Busca avançada



Criar

História

Projetos de mineração

História de: Marconi Tarbes Vianna
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Marconi fala sobre a infância em Itabira e o trabalho do pai na Vale. A experiência de se mudar para Ouro Preto para fazer a faculdade de Engenharia de Minas. Os primeiros empregos que o fizeram viajar o Brasil e o convite de trabalhar na Vale. Dá destaque para suas funções na Companhia, principlamente, a relação com o fosfato e o manganês.

Tags

História completa

P/1 - Eliane Barroso

P/2 - José Carlos Vilardaga

R - Marconi Tarbes Vianna



P/1 - Bom dia Sr. Marconi. Nós começamos a entrevista perguntando o seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Marconi Tarbes Vianna, e eu nasci em 1951 em Itabira, Minas Gerais.

 

P/1 - Qual é o nome dos seus pais?

 

R - Então, meu pai é José Maria Vianna, e Vera Cruz Tarbes Vianna.

 

P/1 - E eles são também de Itabira?

 

R - A minha mãe sim, o meu pai é de Campos no estado do Rio [de Janeiro]...

 

P/1 - E ele foi pra Itabira trabalhar e conheceu sua mãe? O senhor conhece um pouquinho dessa história?

 

R - Conheço, um pouquinho, né, eu nasci em Itabira exatamente em função da Vale do Rio Doce, porque, em 42, quando a Companhia Melhoramentos existia lá em Itabira, quando ela foi implantada pelo governo, houve aí uma movimentação de pessoas, né, sendo contratadas pra começar a Companhia Vale do Rio Doce, e meu pai foi um desses pioneiros, vamos dizer assim. E com isso, chegou, foi pra Itabira - uma cidade pequena, cidade do interior de Minas -, que foi onde são as Minas do Caue [e] de Conceição, onde todo o minério, onde a grande parte do minério do sistema sul é extraído, minério de ferro. E com isso, meu pai ficou ali, conheceu minha mãe e eles se casaram, tiveram cinco filhos, né? Eu tenho quatro irmãos, e vivem até hoje lá em Itabira. O meu pai já é aposentado, ele trabalhou 32 anos na Vale, lá em Itabira, e aposentou-se na Vale. Minha mãe era professora primária, que também já aposentou-se, e vivem lá em Itabira. Meus irmãos, uma delas vive em Itabira, outros estão por aí, pelo Rio, tem outro de São Luís, outro em Valadares, e o outro em Belo Horizonte.

 

P/2 - O seu pai fez o que na Vale?

 

R - Meu pai, ele trabalhava na área administrativa, né, ele trabalhava na área de pessoal, isso já no final da vida útil dele na Vale, né? Mas ele passou por várias funções, foi ele, inclusive, que montou o serviço de abastecimento da Vale, porque antigamente a Vale tinha um sistema de abastecimento de seus empregados. Era difícil você numa cidade do interior igual Itabira, que é uma cidade pequena, e ali se avolumavam um número de pessoas pra trabalhar nas minas, né, então a Vale tinha que manter um serviço de abastecimento de comida ali dentro, porque pra ir de Itabira à Belo Horizonte, naquela época, demorava de 8 à 10 horas, hoje se faz com uma hora e meia, mas naquela época era tudo mais difícil, sequer existia asfalto, então tinha que manter um certo nível mínimo de abastecimento até pra não deixar faltar as coisas pro pessoal. Então trabalhou numa série de funções na Vale e, no final, se aposentou aí na área de setor de pessoal, por volta de... Talvez no início da década de 70, né?

 

P/1 - E como é que era Itabira da sua infância, como é que foi a sua infância, as brincadeiras que você costumava...

 

R - É, ali em Itabira... Itabira já é uma cidade velha, é uma cidade antiga, vamos dizer assim, ela tem uns pontos, até uns aspectos coloniais, né, e já quando eu nasci, eu já nasci num bairro construído pela Vale para os seus empregados, aqueles empregados que tinham o maior relacionamento com a produção, vamos dizer assim, não é isso? E esse bairro é um bairro novo...

 

P/1 - Qual é o nome?

 

R - Campestre, bairro Campestre, que é um bairro que foi construído logo embaixo do Pico do Caue, e, naquela época, não... A relação de trabalho dos empregados com as empresas era uma relação muito mais informal do que hoje, então, minha casa não tinha cerca, também não tinha cerca dividindo a minha casa de um pátio de estocagem de minério da Vale, tanto que... Eu me lembro muito [que] no final de ano eu subia o Pico do Caue pra pegar musgo pra fazer presépio em casa, pegava pedra de especularita [uma variação de hematita] pra poder fazer aquelas grutas, né, que ________, então não tinha assim... O relacionamento não era... Então eu vivia com meus amigos ali, porque todos eram filhos de funcionário da Vale, e com isso, tive uma infância muito saudável, porque não existia perigo, não existia nada que pudesse atrapalhar o relacionamento com a família, o relacionamento com os amigos. Enfim, não existia droga, não existia ladrão, não existia polícia, não existia nada, porque não acontecia nada de diferente, então a vida era uma vida, assim, muito saudável, muito tranquila. Eu estou falando de alguns anos atrás, quer dizer, 30, 40 anos atrás, que dizer, uma coisa muito recente, né?

 

P/2 - E essa relação das pessoas que trabalhavam na Vale, quer dizer, dos bairros dos funcionários da Vale e tal, como a população de Itabira que não pertencia a Vale, como é que era essa relação nesse tempo?

 

R - Eu acho que era tudo muito saudável, não tinha assim uma divisão. Itabira, logo no início, ela passou a viver muito em função da Vale, né, então a Vale tinha muitos empregados, e se somasse os dependentes, inclusive,... Não vou dizer que era a cidade inteira, mas era grande parte da cidade [que] vivia em função da Vale. Hoje já diversificou a base industrial de Itabira, ficou um pouco mais diversificada, mas ainda a dependência é grande, e naquela época muito mais. E com isso, o relacionamento que existia, a Vale sempre... Ela se primou, desde que eu me lembro, ela sempre interferiu muito com a comunidade, como eu diria... Ela sempre se colocava como membro da comunidade o tempo todo, então ela tinha, por exemplo, incentivava esportes, tinha um clube em Itabira do Valério [Valeriodoce Esporte Clube] muito completo com piscinas semiolímpicas, com quadras de esportes especializados, quer dizer, e aquilo era aberto pra população de Itabira, quer dizer, não tinha restrição, não tinha nada, né? E a gente se encontrava ali também, então eu acho que o relacionamento era muito saudável, tanto dos funcionários, tanto dos dependentes, como o pessoal de Itabira mesmo, quer dizer, todo mundo estava na mesma situação.

 

P/1 - O senhor fez escola...

 

R - Bom, então... Influenciado talvez por isso também eu acabei... Quando eu acabei o curso ginasial - naquela época [se] chamava curso ginasial -, eu acabei mudando um pouco. Tinha uma certa restrição nos graus subsequentes e acabou que fui pra Ouro Preto pra fazer Engenharia de Minas. Acabei me formando em Ouro Preto em Engenharia de Minas em 76.

 

P/1 - E como foi mudar de cidade, sair de Itabira, se instalar em Ouro Preto? Era basicamente a mesma coisa, não?

 

R - Olha, as características de Ouro Preto eram um pouco diferentes de Itabira, porque ali era uma cidade mais de universitários, né, tinha uma escola de engenharia, de farmácia, muito famosa no mundo inteiro, quer dizer, aquele ambiente de repúblicas que a gente vivia, então era um pouco diferente a própria arquitetura, né, de Ouro Preto, era uma coisa muito diferente de Itabira, quer dizer. E as amizades também foram surgindo em Ouro Preto, tal como Itabira, então nos dois primeiros anos que eu saí de Itabira, eu fui pra Ouro Preto estudar interno, num colégio de padres lá em Ouro Preto, eu fiquei dois anos estudando interno, então eu vinha em casa três vezes por ano, que era na Semana Santa, nas férias de julho e nas férias de fim de ano, era isso que eu fazia, e acabei vivendo nove anos em Ouro Preto, que foi desde o curso científico até sair da Escola de Minas como já formado no terceiro grau.

