de bastidor. E também quando eu trabalhava na adolescência lá no grupo jovem, também eu acabava fazendo esse trabalho de bastidor. Muitas vezes eu aparecia. Aparecia até muito. Em alguns momentos eu até me expus muito. Porque tinha que ler lá na frente, as pessoas não tinham coragem então ia a Kátia. Tinha que fazer alguma coisa, tinha que ir a Kátia. Então eu acabei fazendo, aparecendo muito, mas eu gostava muito mais quando eu via ali o produto final acontecer, que eu tinha ajudado. E na faculdade eu consegui fazer isso algumas vezes também. E eu vejo fazendo muito aqui na escola, hoje principalmente.

P/1 – É, você sente também que você trabalha nos bastidores?

R – Sinto. E eu acho isso bom. Porque assim, eu sei assim, tanto que a minha responsabilidade é importante e grande. Mas eu não preciso estar ali a frente o tempo inteiro. Porque mais é a diretora e a assistente pedagógica. Porque é mais a relação com o aluno. Eu não deixo de estar com o aluno, eu fico muito assim, eu tenho muita relação com aluno, com professor. Mas claro que mais elas. Eu tenho mais relação com os funcionários mesmo, dos bastidores. São os funcionários do administrativo da escola. Então são as cozinheiras que têm que preparar a merenda da escola, elas estão lá na cozinha dela fazendo a merenda. E eu estou lá supervisionando o trabalho delas. Então eu vejo meu trabalho ali muito forte, com muita responsabilidade. E aí a criança vai lá recebe o lanche, então a criança está recebendo o meu trabalho, nosso trabalho também. A biblioteca tem que ficar toda arrumadinha. Tem ali a bibliotecária mais o auxiliar dela que estão ali fazendo trabalho que eu vejo que é um trabalho mesmo por trás das câmeras, mas que o trabalho deles aparece quando ele está pronto. E assim a secretaria também. E os outros setores do setor administrativo. A pessoa que faz a manutenção na escola, o zelador da escola. Trabalha aquele trabalho assim que todo mundo vê quando está pronto. Mas ali por trás teve um grande trabalho, uma grande responsabilidade para ser executado.

P/1 – E desafio, qual que você acha que foi o seu maior desafio trabalhando aqui na Fundação?

R – Nossa, tive tantos desafios. Ter que falar para os pais dos alunos em uma reunião que a Léia não estava [risos]. A Léia tinha uma reunião fora da escola, em um dia de uma reunião de pais. E a gente sempre faz a abertura da reunião. E eu tive que falar para os pais. Não tinha escapatória. Estava só eu. A Tânia chegava um pouco depois do horário. Então eu tinha que fazer. Aí a Léia até me ligou: "Ó, eu vou fazer a abertura de manhã, você faz a tarde e Tânia faz a noite." Eu: "han, han, tá bom - sabe assim? - nossa o que é que eu vou fazer?" Mas hoje para mim é tranqüilo. Mas ter que enfrentar a primeira vez. E eu fico pensando: "Gente, eu estudei cinco anos para ser jornalista e eu tenho essa coisa ainda." para mim foi um grande desafio ter que encarar o microfone na frente dos pais a primeira vez. Foi muito complicado. Mas a cada dia a gente tem um desafio novo. Quando vem as reformas grandes da escola. Eu já encarei duas grandes reformas, eu considero duas grandes reformas que eu estava na coordenação. De salas da escola, de ambientes da escola. Que você tem que pensar que o contrato tem que estar bem certinho, que a pessoa tem que assumir, fazer direitinho o que foi combinado no contrato. E a gente acaba aprendendo muita coisa. Eu não entendo muito essa questão de construção. Mas você tem que aprender. E meu marido entende muito de eletricidade e ele acaba entendendo de outras coisas. Eu ligo: "Mário, eu não sei como fazer isso." Até ele briga comigo: "Ih, a Kátia fica me ligando para me pedir ajuda, gente. Eu ajudo ela no trabalho dela." "Mário, me dá uma dica como é que faz isso, como é que isso tem que funcionar." Às vezes uma instalação de alguma coisa eu não sei para onde vai isso. E a Léia também me ajuda muito, também entende muito de construção. Então essas questões assim da reforma a Léia é a minha grande apoiadora mesmo. Ela me ajuda bastante nesse trabalho. E em julho do ano passado, que eu fiquei sozinha na escola. A Tânia e a léia de férias. Aí eu vi o que é que era ser diretora. Aí doeu nas costas o que é que era ser diretora. Porque às vezes faltava um professor: "O que é que eu vou fazer agora?" Só eu. Não tem como fazer, a Léia está lá na casa dela vou ligar para ela. Não, ela de férias, a Tânia está de férias. Então era para mim que as pessoas se reportavam, né? "Olha, Kátia, está faltando tal coisa. Tem que resolver tal coisa. Não tem, deu errado tal coisa. Tem que resolver." Claro que a gente tem apoio do Centro Educacional. Mas você é a pessoa que está na escola. As coisas têm que dar certo com você na escola. E eu acho que o que me deixava um pouco mais tranqüila, que eu sabia que qualquer coisa eu ligava no Centro Educacional para pedir ajuda [risos]. Porque aí eu tenho a tranqüilidade também de ligar, de conversar, de pedir. De pedir uma sugestão. Isso eu não tenho problema. Mas quando chegou no primeiro dia de aula de julho, os professores voltaram, os alunos voltaram, qualquer coisa eu que tenho que saber que atitude tomar. Nem que seja pegar o telefone e ligar para o Centro Educacional. Mas é a minha atitude que eu tenho que saber o que eu tenho que fazer. A hora certa de fazer aquela coisa. E se a energia faltar, o que é que eu faço? São todas essas coisas que a gente tem que pensar. 

