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História

Promovendo a saúde na comunidade

História de: Vera Regina Paula Baroni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/12/2004

Sinopse

Vera Regina Paula Baroni relembra em seu relato momentos de sua juventude, sua participação em praticas sociais com o JOC (Juventude Operária Católica), sua formação em enfermagem e como passou a trabalhar como secretária de saúde na prefeitura de Camaragibe.

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História completa

P/1 - Vera, eu vou pedir para você me repetir o seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R - O meu nome completo é Vera Regina Paula Baroni, eu nasci em 16 de maio de 1945 no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Na cidade do Rio de Janeiro?

 

R - Na cidade do Rio de Janeiro no bairro de Laranjeiras.

 

P/1 - E qual é o nome dos seus pais?

 

R - Geraldo Roberto dos Santos e Salustiana Paula dos Santos.

 

P/1 - E que eles faziam, Vera?

 

R - A minha mãe era empregada doméstica, originalmente, e depois ficou sendo mãe de família e o meu pai ele era motorista de táxi e policial. Mas a atividade dele principal era de policial.

 

P/1 - Eles faziam as duas coisas ao mesmo tempo?

 

R - É, ele fazia as duas coisas para complementar salário.

 

P/1 - Ele era policial e motorista de táxi. Como ele coordenava os horários dele, você recorda?

 

R - Porque o policial, ele não trabalhava todos os dias na polícia, ele trabalhava em plantões. Aí o momento que ele não estava trabalhando nos plantões ele trabalhava como motorista de táxi.

 

P/1 - Certo. E você tinha irmãos?

 

R - Eu tenho três irmãos, tenho duas irmãs e um irmão.

 

P/1 - E como que era a convivência de vocês?

 

R - Sempre foi harmoniosa, legal, sem problemas.

 

P/1 - Vocês moravam no bairro de Laranjeiras?

 

R - A minha família mora ainda no bairro de Laranjeiras, na Rua Cosme Velho.

 

P/1 - Como que era o bairro quando você era criança?

 

R - Olha, o bairro de Laranjeiras é um bairro de classe média, de classe média até classe média alta. Eu morava numa casa que lá no Rio a gente chama de casa de cômodos, quer dizer, uma grande casa que tinha um proprietário que era uma família portuguesa e essa casa era subdividida em moradias de várias famílias. Na casa onde eu morava moravam trinta famílias então os espaços de moradia era o espaço individual por família e os espaços lavar roupa, sanitário, eram espaços comuns. São chamadas casas de cômodos, eu nem sei ainda tem lá no Rio porque eu já estou fora do Rio há bastante tempo. Eu nasci nessa casa e me criei nessa casa.

 

P/1 - Você nasceu em casa?

 

R - Não, eu nasci numa maternidade, mas me criei nessa casa então assim a questão do coletivo sempre foi uma coisa muito forte porque eu sempre convivi com espaços que eram comuns e que a gente tinha que estar, às vezes tendo que negociar para poder usar, às vezes tinha que brigar para poder usar, para cuidar, para lavar. Enfim, então eu nasci nesse ambiente.

 

P/1 - E você estudava em Laranjeiras?

 

R - Eu estudava em Laranjeiras ainda. Eu estudei primeiro em colégio de freiras o primeiro grau, e a partir do segundo grau eu fui para uma escola que é escola privada e estudei até o final do segundo grau.

 

P/1 - O colégio de freiras você lembra o nome?

 

R - Lembro. Era Instituto São José, das freiras vicentinas.

 

P/1 - E lá você fez o quê?

 

R - Eu fiz até a quinta-série, quando eu estudei tinha uma coisa chamada admissão ao ginásio. Aí quando eu cheguei na admissão ao ginásio aí eu já fui para outra escola que ficava também em Laranjeiras mas ficava um pouco mais distante de casa.

 

P/1 - Quando você foi para a escola particular, você lembra o ano mais ou menos?

 

R - Está tão longe.

 

P/1 - Não tem problemas. O seus irmãos estudavam junto no colégio?

 

R - Veja bem, eu tenho uma irmã que é mais ou menos da minha idade que tem uma diferença de dois anos, então essa estudou na mesma escola. E tem outra irmã que é bem mais jovem porque o meu pai ficou viúvo, casou de novo e desse novo casamento ele teve uma filha. Ela tem uma diferença, sei lá, de uns dez anos da minha irmã que é mais nova do que eu, eu sou a mais velha dos filhos. Então essa irmã já estudou em escola pública. E tenho um irmão entre a minha irmã que ficou no meio, esse também estudou em escola pública, lá no Rio, lá por Laranjeiras mesmo. Ela está preocupada comigo.

 

P/1 - Em função do horário. Você tinha tarefas na sua casa, que você tinha que cumprir? Como que era o cotidiano da casa?

 

R - Olha, eu sou de uma família operária então na minha casa todo mundo trabalhava, a gente tinha as tarefas, uma cuidava da casa, outra cuidava de ajudar na lavagem de roupa e a outra cuidava de levar roupa porque a minha mãe era lavadeira então ela trabalhava em casa mas ela complementava a sua renda como lavadeira. Então a gente ajudava a minha mãe a levar a roupa, enfim, todo mundo tinha tarefa em casa. O meu irmão que era pequeno porque a minha mãe morreu e o meu irmão ficou com seis meses então só o meu irmão que não tinha tarefa, mas eu e a minha irmã nós tínhamos as tarefas. Ela morreu eu tinha nove anos, mas a gente tinha tarefa já nessa idade a gente tinha tarefa, de ajudar a cuidar da casa, ajudar na cozinha, enfim ajudar nas tarefas domésticas.

 

P/1 - Tinha alguns costumes da casa do seu pai, da sua mãe que eles passavam para vocês?

 

R - Olha, a minha mãe ela veio da Bahia, a minha mãe era uma mulher negra e ela tinha muitos costumes que hoje eu consigo identificar algumas coisas que se faziam na minha casa que são costumes, por exemplo, na semana santa lá em casa tinha um ritual enorme de comida da preparação e da distribuição. E eu pensei que era uma coisa comum, mas hoje eu identifico que era uma coisa muito particular que vinha da cultura da minha mãe. A minha mãe nasceu em Cachoeira de São Félix, que é uma cidade da Bahia onde as mulheres tem uma tradição muito grande, eu não sei se você já ouviu falar da Irmandade da Boa Morte, que é uma irmandade na Bahia que guarda as tradições das mulheres da África, do interior da África e a minha mãe tem muita coisa disso aí que só hoje... Quando ela morreu eu tinha nove anos e não consegui, naquele tempo eu até nem valorizava muito porque a pressão social para embranquecimento, de esticar o cabelo, de fazer muita coisa para você negar a sua origem, a sua raça e tudo isso que só hoje que eu consigo pela consciência que eu consegui adquirir na vida eu consigo perceber.

