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História

Psicologia do Carinho

História de: Maria Cristina Telles
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Origem familiar e memórias da infância. Adolescência e experiências escolares. Interesse inicial pela psicologia. Dificuldades durante a faculdade. Primeiros empregos e estágios. Começo e adaptação na Fundação. Criação e desenvolvimento do Telecurso e desafios enfrentados. Separação entre vida profissional e privada. Impressões sobre a Fundação e o projeto do Museu da Pessoa.

História completa

Projeto Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Maria Cristina Telles Entrevistada por Maria Elenir e Judith Ferreira Osasco, 14 de dezembro de 2005 Código: FB_HV013 Transcrito por Michelle de Oliveira Alencar Revisado por Adriane Pena da Silva e Isabela Borges Vidal Polido Lopes P/1- Maria Elenir P/2- Judith Ferreira P/1- Maria Cristina, vamos começar com você nos falando o seu nome, o local e a data do seu nascimento? R- Sou Maria Cristina Telles. Nasci em São Paulo, em 23 de setembro de 1956. P/1- E o nome dos seus pais? R- Meu pai era Valter Gomes Telles e minha mãe Lavínia Germane de Telles. P/1- E onde eles nasceram, seus pais? R- Meu pai nasceu em Franca, São Paulo. E minha mãe nasceu em São Paulo mesmo, na capital. P/1- E as atividades deles? R- Meu pai era cabeleireiro. Minha mãe exerceu algumas funções, alguns trabalhos de solteira, assim, em partes administrativas de várias empresas e também alguns trabalhos artísticos. Mas depois de casada ela não trabalhou fora, embora ela também fizesse pinturas de quadros, eventualmente até vendia, mas não profissionalmente. P/1- Certo. E seus avós maternos e paternos, você lembra? R- Lembro bastante. O meu... Você quer o nome? P/1- Sim, pode falar o nome e pode falar um pouquinho deles também. R- Os meus avós paternos: era o meu avô Francisco, que era pai do meu pai. E a mãe do meu pai se chamava Maria, mas ela faleceu quando ele tinha 3 anos, então eu não conheci. E meus avós maternos, eu acho que a gente tinha mais contato, sempre tive mais contato, que eram meu avô Arcanjo e a minha avó Maria. Por isso que eu também tenho Maria, como os meus irmãos também, minhas irmãs também têm o Maria, em função dessa minha avó, mãe da minha mãe. Ela trabalhava num grupo escolar. P/1- E eles eram daqui mesmo de São Paulo? Eles emigraram? P/1- A família da minha mãe era de imigrantes italianos. Eram sete filhos, mas cada um nasceu num lugar. Alguns nasceram na Itália, e como eles viajavam muito, minha avó coincidentemente nasceu no Brasil, mas os pais dela eram italianos. E a origem do meu pai, eu acho que se dispersou um pouco, mas eu acho que sempre muito arraigado em Franca, São Paulo mesmo, no interior. Então, eu acho que se perdeu assim, a origem talvez estrangeira, mas é uma família bem brasileira mesmo. P/1- E irmãos, você tem? R- Tenho duas irmãs e um irmão. P/1- O nome deles? R- Maria Isabel, mais velha que eu. Depois de mim vem a Maria Teresa e o Paulo Henrique. P/1- E na sua infância, você lembra da casa onde você morava? R- Eu nasci e morei até bastante, até pouco tempo, até pouco não, digamos que até uns 17, 18 anos atrás na Vila Madalena, na rua Girassol onde os meus pais também moravam, né? Quando eu nasci era um bairro bem primitivo, de terra batida, então tinham até chácaras, se comprava na porta leite de cabra. Não parece, né, que hoje a Vila Madalena é assim. Mas foi lá que eu cresci, e estudei em escolas do bairro vizinho que é Pinheiros. P/1- E a casa, assim, você lembra da casa? R- Lembro. A casa existe até hoje, em frente à Igreja de Santa Maria Madalena. A casa existe mas ela está sendo usada pra comércio. P/1- E as brincadeiras, assim, com seus irmãos... R- Ah, era sempre muito bom, porque era uma casa térrea e tinha pouca vizinhança naquela época, nem muro tinha, eram cercas que tinham pra dividir os terrenos. Então era assim, muita brincadeira de quintal, de rua, de tomar chuva, no quintal, de jogar bola. Enfim, eu acho que foi uma infância quase de interior, porque a Vila Madalena era um interior naquela época. Tanto que assim, nem o ônibus ia até a minha casa, porque não tinha condições de chegar até lá, não tinha asfalto. Então, era quase que um sítio, né? Então, a gente se divertia bastante [risos]. P/1- [Risos] E o dia-a-dia, assim, a dinâmica da casa, você lembra como era? R- Ah, era muito corrido. Porque eram quatro filhos, a minha mãe pra dar conta, e meu pai também trabalhava muito. E nós todos, sempre cada um tinha que cuidar das suas coisas, estudar e fazer as lições, e depois mais tarde todos sempre buscaram trabalhar e buscaram ajudar, porque a gente estudava em escola particular e não era fácil pra sustentar, né? Então, eu não tive uma vida de luxo, mas nunca, absolutamente nunca faltou nada, escola boa. Eu acho que meus pais se preocuparam muito em ter o básico. Eu nunca tive roupa de grife nem coisas de luxo, mas assim, saúde e alimentação de primeira. Então, nunca tive esse tipo de necessidade, mas também nunca alimentaram nenhum tipo de consumismo. Era o básico da melhor qualidade. Então, esse era mais ou menos o estilo de vida da gente. P/1- Lembranças marcantes, assim, daquela época, você tem alguma? R- Eu acho que muito, assim, da convivência familiar. Porque a gente saía pouco, porque nós não tínhamos carro, quando eu saía tinha que pegar táxi ou condução. Então, era muito uma convivência familiar. E também dos meus avós, né, por parte da minha mãe, que sempre iam lá e visitavam muito a gente, brincavam muito, davam muitos brinquedos pra nós. E também a gente ia muito na casa da minha avó que morava na rua Capote Valente, em Pinheiros, todos os domingos almoçar macarronada da minha avó. E ela também já aproveitava e dava brinquedos, e a gente ficava lá na casa dela quase que o dia todo nos domingos. Então, era um programa muito especial, né, esse almoço de domingo, era muito bom. P/1- E São Paulo, assim, naquela época, a cidade de São Paulo, como era? O quê você lembra disso? R- Na minha infância? P/1- Isso. R- Olha, então, como eu falei, a gente não saía muito. Às vezes também ia, por exemplo, no Parque da Água Branca, ou no Parque do Ibirapuera, era esse tipo de programa, né? Não tinha, evidentemente, toda a violência, não tinha os perigos, né, acho que eram todos, assim, programas muito tranqüilos de se fazer com a família. E mesmo quando eu fiquei mais jovem, mesmo saindo à noite nunca houve problema nenhum. Então, era parece que uma coisa mais solta, uma coisa mais livre, tanto que, eu acho que estava na quinta série, já ia de ônibus pra escola tranqüilamente sem problema nenhum. O que hoje em dia, uma criança de 10 anos, você já pensa duas vezes pra ir sozinha, né, pros lugares ,pra andar em São Paulo. E nessa época não tinha problema nenhum. P/1- E a tua adolescência, como é que foi? R- Adolescência? Eu acho que não fugiu muito em termos de estilo da minha infância, com a diferença de que já havia uma preocupação maior em termos de futuro, de buscar algumas alternativas de renda, né? Eu sempre fiz muitas coisas informais pra ajudar meus pais. E o ensino médio eu consegui, estudei as férias inteiras, prestei vestibulinho e consegui estudar numa escola pública, que naquela época era muito difícil de entrar. Fernão Dias Paes, em Pinheiros. Era muito duro o vestibulinho lá, mas eu fui justamente pra aliviar um pouco, né? Além de ter sido uma escola muito boa. Eu acho que naquela época era uma escola modelo, e precisava mesmo estudar muito pra entrar. Então, mas não era de sair muito,não. Eu não tinha, assim, o estilo de vida que os jovens e adolescentes têm hoje. A preocupação era outra. Depois, um pouco mais tarde, já lá pra terceiro médio ou faculdade, aí sim, acho que saía mais e tinha outros programas. Mas na adolescência acho que era o mesmo estilo de vida de sempre, muito simples, e sempre convivendo em família. Acho que era esse o estilo. P/1- E voltando um pouquinho, assim, quando você começou a estudar, você lembra da primeira escola? R- Lembro, era a escola Estela Maris, em Pinheiros, na rua Cardeal Arcoverde. P/1- E como era essa escola, você lembra dela? R- Lembro. Não foi, assim, uma lembrança muito boa. Não foi. Porque era uma escola religiosa, e as freiras, a maioria delas é que dava aula, não por ser religiosa, porque depois eu fui pra uma outra religiosa que era bem diferente, mas como a origem da formação lá deles era a alemã, era muito rígida. E eu tenho a impressão que eles não entendiam muito de psicologia, né? Então, eles faziam muitas... eles davam muitos castigos ou até discriminações entre as crianças, que eles nem percebiam que faziam. Em nome de uma boa educação, evidentemente. Mas eram extremamente punitivos. Eu lembro muito, acho que eu tava na quarta série e não consegui cantar o Hino Nacional inteiro, então, me puseram na frente pra eu cantar pra todo mundo. De castigo, né? Eles faziam coisas muito constrangedoras. Ou então assim, se tinha uma apresentação de dança eu nunca ia, né, porque eu era gordinha, então só iam as magrinhas. Então, eu nunca participava nem de jogo, nem de apresentação de dança, nem de coisa nenhuma. Eles escolhiam esteticamente pra tudo o que era mais perfeito, porque tinham que mostrar pro público. Era uma coisa bem, assim, discriminatória, né? Então os feios, os gordos... [risos] P/2- Você sentia isso? R- Ô! Com certeza! P/2- E não