P/1 – Como é que funciona a relação com a matriz? Que é que é que vem de lá para cá, e o que é que vai de demanda daqui para lá?

R – Olha, é assim, nós temos muito o que responder daqui para lá. É uma rede, a gente já tem uma rede. Então eles tem que ter muito certinho o que acontece na escola. Da estatística para saber se teve um aluno transferido no mês de abril, de maio. Mensalmente a gente tem que mandar tudo em números. Aconteceu algum incidente diferente a gente tem que informar. Então na verdade o que acontece na escola tem que ser informado. Os educacionais.

P/1 – Que tipo de incidente?

R – Ah, aconteceu, por exemplo, o aluno ano passado mesmo a gente teve que levar um aluno para o hospital porque foi atropelado quando estava chegando na escola. Eu passei a manhã inteira no hospital com a família do aluno e o aluno.  É uma coisa que o Centro Educacional tem que saber. Um aluno adoeceu. As vezes acontece alunos com doenças graves, o Centro Educacional tem que ser informado. Tudo tem que estar muito interligado. E a demanda que a gente leva para lá. Por exemplo, a gente faz uma reunião pedagógica. A reunião pedagógica tem que ir o relatório da reunião. A gente faz um planejamento coletivo com os professores. Eles recebem de todas as escolas eles tem que fazer toda a análise. Isso é um exemplo do que a gente leva para lá. A gente tem que fazer a reforma em uma sala. A gente faz os orçamentos e manda para lá. Eles tem que fazer toda a análise para autorizar. Então tem coisas, lógico que tem coisas que a gente compra já, nós temos já autorização para comprar algumas coisas sem ter que entrar em contato. Sem ter que pedir autorização. Mas tem outras coisas que a gente tem que pedir autorização. É uma coisa muito interligada. Precisa realmente dessa coisa. O cardápio da merenda, por exemplo, a gente monta um cardápio de acordo com o que a nutricionista já: "Ó, esse alimento combina com esse, com essa salada ou com esse suco." A freqüência que deve ser servida no mês, a gente monta. Daí ela tem que analisar os 40, as 40 escolas, imagina. Mandar o retorno. "Ó, está ok, ou muda esse lanche por esse. Isso aqui é melhor nesse dia do que naquele." Então a gente acaba dando muito trabalho e eles nos dão trabalho também. Então é uma troca justa.

P/1 – Quem que analisa lá?

R – O quê?

P/1 – Por exemplo, a merenda.

R – A Maria dos Anjos. A nutricionista. É ela que analisa. Cada setor tem a sua, né, tem seu trabalho. Essa questão da merenda é comigo que eu sou administrativa. A questão da área pedagógica é com a Tânia. Tem uma reunião da escola tem que mandar a pauta para eles analisarem antes da reunião acontecer. Eles dão algumas diretrizes, mandam para as escolas. Porque tem que ter uma linha mesmo. Não dá para fazer: "Ah, Ceilândia faz assim, Itajubá faz assim, Irecê faz assado." Tem que ter uma linha. Então eles dão uma linha para a gente. A gente monta a pauta, manda. Eles analisam. Daí: "Tá ok: Não tá?" "Muda isso, talvez fosse melhor se vocês fizessem assim." Então é essa troca que a gente faz o tempo inteiro.

P/1 – E você falou que cuida da merenda.

R – É uma das minhas atribuições.

P/1 – Uma das suas atribuições. E como é que é? Você já tem programado o que vem? Eles entregam? Vocês congelam? Vocês guardam? Como é que funciona?

