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História

Projetos sociais precisam de visibilidade

História de: Tarcísia Mônica Mazon Granucci
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2014

Sinopse

A empreendedora social Tarcísia narrou sua história ao Museu da Pessoa em novembro de 2014. Em seu depoimento, ela conta a origem de sua família e como seu pai conseguiu construir um grande grupo de transporte a partir de uma linha escolar entre as cidades de Conchal e Mogi Mirim na década de 1950. Falou sobre as brincadeiras de infância e o interesse por trabalhos sociais quando integrava o Interact de Mogi Mirim. Relatou a experiência que teve ao morar por um ano na Austrália, fazendo intercâmbio através do Rotary. Contou como conheceu seu marido, sobre o namoro e o casamento do qual resultou quatro filhas. Ela se interessou pelo trabalho social no início do casamento quando morava numa localidade chamada Ubá, pertencente a Itirapina onde foi morar depois de casada. Ela contou como surgiu a ideia de criar o ICA e o início de suas atividades. Falou sobre os projetos desenvolvidos pelo ICA e como o Criança Esperança foi importante para dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos pela entidade.

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História completa

Meu nome é Tarcísia Mônica Mazon Granucci. Eu nasci no dia 11 de janeiro de 1960, em Mogi Mirim. Meus pais são Eugênio Mazon e Sofia Idalina Mantovani Mazon. Eles também nasceram em Mogi Mirim. Meu pai era filho de agricultor e foi agricultor por muito tempo. Depois se transformou num empresário de empresa de ônibus. Ele entrou no ramo dos transportes. A história do meu pai é muito querida, muito bacana porque ele era um agricultor por um bom tempo e ele mudou pra uma cidade próxima aqui que é Conchal, uma cidadezinha pequena e a prefeitura de Conchal precisava trazer os estudantes de Conchal pra Mogi Mirim, porque a partir da quinta série só existia escola aqui em Mogi Mirim pra esses alunos. Então ele sempre muito empreendedor e visionário, ele falou: “Poxa vida, tem uma oportunidade de eu sair do campo, do serviço mais pesado”. Ele comprou uma Perua Opel de madeira, na época era uma perua, você imagina, isso foi em 54, 1954, e ele começou a transportar essas crianças de Conchal pra Mogi Mirim. E iniciou então a empresa que hoje é Viação Santa Cruz, o Grupo Santa Cruz. Meus pais tiveram 11 filhos. Segundo os meus irmãos mais velhos, eu nasci em berço de outro, porque sou a caçula.

Meus avós vieram na primeira imigração, de navio, foi a primeira imigração. E minha mãe também. Eles nasceram no Brasil, mas os avós são italianos. Nessa época quando eu nasci o dinheiro ainda não era tão constante, então eram cinco homens e seis mulheres. Então as seis mulheres dividiam um quarto. Então era muita mulher, um quarto gigante, que na época parecia gigante. Os meninos ainda tinham um quarto pra três e um quarto pra dois, e o quarto da minha mãe e do meu pai. Eu tive uma bronquite na minha infância, isso pra mim foi muito forte, e eu tinha falta de ar, meu Deus, a família toda muito preocupada, muito cuidadosa comigo.  Não lembro nenhuma brincadeira em particular, mas assim, éramos muito companheiras de fazer comidinha, brincar de casinha, de bonecas. Depois numa idade de brincar na rua, aquele momento que você brinca um pouco a hora que volta da escola que a mãe deixa brincar um tempo na rua de queimada, de mamãe da rua, pra depois você chamar pra tomar banho, jantar. Eu vivia descalça então eu tinha uma dificuldade enorme de ir de meia pra escola. Era uma coisa que me irritava demais porque fazia ruguinha no sapato. Então eu tive muita dificuldade de me adaptar no começo na escola. Foi difícil pra mim.