 

P/1 - Vera, o que eram esses rituais que você fala, na semana santa. Tinha comidas especiais? O que era isso?

 

R - Tinham comidas especiais feitas com peixe, a forma de fazer, eu tinha uma tia minha que morava próximo e que também era baiana então elas tinham umas coisas que eu não entendia direito porque eu era pequena, mas que tinha a ver com coisas de santo, com obrigação, que eu infelizmente eu perdi isso, naquela época para mim não era valor, hoje é mas eu perdi. E no natal, e assim em algumas ocasiões tinham algumas coisas que eu não entendia muito que era uma coisa mais dos adultos que eu percebia e que hoje eu identifico como algo que devia ter a tradição de fazer e que eu infelizmente perdi.

 

P/1 - Interessante. Eu vou tirar a fita, ela está com o tempo já. E falando assim, você estudou no colégio de freiras, como que ficava, você tinha alguma diferença, você também recebia educação religiosa no colégio, como é que era isso?

 

R - Recebia, você sabe que por algum tempo da nossa histórias as tradições africanas, tinham que ser negadas, teve até um tempo que era questão de polícia. Quem professasse qualquer tradição africana de candomblé, essa coisa era reprimida mesmo e as pessoas eram presas e tal. Então tinha alguma coisa, vamos dizer, de meio segredo do lado da minha mãe que eu não consegui penetrar bastante. Mas ela fazia questão que a gente tivesse, não sofresse nenhuma possibilidade de repressão e tudo isso, então educando num colégio de freiras como as meninas minhas vizinhas. Era um colégio de freiras que educava filhos de pessoas operárias e tal. Então eu estudava nessa escola e aos domingos eu ia à missa das crianças e aí depois tomava café, tinha o catecismo numa outra escola de freiras. Então a formação religiosa tradicional, católica foi uma coisa bastante forte na minha formação. E eu acho que essa coisa hoje tem um valor também assim bastante grande porque você é aquilo que você. Então tem valores que hoje eu vejo no cotidiano serem negados, valores como a solidariedade, o respeito, e que eu acho que essa coisa é muito forte para mim e vem dessa época, dessa educação mesmo que me foi passada pelos meus pais e depois também com certeza pelas freiras no colégio onde eu estudei e tal.

 

P/1 - Vera, você tinha amigas?

 

R - Muitos amigos porque como eu te disse eu morava numa casa de cômodos então eram 30 famílias e todas as famílias tinham filhos e a gente era como irmãos. Uma grande família, a família do Cosme Velho 108 que era o número da casa. Então era como a gente fosse um grupo muito grande de pessoas, uns mais jovens outros mais velhos, outros. E a gente era bem relacionado, tinha muita solidariedade, muito companheirismo, não tinha discriminação entre a gente, tinha preto, tinha branco, tinha menina, tinha menino.

 

P/1 - E vocês passeavam, saíam juntos?

 

R - Mais ou menos, às vezes o meu pai saía com a gente dia de domingo, pegava a gente e botava no carro, levava para passear. Não era uma coisa comum não porque ele tinha que trabalhar, mas às vezes ele saía com a gente, levava para passear. Passeios assim que eu me lembro agora, ir na Quinta da Boa Vista, ir no Horto, assim coisas assim significativas. Mas depois que eu fiquei maiorzinha, adolescente aí a gente saía porque era muita gente, muitos colegas, muitos amigos, aí a gente saía só. Eu morava perto do Corcovado aí a gente sempre fazia caminhada no Corcovado, subindo o Corcovado a pé.

 

P/1 - A pé?

 

R - Era uma coisa assim muito legal, praia, aí a gente saía do grupo de vizinhos, amigos.

 

P/1 - Você tinha paqueras, qual que era a paquera no Rio de adolescente dessa época?

 

R - Olha, eu não paquerei muito não, mas tinha com certeza na adolescência, os amigos, todo mundo tinha o namoradinho e tal, o paquera, todo mundo tinha e eu também. Namorei um boxeador, um rapaz que treinava no Flamengo, eu também praticava esporte, praticava vôlei no Flamengo. E aí assim, tinha uns namoradinhos, tinha uns que eu pensava que era namorado ele não pensava, tinha uns que pensavam que eram meu namorado e eu não sabia, essas coisas (risos).

 

P/1 - Voltando um pouco sobre a coisa da escola, você se formou nesse colégio particular?

 

R - Aí eu terminei o segundo grau nesse colégio particular. E aí nessa época eu queria estudar medicina só como a minha família era uma família de operários, de trabalhadores, o meu pai era policial e naquele tempo como hoje a situação do servidor público. Achei que eu não ia ter condição do meu pai me sustentar numa faculdade de medicina, aí eu fiz o vestibular para Serviço Social e passei. Nessa época foi exatamente no período de 64 eu era vinculada a um grupo que fazia alfabetização de adultos, eu trabalhava como monitora do MEB, um programa radiofônico de educação de adultos.

 

P/1 - O que era MEB?

 

R - MEB, era Movimento de Educação de Base que era do saudoso Paulo Freire. Só que lá no Rio ele era feito pelo rádio. Era um movimento chamado de escolas radiofônicas, assim no começo da década de 70 eu me vinculei com um movimento chamado Juventude Operária Católica que era uma parte da Ação Católica. Eu era vinculada a JOC porque as minhas amizades e tudo mundo era tudo na área operária então eu me vinculei a JOC. E a Ação Católica não sei se você sabe ela tinha cinco ramos: JAC: Agrária, AJEC: Estudante, a JIC: independente e a JOC: Operária e JUC: os universitários. Eu me vinculei a JOC.

 

P/1 - Dentro da JOC o que acontecia, que movimento jovem?

 

R - A JOC era um movimento de conscientização, de conscientização cristã digamos assim dos operários para que eles pudessem levar para o ambiente de trabalho a sua fé. Então eu era vinculada a esse movimento, e nessa época eu fui muito ligada a movimentos ligados à igreja, eu era catequista, eu era do coro da igreja, fui do movimento da Legião de Maria. E conheci a JOC, que para mim foi algo importantíssimo na minha vida.

 

P/1 - Funcionava dentro de alguma igreja?

