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História de: Gunnar Carioba
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2020

Sinopse

Francisco Gunnar Muller Carioba nasceu em São Paulo (SP), em 26 de março de 1940. Seu pai era Francisco Adolfo Muller Carioba, de ascendência alemã, e a mãe, Grace Mion Isabela Muller Carioba, descendente de suecos. Ela era dona de casa, gostava de orquídeas e de cuidar do jardim; ele, executivo da área financeira. Gunnar passou a infância e adolescência entre os bairros do Jardim Paulista e Brooklin. Estudou em escolas particulares e gostava de natação, esporte em que chegou a competir. Graduou-se em Administração na FGV-SP e dedicou sua vida profissional à publicidade. Atualmente é aposentado.

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História completa

Um novo sobrenome

Tem a história do meu bisavô, que veio para o Brasil, foi para o Rio Grande do Sul, inicialmente. Não sei em que época mais ou menos, eles vieram para São Paulo e se associaram com uns ingleses e justamente compraram essa fábrica de tecidos que chamava-se Fábrica de Tecidos Carioba. “Carioba”, na língua indígena, quer dizer “tecido branco”, da mesma maneira que “carioca” quer dizer “casa branca”, ou “casa de branco”. Então "cari" é branco. E a família estão se fixou em Americana [SP] e desenvolveram, modernizaram a fábrica de tecidos, enfim, até criaram uma usina hidrelétrica para tocar a fábrica. Eu não lembro dessa época, eu era muito, muito pequeno. Eles venderam a fábrica em 1945, qualquer coisa assim, eu realmente não me lembro. Sei que tinha uma piscina, tem algumas fotos que eu lembro de ter visto, vi filmes que eles faziam, e brincadeiras dos irmãos e coisa e tal. E essa fábrica se desenvolveu em Americana e modernizou muito, cuidava dos empregados, e se formou uma comunidade em volta chamada Vila Carioba. Os funcionários todos tinham suas casas e tinha clube, tinha cinema, tudo isso promovido lá pelo pessoal, pela família. Depois eles, na época da guerra, acabaram vendendo a fábrica para os Abdala, aí a coisa toda acabou e eles saíram de Americana.

Foi justamente nessa época [que foi adotado o sobrenome Carioba], porque eles eram os Muller, e tinha muitos Muller, e esses eram os Muller de Carioba. E não sei se é exatamente isso que aconteceu ou não, mas um dos irmãos do meu avô era médico. E tinha o doutor Muller, e tinha um outro doutor Muller, e ele era o doutor Muller de Carioba. E ele acabou incorporando o nome Muller Carioba e os irmãos fizeram a mesma coisa. Então é um nome que foi adotado pela família nessa década de 1940 ou 30, sei lá quando.

 

Professor marcante

Eu tive uma pessoa que foi muito importante, que me ensinou coisas, que era justamente o professor Sato. Ele era de natação, era meu técnico de natação no [Clube] Pinheiros. Depois que eu saí do Ginásio Koelle, quando eu vim para São Paulo, aí eu fui nadar no Pinheiros. E o primeiro técnico de natação que tinha lá era o Sato, uma pessoa fabulosa, bem japonês com os treinamentos, a linguagem dele divertida. Essa é uma pessoa que eu sinto que, enfim, de alguma maneira me deu uma orientação, e mostrou as coisas da vida.

 

Braçadas velozes

[Eu] nadava “crawl” e nadava distância. Nadava 1.500 metros, 800, 400 enfim, nadava quase tudo, nadava 100 metros também. Eu lembro de uma competição, eu nadava pelo Pinheiros, e eu acho que eu nadei umas quatro ou cinco provas diferentes. Mas eu nadava mais distância, 1.500, fui várias vezes campeão brasileiro dos 1.500 metros. Então nadava bastante. E lá na época também era gostosa estar com o pessoal da natação porque a gente às vezes saía para fazer demonstração de natação ou para competições, ou fazer aqualouco, os trampolins. Eu lembro que a gente foi para inaugurar a piscina de Bragança Paulista, no clube lá, quando fizeram a abertura, inauguração da piscina, convidaram a turma do Koelle, que era uma equipe famosa e boa de natação. Inclusive o Manoel dos Santos nadava lá e foi recordista mundial [de 100 metros livres, em 1961]. Nadamos juntos, ele era daqui da turma.