reclamava? R- Não, ninguém reclamava. P/2- Ninguém reclamava? R- Não, ninguém reclamava. Nem eu reclamava eu acho. Acho que nem meus pais sabiam que eu sentia isso na escola. Mas eu acho que chegou um certo ponto que eles perceberam que não era a escola ideal, por causa de outras coisas de rigidez. Aí nós mudamos pra uma outra escola que chamava Santa Luzia, em Pinheiros também, só que a origem delas era italiana, então, estávamos em casa [risos]. E aquela escola era uma festa, é onde eu conseguia fazer tudo que eu queria, eu fazia o jornal da escola, a gente fazia festa. Tinha uma vez, acho que a cada seis meses tinha uma festa que chamava Festa do Galeto, que todo mundo ia comer frango assado junto com as freiras lá. Jogava futebol, meu pai ia na quadrilha. Era aquela coisa, né? Então, tinha o ensino bom, mas também tinha muita integração de aluno e da família. E isso era muito gosto, embora também tinham padrões e normas de valores, de moral, enquanto escola religiosa, mas por outro lado tinha uma abertura muito maior pra aceitação de sugestão, de movimentos de arte, de música, e sempre teve muito show, né? Então era um outro estilo de escola. P/2- O jornal era interno? R- Era interno. P/2- O jornal que você fazia? R- É, era interno. P/2- Você produzia todo o jornal, como é que era essa produção? R- Não, tinha um grupo. Tinha um grupo que fazia o jornal mas o pessoal, assim, não tinha muita iniciativa, às vezes. Então, como eu te falei, pra buscar pessoas pra entrevista, pra telefonar pras pessoas era eu que tinha que fazer, se não eles não faziam muito isso. Eu lembro assim que, além daquele que eu te falei, Lígia Fagundes Telles, Gian Francesco Guarnieri, eu olhava na lista e ficava ligando, né? P/2- E conseguia entrevistar? R- Eu ia pra TV Tupi, ficava na porta pra conseguir falar com as pessoas. Eu conseguia, né? Sabe por quê? Eu acho que, uma lição que eu aprendi nesse tempo, eu não sabia que não podia, que era uma coisa ousada. Então, quando você não sabe que não pode, você faz. Porque o que te bloqueia não é o poder ou o não poder, é o seu pensamento, é você pensar que você não pode, acabou, morreu. Mas quando você não sabe isso, você vai fazendo as coisas, né? E eu fui fazendo. Então, sei lá, a gente não tinha dinheiro pra imprimir, então eu fui atrás de patrocinador, e punha anúncio no jornal do patrocinador, ia atrás de fotógrafo, tudo isso. P/2- Fez uma edição, isso. R- A gente fazia isso. Eu acho que essa idéia, de deixar os alunos resolverem problemas. Então, não dava pra fazer uma edição grande porque ficava caro. Então, qual era a solução? Fazer metade. Tinha edição que saía menor porque saía mais barato pra imprimir, e aí tinha que telefonar em gráfica, fazer cotação. Isso que a gente chama hoje de trabalho como projeto que desenvolve não só a autonomia, mas o empreendedorismo, né? Eu lembro muito dessa fase onde tinham problemas e não tinha professor, nem pai, nem mãe que ajudasse, a gente tinha que solucionar a questão, sentar e pensar, e buscar as pessoas. E eu acho que essa é a maior lição que qualquer aluno pode ter de qualquer escola, mais do que qualquer conteúdo, porque conteúdo a gente acessa em qualquer lugar. Essa iniciativa, esse comportamento de você buscar solução para aquilo que aparentemente não tem eu, aprendi muito nessa época. Então, o que mais me marcou, que eu lembro, da época de escola foi o jornal escolar e... P/1- E isso você tava em que série, nessa época? R- Sétima, por aí, sétima, oitava. Foi nessa época de 14 anos, mais ou menos. P/1- E algum professor, assim, que te marcou? R- É, a minha professora dessa época que permitia, né? Porque, sempre tem professores que ensinam muito, ou que controlam muito. Essa ao contrário, ela ensinava sim, mas muitas coisas ela deixava que acontecessem sem medo. Foi a Dulcinéia, e ela era muito ligada à arte. Então, a gente fazia também muita exposição de arte, estudávamos muito poesia, era professora de língua portuguesa, e também era quem solicitava pra gente que fizesse o jornal. Eu acho que o bom professor, além de ensinar não pode atrapalhar, né, no sentido de deixar errar. A gente errou muito, eu sei que eu também errei muito, mas a vantagem é que também aprende muito. As pessoas como naquela outra escola primária que exigia tudo muito certo, inclusive esteticamente, não dava chance nem para as pessoas errarem, nem pra elas serem diferentes, porque tudo tinha que ser num padrão. E essa outra não. Então, eu acho que eu tive a chance de fazer coisas diferentes, de conhecer pessoas diferentes e ser valorizada por aquilo que eu tinha de bom, que não era a estética e nem a habilidade de jogar a bola, porque eu sempre tive medo de bola. Mas me deixaram fazer aquilo que eu gostava, que eu queria. Então isso foi muito bom. E eu acho que essa é a missão da escola, de deixar as pessoas fazerem aquilo que elas têm habilidade, que tem afinidade, que tem dom, porque se não a autoestima, inclusive, pra qualquer outra coisa que você vá fazer na vida, acaba, né? Eu acho que se a escola conseguir fazer isso, e isso eu trago até hoje quando eu penso nas decisões, nos projetos, nas coisas que a gente tem que fazer com as escolas, é de que nem todo mundo é bom aluno em química, realmente não é, mas não tem que ser, porque a riqueza é você deixar sair das pessoas aquilo que elas tem de melhor. Tem pessoas que tiram fotografia muito bem, tem pessoas que cantam muito bem e tem pessoas que vão bem em química. Eu acho que o mundo precisa de um pouco de tudo isso, né? Então, essa rigidez muitas vezes atrapalha muito o desenvolvimento das pessoas e da escola. Então, eu penso muito nesses episódios, também de infância, quando eu penso nas crianças de hoje que são diferentes, que tem outro mundo, mas que em termos de princípio educacional, eu acho que me influenciou muito até hoje. P/1- E qual matéria que você mais gostava? R- Que eu mais gostava? Talvez biologia ou história. Não era português. P/1- [Risos] Não era português? Eu fiquei pensando que seria português. R- Seria, mas eu nunca decorei regra gramatical. Então, eu era um desastre. Só que assim, eu fazia o jornal, né? E até hoje as pessoas me pedem pra escrever coisas quando precisa. “Ai, como você escreve bem!” Gente, mas eu nem tinha caderno! Porque eu nunca gostei de decorar regra gramatical, nunca gostei de fazer análise sintática. Então, eu não sei te dizer, eu gostava da parte prática, de escrever poesia, de representar, de fazer jornal. Agora, da parte formal... P/1- As regras não. R- Não sei até hoje [risos]. P/1- [Risos] E tinha uma turma, assim, nessa época? R- Tinha, tinha, tinha sim. O grupo, né, que a gente fazia sempre os trabalhos escolares, que a gente se reunia. Tinha sim. P/1- E o que você acha, assim, depois você foi fazendo outros cursos, né, você falou que fez vestibulinho. R- Aí eu fiz ensino médio na escola estadual Fernão Dias Paes, que ficava na Pedroso de Moraes em Pinheiros, e de lá eu prestei o vestibular pra psicologia e já entrei direto no ano seguinte. P/1- O que te influenciou nessa escolha por psicologia? R- Eu sempre fui muito interessada, intrigada com as questões das pessoas, com aquilo que elas pensam, aquilo que faz com que elas sejam mais felizes, mais realizadas pessoalmente. Sempre tive curiosidade de saber como é que a pessoa tá pensando, como é a vida dela. Acho que sempre observei muito isso, então quando eu olho uma pessoa eu não sei nem qual roupa ela tá, mas eu penso como será a vida dela, como é que ela chegou nisso que ela tá. Eu fico pensando, assim, como ela resolve as suas questões profissionais, pessoais. Eu sempre me interessei muito pelo ser humano. Então, eu achei que era a profissão que eu ia me identificar mais, lidando com pessoas, pra que elas fossem mais felizes, pra elas superarem mais os seus problemas. Porque eu acho que eu também superei muita coisa na minha vida, e gostaria que todo mundo também conseguisse. Umas pessoas precisam de ajuda, outras não. E achei que eu podia ajudar algumas pessoas. Eu sempre gostei muito da parte, acho que de ajuda, de filantropia. Eu fui de grupo religioso, assim, de jovens de igreja, de ajudar pessoas, de visitar asilo, de fazer grupo de discussão com os jovens. Aliás, com 13 anos eu era catequista também da igreja. Então, eu fui sempre ligada nessa parte social, né, de querer ajudar meninos de rua. Eu sempre tive sempre alguma atividade paralela nesse sentindo social. Talvez seja isso também que levou a psicologia, né? P/1- E a formatura, você lembra? R- Da faculdade? P/1- É, vamos pra da faculdade [risos]. R- É, nunca teve... A única formatura formal mesmo, de beca, foi na faculdade... P/1- Foi na faculdade... R- … Nas outras escolas não teve esse tipo de comemoração. Então foi na faculdade, quando eu terminei, e foi muito importante pra mim. Por vários sentidos, né? Primeiro porque eu tava terminando um curso que não foi fácil, são cinco anos, e que eu precisei trabalhar o tempo todo, e muitas vezes eram sete, oito horas de aula e mais o meu trabalho. Então, nessa época eu fazia estágio na Zona Norte, estudava na faculdade que era perto do Ibirapuera, na Unip [Universidade Paulista]. Eu levava lanche, comia dentro do carro. E era assim, chegava em casa 10, 11 horas da noite. Então, foi muito sacrificado. E também no sentido de que nessa época meu pai ficou doente, precisou parar de trabalhar. E eu consegui uma bolsa de estudo, e aí eu não podia