R – É assim : tá por exemplo as carnes. A gente compra para o dia do lanche. O lanche amanhã de manhã tem carne, então hoje eu compro a carne, tem que ficar de um dia para o outro no máximo. Então na segunda-feira nunca pode ter carne. A gente tem que fazer o cardápio com esse cuidado. Na segunda-feira não dá para servir carne. É o dia que a gente serve um pão com alguma coisa, ou um arroz doce que não necessita de uma coisa assim, que não seja tão perecível. A gente tem que ter todos esses cuidados para montar o cardápio. Nada é congelado na escola. Nada fica, a não ser as polpas de fruta dos sucos. Que dá para ficar. Que realmente existe para ser congelada. Mas as demais, assim, a gente faz uma compra do mês dos não perecíveis: arroz, feijão, macarrão, óleo, margarina. A gente faz a compra do mês. Fica no depósito para o mês. E as outras coisas perecíveis a gente vai comprando: a verdura, as frutas, de um dia, o lanche é na quarta na terça chega no final da tarde para quarta servir. 

P/2 – Então todo dia é necessário fazer compras.

R – Todo dia... Não porque aí nós já temos fornecedores que fazem a entrega. A não ser que tenha um lanche especial que seja algum lugar que não faz entrega. Mas as compras o pessoal já trás. Os atacadistas, que dá para a gente comprar em atacadista. Daí os perecíveis, as frutas, as verduras a gente também tem fornecedores da Ceasa. Que nos trazem. E as outras coisas também. A carne tem um açougue que já trás, o pão tem a panificadora que trás. Então tem tudo...

P/1 – Mas isso para lanche, você falou de lanche, que isso é um lanche ou refeições?

R – Porque a maioria das nossas, dos nossos lanches na verdade são refeições. 

P/1 – Ah, entendi. Vocês chamam de lanche?

R – É, lanche, merenda. É porque a gente quase não usa merenda aqui em Brasília. A gente usa lanche. Então assim, o lanche hoje, por exemplo, foi bobó de frango. Então é um bobó de frango com arroz e um melão. Hoje o lanche é esse na escola. Então o aluno que lancha 9:10 da manhã ele lancha isso. 9:40 ele lancha. A tarde e à noite. É o lanche do dia que a gente serve, esse é o lanche. Esse semana, ontem, na segunda-feira, é, ontem, teve arroz-doce. Na sexta-feira, provavelmente, vai ter um pão. Mas geralmente a gente tem comida no cardápio. A maioria do tempo. Nós temos alunos que a refeição que ele, uma das refeições principais dele é realmente a da escola. É o lanche da escola. Então os alunos da noite, por exemplo, que vêm do estágio, vêm do trabalho. Eles não passam em casa. Então a hora do lanche a comida para eles é a salvação. Porque é a janta deles. O dia que é biscoito ou pão eles ficam bravos: "Ah, mas hoje é pão, eu estou com fome." E eles sentem fome mesmo. Eles preferem a comida. Principalmente os da noite. Eles adoram quando é comida. E a maioria dos dias é. cinco dias na semana, três ou quatro é comida. Pão ou biscoito uma vez na semana. Cachorro-quente, que eles adora, uma vez por mês. 

P/1 – E por que essa regra de não congelar?

R – Pelo cuidado mesmo. A gente não tem uma estrutura na cozinha para ter congelado. Na verdade não tem essa estrutura. E porque a gente dá refeição para dois mil alunos por dia. Então são riscos que a gente, que a Fundação, nós, preferimos não correr. É mais saudável mesmo, né, a comidinha assim do, que vem do dia. Carninha fresca, a verdura fresquinha. Então fica, é mais saudável na verdade. Pela saúde mesmo. A questão é essa. 

P/1 – E a vistoria? Como é que é a vistoria aqui?

R – Você fala como?

P/1 – Que vem, não vem uma equipe...

R – Vem de lá? Vem.

P/1 – ...de lá.

R – Duas vezes por ano. 

P/1 – Duas vezes por ano, né?

R – Isso. 

P/1 – É agendada?

R – Não. É supervisão, não tem agendamento. Então eles chegam na segunda vão embora na sexta. Sem aviso prévio [risos].

P/1 – [risos] Como é que é isso?