 

Opção profissional

Eu tinha terminado da faculdade e trabalhava, durante a faculdade, na Companhia São Paulo de Petróleo, porque eu namorava uma garota e o pai dela me convidou para trabalhar lá com ele. Enfim, trabalhava lá no negócio de petróleo, na área de vendas, de fiscalização dos vendedores, dos postos de gasolina, coisas assim. E aí depois acabei saindo de lá e eu estava uma vez em Paraty, a primeira vez que eu fui para Paraty ou a segunda, alguma coisa assim, e meu pai tinha lá um amigo, chamado Ranking Roberts, e esse amigo era sócio de uma agência de propaganda. E a gente se encontrou, ele frequentava minha casa, eu frequentava a casa dele e tal. Encontrei ele em Paraty, eu estava desempregado, não tinha o que fazer, e ele falou: "Olha, por que você não vai trabalhar em propaganda? Acho que você se daria bem propaganda". E aí eu fui para essa empresa chamada CIN, Companhia Internacional de Negócios, que era uma agência grande na época. Fui para lá e fiquei uma época trabalhando no departamento de cinema e de produção de filmes. E fui assim me ambientando na área de propaganda, em agências, e fiquei quase que toda vida em vários lugares, várias agências. Foi aí que eu conheci a Clarice, minha mulher atual.

[Para a escolha da faculdade a cursar] eu fui levado. Hoje eu acho que eu fui levado pelo meu primo, Bernardo. Ele era de outubro, eu era de março, quer dizer, ele era uns quatro ou cinco meses mais velho do que eu, e ele estava nessa coisa de Administração de Empresas. E fazia a FGV e me levou para lá também; então, eu fui meio que acompanhado. Eu penso às vezes assim: que decisões eu tomei na minha vida? Eu sempre, mais ou menos, tinha uma oportunidade, e nunca tive assim um foco, de dizer "não, eu quero isso, é isso que eu quero fazer". Nunca tive esse planejamento, sempre a vida foi me levando e eu fui acompanhando. E era mais ou menos isso. Eu fiz administração na FGV, comecei em agência de propaganda, e fiquei em propaganda até dez ou vinte anos atrás.

 

Encontro com Clarice

Eu estava na faculdade, terminei a faculdade em 1966. Lembro que trabalhei em alguma outra coisa, mas que eu não lembro muito bem, mas depois fui para propaganda e fui trabalhar nessa área mais de criação e produção de filmes. Depois fui trabalhar numa produtora, como o contato, atendimento da produtora. E depois, eu não sei bem como, mas de repente eu fui atraído e fui levado para uma agência de propaganda chamada Grant Advertising, e nessa Grant, que era muito pequena, eu era o diretor-geral da agência em São Paulo. E a agência basicamente era no Rio de Janeiro, o chefão ficava no Rio de Janeiro e chamava-se Barnett, Thomas Barnett. E uma vez tinha um rapaz que trabalhava lá com a gente, que era redator, e eu não sei por que eu conheci o Roberto Duailibi, aí eu fui lá e falei: "Olha, eu tenho um redator, você não quer contratar ele?". "Não, ele não quero, mas eu quero contratar você, tá bom?". Aí eu fui para a DPZ, trabalhei alguns anos na DPZ, e da DPZ eu fui convidado para ir para o Rio de Janeiro, trabalhar na MPM do Rio, que tinha um amigo que era gerente lá da MPM do Rio e me levou para o Rio de Janeiro. Eu fiquei uns três ou quatro anos no Rio de Janeiro e acabei saindo da agência, fui demitido lá. Houve uns cortes e eu acabei sendo cortado. E aí eu voltei para São Paulo e passei por algumas agências, passei pela Salles e depois eu fui para a Standard, onde eu conheci a Clarice. Estava separado da minha primeira mulher, a mãe dos meus filhos, fui para o Rio de Janeiro, a gente acabou se separando lá, e quando eu vim para São Paulo, alguns anos depois, eu achei a Clarice.