Vida de interior é um pouco isso, você vai pra escola a semana toda e chega no final de semana você quer ir pra brincadeira dançante, você quer encontrar todo mundo. Eu fiz parte do Interact que é um grupo de jovens que se organizam pelo Rotary Club. O Rotary é dos mais velhos e tem esse clube, é um clube de serviço também: “Dá de si antes de pensar em si”. Era o lema do Interact. E era muito gostoso, essa fase nesse trabalho era muito bom, que eu acho que foi dos meus 14 aos 18, eu fui tesoureira, eu fui secretária, a gente aprendia a se organizar, planejar, eventos. A gente fazia campanha de porta em porta primeiro, de bater nas portas: “Eu sou da Interact, a gente está fazendo uma campanha de alimento ou de agasalho...”. E era uma farra. A gente não tinha noção do desdobramento disso. Era muito prazeroso estar num grupo de trabalho e poder fazer isso. Então a gente acordava cinco horas da manhã, organizava quem poderia ir com os carros, ir a caminhonete pra poder ir carregando essas coisas, dividíamos por bairros pra executar isso. Era um dia de muito trabalho, era muito gostoso. E depois juntava aquela pilha de coisas, tem fotos de tudo isso, de muita coisa e fazendo os pacotes, separando pra levar pras famílias. Então era muito bacana. Era muito bom. Era essa sensação de saber que de alguma forma você está fazendo uma diferença na vida do outro. E por isso também eu acabei indo passar um ano na Austrália como bolsista pelo Rotary Club, que eles fazem esse intercâmbio de jovens. E eu poderia escolher alguns países, mas não sei o porquê eu escolhi o mais longe que tinha que era a Austrália. Eu tinha 16 anos. Comunicava só com carta. Telefone aquela época era horrível e o serviço também era ruim, que o telefone chiava e tudo. Mas eu escrevi muita carta nessa época, recebi muitas cartas dos amigos e tudo. Aquela época ir pro exterior era difícil. Era uma coisa importante, não é como hoje que todo mundo vai. Eu tive uma dificuldade com a volta porque eu praticamente fiquei um ano sem escola. Era muito física, matemática, química, meu Deus, pra mim sempre foi um terror. Então quando eu cheguei eu levei pau na escola já no primeiro ano. Falei que eu tenho um problema com a escola. Acho que por isso que eu presido o ICA também, acho que tem muita influência nisso. Porque eu acho que a criança tem que viver outras coisas, a escola, o modelo da escola não cabe pra todo mundo. Enfim, fiz Letras, na época eu vim com inglês relativamente bom, fui dar aula aqui na escola, no Fisk, dei aula de inglês acho que uns quatro anos. Então eu fui professora nesse tempo. Daí eu me casei, logo depois eu me casei tive quatro filhas, quatro mulheres lindas, queridas, amorosas.  Então, eu tenho uma amiga daqui que tinha mudado há pouco tempo pra Mogi Mirim e ela veio de Itirapina.  Ela falou: “Tarcísia, vamos passar as férias lá que você vai gostar, vai ser bacana. E acho que tem um rapaz lá, ele chama Estélio, acho que tem tudo a ver com você, vocês vão namorar, vai dar certo.” “Ah, vá, nada a ver.” “Não, acho que vai ser muito bacana.” “Então vamos. Vamos pra Itirapina”. E realmente, cheguei em Itirapina, fomos num baile aí Itirapina é menorzinha, menor ainda que Mogi Mirim. Muito, muito pequena, muito pequena. E cheguei lá e estava no clube e o Estélio estava lá. Ele me viu e deixou a menina que ele estava e tal e veio falar comigo: “Oi, Silvia...” que ele conhecia a Silvia que é essa minha amiga que me levou “...e tal, apresenta a sua amiga”. E a gente começou a namorar, naquela época a gente não ficava, mas eu fiquei porque foi uma paixão mesmo, uma paixão. E a gente começou a namorar e o Estélio conta que na primeira noite que a gente saiu no dia seguinte de manhã ele acordou e ele falou: “Meu Deus, essa não vai ter jeito, é com essa mesmo”. Ele fala até uma palavra feia que eu não vou falar. Na época ele tinha 17 e eu tinha 19, quer dizer, éramos muito novos, mas namoramos cinco anos entre muitas idas e vindas e muitas brigas. Ele sem carta vinha pra Mogi Mirim dirigindo, ele tinha um Buggy amarelo na época e vinha de Itirapina pra cá. Nós namoramos cinco anos. Casamos, meu sogro arrumou uma casa pra gente que era uma casa de quatro cômodos, bem pequenininha no meio do mato, numa localidade chamada Ubá.  Ubá fica a seis quilômetros de Itirapina, não é Ubá de Minas, é uma estanciazinha que chama Ubá também. Ele ia trabalhar, eu ficava o dia todo sozinha nessa fase em casa e a gente tinha um Dobermann, cachorro, e eu ia fazer caminhada com o cachorro, na época o cachorro brigava com os outros, eu é que separava essas brigas. Ia buscar leite no sítio também, porque tinha um sítio próximo, eu ia com um latãozinho e com o cachorro que era o meu protetor. Em Ubá tem um lago e tem uma queda d’água, então toda tarde eu ia nesse lugar e tomava um banho naquela cachoeira que era muito gostoso.  Meu marido trabalhava com o pai, com o meu sogro, era filho único e meu sogro tinha uma empresa de tratamento de madeira.

