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História

Profissão: educadora

História de: Denizia Abreu da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/11/2014

Sinopse

Denizia é uma educadora do Projeto ICA, na cidade de Mogi Mirim (SP), e gravou sua história para o Museu da Pessoa. Ela inicia sua trajetória contando a origem de sua família, o distanciamento do pai que saiu de casa e infância vivida na casa de seus avós maternos. Fala sobre as dificuldades de se adaptar à casa materna e o início no Educandário. Conta que entrou receosa no Projeto ICA para fazer cursos, mas que gostou do acolhimento dos educadores. Descreve os cursos que fez no ICA e as suas fases dentro do projeto: primeiro aluna, depois monitora e em seguida educadora. 

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História completa

Meu nome é Denizia Abreu da Silva. Nasci no dia 3 de agosto de 1988, em Mogi Mirim. Meus pais são Sandra Mara Silva de Abreu, nascida em Mogi Mirim e Antônio Sérgio da Silva, nascido em Mogi Iguaçu. Minha mãe é empregada doméstica e o meu pai é servidor público. Minha mãe é bem explosiva, bem brava. Ela é bem brava devido aos meus avós também, minha mãe puxou muito pelo meu avô. Então é aquele método tradicional mesmo: hora pra chegar, maneira de falar, tudo muito certo. Agora o meu pai já é mais tranquilo, mas ele não mora comigo. Eu não tenho tanto contato com ele, então pra mim ele não é uma figura tão importante que eu tenho referência, que eu tenho contato. Mas ele é tranquilo, ele é carinhoso, ele é prestativo. Meus pais são separados e eu não tenho tanto contato com ele. Tive em alguns períodos mais, outros menos. Tive mais contato com os meus avós porque eu fui criada pela minha avó, pelo meu avô. Só que hoje em dia eu moro com a minha mãe. Minha avó é Maria Clara da Silva e o meu avô é José Benedito de Abreu. Eles são maravilhosos! Minha avó é uma pessoa trabalhadora, carinhosa. Fazia muitas coisas por mim e por todos os filhos dela. E o meu avô também, muito trabalhador, muito honesto, muito firme e com um coração enorme. São meus avós maternos. Quando eu nasci minha mãe conheceu outro moço e foi morar com ele. O meu avô ficou preocupado e me pegou pra cuidar, porque ele ficou com medo de acontecer alguma coisa, ele preferiu que eu morasse com eles, e pela minha mãe também ser muito nova, não ter tido filho ainda. Os meus avós me pegaram então pra morar com eles e fiquei até nove anos. Minha avó faleceu, meu avô tinha outros filhos também pra cuidar além de mim, ficou muita coisa pra um homem sozinho. Minha mãe já estava com mais dois filhos, eu já tinha mais dois irmãos, o meu avô pegou e transferiu a guarda pra minha mãe e eu estou até hoje morando com ela. Foi muito ruim pra mim, não queria porque eu tinha uma referência total da minha avó, do meu avô, que são pessoas que foram tudo pra mim, são tudo ainda pra mim. E ter que morar com a minha mãe, lidar com a minha mãe foi um pouco difícil porque eu a respeito, gosto muito dela, mas eu não tinha esse contato de mãe e filha com ela, porque eu tinha com a minha avó. A referência de mãe pra mim era a minha avó. Então foi bem difícil a questão de combinados que ela fazia comigo que eu não concordava, que eu não queria. Eu saí de uma rotina onde eu morava com os meus tios, que eu vivi e cresci com eles e tive que morar com a minha mãe, com o meu padrasto e com os meus dois irmãos. Mas os meus dois irmãos eu gosto muito, gosto muito do meu irmão Leandro e da minha irmã Vanessa também.

 

O bairro que eu passei a infância foi a Ana Maria Beatriz, então era um bairro muito tranquilo, a gente podia brincar na rua porque as nossas vizinhas eram tudo da mesma faixa etária. Então a gente brincava de amarelinha, de corda, de esconde-esconde. A casa da minha avó era grande, era própria deles também, tinha três quartos, sala, cozinha, banheiro e um quintal grande também. Todo final de semana, era sagrado, a gente ia pra casa da minha bisavó, Maria Constância. A casa da minha bisa era pequena. Minha avó que fazia sorvete, ela que fazia os pães, ela que fazia bolo, ela que fazia torta, fazia biscoito, bolachinha, bolinho de chuva. Como a gente também não tinha muito dinheiro, mas então ela sempre fazia tudo, minha bisavó, minha avó, porque elas são cozinheiras que fazem comidas deliciosas. Então é isso. E agora na casa da minha mãe a gente foi morar no fundo da casa da sogra dela. Então era um bairro muito ruim, era um bairro com muita violência, com muitas drogas, então eu não podia ficar na rua. Era em Santa Luzia. Então não podia ficar na rua, o quintal também era muito... praticamente não tinha quintal. 

