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História

Propagandista, de pai para filho

História de: Marcelo Renato Batyras
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Marcelo conta sobre a oferta de emprego no Laboratório Aché quando trabalhava ainda em uma loja de automóveis. Fala da importância de ter visto o amor do pai pelo ofício quando criança e sobre a diferença de experiências ainda que trabalhando na mesma empresa. Narra algumas anedotas de sua trajetória como propagandista e compartilha seu sentimento sobre o Laboratório.

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História completa

Projeto Aché

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Marcelo Renato Batyras

Entrevistado por Immaculada Lopez

Brusque, 24 de janeiro de 2002 

Código: ACHÉ_CB110

Transcrito por Cristina Eira Velha

Revisado por Leticia Oliver Fernandes

 

 

 

 

 

P/1 - Marcelo, queria começar perguntando o seu nome completo, data e local de nascimento.


R - É Marcelo Renato Batyras. Nasci na cidade de Apucarana, norte do Paraná, em 04 de julho de 1974.


P/1 - Em que ano você entrou no [Laboratório] Aché?


R - Entrei no Laboratório Aché no dia 4 de outubro de 1999. 


P/1 - E como foi a entrada na empresa?


R - Nossa, foi uma expectativa muito grande. Você fala sobre como aconteceu?


P/1 - Como você foi parar no Aché?


R - Como eu fui parar no Aché? Você vê, que coisa! Eu trabalhava com venda de automóveis, carros novos e semi-novos. E em um sábado de manhã, apareceu um casal querendo ver alguns carros, um deles era supervisor do Laboratório Aché. Eu o conhecia, mas nem lembrava que trabalhava no Laboratório, nem sabia se estava na empresa também. Não sei se foi o atendimento, se foi o bate-papo, ficamos a manhã inteira conversando lá, e tal, ele acabou comprando até um carro comigo. Ele falou: "Olha, você não gostaria de fazer uma entrevista no Laboratório Aché, para um Laboratório de Medicamentos, tal?", "Por que não? Meu pai..." 

E era a minha vontade de entrar. Eu acompanhei meu pai nessa minha vida, 27 anos, sempre vi meu pai trabalhar, e a vontade era grande, só que ele não sabia disso. E ele falou que o supervisor da linha, então, me procuraria, que era para a vaga. E aí um dia o rapaz me ligou, o Alberto, que era na época o supervisor, e perguntou se eu poderia vir fazer uma entrevista, que eu havia combinado. Aí fiz a entrevista com ele. Ele falou que se eu fosse o escolhido ele entraria em contato comigo, e que eu teria que passar por uma outra seleção com o gerente. 15 dias depois, ele me ligou e disse: "Olha, você pode vir aqui agora, no Sesc [Serviço Social do Comércio], na minha cidade, em Apucarana?" Eu falei: "Posso, eu vou tomar um banho, fazer barba." Ele falou: "Olha, vem do jeito que você está." Aí eu fui, barbudo, de calça jeans e botina, que na época a gente vestia... era uma bota normal. E acabei indo fazer uma entrevista com o Walter, o meu gerente na época. Conversamos, fiz propaganda, toda a parte burocrática da entrevista. E ele me falou também que sim. Aí ele me deixou, falou: "Olha, se você for o escolhido, o supervisor no outro dia entra em contato contigo". Mas graças ao bom Deus aí, não sei quantos foram selecionados, quantos foram entrevistados, ele acabou me ligando. Disse que a vaga era minha, perguntou se eu queria a vaga do Aché. 


P/1 - Isso já fazia parte da tua infância, adolescência? Conta um pouco disso, como é que isso faz parte da sua família?