 

P/2 - Esse período de escola interna, de padres, o que que você lembra desse período? Como é que foi isso, estudar...

 

R - Era interessante, porque você tinha uma disciplina bastante rigorosa. Colégio interno você acorda 6 horas da manhã, vai pro refeitório, às 7 horas você tem que estar na sala de aula, às 11 horas sai dali, almoça, aí vai estudar na parte da tarde, depois à noite etc. Tinha banho três vezes por semana, tomava banho terça, quinta e sábado. Como eu jogava bola, eu fazia parte da seleção do colégio, então eu podia tomar banho no domingo também, porque tinha que jogar domingo. Então, eu nadava também em Itabira pelo Valério, e tive até uma performance muito boa no campeonato mineiro de 68 de natação, e também eu tive um pouco de regalia pra sair pra treinar numa piscina que tinha em Ouro Preto. Toda vez que tinha campeonato de natação, eu era, o Valério mandava uma cartinha pros padres pedindo pra que eu pudesse sair do colégio pra treinar. Eu treinava sozinho, não tinha ninguém pra orientar. Eu treinava fôlego, resistência etc., né, pra disputar talvez um mês depois. Só que [em] Ouro Preto o frio é um negócio horroroso, tinha época que chegava a quase 0º, e eu dentro da água treinando, porque era a única hora que tinha, né, não tinha outro jeito. E como eu jogava bola também, eu tinha um pouco mais de regalia. Logo em seguida, alguns meses que eu estava lá, eu tive um cargo no colégio que era de garçom, de copeiro, e também já tinha uma regalia maior, porque aí eu podia fazer a minha própria comida, quer dizer, fazer não, eu ia lá no... Normalmente, quando você não tinha esse cargo, você sentava na mesa, alguém vinha e botava um prato feito, você comia aquilo. Já o copeiro - chamava garçom -, já podia entrar na cozinha [e] se servir, de qualquer coisa, podia ter uma coisinha a mais, quer dizer, então eu tive essa regalia logo no início. E logo depois, daqui dois anos, eu saí, fui pra uma república, né, [se] chamava República do Amor. Foi quando eu fiquei até formar - foi muito interessante. E Ouro Preto, eu gosto muito de Ouro Preto porque, acho que a fase mais fértil da juventude, né, eu vivi foi ali, foi dos 14, 15 anos, até os 23, 24, e conheço, eu também me identifiquei muito com a paisagem, com a arquitetura de Ouro Preto. Eu acho uma das coisas mais bonitas que eu já vi na minha vida é aquele conjunto arquitetônico de Ouro Preto, eu nunca vi nada igual no mundo parecido com aquilo ali, é um negócio impressionante, e eu gostava tanto daquilo. Desde o início que eu me sentia bem em Ouro Preto, eu me sentia muito feliz em Ouro Preto, embora com a família em Itabira, não era tão longe assim também, quer dizer, então, eu não tive grandes problemas, né, ao sair de Itabira e ir pra Ouro Preto. Eu não tive...

 

P/1 - E como que era o ambiente universitário, quais eram os cursos, qual era o contato com os outros alunos?

 

R - Então, Ouro Preto tem uma coisa importante, né, porque eu sempre digo que a pessoa que, pelo menos, hoje eu não sei mais como é que funciona. Ouro Preto tem o fato de ter aquelas repúblicas pra alojar os estudantes, ele tem uma características de incrementar a sociabilidade das pessoas, então a gente era extremamente sociável, quer dizer, a gente se gostava muito um do outro, os meus colegas de república eu os considerava como irmãos mesmo. Aliás, eu tenho um irmão que eu fui ter maiores intimidades com ele depois que ele foi pra Ouro Preto estudar lá também, que foi ser meu colega de república. Então você vê que era um relacionamento bastante forte, né? E entre as repúblicas também o relacionamento era muito bom, então eu conheço, a grande parte das pessoas que formaram em Ouro Preto naquela época que eu tava ali, eu conheço muito bem, porque eu vivia com eles e a gente tinha um relacionamento muito interessante. Então, em Ouro Preto, essa característica aproxima as pessoas de tal forma que você acaba sendo amigo de fato, né, então eu gostava muito, também, por causa disso. Até hoje os meus amigos lá de Ouro Preto são amigos do peito mesmo, quer dizer, todos eles, então você vê que a gente tem assim uma facilidade... Em Ouro Preto, a gente não precisava de ter muito dinheiro pra estudar em Ouro Preto, por exemplo, nós morávamos de graça, praticamente, porque as repúblicas pertenciam à escola, o restaurante, a escola tinha um restaurante que a gente pagava um preço simbólico pela comida, a gente não tinha outras maiores pretensões, quando precisava de... Aquelas pessoas que gostavam de tomar alguma coisa, então tomavam pinga, que era baratinho, não existia outras coisa, então era muito fácil ficar em Ouro Preto.

 

P/2 - Vocês se divertiam como lá, Marconi, o que [e que vocês como amigos faziam, ____ serestas, essas coisas?

 

R - É, isso mesmo. Ouro Preto era uma coisa assim de, a escola era extremamente exigente, então você tinha que, tempo todo você tinha que estar estudando. Não podia dar bandeira não, porque se não pegava... Agora, fim de semana [à] noite, às vezes, você ia... Era um cinema, era uma seresta. Ouro Preto sempre teve uma base cultural extremamente evoluída, por ali passavam grandes expoentes da cultura do Brasil, muitas vezes de ficar alguns dias, com as pessoas, né, eu me lembro de conversas assim, de noite sentado numa escada de uma igreja com Vinicius de Moraes, com Tom Jobim, né, o João Bosco era nosso colega de sala, era uma coisa, ficava ali fazendo música, tinha o César Costa Filho que fez aquela música com _______ do... E essas pessoas, a gente tinha muito contato, e grandes escritores, por exemplo, então gente que tinha uma certa, que gostava desse tipo de movimento. Acabava achando interessante e, de vez em quando, tinha alguma coisa diferente pra fazer, mas era uma cidade de interior tão pacata como outra qualquer. Tinha essas características diferentes que a gente aproveitava, mas era muito bom.

 

P/2 - Namoros, paqueras...?

 

R - Tudo isso, então você tinha todas essas, Ouro Preto era muito visitado, né, é uma cidade turística, por isso você sempre tinha ali ônibus de turistas chegando a Ouro Preto, e ali víamos tudo, quer dizer, então, a gente até pra ganhar um dinheirinho a mais saía como guia. Também conhecia muita coisa, nada, sabia o dia a dia ali daquele negócio. Embora eu conhecesse bem a história com todos os detalhes e as perfeições, a gente acabava servindo, sendo útil pra alguma coisa. E isso, tinha as namoradas, tinha todo mundo, as paqueras como você falou, aí, então isso tudo são coisas que surgiam quase que constantemente mesmo.

 

P/1 - E a escola e o curso, foi puxado?

