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História

Provando que o próprio povo existe e demarcando a própria terra

História de: Ilson Carneiro
Autor:
Publicado em: 12/08/2021

Sinopse

Nesse depoimento, Ilson Carneiro, conhecido como Raílson, relembra a profecia de uma antropóloga de que ele se tornaria cacique, o que de fato aconteceu. Após uma infância que trabalhou como seringueiro acompanhando seu pai, quando detalha as longas jornadas que eram feitas a remo no rio do Acre, se transforma em cacique e passa a enfrentar caçadores ilegais, madeireiros e até traficantes, o que lhe rendeu até uma tentativa de homicídio. Conseguiu conquistar para seu povo o reconhecimento de sua existência, que havia sido considerado extinto, além de conquistas na educação e a decisão pela autodemarcação.

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História completa

Eu tinha 2 anos de idade quando a antropóloga Devair, fez o primeiro levantamento da terra indígena Nukini, dos parentes lá, eu morava do outro lado do rio, eu tinha 2 aninhos de idade, quando a antropóloga foi lá e bateu uma foto minha, perguntou para meus pais se eu era indígena, eles falaram que sim, ela até perguntou se não iria passar para o outro lado do rio, para dentro da terra indígena Nukíni, minha mãe falou que não, que eu ia ficar daquele lado mesmo, eu tinha 2 anos de idade, quando já fui registrado como indígena pela antropóloga. Eu tinha 2 aninhos, tinha os cabelos bem de indígena mesmo, daí ela disse: “Esse aqui que vai ser o cacique do futuro do povo de vocês” e bateu foto. Eu voltando antes dos meus 25 anos, quando começou o movimento do Parque Nacional da Serra do Divisor de cadastramento, quando foi descoberto que existia um povo indígena, dentro do Parque Nacional do Divisor, e foi nesse período que eu fui chamado para ser o cacique. Minha mãe falou: Olha, você tinha 2 anos de idade, passou uma antropóloga que disse que você ia ser o cacique, e agora estão te chamando para ser o cacique

 

Pela parte da minha mãe, eu ainda conheci minha avó, e meu avô é João Batista Carneiro, ele era um indígena mesmo, o pai dele era bem da mata mesmo, eu convivi um pouco com eles, e eles eram aquelas pessoas meio fechadas, eles não gostavam muito de se identificar, mas eu perguntava muito para ele, o meu avô, como era que ele caçava na mata, ele era muito matador de anta, ele rastreava muita anta, ele rastreava aquele animal e sabia quando estava longe, sabia quando estava perto, ele me contava um pouco dessa história dizendo assim: “eu conheço pelo rastro, se ela pisar com o rastro aberto, é porque ela está longe, se ela fechar o rastro, é porque está perto” e comia muita carne assada. Eles tinham um tambor grande, faziam caiçuma e passava a noite todinha, cantando e batendo naquele bumba até o dia amanhecer, tinham uma buzina com um cano de bambu que eu ainda lembro bem, quando era para fazer as festas, eles avisavam para outros parentes que quando ele desce três buzinadas era festa, e quando desce só uma, era porque não tinha festa, então muitas vezes eu dormia, eu acordava e escutava eles fazendo a festa deles batendo no tambor, e de preferência ele fazia essas festas, quando matava alguma caça, passava a noite comendo carne assada, e tomando caiçuma, e marretando no tambor

 

Muitas vezes meu pai cortava seringa e eu ia colher com ele, colher é você tirar a tigela dentro da seringa e colocar dentro do vaso, esse é o balde, chamava de balde, e eu acompanhava ele, muitos dias eu dizia para ele: Pai, eu tinha muita vontade de ir tocar violão, falei rapaz eu vou colher esse mês todinho para o senhor comprar um violão para mim. “Que violão que nada, eu vou comprar uma faca de seringa” ele me dizia. Mas eu falava: Amanhã eu vou de novo, vou todo dia com o senhor, para o senhor comprar um violãozinho para mim. Até que um dia ele foi e comprou o violão, e eu aprendi a tocar, eu toco violão até hoje. Eu trabalhei muito sim com meu pai, ajudei muito ele, e a gente viu que era uma vida muito sofrida a dele, na época não existia o motor igual tem hoje, o nosso motor era o varejão, aquelas varas que tirava para varejar, naquelas canoas feitas de pau mesmo, Então muitas vezes nós saiamos lá da colocação, para ir comprar as coisas onde estava o patrão, mas era de remo, éramos em 6 Irmãos, meu pai pulava na proa desse barco, e cada um de nós pegava um remo, e o Igarapé cheio, corria, e o remo comendo no centro, todo final de semana nós fazíamos essa correria, ia comprar as coisas e voltava para trabalhar a semana, era muito difícil a vida. Meu pai conta que vinha lá da aldeia Cruzeiro do Sul, era de remo, gastavam o mês todinho de subida, e ele quando chegava lá na comunidade, muitas vezes já tinha comido a feira que levava todinha. Hoje de motor nós gastamos dois dias, na época eles gastavam um mês remando, quando eu fui com ele pra cidade, eu vi que na volta o coro da mão dele caía de tanto remar.