R - O meu pai não trabalhou com outra coisa a não ser com a propaganda médica. Não fez outra coisa na vida dele. Eu nasci, cresci, vi o meu pai trabalhando com a propaganda médica. Aquilo para mim, eu acostumei, todo dia... ele trabalhava, viajava as quatro semanas do mês. Saía na segunda, voltava na sexta. Eu vivia mais com a minha mãe. Então, no final de semana era com o meu pai que eu ficava. Aos domingos à tarde ele já ia para o quartinho de casa separar as amostras da semana e eu ficava com ele ajudando, vendo os medicamentos, carregava as amostras no carro. Eu fui gostando, foi acontecendo, fui pegando aquele carinho. E sempre tive essa vontade. E na primeira oportunidade que teve, graças a Deus, nós agarramos. 


P/1 - E ele te contava boas histórias das aventuras dele como propagandista?


R - Cada história, que... [risos]


P/1 - Você lembra de alguma?


R - Sim, existiam alguns colegas… Tinha um senhor lá, na época, que aprontava muito. E numa dessas, ele estava num setor de viagens, em um hotel, e um colega estava no mesmo hotel, era de um outro laboratório. E ele aprontava muito. O cara chegou até a derramar um dia uma latinha de azul de metileno na caixa d'água do hotel. E o primeiro a tomar banho no outro dia foi o juiz da cidade, fez ele ficar inteiro azul. E nesse mesmo hotel também, um dia ele chegou, e tinha uns pintores pintando um outro estabelecimento do lado. Ele falou assim: "Quanto cobra para pintar o meu hotel?", como representante. "É tanto." "Pode começar amanhã cedo." No outro dia cedo, os caras chegaram, colocaram a escada e começaram a pintar a fachada do hotel. E chegou o dono: "O que está acontecendo?" "O proprietário combinou de a gente pintar o hotel." "Não, o proprietário sou eu!" Quer dizer, tinha pintado metade do hotel já, eles tiveram que fazer o serviço. Então, existia muitas dessas brincadeiras [risos].


P/1 - E nos teus anos de propagandista, alguma história, algum episódio marcante?


R - Em relação a alguns colegas dentro da divisão que têm 14, 15, 16 anos de Aché... Eu tenho dois anos e quatro meses. E aconteceu um fato até engraçado. Foi na cidade de Ubiratã, no Paraná, no ano passado. Eu ia visitar o dono do hospital, que era o doutor Rodrigues. Era geralmente às duas horas da tarde que ele chegava do almoço. Nós aguardávamos e eles nos recebiam primeiro, antes das consultas. Então, eu estava ali, e justo aquele dia ele atrasou. E começou a dar uma dor de barriga em mim, eu com uma dor de barriga, comecei a suar, comecei a me arrepiar. Eu cheguei à secretária, tinha uma amizade já com ela, falei: "Olha, Cristina, onde é que tem um banheirinho que você pode me arrumar, que eu preciso ir no banheiro?" Aí ela, como a sala de espera estava cheia, ela me levou para o banheiro do médico. Tinha o consultório do médico e ele tinha uma porta que ele entrava para uma sala de exame. O banheiro dele ficava dentro dessa sala de exame. E era um ginecologista. Então, enquanto o médico não chegava, eu fui ao banheiro e me aliviei. Como o médico não tinha chegado, eu fiquei lendo. Geralmente era semana de reunião, nessa semana que eu fazia o giro naquela cidade, então eu saía de lá e ia direto para Londrina, para a reunião. Então, eu fiquei estudando ali no banheiro. Eu escutei um barulho na sala de exames e falei: "Algum enfermeiro que veio pegar algum produto, logo vai sair." Aí esse barulho continuou. Na hora que eu saio do banheiro está o médico examinando a mulher já na cama ali, na cama ginecológica. Aí na hora que ele me viu, ele falou: "Ô, rapaz, o que você está fazendo aí?" A mulher já ali, queria saber quem que estava. A minha sorte é que a cama estava virada para a parede. Então, quer dizer, eu querendo sair do consultório, a porta trancada, ele foi lá, abriu para mim. Mas foi um susto muito grande, porque imagine que situação para a mulher estar ali sendo examinada, e o doutor: "Ô, rapaz!", e ter outra pessoa na sala a não ser o médico. Foi um susto, mas depois voltei a fazer propaganda para ele e expliquei o que aconteceu, que a secretária tinha...