Eu trabalhava na Standard e a Clarice era a chefona da pesquisa lá e eu era um contato, atendimento de contas, cuidava da conta da Lever, eu acho, e... teve duas situações. Uma, tinha uma apresentação que estava sendo feita por um americano, ou alguma coisa assim, que estava lá, não sei se a Clarice estava fazendo a apresentação, o americano, mas eu fiz uma pergunta, eu fiz uma pergunta inadequada para a pessoa errada. E a Clarice ficou brava comigo, deu uma bronca em mim, disse: "Isso aqui é comigo, você não se mete nisso". Está bom, você não se mete no meu espaço. Aí estava lá convivendo e, um dia, teve um aniversário de um amigo, de uma pessoa que trabalhou comigo na DPZ, eu o conheci na DPZ, Antônio Batista. Eu estava separado já da minha mulher, separei quando sai do Rio de Janeiro, da minha primeira mulher, que chamava-se Sandra, então eu tinha me separado da Sandra e estava lá na Standard, e aí o Batista ia fazer aniversário, 40 anos do Batista, e ele ia convidar 40 amigos para uma festa, um aniversário. E eu não fui convidado, mas eu queria ir para a festa porque eu estava de olho na Clarice. Então peguei meus filhos, levei para Jaú, onde mora o meu irmão, deixei os filhos lá com ele, peguei o carro, voltei para São Paulo, trouxe uma garrafa de cachaça de Jaú, e fui à festa. E entrei na festa do Batista. E aí tinha um monte de gente dando em cima da Clarice, e tinha uma menina, uma mulher, que estava interessada em mim, mas eu não estava interessado nela, e a Clarice estava lá, aí a gente foi, saiu, saímos juntos, acabamos nos encontrando e estamos juntos até hoje.

 

Apoio afetivo

[O desdobramento do assassinato de Vlado] é uma coisa da Clarice e eu respeitava muito isso. Eu sempre ficava por trás, eu não me envolvia. Eu estava ali de guarda-costas, de resguardo, dando o apoio emocional que ela precisava. Até participava às vezes de reuniões com os advogados, mas era uma coisa da Clarice e muito do Fernando [Pacheco] Jordão, que estava muito com ela também. E eu ficava ali do lado. Eu sei que isso às vezes incomodava um pouco a Clarice, de ter o Gunnar lá, nessas situações, mas eu procurava nunca constranger, invadir, nada. Eu sei que era o espaço dela, ela que tinha que resolver isso, e ela, enfim, acabou resolvendo, e eu estava simplesmente como um apoio emocional e mais nada.

 

Os “novos filhos”

A gente já estava vivendo junto, e já na segunda casa, ou na terceira. Primeiro a gente morou junto num apartamento que ela tinha lá em Perdizes, aí alugamos uma casinha em Pinheiros, perto da escola das crianças, e depois a Clarice comprou uma casa lá na [rua] Professor Nova Gomes, e foi nessa casa que isso aconteceu, já algum tempo depois que a gente estava junto. Mas o Ivo tinha essa resistência, eu acho, e um dia, na mesa de jantar, a gente tinha uma salinha lá que tinha essa mesa de jantar, o Ivo uma vez falou assim: "Gunnar, você não percebe que você é uma pessoa perfeitamente dispensável nessa casa?". E eu levei a coisa, enfim, nunca fui agressivo nem nada, sempre fui levando as coisas. E o que acontece? Um pouco tempo depois, estávamos na avenida Sumaré, eu acho, e furou o pneu do carro. E ele me ajudou a trocar o pneu, foi lá, mexeu comigo, e aí ficamos companheiros de trocar pneu. E hoje somos muito amigos, tanto do Ivo quanto do André. São pessoas de quem eu gosto e eles gostam de mim, eu sinto, e se preocupam comigo, porque eu tenho certas deficiências, vamos dizer assim, ou certas limitações, principalmente de andar. Eu tenho as pernas meio fracas hoje em dia, os joelhos fracos, em função de uma doença, e eles estão sempre me apoiando, me ajudam. Somos bem amigos, bem próximos.