 

R - É, a Escola de Minas, nós tínhamos professores de alto gabarito, alto nível de conhecimento, então por causa disso, a escola era uma escola que tinha condições de desenvolvimento muito forte. A gente quando saiu da Escola de Minas, saímos como técnicos bem, com o nível de conhecimento bem evoluído. E já naquela época, a mineração no Brasil era muito em função dos engenheiros formados em Ouro Preto, embora houvesse outras escolas também muito boas, como a Universidade Federal de Minas Gerais, a própria USP, então talvez essas três escolas eram a base da engenharia mineral no país. E Ouro Preto era uma delas, talvez por ter sido a mais antiga, né? Pra você ver, quando eu me formei em 76 a escola fez 100 anos, agora eu estou indo pra lá em outubro pra ficar uns dias lá com os meus colegas que formaram comigo, porque nós vamos receber uma medalha de prata que nós estamos fazendo 25 anos de formado, então a escola vai nos dar uma medalha de prata, uma festinha que eles fazem ali, até muito tradicional. Então você vê que é uma escola que já tem 125 anos, e por causa disso, toda a base mineral, metalúrgica e siderúrgica do país foi muito baseado em alunos de Ouro Preto, da escola de Ouro Preto, e por causa disso, o número de pessoas de Ouro Preto que já trabalhavam nas principais minerações do país - a Vale é uma delas -, a grande maioria era de Ouro Preto. E foram surgindo as outras escolas, né? Em função disso, a escola de Ouro Preto fosse talvez mais, como eu diria... Não a mais famosa, mas aquela que estava mais dentro de um certo contexto. Ela estaria produzindo mais profissionais do que as outras e por causa disso, era um pouquinho mais famosa sim. De fato, era isso que acontecia. Então os professores da Escola de Minas eram todos eles pessoas, professores de nível internacional, cabeças assim fabulosas e com isso, o nível de exigência era muito forte, então a gente tinha... Eu me lembro que eu estudava muito o dia inteiro, eu não podia brincar, não, e às vezes de noite a gente tinha uma folga, de fim de semana e tal, às vezes, não era sempre também não. E com isso a gente acaba, a gente acabou fazendo um curso bastante razoável, e eu até hoje acho que eu sou um pouco engenheiro, sabia? Assim de coisas, às vezes meus filhos, por exemplo, - tem um deles que faz economia, e outra que faz economia aqui na PUC -, e até hoje, quando tem algum problema de ordem de física, de matemática, dessas coisas mais (anfetas?) à engenharia, que eles podem me consultar, etc., que às vezes eu tenho uma certa facilidade conceitual com matemática, física, você acaba relembrando tudo aquilo e acaba explicando, matando. Eles ficam impressionados como é que eu já saí da escola há 25 anos [e] não tenho mais nada a ver com engenharia, como é que eu sei isso até hoje, né? Então, é porque a gente na Escola de Minas era obrigado a aprender conceito, você não decorava as coisas, e conceito você não perde nunca mais. Você tem conceito de uma coisa, acabou, aquilo fica pro resto da vida, e a gente era muito bem treinado dentro da escola, então com isso a gente acabou fazendo uma coisa bem decente.

 

P/1 - E você se casou logo depois...

 

R - Eu casei antes de formar. É, eu me formei em dezembro...

 

P/1 - A sua mulher é de Ouro Preto também?

 

R - É de Itabira. Nós casamos em outubro do ano que eu formei. Na verdade, eu já era professor da Escola Técnica quando eu me casei, dava aula de resistência dos materiais e mecânica técnica lá na Escola Técnica de Ouro Preto. Então fiquei o ano inteiro dando aula lá. E, naquele tempo, era tudo muito simples. Eu me lembro que me casei em outubro, ia me formar em dezembro, e naquela época era muito fácil a gente ter emprego. E formava, quando eu me formei eu tinha quatro opções de emprego, quer dizer, não era um negócio tão simples, tinha muita segurança de fazer as coisas, de tomar decisões, e eu me lembro que eu ganhava 1000 dinheiros na época - não sei o que era mais, se era cruzeiro, o que era aquilo - e eu pagava 900 de aluguel de uma casinha pequenininha, me sobrava 100 dinheiros na época, né, mas às vezes a gente completava com outras coisas - meu pai às vezes me dava um pouquinho. Então, só dois meses casados, a gente [já] tinha uma economiazinha, quer dizer, não tinha problema, e eu sabia que em janeiro eu já estaria trabalhando, como aconteceu, então eu me casei já em final do curso.

 

P/1 - E nessa atividade acadêmica de lecionar, se restringiu a isso ou você continuou dando aula?

 

R - Não, restringiu a isso. Foi uma fase até interessante, porque essas duas cadeiras que eu assumi na escola técnica, os professores titulares dessa cadeira, eram duas pessoas assim, dois professores de assim de altíssimo nível, altíssimo gabarito, que era o professor Tibiriçá Dias que dava cálculos _______ na Escola de Minas, que dava resistência de matérias na Escola Técnica, e o Profº Micalho que dava aula de mecânica na Escola de Minas e que também dava mecânica na Escola Técnica. Eles eram os orientadores e eu era o, na época, chamava de monitor, alguma coisa assim, e eu era o monitor deles. Então, na prática, quem dava as aulas, todas as aulas práticas era eu que dava, e grande parte da aulas teóricas também, porque eles eram pessoas extremamente ocupadas e, às vezes, eles escolhiam os seus monitores que tivessem condições de administrar aquelas aulas, e eu era um deles. Então foi assim. Eu me lembro que ser professor de resistência dos materiais na Escola Técnica, era assim um negócio... Entre os estudantes era uma coisa... Como eu diria, tinha uma certa...

 

P/2 - Prestígio?

 

R - É, um certo prestígio, porque era um negócio importante de fato, e a Escola Técnica de Ouro Preto era uma escola extremamente famosa, né, era uma escola muito apertada, muito boa, quer dizer, então isso dava pra gente [se] divertir bem viu. Interessante.

 

P/1 - E depois dessa experiência, qual foi o seu primeiro...

 

R - Aí eu fui pra Criciúma, em Santa Catarina, trabalhar com carvão. Era uma mina subterrânea, embora eu tinha algumas possibilidades, e tinha a intenção também de trabalhar na Vale, mas naquele ano, em 76, provavelmente, por força do final da guerra do Vietnã, o mundo tinha... A quantidade de sucata que estava disponível no mundo era muito grande, então houve uma retração no mercado de minério de ferro, não só por isso, mas também por isso, e a Vale passou a não contratar naquele ano. O objetivo era contratar mais pro meio do ano pra frente. As pessoas que podiam esperar... Eu não podia, já estava casado. Eu preferi uma das outras opções, porque eu tinha outras opções, então eu trabalhava - já tinha saído da Escola Técnica, talvez em novembro eu me desliguei da escola técnica -, e fui fazer um estágio remunerado lá na Samarco, que a gente fazia praticamente trabalhando à noite, porque nós tínhamos que rodar uma planta piloto de uns testes industriais, pra parâmetros de engenharia pra construção da Usina da Samarco de _____, então eu fiquei ali uns dois meses já com status de engenheiro júnior, ganhando até a metade do que ganhava um engenheiro pleno, embora ainda não estava formado. E naquela situação, eu tinha uma proposta pra ir também pra ____, que era uma empresa de mineração aqui em Belo Horizonte, e uma em Criciúma, então numa conversa com... Na época, o Dr. ____ da Luz era o diretor geral _____, e ele - eu não sei se era exatamente isso -, mas ele estava em Ouro Preto tentando convencer aqueles primeiros engenheiros, aqueles engenheiros que estavam formando naquele ano, que nós éramos só 11. Os engenheiros de mina sempre foram poucos, formavam poucos, e nós entramos uns 50, mis saíram 11, 12. Em um ano, dois ou três já tinham saído 4. Não era uma quantidade grande de engenheiros que se formavam, né? Então ele convenceu a mim e a um colega, que hoje é o gerente geral lá de Itabira, pra irmos pro sul, pra ir trabalhar nas minas de carvão, porque o Brasil iria fazer um projeto energético muito pesado e baseado também em carvão. Então fui pra Criciúma, eu e o Vicente Bernardes, que tá lá em Itabira hoje, e o Vicente foi pra Metropolitana, que era uma empresa que tinha carbonífera, e eu fui pra Carbonífera Criciúma, e fiquei ali até setembro, outubro, ___________________________, do governo militar, e o Dionísio era uma das grandes fortunas do Brasil - na época, era ele - ele tinha essas minas de carvão, e a gente reduzia carvão pra termoelétrica de Capivari. Ali eu tive a minha primeira experiência em mineração subterrânea, que era um negócio que tinha lá na Escola de Minas, por exemplo, a gente tinha um preparo muito bom, era muito bem treinado pra trabalhar em mina subterrânea, conhecia o desenvolvimento de mina subterrânea muito bem, já saía conhecendo muito bem. E eu fui mais por coincidência, porque eu não tinha muita intenção de trabalhar com carvão, nem sabia, [mas] nesses oito meses deu pra fazer umas coisas interessantes lá sabe...