nem tirar nota baixa, tinha que tirar pelo menos a nota 7 pra poder continuar com a bolsa. Eu tinha que estudar muito, muito. Então, acho que a formatura foi também muito importante pra mim, né? Acho que foi isso. P/1- Você mantém, assim, contato ainda com alguns colegas dessa época? R- Já encontrei alguns trabalhando na área, assim, uma ou duas pessoas por acaso. Mas não tenho mais contato. P/1- E trabalhar, quando você começou a trabalhar? Você falou que já trabalhava quando estudava, né? R- É. P/1- Como foi isso? R- Quando eu estudava, especialmente no ensino médio, eu sempre busquei mais alguma coisa, nem que fosse meio período. Primeiro e segundo médio eu estudava à tarde, mas de manhã eu sempre tive uma atividade. Foram várias coisas, já fiz pesquisa de rua, dei aula em escolinha de clube de fim de semana, vendia chocolate na faculdade, enfim, acho que sempre alguma coisa, auxiliar de dentista, o que aparecia. P/1- Mas o teu primeiro emprego, assim, você lembra o seu primeiro emprego, o primeiro dia? R- Então, fiquei bastante tempo... Ah! Se eu lembro do primeiro emprego? P/1- O primeiro emprego, o primeiro dia, como é que foi, você lembra disso? R- Não sei se eu lembro, não sei nem... Eu acho que foi no... antes do Rotary, acho que foi num cursinho, na época que eu fazia o cursinho pra entrar no ensino médio, que naquela época era o segundo grau lá do Fernão Dias, que eu falei, eu conheci um cursinho que se chamava Triângulo, que era lá perto, que preparava aluno pra entrar. Lá eu já consegui o emprego de escriturária, eu digi... digitava não, não tinha computador, eu datilografava as apostilas, atendia o telefone. Então foi, eu tava no primeiro médio. Eu acho que foi o primeiro emprego. P/1- E depois? Você falou que teve vários empregos, vários estágios. R- É, depois assim, até eu chegar na faculdade, no ensino médio eu sempre fazia alguma coisa. Então tinha, por exemplo, eu sempre fui datilógrafa, eu fiz curso de datilografia na escola. Então, por exemplo, pegava envelope pra fazer mala direta na minha casa, depois devolvia. Então, eu tinha alguns serviços, assim, de datilografia também, que eu tinha a máquina na minha casa, eventualmente até fazia exercícios em outros lugares. P/1- E depois da faculdade? R- Aí na faculdade eu fiz estágios. Eu busquei primeiro acho que... Ah, teve um que eu não falei lá, o Arrastão, que era movimento de promoção humana, onde eu trabalhava com crianças da periferia de Taboão da Serra, no horário inverso ao horário escolar. Elas num período iam pra escola e no outro elas ficavam nesse lugar. E eu tinha uma turma de sete anos, mais ou menos, seis, sete anos. E a gente tinha que desenvolver atividades, dar uma refeição pra elas, né? Isso eu busquei porque eu vi no jornal uma reportagem sobre esse trabalho e achei bárbaro. Aí me candidatei a estagiária e fui fazer estágio. De lá eu fui pra Legião Brasileira de Assistência, que também fazia trabalho social em creches de periferia, só que da Zona Norte, de Santana. E lá a gente também trabalhava com as crianças diretamente, com as mães, fazia visita domiciliar,fazia toda essa parte também assistencial, de certa forma. E depois fui para o Juizado da Zona Norte, Juizado de Menores. Lá eu já estava no último ano de psicologia, então, a gente fazia, assim, entrevistas com pais, com crianças que tinham problemas, crianças que iam ser adotadas, pais que queriam adotar. E aí nesse ponto eu estava meio desconfortável, porque eu não me sentia preparada pra dar laudo nenhum, porque é uma coisa muito séria de você conversar. O trabalho era meio assim, você fazia uma entrevista de 40 minutos, uma hora e tinha que dar um parecer se o casal estava ou não apto a uma adoção. Eu falei: “Não, não dá, isso é inviável, é o destino de uma pessoa.” Ou então os vizinhos que brigavam e iam lá denunciar no Juizado e a gente que ia lá conversar com um, conversar com outro. O que que a molecada tinha feito que deu briga na vizinhança. Eu falei: “Não, eu não...” Até na época tinha concurso, eu ia fazer o concurso pra me efetivar, porque na verdade era um emprego público, né? Mas aí eu pensei melhor e não fiquei. Aí eu tava me formando, eu já tinha feito o projeto Rondon, em Alagoas. Falei, “Bom, agora me formei, dezembro, janeiro eu vou fazer o projeto Rondon de novo e aí vou ver o que eu faço da minha vida.” Porque o Juizado não tava bom, assim, eu não tava me sentindo bem. P/2- Você não conhecia a Fundação ainda? R- Não. Aí eu fui fazer o projeto Rondon, fui cair lá em Registro. Aí começa a história da Fundação. Fiquei um mês lá, porque a gente ficava um mês morando dentro da escola estadual, dormindo no chão, aquelas coisas todas. Ajudando a comunidade lá, iam várias pessoas, iam estudantes de medicina, de psicologia, de ciências sociais, médico, veterinário, enfim. E essa equipe fazia, tinha que fazer algum trabalho nesse mês para a comunidade. Aí que eu fiquei conhecendo a cidade de Registro, e tinha muito contato com a prefeitura porque constantemente eu tinha que fazer pedidos: “Olha, eu preciso de uma coisa, de outra”, pra poder desenvolver algum trabalho naquela comunidade. E a esposa do prefeito, no final do trabalho, chegou pra mim, falou assim: “Olha, nós vamos precisar de uma psicóloga aqui pra trabalhar com as escolas de Registro, você não quer ficar?” Aí entre o Juizado de Menores e trabalhar com escolas, eu falei: “Eu vou ficar.” Daí eu fiquei lá. Larguei a minha casa e fui morar pra lá, sozinha. Ela falou: “Olha, enquanto não sair o cargo de psicóloga você fica dando aula no pré, tá bom?” “Tá bom!”. Fiquei dando aula. Dei aula um mês, dois meses, três meses, quatro meses, cinco meses, seis meses [risos]. P/1- Nada [risos]. R- Passei a maior fome, né? Meus pais nunca souberam, mas salário de professor lá pra morar sozinha não dava. Tinha dia que era miojo mesmo e pronto, né? Falei: “Meu Deus, e agora, larguei lá, tô aqui dando aula, um salariozinho pequenininho, se eu voltar não adianta porque eu já perdi lá.” Bom, aí tinha uma tal de Fundação, né, que parece que tava precisando de alguém lá. Eu vou lá pra ver como é o negócio, porque aqui na prefeitura não vai dar nada. Aí fui lá e conversei com a diretora, que era a professora Iolanda, e eu acho que ela gostou de mim, fiz uma prova imensa, né? P/2- Como era essa prova, Maria Cristina? R- De conhecimentos. P/2- De conhecimentos gerais? R- É, da área pedagógica e da área educacional, porque na faculdade eu fiz especialização em psicologia educacional, eu não quis nem indústria... Na época eu podia escolher industrial, educacional ou clínica. P/2- Clínica. R- É. Eu até fiz uns estágios na clínica e tal mas eu optei pela educacional, porque eu acho que é em grupo, é na sociedade onde os problemas aparecem, não é quando a pessoa tá sozinha na sua casa, é no contato com os outros, são os outros que falam que você é feio, é bonito, é incompetente. É na sociedade. Então, é lá, é no grupo que você também reverte essa situação, e a pessoa aprende a lidar com as outras pessoas que o cercam. Geralmente é na escola que as coisas se originam, né, muitas coisas que você pensa, do que você é hoje vem desse tempo de escola. Então, eu achei que seria o campo onde eu poderia atuar melhor, nesse sentido inclusive preventivo. Porque eu acho que é na relação professor aluno que se constitui muito da personalidade da pessoa para o resto da vida. Eu falei: “Bom, é lá que eu quero.” E eu também tinha um professor muito especial, que era o professor Sérgio Leite, que é hoje da... ele era na época da Faculdade Mogi das Cruzes e hoje ele deve tá na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas]. E ele era apaixonado pela psicologia educacional, e eu acho que quando um professor é apaixonado pelo que faz ele transmite isso pras pessoas. E o grupo, nosso grupo que estudava com ele ficou igualmente apaixonado por isso, então eu optei por isso. E a diretora Iolanda achou que eu tinha perfil para ser orientadora educacional. E o processo demorou um pouco, porque eu não tinha formação pedagógica. Aí eu acho que o centro educacional relutou um pouco na minha contratação, talvez tenha demorado mais de cinco, seis meses, isso foi em novembro do ano anterior. E só em março, 22 de março, é que saiu a minha contratação do ano seguinte, que foi em 1982, né? Eu me candidatei em 1981. Aí eu entrei na Fundação como orientadora educacional. P/1- Você antes não conhecia a Fundação? R- Não conhecia. P/1- Quando você entrou, qual foi a tua primeira impressão da Fundação, quando você começou? R- Olha, pelo menos assim, o que diziam da escola na cidade é que era uma escola muito organizada, muito boa, de muita qualidade. Inclusive tinha uma moça que morava num pensionato, ela era professora de ciências, ela: “Eu não vou fazer prova lá não, porque lá, nossa, você precisa ser muito bom e eu não me sinto preparada, porque lá só os melhores professores entram." Então, eu tinha uma ideia, assim, de que era, e de fato era a melhor escola da cidade. Então, era uma responsabilidade muito grande, mas eu tinha muito orgulho de ter conseguido passar nessa prova, porque era a melhor escola da cidade, como eu acho que hoje ainda é. Eu me sentia assim muito orgulhosa, mas com o peso de uma responsabilidade muito grande porque eu tinha que dar conta de tentar ser melhor também, né? E com aqueles professores, eu entrei como orientadora numa escola que talvez tivessem professores que