Nos mudamos pra Mogi Mirim e minha mãe era presidente do Educandário. Ela foi presidente lá por algum tempo e toda tarde a gente vinha pra conversar com a mamãe à tarde, pegava as crianças na escola e passava pra tomar café e ver a mamãe e o papai. E ela me falou: “Olha, Tarcísia, eu hoje conversei com algumas mães que estão muito preocupadas porque as crianças vão completar dez anos e o Educandário não fica com eles a partir dos dez anos. Eu já falei lá com a diretoria, tudo, mas mesmo eu sendo presidente, tudo, eu não consigo mudar isso”. Eu falei: “Mãe, vamos fazer a partir daí? Vamos atender essas crianças que saem do Educandário a partir daí? Eu sei que a senhora sempre quis fazer um trabalho assim”. E ela sempre falava: “Quem que vai ser minha filha que vai me ajudar, que vai...”. E ela falou: “E você pega pra fazer, Tarcísia? Porque você tem quatro crianças”. Eu tinha as meninas muito novas ainda, minha caçula estava com seis, a Mirela. Eu falei: “Lógico, mãe. Vamos. Deus ajuda. Vamos fazer que a coisa vai caminhar”. Começamos a pensar nisso. Em um ano o ICA tava pronto, acontecendo, já com 50, 40 crianças. No segundo ano fomos apoiados pela Abrinq, fomos premiados pela Abrinq que era um ótimo reconhecimento na época. Atendíamos então no começo as crianças que vieram do Educandário, todas as de dez anos vieram pra nós e mais um tanto, depois isso foi aumentando. Foi avassalador, foi muito forte.  O ICA tem 17 anos, 1998. Em 2000 a gente já recebeu o prêmio também da Abrinq. E eu não tinha conhecimento da área social, da área assistencial, mas eu tinha muito claro o que eu queria.  Lógico, era professora e tudo, mas tinha muito claro o que eu queria como modelo. Eu queria que as crianças se sentissem amadas, vistas, enxergadas, respeitadas, que viessem pra aprender com alegria. Tudo que eu vivi, quer dizer, tudo que eu gostaria de ter vivido numa escola. Valorizadas, com autoestima, com autorrespeito, com vaidade e tinha muito claro isso. Então no primeiro desfile, no primeiro ano do ICA, a gente tinha uma banda que veio um voluntário: “Vou dar aula de música. Vamos formar uma banda”.  Então veio uma pessoa que ensinava caratê: “Vocês querem aula de caratê?” “Queremos”. Vem. “Olha, eu ensino dança, balé, você quer?” “Ah, sim. Eu quero”. Quer dizer, a gente não tinha dinheiro ainda pra contratar pessoas. E nós fomos usando o que estava disponível. Tivemos um grupo de artesanato no ICA, eram quatro pessoas, hoje tem duas, uma que faz parte da nossa diretoria, mas elas deram aula de artesanato por muito tempo no ICA e foi maravilhoso. Então nós começamos com 40 crianças, hoje são 550. Estamos em seis pontos externos que são 13 escolas fazendo esse trabalho de período inverso e três CRAS que são da assistência, são órgãos da assistência nos bairros de maior vulnerabilidade. A coisa começou a sair dos muros.

Criança Esperança a gente conhece da TV e a gente fica sempre com essa impressão pra quem que vai esse recurso? Que acho que está no inconsciente e está no consciente de todo mundo que assiste. Nessa coisa de mandar projetos pra todo lado, poxa vida, vamos mandar pro Criança Esperança também. E no primeiro ano que a gente mandou nós fomos aprovados. Eram 1040 projetos, foram 40, 42 aprovados e normalmente que eu sei eram poucos no Estado de São Paulo porque é onde tem mais dinheiro, normalmente os projetos do Criança Esperança são aprovados Norte, Nordeste e outros estados que não o Estado de São Paulo. Então foi uma surpresa maravilhosa! Na época foram 120 mil reais que era significativo pra nós, tinha um impacto forte nas nossas ações e mais uma coisa pro nosso currículo. É mais uma premiação. Você ser aceito num projeto que tem a Unesco e a Rede Globo, que te dá uma visibilidade, uma credibilidade, isso abre portas, abre portas pra outras empresas, pra outros editais te aprovarem. Passaram nesse crivo, então deve ser bom, vamos olhar com mais atenção. Então foi bem impactante. Todo mundo em Mogi Mirim: “Poxa vida, que bacana vocês receberem o Criança Esperança”. Aqui na cidade teve uma repercussão bem forte também. Isso foi em 2008. Na época a gente usou parte do recurso pra biblioteca, que a gente tem uma biblioteca de seis mil volumes. Porque a gente faz um incentivo superforte à leitura, temos projetos de leitura que as crianças levam pra fora, inclusive pras outras escolas, elas vão e leem pra outras crianças. Mais uma ação de protagonismo do ICA que a criança nem lê muito bem, mas ela propõe o livro pra outras crianças, que a criança pode ler pra ela, pra essa criança que vai na escola ou vice-versa. Então eu acho que parte do recurso foi pra isso e pras nossas atividades artísticas mesmo, porque hoje o ICA tem circo, teatro, dança, música. Na época a gente tinha artesanato, hoje a gente ainda tem, não é tão forte, mas temos também artesanato. Acho que eu falei todas. Dança, circo, teatro, música e essa proposta da leitura que é muito forte no ICA. Então foi pro Carpe Diem, que é o nome do projeto, pra essas ações, pra compra de materiais, enfim, foi pra esse dia a dia do ICA, vamos dizer. Eu acho que está pra além do recurso. Lógico que ele é importantíssimo e ele ajuda muito, enfim, tem um impacto significativo nas suas contas e tudo. Mas eu acho que o maior impacto do apoio do Criança Esperança é essa visibilidade. É esse selo de que fui aprovado pela Unesco e pela Rede Globo. Acho que esse é o maior bem. Lógico que dinheiro é importante e faz bem, mas acho que mais do que isso é a possibilidade de abrir outras portas pra conseguir recurso e apoio. 

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