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Psicologia esportiva

História de: João Ricardo Lebert Cozac
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2013

Sinopse

Em seu depoimento João Ricardo fala sobre como desde muito novo se interessou por futebol e de como jogavam bola no quintal da família no Alto de Pinheiros. Lembra como começou a torcer pelo time Santa Cruz de Recife e sobre as copas do mundo que assistiu com ênfase para a Copa do mundo de 1978 quando o Brasil foi eliminado por um resultado entre o jogo Peru X Argentina. Recorda como escolheu o curso de Psicologia, atuando profissionalmente na área de psicologia esportiva. Finaliza falando sobre alguns trabalhos que fez para clubes e jogadores e como conheceu sua esposa num site de relacionamentos. 

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História completa

Meu nome é João Ricardo Lebert Cozac. Nascido em São Paulo, no dia 6 de dezembro de 1969. Meu pai chama Rafi Cozac, ele nasceu em 27 de maio de 1930 em Catalão, no interior de Goiás e a minha mãe, Ana Luiza Lebert, nascida 30 de agosto de 1946, em São Paulo. Meus pais, eles ainda estão vivos, meu pai é dentista, formado em Odontologia, em Direito, trabalhou muito tempo no ramo de artes, ele trabalhou como ator, muitos anos com a Cacilda Becker, o Walmor Chagas no teatro mais na década de 50, 60, mas se dedicou mais a Odontologia, ao Direito muito pouco. E a minha mãe sempre jornalista, escritora, trabalhou em diversas redações de revistas e jornais ao longo da vida. Tenho um irmão mais velho, Luís Felipe Lebert Cozac, hoje com 48 anos, ele é formado em Administração de Empresas e Economia. Minha família não gostava de futebol, meus pais falam que eu nasci de uma forma inexplicavelmente apaixonado por futebol, mas nem meu pai, nem a minha mãe, nem da família de ambos também não tem nenhum caso que você fale: “Ah, tem um primo distante, alguma coisa assim”, não. O meu irmão apenas gostava de futebol, mas nunca teve a paixão pelo esporte e eu nasci extremamente focado no futebol e acredito que pelos colegas de maternal, jardim, pré, enfim, toda contextualização da época, me fez apaixonar pelo futebol. O meu pai ele brinca, ele sempre é do contra, então se ele está numa mesa de palmeirenses, ele fala que ele é corintiano, se ele está numa mesa de corintiano, ele fala que ele é palmeirense, ele só brinca. A minha mãe é casada com um grande palmeirense e ela também nunca torceu para time algum, e ela se diz palmeirense mais por conta do marido e eu tenho um irmão são-paulino e eu sou torcedor do Santa Cruz de Recife.

Eu sou nascido em 69 e o grande time de Santa Cruz de Recife foi entre 1975, 76 até 78, 79, que era quando eu já tinha ali próximo dos meus dez, 11 anos de idade e que eu vi jogadores como Nunes, o Fumanchu, o Givanildo, e aquele estádio do Arruda, a gente ia muito a Recife, então eu tive oportunidade, na época criança de ver alguns jogos do Santa Cruz e sentir o calor daquela torcida. E além disso, eu sempre gostei muito de jogar futebol de mesa, e eu tinha, quando criança, um time do Santa Cruz, que eu costumava dizer que era o time invencível. Então, eu adorava jogar com o Santa Cruz e tinha um amor e tenho esse amor incondicional.

A gente sempre gostou muito da praia de Boa Viagem para passar férias, no lado artístico do meu pai que eu comentei também, se refletiu em navios transatlânticos que ele trabalhava junto com o falecido Aldo Leoni. O navio sempre parava em Recife, e nessas eu sempre dava um jeito de dar um pulo no estádio do Arruda para ver o santinha jogar. A primeira vez que eu fui num estádio? Foi para assistir um jogo do Santos com o São Paulo, foi um dos últimos jogos do Pelé, eu devia ter cinco para seis anos e eu tenho lembrança mais das pessoas falando do Pelé no Morumbi, do que propriamente do jogo em si.

Eu tenho uma lembrança de um jogo do Juventus com a Portuguesa no Pacaembu. O meu pai nunca gostou de futebol e ele ia nos jogos, ele levava a gente e ele ficava lendo jornal.  Eu posso dizer da minha eterna admiração pelo Zico, quando fala em ídolo para mim, é o primeiro nome que vem a cabeça é o Zico. E além do Zico, vários outros atletas eu posso dizer, passam tantos nomes na cabeça, mas além do Zico, claro, o Pelé, ídolo nosso de todos os tempos, Rivelino, que eu vi jogar, Sócrates no Corinthians, que vi Ademir da Guia, vi Pedro Rocha no São Paulo.