esperavam uma promoção. E lá, uma cidade pequena, as pessoas também esperavam que ocupasse o cargo alguém da cidade e não alguém de fora, porque eu era uma estrangeira lá. Então, eu tinha que também lidar com essa dificuldade, assim, de às vezes de relacionamento de umas pessoas que “Puxa, você veio de fora, nem conhece a cidade, nem conhece os professores, você é nova.” Porque tinham professores lá de 40, 50 anos e eu lá com os meus 22, 23, né? “O que que ela vem falar pra mim o que eu tenho que ensinar, quem é ela, que acabou de sair da faculdade e vem aqui ensinar coisas pra gente que já dá aula há 20 anos.” P/1- Realmente uma responsabilidade e tanto, né? R- É, é verdade, mas... P/1- E aí, como é que foi esse começo? R- É, esse começo teve essa dificuldade, mas como a diretora me apoiava muito, porque ela acreditava em mim e no meu trabalho, eu tive esse espaço pra trabalhar e tentar superar essas dificuldades de talvez, eu não sei se é ciúmes, essa coisa de gente nova que entra num grupo. Então, eu acho que consegui superar porque tive um apoio irrestrito da direção da escola. Porque senão seria muito difícil mesmo. P/2- Eram muitos alunos? R- Mil alunos. Eu ficava com sétima, oitava e ensino médio, eu trabalhava tarde e noite, e eram os alunos maiores, né? Mas com eles eu nunca tive dificuldade. Absolutamente, muito pelo contrário, eu sempre me dei muito bem com todos os alunos, nunca deram trabalho, assim, no sentido de conflito comigo, jamais. Acho que a maior dificuldade era com os profissionais que já atuavam há algum tempo. Mas também, depois todos eles, tem alguns, assim, que aliás tem um que tá lá até hoje. Mas não tive problema posterior. Mas esse início não foi fácil. P/1- E aí, como é que foi? R- Até pra eu entender trabalho mais especificamente pedagógico, porque eu não tinha essa formação. Aí quando eu entrei na Fundação que eu fui, lá tinha faculdade de pedagogia, aí que eu fui fazer pedagogia. P/1- Lá em Registro mesmo? R- É. P/1- E aí você ficou quanto tempo lá? R- Três anos, aí eu inclusive consegui concluir a complementação pedagógica, porque muitas matérias pedagógicas eu já tinha feito em psicologia educacional. Então, fiz as restantes, e aí que eu fui entender um pouco melhor. Eu não tinha essa experiência, só tinha a de dar aula, mas não de coordenar um currículo exatamente, a não ser na parte teórica, mas na prática não tinha. Então, foi bastante difícil mas era muito gostoso ao mesmo tempo, porque o ambiente da escola era muito agradável, era muito bom, eu me sentia muito à vontade. Aquelas coisas de aluno, de movimento, de fazer coisas, de jogos, de atividades, né? É um ambiente muito efervescente, digamos assim, sempre tem problemas mas sempre tem coisas muito animadoras, motivantes, porque criança tá lá, o tempo todo alegre, brincando, pulando, não tem chuva, não tem sol. Então sempre tem essa vida, né? E essa vida não é do prédio escolar, é da criançada que todo dia você olha, ou um dia que você tá mais triste vem uma e te dá um abraço, dá um beijo e te fala uma coisa bonita, e aí você levanta. Então, era muito gostoso tá na escola. Eu acho que isso me fez superar tanto a ausência da minha família, porque eu estava sozinha e isso era muito duro, quanto a essas dificuldades iniciais de adaptação a uma nova cidade. Uma cidade com poucos recursos, lá nunca teve biblioteca, não tem cinema, não tem teatro, não tem nada. Uma cidade muito precária, não tem um comércio bom, agora já melhorou mas na época era muito ruim. Enchente, peguei duas enchentes que eu não pude chegar onde eu morava, tive que dormir fora na casa de uma amiga. Então, você chegar às 11 da noite e não poder chegar em casa porque tá passando barco, né, pegar só um cobertor e bater na porta do vizinho, assim, não é muito bom. P/2- E sozinha, né? R- E sozinha. P/1- Mas aí a tua situação financeira melhorou, né? R- Melhorou, melhorou, com certeza. P/1- Pelo que a gente sabe a Fundação é, assim, outras pessoas já falaram que comparativo com outras, principalmente professores, é... R- Nossa, foi um alívio. P/1- É bem melhor. R- Nossa, acho que do salário que eu ganhava pro que eu fui na Fundação foi realmente um alívio. Acho que não consegui só sair da pensão, mas comer melhor eu consegui [risos]. P/1- [Risos] R- E comprar o meu carrinho, e melhorar mesmo a situação. Acho que também foi muito positivo isso, muito. P/1- Aí você ficou três anos lá, e aí? R- Aí eu fiquei três anos e sempre ia gente, assim, da matriz lá pra fazer a supervisão, pra ver as dificuldades. Então, acho que tinha duas pessoas que iam sempre lá que eram coordenadores aqui do centro educacional, que era o Abel e o Nicolau. Abel era o Abelardo, e o Nicolau [toque de celular]. E agora? P/1- Quer atender? R- Dá licença. P/1- Você estava nos contando, então, quando você estava lá em Registro tinham duas pessoas, não é? R- Isso, que visitavam sempre lá, né? Que era o Abelardo, que era o Abel, e o Nicolau, que davam uma assistência, uma supervisão. E eu acho que eles souberam que eu estava lá, mas eu tinha o objetivo de um dia, né, vir pra São Paulo, porque ficar lá sozinha também não era muito fácil, e eu acho que tinha passado por aquelas enchentes e tal. Não que eu não gostasse da escola, eu amava a escola, mas eu tinha esse objetivo. Então, eu acho que foi quando surgiu essa oportunidade. A Fundação, em 1985, fez um convênio com a Fundação Roberto Marinho pra produzir o novo Telecurso segundo grau, e porque produziu queria também implantar nas suas escolas, só que eles estavam buscando uma pessoa pra implantar esse projeto que tinha que partir do zero, e acho que eles lembraram de mim, né? Foi aí que eu saí da escola e vim pra... P/1- Você veio pra São Paulo... R- Em 1985 eu vim pro centro educacional pra esse trabalho. P/1- Pra implantar. R- Pra implantar. P/1- O Telecurso nas escolas, é isso? R- É, nas escolas. Então eu tinha que fazer um teleposto na Cidade de Deus e em todas as escolas da Fundação. Só que assim, ninguém sabia de onde começava, né, ninguém. Eu lembro que na época eu conversei um pouco com, era o Sr. João Carielo, que queria muito implantar esse projeto de suplência, o Sr. Monteiro que era o superintendente e o meu chefe que era o Abel. Mas ninguém sabia, assim, exatamente por onde tinha que começar pra fazer isso, porque a escola de Campinas e de Osasco já tinha experiência com o supletivo, mas presencial, à distância ninguém nunca tinha feito. Até porque a gente nem tinha nas escolas um espaço previsto pra fazer esse curso. Então, onde que a gente começou? Dentro de cozinhas, assim, porque a gente tinha um ambiente que a gente dava aula de educação para o lar, para as meninas, e os meninos tinham práticas industriais. P/1 e P/2- Artes industriais. R- Artes industriais. Então, essa cozinha que não era usada, que dava banho em nenê, aquelas coisas todas, era lá que eu tinha que juntar, pelo menos, meia dúzia, porque não cabia mais que meia dúzia, botar uma televisão e fazer funcionar porque não tinha mais espaço físico pra essa atividade. Era uma atividade que nem sei, assim, se pretendiam que chegasse onde chegou. Era tudo muito precário, no improviso. E também esse acompanhamento junto à Roberto Marinho também era muito complicado, porque a gente não entendia de televisão, a gente não entendia de tele-educação, de roteiros. Então, vinham os roteiros também, além da implantação a gente também tinha que acompanhar os roteiros de aula, os roteiros de televisão, e eu entendia muito menos, o que eu tinha lá de conhecimento era o da prática de orientador da escola. Mas era um desafio que todos nós resolvemos assumir, que ninguém sabia de nada, que a gente ia partir do zero. P/1- E aí, como é que foi? P/2- As dificuldades do processo. R- É. Então, eu acompanhei um pouco da produção com o pessoal da Roberto Marinho, que também não era muito fácil, porque eles também não gostavam muito, acho que assim, de uma interferência de alguém que na verdade tava financiando. Às vezes a gente fazia observações nas aulas, e é claro que autores e o pessoal que tinha mais prática no assunto não gostava muito. Mas com um certo jogo de cintura a gente acompanhou a produção de um lado. Do outro, eu tinha que implantar telepostos, ou seja, dizer pras escolas como que elas tinham que reunir os alunos, apresentar os programas de TV, o material impresso, o que tinha que fazer esse monitor, porque a gente tinha um monitor em sala de aula, que não era um professor, pra acompanhar o estudo dos alunos, era um orientador de aprendizagem. Eu tinha que dizer pras escolas como é que tinha que fazer isso. E também ter um teleposto lá dentro da Cidade de Deus, até pra eu ter aquela prática de saber como fazia, né? Só que eu tinha que orientar uma coisa que eu também não sabia. Então precisou de um pouco de estudo, pesquisa, ter aquele meu teleposto lá, como o meu laboratório. Aí eu contratei uma monitora orientadora da aprendizagem que era a Cleide, que também não sabia, ela falou: “Olha, eu não sei o que eu faço com a classe.” “Mas eu também não. Então vamos, né, vamos tentar ver o que a gente pode fazer com os princípios de psicologia e de pedagogia que a gente conhece.” Ela tinha feito letras, ela também tinha alguma experiência acadêmica, e eu falei: “Vamos ver o que a gente faz.” E a gente foi, digamos, descobrindo esta tecnologia. Como é que deveria agir um monitor, a gente fazia encontros de monitores, começou