R – Assim, nossa escola é uma escola muito grande. A área física da escola é muito grande. E todas as escolas não têm condições de ver tudo nessa única, nessa vez que vem, não tem como. Elas abrem algumas frentes, que a gente chama. Então dessa vez eu vou olhar a conservação do prédio, vou olhar alguma questão da, um segmento da escola, de quinta a oitava. Ver os relatórios das orientadoras se estão de acordo com as circulares orientativas que a Fundação tem. E aí eles vão fazendo a supervisão e vão vendo se a gente está atendendo ao que é solicitado. Daí eles apontam no final da semana o que é que a gente tem que, o que é que está errado. O que a gente tem que fazer. E a gente tem que mandar através de sistema, quais são as medidas que a Direção vai tomar para resolver o problema que tem. Elas vêm realmente achar aonde a gente precisa melhorar o trabalho. O objetivo é esse. É encontrar ali os nossos erros para a gente melhorar. O objetivo realmente é esse. E nós temos as outras supervisões, que são as supervisões dos outros setores, que vêm na verdade ajudar. Vem assim: "Você está errado aqui", as vezes até fruto de uma supervisão mesmo do pessoal da supervisão mesmo. "Ò, está aqui errado, é melhor que venha alguém do setor." Aí vem às vezes alguém do currículo ajuda aqui, ajuda a formar orientadora se a orientadora é nova. Então "Ó, é melhor você se organizar dessa maneira aqui no setor. Faz o relatório dessa forma. Faz esse documento assim." Então a gente tem dois tipos de supervisão, na verdade. É aquele que vem ver realmente os erros, ele, as meninas da supervisão não estão aqui para poder falar: "Ó, melhor você fazer assim, melhor você fazer assado." Esse não é o objetivo. A supervisão delas é realmente detectar onde a escola tem que melhorar. Em que aspectos. Seja físicos, seja pedagógico, educacional, o que for. E a outra supervisão que vem para estar fazendo esse trabalho mesmo. Claro que supervisiona também. Mas ela ajuda ali, né? "Olha, faz assim que vai te facilitar o trabalho." Para ajudar mesmo, para ensinar mesmo muitas vezes o trabalho.

P/1 – Como é que é essa relação do trabalho, é tranqüila?

R – Você fala?

P/1 – A relação das pessoas que estão aqui com a sugestão da equipe de São Paulo?

R – Ah, é tranquila. Eu acho que isso vai de acordo com como a Direção encara. A nossa Direção encara como uma ajuda mesmo. Às vezes as pessoas ficam nervosa as porque vai receber supervisão. A supervisão está na escola, que coisa chata. Mas a gente percebe como um momento, uma oportunidade de crescer mesmo no trabalho. Porque na verdade é. Às vezes é doloroso, né, você: "Ai, meu Deus, isso está errado. Que droga. Por que é que eu não resolvi antes da supervisão chegar. Por que é que isso não esta acontecendo como deveria estar acontecendo. Eu já sei que é para fazer assim." É doloroso mas é um momento de aprendizado para todo mundo. É necessário, eu acho que é importante ter. Apesar de não ser fácil às vezes mas é importante. A gente tem que encarar isso com tranqüilidade porque é a hora que a gente vai ter oportunidade de crescer mesmo na escola.

P/1 – E além dessa atribuição de, sobre a nutrição quais outras você tem?

R – Bom, como eu sou assistente administrativa, a questão do paisagismo da escola, o almoxarifado, os estoques. Então assim, nós recebemos os uniformes no início do ano e material escolar. Então tem que estar tudo certinho com o sistema que a gente tem. Então eu tenho uma pessoa que me ajuda nisso, que é a pessoa responsável pelo almoxarifado. Então a gente tem que ter todo o estoque bem contadinho. Entregar para os alunos. Então essa questão de entrega de uniforme, entrega de material. A questão da biblioteca, a questão mesmo administrativa. Os livros, se estão todos ok para entregar. Como é que vai ser essa entrega. Essa organização mesmo dessa rotinas. A questão das empresas terceirizadas. Que é a empresa de limpeza e conservação. Tem empresa de segurança que a gente tem uma relação bem estreita. Principalmente com a de limpeza que está o dia inteiro aqui na escola. Aonde tem que melhorar a limpeza, aonde tem que melhorar o trabalho delas. Então esse trabalho também eu faço. Na secretaria também o trabalho é bem grande. Porque a gente acompanha diretamente o trabalho da secretaria em relação ao atendimento. O que é que está sendo feito, onde que elas tem que melhorar. Toda essa questão do trabalho da secretaria também a gente vê. Os inspetores de aluno, como é que eles devem, né? Lógico que sempre com uma parceria com a assistente pedagógica. Mas tem uma parte que é minha e uma parte que é dela. Então os funcionários do Administrativo estão mais mesmo sob minha responsabilidade. Então o trabalho em questão é um trabalho grande. Porque a escola é grande. Você fala de paisagismo a gente tem uma área imensa de área verde. Tem a horta, tem o pomar. E muita coisa para fazer mesmo na escola.

P/1 – Hoje a horta ela atende a participação dos alunos e atende também a cozinha?

R – A cozinha.

P/1 – Também?

R – Han, han. Algumas coisas a gente não compra porque a gente tem na horta para o lanche dos alunos. 

P/1 – E o pomar?

R – O pomar a gente tem algumas frutas. Tem uma parte do pomar que a gente precisa melhorar, e tem uma parte das frutas. Manga, a gente tem. A gente tem outras frutas que sempre, que também sobrevive com mais facilidade sozinha. Que a área é bem grande do pomar também. A gente tem uma coordenadora de educação ambiental que também é responsável por essa área. 

P/1 – Kátia, você que é uma pessoa que foi aluna, que presenciou a interface da escola com a comunidade, pais, histórias de amigas, hoje é funcionária. Sobre transformação de vida, você tem história para contar para a gente sobre transformação de vida de alunos que vieram estudar aqui? Como é que era a vida dela, as dificuldade?