 

R - Não, era fora de uma igreja, mas era um movimento ligado à igreja, era um movimento de leigos vinculado à igreja. Aí na JOC eu conheci as escolas radiofônicas, precisou de monitor e eu sabia ler, eu era estudante secundarista, sabia ler. Na minha área tinha muita gente que estava na escola comigo, mas poucas pessoas se dispunham a fazer esse trabalho voluntário, que era praticamente um trabalho voluntário porque a gente não recebia salário nem tinha a carteira assinada de alfabetização de adulto. Então desde 1961 eu comecei a alfabetizar adultos.

 

P/1 - Como que era esse ensino radiofônico nessa época?

 

R - A gente tinha uma sala de aula com um monitor e um rádio e os alunos. Aí a aula era transmitida pelo rádio e os monitores como era o meu caso faziam as tarefas com os alunos. O que é que era? Era o método Paulo Freire orientado à distância. Então eu estava na sala de aula e tinha uma professora transmitia a aula que fazia a parte, vamos dizer, de conteúdo da aula e eu fazia a parte prática de acompanhamento dos alunos, das tarefas, discussões. Eu fazia essa parte, vamos dizer, mais prática, mais concreta na sala de aula.

 

P/1 - E você fez essa atividade até quando?

 

R - Até 64, até o golpe militar. Aí no golpe militar todas as pessoas que faziam essas tarefas foram consideradas subversivas. Muitas pessoas que trabalhavam comigo foram presas, torturadas. Eu não fui porque o meu pai era policial então eu fui protegida senão eu acho que eu teria sido também.

 

P/1 - Os seus pais tinham medo?

 

R - O meu pai, sobretudo, na época não tinha mais mãe porque a mãe tinha morrido eu tinha 9 anos e o meu pai também não tinha casado. Mas o meu pai tinha muito medo, medo, vamos dizer, de sujar o nome dele, de ter um subversivo na família. Aí ele me ameaçava: “Olha, eu não sabia que você estava envolvida com movimento subversivo e tal”.  “Mas não tem nada de subversivo, subversivo é o analfabetismo”. Isso que é analfabetismo. Mas aí eu acho que eu fui protegida mesmo porque o meu pai era policial e comigo não aconteceu nada.

 

P/1 - Aí você foi fazer o quê? Você continuava estudando?

 

R - Aí veja bem, aí nessa época, em 64 que eu tomei um pouco de consciência do mundo, da negritude, da vida operária. Então eu mudei de orientação mesmo, eu tinha vontade de fazer medicina então a partir desse conhecimento, dessa relação com os alunos porque a maioria era do Nordeste e do norte de Minas, os operários a quem eu ensinava a maioria era da construção civil e doméstica. Então em razão dessa relação com eles eu fiz um vestibular para Serviço Social. Passei só que quando passei eu disse: “Eu quero ser assistente social de operários.” E o pessoal da JOC me dizia: “Mas como você quer ser assistente social para os operários?”, “Não eu quero estar junto deles.” “Mas como você pode estar junto deles se você não conhece o mundo do trabalho?” Aí o que eu fiz, eu tranquei a minha matrícula e fiquei procurando emprego. Eu disse: “Eu vou trabalhar um ano como operária, conhecer o mundo do trabalho por dentro e depois então eu vou lá e abro a matrícula e decido se é mesmo para os operários que eu quero”.  Só que eu não consegui encontrar trabalho, eu queria trabalhar numa fábrica, eu queria trabalhar num ambiente operário, só que eu não consegui arrumar emprego. E o meu pai ficou muito decepcionado porque eu fui a única pessoa da família que tinha feito até o segundo grau, então ele ficou muito decepcionado e tal ele achava que eu estava querendo fazer subversão e não sei o que. Ele disse: “Então tudo bom, você não quer mais estudar, quer trabalhar, encontra um emprego, você vai ter casa e comida garantida, mas o resto você não vai ter mais nada. Você vai ter que trabalhar para comprar roupa para comprar as coisas que você tem necessidade”. Aí eu procurei, procurei e não achei aí fui fazer aquilo que a minha mãe fazia que era lavar roupa. Aí lavei, por isso que o meu primeiro emprego foi de lavandeira. Aí encontrei uma família que era uma família de um casal de idosos, um casal só e eu comecei a lavar roupa para eles.

 

P/1 - Você ia à casa deles?

 

R - Eu ia à casa deles toda semana pegava a roupa suja, trazia para casa, lavava, passava e entregava e trazia de novo. E assim eu fui tendo dinheiro não precisei mais pedir dinheiro para o meu pai para comprar roupa, para comprar Modess, para comprar nada. Aí eu tinha, podia comprar o meu perfume, podia enfim podia comprar as coisas que eu tinha necessidade sem pedir ao meu pai.

 

P/1 - Quantos anos você tinha mais ou menos?

 

R - Tinha 16, 17 anos. Aí eu também fiquei, quer dizer, eu tomei contato a partir da JOC com um mundo que era um mundo, vamos dizer, que não era o mundo que se retratava dentro da minha casa que a minha mãe nunca foi operária, era doméstica, foi doméstica e o meu pai era motorista de táxi e policial. Então o mundo operário mesmo, a gente vivia de fato como operário, mas sempre na perspectiva de sair de fora, e aí era como se eu tivesse fazendo o movimento inverso de querer voltar para aquilo que os meus pais queriam empurrar para fora. Aí eu assim fiquei procurando alternativa sem me desligar da minha família, mas para ter a minha vida própria. Quer dizer, na verdade eu estou contando a vida toda.

 

P/1 - Não, faz parte não tem problema.

 

R - Aí eu encontrei um grupo de pessoas. Aí, veja bem, eu ensinava numa escola, o Colégio Sion, você já deve ter escutado falar que é um colégio que educava a fina flor da burguesia carioca, mas que tinha um espaço que era para as obras de caridade e dentro as obras de caridade tinha a alfabetização de adultos através da escola radiofônica. Então quando o movimento, quando a repressão baixou em 64 então a escola radiofônica foi fechada, mas eu tinha uma turma de quase 60 pessoas que tinha um compromisso com elas independentemente do governo ser militar ou civil. Então eu disse para elas: “Se vocês quiserem, deixa passar essa confusão, eu vou continuar a alfabetizar vocês”. Aí eu continuei, não tinha mais a escola radiofônica, aí eu tive que pegar o método Paulo Freire e eu mesmo preparar as aulas, preparar as discussões e tal. Aí eu comecei a ensinar por conta própria e guardei uma relação muito grande com o Colégio Sion. Aí tinha algumas freiras, algumas freiras queriam me ver pelas costas porque diziam que a gente estava manchando o nome do Sion, levando operário, doméstica para a escola que era a escola da fina flor da sociedade. E outras freiras não, achavam que era ótimo, que tinham que abrir o Sion. E a gente em determinado momento, em 65 a gente fez uma festa de São João com uma turma, a turma de alunos a gente fez uma festa de São João e nessa festa, na avaliação dessa festa as pessoas diziam que vieram do Nordeste, que não tinham onde se divertir, algumas pessoas iam para a prostituição, etc. Então a gente decidiu formar um clube, fundar um clube que a gente chamou Grêmio Recreativo Quarto Centenário que funcionava dentro do Sion. Então durante a semana tinham as aulas à noite e no domingo à tarde a gente usava a quadra e usava uma sala lá que era o clube, a gente fazia dança e tal. Eu me envolvi muito com essa coisa, me envolvi muito. E num desses dias lá no Colégio Sion eu conheci um padre que era um padre operário francês, Paul Galtier que estava vindo, ele participou do Conselho Ecumênico e veio com um grupo que eles chamavam Companheiros de Jesus, eles vieram para o Brasil a chamado do Bispo de Vitória Dom José Batista da Motta Albuquerque e ficaram morando em Vitória no Espírito Santo e vieram fazer uma conferência no Sion, no Sion do Rio. Aí a madre superiora levou lá nesse clube onde a gente estava dançando, aí pronto, foi toda uma relação que se estabeleceu, uma amizade e aí depois em 67, final de 67 eu saí do Rio da casa dos meus pais e fui morar nessa comunidade lá no Espírito Santo.

