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Protagonismo feminino

História de: Eliceuda França
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Publicado em: 26/01/2022

Sinopse

Eliceuda lembra dos pais, ele motorista e ela, artesã. Em janeiro de 1978, migrou com a família para o Distrito Federal. Tão logo chegou a Ceilândia, a mãe tratou de matricular as crianças numa escola pública. Mais tarde Eliceuda faz o curso de magistério e, no segundo ano da faculdade, em junho de 1986, foi admitida, por concurso, como professora na rede pública de educação do DF. Logo embrenhou-se nos movimentos sociais por intermédio do trabalho de base da igreja católica. Aproximou-se do SINPRO-DF por meio dos cursos para delegados sindicais oferecidos pelo sindicato. Em 2007, integrou a direção da Secretaria de Assuntos e Política para Mulheres Educadoras do sindicato.

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História completa

Meu pai foi um caminhoneiro lá de Parnaíba do Piauí, ele fazia o trabalho de carregar sal para o Pará, o Maranhão. Parnaíba é litoral, e nós temos lá produção de sal. Mas quando a gente veio para Brasília, ele passou a ser motorista de ônibus. Minha mãe era uma liderança comunitária. Quando tomou a decisão de vir para Brasília com os seus sete filhos, em 1978, meu pai veio na frente e ela veio depois com as sete crianças. Eu era mais velha, tinha treze anos, e o mais novo tinha um ano. E chegando aqui ela trouxe a sua arte, que era o artesanato: ela era crochezeira, fazia fuxico, costureira, era uma excelente artista desses artesanatos populares; fazia de tudo, das bonecas de pano às bolsas, tudo ela reinventava. A gente chegou em Brasília na madrugada de 20 de janeiro de 1978, que era dia de São Sebastião. Eu lembro que olhei para o Congresso e falei: “Brasília, chegamos em Brasília”. Só que nós não sabíamos que nós passaríamos ainda mais algumas horas procurando um transporte para que nos trouxesse para a Ceilândia. Então, instalados, o passo dela foi imediatamente buscar matricular a todos nós. Eu fui estudar numa escola com que eu tive uma relação muito forte no decorrer de toda minha vida, que foi o CEFE 7, que hoje é o Centro Educacional 7, aqui na Ceilândia. Foi uma escola muito importante na minha vida porque ali fiz muitas amizades. Era uma escola grande, bonita, até então eu não tinha estudado em escolas tão grandes assim. Foi lá que eu fui me encontrando e fiz opções importantes para a história da minha vida. [Mais adiante] eu fiz o magistério, me encontrei nele, e decidi mesmo que era por aí que eu ia seguir a minha vida: ser professora, professora de artes. Quando fui para faculdade, logo no segundo ano eu passei na Secretaria de Educação para ser professora da rede, em 1986. A minha primeira escola foi a Escola Classe 39, era muito próximo da minha casa, e lá eu fiz um trabalho muito bacana como dinamizadora. Minha mãe fundou na Ceilândia a primeira associação das mães “crecheiras”, que eram mulheres que depois que criavam os seus filhos, abriam a casa para cuidar dos filhos de outras mulheres. Eu tive uma formação no meu ensino médio, paralelo ao magistério, de um grupo jovem na comunidade. A comunidade em Ceilândia sempre teve uma força muito grande de organização. Dentro da igreja da Ceilândia Norte tinha um grupo de padres voltados e comprometidos com as Comunidades Eclesiais de Base, a teologia da libertação. Eu costumo dizer que eu não tive formação acadêmica de sindicato não, eu fui formada ali na comunidade, junto, ouvindo a luz do Evangelho, como a gente pode transformar a vida das pessoas, como a gente pode ser um agente político na comunidade. Em 1986, eu me aproximei [do SINPRO], fiz muitos cursos de delegado sindical, passei a ser uma delegada sindical dentro das escolas e desde então nunca deixei de ser delegada sindical, participando de todas as lutas, organizando, trazendo as formações para dentro das escolas; paralelo a isso, dentro da comunidade participando dos movimentos que a gente brigava para ter as coisas, ter o asfalto, ter a luz. Entrar no sindicato não requer só você ser um bom militante, requer você também ter uma boa participação e atuação nas organizações partidárias, porque você não é somente um militante da categoria, você é um militante da sociedade. E essa percepção, esse DNA de ser uma agente mais comprometida com muito além do muro da escola, com muito além do corporativismo, da luta da categoria, eu trazia isso muito bem definido em mim. O sindicato é um instrumento da cidade. Nesse momento agora, da questão da pandemia, nós fizemos muitas campanhas que foram estratégicas. Primeiro, não voltar às aulas. Fizemos várias campanhas durante esse processo todo, de esclarecer a própria categoria que ficou um pouco receosa. Teve momentos de ameaça, de devolver os colegas de contratos temporários. Então, o sindicato hoje ele tem um papel que tem que fazer as duas coisas, porque a gente entende que não dá para fazer só um papel moderado, ele também tem que ir para cima. Não dá só para você dialogar, tem hora que tem que parar o diálogo, tem hora que tem que bater na mesa, levantar e falar: “Vamos para a luta! Nós vamos enfrentar vocês é na rua!”. E como é que a gente faz isso agora? Nós estamos recuados dentro de casa, todos nós, as gerações todas que compõem o SINPRO. Quando eu entrei como diretora do sindicato dos professores, em 2007, tínhamos saído de um congresso, e esse congresso aprovou a criação da Secretaria de Assuntos e Política para Mulheres Educadoras. Assumi a coordenação dessa secretaria, que era nova no SINPRO. Foi um baita desafio. Até então eu sempre estive na luta social, mas nunca tinha estado na luta feminista. Só que mais tarde eu vim perceber que eu já fazia a luta feminista quando eu atuava junto com a minha mãe na defesa das mulheres por creche, contra a violência, pelo empoderamento. Eu ainda continuo acreditando que a educação é a que transformará nossas vidas, e acrescento mais: a educação e a cultura. Como eu estou hoje na pasta da Cultura, eu costumo dizer que elas são irmãs. Irmãs que têm que caminhar juntas, a educação e a cultura para fazer o enfrentamento que é necessário.

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