R – Eu até que comecei a citar uma história que a gente sempre acha muito interessante, a gente tem uma família que mora nesse setor de chácaras. É uma das muitas histórias. Que assim, a gente via que era bem complicado. E de repente a gente foi conseguindo dar, a gente via que era carente, que precisava e tudo. A família procurava acompanhar. E hoje a gente vê assim que a família é outra família. E aquele aspecto mesmo da questão da higiene pessoal que a gente estava falando. Às vezes a questão socioeconômica melhora mas as vezes nem melhora. E essa família nem melhorou tanto também a questão socioeconômica. Não é favorável, não é um socioeconômico assim tão favorável. Mas a gente percebe que a menina mais velha da casa é uma menina mais velha e outros meninos, tem uma menininha menor, ela mudou a casa dela. A mais velha. Você ver que os meninos vem mais limpos para a escola, você ver que a mãe vem na escola mais limpa. O acompanhamento é diferente. Porque a menina já ajuda a mãe nessa questão do acompanhamento de como que os outros alunos, os outros irmãos devem estar na escola. Então essa questão é uma coisa que a gente ver muito, é muito interessante como a gente ver a mudança na vida da família. Não é uma mudança só da criança. A criança muda muito. Mas as famílias também mudam. A gente percebe que as famílias passam, quando elas valorizam a escola, elas, a vida delas melhoram também. Porque assim, de repente ela já não tem um curso com um monte de coisas que ela poderia ter, e ela pode começar a priorizar com outras coisas. Isso ajuda muito. Porque a gente início de ano o que a gente mais escuta é; "A lista de material escolar está muito cara. Que aumentou tanto." Aquela confusão, o pessoal brigando nas papelarias, nas livrarias. E de repente a família tem a oportunidade de ter um ensino de qualidade e não ter que arcar praticamente com nada, né? A não ser que tenha a necessidade de um transporte para chegar na escola. Porque aqui é o que a pessoa tem custo é com isso, só. Claro que aqueles, tem alguns que nem com esse custo tem que arcar porque vem para a escola a pé, mora muito perto. Então a gente vê essas coisas assim de uma maneira muito forte mesmo. As famílias mudam muito. A família muda. De repente a gente começa a ver o pai que não tem, a gente tem o exemplo de uma família que o pai e a mãe fazem, faziam alfabetização de adultos aqui na escola. E os filhos estudam, estudavam na escola também. Então aí se ver a questão. De repente o pai não tinha escolarização já está procurando a escolarização também. Antes não queria procurar, porque achava que não dava mais conta, estava muito velho. "Imagina que eu vou estudar com não sei quantos anos. Eu não dou mais conta disso, não vou e pronto.” De repente o filho motiva. Você vê assim, a motivação que o filho leva para dentro de casa para o pai procurar o estudo mesmo. Os pais, é o pai e a mãe que estudavam conosco. 

P/1 – Esse caso daqui dessa família da chácara são quatro filhos que estudam aqui?

R – Três ou quatro.

P/1 – E a Fundação Bradesco ela tem esse critério de se abre uma vaga abrir para o irmão de quem já está aqui. O irmão ou irmã?

R – Se estiver dentro dos critérios, porque às vezes a família hoje tem uma criança aqui na oitava série, ela entrou na educação infantil. A família às vezes aparece com uma criança pequena. Se continuar dentro dos critérios a gente atende. Mas tem que estar nos critérios da renda e morar próximo à casa. Porque às vezes acontece da família mudar. A gente tem uma realidade assim, inclusive. Tem uma família que quando a menina entrou aqui ela está no terceiro ano do ensino médio hoje. Quando a família entrou aqui, ela entrou aqui ela morava aqui em Ceilândia, na educação infantil. Agora o irmãozinho dela está na terceira série, só que eles moram em uma outra cidade. Recanto das Emas, é uma cidade distante daqui. A menina se manteve na escola, claro, né? Já está aqui, está aqui. Mas não tem como a gente matricular o outro se ela está morando lá no Recanto das Emas. O que é que aconteceu nesses últimos 20 anos no DF? O governo fez várias cidades, construiu várias cidades para as pessoas. Então as pessoas, muitas que moravam de aluguel em Ceilândia foram para essas cidades para morar em casa própria. Ganharam lotes do governo. Então várias cidades acontece isso. Então muitos alunos nossos eles moram distante por conta disso. Porque moravam aqui em Ceilândia de aluguel e conseguiram uma casa própria. A vida até melhorou. Mas aí se continuar morando aqui em Ceilândia é uma coisa. Mas mudou para uma outra cidade que é distante não tem condição da gente atender. A gente não consegue atender nem as da Ceilândia, que a procura é muito grande.