 

P/1 - Como é que chamava a comunidade?

 

R - Comunidade de Companheiros e Companheiras de Jesus. Era um grupo de pessoas que aí, poderia ter tomado o caminho de ser no futuro de ser uma congregação religiosa, mas na verdade não tomou esse rumo. Era um grupo de pessoas que trabalhavam e faziam a relação entre o seu trabalho, o seu cotidiano e o evangelho. Era vinculado a esse bispo e dentre os membros tinha um que era padre operário, que era Paul Galtier que depois voltou para a França e ficou um outro chamado Tilder Santiago, que hoje é deputado federal do PT em Brasília, de Minas Gerais.

 

P/1 - Em que estado que ficava?

 

R - No Espírito Santo. A gente morava na Ilha do Príncipe no Espírito Santo, eu trabalhava, aí eu fui realizar aquele meu projeto de trabalhar numa fábrica. Porque até então eu não tinha conseguido um emprego numa fábrica como eu queria.

 

P/1 - Aonde você foi trabalhar?

 

R - Aí fui trabalhar numa refinaria de açúcar, eu empacotava açúcar como operária dessa usina que era um trabalho operário e tal. E nessa época, aí já 68 foi aquele momento que teve aquela passeata grande lá no Rio tal e tal. Eu tinha ido ao Rio visitar o meu pai e me deram um livrinho mimeografado que tinha que guardar com muito cuidado porque era subversivo e tal chamado “Até quarta Isabela”, foi um livro, uma carta que Francisco Julião das Ligas Camponesas daqui de Pernambuco fez para a filha dele, Isabela, quando ele teve que se exilar. Foi um livro mimeografado que eu levei do Rio para o Espírito Santo, lá li com todo o cuidado. Aí me apaixonei pelo Nordeste, eu já tinha todo aquele contato com o pessoal e tal. Aí a partir daí o grupo do qual eu participava também leu o livro e nós decidimos sair do Espírito Santo e vir para o Nordeste. É por isso que eu cheguei aqui, aportei aqui.

 

P/1 - Em Pernambuco direto?

 

R - Aí não, como foi a nossa vinda, que era também era um momento muito difícil, momento do AI-5 e tal. Também a gente veio pela via igreja, o bispo de lá Dom João Batista da Motta Albuquerque a gente discutiu com ele e disse para ele que a gente estava a fim de vir para o Nordeste por quê? Porque naquela época eu não sei se você está lembrada acontecia a guerra do Vietnã. E no Vietnã tinha o Vietnã do Norte e o do Sul, tinha Saigon e Hanoi, e naquela época nós acreditávamos que poderia acontecer nesse Brasil uma ruptura entre o norte e do sul então nós queríamos ficar em Hanoi. Que a gente chamava de Hanoi que era o Nordeste. Então foi por isso que nós viemos para cá, assim um negócio bem de adolescente cheio de ilusão. Aí viemos para cá um grupo de pessoas, esse grupo de Companheiros de Jesus que não era muita gente, eram três mulheres e quatro homens, era um grupo pequeno. E viemos, e a gente veio para a Paraíba inicialmente porque Dom João Batista da Motta Albuquerque fez o contato com Dom José Maria Pires, que era bispo, o chamado Dom Pelé, que de Pelé não tinha nada. Ele fez um contato com ele dizendo que tinha um grupo de pessoas, de jovens que estavam querendo ir para o Nordeste e tal, mas que... Se a gente era pessoa idônea precisava receber, precisava apoiar, precisava achar um trabalho, uma casa e tal. Fez uma carta tanto para Dom Hélder quanto para Dom José Maria Pires. Só que quando nós viemos Dom Hélder não estava em Recife, estava viajando, então nós fomos a João Pessoa encontramos Dom José Maria Pires e ele topou. Topou nos receber e aí ele fez um contato com o vigário lá de Aliandra que é uma cidade do interior da Paraíba, aí nós viemos, moramos um tempo na Paraíba.

 

P/1 - Nessa cidade Aliandra? Que ano vocês chegaram mais ou menos?

 

R - 68, final de 68, finalzinho mesmo início de 69. Aí nós ficamos 69 e 70. Em 70 a repressão era muito forte aqui no Nordeste e o pessoal lá dessa cidade que a gente morava, que a gente já tinha feito contato, o pessoal do sindicato dos trabalhadores rurais discutiu com a gente e disse: “Olha, vocês tem que sair daqui porque aqui a repressão é muito forte e vocês são tudo de fora”. Porque eu era carioca e morava com duas francesas, aí tudo que não era, a gente era tido como subversivo porque uma carioca sair para morar no interior do Nordeste no campo para plantar, a gente fez uma granja, criava galinha, plantava uma horta. E nisso, e isso que era uma coisa muito comum era tido como uma atividade subversiva. Aí nós saímos da Paraíba e viemos aqui para o Recife, foi por isso que eu cheguei aqui em Pernambuco.

 

P/1 - Foi em que ano, 1970?

 

R - Em 70 aí nós chegamos aqui, aí fui trabalhar numa fábrica de novo.

 

P/1 - Fábrica de quê?

 

R - Numa fábrica de fiação e tecelagem.

 

P/1 - Como é que chamava?