fazer manuais, como é que melhor funcionava. Porque os resultados até então eram muitos ruins, era uma aprovação de 17% enquanto curso livre. As poucas experiências de teleposto fechado, assim, de reunir alunos inclusive na própria Roberto Marinho não tinham dado certo, tinham dado uma evasão de 80% mais ou menos. Então não existiam experiências bem sucedidas e não tinha autorização do Conselho do Estado e da Educação pra fazer prova e certificar. Então a gente tinha que funcionar no inicio como curso preparatório. E eu tinha esse desafio também de conseguir essa autorização do Telecurso, de um curso que não tinha credibilidade, nem metodológica, nem de conteúdo, e nem tinha bons resultados até então, tão bons resultados pra poder comprovar que podia funcionar. Mas foram, eu acho que foram dois anos, um ano e meio de luta e de processo junto ao Conselho Estadual de Educação. Em 1986, nós conseguimos inclusive pra certificar a prova e certificar o nosso aluno, aí começou a ganhar um pouco mais de corpo e credibilidade. Mas todo este contato com o Conselho Estadual da Educação, este contato político ficava tudo por minha conta, né? Eu acho que assim, nessa época do Telecurso também, como tava todo mundo começando, eu lembrei muito da época do jornal que também ninguém sabia muito bem o que fazer, então, ótimo a gente fazer o que der assim na cabeça, tem coisa que dava muito certo, mas tem coisa que dava muito errado, mas também quando dava errado tava tudo bem, entendeu, porque a gente corria o risco junto, né? Então às vezes o Nicolau: “Não, faz como você acha melhor,” “Ótimo, então, deixa eu fazer.” Então essa coisa de errar também não foi tão forte. Então, a gente pode também acertar, porque era inevitável errar muito, né, inevitável. Isso não era visto pela minha chefia, pelas pessoas, como algo tão ruim a ponto de... Muitas vezes eu pensei: “Eu vou ser demitida agora,” eu não ia, eu não fui, né? Então, acho que eles viam como uma coisa que fazia parte do processo. P?- Era uma coisa nova, né? Que todo mundo tava compreendendo junto. R- Por ser uma coisa nova. Então, isso foi muito positivo, né? E de legislação eu não entendia de legislação, de suplência, nada. Então eu tive que estudar e aprender, né, isso foi acho muito bom. Então no final das contas a gente que funcionava numa sala emprestada, que o Marcos que dava curso de datilografia, ele me emprestava uma sala, eu tirava as máquinas e dava aula naquela sala [risos]. Aí ganhou uma sala numa casa aqui na Cidade de Deus, depois ganhou, mudamos aqui pro prédio do Cristo onde ganhou várias salas. E aí a gente foi crescendo, né? Aí tivemos a ideia de implantar em empresas, além de que já tínhamos implantados em todas as escolas. E agora, se a gente implantar em empresa, porque a pessoa às vezes não pode sair do trabalho e até lá cansa, pega ônibus e tal. E aí tivemos esta ideia. Só que eu tinha que arranjar uma empresa que quisesse. Também não foi muito fácil. Porque, embora a Fundação pagasse tudo, e se não pagasse tudo aí que não queria mesmo, né? Ainda não era um curso, sendo à distância, com muita credibilidade. Então as empresas eram muito céticas quanto a isso. Até que eu achei a Mercedes Benz, lá em São Bernardo do Campo, que resolveu apostar. Foi a primeira empresa que nós conseguimos implantar um teleposto. E como as pessoas acreditavam no nosso trabalho na Fundação, e eles também tinham um setor de treinamento muito forte, lá eles sempre investiram muito em capacitação de pessoas. Aí foi um teleposto que deu muito certo, muito. E aí animou as outras, aí veio a Metal Leves, que também era de São Bernardo do Campo, a Santa Marina, enfim. Aí até, quando eu deixei o Telecurso tinham 55 empresas conveniadas além das escolas. Então, foi uma coisa que foi crescendo aos poucos, que a gente foi dominando a metodologia, melhor forma de fazer avaliação, de fazer treinamento de monitores, de fazer alguns projetos com os alunos. Foi tudo sendo muito construído na prática, não existia nenhuma referência que a gente pudesse ter quanto a esse trabalho. Eu acho que depois de 14 anos ele ficou num estágio, assim, considerável, acredito. P/1- 14 anos vocês levaram pra concluir o processo. R- Não, não é que levaram... P/1- Tudo. R- ...14 anos. Eu fiquei 14 anos. P/1- Ah você ficou 14 anos, então. R- No Telecurso. P/1- Esse projeto do Telecurso se expandiu pras outras unidades... R- Todas. P/2- Todas. P/1- _______, para outros estados, todas? R- Da Fundação, todas. P/2- Da Fundação todas? R- Todas P/2- E ele acabou gerando o canal Futura? R- Não. P/2- Ele teve algum processo? R- Não, nada haver. Nada. Não. P/2- O senhor João é que comentou e falou: “Eu não sei se o canal Futura é da Fundação Roberto Marinho ou __________.” R- É porque ambos os projetos... O canal Futura e assim como o Telecurso, e depois eles fizeram o Telecurso 2000, que foi financiado por outra empresa, foi a da Fiesp. Eles são projetos da Fundação Roberto Marinho e ambos tão ligados a educação, né? Mas eu acho que o primeiro investimento da Fundação em meios alternativos, especialmente em comunicação, em educação, foi o Telecurso, e depois a Fundação agora, apoiou também e apoia até hoje o canal Futura. P/2- O canal Futura, tá! R- Acho o que tem em comum é que ambos utilizam a comunicação enquanto veículo de educação. P/2- De educação! R- Só que cada um de um jeito. O canal Futura, eles fazem programa e até aí, a gente usa e eu uso também na educação básica os programas como material de estudo para os alunos, mas ele não é o principal material, como é Telecurso. Aí no caso o Telecurso vídeo e o livro são os principais meios de transmissão do conhecimento, são os principais. Não é o caso do canal Futura, que a gente usa como complemento, né? P/2- Certo R- No caso do Telecurso, o monitor funciona como orientador de aprendizagem e não como professor. O ensino é dado à distância com o livro e com fitas de programas televisivos. P/1- E você tem, assim, você sabe como tá hoje? Continua bem? R- Continua. Tá com o Antônio Carlos, esteve aqui, né? A gente em 1999, com departamentalização, a diretoria fez quase que um rodízio de tarefas. O Antônio Carlos, que tinha departamento pessoal, passou pro Jefferson, e aí ficou com educação de jovens e adultos, que tava comigo, e eu fiquei com a educação básica. Então... P/1- Foi aí que você saiu dessa área? R- Saí da área, e continua muito bem, assim, até foi ampliado quantitativamente, qualitativamente, porque a Fundação como Banco também tem um pouco disso. Acho que você consegue criar até um determinado limite, você cria até um vínculo afetivo que você nem consegue mais modificar, criar ou ver defeitos, né, ou dá aquele que às vezes precisa. Esse rodízio, essa mudança de gerência é muito interessante, porque é claro que ele viu coisas e fez coisas que talvez eu não visse. Então foi muito interessante essa passagem e continua crescendo a educação de jovens e adultos. P/1- E aí quando você passou pra essa nova fase aí, essa nova gerência que você tá hoje, né? R- É P/1- Como foi assim? R- Então, a educação básica... P/1- Como está sendo? R- Isso. Então acho que assim, foi novo em termos, porque eu já tinha sido professora orientadora pedagógica e já tinha uma certa experiência com a educação básica, mas não gerenciando e não com 40 escolas, né? P/2- Foi diferente. R- Foi uma coisa nova, um desafio muito grande com uma estrutura toda pra organizar, pra gerenciar uma área que é bastante desafiadora, bastante difícil. Porque é a área onde as crianças ficam mais tempo na escola. Porque o supletivo ficava duas horas, uma hora, e são adultos, já com outras responsabilidades. As crianças ficam 4 horas, tem a questão da saúde, da merenda escolar, de toda a educação de valores, que muitas vezes, pro adulto é um pouco mais tranqüilo. Então, eu acho que elas ficam mais tempo, o investimento da Fundação é maior com elas, porque é o segmento que mais, evidentemente, dá despesa. E a responsabilidade de você pegar uma criança pequena num ambiente bastante diferente daquilo que ela vai encontrar na escola em todos os sentidos, tanto físico quanto material e quanto a valores, muitas vezes é muito diferente. Esse começo dessa criança que vai saber o que é escola, e o que que a Fundação quer que ela seja quando ela crescer, não em termo de profissão, mas em termos de cidadania, de responsabilidade, de trabalho, de honestidade, né? Então quando ela tá entrando e tá entendendo o que se quer dela lá, é bastante complexo esse processo. E também acho que gerenciar à distância 40 escolas, quase 50 mil alunos, e toda a equipe do centro educacional que trabalha nisso e que tem que entender como que isso vai chegar na escola. Porque às vezes a gente pensa em coisas muito eficientes teoricamente, mas quando chega na escola é diferente, é aquele que naquele dia a dia, naquele calor de 40 graus com crianças que brigam às vezes na sala de aula, que você tem que ensinar a convivência, enfim, é uma outra coisa. P/2- A realidade, né? R- É. E que muitas vezes o professor precisa de outros subsídios pra compreender aquilo que você tá propondo, e precisam de outros momentos de formação anteriores àqueles pra poder compreender. Agora mesmo a gente tá implantando referenciais curriculares. E tudo é muito, todo o processo naturalmente é muito lento, não é porque as pessoas são muito lentas, não é isso. É porque todo o processo educacional tem um tempo