 

P/1 - ___________?

 

R - Olha, o carvão, teve umas coisas interessantes, viu? Depois que você lavrava o carvão, que trazia pra superfície, tinha [que] beneficiar, e o beneficiamento gera finos de carvão, por exemplo, então aproveitava só aquele mais granulado que saía no processo, e depois tinha uma série de peneiras que recuperavam só aqueles muito ricos, né, e que alimentavam a coqueria do próprio grupo, o resto jogava fora. O carvão era uma massa assim tipo, quase que, mais de 50% do que era lavrado, recuperava-se uns 30, 40% de granulados, mais uns 15% de finos, e o resto era jogado fora, então eu construí um equipamento de madeira - que já tinha o projeto, né, porque tudo lá era de madeira no sul, não tinha nada de aço -, eu construí uma cela de flotação de madeira pra recuperar esses finos que eram jogados fora, e acabei conseguindo, a massa que era jogada fora diminuiu aí quase na ordem de uns 10%, no máximo, né, o resto era todo recuperado e alimentado à coqueria do grupo. Então isso foi assim bastante, que mudou, né, mudou a rentabilidade do produto, mudou a escala, mudou tudo. E eu me lembro que no Canal do Rejeito, que ia pra barragem, ficava ali uma empresa que ficava recuperando esse carvão, esses finos e depois vendiam pro próprio grupo, e aí acabou, né, era um negócio até “desagradante”, porque era um canal grande, ficava cheio de gente com uma pá na mão...

 

P/2 - Que era os rejeitos.

 

R - Que eram os rejeitos. E pra poder beneficiar ou pra... Eu não sei nem o que faziam com aquilo, eu sei que revendiam aquilo pra algum lugar ou pra outro lavador de (camassari?), que devia ter alguma coisa ali, eu não me recordo muito bem, e aquilo acabou. Foi de uma semana pra outra, o pátio da empresa já não tinha mais ninguém. Aquela turma já tinha ido toda embora porque não tinha mais o que fazer ali, tava tudo ficando dentro da empresa de beneficiamento mesmo. Foi um negócio muito interessante, as pessoas já acharam muito interessante, e outras coisas engraçadas que aconteciam lá, mas foi pouco tempo que eu fiquei lá.

 

P/1 - E depois, você foi pra Araxá?

 

R - Araxá, é. Araxá eu já fiquei ali uns oito anos e meio, foi onde nasceu meus dois filhos, né?

 

P/1 - E por que é que o senhor saiu de uma e foi pra outra, essa mudança?

 

R - É, foi mais assim: eu nunca tinha tido a intenção de trabalhar com carvão, as informações que eu tinha é que havia um processo em andamento através do próprio país como um todo, né, já estavam começando os primeiros problemas de crise de petróleo, daí a turma começou a dizer que ia ter... O próprio ____ o Governo Federal, ia ter um projeto, vamos dizer assim, energético no Brasil baseado no carvão, então, com isso, era de se esperar que um investimento naquela área e, consequentemente, todo mundo naquelas circunstâncias, ia crescer de alguma forma tanto as empresas como os empregados. E aquilo nós começamos a perceber que não ia acontecer de fato, então eu comecei a me desinteressar um pouco, até porque, apesar da mineração no sul ser uma mineração “cinquentenária”, em termos técnicos, nós estávamos engatinhando, e eu não estava disposto bem a ficar naquela circunstância. E tinha uma empresa, a Serrana, aqui no Brasil, estava montando uma mina de fosfato, beneficiamento de fosfato em Araxá, e um dos meus colegas que já estava trabalhando ali, me convidou pra ir trabalhar lá. Então eu pedi demissão da Carbonífera e fui pra Araxá. Em Araxá fiquei oito anos e meio trabalhando, quando eu fui convidado pra ir pra Carajás, na Vale, foi em 85. Em Araxá, eu trabalhei basicamente com beneficiamento de fosfato, aí já era uma usina de concentração de fosfato, extremamente complexa, um processo muito complexo, um minério extremamente temperamental. Ali a minha vida foi bastante dura, porque era um beneficiamento bastante complicado. A gente rodava atrás de coisas aí no mundo pra ver se tinha alguma coisa parecida, mas não tinha nada parecido. Até o próprio minério tinha características bastante diferentes daquilo que é o usual.

 

P/1 - E isso se dava em todos os níveis, extração daquilo ali?

 

R - Não, extração era mais simples.

 

P/2 - Subterrânea também?

 

R - Não, era céu aberto, mas era mais simples porque aí era uma mina convencional, com bancos, normal, tudo direitinho. Só que o minério, ele tinha a partícula, o mineral... O fosfato é interessante, aquele minério tinha características muito complicadas e, com isso, você acabava tendo problemas no orçamento. Isso me fazia trabalhar vezes, às vezes tinha dias que eu não vinha em casa, eu ficava dentro da usina, passava a noite, o dia inteiro e a noite de novo, pra tentar controlar o mínimo. Então eu me lembro até... De vez em quando, a Adelma comenta que, naquela época, apesar da gente ser recém casados, parecia que ela não tinha marido, né, porque às vezes ficava esperando com as colegas, aí os meus colegas chegavam, eles estavam com aquela minha responsabilidade, entravam pra casa e ela entrava sozinha também. Às vezes eu não chegava, às vezes quando eu chegava, chegava 10, 11 horas da noite, era difícil, e fim de semana às vezes trabalhando, né, mas sempre deu pra levar. No final, já estava tudo mais tranquilo, até porque a gente foi tendo um pouco mais de experiência com aquilo, né, estudando um pouco mais e acabamos dominando aquele processo. E aí foi... A coisa já estava mais simples, né, quando eu fui pra Carajás eu já tava com um cargo, _____  já estava mais coordenando as atividades de planejamento de mina, beneficiamento e até o produto final, quer dizer, já tinha uma coordenação maior, tinham pessoas que já estavam assumindo aquela minha posição, já estava mais tranquilo, sem problemas, mas foi uma fase dura, uma fase complicada.

 

P/2 - O fosfato da Área Fértil, ______ do titânio?

 

R - Não, é outra coisa. O titânio era da Vale, a Área Fértil era uma outra empresa, uma empresa que pertencia e acho que até hoje pertence ao grupo ______, que é através da Serrana no Brasil. Era outro tipo de coisa.

 

P/2 - Mas o fosfato de vocês também tinha o titânio, o enriquecimento...

 

R - Não tinha. Não, titânio não. O enriquecimento nosso era de fosfato mesmo, nós não tínhamos mineral (acessório?). Já na concorrente da Área Fértil, que chamava Fosferte, que hoje é a Petrobrás lá, essa tinha na mina além do fosfato, tinha o titânio também. Mas a mina da Área Fértil não, só de fósforo, né, só fosfato. Então, com isso, as coisas transcorreram assim até 85. Quando foi em 85, em princípio de 85, Carajás já estava em fase de construção e o Mozart, que hoje é o diretor executivo da área de ferrosos aqui da Vale, ele estava lá, porque ele trabalhava, ele já estava na Vale na época, ele encarou o desafio de ir pra Carajás e tal. A gente era muito novo na época, [então] qualquer coisa estava bom, não tinha problema. Daí o Mozart já tava lá e estava começando a contratar gente pra começar a fazer uma equipe pra começar o “start up”, né, daí ele me ligou, porque a gente já tinha sido colega também em Ouro preto, nós entramos junto na escola, fizemos engenharia praticamente toda ela juntos, então ele me chamou pra ver se eu não queria ir pra lá. Eu falei: "Eu vou sim. Peraí que eu vou aí pra conhecer, a gente conversa." Aí eu estive lá em fevereiro de 85 e em abril eu já voltei pra ficar.