 

R - Fábrica Santista. A Santista veio para cá, ela estava chegando aqui no Nordeste, em Recife, nem era Recife era em Paulista já, noutro município. Aí eu me apresentei e tal, fui selecionada e trabalhei lá como fiandeira. Só que aconteceu uma coisa, quando eu morava em Aliandra a gente fez uma amizade muito grande com o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais, Seu Molandi, que é uma pessoa assim que eu amo mesmo como meu pai, a família toda. E ele tinha vários filhos e tinha um filho de 18 anos chamado Paulo e Paulo ficou doente de repente, ninguém sabia o que era, um determinado dia lá ele disse: “Olha, Paulo está muito doente e a gente tem que levar Paulo para o médico.” “Não, a gente está fazendo um chá.” “Tem que levar ele para o médico, tem que saber o que ele tem.” E quando nós fomos levar nós acompanhamos, o Seu Molandi, a mulher dele, o Paulo que estava doente e eu fui acompanhando. E a gente morava em Aliandra que é uma cidade da Paraíba que fica na divisa Pernambuco-Paraíba, bem na divisa, de um lado é Aliandra do outro lado é Goiânia, é uma cidade de limite. A gente então veio trazendo o Paulo de Aliandra para Goiânia, quando estávamos chegando quase em Goiânia, Paulo morreu. Paulo morreu e eu fiquei desesperada porque era um rapaz de 18 anos e que era a mão dos pais deles, que trabalhavam no campo e tal, um rapaz muito legal e ele morreu e eu me senti assim, puta: “O cara morre aqui, 18 anos na minha frente e eu não sou capaz de fazer nada.” Então a partir da morte de Paulo eu decidi que eu ia fazer qualquer curso na área de saúde. E aí quando a gente veio para Recife eu fui trabalhar numa fábrica, mas busquei fazer um curso na área de saúde e decidi fazer enfermagem, só que ainda naquela visão obrerista daquele tempo eu decidi no lugar de fazer enfermagem a nível superior que ia demorar muito. Aí veja bem, eu acho que eu estou talvez detalhando muito, só para dizer até como a gente se conheceu, como é que foi essa relação Paulo comigo, quando eu vim do interior daqui da Paraíba eu fui morar num bairro chamado Córrego do Jenipapo, que era um bairro na saída do Recife. Um bairro também operário na saída de Recife, um bairro ainda com muita tradição do interior, vamos dizer, era a ponta da rua mesma. E nesse bairro quem morava? Moravam famílias que vieram do interior e operários da fábrica de fiação e tecelagem Macaxeira. Nesse bairro eu me vinculei ao Movimento Encontro de Irmãos, que era um movimento da igreja, de Dom Hélder, um movimento de evangelização chamado Operação Esperança. E naquele tempo, 70, 71 a repressão ainda com toda força e tudo vivo que existia era tudo que existia dentro da igreja, a igreja era o grande guarda-chuva para todo mundo. E aqui no Córrego do Jenipapo eu era ligada a esse grupo de evangelização e também fui fazer um curso de técnico em enfermagem e tal, comecei a trabalhar, trabalhava no Hospital Pronto-Socorro de Recife. E comecei a fazer pequenos atendimentos no bairro, não tinha farmácia no bairro, então precisava aplicar uma injeção eu aplicava, se tinha um curativo eu fazia, se as pessoas tinham um remédio que o médico receitava que vinha se informar comigo como tomar e tal. Aí eu fiquei sendo um pouco a referência das pessoas do bairro para a saúde. E a gente decidiu já bem depois, porque aí tem muito detalhe, eu saí de Recife e fui morar no Ceará, meu filho nasceu no Ceará, depois eu voltei para Recife, para o Córrego. Já em 78, 77, 78 ainda no Encontro de Irmãos a gente decidiu fazer um grupo de saúde porque eu disse: “Olha, tem que ensinar outras pessoas a aferir uma pressão, fazer uma injeção, fazer um curativo, tem que ensinar outras pessoas para fazer.” Aí eu comecei fiz um grupo, que a gente chamava Grupo de Saúde no Córrego para ensinar as pessoas a fazer pequenos atendimentos de emergência. A gente fazia isso no Córrego do Jenipapo, mas em outros lugares também as pessoas faziam também isso, e a gente começou a se reunir uma vez por mês, bancado pela igreja ainda, Encontro de Saúde, era um encontro mensal que reunia pessoas que trabalhavam com saúde nos mais diversos bairros de Recife. E lá no Córrego do Jenipapo foi nascendo esse movimento, cresceu, a partir dele fizemos um conselho de moradores e a partir disso aí se fez um movimento de saúde que aí já conecta com o Paulo. Eu conheci Paulo, ele era estudante de medicina e que foi trabalhar no projeto de saúde da Casa Amarela, no Córrego do Jenipapo, no conselho de moradores. Aí já conecta com ele essa época. Isso a experiência, vamos dizer, do ponto de vista mais de saúde comunitária. Do ponto de vista da coisa formal eu trabalhei eu sou vinculada ao Ministério da Saúde eu sou concursada e tal. Trabalhei muitos anos como técnica de enfermagem nos hospitais da rede pública de saúde. E a partir desse trabalho eu fui dirigente sindical também. Depois senti necessidade de estudar direito, aí eu fiz o curso de direito. Depois que eu fiz o curso de direito eu fiz uma especialização na área de trabalho, a minha especialização de direito de trabalho. Depois na área de direito de trabalho eu fiz outra especialização em negociação em pós-graduação em negociação. E querendo fazer o cruzamento entre trabalho e saúde porque eu nunca saí da área de saúde, mesmo sindicato, mesmo dentro do hospital eu sempre tive a ligação saúde trabalho, eu sempre quis fazer essa ligação. Aí eu fiz um curso de direito sanitário que tem tudo a ver. De 88 para cá com a nova constituição e tal. Aí que acaba ligando tudo, a questão comunitária, do trabalho, com a ajuda das pessoas.

 

P/1 - Quando você reuniu esse grupo dentro do Córrego do Jenipapo você começava a passar informações para as pessoas?

 

R - A gente se reunia uma vez por semana, a reunião era reunião de Encontro de Irmãos. Aí o Encontro de irmãos o que fazia? Lia o evangelho e tentava aplicar aquele evangelho na nossa vida do bairro. Aí por conta do evangelho a gente via que tinha que cuidar do lixo do bairro, que calçar o bairro, que fazer escadarias, que garantir uma escola pública se segundo grau no bairro. Aí para fazer tudo isso precisava ter uma entidade que nos representasse, porque extrapolava o Encontro de Irmãos. Aí a gente fundou um conselho de moradores do Córrego do Jenipapo que existe até hoje e que funciona muito bem e é atuante.

 

P/1 - E dentro da área saúde lá no Córrego do Jenipapo você atuava mais diretamente porque você falou que ensinava alguém a fazer.