P/1 – Então, eu queria entender a lógica, que eu já ouvi alguns depoimentos, e agora me ocorreu de perguntar. Mesmo atendendo esses critérios, que vocês tem os critérios básicos, pela lógica, a minha pergunta é a seguinte: por que se fosse atender outras famílias não estaria distribuindo mais essa oportunidade? Por exemplo, uma família tem três alunos, quatro. Se fosse um aluno em...

R – Entendi.

P/1 – Entendeu?

R – Entendi.

P/1 – ...em cada família. Eu queria entender como é que é essa lógica assim para vocês?

R – Não, a gente não, a gente assim, não existe, porque algumas pessoa já incutiram que assim: "Ai, irmão de aluno tem prioridade." Não existe a prioridade do irmão de aluno. A não ser que ele esteja dentro realmente assim, for uma família que realmente necessite. Mas a gente procura, tanto que é uma, na educação infantil, que é a série inicial agora, a gente tem irmão de alunos? Tem, mas não é a maioria. A maioria é da comunidade, é o primeiro filho que está vindo para a escola. A maioria. Não é a maioria que é irmão de aluno. Não fica assim a maioria como irmão de aluno. 

P/1 – Então a prioridade é dar oportunidade para outras...

R – Claro.

P/1 – ...famílias.

R – Claro, também.

P/1 – Não para... Ah.

R – Não só para, não. Se tiver dentro dos critérios, tem a vaga, é uma coisa. Mas a gente também entende que a gente tem que atender cada vez mais famílias. Cada dia que passa aparece famílias mais pobres aqui nessa parte posterior da escola. Cada dia que passa. Como é que a gente não vai atender. Não tem condição? Então a nossa idéia é realmente atender as pessoas, e quanto mais famílias melhor. Porque se a gente, é como você falou, é propagar isso para as famílias da cidade. Com certeza, sem dúvida alguma. 

P/1 – Eu queria perguntar outra vez da transformação de vida para você, se você lembra algum caso de transformação de vida na vida profissional. De oportunidades de vida, você tem alguma história?

R – Das pessoas?

P/1 – Você conhece, você contou dessa família, né, de, dessa questão da higiene, de melhorar a família. Você conhece algum caso assim? De aluno que estudou aqui?

R – Que conseguiu...

P/1 – É, que saiu para trabalhar, profissionalmente.

R – Hum... Não sei se vou me lembrar de nada assim agora. Você fala assim, um bom trabalho? Como é que você fala?

P/1 – É, uma transformação de vida. 

R – Deixa eu pensar. A gente tem um aluno, um ex-aluno que ele fez o curso técnico até, em gestão, agora. Que agora é técnico em gestão. E assim a escola ajudou muito a ele chegar aonde ele está hoje, a gente percebe. Porque ele estava desde pequeno aqui na escola. Sem muita condição. E conseguiu abrir o próprio negócio dele. E quando ele estava aqui já no técnico em gestão eleja estava com esse negócio. Já estava com 19 anos, ele já tinha condição de ter um emprego com o pessoal da família dele. E a gente vê hoje assim que ele está super bem. Ele vem aqui na escola, ainda. Tem alguns anos que ele saiu. Mas ele tem o próprio negócio, ele toca o próprio negócio. E a gente percebe assim que foram, a Fundação ajudou muito para ele estar onde ele está hoje. E ele acha também, ele fala: "Nossa, aqui a escola me ajudou muito, aprendi muito." Por causa dessa teoria que a escola traz. Essa idéia do cidadão que a escola traz. A gente percebe a mudança da vida dele por isso. Às vezes, era um menino no ensino médio que não queria muito, não queria nada com a vida. E de repente foi vendo que podia, que tinha oportunidade de crescer e deslanchou. E hoje está super bem. E é interessante a gente ver isso.

P/1 – E o que você mais gosta de fazer na sua hora de lazer?

R – Como lazer?

P/1 – É, depois de você contar tantas histórias ___________

R – [risos] Olha, como lazer eu gosto muito assim, quando eu estou tranquila em casa, porque eu estou em uma casa nova. Então eu estou em um momento assim, tem uma semana que eu estou morando na minha casa mesmo. Desde que eu casei eu estava de aluguel e agora eu estou na minha casa. Então é um momento de muito prazer estar em casa hoje. E a gente tem, eu gosto muito de ter a oportunidade de estar em casa para ler um bom livro, eu adoro vídeo, eu adoro assistir filme. Sempre que a gente pode a gente está assistindo. Eu gosto muito de trabalho caseiro mesmo. De fazer coisas em casa. Eu gosto, também assim, adoro estar com a minha família e com os meus amigos batendo papo. Para mim é um momento de muito prazer que eu tenho. Eu adoro. Se pudesse eu estaria sempre com as pessoas que eu gosto conversando. Jogando papo fora mesmo, assim. Sem muito compromisso. Eu acho que isso me ajuda, eu gosto muito. Eu acho que isso a gente se conhece melhor nesses momentos, a gente conhece as outras pessoas de uma maneira prazerosa. Eu acho muito legal. E sempre que eu posso eu adoro viajar. Para mim a paixão é chegar, estar de férias e poder ir para um praia. Sair daqui, eu adoro praia. E aqui a gente não tem muita oportunidade, né? [risos] e assim sempre que eu posso a gente procura estar viajando. Mesmo se distrair, sair daqui, eu adoro viajar. Acho muito bom.