pra ele se concretizar. É bastante difícil às vezes a gente se habilitar, porque a gente quer transformar as coisas imediatamente, quer resultados imediatos. E assim como com a criança, não é imediato o resultado, qualquer implantação, qualquer melhoria que a gente faz, por exemplo, curricular e com o professor, demora um tempo. Demora de maturação, de compreensão, de aceitação, é bastante, digamos complexo, mas acho que a gente tem conseguido, sim. A Fundação sempre buscou muito essa melhoria constante. Desde que eu entrei na Fundação que as coisas têm evoluído. A Fundação é muito diferente daquela que eu entrei em vários sentidos, pedagogicamente, então, nem se compare, é muito diferente, principalmente... P/2- Pra melhor. R- Pra melhor. Principalmente quando a Dona Denise assumiu com toda uma visão muito mais atual, pedagógica. Fez uma certa revolução. Também acredito que ela tenha sentido isso, que era tudo muito tradicional. Claro que sempre com a melhor das intenções, mas não existia uma linha, digamos, pedagógica. Sempre estava como prioridade a parte organizacional da escola, tudo muito em ordem, tudo muito limpo. Mas os professores, na verdade com muita responsabilidade, evidentemente, e com muita eficiência, mas faziam aquilo que eles podiam. Não existia uma orientação enquanto rede. Então, é isso que a gente precisava fazer. O desafio da Dona Denise, da nossa equipe, é ter uma característica pedagógica de rede que fosse possível de ser implantada sem descaracterizar as necessidades e as competências dos professores, dos orientadores de cada local, absolutamente, mas tem que ter uma cara de rede. Porque senão, como é que a Fundação encara... P/2- Tem que ter característica ______. R- Né? Ser humano, que ser humano quer formar ou como ensina, com qual material, como é que é a formação dos professores. Tem que ter uma certa coerência com a filosofia de ensino. Não existia um marco curricular. Que também a Dona Ana Luiza, sempre como, ela veio da direção da escola de Campinas, que junto com a Dona Denise sempre lutou muito por ter uma característica, pela Fundação ter uma cara pedagógica, além de ser muito bem estruturada organizacionalmente. Que o que iria marcar mais a Fundação seria a sua eficiência de ensino e não só a sua boa gestão financeira e de organização da escola. Então, acho que essas duas pessoas, Ana Luiza e Dona Denise, particularmente, elas sempre apoiaram muito toda a equipe nesse sentido. A gente tem tido muito espaço também pra fazer essas melhorias, até porque elas são pessoas muito ligadas ao ramo e com muita prática de escola. Então, ao mesmo tempo em que é um desafio, também existe muito apoio da direção da Fundação pra essa melhoria constante. P/2- E essa, todo esse modelo de gerência, e de estudo de metodologia da educação fortalece uma base na Fundação. A Fundação tem uma base educacional muito sólida e muito característica até. R- Isso. P/2- Ao que nos parece, né? Então, existe todo um trabalho em torno disso, pra que se mantenha isso, pra que ela tenha qualidade final que ela tem na educação. R- Exatamente. A gente investe muito na capacitação das pessoas. Acho que o que não muda... P/2- Existe um trabalho árduo em torno disso. R- O que nunca mudou na Fundação, desde que eu entrei, é o que o Sr. Amador Aguiar desejava muito que acontecesse nas escolas e hoje ainda acontece, que é a formação de valores, né? Das pessoas buscarem os seus objetivos pelo trabalho, de serem éticas, de terem comportamento moral, irrepreensível. Acho que o grande orgulho dele era falar: “Olha, os nossos alunos, quando vão pro mercado de trabalho ou pra vida, qualquer pessoa pode confiar neles, porque eles são pessoas formadas com valores.” E isso nunca morreu, continua vivo. Aliás, acho que isso é inegociável. Agora, toda a questão pedagógica mudou radicalmente. P/2- E sempre acompanharam isso, fortalecendo... R- Os novos estudos, a atualidade, né? É claro que a gente não fica comprando modismo. Nem, “Ah saiu uma nova teoria, vamos adotá-la.” Não é assim. Então, é sempre com muita cautela, muito cuidado, mas sempre incorporando os novos estudos, as novas tendências, que estão aí e que precisam ser incorporadas para um ensino mais eficiente, menos tradicional. P/1- Cristina, vamos dar uma paradinha pra trocar... (troca de fita) P/1- E ao longo da sua trajetória. Quais você acha que foram os maiores desafios que você teve que enfrentar? R- Acho que foram esses momentos de mudança. Acho que quando eu entrei primeiro na escola de Registro, como eu falei. De tá num ambiente novo, de tá num trabalho novo, de tá numa área que eu tava começando. O Telecurso foi um grande desafio, acho que eu tive momentos até em que eu quase desisti. Mas aí então, acho que teve um... Aquele texto que eu dei pra vocês dois, eu lembrava da mensagem ao Garcia, “Meu deus do céu, eu tô no meio da montanha eu tenho que levar. Esse negócio tem que dá certo, né?” Não é possível, porque a gente tem meio na cultura, acho que deve ser também da empresa da Fundação que tudo tem que dar certo se não deu certo é porque, né, ainda não acabou. Porque ainda tá em processo... P/1- Não é a hora... R- Não é a hora. Então teve momentos muito difíceis mesmo, de desafio. Mas depois foi fluindo e foi indo e acabou dando certo. Eu acho que quando eu peguei esta responsabilidade que me foi atribuída da educação básica também foi um momento, não sei se difícil, mas além de difícil aliás, foi muito animador. Não é difícil no sentido de desanimar não, de forma alguma, né, acho que foi uma grande alegria... P/1- Desafio, né? R- É! Mas ao mesmo tempo um desafio imenso. Porque acho que a expectativa das pessoas em relação a esse trabalho e da própria sociedade, acho que enquanto a Fundação espera que se mostre um trabalho que já tenha tradição. Acho que quando eu peguei já tinha um conceito de educação e que ele tinha que ser dali pra melhor. Sempre, nunca regredir. Então, acho que esses foram os momentos assim, mais desafiadores ou mais difíceis. P/1- E assim no seu relacionamento com seus colegas de trabalho, tem alguém assim mais especial, você queira contar pra nós? R- Acho que já tive muitas pessoas especiais, muitas, né? Eu acho que desde que eu entrei, acho que ter sido aceita, por exemplo, pela diretora sem ter exatamente a formação pedagógica e dela apostar no meu trabalho, acho que foi essa pessoa foi muito importante. Depois a equipe que tava aqui quando me trouxe pra São Paulo pra implantar este trabalho, que foi senhor João Carielo, senhor Monteiro, o Nicolau e o Abel, acho que foram pessoas também que sempre deram muito apoio pra aquilo que eu fazia. Tanto que com o Abel eu tenho contato até hoje, a gente troca e-mails. Até hoje. Senhor João até pouco tempo, até o começo desse ano a gente tinha contato com os demais não, não tenho muito contato. E hoje, assim, toda equipe que eu trabalho eu tenho muita afinidade. Mas acho que a Dona Denise e a Dona Ana, acho que são as pessoas que eu mais tenho contato e que estão no meu cotidiano. P/1- E algum caso pitoresco, assim, que aconteceu que você queira nos contar? R- Ai, pitoresco? P/1- Não lembra? R- Não lembro no momento, viu. Não, mas assim, já aconteceram muitas coisas de solução de problemas, por exemplo. Quando a gente foi implantar teleposto. Hoje as empresas compram o livro, mas naquela época se você não comprasse o livro, se não desse tudo, eles nem queriam saber, né? Aí a gente comprava o livro e tudo. A gente tinha que começar a aula naquele dia, e a gente que tinha que levar os livros, e não tinha como mandar porque a editora Globo tinha atrasado os livros, e não tinha como levar pra começar naquele dia. Só que era um compromisso nosso com a empresa, que naquela época era Varga de Freio, lá em Limeira. E aí eu peguei o fotógrafo Clodoir [risos], que é o fotógrafo hoje do Marketing... P/1- Sim, conhecemos. R- Ele trabalhava na Fundação: “Clodoir, a aula tem que começar hoje.” Aí pedi pra chefia dele liberar ele. Ele tinha uma caminhonete. Aquela caminhonete eu nem sei de quem era, eu sei que ele pegou emprestada. Nós pusemos os livros na caçamba, chovendo, cobrimos os livros e fomos pra Limeira [risos], com aquela caminhonete, e começamos a aula naquele dia de fato. Falei: "Gente, isso que é levar mensagem ao Garcia, pelo amor [risos].” P/2- Mas isso... R- O Clodoir não acreditava no que tava...o fotógrafo dirigindo a caminhonete, nós dois na estrada no meio da chuva... P/2- Mas deu certo... R- Com livro na caçamba, né? Então acho que assim foi um dos episódios... P/2- E aconteceu certo... R- Aconteceu, a aula começou naquele dia, porque... P/1- Deu tudo certinho... R- ... ia pegar mal, né? Você faz convênio com uma empresa depois não começa. P/2- Tinha que resolver. R- Acho que também, quando eu vim pra cá tentar falar com as escolas, era muito difícil. Então Canoanã, por exemplo, a gente falava com rádio amador e aí caía e tinha interferência e você não conseguia concluir a frase, e era uma das escolas que eu também tinha que trabalhar. Aquela falta de comunicação era muito complicada pra gente. P/2- E tem algum caso de transformação de vida que você tenha presenciado que te marcou? R- Ah, muitas. Acho que muitos profissionais que trabalharam comigo naquela época, por exemplo, entraram como monitores do Telecurso, hoje já são até diretores de escolas. Ou então de alunos também, nós temos um diretor regional que foi aluno nosso. Então