 

R - Aí a gente tinha esse grupo de saúde. Esse grupo de saúde se encontrava uma vez por semana onde as pessoas aprenderam a verificar a pressão, aprenderam a fazer curativo, enfim no primeiro momento era uma discussão era muito mais em fazer alguma coisa pra alguém. No segundo momento era a saúde não é só isso, isso aí é doença, a gente está cuidando da doença, a gente tem que cuidar da saúde. Para cuidar da saúde a gente fez toda a discussão do saneamento do bairro, aí foi, quer dizer, deu outra dimensão e a partir disso aí evoluiu para o conselho de moradores.

 

P/1 - E como é que você conheceu o Paulo?

 

R - Eu conheci Paulo porque ele foi trabalhar como médico lá no conselho de moradores lá no Córrego do Jenipapo, ele foi trabalhar como médico. Ele foi fazer a parte assistencial aí ele tomou contato com toda uma área que é uma área que fugia do trabalho, vamos dizer, da universidade, que é o trabalho comunitário mesmo, o trabalho de saúde na comunidade. Porque naquele momento o modelo de saúde era o modelo de saúde cujo centro era o hospital e a gente dizia: “Não, a saúde, ela tem que sair do hospital, se a gente quiser trabalhar saúde não pode trabalhar no hospital porque no hospital você trabalha doença, tem a ver com a saúde, mas é doença, não é saúde, a saúde é fora do hospital. Então a gente tem que lutar para ter condições de vida e de trabalho para que a gente não adoeça. E quando adoeça a gente quer ter hospital de boa qualidade para atender as necessidades.” Eu participei de todo o movimento da chamada Reforma Sanitária que foi um movimento ainda da década de 70 que aconteceu no Brasil todo que era exatamente o movimento que fazia com que as pessoas tomassem consciência sanitária, da realidade sanitária do país. Porque você sabe que nesse período aqui existiam três tipos de pessoas: as pessoas que podiam comprar serviços de saúde, então compravam e compram até hoje, aqui, em São Paulo, em Bruxelas, na França, onde tiver oferecendo eles vão lá e compram. Tinham as pessoas que tinham carteira assinada que eram as pessoas do INPS e que eram um número reduzido porque até hoje um número muito grande de trabalhadores trabalham numa empresa formal e não tem carteira assinada. E aí quem não tinha carteira assinada até 88 não tinha direito ao serviço público da saúde, só quem tinha direito ao serviço público de saúde é quem tinha carteira assinada que aí usava o serviço do INPS que depois ficou INAMPS. E tinha a imensa maioria da população que o serviço de saúde era caridade, eram os chamados indigentes. Então esses viviam da caridade das Santas Casas de Misericórdia, dos diversos, até de umas que não eram nem filantrópicas eram “pilantrópicas” porque as pessoas constituíram, vamos dizer, entidades hospitalares para prestar caridade, “pilantropia”, mas acabou enriquecendo algumas pessoas. Então esses faziam “pilantropia” em lugar de filantropia. Então, quer dizer, essa realidade sanitária, a consciência disso aí, que o Sus é o produto dessa consciência sanitária. O SUS é produto disso porque foi essa consciência sanitária que nos mostrou que nós vivemos num país onde a saúde muita ambigüidade. As pessoas não eram tratadas com respeito, a saúde não era direito, a saúde só passou a ser direito a partir de 1988 com a constituição federal, que por sua vez absorveu todas as idéias produzidas pela 8ª Conferência Nacional de Saúde que aconteceu em 1986.

 

P/1 - Em Brasília?

 

R - Em Brasília, da qual participou o pessoal do Córrego do Jenipapo, o pessoal de várias localidades daqui de Pernambuco, de Pernambuco fomos 40 pessoas para a 8ª  Conferência Nacional de Saúde, 40 pessoas de bairro, todas as pessoas vinculadas à comunidade.

 

P/1 - De Pernambuco?

 

R - De Pernambuco, fomos um ônibus como 40 pessoas, dormimos lá no chão do apartamento do Roberto Freire, que hoje é senador da república e participamos desse projeto para...

 

P/1 - Quais foram os principais pontos discutidos na 8ª Conferência?

 

R - Os principais pontos?

 

P/1 - É.

 

R - Primeiro deles é que saúde é direito de todos e dever do estado, esse assim foi o principal. Dentro desse princípio discutíamos que a saúde ela tem que se reger por princípios. Princípios, o primeiro deles é o princípio da universalidade então tinha que acabar com a história do indigente, todas as pessoas, independente de trabalhar ou não trabalhar, de ser preto ou ser branco, mulher ou homem tinha que ter direito a saúde, a universalidade. O segundo deles o da integralidade, quer dizer, as pessoas têm direito a ter um atendimento todo atendimento que ela tem, desde uma puericultura que é a coisa mais simples até uma tomografia computadorizada. Por exemplo, hoje quando você estava entrevistando o Paulo eu fui à Secretaria de Saúde para fazer valer o direito de uma usuária de Camaragibe que tem necessidade de uma tomografia computadorizada e o município não tem esse tipo de exame aqui e que precisei ir lá para fazer valer o direito dessa munícipe de Camaragibe para garantir a liberação desse exame para essa munícipe daqui. Então a integralidade do atendimento, a participação popular porque a gente foi participar da 8ª Conferência para colocar que nós não queríamos mais ser, vamos dizer, espectadores da saúde, nós queríamos ser sujeitos da nossa própria saúde. Para isso a gente tinha que participar com poder de decisão da vida da saúde, então os conselhos de saúde que hoje existem eles não foram presentes nem do governo nem dos parlamentares nem de ninguém, foi fruto da nossa luta.

 

P/1 - Vera, lá no Córrego do Jenipapo quando você começou essa atuação quais que eram os principais problemas que tinham em termo de saúde.

 

R - Os problemas?