 

Eu me lembrava de uma oração, até esses dias tava lembrando, fazendo antes de dormir, mas agora eu não lembrando. Porque no quarto dela tem imagens de santo, tem terços, então quando eu dormia lá no final de semana tem duas camas no quarto, então ela dormia numa cama, eu dormia na outra ela me ensinava as orações que ela já tinha como hábito e eu gostava muito. Ela sempre me falava: “Denizia, toda vez você faz a oração antes de sair de casa e depois na hora de você dormir você também faz a oração”.  Era da Nossa Senhora Aparecida. Tanto que quando a gente foi pra Aparecida do Norte eu trouxe um quadro pra ela bem grande da Nossa Senhora Aparecida. Meu nome foi minha avó que deu. Na época tinha uma novela que tinha uma princesa que chamava Denise. E minha avó gostou muito desse nome, pesquisou e vem do deus grego Dionísio, tudo, ela colocou Denizia, pra ser algo diferente e um nome forte.  

 

Da escola quando eu estudei no fundamental 2 no Coronel Venâncio tenho lembranças ótimas, porque eu tive professores que marcaram muito a minha vida e que foi inspiração pra eu ser educadora também, pra estar buscando uma formação.  Com nove anos eu voltei a morar com a minha mãe e eu precisava estar em algum lugar pra eu não ficar na rua. Minha mãe não confiava de me deixar sozinha lá na casa da sogra dela. Eu fui pro Educandário que com nove anos... Na verdade as crianças entram com seis anos no Educandário, mas como eu acho que a minha mãe explicou a situação tudo, abriram uma exceção, porque não pode entrar com nove, com oito. Você entra com seis e sai com dez, que dez anos já vinha pro ICA. Então eu acho que a minha mãe contou a história tudo, eles abriram uma exceção e eu fiquei no Educandário, porque eu não tinha lugar pra ficar. Terminando o ano do Educandário todos os alunos já vêm pro ICA porque a dona Sofia, quando ela criou o ICA, ela estava com essa preocupação porque ela conhecia o Educandário e depois do Educandário não tinha nenhum outro lugar que desenvolvia atividades para as crianças dessa faixa etária. Então foi por isso que ela criou o ICA, pra ter um local pra atender essas crianças de dez anos em diante, que não tinha outro local aqui em Mogi Mirim e provavelmente ficariam na rua, ficariam sozinhos. Eu vim pro ICA. Eu não gostava, não gostava, foi muito difícil porque eu já nem gostava do Educandário também. Mas o primeiro dia foi bom porque a entrada, que não é aqui, que era lá no antigo prédio, bem a entrada estava um arco enorme de bexigas, todas coloridas escrito: “Sejam bem-vindos”. Escrito frases, sabe, de acolhimento, tudo. E os professores e os profissionais estavam tudo ali, e eu estudava de manhã no Piccolomini, depois já desci pro ICA. Estavam todos os funcionários ali falando pra gente sejam bem-vindos, dando um abraço, perguntando o nosso nome e foi um dia bom. Eu não queria vir pro ICA, mas o primeiro dia eu gostei muito disso, porque eu nunca fui pra um espaço que tinha essa energia boa, que as pessoas estavam preocupadas com você, preocupadas com todos nós, ter essa atenção toda voltada pra gente. E foi um dia excelente porque a gente conheceu o ICA, a gente se alimentou e era uma alimentação diferenciada.  Eu comecei a mudar porque tinha uns professores de teatro muito legal, o Luís. E a gente fazia algumas encenações. Eu nunca fui mais pro circo, eu fui mais pra dança e pro teatro. Então a gente fazia encenação, contação de história. Eu achava que não tinha habilidade, ele me fez enxergar habilidades que eu tinha que era na questão de encenação, de construir personagem, de fazer.

 

Quando eu já estava mais adolescente com 12, 13 pra mais, eu comecei a frequentar mais o Centro Cultural de Mogi Mirim que tem apresentações de teatro, vinham grupos de fora. Não era algo que vinha muito, mas sempre quando tinha eu ia e tinha festival de dança, concurso de teatro também ia e ia também bastante ao cinema, que é algo que eu gosto muito. E ler também, peguei gosto pela leitura, eu ajudava na biblioteca, então eu li Paulo Freire, li bastante coisas legais: A menina que roubava livros. Então foi uma época muito boa que eu também comecei a me interessar mais em ler, em músicas de MPB. Então foi bom nesse sentido. E minhas amigas também, tinha um grupo muito legal de amizade aqui do ICA e da escola. Tinha pouquíssimas amigas minhas que não eram do ICA.