A gente sempre foi muito de ficar em casa no fim de semana. Eu lembro, e as crianças lembram também, nessa casa [rua] Nova Gomes, a gente tinha uma espécie de... não era uma lareira, era um negócio de ferro onde põe carvão dentro. Espécie de uma estufa. E a gente às vezes estendia uma toalha e fazia piquenique na frente da lareira. E eu gostava de preparar o bife tartar e eles gostavam, e faziam, sentavam lá, e também estava aí o Rogério [Pacheco Jordão], às vezes estava junto lá também a Bia, que eram bem próximos da gente. O Rogério e a Bia, filhos do Fernando e da Fátima. E as crianças estavam sempre juntas. O Ted [Teodoro, filho do primeiro casamento de Gunnar] teve problema com o Ivo. [São da] mesma idade, o Ivo é um pouco mais velho que o Ted. E havia um conflito, uma resistência. Eles foram morar comigo uma época, porque houve um problema com a mãe deles, que acabou deixando eles em casa, e a gente falou: "Bom, então eles vão ficar por aqui e não vão sair mais". E mudaram e vieram morar com a gente, depois de algum tempo que a gente estava morando junto.

 

Instituto Vladimir Herzog

Eu acho que mais do que a própria memória do Vlado, [o IVH] significa uma abertura e uma procura de conscientizar a sociedade, informar a sociedade sobre diversos assuntos ligados a direitos humanos e às necessidades das pessoas. Acho que isso surgiu muito com a memória do Vlado e do assassinato dele, e isso extrapolou. Hoje eu acho que é muito mais do que isso o Instituto, muito mais. [Pensar no futuro, ter o legado de Vlado como um elemento de vivificador.] Sem dúvida. Eu vejo o Ivo nisso aí: cada vez que ele fala, é esse o pensamento dele: a democracia, as pessoas, o bem-estar das pessoas, e a vida de uma maneira geral. E sim, como você falou, a morte do Vlado foi o “start”, o começo para isso aí, a formação do Instituto. Foi a ideia do Ivo fazer essa coisa como preservação da memória e, daí para frente, lutar pelos direitos humanos, pelo direito das pessoas, pela democracia, pela educação, pelo bem-estar do cidadão.

 

Salsa e cebolinha

Eu sempre gostei de cozinhar. A minha mãe cozinhava em casa, ela que era, enfim, a chefe da cozinha; claro que tinha uma cozinheira que fazia, mas ela muitas vezes me chamava lá da sala: "O que você acha disso, experimenta essa coisa aqui, se está bom ou não está bom". E eu fui me envolvendo nisso por prazer, porque eu gosto. Depois, quando eu saí de casa, fui morar sozinho e tinha que cozinhar as minhas comidas. E fazia as comidas em casa, às vezes convidava as pessoas amigas, e fui assim desenvolvendo isso pelo prazer mesmo. Eu acho a cozinha uma coisa importante, boa, e tenho muito prazer na cozinha. E as pessoas dizem que eu cozinho bem, que a minha comida é boa. Segundo a Clarice, quando alguém fala assim: "Quem vai cozinhar? É o Gunnar? Então eu vou". E gosto. Eu gosto de mexer com a mão, eu gosto de trabalhos manuais. Eu acho que fui para a profissão errada, de ser administrador de empresa, essas coisas. Devia ter feito outra coisa mais sensorial, sei lá... Químico. A Clarice já fez química. Mas [eu] deveria ter feito outra coisa mais interessante, um artesão... Eu sou muito bom em artesanato, eu gosto de mexer com madeira, de marcenaria, esculturinhas e coisas assim que eu gosto de fazer. Tenho essa parte minha que é bem gostosa. E a cozinha também faz parte disso aí: é um negócio manual, artesanal. Eu de vez em quando faço as minhas coisas lá, faço embutidos, faço geleia. As pessoas me perguntam: "Qual é a sua especialidade?". Eu não tenho uma especialidade. Eu procuro, me inspiro em livros ou me inspiro... sei lá, assim: “Ah, eu vou fazer isso aqui hoje”. Vou e faço; me meto a fazer as coisas e normalmente dá certo.

 

Sonhos

Meu sonho? Hoje em dia meu sonho é viajar com a minha mulher. É o que a gente está fazendo, são os nossos planos. Estamos ambos parados, temos uma reserva suficiente para poder passear, então vamos fazer isso.  E assim a gente vai tocando a nossa vida. Enquanto as pernas aguentarem, a gente vai.

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