 

P/1 - O principal problema era o lixo porque era um bairro, era um bairro popular e o caminhão passava uma vez por semana quando passavam. As pessoas não podiam guardar o lixo em casa então o lixo ele era colocado num local que acabava sendo espalhado por porco, cachorro, pessoas. Então o lixo era um dos principais problemas. Depois era o calçamento das ruas, as ruas não eram pavimentadas, porque o Córrego do Jenipapo é um bairro como Camaragibe cheio de altos e baixo, córregos e morros. Então as pessoas que moravam no morro, elas tinham muita dificuldade com o acesso que era difícil não tinha escadaria. E as pessoas que moravam no córrego embaixo tinham muita dificuldade porque do alto descia tudo, descia lixo, descia enxurrada, descia terra, descia tudo. Então a pavimentação das ruas e o acesso das escadarias. Depois a qualidade da água, depois a questão da educação. A gente batalhou e conseguiu uma escola de segundo grau para o bairro e tal, depois a questão do lazer. Uma luta muito grande lá do Córrego do Jenipapo foi o acesso à terra porque o Córrego do Jenipapo ele está dentro de uma região do Recife numa região que a gente chamava de terra de ninguém. Porque de repente apareceu um dono dessa terra aos quais nós pagávamos um foro, de repente a gente descobriu que a gente pagava um foro para pessoa que não era dona da terra. Aí foi criado um movimento em Casa Amarela chamado Movimento Terra de Ninguém onde nós lutamos para a legalização da posse da terra, hoje então todo mundo que mora no Córrego do Jenipapo é dono do seu pedaço de terra, ele mora no chão que é seu, mas durante muitos anos nós pagamos foro. A legalização da terra também foi uma luta que nós travamos. E tudo isso eram coisas que iam juntando, você não pode imaginar saúde sem pensar em condições de moradia, sem acesso à terra para morar, para plantar, sem alimentação, sem um política salarial, sem direito à informação, sem lazer, você não pode imaginar saúde sem isso.

 

P/1 - E tinha endemias ou epidemias?

 

R - Não, tinha o que tem em todo bairro popular. Muita diarreia, muita parasitose. Por quê? Hoje eu avalio que a qualidade de vida das pessoas, ela tem deteriorado bastante porque não existe uma política salarial adequada, porque as condições de moradia alguns municípios começam a melhorar, mas em muitos municípios ainda tem dificuldade. Então tinham as doenças que tinham normalmente, tinha muito problema de aparelho cardiorrespiratório, muito problema de estresse já naquela época, pessoas com hipertensão arteriais. E muita criança com parasitose que é doença de menino mesmo, bicho grande, muito verme que são doenças próprias da pobreza.

 

P/1 - Me passou uma coisa pela cabeça eu não sei se eu estou certo. Existe entre o pessoal mais simples assim, vamos dizer assim, algumas crendices a respeito de algumas doenças que teve esclarecer, alguma coisa assim?

 

R - Tinha aquela cultura que se uma mulher tem três filhos e morre dois aí foi Deus que quis, então a gente fazia todo o discurso contrário porque Deus quer a vida e não a morte. Então a gente fazia essa fala, era uma fala muito presente na luta pela saúde, na luta pela vida, Deus não quer. Tinha muita, dado que a população era uma população de origem rural e operária e tal então tinha muita coisa com planta medicinal, às pessoas, tanto é que foi desenvolvido um projeto interessante lá no conselho dos moradores com a fitoterapia exatamente pelo acúmulo do conhecimento que as pessoas do bairro tinham no uso das plantas com fins medicinais.

 

P/1 - Como é que se chamava esse projeto? Ele tinha um nome?

 

R - Esse projeto estava dentro do projeto geral de saúde de Casa Amarela, mas depois ele evoluiu e tinha muito a ver com o padre que estava na paróquia que era uma pessoa que acreditava no trabalho de saúde popular e que hoje o pessoal de lá de Casa Amarela está ligado ao Centro Nordestino de Medicina Popular que trabalha com fitoterapia, especificamente com fitoterapia. Tem um médico que também trabalhou lá no Córrego chamado Severino Cariconde, que mexe com fitoterapia e ele também trabalhou um tempo lá com a gente ligado mais à paróquia. E hoje continua, o pessoal tem uma área que planta, planta ervas medicinais, onde beneficia, tem uma farmácia onde as pessoas fazem pomadas, fazem xarope, fazem...

 

P/1 - Os próprios moradores?

 

R - Os próprios moradores do Córrego do Jenipapo.

 

P/1 - Oh Vera, como é que você estabeleceu o seu primeiro contato com o PACS? De ouvir falar...

 

R - Veja bem, na época em que a gente fazia esse trabalho lá de saúde comunitária, que não tinha nem esse nome, tinha saúde do bairro, saúde do conselho, saúde de Casa Amarela e tudo mais, não existia PACS. E muitas pessoas que hoje estão trabalhando no PACS, são agentes comunitários de saúde eles já faziam esse trabalho voluntário na comunidade, quer dizer, eles voluntariamente trabalhavam para a promoção da saúde na comunidade que não tinha nenhum apoio do governo nem de nada, era só um trabalho voluntário. E essa coisa evoluiu no sentido que essas pessoas que eram pessoas de bairro, que trabalhavam no bairro para a promoção da saúde é que essas pessoas um dia viessem a ser remuneradas e reconhecidas, inclusive, que o seu trabalho fosse reconhecido como um trabalho importante para a saúde fora do modelo hospitalocêntrico, fora do modelo onde o hospital era o centro, entendeu? É outro modelo de saúde, é o modelo de promoção à saúde não um modelo de cura de doença, cura de doença vai sempre existir, mas ela não pode ser o principal se você quiser promover a saúde. Para promover a saúde você tem que trabalhar outras coisas, políticas públicas, outras políticas sociais para promover a saúde para que as pessoas não adoeçam, agora se ela adoecer aí o sistema de saúde tem que estar pronto para receber a pessoa, recuperar a saúde e devolvê-la à sociedade. Então essa era a nossa idéia então posteriormente o Ministério da Saúde concebeu um programa, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde que fazia exatamente esse trabalho, de reconhecer que aquelas pessoas que moravam no bairro que eram reconhecidas pelo bairro como pessoas que tinham interesse em saúde elas vieram a ser reconhecidas e hoje o programa está posto e como se diz, as pessoas se vinculam a ele, não é um emprego porque elas não tem vínculo empregatício, mas são pessoas que se habilitam. São pessoas primeiro que tem que ter um vínculo com a sociedade, com o bairro onde trabalha e mora, segunda ela tem que ser selecionada, terceiro, ela faz uma capacitação e ela começa a trabalhar naquilo que ela sempre fez. A minha vinculação com o PACS é, desde o começo, desde antes PACS, do pré PACS, na década de 70 quando a gente reunia pessoas de bairro para tratar da promoção da saúde, ainda não tinha PACS naquela época, não sei nem como que era, pré PACS. Não tinha nem nome.

 

P/1 - Era um trabalho de base mesmo.