 

A gente só tinha um patrão chefe que era diferente, ele morava fora da terra, que era quem recebia toda borracha, era assim, mas o seringal mesmo, toda vida foi do povo Nawa, que era do meu bisavô, passou para o meu avô, e o meu pai como era filho único, quando meu avô morreu, meu pai passou ser dono do seringal. Foi na época das nossas gerações, meu pai falou assim “Ah isso aqui tudo é nosso, eu tenho a documentação, eu sou herdeiro desse seringal”, eu falei - mas se virar uma Terra Indígena o documento fica inválido. “Não vai” - mas mesmo assim tem que guardar os documentos, para provar que isso aqui é uma terra dos Nawa há décadas, então quando eu falar seringal era aldeia que virou colocação que virou aldeia de novo, hoje nós temos Aldeia no Recreio, Aldeia Boca Tapada, e Aldeia 7 de Setembro.

 

Eles criaram o parque dentro dessas colocações, desses seringais, a gente não tinha muita influência com as autoridades, e assim que eles criaram o parque, subiu uma equipe do IBAMA para fazer o cadastramento das famílias, para ver quantas famílias moravam dentro do parque, mas nos documentos do meu pai, ele se identificava como Nawa, porque na época a FUNAI era quem registrava, quando eles pegaram a documentação que viram, já foram dizendo: - Vocês são indígenas? "Somos, nós somos Nawa" E eles disseram:“Ah, mas os Nawa tinham sido extintos, não existe mais Nawa!” Se não existe para vocês, para nós existe, porque ninguém acaba com o povo todo, de uma vez por todas, se não for Deus mandar um dilúvio, para acabar com todas as gerações. Ninguém acaba com uma família assim! Morreu, morreu muitos, mas os Nawa estão aqui, agora vocês acharam.

Quando a Funai chegou lá, a primeira coisa que foi puxada foi esse assunto. “Olha nós conhecemos esse povo aqui, desde essa década.” Eu até esqueço a data do ano...esse rapaz levou o jornalzinho, e esse rapaz aqui tinha 2 anos de idade, então a gente reconhece que esse povo está aqui, só que não sabia que era Nawa, não sabia que era um povo indígena. A gente foi fazendo discussões com o pessoal do Parque, eles não queriam reconhecer o povo Nawa, não queria rever o nosso direito é uma luta de 22 anos, não de 22 anos,mas é uma luta que vem há anos se arrastando, para o povo Nawa já chega, a gente vê que é tanta lei criada, tanta coisa, criando lei por cima de lei, se nós pegarmos algum caçador caçando, a gente toma a caça que tiver, porque as autoridades não nos ajuda, então estamos cuidando do nosso território, eu já fui vítima, também dessa mesma ação, no caso dentro da luta do povo, lutando pela terra, como é uma área que ultrapassa a fronteira, eu também já fui atacado por um tiro, já me deram um tiro também, eu ia passando no rio e o cara atirou, porque muitas pessoas não querem que a gente tenha uma terra demarcada,

 

Eu fiquei pensando, como é que um projeto do governo federal assina um decreto, a construção de uma rodovia que passa por dentro de uma terra de preservação ambiental, que esse é o Parque Nacional, onde vai destruir várias aves, várias espécies vão ser destruídas, vários Igarapés vão ser tampados, e a destruição de mata, floresta vai ser inesquecível, muita zoada na mata das máquinas, vai espantar a alimentação, a caça que tem na mata tudo, vai se acabar porque elas vão embora, fogem, e também as ameaça que essa estrada vai trazer diretamente para dentro da nossa terra, e o governo acha que está tudo bem, tem que ser feito beleza, e não quer dar o reconhecimento de uma demarcação, de uma picada, que ninguém vai fazer deriba, para demarcar uma área para o povo sobreviver, 522 pessoas e toda essa geração está crescendo da noite pro dia, e é vida, então no lugar de estar dando direito de um povo com a vida, que é vida, está tirando a vida do povo, eu fiz uma reunião na comunidade e chamei todo povo, e comecei a participar um pouco da situação, do que ia acontecer e disse para o povo: - eu acho que não dá mais para esperar pelo presidente, mais pela Funai, ninguém dá uma resposta para nós, e não adianta nós demarcarmos uma terra, nós estamos com 22 anos de luta, e vamos esperar mais 22 anos? Depois que não tivermos mais nada dentro dessa terra para nós sobrevivermos, nem caça, nem pesca, nem nada. Depois que invadirem tudo? E aí nós vamos querer demarcação de uma terra? Depois que não tiver mais nada dentro parente? Eu acho que está na hora da gente se reunir, e demarcar a nossa terra por conta própria.

 

 

 Desde criança que eu falo assim, a gente tem que cuidar do que é nosso, e hoje a gente está cuidando do nosso território, onde a gente nasceu e se criou, a gente tem cemitério dos nossos avós, tudo enterrado na aldeia. Eu estava conversando um pouco com os parentes, dizendo para eles - existe uma lei aí da década de 80, que só iria ter as terras demarcadas, se fosse de 80, 80 e pouco, nós estamos há 200 anos lá, por isso vocês não se preocupem, porque nós estamos aqui há 200 anos, não é só de 80. Mas tem perigo? Eu disse - não tem, podem ficar tranquilos, se tiver que existir a demarcação de terra é a do povo Nawa, porque nós nascemos e nos criamos nesse território.

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