P/1 - E o seu dia-a-dia como propagandista é muito diferente do do seu pai?


R - Os tempos mudaram, muita coisa mudou. Antigamente não existiam tantos laboratórios, e o médico também não tinha tanto compromisso. Então, hoje em dia... antigamente o médico atendia melhor até o representante. Hoje ele atende também. Só que ele tem outras preocupações. Existem outros colegas às vezes dentro da sala contigo querendo fazer propaganda. Então você não tem mais uma liberdade com o médico. Isso é o que eu comento no dia-a-dia com o meu pai. E ele me passa também o que acontecia dentro do consultório na época dele. Existia também uma amizade muito grande entre o propagandista e o médico na época dele. Numas cidades, meu pai não dormia em hotel, dormia no hospital do médico, porque o médico fazia questão de eles dormirem lá. Sabe, era o prazer do médico, estar recebendo. Então, hoje em dia é um pouco diferente essa relação. Mas existem ainda os locais em que você tem uma amizade muito boa com o médico, uma afinidade muito grande. Às vezes a gente almoçava na casa do médico, no giro que a gente fazia ali no Vale do Ivaí, chegava às vezes na hora do almoço, ia almoçar com o médico na casa dele. E era um prazer para ele, estar conversando contigo.


P/1 - E ele se aposentou como propagandista com quantos anos?


R - 42 anos. Ele se aposentou acho que em 1987, e trabalhou até 1992, se não me engano. Depois ele não quis mais, pegou uma Distribuidora de Medicamentos, que era uma coisa de fazer só venda em farmácias. Daí não viajava tanto, ficava mais ali na região de Apucarana.


P/1 - E ele se orgulha de ser propagandista? Você falou da história de um concurso...?


R - Concurso? Ah, sim, da questão da premiação do produto. Nossa, para ele aquilo lá tirou lágrimas. 


P/1 - Como foi isso?


R - Nós fizemos o lançamento do produto a nível nacional, que é o Decongex Plus, só que era uma apresentação à parte sobre o expectorante. Nós trabalhamos durante o ano com o produto e ganhamos a premiação de colocação na farmácia. Quando nós lançamos um produto, nós colocamos primeiro na farmácia e depois nós lançamos para o médico. Se por acaso tem uma receita e o paciente vai na farmácia, já tem o produto na prateleira. Porque às vezes você lança um produto, não faz colocação, o médico prescreve, o paciente vai na farmácia, não tem o produto, o farmacêutico não conhece o produto. Então, quer dizer, queima o produto em lançamento. Nós fizemos a colocação, fizemos a venda para farmácias no setor. E o nosso setor, que era no norte do Paraná, foi campeão em colocação desse produto. Veio uma placa, nós, os representantes, ganhamos um jantar em Londrina, junto com os supervisores e o gerente. Então aquilo, para ele, tirou lágrimas dos olhos dele. Porque ele, quando trabalhava como representante, se esforçava. Ele tem troféus lá de primeiro lugar também, então ele está vendo que o filho está seguindo.


P/1 - Ele trabalhou em vários laboratórios?


R - É, trabalhou... começou na Organon, daí ele foi para a Johnson & Johnson, e depois para a Abbott. E na Abbott ele ficou acho que de 13 a 14 anos.


P/1 - E no teu caso, qual o teu sonho como propagandista?


R - Olha, eu procuro e vou, eu tenho certeza que vou conseguir, sabe? Eu quero seguir carreira em laboratório, quero me dedicar ao máximo no campo, para quem sabe pegar uma gerência distrital, uma gerência regional. Eu quero subir, eu quero trilhar aqui o caminho.


P/1 - A gente está finalizando, eu queria te perguntar o que você acha de o Aché ter decidido contar a sua história?