foi muito interessante isso. Ou então, também um aluno de Registro que chegou a trabalhar no Banco foi até pra Nova York. Depois ele ficou doente, infelizmente teve que se afastar, mas ele chegou a fazer uma carreira muito bonita na Fundação, e era um aluno problema, né? Que toda hora tava na minha sala. Então, ele ter feito essa carreira no Banco foi muito bom, foi muito bonito. Hoje o filho dele estuda na escola de Registro, e o sonho do filho dele é conhecer a Cidade de Deus. Então são coisas que você vê que ficam na história das pessoas. P/1- Com certeza! Você é casada, como é o nome do seu marido? R- Mauricio. P/1- E como você conheceu o seu marido? R- Então, como eu te falei, quando eu era jovem, eu pertencia a grupos de jovens da igreja que eu frequentava, que era da Vila Madalena. Mas esse grupo também fazia alguns encontros em outras paróquias, no caso foi fazer um encontro de líderes de grupo de jovens, que foi na igreja São Luís, lá na Avenida Paulista e ele também foi fazer esse encontro. Aí nós encontramos, olha só [risos]. P/2- Se encontraram no encontro [risos]. R- No encontro. Mas eu nem lembrava dele, porque era um monte de gente. A gente ficava num sítio, numa fazenda, só ouvindo palestra o dia inteiro. Claro que meninas separadas de meninos e se encontravam na hora da refeição, do café da manhã e tal. Eu nem lembrava dele, mas todo Natal eu pegava a lista daqueles que tinham feito encontro comigo e mandava cartão de Natal, e um dia ele resolveu escrever pra mim, quem eu era? Porque ele não lembrava de mim e nem eu dele, era meio virtual, né... P/1 e P/2- [Risos] R- ... Aí começamos a trocar telefonemas, daí eu o conheci pessoalmente e tivemos amizade durante muitos anos. Até que um dia a gente resolveu namorar, mas 15 anos depois a gente... P/1- Puxa vida [risos]. R- De amizade [risos]. P/2- Depois de muito tempo, né? R- É! De eu chorar no ombro dele e ele chorar no meu [risos]. Acho que amor é um pouco amizade, né? Essa coisa de companheirismo e tal. Então, a gente resolveu namorar, acho que foi mais ou menos isso, mas não tem nada a ver com o Bradesco. P/1- E o casamento como foi? R- Como assim como foi? P/1- É assim, vocês casaram logo demorou, o que você quiser contar? R- Então, aí a gente namorou um tempo, mas não muito, porque a gente já se conhecia muito tempo. P/1- Ah, sim! R- Então, também teve muitas coisas, a gente namorou, depois desmanchou, depois namorou de novo e lalala. E a última vez então, “Bom, a gente tem que resolver a vida”. Acho que foi em setembro, outubro, e maio do ano seguinte resolvemos casar mesmo. P/1- Que ano foi? R- 1980. E a gente fez um casamento formal mesmo, eu queria mesmo, a igreja e tal, aquelas coisas, né? Então a gente casou em 1980... P/1- E você falou que não tem nada a ver com o Banco, né? R- Não, não. P/1- O que que ele faz? R- Ele sempre trabalhou principalmente na área de construção e de representação de vendas. Não tinha a ver com o Bradesco. P/1- E filhos? R- Tenho uma menina. Nasceu em 1991, outubro de 1991. P/1- Como é o nome dela? R- Paula. Acho que ela foi, assim, o grande acontecimento da minha vida, porque eu sempre quis ter filhos. Aliás, talvez eu quisesse ter muito mais, mas tem hora que você tem que optar também um pouco, né? De dar conta de tudo, de vida profissional e particular. Então resolvi ter só ela mesmo, mas acho que foi um momento muito especial ter a Paula. E ela é uma pessoa muito especial pra mim até hoje, acho que acima de qualquer coisa minha vida gira muito em torno da vida dela, da felicidade dela. P/2- Ela é aluna da Fundação? R- Ela é aluna da Fundação. Ela tá na 7° série, ela tá desde a educação infantil aqui na Fundação. P/1- E o teu lado de mãe de aluna, como você vê a Fundação, assim, tirando a sua parte, né? R- Eu tento separar as coisas, porque como qualquer escola, e como qualquer aluno, existem coisas a serem resolvidas, melhorias a serem feitas. Então ,eu tento separar aquilo que... É claro que eu tenho que olhar aquilo que a gente espera enquanto escola, mas eu tento o máximo que eu posso, se bem que é muito difícil separar como mãe, não como gerente do centro educacional, porque daí eu vou na escola e eu tenho que ver as coisas mesmo, né?. E quando acontece alguma coisa com ela, eu tenho que ver até que ponto aquilo é algo que dá pra generalizar que tá acontecendo com todo mundo ou é uma coisa particular dela, porque eu não posso tomar medidas baseadas nas coisas que acontecem com ela, né? Então isto é muito delicado, até porque eu não quero que vejam ela como uma pessoa diferente, ela tem que ser igual. Se ela faz alguma coisa errada, eu tenho que ser chamada e tenho que sentar lá pra ouvir a orientadora, e ouço. Eu vou na reunião de pais e ouço as orientações. Ela é punida da mesma forma se ela fez alguma coisa errada. Então, eu tenho que tentar separar o máximo. Mas é claro que acontecem coisas que eu vejo que são coisas gerais, procuro abordar com a escola dessa forma. Eu acho que esse é um desafio de eu, mesmo sabendo que tem coisa a melhorar, de eu ter a minha filha e lutar também pela essa melhoria, porque acho que é uma prova do meu próprio trabalho, é a certificação de qualidade do meu trabalho, porque uma escola que não serve pra minha filha não vai servir pra filho de ninguém. Eu tenho isso como princípio, se ela não serve pra minha, por que que serve pra dos outros? Então, eu sempre penso nisso quando eu penso em padrão de qualidade. Ela tem que ser boa pra todo mundo, pra criança que veio da favela, que tá no morro do Rio de Janeiro, que é filho de traficante, ela tem que ser tão boa quanto ela é pra minha filha, porque eu quero que essa outra criança tenha as mesmas oportunidades que ela tem, e ela também não é mais do que ninguém, né? Ela não é diferente nesse sentido de privilégios, tá? Então... P/2- A adaptação de alunos, deve haver um ou outro problema de adaptação, um ou outro aluno que leve mais a mãe pra escola, como é tratado esse assunto? Como é o relacionamento dos pais com a escola, e da Fundação com esses alunos que porventura passam a ter problemas de adaptação na escola da Fundação? R- A Fundação acompanha sistematicamente tanto a frequência do aluno quanto as ocorrências. Então nós enquanto pais tomamos conhecimento de todas as ocorrências, mesmo não tendo reunião, vai uma folha pra casa dizendo o que aconteceu, desde se deixou de levar algum livro, que devia ter levado, até assim. Agora, quando é uma ocorrência mais grave, convoca os pais, eles tem que tá discutindo junto com a escola: o que que aconteceu? Por que aconteceu? Que medidas vamos tomar? É uma coisa muito conjunta, né? Se tá faltando, por que que tá faltando? A escola liga pra casa do aluno que que tá acontecendo? Mesmo, eu acho que, um compromisso maior do que o muro da escola, se a gente vê algum aluno na rua ou numa outra situação não muito adequada, a gente tem essa obrigação de comunicar os pais e de trabalhar com esse problema. Então acho que é uma coisa muito assim, um acompanhamento muito de perto. P/2- Como é feito esse trabalho de acompanhamento e de gerenciamento à distância nas 40 escolas espalhadas no Brasil todo, como é feito essas gerências? Há um contato com as escolas? R- Existe. Nós temos lá um centro educacional, além do setor de supervisão que viaja e traz pra nós várias informações. Eu tenho o setor de currículo, que dá orientações desde como deve ser feita uma reunião pedagógica até orientações de didática: como utilizar melhor o livro, exemplos de aulas, nós temos uma antologia que dá exemplos de aulas que possam ser mais eficientes. O setor de biblioteca que a gente tem assinaturas, que a gente sempre procura equipar a escola com livros e revistas mais atuais, pra ele também levar pra casa ler e se atualizar por si próprio. Esse setor de currículo basicamente cuida da capacitação dos professores e de estabelecerem e plantarem um referencial curricular. Isso não significa que exista um padrão, no sentido de não haver abertura para adaptações pra realidades locais, de jeito nenhum. Mas algumas coisas todas as crianças devem saber independente se ela mora em Manaus ou em Osasco, né? P/2- Osasco, tanto faz! R- É porque se não a gente fica assim, a criança... Quando se fala em adaptação da realidade, às vezes isso é muito mal interpretado no sentido de que ela é pobre, ela tem problemas na família, “Então vou ensinar menos, coitadinha, deixa ela passar de ano porque não vai mesmo, depois tira o diplominha dela e vai fazer qualquer coisa.” Não pode ser assim. A gente acompanha de fato, pelo menos esse mínimo curricular que tem que acontecer em todas as escolas independente de realidade. E também acompanhamos muitas ações das escolas, que são particulares, que visam soluções de problemas locais. Temos também um setor de projetos, onde as escolas desenvolvem projetos, assim, com a maior liberdade possível de necessidades que eles tenham e de até assim, como a gente busca muito essa formação pro aluno resolver problemas, ele tem que enxergar problemas ao seu entorno, e aí sim o problema de Manaus não é o problema de Osasco. Aí a metodologia de solução de problemas podemos discutir, mas qual o problema e o que ele vai fazer é... P/2- É básico. R- É por conta da escola... P/1- Certo. R- Se ele vai fazer um trabalho científico, se ele vai fazer um projeto que vai sugerir algo à prefeitura, se ele vai, enfim. O que ele vai fazer aí dentro do