 

P/1 - E qual foi a sua impressão ao chegar em Carajás, tendo vivido em Minas? Ou já conhecia, não era a primeira vez?

 

R - Não, eu sempre... Era a primeira vez que eu ia, mas eu sempre tive...Lugar bom pra mim é aquele que eu vivo, então quando eu cheguei lá o único impacto que eu tive foi com o calor, porque saí do avião com ar-condicionado e chega com aquele clima quente e superúmido, você tem uma, sua na hora. A única coisa que eu tive, o resto eu falei: "É aqui mesmo que é pra ficar, né?" Então eu não tive nenhum problema, cheguei [e] já me adaptei muito facilmente em Carajás, e já tinha uns colegas meus lá, que a gente já se conhecia. Quem eu não conhecia, já fomos logo se conhecendo, fazendo amizade. E a nossa vida ali era trabalhar mesmo, porque não tinha muito o que fazer, né?

 

P/2 - A família foi junto ou...

 

R - Foi junto, todo mundo. Aí acabamos de construir todas as instalações. Em dezembro, dia 1º de dezembro de 85, nós demos o “start up” na planta, começamos a produzir minério, e em janeiro nós carregamos o primeiro navio, já da Usina Industrial. A gente já tinha carregado alguns navios produzindo a planta piloto. E com isso, aí a gente foi operando lá em Carajás. Eu acabei ficando lá 10 anos, saí de lá em 95. Eu fiquei 5 anos, eu fui o coordenador do “start up” de Carajás, da planta. Como o Mozart já estava como coordenador na época, depois veio, assim, o superintendente, e aí fizemos uma equipe bastante forte. Acabou que eu fui o responsável pelo “start up”. Depois de algum tempo, eu assumi a gerência geral do beneficiamento de Carajás, e eu fiquei nessa situação até 90. Quando foi em 90, o Mozart veio pro Rio pra ser o diretor administrativo da Cale e, em maio, eu assumi a superintendência de Carajás, aí fiquei lá até 95, já como superintendente. E aí também foi uma época muito interessante na minha vida. Carajás inteiro foi extremamente interessante, porque ali a gente aprendeu muita coisa, nós fizemos uma grande inovação em tudo aquilo. De toda a técnica que a gente conhecia, a gente tentou questionar e a maioria delas com grande sucesso.

 

P/1 - E por que esse questionamento?

 

R - É porque a gente queria fazer uma coisa diferente mesmo, a gente tava longe do _______. A Vale, naquela época, tinha uma centralização muito forte aqui no Rio, só que a gente tava muito longe, não era possível... Era uma coisa que estava nascendo, um projeto imenso, grande. Ali sob a nossa responsabilidade tinha quantas mil pessoas, milhares de pessoas. Nós chegamos a ter ali mais de 11 mil pessoas sob a nossa responsabilidade e ali nós tínhamos que prover desde diversão até saúde. A gente era o gerente do hospital, da escola, do clube, então ali o superintendente de Carajás ele não podia, ele não tinha muito como perguntar [como] deve fazer, se pode fazer. Tinha que fazer, tinha que tomar a decisão. O modelo que tava na Vale, ele poderia, em um determinado momento, atrapalhar um pouco, então a gente começou a fazer algumas coisas, assim, um pouco mais de ousadia, vamos dizer assim, né, até pra facilitar a nossa própria vida, como _____. E Carajás, naquela época, tava começando no mundo siderúrgico, ninguém conhecia direito, e era um projeto que a gente tinha investido alguma coisa como 2 bilhões de dólares, e tinha que dar certo. Não tinha outra opção, tinha que dar certo, tinha que fazer o que fosse necessário, né, pra dar certo, e acabou que hoje Carajás é uma das potências do minério de ferro no mundo inteiro. Mas já naquela época o nosso crescimento, nós produzimos na planta aí 25 milhões de toneladas por ano, quando eu saí a gente já produzia 40 e hoje já deve estar perto dos seus 50, 60. Então é um negócio grande. A gente já chegava a movimentar quase 100 milhões de toneladas de movimentação de terra por ano naquela mina, então a gente tinha que ter, as nossas técnicas tinham que ser as mais apuradas possível pra que você tivesse um custo compatível com os seus concorrentes. A gente tinha um contrato, por exemplo, um dos contratos grandes que a gente tinha era com o Japão, dali deviam sair de 8 a 10 toneladas por ano só pro Japão, de Carajás, mas o nosso maior concorrente era a Austrália que tava ali debaixo do Japão, quer dizer, a distância em dólar da Austrália ao Japão, era a metade da distância em dólar do Brasil ao Japão. Então a nossa competitividade não tava no mar, estava aqui mesmo, a gente tinha que ter um custo o mais controlado e o mais baixo possível. Com isso, a gente acabou tendo de fato um sucesso muito grande, porque aí Carajás começou a ter assim uma aceitação muito grande no mercado e nós fomos diminuindo todos os nossos problemas, ganhando produtividade e diminuindo gente. E, no final, a gente tinha uma vida em Carajás extremamente saudável, muito civilizada mesmo. Eu considero que eu vivia num país... Num lugar... Desculpa a expressão país... Mas num lugar que poucos lugares do mundo tinha o nível de civilidade que tinha Carajás, porque a gente já vivia, eu me lembro no final, a gente fazia programas. Por exemplo, Carajás é um dos lugares mais limpos que você já pode ver na sua vida, Carajás é um lugar que você não vê um toco de cigarro no chão, porque a gente... Logo no início, a gente trabalhou aquilo com muita, com muita veemência mesmo até pra...Todo mundo que chegava ali achava que a gente tinha 70, 80 garis, [mas] tinha 4 ou 5. O nosso segredo era não sujar, não era limpar não, a gente não sujava, porque o nível de civilidade que nós atingimos foi muito grande.

 

P/1 - Mudou a participação, o engajamento da ______?

 