Eu sempre morei em Alto de Pinheiros, numa rua que na época que eu morava, ela era uma rua aberta, hoje ela é uma rua de condomínio fechado, próxima a Avenida Pedroso de Moraes e é uma casa muito gostosa, tudo na casa virava motivo para ser futebol. A minha casa tinha um quintal muito gostoso que hoje moram os meus pais, mas eu olho o quintal e falo: “Gente, quando eu fazia aniversário, eu chamava dez amigos, hoje em dia não dá para jogar dois não jogam futebol, mas na época, jogavam dez”. Tinham dois capitães, tirava par ou impar e ia escolhendo os times e um muro de dentro do quintal era um gol e o outro, a gente tinha que colocar tipo, duas cadeiras assim, dois banquinhos para fazer o outro gol e ficava de manhã, a tarde inteira jogando, às vezes, até a noite, anoitecia, tinham uns holofotezinhos assim, da casa, do lado de fora que acendia o holofote, a gente jogava naquele lusco fusco do final do dia e era muito legal.  Basicamente, a gente jogava bola no quintal, bola na rua e dentro de casa, só não jogava no quarto, porque acho que não cabia, mas se desse a gente jogava.

Estudei no  DoRéMi, que não existe mais, que chamava Escola de Primeiro e Segundo Grau Rebouças. Eu tinha no maternal creio que três anos, três para quatro anos, fiquei no DoRéMi até os 11, 12, acho que 12 para 13 anos e fui estudar no Palmares, na Pedroso de Moraes. Depois, tive algumas passagens para as outras escolas, mas o futebol dentro do ambiente escolar, eu tenho uma passagem que era legal no DoRéMi. A gente jogava bola com o papel alumínio do lanche que vinha na lancheira. O colegial eu fiz no Logos, depois no Pueri Domus e finalizei o terceiro colegial no Objetivo, fiz um ano de Intergraus, o cursinho, porque quando eu sai do objetivo, eu entrei na FAAP em Publicidade e Propaganda, comecei a fazer, mas não me encontrei. Eu fazia faculdade e eu não larguei o cursinho, então eu ia careca para o cursinho, todo mundo olhava: ‘O que é que você está fazendo aqui? Você já tomou até trote, por que você está estudando?” “Eu não estou contente, eu quero fazer Psicologia, eu quero estudar Psicologia”, meus pais sempre tiveram muitos amigos psicólogos, e eu sempre convivi muito no meio de filósofos, de livros de psicologia, nessa parte mental, social, emocional toda, filosófica.

Eu nasci em 69, portanto a Copa de 70 eu estava no berço, eu tenho a honra de dizer que eu já estava nessa vida quando o Brasil foi tricampeão. A Copa de 74, realmente eu não tenho nenhuma lembrança, foi a copa da laranja mecânica, da Holanda, o time do Kerkhof, eu não lembro, essa realmente eu não tenho lembrança, mas 78 eu tenho lembrança. São memórias talvez saudosas. Era um clima de muita euforia, eu me lembro que eu assisti um jogo, eu lembro que teve um jogo do Brasil contra a Suécia, que o Brasil fez um gol com um gol de cabeça do Zico, eu estava na casa do meu avô e o juiz ele encerrou o primeiro tempo depois da cobrança do escanteio, com a bola do ar, isso deu uma celeuma e tal e não valeu o gol do Zico. Lembro de um jogo do Brasil com a Áustria em 78, que teve um gol do Roberto Dinamite, eu lembro muito bem desse gol, eu estava assistindo com o meu avô, e não tem como dizer que o jogo que mais me marcou, infelizmente, foi o jogo da Argentina com o Peru, que o Brasil estava invicto até então. Era nítido que o time entrou já sem chance nenhuma e que os argentinos, na medida em que iam fazendo os gols, eu fui ficando muito triste, muito angustiado, eu lembro quando faltava um gol só, que eliminaria o Brasil e quando saiu esse gol, eu fiquei muito triste e eu sempre fui muito intenso nas minhas emoções, eu me emociono agora só lembrar daquele momento, eu lembro que a minha mãe virou para mim e falou assim: “Calma filho, daqui quatro anos tem mais” e eu falava assim: “Mas mãe, eu não sei nem se eu vou estar vivo daqui a quatro anos”, imagina? Eu tinha nove anos. A Copa de 82 foi disparado assim, e por muito tempo, eu acho, que talvez seja até o fim da minha vida, a seleção mais linda que eu vi jogar na minha vida, foi demais assim, era uma equipe que jogava por música, era uma equipe que jogava com alegria, era uma equipe que tinha Zico, tinha Sócrates, tinha Falcão, tinha Éder, tinha Junior, tinha o Serginho Chulapa, era uma equipe equilibrada entre gênios da bola, entre craques, tinha o Telê Santana, que na minha opinião, foi um dos maiores treinadores que esse país já teve. Eu guardo com todo carinho do mundo a camisa da Copa de 82, toda autografada com os atletas da época.  Eu estava na casa dos meus pais e eu me lembro de ficar olhando a televisão assim completamente paralisado sem entender o que estava acontecendo, sem acreditar no que estava acontecendo, quando o juiz terminou, eu me lembro que os amigos que jogavam bola na rua, todos saíram de casa, sentamos na rua, todo mundo assim: “Como que acontece isso?”.