 

Eu fui aluna do ICA eu virei monitora. Na época que eu virei monitora que eu conheci o Criança Esperança porque o ICA estava participando, concorrendo pra ganhar o prêmio do Criança Esperança. Pra ganhar o prêmio do Criança Esperança e ganhou através do Projeto Carpe Diem. Como monitora a gente já passa um degrau, a gente deixa de ser aluno é o processo que a gente apoia o educador nas vertentes artísticas. É como se fosse um estagiário.  O Projeto Carpe Diem é o desenvolvimento integral da criança e adolescente na parte de arte e educação. O Projeto Carpe Diem é voltado pro desenvolvimento integral da criança e o adolescente na arte e educação. E o recurso ganhado através do Criança Esperança ajudou na manutenção do Carpe Diem, que tem as oficinas de circo, teatro, música, dança. Na época era educação espiritual, afetivo, sexual e também tem a parte de lógica também. E também para o Quintal Cultural, que é um evento aberto pra comunidade aonde vêm apresentações artísticas, que é um evento muito bacana também pra comunidade onde eles podem estar respirando um pouquinho de arte, a gente tenta trazer um pouquinho de tudo e é um momento de ver coisas novas, é um momento bem bacana. A importância é em poder dar melhores condições e materiais pra eles, em possibilitar experiências novas. Que pra se manter a gente sabe que é muito caro, então com esse recurso dá oportunidade pras crianças em materiais novos, em passeios, em alguns outros eventos, em trazer apresentações também, em disponibilizar outras oficinas também diferentes.

 

O ICA fornecia o curso de arte educador. Eu participei, tinha vários conteúdos, a gente aprendia a questão da psicologia pra entender as fases do desenvolvimento da criança, tinha a parte prática também pra entender como ensinar, como eu passava esse conteúdo, questão de planejamento também. Então foi um curso bem produtivo. Na época era convidado quem tinha interesse em fazer esse curso. Eu me interessei fazer esse curso e bastante da minha turma também. Então a gente fez esse curso, teve uma pontuação e depois teve teste também pra monitoria. Quem passava pra monitoria, ah, eu quero ser monitor de circo, quem se interessava ia fazer a inscrição, depois tinha um teste tanto de prática como teórico. A gente já tinha feito esse curso também e depois desse teste eu passei pra ser monitora de dança. Eu fiquei então como monitora de dança, às vezes a professora faltava e eu conduzia a aula, ficava ali. E sábado eu participava de um grupo também de dança, da Evolução, que era com a banda, era mais marcha com movimentos com bastão. Então eu fiz esse curso e depois de um período aqui no ICA como monitora surgiu a possibilidade de ser educadora. Eu me interessei também, então virei educadora porque eu gostava muito de ensinar, de pesquisar, trazer coisas novas pra elas. Então eu aceitei ser educadora, tudo, sabendo que ia ter muitos desafios e que eu precisava buscar uma formação. Mas eu fiquei em dúvida, fui, fiz técnico de imagem pessoal. Eu fiz técnico de imagem pessoal, que eu vi que não era aquilo que eu queria porque ficar trabalhando num salão o dia inteiro, eu falei: “Não tem como”. Mas foi bom o curso porque eu aprendi algumas coisas artísticas, maquiagem artística, cabelo, figurino, que então tinha a ver com a parte artística que eu desenvolvia aqui no ICA, que também é algo que eu me identifico muito. E foi quando eu decidi então que eu precisava fazer Pedagogia, porque eu estava dando aula... Eu fui educadora externa do ICA. O ICA abriu parceria com a Promoção Social, começou a dar aula no CRAS, que é o Centro de Referência da Assistência Social pra crianças, lá já é outra faixa etária, de seis a 15 anos e eram divididos por turmas. Também teve esse desafio de eu dar aula lá e como eu já tinha certeza que eu queria ser educadora, que era algo que estava em mim, que eu gostava muito, falei: “Vou fazer Pedagogia”. Fiz o Enem, tudo, eu tive uma pontuação boa no Enem, mas eu não consegui no Engenheiro Coelho que abria só duas vagas pra Pedagogia. Tinha pra Letras, pra Letras eu até tinha passado, mas o meu foco mesmo era Pedagogia. Eu falei: “Então eu vou fazer na Maria Imaculado então, porque eu pago”. Eu paguei e comecei a fazer então Pedagogia

 

Eu falei bastante coisa da minha mãe, mas eu acho que eu não falei o principal. É uma pessoa que eu admiro muito, apesar da gente ter tido nossas diferenças, de eu não ter sido criada com ela, uma pessoa muito trabalhadeira, uma pessoa que não tem tempo ruim. É uma pessoa fantástica, que eu vou lembrar muito dela e que apesar de tudo, tudo, tudo, eu amo muito, mas muito mesmo ela.

 

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