R - Imensa. Assim, era todo mundo mesmo. Então com isso, Carajás era tido como um dos melhores exemplos de desenvolvimento sustentável do mundo, quer dizer, isso foi dito por pessoas, assim, que conheciam as coisas. E, no final, a nossa vida ali era assim, a gente tinha. Eu assistia, por exemplo, lá em Carajás, peças de teatro que você assistiu aqui no Rio, no mesmo time, quer dizer, a gente tinha muita coisa que a gente precisava de segurar em Carajás. E as coisas eram feitas dessa maneira mesmo, quer dizer, ainda hoje as coisas são feitas assim, não estou dizendo que era feita e hoje não é feito mais. Ainda hoje, lá em Carajás, é um grande exemplo pra tudo. Na parte técnica também nós tivemos grandes conquistas, fizemos coisas assim bastante interessantes dentro da própria companhia, né, e era uma mina muito grande, então tudo tinha que ser feito com muito cuidado. Um erro em Carajás era um erro de grandes proporções, quer dizer, então você não tinha muito como errar, e tudo que era feito, a gente como não tinha muito tabu. Pra nós tudo tava valendo até a hora que desse errado, [aí] volta e refaz de novo, então nós quebramos uma série de paradigmas, né, o próprio sistema de drenagem de Carajás, por exemplo, é um paradigma da mineração, quer dizer, é um negócio extremamente interessante que nós fizemos lá, e uma das coisas importantes que eles tinham. Carajás, naquela época, já era responsável por 13% do mercado transoceânico, Carajás por si só, mas como era um minério que tinha uma qualidade excepcional com baixos contaminantes, muito rico, o minério admitia blindagens de outros minérios, mistura de outros minérios, mais pobres, e mesmo depois dessa mistura ainda continuava um produto ____ com produção de aço. Então, com isso, muitas minas do mundo inteiro, na África, na Índia, foram viabilizadas, minas que antes ____ de Carajás eram inviáveis, elas foram viabilizadas exatamente porque em conjunto com o minério de Carajás, elas poderiam participar do mercado transoceânico. Com isso, a responsabilidade final que nós tínhamos em termos de mercado transoceânico chegava a mais de 23%, porque Carajás sozinho chegava em torno de 13, 14. Os outros minérios que eram acoplados a ele davam mais uns 10%. Tanto que uma vez, nós temos até hoje uma reunião interessante com os japoneses, que é uma reunião feita entre as áreas comerciais das usinas, e as áreas operacionais daqui do Brasil, e essa reunião, no final dessa reunião, a gente mostra todos os trabalhos que nós fizemos durante o ano, quais são as nossas principais projeções, quer dizer, é um trabalho de um vendedor pra um cliente, né, e um cliente grande, então a gente tem o maior cuidado com esses dados, com esses trabalhos que a gente fazia. E depois dessa reunião tem um congraçamento e, nesse momento, o vice-presidente da “Nippon Steel”, 92, 93, era o Sr. Tanaka [e] ele me chamou pra comentar esse aspecto do nível de responsabilidade que estava em cima de Carajás, porque de fato ele não podia considerar aquilo como 13%, mas como mais de 20. Ele até brincou comigo: "Olha, se você tiver uma gripe lá, a gente pega uma pneumonia aqui na frente." Quer dizer, então, é um negócio, era uma coisa muito forte mesmo e até hoje continua sendo. Então Carajás foi importante na minha vida profissional [e] pessoal, bastante grande, porque, sei lá, 20% da minha vida útil foi passada ali, talvez metade da minha vida profissional, então você vê que é um negócio extremamente forte, né, e isso, felizmente, a minha vida lá foi uma vida... E acho que de todos os meus colegas que estavam lá, naquele momento, foi uma vida bastante saudável, profícua [proveitosa], uma vida, assim, em termos tanto pessoal, social e técnico, muito grande.

 

P/2 - Quando... O senhor comentou que foi montada uma equipe de ótimos engenheiros, eu queria que o senhor contasse um pouquinho sobre essa equipe que foi montada, quem eram essas pessoas e como essas pessoas foram até lá, mesmo o pessoal operacional. Onde vocês conseguiram esses recursos humanos, treinaram essas pessoas?

 

R - Não, no início, foi complicado...

 

[Pausa]

 

R - É, a mina seria em Carajás e então eu vim pra ser presidente do ______, e fiquei até final de 97 porque aí quando privatizou houve um _____ no projeto, até reestudar tudo de novo a tal, aí eu fui pra... Tinha duas empresas, a Sibra e a Paulista, que eram empresas de produção de ligas de manganês, que tinha um sócio que era a Usiminas e estavam numa situação muito difícil. Tecnicamente, estavam falidas, vamos dizer assim. Aí eu saindo do Salobo, eu fui assumir essas empresas, das quais hoje eu sou presidente, da Sidra e da Paulista, e eu assumi mais com o objetivo de fechar mesmo, porque não tinha mais o que fazer ou vender aqueles artigos, alguma coisa, mas ao longo do processo as coisas foram clareando um pouco mais e a gente percebeu que não precisava de vender, tinha que organizar melhor, né, e aí foi formada a diretoria de manganês da Vale, da qual eu sou o titular hoje. Essas empresas e os outros ativos de manganês foram englobados nessa área, e a gente tá tentando aí formar uma empresa que englobasse todos esses artigos, incluindo a nossa planta em _______ na França. E pra gente fazer uma empresa saudável, como todos os empreendimentos da Vale.

 

P/2 - Uma planta na França?

 

R - Temos, em ______, no norte da França, uma produção de ferros e ligas também, então, com isso, nós estamos aí agora acabando de... Esse ano a gente acaba de fazer toda a parte societária, com _____ nós estamos trabalhando a parte operacional, a parte pessoal tudo, e eu acredito que hoje nós temos umas unidades aí bastante saudáveis que já estão dando lucro já, isso que é importante, quer dizer, agora eu tenho que acabar de fechar tudo isso e partir para uma situação um pouco maior na área de manganês. Então eu acho que isso que foi a minha sequência dentro da Vale, tô aí até nessa...

 

P/2 - Deixa eu perguntar um pouquinho do Dr. Jacques Salobo. Essa experiência do senhor aí, [o] que foi pensado... Que está um lucro já...

 

R - É, quando eu vim pro Salobo o estudo de viabilidade já estava pronto, ou seja, já tinha uma decisão sobre todo o processo, como que ia ser o processo, como que ia ser a mina. Todos os valores já estavam calculados, incluindo, o fluxo de caixa já estava pronto pros próximos 15 anos, quer dizer, a ideia era fazer um “project finance”. O sócio era a Anglo América, tinha 50%, e acho que o BNDES também ou o BNDES entrou depois, não me lembro, mas os dois principais eram a Vale e a Anglo América. Daí o estudo complementar de viabilidade foi apresentado à Vale e à Anglo, que eram os dois sócios, e eles ficaram discutindo mais ou menos um ano e meio como é que ia ser feito essa... Teve um série de polêmicas técnicas entre a Vale e a Anglo, um concordava o outro não, e assim as coisas foram seguindo até, comeu assim um ano discutindo, porque no final das contas ia se discutir o valor de uma jazida, então é uma negociação muito difícil mesmo. Ficou-se discutindo aquele estudo complementar de viabilidade durante um ano e quando se chegou à conclusão, houve um acordo entre a Vale e a Anglo. Mas naquela perspectiva houve um acordo e fechou-se o acordo, o valor da mina tudo direitinho, e a gente tinha que partir agora pra começar a fazer os trabalhos de campo, pra  começar a implantação na fase industrial, e uma outra equipe deveria a partir daí começar a fazer um ____ pra começar a levantar dinheiro, um fundo através de “project finance” pra poder começar as obras e, nisso, a situação da privatização começou a tomar um pouco mais de força, então até o próprio sócio se retraiu um pouco, se retraiu e ficou ali num “banho maria” ainda trabalhando as últimas coisas da área de processo. Quando foi em maio de 97, a Vale foi privatizada, e aí entrou a nova equipe de gestores da Vale, os novos sócios, e solicitaram uma paralisação até analisar todos os projetos de volta. E a decisão com a relação ao Salobo, já saiu no final do ano de 97, que era de fato paralisar pra estudar novas rotas de processo, quer dizer, enfim, parar, fazer um novo estudo, e tá até hoje. Então nesses últimos quatro anos foi se estudando, mas ainda não se chegou ainda a uma decisão final...

 

P/2 - Tem uma equipe trabalhando?

 

R - Tem uma equipe trabalhando, tem sim. Mas aí agora a Vale deve investir em cobre. Então, o Salobo deve estar aí na pauta do dia, mas ainda tá numa posição ainda que tem que... Algum nível de discussão aí é necessário, até societário, então eu acho que agora, daqui pra frente, essas discussões começam a tomar pé. E daqui a pouco tem uma nova mina implantada aí, né, então isso é que foi o negócio do Salobo, quer dizer, a última reunião do Conselho. O Salobo foi em dezembro de 97 já com recomendação do sócio de ter essa paralisação, [e] foi quando eu fui pra Belo Horizonte. Continuei morando aqui, mas trabalhando em Belo Horizonte, na Serra Alheios, né? De lá eu mudei pra Salvador, porque o problema mais sério que nós tínhamos era a planta que estava em Salvador, que é uma empresa, né, que é a Sibra, e ela, de fato, tava já nos finalmente, então mudei pra lá, fiquei morando lá mais seis meses, ia segunda e voltava na sexta, né, que minha família continuou morando aqui...