Na faculdade de Psicologia, quando a gente começa a faculdade, os professores falam: “Esqueçam que vocês estão aqui por conta dos outros, vocês estão aqui por uma causa própria”, e de fato eu acho que eu fiz Psicologia por uma causa própria, com um desejo de autoconhecimento, de autoaprimoramento, a gente sempre aprende muito sobre a gente mesmo na faculdade. Foram cinco anos de PUC completamente inesquecíveis. Quando a gente está no quarto ano da Psicologia na PUC, a gente tem uma matéria que chama Seminários. O professor Odair Furtado, que foi inclusive presidente do Conselho Federal de Psicologia, falou: “João, você gosta tanto de esporte, por que não pensar em alguma coisa relacionada ao futebol? Não sei, unindo a Psicologia Social, a gente pode pensar em fazer um trabalho sobre torcidas organizadas, ou significado social do futebol, uma questão vinculando futebol e sociedade”. Comecei a pesquisar muito sobre literatura de futebol na época, fiz o TCC, ele na verdade inaugurou a área de esporte dentro da PUC, hoje já tem centenas de trabalhos em psicologia do Esporte no TCC. O “O Significado Social do Futebol no Brasil”. Tem um curso já, há 15 anos que eu sou professor. É vinculado a Associação Paulista da Psicologia do Esporte, que eu sou presidente, e a gente subloca um auditório na Avenida Paulista para alunos de Psicologia, que ainda estão em formação e psicólogos formados, pessoal da Educação Física, atletas, enfim, todos aqueles que querem conhecer um pouco mais da alma do atleta e o conceito de esporte.

Eu cheguei no Corinthians por intermédio do Wagner Martinho, que ele era cinegrafista, e ele já conhecia os meus textos, ele me acompanhava em 95, 96 o que eu escrevia. Eu tenho textos meus que saíram na “Folha de São Paulo”, no “Estado de São Paulo”, então assim, grandes na página, que eu tenho, inclusive enquadrado no meu consultório até hoje, que são troféus para mim. Então, os meus textos me deram visibilidade nessa visão que eu tenho no esporte.  Então, depois eu fui, 98, 99, eu trabalhei no Goiás, depois, eu trabalhei no Cruzeiro em 99, 2000, 2001, eu dei um tempo de futebol, quatro anos, eu fui me dedicar a fazer mestrado, atender atletas em clínica, o meu nome já tinha sido muito ventilado na imprensa, eu começo a escrever na “Gazeta Esportiva”, o blog “Gol de Cabeça” em 98, então isso ajudou, isso deu uma guinada muito grande no meu nome, e os atletas começaram a chegar no meu consultório, a coisa começou a ganhar um ritmo bacana, trabalhei no Palmeiras depois em 2005,  alguns clubes pelo interior de 2005 para cá, mas não muito com futebol mais. A gente trabalha na Psicologia do Esporte não só com alto rendimento, a gente trabalha com projetos sociais, com inclusão de menores através do esporte, a gente faz trabalhos de prevenção e promoção de saúde em academias de ginástica, há todo um trabalho de preparação de treinadores, mestres, técnicos para o contato com crianças e adolescentes. Há também o trabalho com alta performance, enfim, modalidades de alta competição, individuais, coletivas, de diversas categorias e modalidades. Normalmente a gente parte sempre de um mapeamento de um perfil psicológico, um levantamento das demandas propriamente ditas do atleta, para que depois a gente ofereça um trabalho de orientação, acompanhamento, desenvolvimento e fortalecimento dessas regiões que merecem um pouco mais de atenção. O recorrente na parte psicológica, muitas vezes, são questões relacionadas com concentração, quebra de concentração, aumento significativo de ansiedade pré competitiva.

Conheci minha esposa num site de relacionamento, era um site que chamava “met.com”.  Lembro que você podia mandar uma piscada para uma pessoa, para um perfil, ou escrevia uma mensagem. E eu lembro assim, eu era super exigente e tal, a pessoa tinha que morar na zona oeste, ser de São Paulo, tinha um monte de coisas que eu coloquei, sem tatuagem, coloquei um monte de coisa. Conheci uma pessoa da zona leste, de tatuagem, que mora em Santa Catarina. Então, beleza, e foi com essa pessoa que eu casei. Ela odeia futebol, porque ela conta que quando ela era pequena, quando eles iam para praia ali perto de Joinville, Piçarras, Penha e tal, o pai voltava com o carro com o radinho ligado e ela queria dormir, então ela pegou birra de futebol. O primeiro marido dela era flamenguista roxo, adorava futebol e assim, ela é uma pessoa muito crítica em relação ao futebol. 

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