P/1 – E sobre o seu Amador Aguiar, você o conheceu?

R – Não, não pessoalmente, não.

P/1 – Não. Ouviu falar?

R – Muito, bastante. 

P/1 – Como é que era? Aqui tinha aqueles concursos também? Amador, de poesia?

R – Até hoje tem esses concursos na escola.

P/1 – Tem?

R – Tem. A gente sempre teve a imagem do seu Amador como uma pessoa que sempre pensou no melhor para o próximo dele. Então a idéia que eu tenho desde criança do seu Amador realmente é essa. É a preocupação com o outro, é ver o outro crescendo na vida, é ver o outro sendo melhor. Então eu sempre tive essa impressão dele. Foi sempre o que a imagem que me foi passada dele. Da pessoa que construiu isso tudo pensando em um monte de gente. Era assim que eu pensava. "Nossa, como a pessoa pensa em tanta gente." Sempre foi a imagem que eu tive. A imagem que eu tive na minha cabeça dele, sempre foi essa. De uma pessoa preocupada com o outro. De querer o bem do próximo mesmo. Sempre foi a imagem que eu tive dele. E tenho até hoje na verdade. Eu acho que um projeto desse tamanho é uma coisa assim fabulosa. Muito interessante.

P/1 – Falando em projeto desse tamanho, qual que é o seu sentimento de saber que o fruto do seu trabalho beneficia tantas crianças, principalmente crianças carentes, adolescentes?

R – Olha, na verdade eu acho que é isso que me fez fazer a opção de ficar na escola. É saber que o que eu estou fazendo hoje daqui a um tempo, ou daqui a pouco, possa estar mudando mesmo a vida da pessoa. E isso eu faço porque eu me sinto feliz de fazer. De às vezes dar um sorriso para uma criança, as vezes de ver que uma criança está triste, poder... Sabe essas coisas que parecem pequenas, mas que no dia-a-dia fazem uma grande diferença na vida delas muitas vezes. E a gente tem uma relação muito estreita, muito forte com as crianças menores, principalmente, as que estão chegando. E geralmente as menores são as mais carentes. São as que têm mais dificuldades. São aquelas que estão chegando na escola, que ainda não tem a experiência da escola. E essas crianças são as crianças mesmo que mais me encantam. Eu adoro criança. E elas assim, a gente vê as vezes no olhar, sabe, da necessidade que ela tem. Até do carinho mesmo, do dia-a-dia. Que às vezes elas não tem em casa. Que a gente percebe que muitas vezes a agressividade de algumas é falta desse carinho em casa, é a agressividade que elas têm também. Que infelizmente a falta, a carência mesmo socioeconômica e várias carências que ela tenha que fazem ela ser desse jeito que ela é. Então assim, a minha opção até de mudar de profissão mesmo, foi muito por isso. Eu vejo assim que cada dia eu saio daqui a gente trabalha muito. A gente tem muito o que fazer aqui. A gente não para um instante. Mas a gente ver lógica de estar aqui. A gente não está aqui simplesmente fazendo um trabalho; "Ah, vou embora e acabou." Não, sabe, tem uma coisa muito maior por trás disso. Que é justamente essa transformação, é ver essa possibilidade de ver a criança, o adolescente ou o adulto mesmo em uma vida diferente. Até na alfabetização de adultos a gente vê quando eles conseguem escrever a felicidade deles. E você pensa assim: "Eu tenho uma parcela de contribuição. Nem que seja na distribuição do material dele. Alguma coisa eu fiz." Você vê assim: "Tem uma razão de eu estar aqui. Não é porque eu quero ter meu salário no final do mês simplesmente isso." É porque também gente pensa essa questão do outro lado que eu acho, para mim é muito mais forte. Para mim é muito maior. Para mim é muito mais louvável. 

P/1 – E na sua opinião qual que é a importância da Fundação Bradesco para a história da educação brasileira? Olhando para esse quadro como estamos hoje, como está hoje a educação brasileira?