 

R - Era um trabalho voluntário, e a gente dizia: “A gente não quer na saúde ser tratado como espectador a gente quer ser sujeito da própria saúde.” Então a história dos conselhos, a participação popular, o poder deliberativo dos conselhos, tudo isso é fruto dessa consciência que se fez ao longo dessa trajetória sanitária que eu falei que era um movimento que teve inspiração na reforma sanitária italiana. Que tem características diferentes da reforma sanitária brasileira mas que tem em comum a participação da sociedade. A sociedade, os movimentos sociais serem parte da deliberação da saúde por serem aqueles que recebem o que alguns técnicos vão pensar que é bom para a saúde da gente. Por exemplo, em Camaragibe tem um conselho municipal de saúde que se reúne de 15 em 15 dias e as grandes deliberações em saúde são feitas pelo Conselho Municipal de Saúde. O Conselho Municipal de Saúde que no final de 1994 deliberou avaliando as quatro primeiras equipes do programa de agente comunitário de saúde que tinha que expandir, que avaliou que tinha que evoluir de agente comunitário de saúde, de médico da família para um programa de saúde da comunidade. Tudo isso foi deliberação tomada no Conselho Municipal de Saúde com a participação da sociedade.

 

P/1 - Vera, me fala uma coisa, como que você veio parar aqui na prefeitura?

 

R - Como eu vim parar na prefeitura. Como eu te disse eu sempre estive vinculada à área de saúde, eu já fui conselheira estadual de saúde, eu era sindicalista, eu fui representante da Cut no Conselho Estadual de Saúde por quatro anos. E sempre tive uma vinculação muito próxima daqui do município do Paulo, da equipe que trabalha com o Paulo. A minha vinculação com ele é desde o Córrego do Jenipapo. E quando o Paulo foi eleito ele criou um cargo, aliás, em todas as secretarias do município foi criado o cargo de secretários adjuntos. E a gente já tinha relação por conta do conselho estadual de saúde, eu trabalhei na capacitação de conselheiros, usuários e trabalhadores da saúde para que realmente a gente pudesse exercer plenamente o papel de conselheiro fazendo o controle social sobre a saúde, fiz isso no estado todo, ajudei a criar uma entidade daqui de Pernambuco chamado coletivo de conselheiros de saúde chamado Cosape. Então essa coisa sempre me deixou próxima, muito próxima dos municípios. O pessoal do conselho era tudo amigo e tal. Quando o Paulo foi eleito prefeito eu fui convidado pela equipe da secretaria de saúde, por Cristina, pelo conjunto para compor a equipe na qualidade de secretária adjunta de saúde.

 

P/1 - O que você faz exatamente?

 

R - Bom, eu hoje eu secretario quando a Cristina está viajando. Exatamente eu faço todo o trabalho de promoção da saúde dos mais de 120 mil munícipes de Camaragibe. Quer dizer, junto com Cristina eu tenho a responsabilidade de fazer a promoção e a recuperação da saúde de todas as pessoas que moram e trabalham em Camaragibe. Eu componho o corpo de secretários municipais daqui do município.

 

P/1 - Você acompanha o PACS aqui em Camaragibe?

 

R - Acompanho.

 

P/1 - Como que você acompanha, assim? Você vai até os lugares também? Como que é?

 

R - Veja bem, o programa de saúde da comunidade porque aqui em Camaragibe a gente tem os agentes comunitários de saúde, o PACS e a gente tem o programa de saúde da família. No programa de saúde da família ele tem uma equipe, um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e um auxiliar de serviços gerais. Junto com essa equipe têm em torno cinco agentes comunitários de saúde que são responsáveis pelo acompanhamento em torno de mil famílias de uma região. Nós temos 16 equipes de saúde da família, então a saúde da família é a porta de entrada, vamos dizer, no sistema de saúde de Camaragibe, as pessoas de Camaragibe quando elas procuram o serviço de saúde elas procuram a partir do programa de saúde da família que está instalado em 95% do município. A gente está agora batalhando, trabalhando para ampliar mais oito, dez equipes para que a gente possa dar uma cobertura de 100% do município com programa de saúde da família. Agora como é que a gente acompanha isso? A gente acompanha isso supervisionando, se aproximando, discutindo o aprimoramento mesmo do trabalho que é feito pelas equipes. Quer dizer, a equipe de saúde da família ela faz parte de uma grande família que é a equipe toda da secretaria de saúde da qual participam os agentes, os médicos, os enfermeiros, a secretária de saúde, a adjunto, as diretoras, da qual participa toda a equipe da Secretaria de Saúde.

 

P/1 - Em termos daqueles equipamentos que a Abifarma doou? Teve algum impacto no programa?

 

R - Teve, teve sim. Eu até peguei alguns números aqui que pode interessar para você. Veja bem, os equipamentos chegaram aqui no município em fevereiro. Em fevereiro é que chegou o kit que foi doado pela Abifarma. E o kit o que é que era? Era a bata, era a fita métrica, era o termômetro, era o timer pra medir o tempo para fazer, para medição da respiração das crianças, a balança e a bicicleta. Então eu peguei um dado aqui que é significativo, esse dado ele se refere de janeiro a abril de 1997 desse ano. Em janeiro nós tínhamos só 59% das crianças pesadas, aliás com vacina em dia nós tínhamos 59.7% das crianças com vacinas e pesadas a gente tinha só em torno de 15%. Em abril nós pulamos de 15% para 67.1 de crianças pesadas no município, de zero a um ano. Então, quer dizer, é significativo. Também é significativa a cobertura de vacinação, porque na hora em que você vai à casa que você pesa, que você acompanha a criança você também acompanha a vacinação. Então tinha 59.7 e pulou para 71.7. Então a gente considera que foi significativo o aporte do kit. Crianças maiores de um ano, entre um ano e dois anos vacinadas eram 66.6 hoje em abril 79.5 e pesadas eram 9.1 e pulou para 54.4. E assim, o relato que a gente tem das equipes, dos agentes comunitários de saúde é que na hora que o agente comunitário chega para pesar é uma festa porque as mães trazem os filhos e aí é o momento mesmo da relação dos agentes comunitários com as mães e o acompanhamento das crianças. Então a gente considera assim. E outra coisa é o seguinte, quer dizer, até janeiro a gente não sabia o número de crianças desnutridas maiores de um ano, entre um e dois anos que tinha aqui no município. Então a partir de janeiro com esse novo aporte a gente já sabe que 6.25% das crianças de um a 24 meses, 23 meses, menor de dois anos são desnutridas. Então isso possibilitou um trabalho de acompanhamento dos agentes comunitários de saúde dessas crianças. Então com certeza esse kit, ele impulsionou o trabalho, aprimorou o trabalho, aproximou os agentes da comunidade. Também possibilitou às mães maiores informações sobre os seus filhos então foi muito importante.

 

P/1 - Fantástico. Vera, o nosso tempo está encerrando, eu agradeço muito a ajuda sua, foi muito importante, obrigada.

 

R - Tudo bom. 

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