 

P/2 - Sua família ficou aqui?

 

R - É e, depois, quando foi em 99, nós compramos essas duas empresas, acabamos de comprar da Usiminas do outro sócio, compramos a planta de _____ do sócio de lá também que era _____ e começamos a formar um grupo de manganês dentro da companhia que hoje está aí trabalhando normalmente...

 

P/2 - Hoje a Vale tem 100%?

 

R - Quase 100%. Empresas que têm bolsas, né? Tem 1% por cento aqui... São coisas que nós vamos até fechar o capital agora, mas é um negócio interessante, você... As empresas estavam de fato numa posição bastante precária, hoje já são, são empresas saudáveis, já começam a dar lucro. Esse ano tivemos esse problema de energia, e as ligas são eletrointensivas, com isso, vetaram um pouco nosso crescimento, mas eu acho que é perfeitamente possível você trabalhar, fazer lucro e crescer até, sabe? Crescer, principalmente, com aquisições de plantas no exterior, quer dizer, eu acho que isso é possível. Então é isso que nós estamos trabalhando.

 

P/2 - Quanto que o manganês representa na Vale, hoje?

 

R - Hoje o manganês é pequeno, representa aí uns 6% do faturamento da Vale.

 

P/1 - E qual a estimativa pro futuro?

 

R - Olha, aí é muito difícil. É muito difícil dar uma estimativa, a gente... A intenção é crescer, mas como é muito difícil, né, eu acho até que nós já temos um planejamento estratégico, já definimos nessa direção, tá certo, e a gente pode crescer de duas formas: com investimento próprio, que é um pouco restrito, ou com atribuições. E existem aquisições importantes que podem ser feitas, quer dizer, a gente pode vir a ser um dia um dos maiores negócios da Vale, tem toda a possibilidade, toda a possibilidade de ser pelo menos o segundo ou o terceiro maior negócio da Vale. Agora, tem que trabalhar muito forte nisso, né? São possibilidades, vamos ver.

 

P/2 - O senhor, pessoalmente, viveu a privatização?

 

R - É, eu não tive nenhum problema não. Na época da privatização, eu estava fora da Vale, tava no Salobo, né, mas, embora como funcionário da Vale, eu já não estava participando assim das principais decisões em termos de Vale mesmo, eu estava já numa empresa controlada, coligada - isso faz diferença. Quando privatizou-se, o mais que você tem que fazer é se adaptar às novas situações, né? No primeiro momento, foram momentos assim: não é que a gente não estava bem entendendo as coisas, mas depois foram clareando, clareando, e hoje a gente, sei lá, não tem nenhum problema com isso. Eu acho que já, naquela época, eu tinha uma ideia que o governo, ele... Uma empresa do porte da Vale e com os compromissos da Vale, com as ___ da Vale, o governo realmente não tem condições de assumir, né, não tem. Pode-se fazer a pior privatização do mundo, mas o governo sendo dono também tava errado, certamente, porque não é possível, por exemplo, que um superintendente de Carajás seja para o governo uma pessoa considerada como o superintendente da estrada de ferro do Corcovado. E é isso que acontecia. No final das contas, nós dois éramos superintendentes de empresas do governo. Você percebe que uma coisa é você ser superintendente de uma estrada de ferro de Carajás, a outra é da estrada de ferro do Corcovado, mas as regras que valiam pra ele... Tá certo. A estrada de ferro de Corcovado, vocês conhecem? ela começa aqui embaixo e vai até lá em cima, a outra corta uma Amazônia inteira, são 890 Km só de Carajás, que dá lá no limite de fim de curso da Floresta Amazônica pra chegar no mar, quer dizer, você pega Carajás, é outra parafernália, vamos dizer assim, de coisas complexas, mas as regras que eu tinha que seguir eram exatamente as mesmas regras que eu tinha que seguir aqui. Olha, eu tenho que competir com um cara que está lá na Austrália, debaixo do Japão, pô. Agora é diferente, ora, não é a mesma coisa, você não pode jogar todos numa mesma vala. E o governo tinha que jogar por uma questão, sei lá, a gente não entende bem isso porque isso não é racional, mas por uma questão democrática talvez, ele tinha que botar todo mundo no mesmo saco: aí botava um superintendente de Carajás, um superintendente na ferrovia de Carajás, um superintendente em Itabira, um diretor da Vale, no mesmo nível que tá lá o cara que toma conta da estrada de ferro do Corcovado, quer dizer, isso aí você não pode fazer um negócio desse ou ser empresário e sabe diferenciar as coisas, ou não é, se você não é passa pra quem é, ora.

 

P/1 - Uma pergunta, assim, na ordem do dia: tecnicamente, como é [que] poderia ser resolvido esse problema dessa crise energética que se vive hoje no Brasil? Será que naquela época se o carvão tivesse sido explorado, o projeto do carvão, a gente passaria por essa mesma crise...

 

R - Não, veja bem...

 

P/1 - ...quais as soluções que hoje podem ser apresentadas?

 

R - Pois é, esse problema energético, o modelo energético, ele é baseado em hidrelétricas, não é isso? 95% da energia nossa é gerada por hidrelétricas, ou seja, depende da água, a água é que o combustível nosso. O nosso modelo energético, ele foi projetado e construído pra ser _____. O que que significa isso? Significa que não é qualquer seca de um ano ou dois que vai causar nenhum problema pra nação como causou agora, então houve de fato, quer dizer, nós não gerenciamos direito aos nossos recursos hídricos, tal como tinha que ser gerido há mais de cinco anos, porque há mais de cinco anos que a gente está percebendo que os níveis das barragens estão abaixando, numa sequência muito igual, quer dizer, de um ano pro outro. Ia chegar num determinado ponto que se tivesse uma seca como teve esse ano, ia ter um colapso. Isso é óbvio, isso é técnico, é engenharia. Isso, não tem como você... Dois mais dois são quatro, são mesmo. Engenharia não tem jeito. Então o que que acontece... Agora nós precisamos de água, chuva, pra resolver tem que ter chuva, ou seja, pra resolver nós temos que subir o nível da nossa barragem de novo. Uma das alternativas é o racionamento de energia, nós estamos ____ 20%. Pra que, é isso pra reter água na barragem. A outra condição é que chova, a outra condição é que você produza energia de outra forma, por exemplo, as termelétricas, que estão sendo projetadas no Brasil todo, o próprio governo tá projetando aí várias termelétricas, e com isso, o que que acontece, aproveitando gás ou aproveitando... Carvão eu acho que ele não seria muito adequado não, o carvão nosso ele tem características bastante complicadas. Tecnicamente, ele não é um carvão... Ele é um carvão energético, mas ele não é competitivo. Mas o gás sim, o gás da Bolívia, por exemplo, é uma fonte de energia excepcional. Então, com isso, quando você coloca as térmicas pra rodar - em dois anos você consegue colocar uma térmica pra rodar e gerar energia -, você vai aliviando a geração através das hidrelétricas. Com isso, você recupera rapidamente o... Você deixa de gastar, aí você recupera a água: o nível da barragem normal já começa a gerar energia hidrelétrica de novo. É isso que tem que fazer, fazer térmica e gastar o mínimo de energia possível agora pra subir o nível das barragens, porque o nosso combustível é água, né, e a gente não dá bobeira mais de novo, isso é que importante.

 

P/2 - Na Vale, teve alguma discussão em torno disso, dessa questão energética que pra Vale é fundamental, como é que...