R – Olha, a Fundação, eu vejo que é a oportunidade de várias pessoas, de muitas pessoas que não têm condições de ter uma educação de ensino, que hoje a gente fala que a qualidade só vem naquela que é paga, né? Infelizmente a educação pública está aí, está falida mesmo. É difícil dizer isso mas é a verdade. E a gente vê quantas pessoas têm a oportunidade de, daqui, quando começaram estudar hoje daqui 12 anos ter um bom emprego porque estavam na Fundação. Eu vejo isso como uma coisa muito forte mesmo. A Fundação proporciona isso. Eu acho que é por isso que as pessoas que saem daqui têm a saudade que elas reclamam tanto. Eu acho que é por isso. Porque elas vêem essa oportunidade de crescimento mesmo, dentro da escola como alunos. Então a Fundação na história do Brasil hoje ela já, hoje a Fundação com 50 anos a gente já vê essa questão: quantas pessoas estão super bem? Quantas famílias se transformaram porque a Fundação estava dentro da casa delas? Está dentro da casa delas.

P/1 – Falando em 50 anos de Fundação, o que é que você acha desse projeto Memória 50 Anos da Fundação Bradesco, ou seja, a Fundação Bradesco contando seus 50 anos de história através das histórias de vida de pessoas que participaram, ou ainda participam, que vão participar, continuar participando da história?

R – Olha, eu achei fantástica a idéia. Quando eu recebi o telefonema eu falei: "Nossa, gente, isso é que é mesmo contar uma história." Porque não tem nada melhor. Eu acho que não tem outra maneira, né? Uma instituição que é feita por pessoas, pessoas que vieram de várias realidades. Uma instituição que está no país inteiro. De repente poder contar uma história vinda realmente, né, escutar da pessoa que teve essa história. Que recebeu a educação pela escola, que trabalha na escolha, que trabalha na organização. Que estudou uma, em uma época da vida na Fundação e depois conseguiu um bom emprego. Eu acho que não tem jeito, forma, maneira melhor de nós contarmos mesmo a história. Que acho que é o jeito mais real de contar, é mais concreto. Porque é muito fácil chegar e fazer um texto. Olha eu tenho uns alunos que vivem, ex-alunos que vivem assim hoje, ou vivem assado. E não escutar quem viveu ou quem vive, ou quem está vivendo, sei lá. Acho que isso foi uma grande idéia, uma brilhante idéia na verdade. Eu acho que foi muito legal. 

P/1 – E para você receber o convite para participar com a sua história de vida?

R – Nossa, uma honra. Nossa, realmente quando a Alessandra me ligou eu entendi primeiro que a escola que ia estar recebendo a visita, tal, por causa do aniversário. Aí eu parei, eu falei: "Alessandra, é a Kátia ou a escola de Ceilândia." Ela: "É a Kátia." Eu falei: "Ai meu Deus." Sabe assim? Nunca pensei, eu falo que eu recebi sempre muitos presentes da Fundação. E eu vejo isso como mais um presente. É uma honra poder estar ali, poder estar contando a minha história que está aí tão dentro da história da Fundação já. Eu vejo assim, já. Na verdade a Fundação está caminhando e eu estou também caminhando na minha vida aí. E com boa parte dela dentro da Fundação Bradesco, e foi uma honra receber um convite. Nunca pensei, na verdade.

P/1 – E agora, o Dia do Voluntariado? Dia 05 de Março? Que é que vocês estão preparando?

R – Olha, na verdade eu fico meio que na coordenação desse trabalho também aqui na escola. [risos] Então a gente sempre faz, a gente acaba assim, estabelecendo uma grande rede de relacionamento com as instituições, né? Com a administração da cidade, porque nós não temos prefeitura. Aqui é administração. Então a gente já começou a se reunir com o administrador da cidade, com o pessoal da Divisão de Cultura. A gente também sempre tem uma parceria grande com o pessoal do hospital da cidade. Os médicos vêm para fazer consultas, para fazer exames nesse dia. A parte do lazer com o pessoal da Cultura mesmo, da cidade. Então isso os professores também ajudam muito nessa hora. Principalmente os de Educação Física. Nessa área de lazer. Então a gente está, nosso trabalho fica muito voltado para essa área de saúde e cidadania. Emissão de documentação nesse dia a gente também faz. Então o pessoal é onde o pessoal realmente gosta. E trabalhos artesanais também a gente procura trazer, então tem todo esse trabalho aí que a gente vai estar fechando e amarrando no dia 05 de março. 

P/1 – Você gostaria de destacar alguma coisa que não foi perguntada? Alguma coisa que você gostaria de comentar?

R – Vocês perguntaram mais do que eu imaginava [risos].

P/1 – [risos].

R – Eu lembrei de coisas que eu nunca pensei que eu fosse, assim, né? Porque a gente acaba relembrando. Quando a gente é instigado a isso. Na verdade eu acho que vocês me fizeram falar tudo que eu precisava [risos]. 

P/1 – [risos] Tá bom.

R – Tá bom.

P/1 – Então em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa, nós agradecemos sua entrevista.

R – Eu que agradeço. Obrigada.

P/1 – Obrigada.

 

                       ---- FIM DA ENTREVISTA ----

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