âmbito da escola e do seu entorno isso eles decidem, né? P/1- Tem muitos projetos, desculpe, voltados assim para o meio ambiente, né? R- Muitos. Na área de ciências e de meio ambiente nós temos muitos, até porque nós temos um professor de educação ambiental. Eu acho que esta é uma questão que você consegue abarcar todos os outros componentes e conhecimentos possíveis, porque entra desde da área geográfica, história do local, a ciência, a responsabilidade social, a discussão da ocupação dos espaços, né, que entra geografia, a poluição, a responsabilidade pelo futuro, acho que da própria humanidade. Vai desde a responsabilidade de uma planta, de uma horta, até o bem estar até de toda a humanidade. E a questão da alimentação, do estilo de vida, da qualidade de vida. Então, acho que é assim, uma área que você consegue exercitar todos os conhecimentos e ao mesmo tempo aplicar, né? Até socialmente. Quando a gente propõe fazer uma horta comunitária, vem a fazer uma ação que atinge a própria comunidade, em termos econômicos, alimentares. Até de produzir algo pro seu bem estar, de aproveitar aquilo que se tem enquanto riqueza local, né? Enfim, acho que a gente trabalhou muito na questão de educação ambiental, enquanto valor, enquanto projeto que dá margem a muitos projetos, enquanto a aplicação de conhecimentos de forma interdisciplinar. Temos vários prêmios inclusive, e muitos em projetos que começaram em educação ambiental. P/2- Isso inclui pesquisa. R- Muito. Justamente é a metodologia de projetos que é levantamento de problemas, levantamento de hipóteses, pesquisas e a solução do problema, possível solução, ou se não tem a solução do problema, ao menos alguma ação que venha a contribuir com a solução do problema. Então pode... P/2- ______ R- … pode ser que eu não consiga solucionar um problema ambiental, mas pelo menos a conscientização da população eu posso tentar fazer, né? P/1- Alguma coisa assim que a senhora gostaria de falar sobre os fundadores da Fundação Bradesco ou não [risos]? R- Acho que, assim, contato eu tive muito pouco. Por exemplo, senhor Amador Aguiar eu via e cheguei a cumprimentar, principalmente nas comemorações da Ação de Graças, mas nunca cheguei a conversar com ele. Então não sei te dizer... P/1- Não teve assim um contato direto. R- Seria alguma pessoa assim, a que você se refere? P/1- Não, não. É uma pergunta assim generalizada, né? R- É. P/1- Na sua opinião. Qual a importância da Fundação Bradesco pra história? Qual a importância da Fundação Bradesco para a história da educação brasileira? R- Tá! Eu acho que a Fundação ela sempre quis, né? Eu acho que comprovar uma hipótese que é fundamental pra sociedade, pro desenvolvimento do nosso país. E até uma posição política, que se comprova através do nosso trabalho. Que as crianças que vem de origem menos favorecida, elas são tão capazes de aprender e se desenvolver e estar em condição de igualdade na sociedade quanto as outras que tem um nível cultural, uma família de nível socioeconômico maior. Porque muitas vezes isso não acontece, por mais óbvio que possa acontecer, justamente pra que elas continuem sendo o que elas são e que a vida é assim, né? Acho que esse inconformismo cultural da Fundação que procura fazer, que é uma revolução individual, mas acaba sendo uma revolução social. É essa aposta e essa comprovação que a Fundação faz de que eles são capazes, e que esses 50 anos mostraram que muita gente tá aí na sociedade numa, acho que numa atuação extremamente importante, representativa seja qual for a profissão que as pessoas tenham, provando isso. Acho que 50 anos já deu pra provar o suficiente, né? Quem quiser entender que entenda, que é quem... Essa tecnologia, a gente tá procurando socializar o máximo possível. Particularmente para as escolas públicas. Acho que hoje, a missão da Fundação é passar o que sabe, como sabe pra melhorar cada vez mais a escola pública, porque a nossa população é a mesma que frequenta a escola pública. Então assim, não tem sentido elas serem diferentes em termos de conhecimento ou em termos culturais. Acho que o que a gente tem que passar agora é esse de ensino e aprendizagem pra que mais crianças possam ter essas oportunidade que nossas crianças têm, né? Acho que esta é a grande lição. Que muitas vezes ela é sabida, mas convém que não seja, porque daí entendeu, que quando você diz que a criança é culpada por não aprender, que é assim por causa da pobreza do pai e da mãe que moram na favela, ou porque o pai e a mãe são separados, você não quer admitir a sua incompetência de ensinar, né? E que essas pessoas não tenham essa ascensão social que não vai competir com o seu filho, que tem biblioteca, que vai disputar USP [Universidade de São Paulo], que... É melhor que eles fiquem às vezes do jeito que eles estão. Eu acho que é uma posição que muitas vezes na história foi conveniente, mas que hoje tá todo mundo correndo atrás. Porque ninguém cresce, o país não vai crescer, isso já é economicamente comprovado, se não houver uma melhoria no ensino, é diretamente proporcional. Então eu acho que esse pensamento que existem, que tem que existir classes culturalmente diferentes já caiu, pode até ser que economicamente continue e vai continuar mesmo. Mas culturalmente não se admite mais esta diferença, sob pena de outras camadas sociais sofrerem a consequência. Então, hoje se corre atrás de uma coisa que em 1956, acho que o senhor Amador Aguiar já tinha esta visão, de que a igualdade social é fundamental, social assim no sentido de cultural, instrucional, é fundamental pra qualquer pessoa mesmo com as diferenças econômicas. Acho que ele conseguiu viver uma coisa que tá todo mundo correndo hoje, né? P/2- 50 anos depois [risos]. R- É, 50 anos depois. P/1- Ele foi iluminado, né? Assim. R- É, acho que sim. P/2- Que bom que chegou o momento. R- E também de que a escola é muito responsável pela formação dessas gerações que vêm. Porque a gente reclama de corrupção e falta de ética, todo mundo reclama. Mas a gente tem que fazer a parte da gente na formação dessas pessoas que tão chegando. Se cada um não fizer a sua parte, nós vamos continuar reclamando. Porque nós, independente da profissão, adultos, somos responsáveis. Se não dá pra concertar a pessoa que tá lá fazendo coisas que a gente não aprova, principalmente na política, nós temos o nosso papel enquanto formadores dessa outra geração, né? P/1- Como você vê esse projeto da Fundação estar contando a história dela através da história das pessoas que trabalham na Fundação? R- Ah, eu acho espetacular. O trabalho, e até a ideia do Museu da Pessoa, é fundamental porque as coisas não existem sozinhas, assim como o prédio da fundação a escola não existe enquanto prédio, ela é o que os alunos e professores serão, a Fundação é o que as pessoas são e fizeram dela e o que vão fazer dela. Acho que quem faz a história são as pessoas, independente do lugar ou do ambiente físico ou de tudo que elas possam construir de bens materiais. É claro que o bem material é também produto cultural, sem dúvida. Mas eu acho que história ela tem mais, ela passa ter mais vida e mais significado quando ela vem através das pessoas, né? Porque elas é que sentiram e que fizeram e que trabalharam pra que as coisas acontecessem. Então, eu vejo como uma coisa, eu acho que diferente. Porque a gente vê muitos livros de história ou de empresas ou organizações que contam simplesmente fatos, e mostram fotografias de prédios. Mas que são frias, porque não tem a emoção das pessoas que fizeram aquilo, não tem a vivência, não tem o olhar da pessoa que fez, não tem a vida. Eu falei, uma escola sem aluno é muito triste. Quem já foi numa escola nas férias é uma coisa até deprimente, né? Porque você vê aquelas coisas, aquela parede, a escola é as crianças fazendo bagunça, andando, correndo, falando, gritando. Assim como a história é a vida das pessoas pulsando, não pode ser só data que inaugurou tal coisa, né? Não é um de acontecimentos. Então, eu vejo como essa escolha da Fundação, da diretoria da Fundação de contar a história dessa forma, mais uma comprovação do que a fundação é, eu admiro mais ainda o lugar que eu fico, que eu estou, que eu trabalho. Optou por uma linha que eu me identifico, que eu acho bárbaro, acho que é bem a cara da Fundação mesmo, ter optado por isso. P/1- O que você achou... R- Eu fiquei muito contente. P/1- ... de ter participado da entrevista? R- Eu me senti muito valorizada. Porque eu acho que a pessoa que participa de tudo, de toda essa história, dar voz à pessoa que participou da história eu acho muito importante, né? Não valorizada no sentido de...não é isso. É um reconhecimento de alguém que esteja ouvindo aquilo que você passou, que você sentiu, que você viveu. Então eu acho que é essa valorização das pessoas, independente de cargo ou do que tenha feito. Esse escutar as pessoas eu acho muito importante, mesmo pra aquelas que não são escutadas, porque eu acho que é muito simbólico assim de que a Fundação está escutando as pessoas. E eu acho que é o que o educador tem que fazer com as crianças, com os educandos: escutar. Porque as pessoas têm algumas coisas pra contar. Então eu me sinto nesse sentido valorizada; P/1- Em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa nós agradecemos... R- Eu que agradeço. P/1-... a sua participação. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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