 

R - Então, a Vale tem o seu braço energético, vamos dizer assim, tem uma diretoria só pra tomar conta de energia, e a Vale está investindo muito forte em energia. Nós somos hoje... Hoje, a Vale consome 4% de toda a energia que se consome no Brasil, e as empresas que eu trabalho consomem quase 1%, então você vê que é um negócio que a gente tem que tomar cuidado mesmo. Com isso, a Vale tá fazendo seus investimentos na área de energia, não só em hidrelétricas, mas também em termelétricas, e estamos seguindo o racionamento. Então eu acredito que dentro, agora, daqui uns dias, vai inaugurar uma nova hidrelétrica da Vale, que pertence à Vale e à Cemig [Companhia Energética de Minas Gerais], já estamos entrando em várias concorrências pra ter a concessão, e o programa de investimento na Vale em termos de energia, é muito forte. Então eu acho [que] daqui uns três, quatro anos aí, nós já vamos estar numa posição bem mais confortável, bem melhor.

 

P/2 - Muito bem, você poderia contar como é seu cotidiano hoje, atual.

 

R - Então, hoje eu sou diretor da área de manganês e de ligas, e tenho uma equipe trabalhando aí comigo desde a área comercial até a área financeira... Área de produção tecnologia, tem as áreas montadas já. Nós temos, hoje, tomando conta de quatro empresas na verdade. A Urucum, que é lá no Mato Grosso do Sul, que temos uma mina subterrânea, tem uma siderúrgica acoplada nessa mina; Nós temos a Sibra, que é uma indústria de ferros e ligas lá na Bahia, em Salvador, muito grande; Temos a Companhia Paulista de Ferro e Ligas que tem unidades em Ouro Preto, tem uma unidade em Barbacena, uma mina em Lafaiete, outra em São João Del Rei e uma outra em Santa Rita, na divisa do Rio com Minas; E temos uma outra empresa que chama ______  _____ manganês na Europa, lá na França. Nós estamos atualmente gerindo essas quatro empresas e o nosso escritório central é aqui no Rio, então nós ficamos aqui no 12º andar do edifício da Vale, na Barão de Mauá, e com toda a equipe aí, quer dizer, gerindo essas empresas. Em termos de produção, nós hoje estamos produzindo 400 mil tonela... Em torno de 400 mil toneladas de liga por ano, produzindo e vendendo. Temos uma estrutura de vendas hoje, nós temos uma estrutura de vendas na Europa, outra na Ásia, no escritório nosso lá de Tóquio, e o escritório central de vendas, na agência geral de vendas, fica aqui no Rio. Então hoje o que nós estamos fazendo de mais importante é acabar de consolidar a parte societária, fazer o fechamento de capital dessas empresas, né, e fazer com que elas sejam 100% Vale, apenas juntando todas as empresas numa só, num “arrodo”, pra que fique tudo mais simples de ser gerenciado. Então nós estamos fazendo esse trabalho técnico muito forte também, recuperando toda a parte tecnológica dos formes que foi relegado no segundo plano há muitos anos, estamos saneando financeiramente a empresa, estamos pagando as dívidas, renegociando as outras. É fato, hoje as coisas estão bem mais simples, porque as coisas já estão mais organizadas. Mas até dois anos atrás foi uma pauleira terrível, todo lugar que você mexia tinha um problema. Hoje eu acho que a coisa está mais organizada, então, com isso, eu estou mais tranquilo, sabe? E as estruturas estão montadas, funcionando. É isso que nós estamos fazendo hoje.

 

P/2 - Sobra tempo pra lazer, pra vida...

 

R - É, agora... Eu acho que a partir de agora está mais fácil, mas até agora não sobrou não, viu, tenho trabalhado muito. Tem tempo que eu não tiro férias, mas tem que começar a refazer os hábitos, porque agora as coisas estão mais tranquilas.

 

P/1 - São dois filhos?

 

R - É, são dois filhos.

 

P/1 - Quais as idades?

 

R - Um tá com 23, tá formando esse ano em economia, na ________, e o outro tá no terceiro ano de engenharia agora, tá com 18, 19 anos.

 

P/1 - E quer fazer que especialidade?

 

R - Quer fazer elétrica, engenharia elétrica. São esses dois aí.

 

P/2 - O senhor tem sonhos, sonhos de futuro?

 

R - Ah, a gente sempre tem. Eu acho que agora estou me dedicando a tentar fazer o crescimento dessa área aí, né, e a gente sempre sonha assim de ser... Na parte profissional, fazer uma empresa grande, saudável, decente, que tenha ativos pelo mundo todo, né? E no campo pessoal, eu pretendo ser um dia produtor de cachaça. Já estou começando e vamos ver aonde chega.

 

P/2 - Mas o senhor já produz alguma coisa?

 

R - Um pouco já.

 

P/2 - Aonde?

 

R - Lá em Itabira mesmo.

 

P/2 - Itabira?

 

R - É.

 

P/1 - Melhor pinga de Itabira?

 

R - Olha a pinga que a gente tá produzindo é boa, viu, muito boa. Aquela região ali, o único inconveniente que tem é a temperatura, né, porque Itabira é um lugar frio, então no processo de produção da cachaça mesmo, a temperatura... Não é de produção... No processo de fermentação do vinho, da cana, a temperatura interfere bastante, a temperatura tem que estar em torno de uns 27º, mais ou menos. Lá em Itabira chega, de madrugada, à 10, 11, 12 [graus], então, com isso, você tem que tomar alguns cuidados especiais, mas eu diria que de qualquer forma a cachaça que a gente está produzindo é uma cachaça bebível pelo menos.

 

P/2 - Tem nome, ainda não?

 

R - Nós estamos pesquisando agora no INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial], pra ver qual o nome que a gente... Nós temos aí uns dez nomes que a gente tem que pesquisar, vai escolher um desses dez. O mais forte que a gente tá imaginando é Casa Branca, pode ser também Dorna de Minas. Então um desses dois nomes a gente deve colocar na cachaça, mas tem que pesquisar primeiro pra ver se...

 

P/1 - Se pode registrar.

 

R - É, se pode registrar... Podendo, a gente vai registrar com um dos dois nomes aí. Então, tem um engarrafamento já pronto, eu devo já ter lá uns 70 mil litros já envelhecidos, é só engarrafar e... Agora, todo ano tem que produzir, né, e refazendo o canavial, quer dizer, essas coisas todas, então você tem que pelo menos se divertir também. A gente tá pensando em fazer.

 

P/2 - _______ fazer uma última pergunta pro senhor. O que é que o senhor acha do Projeto Vale Memória, o que é que o senhor achou de prestar o depoimento?

 

R - Ah, eu acho que uma empresa do porte da Vale, ela tem uma característica... A história da Vale, ela confunde um pouco até com a história recente do Brasil, quer dizer, tudo que... E de coisas importantes que aconteceram no mundo. Então, você não pode deixar que isso fique apenas na cabeça das pessoas, né, eu acho que esse tipo de coisa que estou fazendo agora é um dos trabalhos mais nobres que eu tenho feito nos últimos tempos aí, porque tem uma série de coisas que eu disse aqui que pode ser útil daqui pra frente em algum momento, eu não sei quando, mas eu acho que o conhecimento da história das coisas que te leva a evoluir. Se você não tive o passado aqui, você vai evoluir baseado em quê? Você não consegue evoluir. Então eu acho que esse tipo de trabalho que está sendo feito isso é da mais alta relevância pra qualquer empresa, ainda mais da Vale que tem esse tamanho que tem, e tem que deixar alguma coisa bem feita pras gerações futuras, pra saber o que é que aconteceu aqui. Eu acho que isso é muito importante. Fiquei muito feliz quando eu fiquei sabendo que nós íamos fazer um trabalho desse, sabe, muito interessante. Todo mundo de parabéns com esse negócio. Isso é acima de tudo civilizado, muito bom. Tá ótimo, obrigado.

 

P/1 - Muito obrigado.

 

R - Obrigado pela oportunidade.

         

[Fim do depoimento]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+