R - Olha, é uma coisa muito bonita, que vem resgatar a parte da relação com todos. Nós somos uma família Aché. Quando eu entrei, senti na pele que todos têm um amor pelo Laboratório. E nada melhor do que você estar fazendo, como eu posso dizer, um apanhado, um pouquinho de cada um, uma experiência, um "causo", e estar aglomerando, juntando isso daí para poder montar uma história. E o Aché, poxa, a gente vê que o Aché tem se dedicado, e muito, não só na questão da indústria farmacêutica, como na área social também. É uma coisa muito bonita que vem resgatar um pouco dentro do nosso dia-a-dia. Abrir um pouco a mente do ser humano para procurar essas coisas um pouco fora, não só do trabalho, e sim ajudar aquelas pessoas que têm necessidade da gente, não só na parte financeira, mas na questão de uma conversa, como eu diria para você, de uma atenção àquela pessoa.


P/1 -  Você falou em um trabalho social. Vocês têm uma experiência na sua região?


R - É, até esse ano de 2001, o Aché veio conversar muito sobre o voluntariado, você estar se dedicando um pouco àquelas pessoas que precisam de um pouco de carinho. Nós já desenvolvíamos isso no nosso setor na Região Norte do Paraná. Nós íamos a uma instituição… Eu vou dar um exemplo: um albergue noturno que cuidava, aos sábados e domingos, de crianças também, alfabetizava e fazia a parte de higiene dessas crianças, e também alimentação que fornece. Nós chegávamos, no final do ano, e comprávamos presentes, fazíamos a alimentação deles, o almoço, cachorro-quente, algodão doce. Um de nós se vestia de Papai Noel. Ficávamos distribuindo, conversando com eles, perguntando como foi o ano dessas criancinhas, se eles estudaram, se obedecem o pai, a mãe. Esse foi um dos [trabalhos sociais]. E existem alguns caminhos também que nós procuramos, ficou até agendado para ir num Asilo lá conversar, que tem um médico que toma conta. Nós íamos no Asilo levar um bolo, às vezes existem velhinhos que são diabéticos, Deus me livre! Então, existem médicos que cuidavam dessa área do Asilo, para a gente bater um papo e dançar com as velhinhas, que elas adoram dançar. Então, esse tipo de coisa, se cada um procurar fazer, nossa, isso daí nos engrandece, uma coisa muito boa, que a gente está prestando um serviço, é uma obrigação da gente.


P/1 - E qual o significado de o Aché estar incentivando isso?


R - Olha, nem todas as pessoas são iguais nos pensamentos, existem pessoas que são um pouco mais duras. Que foi criado assim, ou às vezes adquiriu isso ao longo do tempo. Isso o Aché vem colocando, principalmente na pessoa do seu Victor, que é uma pessoa que sempre encabeçou, conversou, explorou isso no acheano, que é uma coisa que vem abrir o coração dessas pessoas. Enfim, mostrar um pouco para essas pessoas que todos nós somos irmãos, indiferentemente de raça, cor e crença. Nós temos que buscar um pouco nessas pessoas, tirar um pouco da experiência delas para nós também, sabe? Isso é uma coisa que vai crescer muito no ser humano. 


P/1 - Por último, eu queria perguntar: o que te atrai no Aché?


R - Olha, o que me atrai no Aché é a união, eu diria assim. Poxa, hoje eu tenho dois anos e pouco de Aché, existem pessoas que têm 16 anos. E está acontecendo a primeira mega reunião, quer dizer: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. E você vê que não tem a diferença, “O cara é do Paraná”, “O cara é um ‘pé vermelho’, “O cara é um ‘jacu’”, “O cara da capital é um cara bom”, não existe isso. Todos são iguais, todos somos irmãos, é a união que vem. E nós vamos conseguir, não sou eu que vou. Então isso é uma coisa muito bonita, é uma união, uma participação, não tem divisão, é só soma. Isso que te dá vontade de você trilhar o caminho, o amor, a dedicação.


P/1 - Muito obrigada pela participação.


R - Eu que agradeço.


--- FIM DA ENTREVISTA ---


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